2 de agosto de 2016

GERARD Van GRONINGEN - O Messias no Livro de Isaías, 4: O Filho Sofredor e Ministrante (Parte 1)

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O Messias no Livro de Isaías, 4: O Filho Sofredor e Ministrante

A relação de Is 52.13-53.12 com a discussão precedente deve ser conside­rada. Isaías havia falado da libertação de Israel por meio de seu servo Ciro. Mas uma libertação maior e mais afetiva para Israel deve também ser realizada. O antítipo de Ciro irá fazê-lo. Isaías prossegue profetizando que o Servo será o agente de Yahwéh e o que ele suportará tornará essa redenção uma realidade.

A passagem (52.13-53.12) constitui o mais longo e mais facilmente definível dos Cânticos do Servo. Não contém aspectos especificamente novos a respeito do Messias; antes, desenvolve e explica o que fora revelado antes com relação à exaltação e à humilhação do Servo ou Messias. As referências precedentes serão notadas na exegese a seguir.

A passagem foi separada, neste nosso estudo, das passagens anteriores referentes ao Servo, por causa de sua ênfase à humilhação e ao sofrimento que o Servo suportará e através dos quais triunfará.[1] O Messias, o Filho davídico, o Servo, foi anteriormente representado como um da Semente do Pacto, como sendo régio e tendo características divinas, e incumbido de uma série de encargos de natureza pastoral, de juízo e libertação. Na verdade, são feitas referências às experiências difíceis suportadas no desempenho dessas tarefas: ele seria rejeitado, desprezado e ameaçado de morte.[2] A exposição dessas experiências por Isaías na passagem coloca a humilhação em equilíbrio com o caráter dignificado, exaltado e glorioso do Servo.

Ao começar o estudo da passagem é preciso notar que a pessoa a quem ela se refere é diretamente identificada somente pelo termo 'àbdi (meu Servo — 52.13; 53.11). Não é citado como o filho de Davi, um descendente dos patriarcas, ou como o mãstah, mas deve ser reconhecido como sendo a mesma pessoa. Isaías proclama a revelação de Yahwéh a respeito da Semente do pacto, o Ungi­do da casa de Davi, chamado e designado para ser o Servo de Yahwéh que, ao servir, experimentará humilhação e duro sofrimento em favor do povo de Yahwéh.


O Filho Sofredor (Is 52.13-53.12)

Crítica Textual

A discussão erudita do texto tornou-se mais restrita desde a descoberta dos dois rolos de Isaías entre os Rolos do Mar Morto. Christopher North apresenta um breve resumo do que fora feito antes e de como a descoberta dos rolos de Qumran deu ímpeto à cautela crescente dos críticos, que já se fazia sentir antes da descoberta.[3] O processo de emendas iniciado por Bernhard Duhm, que prevaleceu por algum tempo, não foi inteiramente descontinuado, como se pode observar por um simples olhar à lista de emendas conjecturais de John McKenzie.[4] Qualquer estudioso que tente fazer um minucioso estudo de Is 52.13-63.12 descobre que uma das razões porque a passagem é difícil de interpretar é que nela há muitos termos não comuns.[5] North conclui, entretan­to, que "a proporção de termos peculiares..mais alta do que nos textos exami­nados anteriormente...", quando considerada à luz de correspondências sufi­cientes, "torna arriscado" negar que o texto é de Isaías.[6] Podemos concluir com segurança que o texto dessa seção de Isaías representa em grau notável o texto original; os rolos de Qumran provam isso. Em contraste, as alterações da LXX ao texto não devem ser consideradas confiáveis.[7]

A divisão do texto em estrofes, uniforme entre os eruditos, destaca a construção literária de Is 52.13-53.12. Esses quinze versículos têm sido divididos em cin­co estrofes de três versículos cada. Muilenberg examina brevemente o que al­guns eruditos sugerem como a origem e natureza das estrofes 2, 3 e 4.[8] Essa pesquisa de raízes ou fontes para essas três estrofes é baseada na suposição de que as composições literárias bíblicas, particularmente se não são useiras, não são originais dos autores bíblicos, mas foram tomadas de empréstimo e adap­tadas no curso do desenvolvimento literário em séculos de evolução da cultura.[9]

Um desafio a qualquer intérprete do texto é discernir quem é a pessoa que fala. Isaías é o autor da passagem. Quando profetiza, entretanto, apresenta material não-original. Um fator-chave para resolver esta questão é ter em mente a relação especial entre Yahwéh, a fonte última da revelação, e o profeta chamado a atuar como seu porta-voz. Às vezes o profeta identifica-se com Yahwéh, outras vezes distingue-se dele. O profeta também fala como se Israel estivesse falando e, ou identifica-se com o povo, ou fala em seu favor.[10] [11]

Primeirã estrofe: 52.13-15. Esta estrofe deve ser considerada uma unidade integrada; o próprio conteúdo e a construção gramatical o exigem.[12] Yahwéh é quem fala, enquanto o profeta serve de seu porta-voz. Hinriêh (eis que) marca a transição das experiências de Israel para as de seu redentor. É também um chamado a prestar atenção. Yahwéh exige que seu Servo seja considerado porque yaékil (hiphil de éãkal). O verbo pode ser traduzido por vários termos ou frases: "olhar para" (Gn 3.6), "considerar" (Is 41.20), "ensinar" ou "fazer compreender" (1 Cr 28.9); "ter compreensão" (SI 119.99 NIV), "fazer prosperar" (Dt 29.9 [TM 29.8]), "agir prudentemente" (Am 5.13) ou "ter sucesso" (1 Sm 185). O seu contexto requer uma tradução que capte o caráter e a maneira do Servo; daí, a maioria dos tradutores optarem por "agir prudentemente" ou "sabiamente", preferível a um termo que se refira a um resultado, como "ter sucesso". Isaías vai falar das experiências penosas do Servo e da maneira pela qual ele as suportará. Realmente, vai descrevê-las pormenorizadamente. A primeira frase, portanto, deve ser vista como a introdução, não apenas da primeira estrofe, mas também das outras quatro. Como Jeremias iria profetizar a respeito do justo renovo de Davi, o rei, que reinaria sabiamente (o mesmo termo hebraico [Jr 23.5]), assim Isaías profetiza que ele suportará seus sofri­mentos. Seu caráter e sua conduta, sábios e prudentes, serão particularmente evidentes devido ao extraordinário contraste entre o status exaltado do Servo e suas experiências e aparência como Redentor.

