16 de agosto de 2016

JOHN BRIGHT - A data da missão de Esdras em Jerusalém

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A DATA DA MISSÃO DE ESDRAS EM JERUSALÉM

O problema mais cruciante em relação à história do período persa é o da ordem cronológica das missões de Esdras
a Neemias. Até hoje não houve acordo a respeito da solução
deste ponto. Embora não possamos apresentar aqui uma discussão plena do problema, daremos algumas justificativas da
posição que adotamos.

O problema reside na data da chegada de Esdras a Jerusalém. As datas relativas à atividade de Neemias parecem totalmente certas. Os textos elefantinos dizem que os filhos do
inimigo número um de Neemias, Sanabalat, estavam em plena
atividade na última década do século quinto e que Sanabalat,
naturalmente, já estava muito avançado em anos. Eles mostram também que o sumo sacerdote da época era Joanan, neto
de um contemporâneo de Neemias, Eliasib (Ne 3,l;12,10ss. 22)'. Portanto, o Artaxerxes que foi protetor de Neemias só
pode ter sido Artaxerxes I (465-424). A atividade de Neemias
se deu (Ne 2,1 ;13,6) entre o vigésimo ano (445) e um pouco
depois do trigésimo segundo ano (433) daquele rei. Exclui-se a hipótese de uma data no reinado de Artaxerxes II (404־
358) [1].

Mas Esdras precedeu ou seguiu Neemias? Estiveram os
dois em Jerusalém ao mesmo tempo? As respostas dadas, com
uma infinita variedade de detalhes, são essencialmente de três
categorias. Alguns, aceitando a data da passagem de Esdras
7,7 como o sétimo ano de Artaxerxes I (458), colocam a
chegada de Esdras uns treze anos antes da de Neemias [2]. Outros,
considerando a mesma data como o sétimo ano de Artaxerxes
II (398), trazem Esdras à cena logo depois que terminou a
obra de Neemias[3]. Outros ainda, vendo no “sétimo ano” da
passagem de Esdras 7,7 um erro, em vez de “trigésimo sétimo
ano” (428) ou coisa parecida, colocam a chegada de Esdras
depois da de Neemias, mas antes que o período de sua gestão tivesse terminado. Cada uma destas posições tem seus
méritos. Como nenhuma delas pode pretender resolver todos
os problemas, evita-se o dogmatismo. Entretanto, um exame
mais profundo das evidências forçou-me à conclusão (não aque-
la com a qual comecei) que a última opinião está sujeita ao
menor número de objeções e, portanto, deve ser a preferida.



1. A posição segundo a qual Esdras chegou antes de
Neemias em 458

Esta é a opinião tradicional. Ela pode dizer que se baseia
nos livros canônicos de Esdras e Neemias e apresenta um
quadro não improvável, que, à primeira vista, não parece envolver dificuldades insuperáveis. Sempre fui um pouco inclinado a aceitá-la.

Méritos desta opinião. — A história, como a Bíblia
nos conta, dá certamente a impressão de que Esdras chegou
primeiro. O começo de sua missão (Esd cc. 7 a 10), colocado no sétimo ano de Artaxerxes (Esd 7,7ss), é descrito antes
de Neemias ser trazido à cena, no vigésimo ano de Artaxerxes (Ne 1,1 ;2,1). Naturalmente, somos levados a acreditar que
Esdras precedeu Neemias de treze anos. Isto não é em si mesmo improvável, nem refutável sem mais, uma vez que muitas
das passagens aduzidas como prova não são convincentes.
A menção a “um muro” em Esdras 9,9, por exemplo, não prova
necessariamente que a obra de Neemias tenha sido realizada
antes que Esdras tivesse chegado; a palavra, que não é usual
para o muro de uma cidade, pode ser tomada em sentido figurado. Tampouco o fato de Neemias ter encontrado somente
poucas pessoas em Jerusalém (Ne 7,4), enquanto que uma
grande multidão se encontrava com Esdras na cidade, é suficiente para provar que a repovcação da cidade feita por
Neemias (Ne ll,lss) tenha-se realizado antes da chegada de
Esdras. Outras explicações também são possíveis. Tampouco a
passagem de Esdras (c. 10,6) prova que Joanan, neto de Eliasib, contemporâneo de Neemias, fosse sumo sacerdote nos dias de Esdras. Joanan não é chamado aqui “sumo sacerdote”. O
nome era comum, e podia tratar-se — embora não me pareça
provável — de um tio do mesmo nome[4]. Tampouco o fato
de Neemias ter nomeado quatro tesoureiros do Templo (Ne
13,13), enquanto Esdras encontrava, à sua chegada, somente quatro tesoureiros exercendo sua função (Esd 8,33), prova a prioridade de Neemias. Neemias não instituiu necessariamente um novo cargo, mas pode simplesmente ter preenchido
um cargo existente com pessoas honestas. E outras passagens
igualmente aduzidas devem ser consideradas, da mesma forma,
não-convincentes[5].

