27 de agosto de 2016

GERARD Van GRONINGEN - A Revelação Messiânica Durante o Exílio -1: Ezequiel (Parte 2)

gerard groningen danilo moraes
Ez 17.22-24. Ezequiel usa uma pitoresca alegoria para dar uma inconfundí­vel mensagem a seus concidadãos israelitas.[1] Ele apresentou essa profecia por volta do ano 590 a.C.; o rei Jeoaquim tinha sido levado cativo (cerca de 596 a.C.), e Jerusalém cairia dez anos mais tarde (586 a.C.).[2] A alegoria trata basicamente da casa real de Davi e de seu envolvimento na política internacional. Temos mais uma vez um caso de como a situação histórica no tempo em que a profecia é dada provê a forma e o material para a mensagem messiânica indiscutível que Ezequiel proclama. 

Os exilados que ouviam Ezequiel sem dúvida se admiraram do que viria sobre a casa real de Davi, especialmente se o que Ezequiel profetizava a respeito de Judá e Jerusalém fosse verdadeiro — sua destruição certa num futuro próximo. Essa profecia de Ezequiel certamente evidencia que pensamentos messiânicos não surgiam espontaneamente de uma comunidade esperançosa naquele tempo.[3] Na alegoria, Ezequiel refere-se à casa de Davi como uma árvore plantada no Líbano (17.3). O rei da Babilônia (águia) leva o topo da árvore 0eoaquim) para Babilônia e planta a semente (Zedequias) em Canaã. Essa semente não se desenvolve bem e, depois de ter-se apoiado por um pouco em Babilônia, volta-se para o Egito. Por causa de seu ato traiçoeiro, que ocorre justamente antes dessa profecia, a casa davídica incorrerá no julgamento de Yahwéh; será banida de Jerusalém.[4] Ezequiel declara em linguagem expres­siva que o rei davídico morrerá em Babilônia (17.16) por causa de sua traição e infidelidade, tanto a Yahwéh quanto ao rei de Babilônia, sob quem Yahwéh o tinha colocado (17.19-21). 

Críticos eruditos têm insistido fortemente na divisão do material em partes distintas.[5] Há, realmente, partes óbvias nessa profecia, mas elas formam uma unidade que segue a verdadeira cronologia dos acontecimentos (ver quadro 17). 

Ezequiel realmente não apresenta qualquer material especificamente novo a respeito da casa real de Davi. Isaías e Jeremias já tinham profetizado a respeito de sua desaparição da cena histórica, mas juntaram-se a Amós (Am 9.11-15) e Miquéias (Mq 5.2 [TM 5.1]) predizendo sua restauração final. Ezequiel apre­senta a mesma animosa mensagem mas em forma diferente — como uma alegoria com interpretação e aplicação. O cedro da alegoria inicial é usado para expressar a continuação da casa davídica. Ezequiel dá umas poucas visões gerais sobre como o cedro, a casa davídica irá continuar. 

Ez 17.22. Yahwéh, segundo Ezequiel, tem uma mensagem que é específica kõh ’amar (assim disse) wèlãqahti ’ãni (e eu tomarei, vav consecutivo e qal de tãqah, tomar). O "eu", que é enfaticamente repetido, põe Yahwéh em contraste com o rei da Babilônia. Quando este remove o topo da árvore, planta uma semente que permanece pequena, fraca e infiel como um violador do pacto. 

Mi$§ammeret ha’erez hãrãmâ (do rebento do cedro, o topo). O rei da Babilônia tirou o representante real da casa davídica (17.3,4,12). Ele representa "o topo da casa". Yahwéh, entretanto, irá ao próprio topo e tomará um broto ou renovo. Isaías tinha usado o termo renovo, broto ou rebento também (Is 11.1; 53.2), mas apresentou-o como surgindo de um tronco ou raiz na terra seca. Ezequiel mantém a imagem de um alto cedro, dando assim ênfase à existência continuada da casa davídica nos planos de Yahwéh. Os exilados são convida­dos a continuar pensando em termos da grandeza que Yahwéh atribuiu e continua a atribuir à casa davídica. 

Wènãtatti (e o estabelecerei). O verbo nãtan usualmente significa "dar", mas é também amplamente usado como sinônimo para o hebraico Sim (pôr, estabelecer).[6] A idéia de "dom" pode permanecer inerente ao termo, mas a ênfase no seu contexto está em Yahwéh colocar o rebento onde ele continuará a existir permanentemente. A idéia de ser plantado por Yahwéh é notada por vários comentadores e tradutores. A ênfase geral de ambos os verbos, tomarei e estabelecerei, está na firme intenção de Yahwéh de desfazer o que o rei da Babilônia fez à casa de Davi por excedê-lo, indo ao rebento mais alto e colocando-o no lugar onde ele crescerá e funcionará como deve. Numa frase paralela Ezequiel dá ênfase a essa atividade de Yahwéh em favor da casa real davídica. Mifõ’S yõnèqôtãyw rak ’eqfõp (do topo, um rebento novo, tenro, eu tomarei). Quatro termos surpreendentes são usados por Ezequiel quando ele fala por Yahwéh. A cena é aparentemente derivada de um pomar. O cultivador toma um rebento novo (yãnaq, a raiz verbal = sugar, mamar) que brotou no próprio topo da árvore. Esses rebentos são tenros, mas têm um grande poten­cial para enraizar, crescer e desenvolver-se em uma árvore. WeSãtalti ’ãni 1 al-har-gãbõah wètalül (e eu o transplantarei, eu mesmo, para uma alta e grandiosa montanha). Esta frase acrescenta colorido e ênfase ao que fora afirmado antes. Yahwéh plantará o tenro rebento sobre o mais alto cume de uma elevada montanha, não nas planícies ou nas colinas onde os agricultores preferem plantar. Naquele alto ponto, no topo mesmo da árvore, ela será permanentemente plantada. Estará acima das demais árvores, acima de toda vegetação, acima do mundo dos animais e insetos e acima da humanidade toda. O humilde rebento (Is 53.2) tornar-se-á uma poderosa árvore. A casa real de Davi será levantada de sua profunda ignomínia à mais alta honra. Será tomada do vergonhoso cativeiro e elevada à glória real. 

Neste ponto é útil considerar de novo como Ezequiel prepara a cena para pintar a exaltação da casa real de Davi. Ele pinta em pormenores, em palavra, símbolo e ação, o trágico declínio, a humilhação e a remoção do reino de Judá. Com a vergonhosa destruição do reino os reis foram derrubados. O julgamen­to de Yahwéh sobre a nação rebelde e sua casa real, entretanto, não significa sua exterminação nem a continuação de uma existência humilhada. De fato, Ezequiel estende-se sobre sua glória futura certa. Ele faz sete afirmações específicas (w. 23,24). 

1723a. "Sobre a mais alta montanha de Israel eu o plantarei". O ponto a ser particularmente notado é a referência a Israel. O povo do pacto, reunido, terá a árvore transplantada—a casa de Davi—em seu meio. E como Jerusalém estava sobre uma alta montanha e a casa de Davi tinha sido entronizada sobre uma alta montanha, a nova plantação será sobre o mais elevado cume. Essa "alta monta­nha", segundo Ezequiel 20.40, é o Monte Sião,[7] que não é, geograficamente falando, o mais alto de Canaã, mas será elevado em importância e influência. Portanto, isso não deve ser lido muito literalmente. O fato central a ser tido em mente é: a casa real será elevada no meio do reunificado povo do pacto. 

17.23b. A árvore — a casa de Davi — será produtiva: wènãáã’ 'ãnãk (literalmente: estenderá suas asas). A idéia é que a árvore crescerá, emitirá ramos que atingirão grande altura. Assim, a árvore se tomará óbvia, para todos verem. Ela também 'ãéâ pèri (fará fruto, literalmente). De novo, como os cedros não produzem frutos comestíveis, a frase deve ser entendida como referente ao cumprimento das funções que se esperam que a árvore cumpra. 

17.23c. A árvore será ’adir (majestosa). A raiz hebraica significa ser amplo. A árvore será esplêndida (NIV) ou majestosa (nobre, RSV). Ela irradiará beleza e glória e será considerada a mais grandiosa das florestas e áreas arborizadas da terra. Devemos notar o notório contraste: um rebento tenro de um ramo no topo da árvore vai tomar-se uma árvore de grande porte e beleza. 

17.23d. A árvore servirá de lar e de refúgio. Ezequiel menciona pássaros — todas as espécies de pássaros construirão ninhos na árvore e buscarão sua sombra e aconchego.[8] A idéia de um lar confortável e seguro é a idéia básica; mas é mais importante a referência a todas as espécies de pássaros. A frase é usada na descrição das criaturas vivas que entraram na arca de Noé (Gn7.14); o pensamento, entretanto, é que pessoas de cada tribo, nação e raça assegurarão um lar na árvore. O universalismo do plano pactual de Yahwéh é posto diante dos exilados. 

17.24a. Todas as gentes e nações reconhecerão que Yahwéh é o Senhor da árvore exaltada. Ezequiel fala de todas as árvores. Como Keil afirmou, as árvores que Ezequiel menciona representam os reinos da terra e seus reis. Usando o símbolo das árvores, Ezequiel combina a natureza criada e os reinos humanos para reconhecer a árvore transplantada por Yahwéh — a casa real de Davi. Mais uma vez, o aspecto universal do plano de Yahwéh para a casa davídica é destacado. 

Mais duas afirmações enfáticas são feitas. Ambas exaltam Yahwéh, o Senhor do cedro. Primeiro, Yahwéh tem o controle absoluto da vida e da morte, isto é, sobre árvores grandes e pequenas, sobre árvores verdes e secas. Ele rebaixa os exaltados e faz secar e morrer as árvores verdes. Segundo, as árvores pequenas, bem como as secas, se tornarão grandes e prósperas. O que as gentes e nações reconhecem é um fato seguro. Yahwéh é o soberano Senhor de toda a criação, nações, acontecimentos na história e — o que deve ser particularmente crido pelos israelitas no exílio — Senhor do seu destino também. A declaração final é a garantia de que a palavra de Yahwéh é um fato indubitável. O que Yahwéh diz, Yahwéh faz. Portanto, é uma certeza absoluta: o remanescente e a casa de Davi não serão exterminados. Ainda que sua presente e futura existência pareça seca, fraca, morta, um tempo glorioso e majestoso os espera. A Palavra de Yah­wéh é uma base definida para uma esperança segura a ser realizada no futuro. 