Isaías destaca primeiro a dimensão gloriosa. O Servo será elevado, exaltado e colocado numa posição muito alta. Os três verbos hebraicos devem ser considerados sinônimos e não um paralelo progressivo. Isaías não está falando de três estágios da elevação do Servo; antes, enfatiza, com essa tríade de verbos, o alto grau de sua exaltação.[13] Ele demonstrará essa exaltação pelo seu caráter sábio e pela conduta prudente. É importante notar que o Servo não se torna um exaltado;[14] ao contrário, Isaías já se referiu antes à sua realeza e exaltação (9.2-7 [TM 9.1-6]; 11.1; 42.1-7; 493). Essas características e posição deveriam ser justificadas e demonstradas. O triunfo final do Servo está assegurado. Isaías, depois de breve e sucintamente declarar a exaltação do Servo, prepara o cenário para a reação de muitos cidadãos e reis à sua humilhação.

A construção gramatical dos versos 14 e 15 não tem sido consistentemente avaliada. Para evitar as dificuldades gramaticais alguns comentadores têm recorrido à elisão ou transposição,[15] mas não se resolvem todos os problemas gramaticais desta maneira. Edward Young entende que o verso 14a é a pró ta se, seguida de duas declarações parentéticas, que, por sua vez, são seguidas pela apódose ("os reis fecharão as suas bocas").[16] Outros dizem que tal construção elaborada não é necessária. Alguns preferem uma dupla apódose, cada qual introduzida pela conjunção kên, e uma segunda sentença complexa. A solução de Delitzsch é interpretar o kên do v. 14b não como referente a ka’âSer, mas simplesmente como dando ênfase, isto é, "de tal maneira".[17]

O uso preciso das conjunções deve ser determinado por seu lugar e função no contexto. Nenhuma delas tem um significado específico que sirva para todas as situações. Neste preciso contexto o significado do verbo nõzâ (15a) lança luz na interpretação das conjunções. Yazzeh (hiphil de nõzâ) pode significar "esguichar",[18] "espalhar", "aspergir" (KJV, NIV), "maravilhar" (NIV mg.), "tremer",[19] "fazer levantar",[20] e "alarmar" (RSV) ou "agitar". Expressaria esse verbo o que o sofrimento fez possível para muitos (v. 14, i.e., aspersão).[21] ou é em certo sentido a repetição do assombro do povo (v. 14a; cf. KJV, RSV)?

O peso da evidência é em favor de "aspersão".[22] Outra questão: Os termos hebraicos rãbim (muitos) e mèlãkim (reis) (v. 15b) devem ser considerados sinônimos, pelo menos até certo ponto, isto é, reis, representantes das muitas pessoas, estão atônitos, bem como a população? A resposta é que, embora o paralelo não seja estritamente sinonímico, os muitos, inclusive os reis, não devem ser diferenciados muito nitidamente.

A solução mais aceitável deve expressar a posição e também o sofrimento e a humilhação que ele vai suportar. A palavra ka’âSer deve ser vista como introduzindo o contraste expresso pelas frases "muitos pasmaram à vista de ti"[23] e "reis fecharão as suas bocas por causa dele". Além disso, ambas essas frases têm declarações elucidativas: as referentes aos muitos são introduzidas pela conjunção kên, e a referente aos reis, pela conjunção ki. Portanto, ambas essas conjunções funcionam de maneira semelhante e podem ser traduzidas "porque" (ver quadro 11).

Pode ser objetado que a tradução das conjunções hebraicas não é bem apoiada lexicamente. O sentido usual de ka’ãSer é "como", "assim como", e kên é traduzido por "assim", "assim também". Essas traduções usuais, entre­tanto, sugerem uma comparação que toma o texto muito vago. Para citar um exemplo, como pasmaram muitos, assim ele estava desfigurado, assim ele aspergirá nações. A cláusula introduzida pelo ki do verso 15c não apresenta problema nenhum porque a conjunção é freqüentemente traduzida "como" ou "porque". Poder-se-ia argumentar que, por causa da segunda parte, reis fecha­rão a sua boca por causa do que eles verão, assim também a primeira parte deve ser entendida assim: muitos pasmarão por causa de. Como, então, per­guntaria alguém, deve ser entendido ka’ãSer? A resposta está na comparação implícita que é também apresentada nesses versos. A extensão em que muitos pasmaram é determinada pela aparência desfigurada, e a aspersão é tornada possível por ela. Assim, o aspecto de comparação fica em relação causal, que deve ser entendida como dominante. Uma tradução mais livre, porém, de maior sentido, desses dois versículos seria assim:

Assim como ele foi altamente exaltado, assim também foi humilhado

Muitos ficaram atônitos à vista de ti (em grande medida) por causa (do grande grau em que) ele foi desfigurado por causa (do grande número de) pessoas aspergidas

Reis fecharam a sua boca

por causa do não dito e ouvido

(por causa do) que eles viram e ouviram.

O verbo Sãmêm pode ser traduzido como "devastado" e "horrorizado". Este forte termo é usado por Isaías para descrever o imenso espanto que muitas pessoas sentiram à vista do Servo. O termo rãbim pode referisse ao povo do pacto, mas visto que a cláusula paralela tem "reis", sugere um sentido mais amplo — muitas pessoas de várias nações. Essas pessoas ficaram horrorizadas com o que viram e com o que lhes aconteceria por causa disso.

O Servo está macerado e desfigurado de tal maneira que nem mesmo parece humano. O mêm de comparação expressa o grande grau da diferença entre a aparência humana normal e a forma "não-humana"[24] por causa da desfigura­ção e maceração. O que aumenta o assombro do povo é que esse ser macerado e desfigurado vai prover purificação para eles. A idéia de que muitas nações receberão sua redenção por meio desse Servo macerado e desfigurado "arra­sa-os". Eles estão horrorizados, não apenas porque o gloriosamente exaltado sofreu tal humilhação, mas também porque este é o meio pelo qual eles serão aspergidos. A terrível desgraça de sua condição lhes causará mais forte impres­são quando perceberem o que será requerido para "aspergi-los".

Os reis, que normalmente deveriam dar ordens, expedir decretos e pronun­ciar julgamentos, estarão calados. O que eles vêem e começam a compreender não é somente inesperado, mas também contrário ao protocolo real. Os reis usam sua posição régia; exercem sua autoridade e seu poder autocrático; mantêm sua elevada dignidade; arrogam-se e fazem uso de seus privilégios. É impensável que pessoas régias humilhadas e rebaixadas efetuem libertação, restauração e concedam uma liberdade que envolve toda a vida.