Objeções a esta opinião. — Entretanto, há objeções
a esta opinião que parecem quase insuperáveis. Embora certamente não se possa dizer que a jornada sem escolta de Esdras (Esd 8,22) não poderia ter sido feita em 458, os primeiros anos agitados de Artaxerxes I, o fato é que a situação não era muito favorável a uma tal jornada [6]. Mais seriamente
ainda, é difícil crer que Esdras, tendo a missão de ensinar
e impor a lei e estando inflamado de zelo, não tenha lido
a lei ao povo nos treze anos que teriam decorrido desde sua
chegada (Ne 8,1-8). Alguns dos que colocam a chegada de
Esdras em 458 sentem esta dificuldade e, separando as gestões
de Esdras e Neemias, colocam a leitura da lei no ano da
chegada de Esdras[7]. Mas, o que é ainda mais sério, qualquer
teoria que coloque as reformas de Esdras (Esd cc. 9 e 10) antes
das de Neemias, inevitavelmente faz crer que Esdras, de uma
ou outra maneira, havia fracassado. Deve-se supor que suas
reformas não tenham sido tão ineficientes que Neemias tivesse
que repeti-las (Ne 13); ou que ele tenha provocado tal
oposição que tivesse que desistir até que Neemias viesse em seu socorro; ou que, tendo abusado de sua autoridade (Esd
4,7-23), tivesse caído no desfavor dos persas e tenha sido castigado por eles do que não se tem tenhuma prova de
qualquer espécie. Não posso acreditar que Esdras tenha fracassado. Tampouco a Bíblia no-lo pinta como um homem
fracassado, uma vez que toda a religião judaica recebeu sua
nova forma graças a seu trabalho. Se ele tivesse sido um
fracassado, toda a tradição o teria considerado como um segundo
Moisés? E, no entanto, ele teria sido um fracassado se suas
reformas tivessem precedido as de Neemias.

Além disso, vários indícios, ainda que nenhum deles seja
em si mesmo decisivo, fazem crer que Neemias chegou antes
de Esdras. Quer a passagem de Esdras 9,9 se refira ao muro
de Neemias ou não, Neemias certamente encontrou a cidade
quase toda em ruínas (Ne 7,4), enquanto que, quando Esdras
chegou, parece que ela estava habitada e relativamente segura.
Ademais, Neemias corrigiu logo abusos econômicos (c. 5,1-13)
dos quais não há indício na história de Esdras. Não teria o
religioso Esdras ficado tão chocado com tais coisas como
Neemias, se elas existissem quando ele chegou (como elas
existiriam se ele tivesse precedido a Neemias)? E, além disso,
as reformas de Neemias (c. 13), se não menos radicais que as
de Esdras, eram certamente menos conseqüentes e teriam a
característica de uma série de medidas ad hoc. Neemias não
apelou para nenhuma lei como a que foi lida por Esdras
(Ne 8), nem acusou que tenha sido violada uma promessa
de observar esta lei. Na verdade, ele não é descrito em
tempo algum como alguém que apelasse especificamente para
qualquer código de lei, mas que agia instintivamente, por assim dizer, no impulso do momento. Não há indício de que o
compromisso de que fala a passagem do capítulo 10 de Neemias
(que forma a conclusão da história de Esdras, relatada pelo
Cronista) já tivesse sido feito. De qualquer modo, não se
pode entender como suas medidas menos conseqüentes poderiam ter tido sucesso onde a reforma radical de Esdras tenha
supostamente falhado.



Finalmente, embora a narrativa bíblica coloque primeiro
Esdras, há certas passagens que sugerem o contrário. Ne 12,26,
por exemplo, relaciona os leitores da comunidade judaica entre
a construção do templo e a época do autor, e estes são:
Jesus, Joiakim (pai de Eliasib, contemporâneo de Neemias),
Neemias e Esdras — nesta ordem. Neemias 12,47 passa de Zorobabel a Neemias sem colocar entre eles Esdras. Por estas razões, mais os argumentos cronológicos aduzidos adiante, parece
que a melhor data para a chegada de Esdras é quando já
tinha sido feito pelo menos a maior parte da obra de
Neemias.