Há um acordo geral entre teólogos e comentadores de Ezequiel de que a passagem que acabamos de discutir (17.22-24) deve ser caracterizada como sendo messiânica.[9] Deve ser mantido em mente, entretanto, que a interpreta­ção do conceito messiânico difere amplamente. Cooke viu-o desenvolvido em um sentido político depois do exílio.[10] Riggan, discutindo a consciência mes­siânica no tempo de Ezequiel, não se refere a Ez 17,[11] mas discute-a no contexto do messianismo eclesiástico e apocalíptico, que ele supõe ter-se desenvolvido depois do retomo do exílio e durante o período pós-exílico, quando o povo que retornou, desapontado, falhou em conseguir independência e estatura política. Outros põem pesada ênfase em que Ezequiel teria proclamado um messianis­mo político; Mowinckel, por um lado, limita o discutido conceito à casa real num sentido muito restrito.[12] Taylor também se refere a um conceito limitado, mas o faz de tal maneira que permite uma interpretação mais ampla.[13] Alexan­der, indicando suas preferências escatológicas, viu uma referência à casa davídica no reino messiânico escatológico.[14]

Em harmonia com o que tinha proclamado previamente, e em linha com as profecias messiânicas dos profetas precedentes, Ezequiel, usando uma alegoria, apresenta o real conceito messiânico tanto no seu sentido mais estrito quanto mais amplo. Ele profetiza a respeito de uma figura régia que Yahwéh levantará. Essa figura régia será da casa de Davi e terá preeminência sobre todos os reis e nações. Seu reinado messiânico será universal. O ponto de vista mais amplo do conceito vem expresso na referência de Ezequiel ao que a pessoa messiânica oferecerá quando reinar. Não há referência explícita à obra redentora messiâni­ca, isto é, à expiação. Mas esta definidamente está implícita no que será cumpri­do pelo rei messiânico.[15] Fairbaim resume o pensamento de Ezequiel quando escreve que é inútil procurar o cumprimento "dessa imagem profética em qualquer lugar, exceto no Messias". Todas as linhas dos pronunciamentos proféticos de Ezequiel referentes à idéia messiânica encontram-se nele.[16]

Ez 21.25-27 (TM 21.30-32). Enquanto continua a profetizar a respeito do julgamento que virá sobre Jerusalém e Judá, Ezequiel repete de vários modos o que tinha proclamado antes como palavra de Yahwéh aos exilados. Ele dá ênfase aos pecados de pessoas individuais, bem como da comunidade, pelos quais vem a punição (cap. 18). Ele lamenta o destino dos príncipes de Israel e refere-se especialmente ao rei de Judá, Jeoaquim, que foi levado cativo para Babilônia (cf. 19.9). Em resposta às dúvidas dos anciãos entre os exilados, Ezequiel dá ênfase à rebelião de Israel e Judá e ao julgamento certo que virá (20.1-38), mas também à restauração que certamente se seguirá (20.39-44). Mas Judá está para experimentar o fogo da ira e do julgamento de Yahwéh (20.45- 49) que virá por meio do poder militar de Babilônia (21.1-23 [TM 6-28]). Judá certamente será levado cativo (21.24 [TM 21.29]). Neste preciso contexto Eze­quiel toma-se bem específico a respeito da queda do rei de Judá (21.13 [TM 21.18]): Zedequias é rei. Irá o rei de Babilônia destruir completamente a casa real de Judá? Não! Há um futuro. A queda e o futuro da casa real são o assunto da passagem (21.25-27 [TM 21.30-32]). 

Há algumas questões na passagem. Estaria Ezequiel expressando julga­mento sobre Zedequias, que, ao tempo da profecia, estava no trono em Jerusa­lém como vassalo de Nabucodonosor, e sustentando Jeoaquim, que estava no exílio, como rei legítimo,[17] ou estaria proclamando a queda da casa davídica e apontando para um representante futuro?[18] Estaria Ezequiel referindo-se a Gn 49.10, à profecia de Siló com sua promessa de um governante futuro,[19] ou meramente dando ênfase ao julgamento certo sobre a casa de Davi, que está para vir pela mão do rei de Babilônia, a quem foi dado o direito de remover aquela casa?[20] Há também diferença de opinião sobre se a referência ao termo turbante refere-se ao ofício do sumo sacerdote[21] ou se Zedequias está sendo acusado de usurpá-lo.[22] Depois da exegese da passagem, nossa conclusão será afirmada em termos breves. 

Deve ser notada a variação da divisão do material entre os caps. 20 e 21. No Texto Massorético o cap. 21 começa com 20.45; uns poucos comentários seguem a numeração hebraica, que é também seguida pela Septuaginta. A maioria dos comentários, entretanto, segue a ordem da Bíblia em inglês, como estamos fazendo neste nosso estudo (com a numeração do hebraico entre parênteses, precedida de TM - Texto Massorético). 

O estado do Texto Massorético tem sido descrito por alguns críticos como corrompido,[23] e várias emendas têm sido sugeridas por eruditos. Mas o texto da Bíblia Hebraica não requer mudança, como a exegese que se segue demons­trará. 

O quadro 18 revela os quatro conceitos de Ez 21.30-32. 

21.25a (TM30a). Wè’attâ hãlãl rãSã' nèsi’ yiSrã’êl (e tu príncipe profano e ímpio de Israel). Ezequiel dirige-se diretamente ao rei — e tu! Ao proferir essa profecia Ezequiel está às margens do rio Quebar. Mas está-se dirigindo à pessoa que será reduzida ao cativeiro (21.29) por causa de sua rebelião aberta contra Yahwéh e seu governo, sob o qual o rei de Babilônia obteve o controle político e militar sobre Judá e Jerusalém. Esta profecia é proferida no décimo dia do quinto mês do sétimo ano do exílio de Jeoaquim (bem como de Ezequiel e dos anciãos que foram inquiri-lo) (20.1)[24] Na ocasião do exílio, Zedequias, tio de Jeoaquim, fora feito por Nabucodonosor seu vassalo real em Jerusalém (2 Rs 24.17-19). Zedequias reinou onze anos (2 Rs 24.18), antes de ser cegado e levado cativo para Babilônia em 586 a.C. (2 Rs 25.7), Portanto, Ezequiel profere essa profecia em 590 a.C., aproximadamente dois anos antes da rebe­lião de Zedequias contra Nabucodonosor (25.1). O ponto é que Ezequiel não fala depois do fato (vaticinia post eventum); ele profetiza o que Yahwéh lhe revela de antemão. Assim, quem se dirige a Zedequias é Yahwéh, por meio de Ezequiel, que fala na presença dos anciãos exilados de Judá. 

O termo nèSl’, então usado, deriva do verbo hebraico nõSã (ser levantado ou carregado). O termo foi usado antes a respeito dos cabeças das tribos (p. ex., Nm 7.10,11; 10.4). Ezequiel usa-o duas vezes em referência a Davi (34.24; 37.25). Em regra, o termo é traduzido "líder", "chefe", ou "príncipe". O termo gèbèah (lit. preeminente) é traduzido também "capitão" ou "líder" (referindo-se a Saul: 1 Sm 9.16 e 13.14) ou "governante" (referindo-se a Davi: 1 Sm 25.30; 2 Sm5.2; 6.21). O termo melek (rei) é usado mais frequentemente, como a respeito de Jeoaquim (2 Rs 24.8; Ez 1.2). Ezequiel pode ter pretendido referir-se a Zedequias de maneira depreciativa quando preferiu chamá-lo de nèSi’ que, embora tenha uma conotação régia, refere-se a um príncipe e não a um rei de pleno direito.[25] Se era realmente esta sua intenção, é difícil deter­minar; o fato é que Ezequiel se refere usualmente a Zedequias por esse termo (Ez 7.27; 12.10)[26] e descreve acuradamente a situação. Zedequias, um mem­bro da dinastia davídica (tio de Jeoaquim), um príncipe, tinha sido elevado pelo rei Nabucodonosor a fim de servir como seu vassalo. Era, portanto, não o preeminente, não o rei de direito próprio. Mas o que se deve ter em mente é que Zedequias representava a dinastia davídica e, como tal, estava sob a obrigação de servir a Yahwéh e a seu povo. Isto é, Zedequias estava preso ao dever de obedecer a Yahwéh e de cumprir os requisitos pactuais que Yahwéh tinha dado à dinastia davídica (2 Sm 7.8-16). A herança davídica, a egrégia posição e os deveres de Zedequias são realçados pela referência a Israel. Davi tinha sido rei de todo o Israel; em sentido real, Zedequias deve servir como o filho de Davi que deve representar Yahwéh como o rei de todas as tribos de Israel. Como Ezequiel expressa esse fato pactuai, dificilmente se pode consi­derar que ele está falando depreciativamente. Ao contrário, poder-se-ia argu­mentar que o profeta está dando ênfase ao fato de que Zedequias foi elevado e exaltado a fim de representar a dinastia davídica e ser um governante reto para Yahwéh, como o seu nome indicava (Zedequias—retidão é de Yahwéh). Assim, o real conceito messiânico é proclamado e estabelecido como o tema dominante da passagem. 

Embora Ezequiel se refira à exaltada casa de Davi, indica logo quão aquém das características pactuais ficou Zedequias, e como falhou em cumprir os deveres que se esperavam dele. O autor de 2 Reis escreve: "fez o que era mau aos olhos do Senhor" (2 Rs 24.19 NIV). Ezequiel usa dois adjetivos, halal e rãSã'. O primeiro deriva-se do verbo escavar,perfurar, também significa tomar comum, fazer do sagrado profano.[27] Uma vez que o termo paralelo é rãSã' (ímpio, mau), é preferível aceitar o significado de "profano". Zedequias não considera suas prerrogativas régias pactuais como um depósito sagrado. Em seu esquema político e sua rebelião ele rejeita Yahwéh e usa seus privilégios divinamente concedidos para seus próprios propósitos maus e rebeldes. Em sua primeira frase Ezequie põe diante dos anciãos uma forte situação antitética: os requisitos elevados e honrados de Yahwéh à casa davídica, de um lado, e o caráter baixo e rebelde do rei davídico, por outro lado. O contraste cria o especial contexto para o que Ezequiel vai profetizar. 

21.25b-27ÇJM. 21.30b-31b,32a). Em quatro frases Ezequiel resume o julga­mento de Yahwéh sobre Zedequias. As duas primeiras, ’ãSer-bõ’ yômô e bè'êt 'âwõn qês ("de quem o dia é vindo" e "o fim do tempo da iniqüidade"), são frases paralelas que, juntas, dão ênfase ao fato de que o reino de Zedequias está condenado; o trono davídico em Jerusalém está para ser removido e o reino de Judá será exterminado. O pronome relativo ’ãSer refere-se a Zede­quias, o rei-vassalo, que também representa a dinastia davídica; "seu dia chegou" é uma frase bem conhecida, usada para expressar o tempo de ajuste de contas. Zedequias está para enfrentar todas as amargas conseqüências de sua falsidade e de seus maus atos como rei. A segunda frase tem sido traduzida de várias maneiras: "quando a iniqüidade terá fim";[28] "de quem o tempo do castigo chegou a seu clímax";[29] e "cujos dias chegaram ao tempo do castigo final",[30] Ezequiel, indicando sua habilidade no uso do hebraico, emprega uma frase concisa que ele enche de significado grave. O termo bè'êt (em tempo) deve ser considerado um paralelo sinonímico do termo yômô (seu dia); um período certo de tempo está para surgir. Será um tempo diretamente aplicável a Zedequias, seu trono, seu reinado, seu povo, e a todos os aspectos de sua vida. O termo 'âwõn tem dupla acepção: a culpa e suas trágicas conseqüências. Os maus caminhos de Zedequias, que o tomaram culpado, isto é, muito injusto, colherão seu merecido resultado. O castigo cairá inexo­ravelmente sobre ele e seu reino. O termo qês, derivado do verbo qãsas (cortar fora) expressa precisamente esse pensamento. Haverá um corte num ponto específico do tempo. O reinado iníquo de Zedequias será cortado pela punição que seus pecados merecem. Portanto, não é necessário fazer uma escolha entre dar ênfase à iniqüidade, ao clímax dessa iniqüidade, à punição da iniqüidade, ao tempo em que a iniqüidade é praticada ou ao fim desse tempo. Ezequiel expressa todos esses conceitos igualmente. Os anciãos postados diante dele recebem o anúncio: não há absolutamente nenhuma esperança de continua­ção do reinado de Zedequias e da dinastia davídica, de seu trono, de seu reino. Os pecados e iniqüidades atingiram sua extensão máxima; como a iniqüidade é completa, assim será completa a destruição. A retidão de Yahwéh será tão plena e completamente revelada como o foi a grande falta de retidão de Zedequias. 

Na frase seguinte, hãsír hammiSnepet wèhãrím hã'ã}ãrâ, os verbos de­vem ser considerados como paralelos sinônimos, fíasír (hiphil de sûr) significa fazer desviar ou remover. Harím (infinito construto) é aqui usado como imperativo (rúm, ser alto) (a forma do hiphil deste verbo é usada para referir-se ao ato de erguer e levar embora alguma coisa).[31] Esses dois termos pitoriais apontam para o fato de que alguém vai tomar de Zedequias o símbolo de sua realeza. Ele será despojado da coroa e destronado; o sinal de sua posição, autoridade e prerrogativas reais será removido. Ele será humilhado, final e completamente. Desta maneira o glorioso reinado iniciado por Davi chegará ao fim. O termo ha'ûtarâ (coroa) não oferece dificuldade. Feita de ouro (SI 213 [TM 21.4]; Zc 6.11) ou não, representa a honra e o esplendor da realeza. 

