5 de agosto de 2016

GERARD Van GRONINGEN - O Messias no Livro de Isaías, 4: O Filho Sofredor e Ministrante (Parte 2)

antigo testamento messias danilo moraes
O Filho Ministrante (Is 54-66) 

À medida que nos aproximamos da conclusão do estudo de Isaías, somos repetidamente confrontados com a questão da unidade da sua profecia. Esta questão continua a surgir por causa da aparente diversidade do livro. O problema é centrado, portanto, na polêmica sobre se a diversidade é tão grande que a unidade deve ser sacrificada por ela, ou se há uma unidade ligando as várias partes. Os críticos liberais, em sua maioria, têm abandonado a unidade, ao passo que os eruditos conservadores a têm mantido (aliás, alguns destes têm preferido dar pouca importância às diferenças dentro do Velho Testamento). 

O problema da divisão de Is 40-66 não tem sido resolvido com unanimida­de. Muitos dos críticos liberais atribui a um terceiro, ou Trito-Isaías, a parte que começa com 56.1. Outros eruditos, tanto liberais quanto conservadores, embo­ra reconheçam a existência de diferenças, advogam a unidade e a existência de um único autor para os caps. 54-66. Entre os que mantêm a unidade e autoria única não há acordo sobre onde colocar a linha divisória entre as várias partes da profecia de Isaías. J. Ridderbos, por exemplo, coloca-a entre 55.13 e 56.1,[1] Edward Young entre 57.21 e 58.1.[2] Neste nosso estudo a linha divisória é marcada entre 62.12 e 63.1. Mas os caps. 63-66 são incluídos na recapitulação final do estudo de Is 54-66. 

A conexão entre os caps. 53 e 54 não é aparente à primeira vista. Sobre isto liberais e conservadores estão de acordo. Não é surpreendente que diversos eruditos liberais não procurem diferentes autores para esses capítulos? Ao invés disso, eles incluem o cap. 54 nos materiais dos capítulos precedentes e, assim, mantêm a unidade da profecia do chamado Segundo Isaías. Se eles fossem tão prontos em traçar conexões entre os caps. 56-66 e os caps. 40-55, poderiam encontrar diversas delas. De fato, Skinner afirma que, se há um terceiro Isaías, ele está inteiramente imbuído do pensamento e do "ethos" do segundo Isaías; ele honestamente reconhece as similaridades.[3]

O elo de ligação entre o cap. 54 e os precedentes é variado. Young vê Isaías no cap. 52 dirigindo-se a Jerusalém e Sião e prometendo-lhes libertação. No cap. 53 essa redenção é descrita como espiritual e seguida da promessa da glória espiritual para o povo que se beneficiar dessa redenção.[4] Smart observa a conexão no triunfo expresso no cap. 54 e o custo desse triunfo no cap. 53.[5] Outros escritores encontram um elo entre a alegria expressa no cap. 54 e a de 51.11 e 49.13. Podemos alegremente concordar com a descoberta dessas cone­xões e afirmar que tem sido reconhecida uma unidade na profecia de Isaías, à medida que ele continuou a profetizar e apresentar progressivamente o que Yahwéh revelou a ele e por meio dele. 

Devemos acrescentar outra consideração sobre a relação entre os caps. 56-66 e os precedentes. Os críticos liberais não estão todos de acordo em que se trate de um terceiro Isaias.[6] McKenzie nota uma estreita conexão entre essa parte e a segunda, porque os termos favoritos do Segundo Isaias são repetidos na terceira parte.[7] Muilenberg concorda que há essa relação estreita, pois assim como Isaias se referiu aos materiais mosaicos referentes ao culto oficial e aos elementos de adoração, assim também o faz o "terceiro" Isaias. Ele vai além e afirma que 56.1-8 é afim de segundo Isaias; de fato, 56.1c-d pertence ao próprio coração da mensagem precedente.[8]

Que se deve concluir a respeito da conexão entre Is 40-55 e 56-66? Críticos liberais têm ajudado os leitores e os eruditos a discernir os elos de ligação. Seu ponto de vista de que o lugar e o tempo da proclamação profética dos caps. 56-66 ocorreu provavelmente em Jerusalém no período pós-exílico apóia-se em falsos pressupostos.[9] De fato, as referências a Jerusalém, ao templo e às práticas do culto requerem que Isaias esteja em Jerusalém, e realmente o único Isaias estava![10] Mas nem o leitor nem o estudioso deve desconhecer o fato de que Isaias mudou sua ênfase enquanto continuava a profetizar ao povo do seu tempo a respeito do seu futuro, que lhes era assegurado pela obra expiatória e pela morte vicária do Servo de Yahwéh, o Messias real davídico. 

O título dado ao estudo de Is 54-66 é "O Filho Ministrante". A ênfase deve ser posta no adjetivo ministrante. As demais passagens precedentes falaram do Servo que veio a ser o agente de Yahwéh para a redenção. Essa redenção tomou-se disponível para Israel e para os povos e nações do mundo. Yahwéh dera a Abraão a incumbência de ser um canal de bênçãos para os povos e nações. A semente de Abraão falhara neste serviço; não tinha ministrado ou sido uma testemunha para as demais nações. O Servo singular substituiria o Servo coletivo e levaria adiante o ministério. Isaias passa a proclamar essa bendita verdade.[11] Assim, Is 54-61 fala do ministério universal do Servo, um ministério que poderia ser cumprido por causa de sua obra expiatória vicária. 

É claramente discemível um desenvolvimento na proclamação de Isaias. Ele continua a dirigir-se ao Israel crente e ao Israel descrente. Ele dirige-se a ambos com uma perspectiva futura em mente, dando ênfase àquilo que lhes estava por vir, o que eles deviam esperar, e como Yahwéh completaria sua grande obra redentora e restauradora em favor de seu povo, dentro e fora da Palestina, alcançando mesmo todo o mundo. 