2. História do Cronista. Memórias de Neemias e a data
do Cronista.

Os livros lCrônicas e 2Crônicas, o livro de Esdras e o
livro de Neemias formam uma obra histórica única, cujo autor,
à falta de um nome, é conhecido como “o Cronista”. A composição desta obra nos interessa aqui unicamente porque ela
Se refere ao problema que estamos discutindo״. A conclusão
a que chegamos acima força-nos a considerar o Cronista como
um historiador totalmente inseguro, que, por ignorância ou de
caso pensado, deturpou os fatos. A nossa posição é que ele
não é nada disso.

a. memórias de Neemias e sua relação com a história
do Cronista. — É interessante observar que o livro apócrifo
de 1 (III) Esdras, que conserva a versão dos Setenta[8], embora fazendo certas adições e mudanças de ordem nos capítulos
de 1 a 6 de Esdras, repete substancialmente a narração que
encontramos em nossas bíblias até o fim do livro de Esdras;
depois, omitindo a história de Neemias (Ne cc, 1 a 7), passa
imediatamente para Neemias 7,73;8,1-12 (leitura da lei feita por
Esdras), ponto em que se interrompe. Uma vez que em Neemias
8,9 lê-se simplesmente “o governador”, ele não faz em absoluto, nenhuma menção a Neemias. Josephus, que segue o texto
alexandrino, também conta a história na mesma ordem (Ant. XI, V, 4-6), passando diretamente de Esd c. 10 para Ne c. 8;
somente quando a historia de Esdras vai até o ponto em que
lEsdras termina (incluindo a narração da morte de Esdras) é
que aparece Neemias. Isto nos permite perguntar se a obra
do Cronista originalmente incluía as memorias de Neemias ou
se elas podem ter sido anexadas a ela depois de sua conclusão [9].

As memorias de Neemias nos fornecem uma narrativa
expressada na primeira pessoa, indubitavelmente composta pelo
próprio Neemias. Ela abrange todo o Neemias de 1,1 a 7,4
(incluindo a lista do c. 3), à qual a lista do c. 7,6-73a
(//Esd c. 2) foi anexada, juntamente com o v. 5, estabelecendo-se assim o nexo. Depois da interrupção dos cc. 8 a 10,
elas recomeçam no c. ll,lss (o qual retoma o c. 7,4) [10], continuam no c. 12,27-43 (onde elas foram um pouco ampliadas
ao serem transmitidas) ls e terminam no c. 13. É certo que
este documento, originalmente, circulou de maneira independente. Ele não apresenta qualquer evidência demonstrável da
obra do Cronista como acabamentos editoriais que, em minha
opinião, são facilmente explicáveis pelo processo que ampliou
a obra de Neemias com o acréscimo de listas etc., e finalmente
foi unido à história do Cronista. A obra do Cronista, em
sua forma original, provavelmente não incluía estas memórias.
Quando foram subseqüentemente acrescentadas, elas foram anexadas bem no fim do texto seguido por Josephus. Porque
Neemias é mencionado em Ne 8,9 e no c. 10,1 ou, pelo
menos, porque o editor acreditava que ele estava presente
quando se sucederam os acontecimentos dos cc. 8 e 10, foi
necessário inserir o relato da sua chegada e da construção
dos muros (que foi feita de uma vez) antes do capítulo 8.
Deste modo, Ne c. 8 foi separado de Esd cc. 9; 10 (diferentemente de lEsdras), enquanto que o começo das memórias de Neemias (Ne cc. 1 a 7) foi separado de sua conclusão (Ne 11,lss:12,27-43; c. 13). Mas as memórias de Neemias, se lidas separadamente, não fazem nenhuma menção a Esdras (salvo no c. 12,36, que pode ser um acréscimo). Portanto, eles não afirmam se Neemias chegou antes ou depois de
Esdras.

a. A narrativa do Cronista sobre Esdras: sua extensão
e ordem cronológica. — Se o que dissemos acima estiver
correto, a obra original do Cronista incluía o Livro de Esdras,
mais Ne 7,73 a 8,12 (como em lEsdras). Mas, como o restante de Neemias, c. 8, c. 9 e c. 10, traz a história do Cronista
e está plenamente no seu estilo, podemos supor que sua obra
se estendeu até então e que sua conclusão perdeu-se em 1 Esdras. É difícil dizer em que ponto do livro canônico de Neemias
terminou a obra do Cronista. Não se pode estar completamente
certo se todas as listas dos cc. 11,3 a 12,26 pertenciam a esta
obra, ou se algumas foram introduzidas no livro de outras
maneiras. Entretanto, parece-me provável que o fim da história
do Cronista deve ser encontrado no c. 12,44ss, o qual deve-se
supor que retome e conclua a narração do c. 10,28-39 [11]. O
ponto importante a ser observado é que o Cronista quase não
menciona Neemias. Seu nome aparece em Ne 8,9 (onde alguns
pensam que é uma glosa; 1 Esdras o omite); 10,1 (mas alguns
consideram o capítulo 10,1-27 como um encaixe na obra do
Cronista) [12]; 12,26 (onde novamente o nome é omitido); e
12,47 (provavelmente não uma parte da obra do Cronista).
Disto, pode-se facilmente concluir que a narrativa original do
Cronista não mencionou Neemias de modo algum! Embora
isto não me pareça garantido, a história do Cronista, lida
sozinha, não determina a ordem cronológica da chegada de
Esdras e Neemias mais do que o fazem as memórias de
Neemias.