Refletindo sobre essa estrofe, devemos destacar mais alguns pontos. Primei­ro, Isaías profetiza que muitas nações serão aspergidas. Não profetiza que todos o serão. Há um universalismo limitado expresso aqui: mais do que Israel, mas não todos os outros. Esse universalismo limitado é aplicável também aos reis que fecharão suas bocas quando virem e compreenderem os meios usados por Yahwéh para trazer a redenção. Segundo, a extensão da obra redentiva do Servo é cósmica. Frey desenvolveu bem esse preciso conceito.[25] Ele observou que o governo de Yahwéh sobre os povos e nações compreende seu governo sobre a vida de tudo e de todos. Esse governo pode trazer, e traz, justificação e paz, a política mundial de Yahwéh (isto é, seu reino) sobre as pessoas em todos os caminhos da vida dentro das várias nações. Terceiro, o Servo é referido como tendo características régias e uma exaltada posição de rei. Ele era e é rei. Mas não é sua posição e função régia que é posta em foco. A ênfase está na extrema extensão de sua humilhação e sofrimento. O sacrifício de si mesmo, profetizado antes (50.4-10), é destacado. O rei serve como sacerdote e sacrifício. Davi falara das "experiências sacerdotais" (SI 22,69). Isaías agora reintroduz o duplo papel. É esse duplo papel — exaltação real e extrema degradação e sofrimento — que causa o horror do povo e o emudecimento dos reis. Essa reação é aumentada quando eles começam a ver e compreender que, por meio desses dois papéis extremamente diversos entre si, sua redenção vai tomar-se realidade.[26]

Finalmente, deve ser lembrado que vários críticos, tendo dificuldade de aceitar a profecia de Isaías da revelação de Yahwéh sobre uma expiação vicária a ser efetuada por Israel e por muitas nações, têm procurado a origem dos conceitos de Isaías nas liturgias de antigas nações pagãs. Essas liturgias conte­riam temas de morrer-reviver e de humilhação-exaltação.[27] O fato de essas liturgias, centradas em conceitos mitológicos, não fazerem menção nenhuma da aspersão (i.e., expiação pelo sacrifício com sangue) nem ao pasmo dos reis, deve servir para alertar os estudantes da Escritura a não buscarem tais fontes extra- bíblicas no seu estudo da origem dos conceitos profundos e singulares a respeito do Servo e da expiação vicária, como foi preparada e revelada por Yahwéh.

Segunda estrofe: 53.1-3. Os que afirmam que o Servo nos vários cânticos refere-se a Israel traduzem esta estrofe diferentemente dos que afirmam que o Servo é um indivíduo, ou seja, o Messias prometido.[28] A tradução literal é: "Quem creu na mensagem que ouvimos?"

Enquanto os reis e os povos e nações não tinham ouvido, Israel ouvira a mensagem. A pergunta "Quem?" acusa Israel, que ouviu, mas está chocado com o seu conteúdo, e não creu. Isaías contrasta-os implicitamente com os "estrangeiros" que, sem ouvir, crêem no que estão vendo. A identidade de quem fala não é clara; os gentios crentes não podem ser, porque não ouviram. Alguns dizem que é Yahwéh quem fala, porque Ele é quem revela o seu braço.

Mas embora a mensagem seja procedente de Yahwéh, não é Ele quem fala. Os profetas vinham proclamando a mensagem do exaltado e, entretanto, humi­lhado Servo de Yahwéh. Israel a tinha ouvido, mas a maior parte dele não creu no que ouviu. Isaías, nesse exemplo, identifica-se com os profetas que o precederam e possivelmente com aqueles em Israel que creram. O sufixo nü (nos, nosso) evidencia que Isaías está pensando em outros, além de si próprio. O tempo do verbo, um perfeito profético, deixa claro que ele tem em mente o futuro. Ao olhar para o futuro, inclui os crentes e os profetas que repetirão a mensagem sobre o Servo. Portanto, em sentido real, quando Isaías fala em seu tempo, está falando em lugar da comunidade crente de um futuro distante.[29]

Isaías explicita que a mensagem profetizada foi realmente ouvida; a tragédia é que não foi crida. A frase "o braço de Yahwéh" refere-se à salvação completa (59.16; 63.5) ou ao instrumento de livramento (51.9; 52.10,62.8). O termo braço indica força; a poderosa libertação ou salvação cumprida pelo poder de Yahwéh foi manifestada. Tem-se realmente testemunhado o julgamento de Yahwéh sobre os inimigos e a poderosa ação que traz salvação e liberdade.

A mensagem ouvida e a grande salvação cumprida, que Isaías profetizou, deve ser vista na perspectiva histórica e na perspectiva futura. Moisés falou de uma grande salvação, mas Israel no Egito não confiou nele. Apesar disso, Yahwéh o libertou do Egito com braço forte. Pouco depois os murmuradores consideraram a escravidão no Egito preferível à liberdade no deserto, mesmo com as dificuldades que havia no cativeiro (Êx 16:2). Através de toda a história de Israel a mensagem da salvação dada por Yahwéh por meio de seus servos, todos tipos de Cristo, raramente, se jamais, foi apreciada por todo Israel. Isaías profetiza que assim será também no futuro; quando o poderoso libertador aparecer e realizar uma redenção maravilhosa, a descrença e a rejeição serão amplas. Será então como nos dias de Isaías—como Yahwéh advertira o profeta a respeito da reação de Israel ao seu ministério profético — "ouvirão mas não entenderão... verão mas não perceberão... corações endurecidos..." (Is 6.9-13).

A descrença e rejeição dos servos de Yahwéh e da obra redentora feita por meio deles no passado têm raízes em várias circunstâncias (dificuldades no deserto e influências dos vizinhos na Terra Prometida). Mas no futuro, quando o Servo exaltado aparecer e servir como alguém ferido e desfigurado (52.14), a descrença e a rejeição atingirão proporções trágicas.

Em 53.2 o verbo 'ãsâ com o vav consecutivo deixa claro que se deve entender novamente o perfeito profético.[30] Assim, o Servo foi subindo como um lactente (literalmente)[31] ou, como os tradutores preferem, como um tenro renovo.[32] A cena é não a de um poderoso carvalho, forte e majestoso; é antes a de uma frágil vergôntea brotando do toco de uma árvore. Tais brotos eram freqüentemente considerados um incômodo e, por isso, cortados. O Servo é da família de Davi, de linhagem real e exaltada. As circunstâncias e o ambiente em que ele vem são inglórios, totalmente alheios à realeza.

Isaías já se referira antes à sua aparência desfigurada (52.14). Ele agora fala negativamente. O esplendor associado a um rei, como a casa de Davi manifes­taria, está totalmente ausente. Isaías acentua a sua aparência chocante ao dizer que o Servo está completamente destituído de quaisquer aspectos atraentes. Não há nada absolutamente de real, majestoso, a respeito dele: é uma figura repulsiva.