O Texto de Isaías 54-66 

O Texto Massorético de Is 54-66 foi bem preservado. A Septuaginta oferece algumas variantes, mas uma consulta aos dois Rolos do Mar Morto assegura que o Texto Massorético permaneceu intacto. Os dois rolos de Isaías descober­tos em Qumran revelam algumas variações menores, especialmente quanto à grafia, mas não sugerem, de modo algum, mudança de significação ou inten­ção. Sendo este o caso, é perturbador que nos escritos de alguns eruditos continuem a aparecer tentativas de emendar o texto.[12] Podemos apreciar a conclusão de Muilenberg: "O texto está, no todo, bem preservado."[13]

A contenção de que o texto dos caps. 54-66 é de um autor diferente do que escreveu 40-53 (e 1-39) por causa de diferença de estilo, dos termos usados e de um contexto de Jerusalém pós-exílio já foi referida em nossos comentários introdutórios. É bastante repetir que um movimento na direção de uma direta mensagem mais escatologicamente orientada, a maior parte da qual é procla­mada em termos da vida da comunidade pré-exílica, explica essa diferença. E quando se dá atenção específica às similaridades entre todas as partes do livro de Isaías, confirma-se a convicção de que um Isaías escreveu a profecia inteira, inclusive os caps. 54-66. 

A mensagem de Is 54-66 pode e deve ser sucintamente apresentada numa precisa moldura pactual com ênfase messiânica (ver quadro 12). Por moldura pactual queremos dizer o principal tema, ou conceito central, de todo o Velho Testamento que dá estrutura, direção e contexto a uma determinada passa­gem.[14] Na passagem em foco o pacto de Yahwéh com os patriarcas, com Israel por meio de Moisés, e com Davi e sua casa, é claramente o seu contexto. O pacto, entretanto, tem um fator central e integrador: o peculiar conceito da semente, que contém, mediante referências explícitas ou implícitas, a idéia messiânica e seus vários aspectos integrantes.[15]

Exegese de Passagens Selecionadas 

Isaías 55.1-5. No cap. 54 Isaías, como porta-voz de Yahwéh, referiu-se a Deus como o Senhor do pacto que, na situação de Marido, Redentor (w. 5-6), Criador, Governante (w. 16-17) e o sempre amoroso (v. 10), assegura a seu povo que não haverá repetição de julgamento (w. 6-9). Essa garantia e o chamado à alegria, ao trabalho frutífero (w. 1-4) e conforto (w. 11-15) são baseados no que o Servo fez em favor do povo (52.13-53.12). Realmente, o ministério do Servo inclui o propósito de tomar disponíveis aquelas coisas necessárias à vida. Isaías prossegue dirigindo-se ao povo do pacto, embora o kól de 55.1 dê uma dimensão universal a esse sincero convite para vir, procurar e ser satisfeito com o que Yahwéh planejou e com o que o Servo preparou para eles (55.1-3a). 

Embora as duras necessidades físicas da vida devam ser tomadas literal­mente, elas representam tudo o que Yahwéh prometeu como Senhor do pacto. Isaías a seguir refere-se a: wè’ekrétâ lãkem bèrit 'ôlam hasdê dãwid hanne’èmãnim (e eu certamente cortarei para vós [vav conjuntivo com o sufixo a, que indica coortativo] um pacto perpétuo, as fiéis misericórdias de Davi). Yahwéh reafirma o que prometera repetidas vezes aos patriarcas e a Davi. Ele continua a manter seu pacto em todos os seus aspectos integrantes. Esse pacto, enunciado definitivamente a Davi (2 Sm 7.&-16), continuará. De fato, o uso do verbo kãrat (cortar) poderia indicar que alguns aspectos novos serão incluídos. Jeremias Jr 31.31-33) fala de um novo pacto com isto em mente. A frase bíblica "as misericórdias de Davi" (ou o amor firme, seguro)[16] está em aposiçã 'ao termo "pacto".[17] O que Yahwéh prometera a Davi, isto é, um filho que reinaria eternamente, bênçãos pactuais que lhe seriam fielmente concedidas, segurança contra seus inimigos, e a presença constante de Yahwéh, tudo isso está com certeza na mente de Isaías quando proclama a continuidade do pacto que vai sendo sempre enriquecido.[18] Essas promessas pactuais tomaram-se certas porque o Messias davídico, tendo surgido como renovo de uma terra seca (Is 7.14; 9.6-7 [TM 9.5-6]; 11.1; 53.2), a dinastia davídica, que tinha falhado em diversos aspectos, cumpriu tudo o que era requerido (52.13-53.12). É necessário lembrar que Isaías profetizou ao povo de seu tempo, mas falou também como se as atividades futuras do Servo real davídico já se tivessem realizado. Portanto, o Servo em seu labor, por árduo, difícil e penoso que tenha sido, ministrou ao povo que responde ao convite de vir e participar de todas as bênçãos pactuais. 

Que Isaías tem em mente o Servo, a respeito de quem ele profetizou antes, é confirmado pelo que ele continua dizendo: hên 'êd lè’ümmim nètattãyw (55.4a) (realmente, um testemunho aos povos eu o tenho dado).[19] O Servo será um testemunho (46.1,2), assim como Israel (Gn 12.1-3). O Servo, da casa de Davi, é considerado como tendo cumprido sua obra (52.13-53:12) e, portanto, pode ministrar ao povo do pacto e às demais nações, e naturalmente o faz. Isto inclui o ministério do Servo real davídico como líder e comandante de todos. Qualquer que seja a conotação específica que se possa ver nos títulos nãgid (líder, príncipe ou rei) e mèsawweh (particípio de swh, comandar), eles indicam a primazia e soberania do Servo real davídico. Ele será o seu cabeça. Os povos e nações não mais estarão sem pastor! A dinastia davídica será finalmente restaurada! Isaías, projetando-se para o futuro, vê e proclama isso como um fato já estabelecido. 