Ainda que possíveis razões para tanto não venham ao caso aqui, parece que o relato do Cronista sobre a carreira
de Esdras (Esd cc. 7 a 10; Ne cc. 8 a 10) não está inteiramente em ordem cronológica. Há fortes razões para se acreditar que Ne c. 8 precedeu Esd cc. 9; 10 no tempo, e que a
ordem cronológica correta deveria ser: Esd. cc. 7;8; Ne c. 8; Esd cc. 9;10; Ne cc. 9; 10 1S. A missão de Esdras (Esd 7,25ss)
era regularizar os negócios judaicos de acordo com a lei e
instruir o povo sobre ela. Esperava-se que ele, inflamado de
zelo como era (Esd. 7,10), começasse imediatamente sua
obra. Entretanto, na presente ordem da narrativa, ele chegou no
quinto mês do “sétimo ano” (Esd 7,7ss), nada fazendo até
o nono mês (Esd 10,9), e então tomou medidas somente porque o caso dos casamentos mistos tinha sido levado à sua
atenção. E foi somente muito mais tarde (na presente forma
do livro, uns treze anos mais tarde; seguindo somente as
datas do Cronista, não antes do sétimo mês do ano seguinte
[Ne 8,2]) que ele leu a lei. Isto parece improvável. Além
disso, a docilidade do povo diante do problema dos casamentos mistos (Esd 10,1-4) e sua boa vontade em concordar
com a lei (v. 3), sugerem que sua leitura pública já tinha sido
feita, enquanto que a sugestão de que houve um compromisso
nos leva a Ne c. 10 (cf. v. 30) [13].

Mas se (lembrando-nos de que os cc. 1 a 7 de Neemias
não fazem parte da história do Cronista) o c. 8 de Neemias
for colocado antes dos cc. 9 e 10 de Esdras, tudo fica em
ordem. Esdras chegou no quinto mês e leu a lei publicamente
no sétimo mês, na Festa dos Tabernáculos (Ne 8,2). Então
(Esd cc. 9 e 10), foram tomadas providências a respeito
dos casamentos mistos. Isso começou no nono mês (c. 10,9)
e terminou uns três meses mais tarde (c. 10,16ss), no começo
do ano seguinte. Finalmente (Ne 9,1), no vigésimo quarto
dia (provavelmente do primeiro mês) deu-se a confissão dos
pecados e o compromisso solene descritos nos cc. 9 e 10 de
Neemias. A reforma de Esdras foi, portanto, concluída dentro
de um ano de sua chegada a Jerusalém, Mesmo se admitindo
que os acontecimentos poderiam ser entendidos diferentemente,
esta interpretação é a mais recomendável.

A data do Cronista. — O fato de parecer que o Cronista fez sua obra um pouco antes ou um pouco depois de
400 a.C. — lembrando-se ainda de ambos os personagens — leva a crer que ele não confundiu a ordem de Esdras. Prefere-se freqüentemente, é verdade, datas muito posteriores (250
e depois). Mas isto parece fundamentar-se na suposição de que
o aramaico de Esdras (Esd 4,8 a 6,18;7,12-26) é tardio; ou
na suposição de que a lista dos filhos de Davi (Cr 3,10-24)
e a lista dos sumos sacerdotes (Ne 12,10ss.22) nos levariam
aproximadamente até o tempo de Alexandre o Grande; ou na
suposição de que a confusão na narrativa do Cronista só é explicável se se julgar que ele viveu em data muito posterior,
quando o desenrolar dos acontecimentos já estava totalmente
esquecido. Nenhuma destas suposições é convincente.