O sofrimento físico e/ou mental do Servo é claramente visível. A desfigu­ração causada por doença é ostensiva; se o termo "doenças" deve ser tomado literal ou simbolicamente é questão de escolha. O fato permanece. O Servo experimenta as trágicas conseqüências que o pecado trouxe: a doença com os efeitos da deformação e desfiguração.

Isaías descreve como reage o povo para o qual o Servo veio:

1. Não há nada a respeito do Servo que alguém deseje ver; nada nele é atrativo.

2. Ninguém tem prazer em vê-lo, muito menos estar na sua presença.

3. O Servo é considerado indigno de reconhecimento.

4. As pessoas que o vêem desprezam-no, como totalmente destituído de tudo o que é desejável. Ele é completamente abandonado. Toma-se absolutamente desprezível entre os homens.

5. O povo não olha para o Servo. Voltam-lhe as costas ou cobrem os olhos para não vê-lo. O povo quer evitá-lo completamente. (Isto era comum en­te feito em relação a alguém que estava sob a ira de Deus e, portanto, amaldiçoado) ,[33]

6. O povo o despreza. Esta repetição dá ênfase à rejeição do Servo.

7. O povo não pensa nele; não o tem por digno de atenção. O Servo é condenado à solidão completa.

Devemos considerar alguns pontos ao sumarizar a estrofe:

1. O Servo de quem Isaías falara anteriormente é o tema principal. É o Servo individual, que representa o servo coletivo.

2. O Servo, real e exaltado (52.13), sofrerá humilhação extrema. Isso não é um tema novo. O Servo, que é da semente de Davi,[34] de Judá, de Abraão e da mulher (Gn 3.15) é consistentemente referido como sofredor. Ele será ferido no calcanhar; ele é tipificado por animais sacrificiais imolados e oferecidos vicariamente. O salmista falou dele (SI 22.6 [TM 22.7]); 40.6-8 [TM 40.7-9]; 693 [TM 69.4]). Isaías também referiu-se a isso (49.4; 50.6).

3. A rejeição pelo povo para o qual ele veio é tão grande que parecerá que as significativas palavras "tenho trabalhado em vão" (49.4) são efetiva­mente verdadeiras. Isaías reúne termos e frases para expressar a exten­são extrema da descrença, do escárnio, da rejeição do Servo pelo povo. A enfocada passagem, entre todas as do Velho Testamento, dá a mais clara e mais intensa expressão do sofrimento causado pela rejeição. Dessa maneira, o povo aumenta a dura humilhação que o Servo sofre.

Terceira estrofe: 53.4-6. Esta estrofe tem sido corretamente entendida como confessional.[35] Há uma confissão de pecado e um reconhecimento da punição devida pelo pecado, que cai sobre o Servo vicariamente sofredor. A maioria dos comentadores tem apontado o forte contraste expresso pelos pronomes hü’ (ele) e ’ânahnü (nós). O sentido é: o que ele sofreu, nós merecemos. Quem fala é Isaías, que continua a identificar-se com o Israel crente. O profeta, de certa forma, volta-se para as atividades sacerdotais por meio dessa vigorosa confis­são do pecado e da punição devida. É irritante ler as repetidas tentativas eruditas de encontrar influências litúrgicas acádicas ou babilónicas na profecia de Isaías. Os que atribuem a um segundo Isaías esta parte do livro dizem que sua presença na Babilônia (durante o exílio) favorece isso.[36]

O termo hebraico ’ãkên (certamente) pode expressar um contraste, mas a força asseverativa é correta aqui. É dada forte expressão à confissão: halãyênü hü’ nãéã’ (nossas enfermidades ele levou). Isaías falara de hõli (doença ou enfermidade, v. 3 [cf. RSV, mg.]). Refere-se a elas como nossas, embora o Servo esteja intimamente familiarizado com elas. Essa familiaridade com a "doença" é por meio de seu nãéã’, um termo que se refere a uma ação tríplice: levantar, carregar, remover. A carga de muitos se toma o pesado fardo a ser levado por ele em sua ação. O simbolismo que nos vem à mente é a do bode emissário, que tinha a iniqüidade do povo colocada sobre ele, que a levava para o deserto (Lv 16.22). O conceito de substituição é claramente proclamado. Toda a tristeza, dor e sofrimento relacionados com essa enfermidade o Servo experimenta, porque sèbãlãm (ele pessoalmente levou-as). Tomaram-se suas quando ele as tirou do povo em favor de quem ele sofre.

Isaías prossegue dando pungente expressão à reação do povo. O "nós" enfático é escrito; o verbo que expressa a idéia de considerar indigno (v. 3) é usado agora para expressar como ele é considerado como quem está sob o castigo de Deus. Três verbos são usados: nãgüa' (particípio passivo qal de riãga', bater, golpear); mukkêh, (hophal de nãkâ, castigar, punir severamente); e ümè'unneh (pual de ãnâ, ser afligido). Todos os verbos estão na voz passiva: ele é visto como alguém a quem uma punição severa é infligida por Deus. Pelo fato de o verbo hebraico riãga' é usado para referir-se a Yahwéh ferindo o rei com lepra (2 Rs 155), o Servo tem sido considerado também leproso. Young observa de modo correto que é provavelmente ir longe demais insistir que o verbo indica necessariamente lepra.[37] É mais apropriado dizer que o povo considera o Servo tão repulsivo quanto um leproso. Que o termo não se refere à lepra está implícito no versículo seguinte: é o pecado, não a lepra, o que causa a aflição do Servo.[38]

O versículo 5 começa com wèhü’ (mas ele). Não vem ao caso como o povo o vê ou considera, o fato é que Deus está lidando com ele em benefício do povo. AMhõtãl (pual passivo de hãlal, furar, traspassar). Este verbo refere-se a execuções e dificilmente seria usado para referir-se à lepra que aflige uma pessoa. A referência é antes à penetração de uma espada (p. ex., Ez 32.26). A causa desse ferimento são nossas transgressões, confessa Isaías em nome do povo. A consoante mem quer dizer por causa de. Medukkã’ (pual de dãkã’, quebrar, esmagar). O Servo é esmagado ou moído por causa das iniqüidades do povo. Os termos hebraicos para transgressões e iniqüidades designam violações da lei de Deus,[39] mas não são inteiramente sinônimos. R. B. Girdlestone faz uma nítida distinção:[40] a transgressão acentua a revolta contra a autoridade devidamente constituída, e justa; a iniqüidade destaca a condição, a depravação. O primeiro termo é usado no sentido legal, o último no sentido ético. O Servo é executado em favor do povo por causa dos atos rebeldes e da depravação deste. E é Deus quem planeja e executa esta substituição expiatória: Deus golpeia, castiga, traspassa e esmaga o Servo.[41]

O resultado desse sofrimento vicário, substitutivo, é expresso pelos substantivos paz e cura para os culpados. Musar Sèlômênü 'ãlãyw (lit. a disciplina para nossa paz sobre ele). O termo traduzido "disciplina" é derivado do verbo yãser, castigar, disciplinar, admoestar. O substantivo pode referir-se ao treina­mento adequado de um jovem. Expressa também o ato de punição por maus atos, numa tentativa de corrigir: Moisés usa o termo para descrever o castigo de Deus a seu povo (Dt 11.2), enquanto Isaías o escolhe para designar punição severa (26.16). O significado preferido do termo, portanto, é punição severa.