O termo hammiSnepet tem dado lugar a várias interpretações. Se deve ser tomado como paralelo sinonímico de "coroa", como os verbos devem ser, a referência é clara. O termo, se traduzido como "diadema"[32] ou "turbante", tem dado a alguns escritores razão para pensar que Ezequiel também está falando do fim violento e da remoção do sacerdócio, em vista da referência no Velho Testamento a esse termo como a cobertura da cabeça do sumo sacerdote (p. ex., Êx 28.4,37,39; 29.6).[33] Isso significaria que dois dos ofícios fundamentais da teocracia seriam removidos. A profecia de Zacarias (6.9-15) é citada em apoio da teoria da remoção de ambos os ofícios, bem como da restauração deles na pessoa do sumo sacerdote. Alguns comentadores, entretanto, não conside­ram o termo "turbante" referente ao ofício do sumo sacerdote. O próprio contexto, dizem eles corretamente, refere-se somente ao ofício real. As duas construções paralelas na passagem apóiam a referência única. O termo "tur­bante" tem também uma significação régia. Zimmerli sugere que era ele um adereço real tomado também para o sacerdote. No SI 21.3 (TM 21.4) e 2 Sm 12.30, o turbante tem significado real.[34] É de interesse notar que eruditos que tentam localizar a origem do conceito messiânico nos temas reais-sacros de antigas religiões pagãs não apelam para esta passagem, com muito poucas exceções. A conclusão mais aceitável, portanto, é que Ezequiel, empregando frases breves e paralelas, profetiza a respeito do fim violento da casa real, do trono e do reino em Jerusalém. 

Ezequiel refere-se de novo ao julgamento que Yahwéh está trazendo sobre o reino davídico pela tríplice repetição do termo 'awwâi 'awwâ, 'awwâ, 'awwâ 'ãéímennâ (ruína, ruína, ruína eu o farei) (cf. RSV). Hengstenberg traduziu "invert, invert, invert the land I will", seu tradutor (para o inglês), entretanto, apontou a dificuldade em assim traduzir.[35] Aalders corretamente explica o termo 'awwâ como um "hápax legómenon"[36] derivado de uma raiz verbal que significa torcer ou curvar. A maioria dos comentadores corretamente pensa que Ezequiel deve estar se referindo a Jerusalém (note-se o sufixo feminino no verbo, ’ãélmennâ, eu a farei). O próprio Yahwéh, pela mão dos babilônios, tomará Jerusalém em ruínas; a repetição tríplice dá ênfase ao trágico fato. Jerusalém, a cidade de Davi, o cenário do reino davídico, será completamente destruída. Na verdade o fim está perto, à porta. O julgamento de Yahwéh sobre todas aquelas coisas que davam aos exilados uma razão de esperança de um pronto retomo será final e completo. 

21.26c (TM21.31c). A ordem, como tinha sido, chegará ao fim, mas haverá, quando o fim vier, uma reviravolta completa. 

2o’t lõ’-zõH haSSãpãlâ hagèbêah wèhaggãbõah haSipil. As primeiras palavras significam "esta não esta" (a forma feminina do pronome). A Septuaginta acrescenta ou estai (não será).[37] O que não será, é o que Ezequiel proclama. Alguns tradutores têm tentado fazer uma versão significativa por meio de frases como "isso não será o mesmo" (cf. RSV).[38] "Tudo está termina­do".[39] Deve preferir-se a versão de Alexander: "Não será mais como foi" (cf. NIV).[40] Realmente uma grande mudança ocorrerá, afirma Ezequiel em termos sugestivos. Os tradutores divergem sobre a maneira de traduzir os verbos — ou como futuros ou como imperativos. Aalders dá uma tradução aceitável: "o que é baixo é levantado, o que é alto é abaixado". O verbo hagèbêah (hiphil de gabah ser alto ou exaltado) pode ser traduzido como um imperativo enfático ou como uma afirmação de certeza absoluta, Da mesma forma, haSSãrãlâ (traduzido por vários e diferentes termos: baixo, humilde, de baixo status, humilhado, rebaixado) será certamente erguido a um lugar exaltado. Haverá um movimento da humilhação para a exaltação. Essa idéia imediatamente traz à lembrança a profecia de Isaías a respeito do servo humilhado que será altamente exaltado (ls 52.13-53.12). Ezequiel, entretanto, não faz uma referên­cia tão direta. Ele acrescenta uma frase paralela de absoluto contraste. O haggõbõah (substantivo derivado do verbo da frase anterior) é o exaltado. A pessoa que presentemente ocupa uma posição exaltada será certamente levada à humilhação. 

De quem Ezequiel está falando? Alguns comentadores opinam que o profeta está falando a respeito da queda de Zedequias (o exaltado será humilhado) e a respeito da restauração de Jeoaquim (o humilhado será exaltado),[41] Que a refe­rência seja à queda de Zedequias é certo, porque o profeta vinha-se referindo a ele. Não é só Zedequias, entretanto, que será humilhado: toda a casa de Davi, que ele representa, será rebaixada com ele. Portanto, não pode haver menção de uma restauração de Jeoaquim como rei. De fato, Ezequiel é enfático em decla­rar que a presente ordem do reino davídico chegou ao fim completo, e que outra ordem vai ser iniciada. Mas ele vai adiante: não somente o fim, mas também um futuro, deve ser esperado. Ezequiel está aludindo Àquele que virá.[42]

21.27b (TM21.32b). Gam-zõ’t lõ’ hãyâ (também isso não será). O debate continua a respeito do que significa isso, zõ’t.[43] Alexander, seguindo a New International Version, tem "this" (essa) referindo-se à grande reviravolta, quando o humilhado será exaltado.[44] Keil afirma que Ezequiel quer dizer que as ruínas, mencionadas três vezes, não permanecerão por todo o tempo.[45] Daí, a tradução "também ela (a cidade arruinada) será restaurada". Há em geral acordo entre esses comentadores de que zõ’t se refere ao humilhado sendo exaltado; se está incluída a restauração de Jerusalém, ou se a referência é somente à restauração da dinastia davídica, isso permanece um ponto de discussão. Outros comentadores têm visto no termo hebraico zõ’t (essa) refe­rência à queda de Jerusalém, Yahwéh tendo-a tornado uma ruína.[46] A inter­pretação da frase é diretamente determinada pelo que se segue e a diferença de interpretação é importante. Alguns apontariam para Nabucodonosor, que tinha o direito de executar o julgamento, e para outros, representando a casa davídica, os quais teriam o direito de reinar. A primeira posição considera a passagem referente apenas ao julgamento e, portanto, não-messiânica; a última posição julga que a passagem assegura aos ouvintes de Ezequiel a eventual restauração, e por isso a considera uma forte profecia messiânica. 

Ambas as interpretações referentes azô’t podem apoiar-se gramaticalmen­te. Tanto o julgamento quanto a restauração são referidos no enunciado da grande reviravolta. Devemos destacar, entretanto, que se for dada preferência ao antecedente mais próximo, o prenunciado conceito de restauração recebe maior apoio gramatical, isto é, estas, as ruínas, não permanecerão. Mas o próprio contexto seguinte também deve ser consultado antes de se chegar a uma posição final. 

Ad-bõ’ ’âSer-lô hammiSpãÇ ünètatttw (até que venha quem para ele o julgamento-direito-justiça, e eu lhe darei). O termo 'ad expressa tempo futuro; não há nenhuma referência específica a um período definido de tempo. Expres­sa a idéia de até, isto é, uma extensão de tempo entre agora e a ocasião em que o fato referido vai ocorrer. O verbo hebraico bõ’ expressa o fato de que ele, ela ou o que for virá. Dá base para expectativa. O que deve ser esperado não é especificamente afirmado. Ao contrário, é usada novamente uma frase de interpretação difícil para indicar o que está para vir no futuro. O termo composto ’ãSer-lô pode ser traduzido "que (ou quem) para ele". O que ou quem está para vir poderá esperar ter o que é mencionado como pertencente a ele. Devem ser completamente rejeitadas as tentativas de emendar esse termo composto.[47] O substantivo hammiSpãf pode ser compreendido como julga­mento (p. exv 23.24 RSV). Porque a passagem se refere ao julgamento de Zedequias e Jerusalém, de fato, julgamento severo, como expresso pela tríplice repetição do termo ruma, May, Wevers, Zimmerli[48] e outros têm dito que a frase se refere à autorização dada a Nabucodonosor para fazer ruínas. Eichrodt, por outro lado, rejeita essa interpretação, no que é apoiado pela maioria dos comentadores.[49]

Há razões substanciais para rejeitar esse ponto de vista. Primeiramente, o termo hammiSpã{ tem, como seu significado primário e mais óbvio, a idéia de direito ou justiça. Segundo, a construção gramatical apóia a idéia de que é a respeito de "direito" que Ezequiel está falando quando diz "que para ele". Terceiro, o termo que se segue (eu o darei) faz bom sentido quando entendido como: Yahwéh dará o direito à pessoa a quem ele pertence. Quarto, não há nenhuma evidência na passagem de que Nabucodonosor tenha adquirido o direito de destruir Jerusalém.[50] Finalmente, há a muito discutida referência a Gn 49.10.[51] Quase todos os melhores comentadores concordam que Eze­quiel, de algum modo, está fazendo referência e possivelmente explicando essa referida passagem. Jacó tinha profetizado que Judá seria preeminente até que o Rei viesse. Ezequiel, nesta mesma passagem, reforça a profecia de Jacó. Alguém está vindo, alguém que reinará. Ezequiel também faz claro que se deve considerar a casa de Davi, como tinha sido e ainda era, como o cumpri­mento pleno e final da profecia de Jacó. De fato, a casa de Davi será derrubada, mas o humilhado será exaltado. Alguém virá que pode certa e justamente receber o status, a posição e a honra de rei. Esse alguém não está ainda presente. 

Não se deve fazer nenhum esforço para identificar ou relacionar o Silõ’ de Gn 49.10 com o ’ãSer lô desta notória passagem. Isto não pode ter apoio léxico ou gramatical. Jacó refere-se a uma pessoa régia, possivelmente usando uma palavra de origem assíria. A tentativa de Zimmerli de fazer Ezequiel usar uma profecia de bênção como um meio de expressar maldição deve ser considerada uma "surpresa", e não uma tentativa bem sucedida.[52] Não há dúvida de que Ezequiel profetizou o julgamento de Zedequias; a passagem que estamos estudando dá-lhe forte expressão. Mas o ponto principal da passagem e suas afirmações mais destacadas são de que haverá uma exaltação da casa real, causada pelo próprio Yahwéh. A casa, que será humilhada, de fato foi humi­lhada pelo exílio de Jeoaquim e pela vassalagem de Zedequias; ela será plena­mente restaurada quando vier o tempo em que Yahwéh a apresentará a seu escolhido. 

Com muito poucas exceções entre os eruditos,[53] Ez 21.25-27 (TM 21.30-32) tem sido considerado messiânico. E pode ser afirmado com toda confiança que aqui o foco é o ponto de vista mais estrito do conceito messiânico. A pessoa régia, representando a casa de Davi, que terá direito ao trono e ao reino, é aquele de quem Ezequiel profetiza. O profeta já se referiu antes a essa mesma pessoa (1.25-28; 17.22) e o fará de novo, de modo mais direto e específico, no próprio contexto de suas profecias de restauração. 

Ezequiel 34.23-31. Proclamam-se na passagem dois temas centrais: Davi, o Pastor, e o pacto de paz. O primeiro requer uma discussão mais extensa em nosso estudo sobre a revelação do conceito messiânico do que o segundo. 

Há quatro abordagens para a interpretação da passagem davídica (34.23,24). Um dos principais fatores para as diferenças de interpretação é a afirmação dupla: o próprio Yahwéh será o Pastor, e Davi será nomeado como o único pastor. Uma abordagem a essa afirmação suscita o problema da intenção de Ezequiel de reconciliar sua própria esperança com a esperança profética tradicional a respeito da casa de Davi. Essa abordagem deve ser descartada, porque retrata Ezequiel (ou sua escola)[54] como uma fonte de esperanças religiosas ou políticas e não como o porta-voz de um Deus reve­lador. 