Em 55.5 Isaías dirige-se à testemunha, líder e comandante divinamente nomeado — o Servo real. Nações que não o conhecem ele convocará; elas virão a ele e partilharão o esplendor (ou a glória) que Yahwéh lhe concedeu. O servo-rei davídico cumprirá seu ministério para com as gentes e nações, cha­mando-as e fazendo-as participar da glória com que Yahwéh honrará seu Servo. Portanto, o povo, que é chamado a responder, será um povo glorioso. Esta profecia certamente está de acordo com o ensino do Novo Testamento, a saber, Cristo recebeu a glória de seu Pai (Jo 17.5,10) e seu povo, por sua vez, se tomará um corpo glorioso; na verdade, a Igreja é referida como gloriosa (Ef 1.18). 

Resumindo, Isaías proclama que o Servo real davídico é capaz de ministrar ao povo do pacto e a todos os povos e nações, de acordo com o pacto de Yahwéh, particularmente como Ele o estabeleceu com Davi. 

Isaías 59.15b-21. Isaías, tendo chamado o povo à alegria em obediência ao modo de vida do pacto de Yahwéh (58.1,2), isto é, em jejum, em mantendo a justiça entre empregadores e empregados, cuidando do pobre e do necessitado, dando-lhe alimento e roupa (58.3-7), removendo a opressão, guardando o sábado (w. 9b-14),[20] assegura-lhes que receberão luz, cura e retidão, e que a glória de Yahwéh será a sua "retaguarda" (v. 8). (Este conceito de retaguarda é tomado do relato da nuvem gloriosa de Yahwéh protegendo Israel em sua peregrinação no deserto [Êx 13.21,22; 14.19,20]). Isaías prossegue afirmando qaeyad-yhwh (a mão ou braço de Yahwéh) não está encolhido, isto é, incapaz de prover redenção, restauração e renovação (Is 59.1).[21]

O Servo tomou tudo isso disponível, de acordo com o plano de Yahwéh (52.13-53.12). Entretanto, Isaías tem de proclamar que o julgamento está vindo sobre o povo do pacto por causa de suas iniqüidades, de seus pecados, das mãos que derramam sangue, dos lábios mentirosos, dos feitos injustos que os separam de Yahwéh (59.2-4a). De fato, todas as tentativas de cobrir seus pecados e justificar seu mau procedimento somente aumentam sua culpa. Isaías tem de dizer, a respeito de seu povo, que a justiça, a retidão e a luz estão distantes dele e que nenhuma verdade é encontrada nele em parte alguma (59.4a-15a).[22] Oséias, em outro contexto, tinha falado também dessa maneira (Os 4.1-6). Isaías refere-se novamente àquilo que o Servo sofredor tinha cum­prido como agente de Yahwéh. 

Isaías fala do desprazer de Yahwéh (wayyêra', qal de rã'â, ser mau). É eticamente mau aos olhos de Deus que não haja justiça no meio de seu povo. Ele também vê ki-’ên ’is (que não há nem um) (v. 16a); de fato ele estáyiStômtm (hifhpolel de Sãrriêm, estar atônito ou horrorizado) porque não há ninguém entre o seu próprio povo que mapgîa' (hiphil de paga', ser capaz de interpor ou intervir). O ponto é claro: Yahwéh está horrorizado (uma expressão antro- popática)[23] de que não haja uma só pessoa entre todos os descendentes de Adão, seu servo real, que possa servir e ministrar como redentor, restaurador ou pacificador em favor da raça decaída, especificamente do rebelde povo do pacto. Seu julgamento é inevitável, a menos que o próprio Yahwéh providencie o meio de evitá-lo. 

Isaías, tendo preparado a cena, proclama o que Yahwéh fez: ivatôSa' lô zëro’ô (hiphil deyãSa1, livrar; e seu braço causou salvação [KJV, NIV] a vir para ele). A salvação é realizada pelo braço, isto é, os meios que Yahwéh designou. O próprio Yahwéh provê o que é necessário; ele não precisa de ajuda nem de conselho (Is 40.12-14; 41.28).[24] A salvação é lô (para ele), não que ele próprio requeira salvação, mas uma salvação é provida que ele pode considerar acei­tável é oferecida a seu povo. O "braço" de Yahwéh é referido como gô’ël (redentor, 59.20), que virá a Sião, isto é, àqueles que se arrependem de seus pecados. Assim, o ponto a ser destacado é que Isaías profetiza, como se já tivesse acontecido, que Yahwéh proverá um redentor para seu povo, de fato para todas as pessoas que se arrependerem. 

Isaías proclama alguns fatos importantes a respeito do redentor e de sua obra expiatória. Primeiro, ele é sustido, firmado e sustentado por sidèqãtô (sua própria retidão). Isso quer dizer, a atitude de Yahwéh para com a sua própria vontade ou lei lhe dá a resolução de prover o mediador. Como o Pai, assim também o Filho é sustentado pelo desejo de levar adiante a vontade perfeita de Yahwéh. 

Segundo, o redentor faz uso dos meios supridos (59.17). Ele põe a retidão como proteção para seu peito e seus órgãos vitais, e a salvação como um elmo para a mente e vontade (cf. Ef 6.14b,17a). Usando roupas de vingança — plenamente preparado para punir o pecado — e compelido pelo amor a proteger-se a si próprio e aos objetos de seu amor, o redentor leva adiante os propósitos de Yahwéh. 

Terceiro, o redentor trará uma justa punição, por seu serviço obediente como o braço de Yahwéh, contra os inimigos de Yahwéh (59.8). A ira de Yahwéh será executada, ao mesmo tempo que a salvação para os arrependidos é realizada. Assim o Servo ministrará em favor de Yahwéh, trazendo salvação e iniciando a retribuição[25] (ver também Is 61.2; 63.4). 