Isso tem apoio no fato de que o termo transgressão expressa um conceito legal; assim, o Servo recebe uma punição legal. MXsar está no estado construto — punição de nossa paz, significando a punição que produz a nossa paz, ou que por meio dessa árdua punição que Yahwéh inflige ao Servo o povo recebe paz. Isaías fala do pacto de paz em outro lugar (54.10), quando traz a idéia das bênçãos de amor e vida que Yahwéh concede àqueles que são obedientes a seu pacto. Assim, pelo sofrimento do Servo, os violadores do pacto que perderam a paz tornam-se guardadores do pacto e recebem as bênçãos plenas de estar em relação viva, de amor e serviço com Yahwéh, o Senhor do pacto.

O sofrimento substitutivo traz outro grande resultado. Traz cura, saúde, integridade: úbahãburãtô nirpã’-lãnú (e por seus golpes — os golpes que ele recebeu — há cura para nós; niphal de râpa’). A tradução preferível, embora grandemente relegada, é: "pelos golpes que ele recebeu, a cura veio para nós. O substantivo golpe nunca é usado no Velho Testamento para referir-se à lepra, mas para indicar o castigo físico infligido por alguém que, com uma vara ou chicote, açoita um culpado. A cura é a restauração real que ocorre depois de uma ferida ou de uma doença que afetou uma parte do corpo. No contexto, considerando a estrutura do Verso, Isaías fala da paz conseguida pelo rebelde e da cura que vem ao doente e depravado. Assim, ocorre uma dupla restaura­ção: da relação pactual com Yahwéh e da condição — moral, espiritual e possivelmente física — do povo pecador.

No verso 6 Isaías, falando em nome do Israel crente, repete com inconfun­dível clareza que o Servo sofre em lugar do povo. Kullãnú kasçô’n tâ’înû (todos nós como ovelhas nos desgarramos. O "todos nós", com quem Isaías se identifica, refere-se de novo a 53.1: Quem ouviu o que nós ouvimos?[42] Esses confessam que andaram desgarrados como ovelhas. O verbo tâ’înû (qal de fã'â) pode referir-se a uma de três ações: (1) Fisicamente, vaguear; (2) camba­lear (como uma pessoa embriagada); ou (3) desviar-se, eticamente (cf. Is 29.24; SI 58.3 [TM 58.4]). Ovelhas, cabras, gado miúdo podem vaguear nas pastagens, mas também podem desviar-se, indo para lugares perigosos, ou podem per­der-se quando não seguem a direção do pastor. De fato, parece natural para as ovelhas ir a lugares onde não deveriam ir. Esse desvio das ovelhas, que os crentes confessam ser um "vaguear ético", é um desvio rebelde, como Isaías prossegue observando: "cada um se desviava por seu próprio caminho." É um afastamento consciente do caminho do pacto de paz e integridade. Israel está olhando para trás, para sua corrupção moral e espiritual anterior, para sua depravação, sua rebelião e iniqüidade voluntárias. Os israelitas confessam que se desviaram de Deus e rebelde e conscientemente seguiram o curso de vida que eles próprios tinham escolhido.[43]

V\fyhwh hipgia’ bô (e Yahwéh fez vir sobre ele; hiphil de paga', encontrar ou atingir). O nome pactuai Yahwéh é usado. Aquele que é a causa da paz do pacto que há de vir sobre Israel crente é o mesmo que removeu as transgressões e iniqüidades dos crentes e transferiu-as para o Servo. Isso que Yahwéh faz vir sobre o Servo é a 'awõn (iniqüidade) de todos aqueles que receberam a paz e a cura do pacto. O substantivo iniqüidade refere-se aqui à depravação moral, mas implica também suas causas, expressões e resultados.

Esta terceira estrofe nós designamos confessional por seu caráter. De fato, ela é. Isaías, falando em favor do Israel crente, mas tendo em vista todos os povos e nações quando fala da depravação e rebeldia comuns a toda a humanidade,'proclama algumas verdades bíblicas redentivas centrais, enquanto dá expressão à confissão dos crentes.

Uma distinção bem nítida é traçada entre "nós" e "ele". O Servo, humano como é, é posto à parte dos outros.

Acentua-se a depravação moral e espiritual da humanidade. O efeito disso é estar "em guerra" com Deus, em rebelião contra o Senhor do pacto, e escolher voluntariamente cursos pecaminosos de vida. O caminho da doença, punição e morte está diante de todas as pessoas.

O castigo devido por essa rebelião e depravação é posto sobre o Servo. Isso resulta em ser ele ferido e esmagado — de fato, resulta na morte do Servo em lugar do povo. Não é nenhum outro, senão Yahwéh, o Senhor do pacto, quem faz essa grande transferência e substituição.

O Servo, segundo Isaías, recusa-se a vaguear, errar ou rebelar-se, mas voluntariamente apresenta-se àqueles que o ferem (matam) por parte de Yahwéh (50.6).

As bênçãos plenas do pacto, isto é, a paz em seu significado mais rico, são restauradas ao povo que se arrepende, que confessa, que crê. Isto é, a salvação — plena, penetrante e integrada em toda a vida — é restaurada e feita possível para todos os descendentes decaídos de Adão. O ensino bíblico concernente à expiação vicária, afirmado claramente aqui, tinha estado implícito antes. As profecias anteriores de Isaías incluem referências a ele (50.6; 49.4,5). A cena foi preparada no humilde nascimento que o profeta tinha profetizado (11.1; 9.6 [TM 9.5];7.14,15; 4.2). Essa doutrina da substituição tinha sido prefigurada pela substituição de todos os primogênitos pelos levitas (Êx 13.11-16). A substitui­ção por meio da morte tinha sido tipificada pelos sacrifícios (Lv 1-7). O cordeiro oferecido em lugar de Isaque, de modo semelhante, tipificava a expiação substitutiva (Gn 22.12,13). Isaías, nessa estrofe, expressa de modo claro e definido o que antes poderia ser considerado não-claro; ele, entretanto, escla­rece o que já antes estava implícito e indicado.