A segunda abordagem sustenta que a passagem fala do Rei Davi como sendo literalmente ressuscitado dentre os mortos. Ele voltará para reinar e ser o pastor de que Israel e Judá necessitam extremamente. Mais uma vez, os que adotam essa abordagem consideram Ezequiel como quem dá expressão à esperança do povo, bem como à sua própria. Essa abordagem também padece da falta de compreensão do papel profético de Ezequiel, como um profeta que fala pelo Senhor. 

Os proponentes da terceira abordagem negam completamente o caráter messiânico da passagem. Pensam que Ezequiel está dizendo que a velha dinastia davídica há de ser restaurada. "Davi" significaria a própria casa de Davi, coletivamente. O próprio Davi não será ressuscitado: sua dinastia é que o será, e a velha ordem continuará como antes. 

Os que seguem a quarta abordagem consideram que Ezequiel está procla­mando o cumprimento da promessa de Yahwéh a Davi, mencionada em 2 Sm 7. Diferem entre si a respeito de como deve ser entendido esse cumprimento, de como ele trará salvação e paz a Israel. Há um acordo geral a respeito das características messiânicas do governante davídico prometido e de seu reina­do,[55] mas há também amplas diferenças de opinião sobre a maneira como essas devem ser compreendidas.[56]

A posição considerada correta neste nosso estudo está dentro dos contornos da quarta abordagem. Ezequiel está profetizando o mesmo que Isaías e Jere­mias tinham proclamado a respeito do Messias davídico. Ezequiel dá uma ênfase específica e uma forma própria à mesma proclamação profética por causa de sua audiência (os exilados) e da circunstância (o exílio)[57] em que ele fala. Ezequiel prova-se um verdadeiro profeta, na linha dos fiéis porta-vozes de Yahwéh. Ele fala retrospectivamente: conhece o que foi revelado antes do seu tempo. Proclama a palavra de Yahwéh para as pessoas de seus próprios dias, e o faz com uma perspectiva que também alcança longe no futuro. Portanto, serve como fiel porta-voz, repetindo, expandindo e aplicando a mensagem messiânica especial que Yahwéh tem para seu povo em todos os tempos e circunstâncias. 

O texto da passagem (34.23-31) é bem atestado. Não há variações impor­tantes nos manuscritos principais. As emendas sugeridas por alguns críticos são motivadas mais por preferências na interpretação do que por material textual.[58]

O real contexto imediato de 34.23-31 provê o cenário que esclarece os temas da casa davídica e do pacto de paz. Os caps. 22-32, proferidos antes da queda de Jerusalém, contêm mensagens que são, em sua maior parte, proclamações de julgamento contra Jerusalém e Judá e contra as demais nações vizinhas.[59] Ez 33.1-20 registra uma elaboração do chamado do profeta para ser uma sentinela, juntamente com suas responsabilidades.[60] A explicação da queda de Jerusalém provê o apropriado contexto para a condenação dos pastores que são considerados em grande parte responsáveis pela calamidade de Judá e Jerusalém (34.1-10). Os pastores são os reis da dinastia de Davi (cf. Jr 3.14-17; 23.1-8). Yahwéh então declara que ele será o Pastor (Ez 34.11-16) e Juiz do rebanho (34.17-22). Segue-se então a passagem em estudo. 

O cap. 34, estudado extensamente, tem sido analisado e dividido de várias maneiras. Cooke trata do capítulo inteiro sob o título "O Rebanho de Yahwéh" e afirma que os w. 23-31 estão ligados aos versos precedentes.[61] Taylor divide o capítulo em seis partes.[62] O quadro 19 mostra que oito temas são proclama­dos como palavra de Yahwéh. As referências à casa de Davi e ao pacto de paz formam o clímax. 

Ezequiel proclama que o próprio Yahwéh resgatará e redimirá seu rebanho do cativeiro. Deve-se notar que o profeta não diz como ocorrerão a redenção e o resgate. Isaías havia escrito que Ciro, rei da Persa, seria o instrumento na mão de Yahwéh (Is 45.1-13). Ezequiel proclama que Yahwéh será o Pastor do rebanho redimido (Ez 34.11-16). Essa tarefa pastoral é extensamente explicada (34.11b-16). Yahwéh declara que vai procurar, resgatar e apascentar seu reba­nho.[63] Ezequiel prossegue dizendo que Yahwéh julgará membros individuais do rebanho: serão removidas as ovelhas gordas dominantes, que perturbam as outras e as impedem de receber as bênçãos a que têm direito como partes do rebanho (34.17-22). Usando a analogia do pastor que cumpre seus deveres para com o rebanho, Ezequiel representa Yahwéh cumprindo seus trabalhos pasto­rais; porém não explica em pormenores como Yahwéh realmente o fará. Será que Ele entrará direta, visível e pessoalmente na vida do rebanho? Nos comen­tários iniciais à passagem fizemos referência a um dos problemas principais. Yahwéh declara-se Ele mesmo Pastor e escolhe outro para ser pastor. A resposta a este assim chamado problema é dada em muitos e variados lugares da Escritura. Na passagem em consideração Ele é quem declara a palavra, mas é Ezequiel quem a comunica aos exilados. No centro deste assim chamado problema está a maneira pela qual Yahwéh se relaciona com aqueles que Ele chama especificamente para servir como seus agentes. Eles não se tornam pessoas mecanicamente manipuladas: conservam sua personalidade única; contam com suas próprias preocupações e com a situação das pessoas com quem têm de lidar. Falam como se tivessem dado origem aos pensamentos falados e agem como se eles próprios tivessem decidido exercer essas ativida­des. Entretanto, eles bem sabem que foram chamados a ser agentes; são instrumentos vivos de Yahwéh. É assim que Ezequiel funciona, e da mesma forma funcionará aquele a quem Yahwéh apontará para servir como pastor. 

Mais uma vez devemos acentuar que o que Ezequiel proclama não surge como esperanças, idéias ou ideais dos anseios do povo. Eles não ansiaram pelo exílio anunciado, nem sonharam com um rei idealizado, nem esperaram por ele. No tempo de Ezequiel o povo não cria que o exílio fosse o fim do reino e da dinastia davídica, assim como os tinha conhecido. Ezequiel profetiza os fatos reais a respeito do julgamento do exílio a um povo descrente, duvidoso e desnorteado. Essa profecia, e outras semelhantes, tornam-se as bases das esperanças dos judeus no período intertestamentário. 

34.23,24. Wahâqimõti ’alêhem rõ'eh ’ehãr wèrã'â ’ethen (e levantarei sobre eles um pastor e ele os pastoreará).[64] O hiphil de qüm freqüentemente indica a presença permanente do pacto de Yahwéh com alguém ou com seupovo e enfatiza a continuação segura do que Yahwéh vai fazer. Em contraste com os maus pastores da casa davídica, Yahwéh estabelecerá um pastor, firme e permanentemente. Esse pastor não falhará em seus deveres. Houve pastores antes; gerações sucessivas tinham tido pastores da casa davídica. Yahwéh assegura aos exilados errantes, depois que ouviram sobre a remoção da dinas­tia davídica, a certeza de que haverá um pastor. Esse pastor não procederá da mesma forma em que procederam os outros que o antecederam. Ele será um verdadeiro pastor, pois apascentará o rebanho como o requer Yahwéh (34.4,11- 16). Cada membro individual do rebanho, seja qual for sua condição ou necessidade, será protegido. As reais necessidades do rebanho como um todo serão satisfeitas. A falha dos antigos pastores estará em agudo contraste com a obra fiel e eficiente desse pastor único. 

O pastor a ser provido é identificado: ’êt 'abdi dãwid (meu servo Davi). Yahwéh continua a manter seu pacto com Davi (2 Sm 7.8-17). O filho que se sentará no trono eterno de Davi, e que fora precedido e tipificado por Salomão e Ezequias (e que deveria ter sido tipificado por todos os reis davídicos) será suscitado. Recordemos as quatro abordagens à interpretação da passagem.[65] O termo servo é de grande importância para a interpretação. Moisés fora designado assim, bem como o Servo humilhado e exaltado de quem Isaías profetizou (Is 52.13-53.12). Isaías profetizou a respeito do Ramo ou Renovo da casa de Davi. Dirigiu sua atenção para uma pessoa que representaria e faria de uma vez por todas o que Yahwéh prometera a Davi e a Moisés e através dele e a Abraão. Portanto, o próprio Davi não seria ressuscitado fisicamente. Nem é a casa davídica restabelecida ao que fora antes. Os antecessores e tipos serão removidos; o antítipo será estabelecido. Aquele que Davi esperava—o último, o final, o Filho pastor, sempre a servir — é colocado diante dos perturbados exilados ouvintes de Ezequiel. Suas esperanças devem centralizar-se no único Pastor verdadeiro e capaz, não em prefigurações, sombras e predecessores. 

Hl’ ytr'eh ’õtãm ivèhü’-yhwh lãhen lèrõ'eh (ele os pastoreará e será um Pastor para eles) (v. 23b). Estas duas frases repetem a certeza com a qual o rebanho pode contar e esperar o cuidado, a direção, e a proteção do pastor. O descendente davídico — o Único — o desde sempre designado verdadeiro sucessor de Davi nunca falhará para com seu povo.[66]

Ezequiel proclama que relação haverá entre Yahwéh e o Pastor (34.24). Yahwéh dissera que Ele próprio serviria como pastor (34.11-16). Agora Eze­quiel, como porta-voz de Yahwéh, declara que wa’ãnl yhwh ’ehyeh lãhem lê’lõhim (eu, Yahwéh, serei Deus para eles). Yahwéh é o seu soberano Senhor e Governador todo-poderoso. Ele os possui; Ele os ama; Ele suprirá tudo quanto eles necessitam. Ele demonstrará sua fidelidade como Deus pelo que faz por meio de seu 'ebed (servo). O termo servo fala diretamente de alguém que serve a outro ou em beneficio de outro. O pastor davídico cumprirá as promessas de Yahwéh o Pastor. E pode fazê-lo porque está em estreita relação com Yahwéh e também porque será o Rei no meio e sobre o povo de Yahwéh. O termo riãéV (elevado, exaltado) é usado aqui.[67] Esse Pastor substituirá todos os elevados e proeminentes reis-pastores do passado. Ele será o Rei Pastor. Ele será exaltado, mas fará toda a obra de um pastor no meio de seu rebanho. Será o agente de Yahwéh; representá-lo-á, mas estará com o rebanho e no meio dele. 

Na passagem (34.23,24) o caráter exaltado do Pastor é claramente afirmado. Os aspectos humildes inerentes ao pastor estão implícitos e não devem ser subestimados. À luz do que Ezequiel profetizara antes, e do que Jeremias, Isaías, Miquéias, Amós, Oséias e Joel tinham profetizado, só se pode tirar uma conclusão: Ezequiel profetiza a respeito do mãSiah (messias). Embora o termo hebraico não apareça no texto, a mensagem é clara e definida. A pessoa real, o ponto de vista mais estrito do conceito messiânico, é posta diante do povo no exílio. É dada igual ênfase à sua obra, a dimensão mais ampla do conceito messiânico. O que Ezequiel profetiza, isto é, o que Yahwéh lhe tinha revelado (34.24d), não é senão a pessoa e a obra do Messias.[68] Quando Cristo estava na terra, declarou que Ele era, realmente, a Pessoa de quem Ezequiel falara: "Eu sou o bom pastor" (Jo 10.11). 