O aramaico de Esdras parece, à luz dos textos de Elefantina,
convir muito bem à última metade do período persa: não há
evidência de nenhuma palavra grega [14]. Quanto às listas, é
perigoso argumentar que a data do Cronista foi tirada delas, já que elas poderiam ter sido adições posteriores. E, mesmo
assim, elas não nos levam além dos últimos anos do século
quinto. A lista dos filhos de Davi (lCr 3,10-24), desde que
o texto tenha sido colocado na devida ordem[15], leva-nos somente à sétima geração aiéin de Jofaquim, que nasceu em 616
(2Rs 24,8) e foi deportado em 597, e cujos cinco filhos mais
velhos nasceram antes de 592, como indica a evidência cuneiforme. Se nós atribuirmos liberalmente vinte e sete anos
e meio para cada geração[16], ou muito mais liberalmente ainda
vinte e cinco anos, com margem para o fato de que a linha
nem sempre passou pelo primogênito, o nascimento da última
geração cairia entre 430/25 e 420/15. O Cronista não conhece
nenhum filho posterior de Davi[17]. O mesmo pode ser dito das
listas dos sumos sacerdotes (Ne 12,10ss.22). Èliasib estava ativo (cc. 3,1 ;13,4-9) durante o primeiro período de Neemias como governador (isto é, aproximadamente 445-433). Seu neto
Joanan, como nos dizem as cartas elefantinas, era sumo sacerdote na última década do século; o filho de Joanan, Jadua,
era certamente maior de idade por volta de 400, e deve ter
assumido o cargo mais ou menos na época ou um pouco depois.

As passagens narrativas da obra do Cronista igualmente
não conhecem pessoa ou acontecimento posteriores a Neemias
ou Esdras. Se a narrativa apresenta confusão porque o Cronista
intencionalmente reorganizou a história para servir às suas finalidades, é preferível então uma data posterior para a sua
atividade, uma vez que, dentro da memória viva dos acontecimentos, uma falsificação deste porte não passaria despercebida. Se supomos que a confusão deveu-se à ignorância do
Cronista ou à deficiência de suas fontes, requer-se então uma
data posterior, quando já a memória dos acontecimentos se teria apagado. Entretanto, se o Cronista escreveu aproximadamente um século ou mais depois de 400, é realmente estranho
que nem a narrativa nem as genealogias passem deste ponto.
Recomenda-se uma data[18] para o Cronista situada possivelmente nas últimas décadas do século quinto, mas não muito
depois de 400. A confusão existente nos nossos livros de
Esdras e Neemias, com toda a probabilidade, foi causada por
uma adição secundária das memórias de Neemias ou de outro
material à obra do Cronista.

Não sabemos quem era o Cronista. Seu estilo e o estilo
das memórias de Esdras (a narrativa na primeira pessoa começa em Esd 7,27) são muito parecidos, se não idênticos — embora alguns historiadores achem isto exagerado[19]. Isto não
exige que consideremos as memórias de Esdras como criação
livre do Cronista[20] ou que suponhamos que elas foram produzidas pelos discípulos do Cronista, em equipe[21]. Embora possivelmente seja arriscado insistir sobre isto, não é certamente impossível que o Cronista fosse o próprio Esdras, como é tradição entre os judeus 29. Por outro lado, ele pode ter sido algum discípulo mais chegado de Esdras, que tinha pássagens das memórias de Esdras — ou as sabia de cor — e as
reproduziu com suas próprias palavras, com ampliações verbais. Quem quer que ele tenha sido, não há nenhuma razão
convincente para colocá-lo muito depois da geração de Esdras.

3. A opinião de que Esdras chegou no sétimo ano de
Artaxerxes II (398)

Voltamos agora à data da chegada de Esdras. Vimos as
objeções à colocação dela no sétimo ano de Artaxerxes I e
observamos que tanto a obra original do Cronista quanto as
memórias de Neemias são omissas sobre a questão de quem
chegou primeiro. O problema seria resolvido colocando-se a
chegada de Esdras no sétimo ano de Artaxerxes II, depois
de ter terminado a atividade de Neemias?

a. Méritos desta opinião. — Esta opinião não deixa de
ter créditos a seu favor. Em particular, sustenta que a obra
de Esdras seja a coisa final e decisiva, como é considerada pela tradição posterior e como de fato parece ter sido. Colocar
Esdras no reinado de Artaxerxes II não é em si mesmo
fora de propósito (a própria Bíblia não diz de que Artaxerxes
se trata), e só exige que suponhamos que a presente ordem
da narrativa seja o resultado de confusão secundária, como
aduzimos acima, e que as passagens que dão Esdras e Neemias
como contemporâneos, são secundárias. Estas, como vimos, são
poucas e casuais na narrativa: realmente, só a menção a
Neemias em Ne 8,9 (1 Esdras omite) e a menção a Esdras
em Ne 12,36 (que pode ser uma adição). A passagem de
Ne 12,26 não mostra que os dois sejam necessariamente contemporâneos, mesmo que ambos os nomes sejam originais.
Então, se Ne c. 10 refere-se à reforma de Neemias e não à de
Esdras, (ou se Neemias 10,1-27 for considerado como uma (intrusão), não se pode mencionar o primeiro no v. 1 para
ligá-lo à obra do último. Se tratamos deste modo esta evidência
realmente muito pequena, todas as afirmações explícitas da época perdem o seu valor.