Isaías não é influenciado pela mitologia babilónica e acádica e suas várias liturgias. Não há absolutamente nenhuma idéia de substituição ou de sofri­mento vicário nas mitologias pagãs. Isaías é influenciado pela revelação prévia dada por Yahwéh a seu povo. Mais especificamente, Isaías é o porta-voz de Yahwéh; embora possa não ter entendido a amplitude e o alcance de tudo o que proclama, sua mensagem é inteligível em alto grau quando vista à luz da revelação prévia.

Quarta estrofe: 53.7-9. Nesta estrofe Isaías retoma ao que havia referido antes, a saber, o sofrimento do Servo. Ele, entretanto, aumenta linha por linha a extensão do sofrimento do Servo e conclui com sua morte e sepultamento. Muilenberg observou corretamente que há um contraste ao longo desta estrofe, entre o objeto do seu sofrimento e o modo pelo qual ele o suporta.[44] Acrescen­ta-se pungência a esse relato do sofrimento pela declaração final a respeito da inocência do Servo. O termo niggaá (ele foi fortemente oprimido, niphal de nãgaé, oprimir) retoma o que foi proclamado antes e introduz o tema principal da estrofe, isto é, o sofrimento infligido ao Servo. Ele é severamente oprimido. Como o suporta? As duas frases seguintes (restante do v. 7) explicam como ele suporta esse sofrimento extremo.

Primeiro, wèhü’ na'ãneh (e quando ele estava sendo afligido, niphal de 'ãnâ). O verbo hebraico traduzido "afligir" refere-se a sofrimento imposto a ele; o particípio niphal traz um matiz especial intrínseco no verbo — o da aceitação humilde e paciente do sofrimento infligido. A segunda frase, ou cláusula circunstancial, wèlõ’ yiptáh piw (ele não abriu sua boca), explica essa humildade e paciência. Muilenberg tenta estabelecer evidência adicional para um segundo Isaías escrevendo que a paciência aqui descrita era uma caracte­rística da antiga piedade oriental. Essa especial impaciência não seria conheci­da em Israel porque Habacuque e Jeremias abriram a boca em lamentos.[45] O ilustre comentador não considera, entretanto, a paciência e humildade de um Abraão suplicante (Gn 18:30-33), um Isaque submisso (22.7-11), um José pa­ciente (39-41), um humilde Moisés (Nm 12.3-8), um Sansão quebrantado e submisso (Jz 16.26-30). Além disso, Jesus Cristo, quando insultado e afligido, não abriu a boca em protesto ou lamento (cf. Mt 26.63, par. Mc 14.61; cf. 1 Pe 2.23); o Salvador, incidentalmente, nunca esteve exposto à influência cultural da Babilônia.

A descrição de não abrir a boca em lamento ou protesto é elaborada por meio de uma nova referência à ovelha — agora não ao vaguear e extraviar-se desse animal — mas ao inocente cordeiro que não sabe que está indo para a morte, não berra e bala em reação contrária (Is 53.7). Além disso, como a ovelha permanece muda ao ser tosquiada, assim também o Servo.[46]

Tendo falado de como o Servo pacientemente suportou sua aflição e agonia humilhantes, Isaías passa a explicar a maneira de sua execução.

O verso 8 é de tradução difícil.[47] A palavra më'ôser, composta de mg e 'õser, é ambígua. Os termos usados para traduzi-la são coerção, opressão (NIV, RSV), prisão (cf. KJV), humilhação, julgamento pervertido, detenção (cf. NIV, mg.). Young nota que o termo aparece três outras vezes no Velho Testamento (Jz 187; SI 107.39; Pv 30.16) e em cada uma dessas passagens, como aqui em Isaías, traz a idéia de restrição ou coerção. A idéia é apoiada pela raiz verbal que é traduzida como "restringir" ou "fechar".[48] O prefixo me, segundo Skinner, poderia ser traduzido como "sem", "através de" ou "de".[49] No atual contexto, entretanto, mê é melhor compreendido como "por causa de" (53.5). Parece que a tradução preferível deve ser decidida pelo fluxo do pensamento. O Servo é declarado oprimido e aflito. Mas ele, humildemente, submete-se à provação; não abre a boca em lamento ou protesto. Os termos seguintes referem-se à sua morte (cortado da terra dos viventes, NTV). Que experimentou ele antes de ser posto à morte? Detenção e julgamento. O próprio contexto, portanto, leva-nos a 1er: (ele foi afligido) por ser preso, posto sob restrição; ele sofreu coerção. Ele foi levado a julgamento; foi julgado (injustamente) e condenado. Ele foi forçado a submeter-se à ação legal (detenção) e ao pronunciamento judicial (julgamen­to). O verbo luqqah (puai de lãqah, tomar) evidencia que ele foi tomado, isto é, foi levado à morte porque, tendo sido preso e julgado, foi considerado culpado. A tradução preferível, portanto, seria: "por meio de detenção e julgamento ele foi tomado (para morrer)".[50]

O restante do verso 8 deve ser considerado uma pergunta retórica formu­lada de maneira única. Notemos duas partes: primeira, wë’et dôrô (e quem de sua geração). É preferível traduzir: "e quem entre seus contemporâneos." O pensamento é evidente: nenhum de seus contemporâneos parou para conside­rar. Segunda, kl mlgzar më’eres hayylm (que ele foi cortado da terra dos viventes; o verbo é o niphal de gãzar, cortar fora, separar, exterminar); aqui o sentido é que ele foi separado da terra dos vivos. Os homens reconheceram que ele foi removido, mas não pararam para pensar por que o foi. Isso é explicado na frase seguinte: mippeSa' 'ammí nega1 lãmô (por causa da transgressão do meu povo, o golpe destinado a ele). A idéia é clara: a morte violenta que o Servo experimenta não é por causa de sua própria transgressão; o povo do pacto é quem merece o castigo, porque é a sua transgressão que trouxe o golpe mortal. O caráter substitutivo da morte do Servo (cf. 53.4-6) é novamente citado. Seus contemporâneos não consideram que ele morreu em lugar deles.

Críticos eruditos têm lutado com o significado da passagem, mas parece que a extensão em que eles o fazem seria desnecessária. Um de seus problemas é reconhecer que Isaías é o porta-voz de Yahwéh;[51] não levar em conta esse fato suscita um problema insuperável com o termo 'ammi, meu povo. Para tentar fazer o povo (Israel) falar, o texto tem sido emendado para: "nossas transgres­sões."[52] Não há, entretanto, nenhuma evidência textual para essa mudança. O Rolo do Mar Morto traz "seu povo", referindo-se ao povo do Servo. Isso é uma alteração interpretativa, que, no entanto, expressa a intenção correta. O Servo de Yahwéh pode reivindicar o povo de Yahwéh como seu próprio; o Servo é posto à morte por seu povo.[53] Ele é um deles, representa-os, mas, declarado Servo co-regente de Yahwéh, ele os possui.