34.25-31. É importante focalizar a atenção primeiramente no último versí­culo da passagem. Dirigindo-se aos exilados, que ouviram sobre a queda de Jerusalém e a remoção do trono davídico, Ezequiel, como porta-voz de Yah­wéh, declara que eles são sõ’ni (minhas ovelhas) e sõ’n mar'iti (ovelhas de minha pastagem) (v. 31). A mensagem de Yahwéh mediante Ezequiel é para o povo no exílio. Eles foram reclamados por Yahwéh; devem, portanto, saber que são dele. Mas eles têm de conhecer também seu status como ’ãdãm (humanidade). Eles são o povo que, possuído e governado por Yahwéh, deve reconhecer a soberania de Yahwéh que diz’afiem ’ãnl ’èlõhêkem (para vós eu sou vosso Deus) (v. 31b) e a ela submeter-se. Yahwéh assegura aos exilados seu status e suas bênçãos pactuais. Yahwéh é seu Deus; Ele estará com seu povo e guardará seu pacto com eles. 

O assunto central da passagem (34.25-31) é o bèrit Sãlõm (pacto de paz). A passagem é totalmente escatológica em caráter. É indiretamente messiânica em vista de sua relação com a obra do Messias. Ficou evidente em nosso estudo de Is 11.6-9 que as próprias condições renovadas, aqui repetidas nos termos de Ezequiel, eram resultado da presença e da obra do Messias (cf. Os 2.18; J1 2.28-3.3 [TM3.1-4.3]; 3.14,15). As próprias condições resultantes são resumidas no termo paz, que se refere não apenas à cessação de hostilidades, mas muito mais à restauração de todos os aspectos da vida. Paz (Sãlôm) fala de totalidade, integração e saúde.[69]





Ao proclamar essa mensagem do pacto de paz, Ezequiel usa termos facil­mente entendidos por sua audiência. Fala, pois, da restauração do povo do pacto à sua terra, onde viverá em obediência ao Senhor do pacto. Fala da remoção dos animais ferozes, do deserto inabitável (cf. Is 35), de colheitas fartas, de liberdade política, de segurança e livramento contra nações saquea­doras. Fala do conhecimento que eles têm de Deus e da garantia de serem o povo afeiçoado de Yahwéh. Ezequiel combina as bênçãos pactuais enunciadas por Moisés (Êx 19.4-15; Lv 26.6; Dt 11.13-15; 283-14), Jeremias 0r 31.31-34), e outros profetas. 

Uma questão de interesse é se o novo pacto que Jeremias proclamou (Jr 31.31-34) e o pacto de paz que Ezequiel profetiza referem-se ao mesmo tempo e às mesmas condições. Há pouco desacordo, se há algum, de que ambos podem ser esperados como resultado da presença e da obra do Messias. Vários estudiosos admitem que o novo pacto e o pacto da paz são idênticos,[70] e são modos semelhantes de falar do reino do Messias.[71] Alexander é objetivo: o pacto da paz não é o novo pacto. Sua interpretação e aplicação específicas dos dois pactos podem ser questionadas, mas ele está certo em dizer que o pacto de paz será inaugurado no futuro, em seguida à realização do novo pacto.[72] Jeremias, falando do novo pacto, estava profetizando diretamente a respeito da era do Novo Testamento, quando o Messias estaria presente e serviria como Mediador do novo pacto (Hb 8.8-13). Esse cumprimento do novo pacto era, como Eichrodt indicou, um tempo de inauguração para o pacto da paz. Como Isaías (Is 11.10-16), assim também Ezequiel fala aqui do evento ou período escatológico final. Ele falou em termos de um "Israel renovado em Canaã", que serve como tipo dos céus e terra renovados. O Messias, o Filho de Davi, o Pastor real, cumpriria os requisitos e as reais condições do novo pacto, o que prepa­raria a cena para a aparição final do eterno reino de paz. 

Enquanto profetiza sobre o futuro, Ezequiel, na verdade, tem em mente o remanescente de Israel (os exilados). Mas sua referência vai muito além do retomo histórico dos exilados em 536 a.C. sob Ciro. Ele fala em vários termos e em vários tempos do novo pacto (Jr 31; Hb 8) e do pacto de paz (Is 11,35; Ap 20-22). As próximas três passagens de Ezequiel (as últimas a serem estudadas) devem ser elaboradas sobre estas. 

Ez 36. Após profetizar sobre a constituição do Pastor Davídico como Go­vernante sobre Israel e o pacto de paz (34.25-31), Ezequiel passa a profetizar contra Edom e outras nações. Edom sofrerá severo julgamento por causa de suas atitudes e ações contra Israel e Judá, especialmente no tempo de aflição (cap. 35; cf. Am 1.11,12; Ob 1-14). O profeta dirige também uma palavra de julgamento contra outras nações por causa de sua malícia e zombaria demons­tradas quando Yahwéh trouxe o julgamento sobre seu povo desobediente e rebelde (36.1-7).[73] O restante do cap. 36 apresenta o que Yahwéh fará por seu povo. Não há referência ao mãSiah, (messias) ou ao 'ebed yhwh, mas, sem que ele seja citado diretamente, os resultados de sua obra e presença são repetidos e elaborados. 

Em 36.8-38 os temas principais são: (1) Yahwéh olhará com favor para seu povo; (2) ele vindicará seu santo nome;[74] (3) introduzirá o novo pacto; (4) restaurará a terra como se fosse o Éden, o pacto de paz; e (5) o conhecimento de Yahwéh será universal. 

Em primeiro lugar, o favor que Yahwéh concederá a Israel será revelado no retomo à terra, na reconstrução das cidades, na obtenção de prosperidade, e em tomar-se numeroso (36.8-12; 37,38). Note-se como estes todos são elemen­tos específicos do pacto que Yahwéh fez com Abraão, Moisés e Israel no monte Sinai e no Jordão. O retomo do exílio está definidamente na perspectiva de Ezequiel, mas ele descreve em termos gloriosos e magnificentes uma perspec­tiva que está além disso. O retomo deve ser visto como o primeiro passo ou estágio na realização dos propósitos pactuais de Yahwéh e de Seu Reino. 

O segundo tema é que Yahwéh tinha (e ainda tem) grande interesse por seu próprio nome, especialmente por sua santidade. Israel e Judá os profanaram, assim como as demais nações o fizeram. Yahwéh vai vindicá-los pelo retorno do exílio e pela punição das nações zombadoras (36.13-23). 

O terceiro tema volta ao que Jeremias tinha profetizado como aspectos específicos do pacto que Yahwéh deveria refazer com seu povo (cf. Jr 31.31-34). Jeremias tinha profetizado a respeito da lei nas mentes e corações, da garantia de que a relação entre Yahwéh e seu povo seria segura, do conhecimento comunal de Yahwéh e do perdão da iniqüidade e do pecado. Ezequiel desen­volve esses temas (36.24-27). 

Depois de garantir que haverá um retorno (36.24), Ezequiel proclama a certeza do perdão e da purificação (36.25). Um espargir (lavar) com água pura há de acontecer. É para ser uma purificação completa. Isaías profetizara a respeito de uma aspersão das nações pelo Messias que viria (Is 52.15). Assim, ò perdão que Jeremias proclamou é repetido em termos vívidos. Ezequiel refere-se também especificamente a duas fontes de impureza — as do povo (falta de uma vida santificada) e a adoração de ídolos. 

Jeremias profetizara a respeito da lei nas mentes e corações. Ezequiel amplia o reconhecido conceito afirmando wènãtatti lãkem lêb hãdãS wèrüah hãdãsâ (e lhes darei um coração novo e um espírito novo) (36.26a). O adjetivo é o mesmo que Jeremias empregou; mas a ênfase é renovação. Não será uma substituição, mas uma renovação, cumprida por meio de uma real mudança no coração — de um de ’eben (pedra), que fala de dureza e rebelião, para um de bãáãr (carne), que fala de vida e resposta em amor ao Senhor. O novo espírito, nova atitude, nova direção de vida e nova relação com Yahwéh serão produzidos pela colocação {’ettên: pôr, dar ou colocar; o termo hebraico Sãpak, derramar, não é empregado aqui; cf. J12.28 [TM 2.29]) do Espírito de Yahwéh dentro deles. Como vimos em nosso estudo de Joel, esta é uma profecia do Pentecoste (cf. At 2.17-21), que é um aspecto integral do novo pacto realizado na obra de Cristo e do Espírito Santo, na aurora da Era do Novo Testamento. O Espírito de Yahwéh, então, será a causa da mudança do espírito e do coração, e o resultado dessa mudança será seguir os huqqay (meus decretos) e miSpãfay (meus julgamentos ou leis), diz Yahwéh (36.27b). Portanto, a lei na mente e no coração (cf. Jr 31.31-34) não residirá meramente aí; será obedecida, cumprida e demonstrada na vida diária. 

O quarto tema do pacto da paz é inseparável da renovação das pessoas, sendo-lhe subseqüente (Ez 34.25-31). A terra será renovada (36.28a-29,35,36). Os exilados podem esperar uma realização inicial dessa bênção em seu retorno à sua terra, se realmente mostrarem sinais de uma renovação da mente e do coração e começarem uma vida santificada. O registro histórico é claro: eles não responderam aos líderes (Esdras e Neemias) e profetas pós-exílicos (Ageu, Zacarias e Malaquias).[75] O cumprimento e a realização completa do pacto de paz seguir-se-ão à inauguração do novo pacto, e, portanto, não dependerão realmente da fidelidade e obediência do remanescente que retomou do exílio para a sua realização completa, plena e final. 

O quinto tema que Ezequiel desenvolve é o conhecimento de Yahwéh (36.36,38b; cf. v. 23). Isaías tinha falado a respeito de a terra encher-se com o conhecimento de Yahwéh (Is 11.9), como uma bendita característica da consu­mação (pacto de paz). Jeremias também profetizou isso como um resultado inerente ao estabelecimento do novo pacto. Ezequiel vê e proclama esse conhecimento como universal — pessoas de todos os povos e nações conhece­rão Yahwéh como o Deus que falou e que cumpriu o que dissera. 

Ezequiel não está preocupado primariamente em dar uma real mensagem messianicamente orientada.[76] Nem é seu propósito primário dar uma lição de história futura. Seu propósito é, antes, chamar o povo de seu tempo ao arrepen­dimento e a uma viva esperança para o futuro.[77] E o faz, em termos expressivos e eloqüentes, na passagem que estamos estudando. O apelo ao arrependimento é cingido por declarações do pecado do povo que o levou ao julgamento (exílio), e da condição de seus corações (como pedra). O chamado à esperança é desen­volvido pela profecia dos três estágios da agenda escatológica de Yahwéh: (1) o retomo do exílio, que é certo; (2) a introdução de novo pacto com a vinda do Messias e o derramamento do Espírito Santo; e (3) o estado final de bem-aven­turança — a realização plena do pacto de paz nos céus e terra renovados.[78]

Ezequiel não desenvolve essa mensagem dada por Deus nos termos de uma profecia explicitamente messiânica. Não fala do Rei que virá, o Messias; portanto, não se refere ao conceito messiânico em seu sentido mais estrito. Entretanto, como é óbvio, quando consideramos o reconhecido contexto mais amplo das profecias de Ezequiel e dos outros profetas, vemos que ele fala quase exclusivamente da obra do Messias e de seus benditos resultados. 

Uma nota final pode ser útil. No estudo da profecia messiânica de Joel concluímos que ele estabeleceu uma agenda para os profetas que lhe sucede­ram. Ezequiel certamente segue essa agenda, quer tenha tido consciência disso, quer não. Ele faz mais: elabora, explica, expande e aplica-a aos ouvintes de seu tempo e a todos os que lêem sua profecia. 

Ez 37.24-28. Mowinckel considera que os w. 22-25 deste capítulo são messiânicos, por causa da estreita conexão entre o Messias e as antigas concep­ções israelitas de rei e realeza.[79] Mas ele limita drasticamente o escopo do conceito a um fator político. 

O cap. 37 registra a elaboração de Ezequiel sobre a presença e obra do Espírito, da qual ele profetizara antes (36.27). Numa experiência visionária,[80] o profeta recebe a mensagem da descida do Espírito sobre o que estava morto — e portanto sem esperança — e trazendo-o à vida (37.1-10). E dito a Ezequiel que os ossos secos, vindo à vida, representam o povo no exílio (37.12); eles serão libertados do exílio como de um túmulo. A habitação do Espírito neles os reviverá e os levará de volta à sua herança pactual (37.14). 