Objeções contra esta opinião. — Entretanto, colocar a
missão de Esdras em 398 causa sérias dificuldades. Como sa-
bemos pelo assim chamado “Papiro da Páscoa” de Elefantina,
datada do quinto ano de Dario II (419), os assuntos de
culto judaico no Egito estavam então sendo regulamentados
pelas ordens do rei a cargo do sátrapa Arsamés, através de
seu agente para negócios judaicos, cujo nome era Hananias.
Se este Hananias (ou Hanani) era irmão de Neemias (Ne 7.2), o canal dessa regulamentação era Jerusalém. O texto
em questão preceitua que a Páscoa (Pão Ázimo) seja observada
de acordo com as regras que conhecemos de passagens como
as de Ex 12,14-20; Lv 23,5ss; Nm 28,16ss. Assim a prática
religiosa judaica estava sendo regulamentada de acordo com a
lei pentateuca pelo governo persa, através de canais oficiais,
por volta de 419. Mas foi exatamente para realizar tal regulamentação de práticas religiosas que Esdras foi enviado a
Jerusalém (Esd 7,12-26) — e certamente pela primeira vez. É
pouco provável que a prática judaica estivesse sendo regulamentada num rincão afastado do Egito — e talvez via Jerusalém —
antes que o tivesse sido na própria Jerusalém. Se Esdras chegou
somente em 398, foi este o caso. Mas se, por acaso, os
negócios religiosos tivessem sido regulamentados oficialmente
antes de Esdras — por Neemias, por exemplo (do que não te-
mos prova) — para que Esdras foi enviado?

Outras considerações também tornam difícil uma data posterior para a chegada de Esdras. Quando o escândalo dos
casamentos mistos foi descoberto, diz-se que Esdras retirou-se para os aposentos de Joanan, filho de Eliasib (Esd 10,6).
Podemos supor que ambos fossem bons amigos. Embora este
possa não ter sido o Joanan (Ne 12,22ss) que era sumo
sacerdote em 407, provavelmente o era mesmo; os que defendem este ponto de vista, pelo menos, o supõem. Mas Josephus (Ant. XI, VII, 1) nos diz que, enquanto estava
no cargo, Joanan assassinou seu próprio irmão no templo, ação
chocante que teve como conseqüência severas represálias por
parte do governador persa. Se Esdras chegou em 398, este
incidente tinha quase certamente acontecido. O reformador severo teria sido de tal modo conivente com um assassino que
profanara de tal forma a sua sagrada missão? E, no entanto,
a narrativa não contém nenhuma alusão a qualquer desentendimento de Esdras com Joanan [22].

A presença de Hatus, filho de Davi, entre os que tinham
voltado com Esdras (Esd 8,2) fornece outro argumento. Uma
vez que ele é relacionado (v. 1) entre os “chefes de famílias”,
provavelmente era um homem maduro, no vigor dos seus anos
na ocasião. Este Hatus dificilmente será o Hatus, filho de
Hasabnias, que estava entre os restauradores (Ne 3,10), mas
quase certamente o Hatus que aparece como um descendente
de quinta geração de Joiaquim em lCr 3,22[23]. Como dissemos, os filhos mais velhos de Joiaquim nasceram antes de
592. Calculando as gerações como foi feito acima (veja p. 539),
Hatus deve ter nascido entre 490 e 480 (digamos aproximadamente em 485). Sendo assim, ele estaria provavelmente
perto dos trinta anos em 458 — muito jovem para ser chefe
de família. Mas se ele estivesse perto dos 90 em 398, não
teria agüentado os rigores da viagem. Portanto, este também
não seria o caso. Ele estaria perto dos sessenta em 428. Se
Semaías, filho de Secanias, que era um dos restauradores de Neemias (Ne 3,29), for o Semaías, filho de Secanias de lCr
3,22, que vem relacionado (de acordo com o texto reconstruído)
como irmão de Hatus, isto está confirmado. Semaías teria então
quarenta e poucos anos em 445, o que é uma idade bem apropriada, e Hatus seria uns poucos anos mais jovem. Além disso,
se o Ananias de lCr 3,24 for o Hananias da carta elefantina
de 407, um cálculo retrospectivo como o que fizemos acima
colocaria o nascimento de Hatus entre 490 e 480. Parece,
então, demasiado tardia a data de 398 para a chegada de
Esdras.