Quarto, através do ministério de seu braço, o Redentor, pessoas de perto e de longe virão a temer, isto é, a adorar em reverência e amor a Yahwéh e a reconhecer sua glória. O ministério do Redentor será o mais efetivo! 

Quinto, Yahwéh guardará o pacto com seu povo. O povo, aqueles que se arrependerem, tendo recebido o pleno benefício do ministério medianeiro do Redentor em seu favor, receberá os plenos benefícios do pacto sempre renova­do e enriquecido que Yahwéh fez com ele. Dos termos que Jeremias usará mais tarde para o novo pacto (Jr 31.31,33) Isaías menciona dois: a presença do Espírito, e a palavra de Yahwéh sempre presente na boca de seu povo redimido e cheio do Espírito. 

Em conclusão, deve ser dito que na passagem (59.15b-21) Isaías resume o plano de redenção, iniciado, cumprido e aplicado. No coração desse plano está o Redentor, a quem Isaías identificou com o filho nascido da virgem (7.14), o filho real de Davi que será chamado Deus forte para reinar (9.6-7 [TM 9.5-6,TI .1-11), o Servo que substituirá o Israel rebelde (40-52.12) e o rei exaltado que, em humilhação, vicariamente expia os pecados do povo de Yahwéh (52.13-53.12). Isaías profetiza a um povo que foi ameaçado com o julgamento do exílio, que o Servo de Yahwéh ministrará efetiva e eficientemente a todos os que se arrependem, sejam do povo do pacto, sejam aqueles de longe. 

Isaías 60.1-3. Alguns comentadores não vêem nenhuma relação entre a mensagem precedente (59.21) e o apelo que Isaías dirige ao povo de Yahwéh em 60 1-3. McKenzie fala de mudança abrupta de tema.[26] Muilenberg, entre­tanto, encara o cap. 60 como um poema intimamente relacionado com os caps. 61-62, mas acrescenta: "É também relacionado com o poema precedente [não liturgia agora?], com o qual forma um notável contraste."[27] Isto é certamente mais exato do que a afirmação precedente, como demonstraremos. Outro fato interessante é que a maioria dos comentadores refere-se à estreita relação entre o que Isaías proclamou no cap. 60 e o que ele profetizou nos caps. 49-52.[28]

Young corretamente escreve que o cap. 60 continua o pensamento dos versículos precedentes.[29] Quando as exigências do pacto são satisfeitas e suas bênçãos tornam-se realidade na vida do povo de Yahwéh, o apelo para que se levantem e brilhem pode ser ouvido. Então o ministério do Servo a seu povo e, por meio dele, às gentes e nações pode ser cumprido. 

Kumt (levanta, um forte imperativo) implica inação e uma posição prostra­da. Comentadores sugerem que a figura pressuposta é a da mulher jazendo em fraqueza e vergonha ou sentada em pó e cinzas. As referidas passagens de Is 50.1; 52.1,2; e 54.1 são a fonte dessa idéia.[30] Por causa do que foi feito em seu favor, ela agora pode estar de pé; sua vergonha e humilhação foram removidas. 

A ordem de levantar-se não é dirigida especificamente a ninguém, mas o próprio contexto prévio sugere que se trata do povo do pacto (59.21) e o próprio contexto seguinte refere-se a Sião ou Jerusalém. Os eruditos estão de acordo em que não é apenas a cidade que está em foco. Ridderbos observa sagazmente que Isaías proclamou um grande futuro para a cidade de Jerusalém, mas, ao mesmo tempo, ele tinha em mente uma perspectiva maior.[31] Young destaca esta última parte. A cidade terrena e seu povo representam todo o povo arrependido, crente, de Yahwéh. Portanto, com a restauração da cidade de Jerusalém realiza-se uma restauração maior, mais extensa, mais abrangente, que o Servo fez possível. Em termos do Novo Testamento é um chamado à Igreja. 

ürí (brilha, novamente um imperativo enfático). A Septuaginta omite o verbo levanta e, a fim de expressar a ênfase do imperativo, repete o verbo grego phõtizõ: brilha! brilha! É a ordem para ser um servo e uma testemunha. O chamado é para refletir ou passar adiante o que foi recebido. 

lã bã’ ’ôrek (pois a tua luz veio). A luz prometida já raiou (Is 9.2 (TM 9.1); 58.8-10,; a luz esperada (59.9,10) já veio. O verbo wh es tá no perfeito profético; Isaías, referindo-se ao que certamente ocorrerá, fala antes de Jerusalém ser destruída e reconstruída, como se esses dois eventos já tivessem acontecido. 

A luz que tem vindo remove as trevas (como a coluna de fogo no deserto). Os resultados do pecado, do cativeiro, da opressão e do exílio — todas as trágicas experiências de Israel e a escuridão que elas causaram — foram removidas. Livramento, restauração e paz, ao invés, tomaram-se realidade. 

Yhwh 'ãlayik zãrãh (e sobre ti levanta-se Yahwéh). O verbo hebraico zãrah pode ser traduzido "surgir", como a luz da manhã irrompe nas trevas do alvorecer. O pensamento é abrangente: Yahwéh aqui deve ser entendido como representando tudo o que Ele prometeu e cumpriu. As bênçãos do pacto, o Mediador do pacto e a plena salvação que Ele operou são referidos aqui. O povo de Yahwéh terá Yahwéh consigo e a seu favor quando receber e com­preender sua plena salvação. 

É necessário destacar que anteriormente a imagem da luz foi usada para falar do Messias davídico (9.2-7 [TM 9.1-6]). Através de toda a sua profecia Isaías mantém em mente a casa de Davi. Ele relembra continuamente ao ímpio Acaz, e posteriormente a seu ímpio neto Manassés, aquilo que é esperado deles e que eles falharam em cumprir, e o que Yahwéh, não obstante, fará por seu povo por meio de seu agente, servo, filho — o Messias prometido. 