O verso 9 continua o relato do sofrimento do Servo. A referência é a seu sepultamento. É mais difícil traduzir esse verso do que determinar seu sentido geral.[54] A passagem deixa claro que o Servo morre como morre um criminoso e é enterrado como o rico é enterrado. O Servo, embora tratado como um criminoso, é totalmente inocente. Nem em atos nem em palavras ele se fez culpado. Manteve sua inocência em toda a sua vida e na sua detenção, julga­mento e morte.

A quarta estrofe contribui para o relato da humilhação do Servo.

1. A violência que o Servo suporta por opressão, detenção e julgamento aumenta o seu sofrimento.

2. O Servo mantém sua paciência e humildade; não protesta nem se lamenta. Continua a sofrer voluntariamente.

3. A falta de compreensão por parte daqueles por quem ele sofre aumenta sua dor, tristeza e agonia. Ninguém pára para refletir com gratidão sobre o que o Servo experimenta. Ninguém diz: "Eu deveria estar ali onde ele está; eu deveria estar sofrendo, e não ele."

4. Sua morte é a de um criminoso, embora ele seja inocente. Ele não fez nada, seja por palavra ou por ato, para merecer tão violenta punição.

5. Seu sepultamento, embora em túmulo de rico, não foi merecido. Ele tinha o direito de viver e desfrutar a vida na terra. Mas é colocado como vítima num túmulo e tem de submeter-se aos horrores de tal sepulta­mento — inda que seja na tumba de um rico.

6. O agudo contraste continua: ele, o Servo, em contraste conosco. Ele é o inocente, nós, os culpados. Ele é o oprimido, detido, julgado e condena­do; nós os livres, desimpedidos e considerados não culpados. Na verda­de, o ensino bíblico do sofrimento e da morte vicários do Servo é drama­ticamente desenvolvido e elucidado.

Quinta estrofe: 53.10-12. Estes três versículos são o clímax de todo o cântico. Quatro fios principais de pensamento são tecidos aí: o papel de Yahwéh; o futuro do Servo; o resultado do sofrimento do Servo pelo povo; e a recompensa do Servo. Esses temas dão continuidade ao que lsaías proclamou previamente; daí uma conexão significativa entre essa estrofe e as precedentes.[55]

Vfyhwh hãpês dãk’ô (mas —ou, ainda — a Yahwéh agradou esmagá-lo). A conjunção wè pode ser lida como significando contraste. Os homens ma­taram e enterraram o Servo (53.9). Mas — ou ainda, entretanto — Yahwéh provê a motivação imediata. O verbo hãpês—agradar-se, querer—deixa claro que Yahwéh não somente quer que o Servo sofra, mas também agrada-se disso. De fato, poder-se-ia usar um termo até mais forte: isso delicia Yahwéh. Dãk’ô (piei de dãkã’, esmagar, quebrar) não deve ser entendido como se Yahwéh fosse caprichoso'ou insensível. Ao contrário, Yahwéh tem o seu propósito e razão. Yahwéh delicia-se, portanto, em infligir sofrimento ao Servo por causa do que será conseguido por ele. Não se pense que Yahwéh se delicia no sofrimento em si; o termo seguinte dá ênfase ao papel de Yahwéh.

Hshéli é usado também em 53.4 para referir-se à condição da humanidade. Ele levou a nossa enfermidade, doença, isto é, nosso pecado e seus resultados sobre a raça humana. Yahwéh fez dele um pecador com todas as severas conseqüências de sê-lo, embora ele seja inocente (53.9c-d). A ênfase é sobre a identificação do Servo, por Yahwéh, com as pessoas corruptas e depravadas; ele poder servir como seu substituto.

’Im-tãéim ’ãSãm napSô (quando ele fizer de sua alma uma oferenda) repete o que Yahwéh faz. ’hm é traduzido "se" em vários contextos, mas também pode ter o sentido de "quando". Se sugere que o que foi declarado anteriormente como um fato certo, pode entretanto não o ser; quando assume a factualidade dos atos de Yahwéh e introduz uma cláusula que, por sua vez, introduz os resultados seguros do que Yahwéh fez. O verbo ’õsâ (ele fará) tem ocasionado muita discussão. Deve ’ãSãm (qal) ser entendido como segunda ou terceira pessoa? Se for terceira pessoa, o sujeito é alma, pessoa ou vida,[56] portanto, a referência é ao que o Servo faz.[57] Se é segunda pessoa, então, de acordo com o contexto, Yahwéh ordena e executa o oferecimento da pessoa como sacrifício pelo pecado. Ridderbos corretamente escreve que "a vida do Servo do Senhor (é) oferta pelo pecado".[58] Compreender o verbo como segunda pessoa, entre­tanto, introduz uma sensível mudança: Isaías vinha falando na terceira pessoa. Então, ele muda subitamente e dirige-se a Yahwéh? Os profetas freqüentemen- te fazem isso.[59] Mas qualquer que seja a maneira como o verbo é entendido, o ponto principal é: a vida do Servo é um sacrifício[60] pelo pecado. E quando isso é realmente efetuado, os resultados serão também alcançados. Nove desses resultados são relacionados (10d-12b); referem-se ao futuro do Servo, ao resul­tado para seu povo e às recompensas do Servo, como vamos documentar.

Yir’eh zera' (ele verá semente; qal de rã’â, ver). Algumas verdades muito importantes expressam-se nesta curta frase. O Servo, tendo morrido, viverá de novo, porque "verá". Sua ressurreição será um fato. Como o redivivo, ele verá os resultados de seu sofrimento e morte. O termo semente deve ser tomado no sentido figurado e não no sentido literal de descendência física. Ao contrário, o sacrifício de si mesmo como oferta pelo pecado implica uma satisfação substituinte.[61] Aqueles a quem ele substituiu são a semente que ele verá. Young escreve que a semente são aqueles a quem Ele, por seu sofrimento vicário e sacrifício expiatório, redimiu da culpa e do poder de seus pecados, uma grande multidão que ninguém pode contar.[62]

Ya’ârik yãmlm (ele prolongará os dias — hiphil de ’ãrak, fazer longo). Alguns tradutores incluem o pronome seus antes de dias, bem como sua antes de semente. O hebraico não tem o pronome, mas o próprio contexto implica em que o Servo verá os efeitos e considerá-los-á resultados para si próprio. Por seu sacrifício ele adquire seu povo e uma vida prolongada. Esse prolongamen­to de dias reflete sua realeza (Dt 17.20; 1 Rs 3.14). De fato, equiparando-se com outras passagens do Velho Testamento (cf. 2 Sm7.13-16; SI 21.4 (TM 21.5); 89.4 (TM 89.5); 132.12), o espaço de tempo refere-se à vida eterna que será passada em comunhão com o povo que ele redimiu.[63] De novo, deve entender-se aqui a ressurreição do Servo e também, por implicação, a de sua semente.[64] Em outras palavras, esses benditos resultados para o Servo-Messias serão também partilhados por seu povo.