4. A opinião de que Esdras chegou aproximadamente em 428

Embora não queiramos ser dogmáticos, parece que se tem
uma evidência mais comprovada supondo-se que Esdras chegou
depois de Neemias, mas antes que ele tivesse desaparecido do
cenário. Se nos lembrarmos que a obra do Cronista não incluía
originalmente as memórias de Neemias, então devemos supor
apenas que o “sétimo ano” (Esd 7,7ss) é um erro, em vez
de outro número qualquer, muito provavelmente “trigésimo
sétimo ano”. Nãó gosto de subterfúgios, mas a emenda não é
improvável já que exige apenas que se suponha que as três
ocorrências consecutivas de um shin inicial tenham causado a
omissão de uma palavra por haplografia. Em minha opinião,
a hipótese previne objeções levantadas contra a colocação da
vinda de Esdras quer em 458 quer em 498, e dá um quadro
inteligente do desenrolar dos acontecimentos, o qual procuramos desenvolver no texto.

Embora as passagens que afirmam especificamente esta
hipótese sejam poucas, a tradição de que Esdras e Neemias
foram contemporâneos não pode ser desprezada sem mais.
O fato de que o Cronista raramente menciona Neemias, enquanto que as memórias de Neemias provavelmente não mencionam em absoluto Esdras, explica-se facilmente. Os interesses do Cronista eram primariamente religiosos e estavam fora
dos interesses de Neemias, enquanto que as memórias de
Neemias eram uma apologia pessoal, interessadas exclusivamente nos seus feitos. É possível, também, que, como Esdras
e Neemias eram ambos impetuosos, acabaram por se desentender
totalmente. Se se objetar que a autoridade de Esdras era tal
que não podia ter sido exercida enquanto Neemias estivesse
exercendo seu cargo, pode-se responder que a objeção aplica-se
igualmente a uma data qualquer em 398/7, porque havia
certamente um governador nesta época — muito provavelmente o Bagoas que, como mostram os textos de Elefantina,
era governador na última década do século quinto. Assim,
pode-se pensar que a autoridade de Esdras também se teria
chocado com a sua. A verdade parece ser que, como está indicado no texto, a autoridade de Esdras não colidiu teoricamente com a autoridade do governador civil, muito embora
tenha realmente colidido. Pode-se acrescentar, a bem da ver-
dade, que, apesar de 1 Esdras 9,49 omitir o nome de Neemias
por ocasião da leitura da lei (Ne 8,9), ambos os textos dão o governador como presente naquele momento. A não ser
que omitamos totalmente a referência ao governador, o que
me parece desnecessário, deve-se dizer ,que o papel atribuído
a este governador é o que poderia ter sido desempenhado
pelo judeu Neemias, mas não por Bagoas ou qualquer outro
oficial persa.

Adotamos a opinião de que Neemias foi governador de
445 a 443, quando (Ne 13,6) voltou para a corte persa por
um período de tempo não especificado. Por volta de 428,
Esdras chegou, ocasião em que Neemias, quase certamente de
volta a Jerusalém, estava em choque com os apóstatas, como
provavelmentte já tinha acontecido antes. A obra de Esdras,
portanto foi realizada durante o segundo período da gestão de
Neemias. Este ponto de vista, que é desenvolvido no texto,
permite-nos resolver o eterno problema da relação das reformas de Esdras com as de Neemias, de uma maneira que,
creio eu, é plausível e de acordo com a evidência. As reformas de ambos realizaram-se em parte concomitantemente e convergiram para o mesmo ponto. Neemias conta o papel que
teve nela e reclama-lhe os méritos; o Cronista, como era de se
esperar, atribui o crédito a Esdras.






[1] Sabe-se tambéin que um certo Sanabalat II (e provavelmente
um Sanabalat III) governaram Samaria; cf. F. M. Cross, Papyri of the
Forth Century B.C. from DMiyeh, in New Directions in Biblical Ar-
chaeology, D. N. Freedman e J. C. Greenfield, eds., Doubleday &
Company, Inc., 1969, pp. 41-62; v. também HTR, LIX (1966), pp. 201-
-211; BA, XXVI (1963), pp. 110-121. Mas em vista das evidências
bíblicas e extrabíblicas, é impossível relacionar Neemias com qualquer
pessoa que não com Sanabalat I. 


[2] Recentemente, Albright, in BP, pp. 93ss, e nota 193; Noth, in
Hl, pp. 315-335; W. Rudolph, Esra und Nehentia in HAT (1949),
pp. XXVIss, 65-71; V. Pavlovsky, Die Chronologie der Tãtig-Keit
Esdras, in Biblica, 38 (1957), pp. 275-305, 428-456. 


[3] Cf. H. H. Rowley, The Chronological Order of Ezra and Nehemiah,
in The Servant of the Lord and Other Essays, ed. rev., Basil Blackwell 

& Mott, Ltd., Oxford, 1965, pp. 135-168, onde existe uma lista completa
de literatura até a data da publicação deste livro; mais recentemente, 


[4] Ou o aposento poderia ter sido conhecido como de Joanan na
épcca do autor e assim identificado por ele; cf. E. Meyer, Die Ent-
stehung des ]udenthums, M. Niemeyer, Halle 1896, p. 91; v. também
Ahlemann, in ZAW, 59, pp. 97ss. 