Gôytm... ümèlãktm (nações estrangeiras e reis, seus representantes) (63.3) verão e virão participar da vida e das bênçãos do Messias davídico, por meio de seu ministério a "Jerusalém". Assim, a semente de Abraão finalmente cumprirá o mandato de ser uma bênção para todas as gentes e nações. E Isaías toma claro como a profecia de 4.2-6 será cumprida: será por meio de ministério efetivo do Servo da dinastia davídica, sofredor, e entretanto exaltado. 

A luz fornecida por Yahwéh e trazida por seu Servo será permanente. Isaías, usando o sol como expressiva metáfora (60.20), diz que essa luz brilhante nunca desaparecerá. Os descendentes físicos de Davi foram, na maior parte, fracassos, mas tal não acontece com o filho prometido que se assentará no trono de Davi. 

Isaías 61.1-3,10,11. Jesus começou seu ministério em Nazaré lendo Is 61.1,2 e explicando a seus concidadãos que Ele era a pessoa de quem Isaías falou (Lc 4.16-20). Ninguém contesta isto, que Jesus se identificou desta maneira. Há, entretanto, muita discussão a respeito da identidade da pessoa que fala no contexto da profecia de Isaías. Esse tópico, bem como outros na passagem e em seu contexto, deve ser separado para discussão. 

Há um acordo geral quanto ao fato de o cap. 61 ser parte integral dos caps. 60-66, que são amplamente reconhecidos como uma unidade literária. O tema central e dominante da passagem é a Sião restaurada, sua glória, alegria e o novo nome: o povo santo, o redimido do Senhor, o desejado, o recompensado 62.11-12. Sião aqui não deve ser tomado como alusivo à cidade terrena de Jerusalém (cf. nossa exegese de Is 60.1-3 acima). Seu foco é, antes, o povo do pacto restaurado e renovado, ao qual se juntam pessoas de várias nações. Co­mentadores como Calvino, Hengstenberg e Young dizem que a Igreja é identi­ficada aqui. Certamente isto é verdade na perspectiva do Novo Testamento. 

Muita discussão gira em torno da identidade do "Eu" ou "Mim". Isaías fala como o próprio porta-voz de Yahwéh quando profetiza: "Então tu (o povo redimido, a Sião renovada) saberás que Eu, o Senhor, sou teu Salvador, teu Redentor, o Poderoso de Jacó" (60.16b, NTV). Mas Yahwéh é referido na terceira pessoa em 61.1-3,10,11; 62.11. Em 62.6 o "Eu", entretanto, aponta obviamente para o próprio Yahwéh. Portanto Isaías é o porta-voz de Yahwéh, falando em seu nome, e, desta maneira, identifica-se com Yahwéh no mesmo contexto. Em 61.1,3 Isaías pronuncia palavras memoráveis. Está referindo-se a si mesmo? Sim, escrevem Calvino, McKenzie, Mowinckel, Muilenberg e Skinner.[32] Rid- derbos concorda que o profeta Isaías tinha a si mesmo em vista, "mas então, naturalmente, como um tipo de Cristo, em quem essas palavras são finalmente cumpridas".[33] Uma vez que vários eruditos concordam que Isaías não pre­tende que se considere que ele está-se referindo finalmente a si mesmo, tem sido sugerido que é o Servo de Is 40-53 quem está falando. De fato, Torrey[34] e von Orelli[35] referem-se à passagem como um Cântico do Servo, colocando assim sua mensagem na mesma categoria dos cânticos anteriores. Skinner, entretanto, detecta quatro problemas, caso o "eu" se refira ao Servo: (1) o nome Servo de Yahwéh não aparece aí; (2) a consciência do profeta expressa-se fortemente; (3) a função descrita é a de um profeta, mas está abaixo do nível da grande obra do Servo; e (4) a passagem não se enquadra no ciclo dos 

Cânticos do Servo.[36] Esses quatro argumentos não são convincentes. Não há nenhum uso do termo Servo em 50.4-9 também, e no entanto é chamado um Cântico do Servo. O profeta repetidas vezes expressa sua consciência, mas faz isso como profeta, isto é, como porta-voz designado de Yahwéh. Jesus, que é o Servo, não considera a obra profética abaixo do nível do seu ministério. O argumento literário é concebido subjetivamente; um Cântico do Servo é o que o escritor julga que ele é. 

A conclusão mais satisfatória, à luz de toda a profecia messiânica, é dizer que é Isaías quem fala. Ele fala em termos do chamado e da obra profética. Mas fala como um profeta, isto é, não fala de sua própria mente ou por si mesmo. Como serve de porta-voz para Yahwéh, assim ele fala por Alguém que ele mencionou em 50.4-9 — o Servo, o Filho davídico, e o Messias. 

A pessoa que deve ser vista e ouvida em Is 61.1-3,10,11 já foi mencionada anteriormente. McKenzie escreveu que Isaías viu-se a si mesmo cumprindo a missão do Servo "e assim tornou-se um primitivo intérprete dos Cânticos do Servo".[37] Alguém pode não concordar com a idéia de que Isaías viu-se a si próprio cumprindo a missão; mas deve concordar que há uma conexão bem estreita entre o que se diz em 61.1-3,10,11 e o que se encontra em várias outras passagens em 40-53, especialmente 47.1-6; 50.4,5.[38] O que confrontamos na profecia de Isaías é que o Messias, o Mediador do pacto, tanto do inicial quanto do novo, é apresentado como régio, da casa de Davi, como um sacerdote, trazendo o sacrifício de si mesmo, a tudo abrangendo e de uma vez para todas, como expiação vicária, e como profeta.[39]

Fâah ’àdõnãy yhwh'ãlãy (O Espírito do Senhor Yahwéh [está] sobre mim). O Espírito é o Espírito de profecia que capacita os homens a servir como porta-vozes de Yahwéh e como reis.[40] Esse Espírito fora prometido ao Servo (Is42.1 e sua vinda é uma evidência da renovação do pacto (59.21). Os nomes de Deus referem-se a Ele como o soberano, fiel Senhor que faz e mantém o pacto. O Espírito desceu literalmente sobre o Messias da casa davídica na ocasião quando Jesus foi batizado (Mt 3.13-17, par. Mc 1.9-11; Lc 3.21,22; Jo 1.32-34). 