Uma grande bênção se seguirá à presença e à obra do Espírito: Efraim (Israel) e Judá serão reunidos quando forem levados de volta à sua herança (37.15-21).[81] Sua unidade será demonstrada pela sua comum recepção e lealdade a um rei (v. 22). A ênfase na passagem está na unidade, embora o rei unificador não seja mencionado pelo nome. O povo unificado será purificado, salvo e reclamado por Yahwéh (v. 23). A passagem seguinte (37.24) exige cuidadosa atenção e estudo. Ezequiel repete o que tinha sido profetizado previamente por ele mesmo e por outros profetas, e ao fazê-lo, dá maiores garantias, elaborando e aplicando essas profecias.[82] Ele também introduz um tema que será extensamente desenvolvido mais adiante, ou seja, o da habitação de Yahwéh no meio de seu povo. 

37.24. VWàbdi dãwid melek 'alêhem (e meu servo Davi será rei sobre eles). Este verso repete o que Ezequiel profetizara antes a respeito de Davi (cf. 34.24). O termo rei, e não príncipe, é usado desta vez. Esta alternativa de terminologia não reflete necessariamente diferentes autores ou um estágio posterior. Ambos os termos dão ênfase ao caráter e status régios de Davi. O termo rei (que se refere especificamente a alguém reinando sobre um trono) é usado nesta profecia para dar ênfase à certeza de que o verdadeiro e único descendente de Davi será entronizado e funcionará ativamente como tal. 

Werô'eh ’ehcid yihyeh lêkullãm (e um pastor será para todos deles). A tarefa de pastorear, na qual vários membros da dinastia davídica falharam tão miseravelmente, será assumida e cumprida pelo rei vindouro. Ezequiel conti­nua o tema da unificação usando a frase todos deles. Todos aqueles de Israel e de Judá que estão salvos e purificados (37.23) receberão o cuidado do Rei-Pastor. E aqueles que constituem o rebanho redimido responderão. 

Cbèmispãfay yêlêkü yêhuqqõtay yiSmèrü wô'ãáü (e meus julgamentos ou leis eles seguirão, meus estatutos eles guardarão e farão). Os dois termos, julgamentos e estatutos, podem ser considerados como incluindo a totalidade da lei pactual revelada. A regra pactual para a vida, culto e trabalho, dada por Yahwéh, será seguida. A repetição de Ezequiel dá ênfase a essa obediência; a vontade de Yahwéh será guardada, isto é, lembrada, honrada e ensinada para ser seguida nas atividades e na vida diárias. Realmente, a santificação tem de seguir-se à regeneração, conversão e justificação. O Pastor real terá uma influência efetiva sobre seu rebanho. 

37.25 A primeira frase repete o que fora afirmado antes. Os exilados retornarão à sua terra, à terra que tinha sido dada a Jacó.[83] A referência é obviamente ao retomo depois do estágio de quatrocentos anos no Egito, quando os descendentes agora livres de Jacó retornaram à terra como Yahwéh tinha prometido (Gn 46.3-4; cf. 15.13,16). Como houvera um retomo séculos antes, haverá também um retomo para os exilados. A frase hebraica seguinte deve ser observada cuidadosamente: wèyõsbü ’al-hã’ãres (e habitarão na terra). A frase é clara e definida. Os exilados, que acabam de ouvir a notícia da queda de Jerusalém e que possivelmente se encontraram com aqueles que tinham sido exilados nessa ocasião e que falaram do despovoamento da Terra Prometida, recebem uma garantia definida! As frases seguintes dão a isso uma perspectiva de longo alcance. Himâ (eles), o povo, que haveria de retornar e ter sobre si o Pastor Real davídico, habitaria ali. E bênêhem (sua posteridade): Ezequiel dirige a atenção para o futuro bènê bènêhem (e a posteridade de sua posteridade). A perspectiva do profeta vai ainda mais longe.[84] O profeta assegura à sua audiência que esse habitar em segurança e fidelidade sob o Pastor régio continuará por todos os tempos. E no clímax ele declara: 'ad-ôlãm (perpetuamente). Esse habitar e ser pastoreado será eterno. 

A visão escatológica apresentada por Ezequiel abrange a totalidade do tempo — desde o exílio até o fim do tempo. Portanto, ele cobre o tempo do retorno do exílio, o novo pacto (ou a era do Novo Testamento) e, no fim, a inauguração do tempo do pacto de paz, isto é, o estado eterno e final. No decurso de todo esse espaço de tempo não haverá interrupção em seu habitar sob o governo do Rei e seu cuidado pastoral.[85]

A referência é novamente a Davi. O fenômeno davídico é claramente o reconhecido conceito central na mente de Ezequiel, quando ele proclama a palavra de Yahwéh aos exilados. Como o futuro dos exilados é tão intimamente entretecido com as promessas a Davi (2 Sm 7) e sua operação, pode compreen- der-se por que Ezequiel repete wèdãwid ’abdi riãái lãhem leôlãm (e Davi meu servo [será] príncipe para eles para sempre). Davi é novamente referido como o "levantado", o príncipe, o homem régio que, como representante e agente de Yahwéh, estará presente e atuará por todo o tempo vindouro. O reinado, o cuidado pastoral, a segurança do povo e as suas constantes provisões continuarão por todo o tempo, bem como a posição e função do Rei. 

37.26-28. Ezequiel repete o que tinha profetizado antes: o estabelecimento do pacto de paz (cf. 34.25). Acrescenta o reconhecido conceito de perpetuidade ao acrescentar 'ôlãm (v. 26a). Como antes concluímos, o pacto de paz será realizado como o estágio final do plano de Yahwéh; Ezequiel, portanto, está-se referindo ao fim do tempo do reinado do rei davídico. Prossegue apontando para o estágio inicial do grande futuro ao dizer outra vez que Yahwéh os estabelecerá e multiplicará (v. 26b). As promessas pactuais são repetidas. Então o profeta lança mão de um símbolo que relembra os dias de Israel no deserto. 

Wènãtatti ’et miqdõSí betôkam lè’ôlãm (e estabelecerei meu santuário no meio deles para sempre) (v. 26c).[86] O santuário simbolizava a presença de Yahwéh e servia como lugar de encontro entre Yahwéh e seu povo no deser­to.[87] De novo temos a garantia de que isso será para sempre (cf. v. 28c). A fórmula pactual é repetida: "Eu serei o seu Deus, eles serão o meu povo", quando Ezequiel profetiza que o mtó&ên(lugar de habitação) de Yahwéh, sinônimo de santuário, estará com eles (v. 27). A presença de Yahwéh no meio de seu povo mostrará a todas as gentes e nações que é Ele quem santifica, isto é, quem salva, purifica e estabelece o seu povo (36.24-28; 37.13,14,23). 

Na passagem estudada acima (37.24-28), não se pode deixar de observar um aspecto político, assim como o indicou Mowinckel. Mas é um elemento menor, se o adjetivo político é tomado no sentido de organização nacional. De fato, pode mesmo ser considerada uma possibilidade remota, em comparação com o reinado eterno que o Rei davídico exercerá, com todas as bênçãos que o acompanham. Esse reinado — um reinado pastoral — concentrar-se-á nos aspectos espiritual, moral, social, econômico e político da vida em que a santificação, fluindo da regeneração, conversão, exercício de fé e obediência, e justificação, será a influência dominante. 

A passagem, que se refere a três estágios da agenda escatológica de Yahwéh, a saber, o retorno dos exilados,[88] a vinda de Cristo e a era do Novo Testamento, e a consumação final, ilumina o reconhecido conceito messiânico. Yahwéh, por meio de Ezequiel, revela de novo que o Messias vindouro é uma pessoa régia e cumprirá efetivamente o trabalho do bom Pastor. Os pontos de vista mais estrito e mais amplo do conceito messiânico estão habilmente tecidos juntos para apresentarem uma forte base e um claro padrão à esperança messiânica. 

Um aspecto específico do tema do pacto sempre a recorrer é a referência à presença de Deus com seu povo. É mencionado verbalmente na fórmula pactual: "Eu serei o seu Deus e eles serão meu povo" (37.27 NIV). Esta bendita relação será expressa pela presença eterna de Yahwéh em seu meio. Essa referência ao santuário, que em si mesma tem conotação messiânica — Cristo "tabemaculou" no meio do povo (Jo 1.14) — demonstra a presença real de Deus com seu povo. Ezequiel retomará o tema da habitação eterna de Deus com seu povo na última parte de suas profecias.[89]

Ez 40.1-48.35. Ezequiel recebe uma revelação espetacular por meio de uma visão (40.1-4) treze anos depois da profecia imediatamente anterior (33.21). Nessa visão, como Eichrodt lembrou corretamente aos leitores, não há nenhu­ma referência ao Messias dos caps. 34 e 37 e nenhuma referência às gentes e nações estrangeiras. Ao contrário, Ezequiel pinta a salvação como um todo em termos de um povo salvo (os exilados que retomam) que tem a justificação de sua existência no templo e no culto.[90] Se, realmente, não há referência ao Messias, pode essa visão ser considerada messiânica? Hengstenberg escreve sem rodeios que todo o relato, em seus aspectos principais, "é de caráter messiânico".[91] Aalders, depois de um extenso estudo exegético, afirma que a visão tem a ver com o templo, a lei e a terra; isso implica em que ele considera a visão messiânica somente de um modo indireto, se de todo.[92]

Em nosso estudo da revelação do conceito messiânico alguém poderia desencaminhar-se e envolver-se num debate multifacetado sobre problemas hermenêuticos e escatológicos. Isso poderia desviar-nos do propósito princi­pal, isto é, da compreensão do conceito messiânico, assim como foi progressi­vamente revelado. 

É prudente, a esta altura, observar que o debate moderno sobre a maneira de entender Ez 40-48 era bem ativo no tempo de Hengstenberg (cerca de 1850). Esse erudito evangélico escreveu vigorosamente contra uma interpretação literal.[93] Aalders,[94] Noordtzij,[95] e Edward Young[96] fizeram o mesmo nas décadas de 1950 e 1960. Alexander, em contraste, fez um esforço especial para sustentar uma interpretação muito literal desses capítulos e procurou respon­der a perguntas sobre pormenores do templo, do sistema sacrificial e do sacerdócio de um modo que muitos eruditos do passado e do presente têm considerado não razoável, irrealista e contrário ao propósito declarado de Ezequiel — que é proclamar: "Yahwéh está aqui", isto é, com seu povo para sempre.[97] Enquanto isso, a crítica da forma e a crítica histórico-redacional não têm ajudado na interpretação por causa de suas discussões sobre a composição e caráter do texto.[98]

O caráter messiânico dos últimos nove capítulos pode ser delineado como segue: Primeiramente, a colocação do santuário, referido em 37.26,27, é parte da restauração messiânica a ocorrer sob o reinado e obra pastoral do rei davídico por vir. Portanto, a elaboração nos caps. 40-48 é uma explicação, por meios visionários e em termos que os exilados em suas condições entenderiam, da presença do santuário e de seu significado. Segundo, o santuário fala da presença de Yahwéh; isso é a promessa pactual a ser cumprida plena e completamente por meio da obra do rei messiânico prometido. O clímax com que Ezequiel conclui sua profecia, yhwh Sãmmâ (o Senhor está aqui) (48.35 NIV), confirma que a mensagem central de Ezequiel em sua última profecia é a assegurada presença do Senhor por todos os tempos e para sempre com seu povo. Terceiro, a vinda do Espírito, pela qual os ossos mortos voltam à vida (37.1-14) está estreitamente associada ao reinado e à obra do rei messiânico (37.15-28). O Espírito, tendo revivido os ossos mortos, santificá-los-á e reunirá o povo do pacto. Ezequiel desenvolve o tema da vinda do Espírito sob o reinado messiânico em 47.1-12. Essa mensagem profética da vinda e presença do 

Espírito em medida cada vez maior tomou-se realidade depois que Cristo subiu aos céus para assumir seu trono e reinar dali. Seu primeiro ato registrado como Senhor reinante foi derramar seu espírito sobre toda carne (At 2.1-4,16). Ezequiel pinta essa vinda do Espírito em termos vívidos quando descreve como o rio da vida começa a fluir do santuário, isto é, da própria presença do Senhor (47.1-12). 