[5] E também a maioria das passagens usadas para argumentar em
contrário! Cf. Rowley, The Servant of the Lord, pp. 135-168, para
discussão. 


[6] Cf. especialmente Pavlovsky, Die Chronologie, pp. 283-289. 


[7] Por exemplo, Kittel, in GVI, III, pp. 584-599; H. H. 5chaeder,
Esra der Schreiber, J. C. B. Mohr, Tubinga, 1930, pp. 12-14. 

[7] Ve/a especialmente W. Rudolph, Esra und Nehemia, in HAT
(1949); idem, Chronikbücher, in HAT (1955); v. também M. Noth,
ijeberlieferungsgescbichtliche Studien I, M. Niemeyer, Halle 1943, pp. 

110-180. 


[8] Cf. Mowinckel, o.c., Vol. I (1964), pp. 7-28. 


[9] Cf. Mowinckel, ibii., pp. 29-61, que, em minha opinião, argu-
menta convincentemente que este era o caso. 


[10] Note-se que Josephus (Ant. XI, V, 8) sintetiza Ne 7,4 e ll,lss,
num? simples sentença! 

13 Rudolph (Esra und Nebemia, p. 198) encontra material de
Neemias nos vv. 27aa, 30*, 31ss, 37-40, 43 * (* indica parte do versí-
culo); igualmente ScHAEDER, o.c., p. 7. 


[11] O “aquele dia” do v. 44 certamente não é o dia em que os
muros foram inaugurados (c. 12,27-43), mas é mais provável que
seja o dia do acordo do c. 10. Os vv. 46ss podem muito bem ser um
acréscimo; cf. Rudolph, Esra und Nehemia, p. 201. 


[12] Cf. Rudolph, Esra und Nehemia, pp. 173ss; A. Jepsen, in ZAW, 


[13] A transição da alegria festiva (Ne c. 8) para a confissão
abjeta, também é extremamente abrupta. Cf. Rudolph, Esra und Nehemia,
pp. 153ss; Bowman, ibid., p. 743. 


[14] Cf. W. F. Albright, The Date an Personality of the Chronicler,
in JBL. XL (1921), pp. 104, 124; v. também Alex. Marx Jubilee
Volume, Jewish Theological Seminary, 1950, pp. 61-74; F. Rosenthal,
Die aramaistiche Torse bung, E. J Bril], Leiden, 1934, especialmente pp.
63-71. Cf. H. H. Rowley, The Aramaic of the Old 'Testament, Oxford
University Press, Londres, 1929, para completa discussão e conclusões
circunspectas. 


[15] Cf. Rudolph, Chronikbücher (veja nota 11), ¡-!p. 28-31. 


[16] Cf. Albright, in BP, p. 95, e a nota 198. 


[17] Se fosse certo que o Ananias da carta elefantina de 407 (cf.
Pritchard, in ANET, p. 492) é o Ananias do v. 24, o sincronismo
estaria assegurado. Mas não se pode ter certeza. 


[18] Uma data por volta dos 400 é preferida por alguns historiado-
res; cf. os artigos de Albright na nota 20; idem, in JBL, LXI (1942),
p. 125; Rudolph, Esra und Nehemia, pp. XXIVss; J. M. Myers, Ezra■
-Nehemiah, in AB (1965), pp. LXVÍII-LXX. 


[19] Cf. Rudolph, ibid., pp. 163-165; Mowinckel, o.e., Vol. III,
pp. 11-17. 


[20] Cf. especialmente C. C. Torrey: por exemplo, Ezra Studie!,
The University of Chicago Press, 1910; mais recentemente, The Chrom■
cler's History; v. também R. H. Pfeiffer, Introduction to the Old
Testament, Harper & Brothers, 1941, pp. 824-829. 


[21] Cf. A. S. Kapelrud, The Question of Authorship in the Ezra
Narrative, J. Dybwad, Oslo, 1944. Deve-se ter cautela em colocar várias 


[22] Naturalmente, pode ser que Joanan tenha sido atacado agindo
em defesa própria; cf. Emerton, ibid.., pp. llss. Podemos apenas repetir
as observações da nota anterior. Mas Josephus, embora sugira que hou-
vesse uma trama da parte de seu irmão, certamente considerou o ato
chccante. Se o incidente foi exatamente como Josephus o descreve,
Esdras certamente também o teria descrito. 


[23] Como a maioria dos historiadores concorda, o texto do v. 21ss
está deturpado. O versículo 21 refere-se a uma geração; no v. 22 dever-
-se-ia ler: “E os filhos de Secanias: Semaías e Hatus e ...” (note o
total “seis”).