Ya'an niãSah yhwh ’õíi (porque Yahwéh me ungiu). O verbo hebraico rriãSah (qal, ungir) é um perfeito profético; o termo e seus derivados foram discutidos anteriormente.[41] Aqueles que limitam o sentido do termo aqui não têm razão para fazê-lo.[42] O soberano Yahwéh designou, equipou e autorizou seu escolhido para ministrar, como se descreve nos parágrafos seguintes. 

A tarefa para a qual o Messias é escolhido e preparado para servir é tríplice. Ele será um profeta. Deverá pregar as boas novas (61.1c), proclamar libertação (v. 61.1e) e ser o arauto da graça de Yahwéh (v. 2a). Mas ele deve também anunciar a vingança de Yahwéh (v. 2b). Ele será também o sacerdote que cura (v. ld), e como tal deverá confortar ou dar força (v. 2c). Ele será também o rei libertador e provedor; ele libertará prisioneiros (v. lf), proverá as bênçãos de alegria e esperança (v. 3) e fará ao povo de Yahwéh demonstrações da retidão e da glória de Yahwéh. O papel e a obra proféticos serão dominantes; entre­tanto, a palavra profética será poderosamente efetiva. Como ele fala, assim ele servirá, com aquela Palavra e seu Espírito, como o sacerdote que cura e conforta e como o verdadeiro rei-pastor. 

Aqueles a quem o profeta-sacerdote-rei messiânico vai ministrar não são apenas os que se consideram membros da comunidade do pacto. Isaías fala dos pobres, dos quebrantados de coração, dos cativos, dos que choram, dos desesperados. A referência não é apenas àqueles que são materialmente po­bres, pois todos, ricos e pobres, fortes e fracos, podem estar e freqüentemente estão desesperados, vendo-se a si próprios como cativos ou prisioneiros. Jesus Cristo, quando veio e cumpriu essa profecia, ministrou ao povo comum, aos publicanos, aos governantes, aos fariseus, e também a oficiais romanos. 

Em 61.10,11 Isaías, falando como representante do povo libertado, restau­rado e renovado, expressa grande alegria por causa do ministério efetivo do Messias cheio do Espírito. 

A Mensagem Messiânica de Isaías 54-66 

Um sumário do estudo exegético precedente provê uma descrição adequa­da de muitos dos ensinos do Velho Testamento a respeito do conceito messiâ­nico. Como já mostramos previamente, vários críticos liberais não reconhecem que Isaías profetizou preditivamente a respeito do Messias prometido. Ne­nhum deles, entretanto, contesta que Cristo, quando na terra, referiu-se a si mesmo como o cumprimento dessas profecias. 

A mensagem messiânica, ou melhor, a revelação de Yahwéh a respeito do Messias, contém os elementos que se seguem. 

Primeiro, aquele sobre quem Isaías profetiza é o agente ministrador de Yahwéh, servindo em lugar do povo do pacto que falhou em cumprir suas responsabilidades pactuais. Isaías proclamou previamente esse agente como o Servo sofredor e exaltado, o Messias davídico. 

Segundo, o Messias ministrante é o Mediador do pacto. Prometido como a Semente e o Agente do pacto, Ele faz mediação entre Yahwéh, o esposo, e Judá, a noiva infiel. De fato, Ele os reconcilia. Restaura, renova, enriquece e assegura continuidade perpétua a essa relação pactual. 

Terceiro, o Messias ministrante serve de mediador também para as próprias nações. Ele é uma testemunha substituta para elas e torna-se o ponto focal para o qual são atraídas. 

Quarto, o Messias ministrante pode cumprir todos os seus deveres porque é ungido por Yahwéh por meio da dádiva do Espírito. 

Quinto, o explícito e preciso conceito messiânico em sua forma dita mais estrita é aqui proclamado. O Messias ministrante é uma pessoa de ancestrais régios, um líder, um comandante. Em outras palavras, Ele funciona como um Pastor real. 

Sexto, proclama-se o tríplice ofício incluído no conceito messiânico. Como rei, sacerdote e profeta, Ele vem, trabalha e sofre em favor do povo do pacto e das nações. 

Sétimo, o ponto de vista mais amplo do conceito messiânico, como acaba­mos de indicar, é descrito pela obra que o Mediador ministrante realiza. Ele sela as firmes misericórdias prometidas a Davi; funciona como o braço de Yahwéh trazendo livramento e restauração, estabelecendo justiça e retidão e executando a vingança de Yahwéh como juiz. Ele traz luz, a saber, liberdade da opressão, do cativeiro, da rebelião e da culpa. Ele traz alegria, louvor e glória oferecidas pelos redimidos a Yahwéh, seu soberano Senhor. 

Oitavo, o Messias ministrante assegura que o programa escatológico de Yahwéh vai tomar-se realidade. Israel expandirá e alargará a sua tenda; Ela incluirá pessoas de todas as línguas, tribos e nações. A Jerusalém física, terrena, por um algum tempo restaurada à sua primitiva centralidade, serve de meio e tipo para todos aqueles que são redimidos e toma-se a habitação de Deus, isto é, a Igreja.[43] Esse corpo de crentes e servos de Yahwéh, sobre o qual raiou a Luz (o Messias e sua salvação), tomar-se-á portador de luz para o cosmos inteiro. 