Finalmente, as referências que Ezequiel faz à divisão da terra (48.1-29) com o resultado de que as heranças pactuais prometidas se tornam possessão permanente do povo de Yahwéh, são também feitas em relação à presença e à obra do rei messiânico. 

A Mensagem Messiânica da Profecia de Ezequiel 

A mensagem de Ezequiel tem uma orientação messiânica definida e pode ser caracterizada como uma profecia de julgamento, graça soberana, miseri­córdia e esperança escatológica. 

O próprio Ezequiel, um sacerdote, é chamado de maneira pouco usual para servir como profeta. Pelos títulos de fílho do homem e atalaia, ele é identificado como um tipo messiânico. Em suas experiências e métodos de receber e proclamar suas mensagens, reflete dimensões messiânicas. Mas, acima de tudo, nas próprias mensagens que proclama ele apresenta o Messias vindouro. 

Enquanto em alguns profetas o Messias vindouro é retratado como um agente de julgamento, Ezequiel não o apresenta assim tão prontamente. Ele trata do julgamento de Yahwéh sobre o povo do pacto como uma realidade presente, trazida por Yahwéh por meio de agentes políticos e militares. Esse julgamento é devido à falha dos pastores (os reis) nomeados por Yahwéh, bem como dos sacerdotes e profetas (Ez 34); é também atribuível à infidelidade e rebelião do próprio povo. A execução do julgamento dá a Ezequiel um contexto no qual fala do Messias vindouro em termos da dinastia davídica e do cuidado pastoral adequado que Yahwéh deseja e exige para seu povo. Tanto a pessoa (davídica) quanto a obra (pastor) não serão efetivas sem a presença e ação do Espírito de Yahwéh (caps. 34,37). Ezequiel, como os profetas que o precederam, apresenta ambos os aspectos da idéia messiânica. Ele proclama que uma Pessoa régia a reinar aparecerá por iniciativa de Yahwéh — o ponto de vista mais estrito. Fala também do ponto de vista mais amplo — as reais características dessa Pessoa real, sua obra e seus resultados. É, em análise final, essa procla­mação do Messias em sua totalidade que oferece uma esperança viva e perma­nente para os exilados perplexos em Babilônia. 

As Dimensões Escatológicas da Profecia de Ezequiel 

Num sentido real, a perspectiva de Ezequiel vai do paraíso perdido ao paraíso plenamente recuperado. Reflete particularmente uma consciência pro­funda do pacto de Yahwéh com Moisés e Israel e do papel dos reis, sacerdotes e profetas como agentes do pacto. 

Ezequiel indica uma consciência plena da importância crucial de seu pró­prio tempo. Era um tempo de julgamento e de profundo abatimento. A não ser pela graça e misericórdia de Yahwéh, por sua compaixão, por seu desejo que ninguém pereça (caps. 18,37), Ezequiel compreende que não haveria futuro. Mas ele, consistentemente, proclama esperança. Blackwood estava muito certo ao referir-se à mensagem de Ezequiel como uma "profecia de esperança".[99] Ezequiel, como porta-voz de Yahwéh, revela que essa esperança se realizará particularmente em três estágios: (1) o retomo do exílio, (2) a era do novo pacto, com a vinda do rei davídico na função de Pastor, e o Espírito cumprindo seu papel regenerador e santificador, e (3) um pacto de paz, quando a humanidade e toda a criação serão plenamente reconciliados, renovados e restaurados em unidade indissolúvel. 

A Resposta à Profecia de Ezequiel 

Até a queda de Jerusalém não há nenhuma evidência de que algum dos exilados cresse em Ezequiel. A despeito da mensagem de Jeremias (Jr 29.10), que os advertia de um longo exílio, e da ênfase incessante de Ezequiel em que a condenação viria plenamente sobre os que ainda estavam em Jerusalém, esses que já estavam no exílio continuavam a descrer no profeta. Depois que chegaram notícias da queda, a falta de fé continuou. O povo considerava Ezequiel como uma pessoa que os entretinha (Ez 33.32). Não há nenhum indício de que estivesse presente no coração e na mente do povo uma expec­tativa, uma esperança da operação dos propósitos de Yahwéh. Eles queriam, ansiavam mesmo, que a velha ordem continuasse. Desejavam a monarquia. Desejavam um reino terreno, físico, deste mundo, em que tivessem segurança e prosperidade, como seus antepassados tinham gozado sob Davi, Salomão e Ezequias. Esse desejo da continuação do status quo tornava-os cegos, surdos e endurecidos à mensagem de Yahwéh. O ponto de vista de que a esperança messiânica no Judaísmo tardio era um desenvolvimento de esperanças laten­tes que começaram a germinar na mente de um profeta é definitivamente incorreto. As esperanças do Judaísmo tardio eram baseadas na interpretação incorreta do pacto de Yahwéh com Davi e das profecias que foram apresen­tadas. Em outras palavras, as esperanças eram baseadas na revelação que estava sendo incorretamente interpretada. Mas alguns tinham a interpretação correta e uma esperança válida; entre esses estava o fiel Simeão (Lc 2.25-35). 

O livro de Ezequiel não revela muito a respeito da resposta pessoal do próprio Ezequiel. Ao proclamar e escrever suas mensagens, ele não introduz seus próprios pontos de vista, suas próprias reações e esperanças, como o fizeram alguns dos profetas que o precederam, como Oséias, Isaías e Jeremias. Ele reage, entretanto, quando lhe foi ordenado preparar sua comida queiman­do excremento humano (4.12,15). 

Ezequiel estava plenamente cônscio dos planos, dos métodos e do esquema temporal geral de Yahwéh. Ele submeteu-se a Yahwéh e a seu Espírito. Como um servo sacerdotal e profético de Yahwéh, cumpriu fielmente suas tarefas. Na verdade, nesse aspecto ele mostrou que era uma verdadeira prefiguração do Messias, a respeito de quem profetizava. 







[1] Wevers provê um bom estudo do uso de parábolas, alegorias, histórias, enigmas e fábulas, e explica a razão por que ele considera que o recurso literário usadono cap. 17 é uma fábula, uma história em que animais e plantas agem como seres humanos. A maioria dos comentadores, entretanto, fala da alegoria de Ezequiel. Alexander preferiu falar do enigma ("Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.820-821), enquanto Greenberg escolheu enigma e fábula {Ezekiel 1-20, em AB [1983], 22 307). 


[2] A passagem está incluída no que Ezequiel falou durante o tempo entre as datas que ele próprio deu: sexto ano, sexto mês, quinto dia da segunda deportação (8.1) e o sétimo ano, quinto mês, décimo dia (20.1). 


[3] Riggan, negando que a maior parte do material em Ezequiel seja autêntico, aceita, contudo, o material que denuncia Judá e sua casa real; mas ele afirma francamente que os pensamentos sobre a restauração "da dinastia davídica são, sem exceção, obra do editor posterior de Ezequiel" {Messianic Theology and Christian Faith, pp. 72-76). 


[4] Os relatos bíblicos da história apresentados emforma de aiegoria são, entre outros: 2 Rs 24.6-20; 2 Cr 36.8-16; Jr 37; 52.1-7. Alexander escreveu um sumário conciso e muito útil dessas circunstâncias históricas ("Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.821,822). 


[5] May fez uma breve referência a alguns dos esforços dos críticos, particularmente aqueles que discutem a questão da presença de poesia neste capítulo ("Book of Ezekiel", em IB [1956], 6.151). Zimmerli trabalha com o gênero de literatura da sabedoria {Ezekiel, p. 360). 


[6] Cf. Zimmerli, Ezekiel, 1350 n.b. (Ver BDB, p. 690, sobre o significado do termo Sim). 


[7] Cf. Aalders, Ezechiel, 1.245. 


[8] Ibíd., p. 292 


[9] Ibid., p. 294; Blackwood, Other Son of Man, pp. 114,115; Davidson, Book of Ezekiel the Prophet, pp. 123,124; Eichrodt, Ezekiel, p. 229; Noordtzij, De Profeet Ezechiel, 1.196; Skinner, "Book of Ezekiel", em The Expositor's Bible, 4.240; Zimmerli, Ezekiel, 1365. 

Moshe Greenberg, Ezekiel, 1-20, em AB (1983), 22:316-317; e May, "Book of Ezekiel," em IB (1956), 6:155-56), por outro lado não lhe fazem referência, seja afirmando ou negando o caráter messiânico. Greenberg vê uma esperança de que a linhagem de Davi seria estendida. 


[10] Cooke, Critical and Exegetical Commentary on the Book of Ezekiel, pp. 190-192. 


[11] George A. Riggan, Messianic Theology and Christian Faith (Filadélfia: Westminster, 1967), pp. 72-77. 


[12] Sigmund Mowinckel, He That Cometh, trad. G. W. Anderson (Oxford: Blackwell, 1959), pp. 16,17. 


[13] Taylor, Ezekiel, p. 96 


[14] Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.822. 


[15] Ver os diversos comentadores sobre este ponto: Aalders, Ezechiel, pp. 293,294; Hengstenberg, Christology of the Old Testament, 3.21-26; Keil, em KD, The Prophecies of Ezekiel, 1.244-246. 


[16] Fairbairn, Exposition of Ezekiel, p. 184. 


[17] Cf. Skinner, "Book of Ezekiel", em The Expositor's Bible, 4.263. 


[18] Cf., p. ex., Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6,845; Davidson, Book of Ezekiel the Prophet, p. 158; Noordtzij, De Profeet Ezechiel, 1.233. 


[19] Cf. Aalders, Ezechiel, p. 348; Blackwood, Other Son of Man, p. 146; Cooke, Critical and Exegetical Commentary on the Book of Ezekiel, p. 235; Fairbaim, Exposition of Ezekiel, p. 244; Hengstenberg, Christology of the Old Testament, 3 32; Keil, em KD, The Prophecies of Ezekiel, 1.304; Taylor, Ezekiel, p. 165. 


[20] Wevers, Ezekiel, em NCBC(1982), p. 169; Zimmerli, Ezekiel, 1.447,448. Zimmerli apelou para o ensaio de William Moran, "Gen. 49:10 and Its Use in Ez. 21:32", Bib. 39 (1958): 418. Eichrodt comentou o ponto de vista de Zimmerli que, embora seja gramaticalmente possível, aposição "é inconvincente” {Ezekiel, p.303). 


[21] Davidson insiste em que aqui não há nenhuma referência ao ofício do sumo sacerdote {Book of Ezekiel the Prophet, p. 157). Mas Alexander diz que há ("Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.844,845). 


[22] Taylor, Ezekiel, p. 164, escreve que não há nenhuma evidência de que Zedequias tenha usurpado funções sacerdotais. 


[23] May, "BookofEzekiel",em IB(1956),6.181. 


[24] Cf. Aalders, Ezechiel,p.317. 


[25] May, "Book of Ezekiel", em 73(1956), 6.181. 


[26] Cf. Wevers, Ezekiel, em NCBC{1982), p. 77,169. 


[27] Keil rejeita a idéia de profano e fala de Zedequias sendo entregue à espada ou à morte, portanto, sendo condenado (cf. KD, Prophecies of Ezekiel, 1301). 


[28] May, "Book of Ezekiel", em IB (1956), 6.181. 


[29] Alexander, "Ezekiel" em The Expositor's Bible Commentary, 6.843, que aceita a tradução da NIV. 


[30] Zimmerli, Ezekiel, 1.438; cf. 446 (cf. RSV); ele combinou as frases numa só cláusula. 


[31] Cf. Lv2.9; 6.8; Nm 1832; Is 57.14, onde esse verbo é usado com a mesma idéia. 


[32] Cf. May, "Book of Ezekiel", em IB (1956), 6.181. 


[33] Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6,844; Hengstenberg, Christology of the Old 

Testament, 3.30; Fairbairn, Exposition of Ezekiel, p. 243; Keil, em KD, Ezekiel, 1.303. 