As Perspectivas Escatológicas em Isaías 54-66 

A perspectiva de Isaías nesta seção estende-se desde o tempo em que ele falou, durante o reinado de Acaz e a primeira parte do reinado de Manassés, até o tempo do ministério de Cristo. Ele refere-se ao futuro exílio de Judá e ao retorno e reconstrução de Jerusalém. Aponta para o ministério de Cristo em seu tríplice ofício.[44] Fala da Igreja em contínua expansão e de seu ministério de levar a luz ao mundo. Profetizou a respeito da glória vindoura e do novo nome da comunidade redimida (a Sião ou Jerusalém renovada). 

Isaías concentra-se na consumação nos últimos capítulos de sua profecia (63-66). O contraste entre os "trapos de imundície" do povo (64.6) e os gloriosos feitos de Yahwéh (por meio do Messias ministrante) é claramente traçado. Os trapos imundos, segundo Isaías, não impedem a recriação do cosmos. Na verdade, um céu e uma terra renovados (65.17) servirão como trono de Yahwéh e como escabelo de seus pés (66.1). 

Isaías não desdobra uma cronologia de eventos. Não apresenta à sua audiência um calendário, dia a dia, ano a ano, época a época, dos acontecimen­tos vindouros. Nem tem o propósito de escrever história antes que ela aconteça. -Ele proclama a pessoa e obra do Messias sofredor, exaltado e ministrante. Ele grava os eventos redentivos que fluem do árduo labor do Messias davídico. 

Isaías continua a proclamar o glorioso reinado de Yahwéh, uma gloriosa mensagem de certeza e de esperança, ao longo de toda a sua carreira profética. Yahwéh é soberano. Ele reina absoluto sobre Israel, sobre os povos e nações e sobre o cosmos; e porque seu reino é todo-poderoso, autoritário, universal e eterno, seu pacto nunca cessará nem falhará. O Messias real, sacerdotal e profético haverá de cumprir plenamente sua obra. O sempre-presente e ativo reinado de Yahwéh dá certeza para o futuro.[45]

A Resposta Profética 

Não repetiremos a questão sobre se Isaías é o intérprete original ou se apenas serviu como porta-voz de mais alguém em várias passagens.[46] É bastante reafirmar que Isaías, consciente de estar servindo como porta-voz de Yahwéh, fala não como um amanuense, ao contrário, mas como um indivíduo plenamente cônscio de seu chamado, de seu mandato, de seu ambiente e de sua identidade com o povo do pacto. Assim, enquanto proclama a revelação de Yahwéh, ele o faz como Isaías — o indivíduo particularmente dotado que ele é — e como Isaías, o membro da comunidade. Ele expressa as reações à revelação que foi incumbido de proclamar como profeta. 

Algumas indicações apoiam este fato. 

1. Isaías está bem cônscio de seu chamado e dever profético como porta- voz de Yahwéh ou do Messias (61.1-3,8,10; 62.1-2; 63.3). 

2. Isaías identifica-se a si mesmo como um de Israel, e quando confrontado com a revelação da vontade e do propósito de Yahwéh, fala a respeito de "nosso Pai" (63.16-19). 

3. Sendo ele próprio um príncipe e um homem urbano, expressa-se como um homem altamente dotado e culto. Usa seus talentos em grau elevado para dar forma e expressão à revelação de Yahwéh. Os eruditos concor­dam que os capítulos 60 a 62, especialmente, estão em excelente forma poética e homilética. 

4. Isaías demonstra que está profundamente envolvido nas comoventes mensagens que ele próprio profere. Consideremos sua preocupação, e seu modo de expressá-la, a respeito do pecado de Israel de não ser um povo fiel guardador do pacto (57-59), e sua descrição da depravação de Israel (por exemplo, sua descrição das obras como "trapos de imundí­cie", em 64.6, e a justiça praticada longe de Judá, 59.9-13). Consideremos também o tom de compaixão com que ele convida o povo a vir a Yahwéh (55.1-7), ouvir a palavra encorajadora (58.11) e participar com alegria (54.1-55.12). Consideremos, finalmente, sua determinação de "falar das bondades do Senhor" (63.7 NIV). 

Realmente, de diferentes modos Isaías demonstra estar profundamente envolvido naquilo que proclama como revelação de Yahwéh. Quando ele fala, porém, muito de sua personalidade, de seus dons e de sua própria resposta é ouvido, tanto que alguns críticos liberais não críticos pensam que a mensagem surgiu de dentro do próprio Isaías. Ele tem consciência de que é um homem de Yahwéh; ele sabe que está colocando diante de sua audiência Yahwéh, seu pacto, e o Mediador messiânico desse pacto. 







[1] Isaiah,p,506. 


[2] Young, Book of Isaiah, 3.415. 


[3] Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. lx; Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.633; McKenzie, Second Isaiah, em ^45(1968), 20.150, todos concordam em que é evidente uma estreita conexão material, mas todos eles insistem em admitir um terceiro Isaías. 


[4] Young, Book of Isaiah, 3360. 


[5] Smart, History and Theology in Second Isaiah, pp. 214,215. 


[6] Cf., p. ex., Smart, que organizou um sumário sucinto das discussões a respeito dessas questões e optou por um autor dos caps. 40-66, que viveu em Jerusalém durante o tempo do exílio {History and Theology in Second Isaiah, pp. 214-218,221-233). 


[7] McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.150. 


[8] Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.652,653. 


[9] Cf. a conclusão do cap. 19. 


[10] Muilenberg procura evitar as implicações óbvias afirmando que não se deve dar muita ênfase a essas referências. 


[11] Cf. a exegese de Is. 44.6-8 acima. 


[12] Cf., p. ex., McKenzie, nas notas de rodapé para cada seção que ele traduziu. Freqüentemente sua razão para a emenda é que, em sua opinião, "faz melhor sentido 


[13] Muilenberg, Isaîah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.654. 


[14] Ver cap. 16, acima. 


[15] Esse fator teológico tem sido visto e expresso ao longo deste nosso estudo da revelação do conceito messiânico. 


[16] Cf. Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.645. 


[17] Young, Book of Isaiah, 3377. 


[18] Hengstenberg, em seu Christology of the Old Testament, 2347, relembra corretamente a seus leitores que Isaías estava repetindo o que já fora dito antes (cf. 2 Sm 7.15,16; SI 89.1,2 fTM 2,3), 28,29 (TM 29,30) e 50 £TM 51)). Ver também o que Isaías tinha dito em 425,19; 43.10,12. 


[19] Ver Young, Book of Isaiah, 3 377,378, para a discussão do verbo hebraico nètottiw e seu correspondente. 


[20] O mandamento do Sábado tinha de ser obedecido; esse mandamento, entretanto, representava e incluía a vida inteira de culto que honra a Deus. Cf. nosso ensaio sobre o Sábado em The Sabbath-Sunday Problem (Geelong: Hilltop, 1967), cap. 1. 


[21] A estreita relação entre os caps.58 e59 é reconhecida por muitos estudiosos. Muilenberg refere-se aos dois capítulos como "uma unidade literária" {Isaiah, Chapters 40-66, em IB [1964], 5.686); ch Ridderbos, /saia/?, p. 529. 


[22] Pelo fato de os caps.58 e 59 relatarem um "encontro vivo" entre Yahwéh e seu povo, Muilenberg, seguindo outros como Procksch e Haller, considera o cap.59 como uma liturgia (ibid., 5.686). Young, entre outros, analisa corretamente a passagem como uma animada proclamação pelo profeta Isaías, em que ele se alterna como porta-voz de Yahwéh e de sua própria comunidade, e também fala objetivamente como profeta. 


[23] Ridderbos, Isaiah,p.529, escreve da "angústia de Deus". 


[24] Cf. Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.694, que não atenta para a identidade do braço e do redentor. 


[25] Ridderbos, Isaiah, p. 535, escreve: "O Senhor virá a Sião como redentor; o dia da vingança é também o dia da salvação." 


[26] McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.177. 


[27] Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.697. 


[28] Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 177, escreve que todos os principais aspectos (desse capítulo) encontram paralelos nos caps. 40-55. Smart comenta que esse material é muito semelhante ao do segundo Isaías, em seu tom lírico e em seu conteúdo, de modo que ele continua a falar do Segundo Isaías como o autor da passagem {History and Theology in Second Isaiah, pp. 256-258). Muilenberg, Isaiah, Chapter 40-66, em IB (1964), 5.697, admite que em "tema, linguagem, tom e pensamento" há uma estreita relação entre o material dos caps. 40.1-55.13 e esse capítulo. Mas ele acrescenta que o autor é dependente do Segundo Isaías. Esta é uma opção fódl para um crítico liberal. 


[29] Young, Book of Isaiah, 3.443. 


[30] Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.698; Ridderbos, Isaiah, p. 536; Young, Book of Isaiah, 3.443. 


[31] É evidente que Isaías tem em mente mais do que a Jerusalém terrena, pelo acentuado exagero, impratica­bilidade e contradição interna (v. 17), que resultariam se tudo o que ele diz fosse tomado Uteralmente (Ridderbos, Isaiah, p.537). 


[32] Cf. os renomados comentários sobre Is. 61.1 (p, ex,, Calvino, Commentaries on the Book of Isaiah, 4303). Ver também Mowinckel, He That Cometh, p.254. 


[33] Ridderbos, Isaiah, p.544. 


[34] Cf. Charles C. Torrey, The Second Isaiah: A New Interpretation (new York: Scribner, 1928), Sobre Isaías 61.1. 


[35] von Orelli, Isaiah, pp. 324,325. 


[36] Skinner, Isaiah XL-LXVI,y>.\i5. 


[37] McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.181. 


[38] Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.708, afirmou que "a influência do segundo Isaías é aparente não somente nas construções literárias, mas também no conteúdo". De fato, todas essas passagens são de um mesmo autor, o único Isaías, o profeta. É notável que críticos liberais, quando se defrontam com o óbvio apoio da tese de um único Isaías, tentem repetidamente rodear os fatos. 


[39] Cf. nossa discussão dos três ofícios no cap. 2. 


[40] O Espírito capacitou Moisés e Josué (Nm 27.18-21), Saul (ISm 10.6,10), Miquéias (Mq3.8) e Ezequiel (Ez S3). 


[41] Ver cap. 1, 


[42] Ver Edward J. Kissane, The Book of Isaiah (Dublin: Richview, 1960); Muilenberg,' Isaiah,, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.710, observa uma referência mais ampla. 


[43] Para uma exposição consistentememte bíblica e uma apresentação bem formulada, ver Louis A. de Caro, Israel Today: Fulfillment ofProphecy{Nu\\ey, N J.: Presbyterian and Reformed, 1976), pp. 118-216; La Rondelle, Israel of God in Prophecy, especialmente os caps. 7 e 8; Wyngaarden, Future of the Kingdom, caps. 4-6. 


[44] Pode-se conjecturar se Isaías se refere ao sofrimento e morte do Messias em 63.1, ou não. 


[45] Ver Dirk Odendaal, The Eschatological Expectation of Isaiah 40-66 (Nutley, N. J.: Presbyterian and Reformed, 1970), em sua bela obra a respeito do programa escatológico de Yahwéh, particularmente quando envolve Israel e as demais nações (esp. caps. 2, B, b; 3, A-B) .Ver também Ridderbos, Het Cods Woord derProfeten, cap. 12, seção 3: "O Senhor e Israel" (pp. 337-341); seção 6: "O Futuro da Salvação" (pp. 455-473). 


[46] Cf. especialmente as várias seções introdutórias à exegese de passagens selecionadas.