[34] iimmerli, Ezekiel, 1.446. Zimmerli refere-se ao ensaio de Marten Noth sobre "Office and Vocation in the Old Testament" (Ofício e Vocação no Velho Testamento), The Laws in the Pentateuch and Other Studies (Filadélfia: Fortress, 1967), pp. 235,236, para comprovação adicional. Ver também Aalders, Ezechiel, p. 346; Cooke, Critical and Exegetical Commentary on the Book of Ezekiel, p. 234; Davidson, Book of Ezekiel the Prophet, p. 157; Eichrodt, Ezekiel, p. 301; Taylor, Ezekiel, p. 164; Wevers, Ezekiel, em A7C5C(1982), p. 169, que considera que a referência é somente ao ofício real. 


[35] Hengstenberg, Christology of the Old Testament, 331. A KJV traduz: "1 will overturn, overturn, overturn it"; e Keil, ern KD, The Prophecies of Ezekiel, 1.229, traduz: "overthrown, overthrown, overthrown will I make it". 


[36] Aalders, Ezechiel, p. 347. 


[37] A frase é difícil. May não tenta explicar sua tradução, e conclui que o Texto Massorético está obviamente corrompido aí ('Book of Ezekiel", em IB (1956), 6.181. 


[38] Ibidem. 


[39] Zimmerli, Ezekiel, 1.439. 


[40] Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.843. 


[41] Zimmerli deixa claro por que não deve ser aceita essa interpretação (Ezekiel,1.4A7). 


[42] Este comentário antecipa a conclusão a respeito da sugestão de que aquele que havia de vir era Nabucodo­nosor. 


[43] Aalders escreve que a frase traz dificuldades reais {Ezechiel, p. 347), mas rejeita as emendas dos críticos. 


[44] Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.844. Sua posição é apoiada por Noordtzij, De Profeet Ezechiel, 1.233; e outros. 


[45] Keil, em KD, Prophecies ofEzekiel, 1304 


[46] Cf. Wevers, Ezekiel, em NCBC(1982), p. 169; Zimmerli, Ezekiel, 1.447-448. 


[47] Como Cooke aconselha; "Com shiloh lido como shello" (Criticai andExegetical Commentary on the Book ofEzekiel, p. 235.). 


[48] Cf. referência acima. 


[49] Eichrodt, Ezekiel, p. 304. 


[50] Nabucodonosor foi referido como agente de Yahwéh e foi-lhe dado o dever de lidar com Jerusalém (Jr 24.9); isso não é um direito pessoal sobre ela. 


[51] Cf. o extenso estudo da passagem no cap. 6. 


[52] Zimmerli usou o advérbio surpreendentementepaxa referir-se ao que ele pensa que Ezequiel fez (Ezekiel, 1.448). 


[53] Mowinckel junta-se a May e Wevers em não aceitar seu caráter messiânico {He That Cometh, p. 16). 


[54] Cf. Wevers, Ezekiel, in NCBC (1982), p. 262. 


[55] Eichrodt discute brevemente essas quatro posições e opta pela última. Ele vê Ezequiel acentuando o que Jeremias tinha profetizado e o que diversos salmos (tais como o 45 e o 110) expressariam {Ezekiel, pp. 475,476). 


[56] Ver os procedentes comentários de Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.913,914; Eichrodt, Ezekiel, pp. 476-478; Skinner, "Book of Ezekiel", em The Expositor's Bible, 4.298-300. 


[57] Os razoáveis comentários de Eichrodt sobre esses fatos podem ser examinados {Ezekiel, p. 476). 


[58] Cf., p. ex., como Wevers se concentra em variações menores e apela para editores {Ezekiel, em7VCSC[1982], pp. 262,263. Zimmer li age de modo semelhante, p. ex., seus alentados comentários sobre diferenças em sufixos no v. 23, que ele admite que não são tão problemáticos quanto parecem quando se consideram os antecedentes das imagens de pastor e rebanho {Ezekiel, 2.209). 


[59] Ez 24.15-27 registra a morte da esposa de Ezequiel, por cuja causa ele foi proibido de prantear, como uma "profecia de reação" à queda de Jerusalém. 


[60] Cf. o estudo precedente a respeito da sentinela. 


[61] Cooke, Critical and Exegetical Commentary on the Book of Ezekiel, pp. 373-381. 


[62] Ezekiel, p. 222; cf. outros comentários para análises individuais. 


[63] Cf. o estudo dejr 3.14-17; 23.1-8 para uma visão da obra do pastor. 


[64] O uso do masculino hem e do feminino hebraico hen nessas duas frases tem levado alguns críticos a ver a mão de editores (Wevers, Ezekiel, em NCBC[1982], p. 262). Cf. o esclarecido comentário de Zimmerli, que admite que "rebanho* pode ser masculino e feminino em hebraico {Ezekiel, 2.209). 

34:17b : 

34:26-30 -í 

34:31 b 


[65] Ver a introdução à passagem. 


[66] Cf. nosso estudo de passagens anteriores que tratam do conceito do pastor, bem como Jr 3.14-17; 23.1-8. 


[67] Cf. comentário sobre o termo no estudo de Ez 21.25-27 (TM 30-32). 


[68] É de interesse notar que Skinner introduziu seus comentários sobre Ez 34 com uma extensa discussão sobre o adjetivo messiânico e referiu-se aos dois sentidos: "um mais amplo e um mais restrito" ("Book of Ezekiel" em The Expositor's Bible, 4.298). 


[69] Parece que Taylor não expressa toda a amplitude de significação quando fala do "pacto que funciona" (the covenant that works) (Ezekiel, p. 224). 


[70] Cf. Eichrodt, Ezekiel, p. 483. 


[71] Skinner, "Book of Ezekiel", em The Expositor's Bible, 4300,301. 


[72] Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.914. Há dúvidas legítimas quanto à sua referência aos pactos com Israel cumpridos primeiro. 


[73] Zimmerli considerou 36.1-15 parte integral da mensagem que começa no cap. 35, e 36.16 o começo de um oráculo totalmente novo {Ezekiel, 2.244,245). Essa disjunção não me parece justificada, por causa da estreita relação entre os materiais e a transição suave de um tema a outro. Alexander também põe uma larga separação entre 36.15 e 36.16, Ele faz isso evidentemente para destacar o que considera ser a era do milênio ("Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.918-922). 


[74] Cf. Simon J. DeVries, "Remembrance in Ezekiel", Int 16 (1952): 58-64, que escreveu que um dos temas principais em Ezequiel "parece ser a vindicação da honra de Yahwéh" (p. 59). 


[75] Alexander está certo quando afirma que as profecias de Ezequiel relativas a aspectos específicos do retorno de Israel não foram cumpridas sob Zorobabel, Esdras e Neemias. Os exilados falharam em responder e obedecer a seu santo Deus. Essa falha passada, incidentalmente, não garante uma segunda oportunidade. (Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.921,922). 


[76] Hengstenberg, em seu comentário sobre a passagem e em sua Christology of the Old Testament, não se refere uma vez sequer diretamente ao Messias ou à obra messiânica (pp. 39-46). 


[77] Zimmerli tem razão quando diz que a mensagem de Ezequiel pressupõe que "o povo exilado estava em desânimo espiritual" {Ezekiel, 2.245). Hengstenberg incorretamente considera que essa profecia teria sido proferida antes da chegada do mensageiro com a notícia da queda de Jerusalém {Christology of the Old 

Testament, p. 39). 


[78] Para um exame de vários problemas textuais ver Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commen- tary, 6.915-923; Eichrodt, Ezekiel, pp. 488-505; May, "Book of Ezekiel", em 75(1956), 6.260-266; Wevers, Ezekiel em A/’C5C(1982), pp. 267-276; Zimmerli, Ezekiel 2.236-252. Uma leitura desses comentários mostrará ampla divergência de interpretações, especialmente a respeito dos aspectos escatológicos. Aalders, Ezechiel, pp. 181-194; Noordtzij, De ProfeetEzechiel, 2.96-106, oferecem uma compreensão muito útil. 


[79] Mowinckel, He That Cometh, pp. 15,16. Note-se de novo a opinião expressa por Mowinckel de que o reconheddo conceito messiânico é de origem humana e não de revelação divina. Cf. Riggan para sua reiteração da possibilidade de Ez 37 ter sido produzido anos depois do tempo de Ezequiel, por editores que refletiriam as esperanças religiosas e escatológicas de Israel (pp. 72-77). 


[80] A referenda ao Espírito vindo sobre ele e levando-o a um lugar é paralela às experiências registradas em 1.1-3.15,8.1-11.25; e40.1-48 35; cf. Zimmerli, Ezekiel, 2.256. Vievers, Ezekiel, em A7C5C(1982), p. 277, foi incorreto ao referir-se à experiência como extática. A referência de May a um "autor desconhecido" é totalmente desnecessária, uma vez que o texto ébem atestado. Cf. Cooke, Criticai ard Exegetical Commentary on theBook of Ezeldel, p. 398: "o texto é bem preservado e feda de Ezequiel como a pessoa que teve a experiência e a relata." 


[81] Dentro da experiênda visionária, Ezequiel é chamado a participar na demonstração da unidade, por meio de "ação-sinal" (37.15-17). Tomar os dois bastões, escrever em cada um deles e juntá-los, é uma apresentação pictórica da unidade. Aalders nota que o Senhor dirige-se a Ezequiel no imperativo — a demonstração tinha de ser feita porque o que ela significava iria acontecer com certeza {Ezechiel, pp. 202,203). 


[82] Peritos da escola da crítica da forma têm tentado identificar três unidades específicas em37.15-28. Zimmerli, entretanto, reconhece que o conteúdo de cada unidade é continuado pela seguinte e que juntas as três unidades refletem a realização das promessas do pacto pelo uso das fórmulas pactuais (EàeJdel\ 2.272). 


[83] Um caso óbvio de trabalhar com o princípio de vatídnia ex eventu é a afirmação sem base de Zimmerli, que, considerando que Ezequiel esperava a reunificação (vv. 15-19), nos vv. 20-24a ele reflete a séria situação depois de 587 a.C.Ov, 24b seria uma explicação ainda posterior (EzeJdel, 2.275,276). 


[84] Cf. SI 785-8, em que uma fraseologia semelhante significa todas as gerações por todo tempo. 


[85] Paulo dá uma interpretação que cobre a idéia da habitação continuada da terra, quando fala de a descendência de Abraão herdar o mundo, de acordo com as promessas feitas, que tinham de ser recebidas pela "justiça da fé" (Rm 4.13). 


[86] Cf. Aaíders, Ezechiel, p. 208, sobre a repetida ocorrência do termo hebraico ‘tiam para designar a presença sem fim de Deus. 


[87] Cf. o estudo sobre o tabernáculo no cap. 8. 


[88] Alexander incorretamente indicou que Ezequiel falava de um retomo à terra depois que o novo pacto tivesse sido cumprido e antes que o pacto de paz fosse realizado ("Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.927). 


[89] "O sinal da presença eterna de Yahwéh no meio de seu povo é, entretanto, o seu santuário, que será descrito pormenorizadamente nos... capítulos 4048" (Wevers, Ezekiel, erm NCBC{1982) p.282). 


[90] Eichrodt, Ezekiel, pp. 530,531. 


[91] Hengstenberg, Chrístology of the Old Testament, 358. 


[92] Aalders, Ezechiel, pp. 248-252. 


[93] Hengstenberg, Chrístology of the Old Testament, 352-58. 


[94] “Há grandes diferenças de opinião a respeito dessa interpretação" [Ezechiel, p. 249). 


[95] DeProfeetEzechiel, 1.411-446. 


[96] Edward J. Young, An Introduction to the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1950), p. 241. 


[97] Alexander, "Ezekiel", em The Expositor's Bible Commentary, 6.949-952, 


[98] Cf., p. ex., as observações introdutórias de Wevers, em Ezekiel, 7VC5C(1982), pp. 295-297, e suas breves observações exegéticas subseqüentes; ver também Zimmer li, Ezekiel, 2342-345. 


[99] Blackwood, OtherSon ofMan, esp.p.ll.