Wèhepes yhwh bèyãdô yislah (e a vontade de Yahwéh em sua mão avan­çará; qal de sãlah, avançar ou prosperar). Isaías usa o normativo conceito hebraico tanto como verbo (deliciar-se, ter prazer em), quanto como substan­tivo (prazer, deleite). O prazer de Yahwéh, isto é, esmagar o Servo, é levado a efeito por Ele. Vários comentadores usaram o termo propósito, em vez de prazer, deleite ou vontade, a fim de dar ênfase ao ponto principal da frase. Aquilo em que Yahwéh se deleita é o que Ele quer fazer. O Servo realiza o que Yahwéh quer. Assim, o propósito de Yahwéh de esmagar o Servo é cumprido. O verbo sãlah pode ser traduzido "prosperar", mas "avançar" expressa com clareza maior o que o Servo faz por meio de seu sofrimento e morte. A frase em sua mão sugere que o Servo assume a responsabilidade de cumprir o propósito de Yahwéh, e efetivamente o cumpre.

1/k'âmal napSô ytr’eh (o trabalho de sua alma ele verá; qal de rã’â, ver). O tema desta frase é o Servo sofredor: ele verá; ele receberá satisfação. O subs­tantivo ’arriai, de um verbo que significa "laborar, "mourejar", pode incluir a idéia de sofrimento, de onde a tradução "o penoso trabalho", tenta expressar ambos, o trabalho penoso e o sofrimento. O pensamento é claro: o Servo está pessoalmente engajado em um trabalho difícil, pesado, penoso; esse labor lhe causa intensa agonia. O que não está bem claro é como traduzir mee compreen­der o que o Servo verá.

A4ê poderia ser traduzido "de seu labor";[65] [66] mas aí a frase fica muito vaga. "Depois de seu labor" (cf. NIV) é mais claro: sugere, de acordo com o pensa­mento do contexto anterior, que ele viverá outra vez e então verá.[67] "Por causa do seu labor" tem sido sugerido como a melhor tradução porque expressa a relação causal entre o que ele fez e o resultado. Essa tradução tem o aspecto temporal incluído, isto é, o resultado vem depois. Alguns tradutores desneces­sariamente omitem a conjunção e fazem de laboro objeto direto de ver. ele verá o labor de sua alma. Que, então, ó Servo verá depois e por causa de seu labor? A Septuaginta acrescenta a palavra phõs (luz) e a New International Version acrescenta "of life" (luz da vida).[68] O próprio contexto parece sugerir que depois e por causa de seu trabalho e sofrimento ele verá os frutos desse trabalho — aqueles mencionados no verso 10 e no que se segue: satisfação e justificação de muitos.

Ylsbã1 (qal de êãba', ser satisfeito). Isaías fala breve mas incisiva e poderosamente. Ele verá, será satisfeito; sua satisfação vem quando ele vê, depois de seu sofrimento e ressurreição; com o que cumpriu ele ficará satisfeito e Yahwéh se deleitará. Terão ambos grande prazer em que a vontade de Yahwéh foi levada adiante e seu propósito foi alcançado. Jesus Cristo falou de acordo com essa profecia quando disse que Ele tinha vindo para fazer a vontade do Pai 0o 6.38-40).

Eèda'tô yisdik sãdiq 'abdi lãrabim (lit.: por seu conhecimento justificará o justo meu servo a muitos; o hiphil de sãdaq pode significar aqui: fazer justiça; declarar justo; ou vindicar, salvar, ou fazer justo). Esta frase fala do que o Servo de Yahwéh fará por muitos (não todos; um por um, cada um individualmente). Yahwéh aqui é quem fala. Yahwéh fala de "meu servo", "meu agente", que trabalhou, sofreu, morreu e foi restaurado à vida como justo; em outras palavras, o Servo é declarado estar inteiramente de acordo com a vontade, a lei e o propósito de Yahwéh. O Servo não está somente em conformidade e acordo com Yahwéh, mas ele e Yahwéh estão também em uma viva união de amor expressa no cumprimento dos propósitos de Yahwéh.

O Servo justo traz muitos a uma relação reta com Yahwéh (53:11b). Ele justifica a muitos, o que significa mais do que declará-los justos; Yahwéh declara as pessoas justas, mas é o Servo quem provê a base para essa declaração. Assim, o Servo faz justos os muitos; ele o faz por meio do sofrimento em seu favor, tomando seus pecados e iniqüidades sobre si mesmo e removendo-os. E o que faz o Servo Yahwéh confirma.

Bèda Hô tem sido traduzido de três modos:[69] (1) "pelo conhecimento dele" ou de Yahwéh; mas isso não é aceitável porque Yahwéh, que é quem fala, não se está referindo ao conhecimento que o Servo tem a seu respeito. (2) "Pelo conhecimento de si mesmo", isto é, o Servo conhece-se a si mesmo e a seus feitos; esse conhecimento torna-se o meio de justificação. Esta tradução é mais aceitável do que a primeira, mas não se ajusta tão bem ao contexto quanto a terceira. (3) "Por seu conhecimento" (cf. NIV, RSV, 10V) deve ser entendido exegeticamente: explica a frase anterior. O Servo está satisfeito por causa do que ele conhece, isto é, que muitos são feitos justos porque ele cumpriu plenamente os propósitos de Yahwéh.

Wa'awõnõtãm hü’ yisbõl (e suas iniqüidades ele levará; qal de sabal, supor­tar uma carga pesada). Esta frase repete o pensamento de 53.5; o Servo sofre e morre porque toma sobre si mesmo o pecado e as iniqüidades do povo. A justifi­cação de muitos envolve o suportar o Servo suas iniqüidades como uma carga muito pesada. Como a frase anterior é explicativa da que a precede, assim esta é explicativa da última. À medida que tece os vários fios da verdade, Isaías dá expressão definida ao que cada verdade é, por exemplo: a verdade prévia (ele justificou a muitos), e a verdade expressa aqui (ele levou as iniqüidades de muitos).

’Âhalleq-lô bãrahtm (eu dividirei—piei de hãlaq, dividir ou partilhar com os muitos). Esta frase é uma direta metáfora tirada do vocabulário militar.[70]

Não se deve seguir a tradução grega da Septuaginta, klêronomêse (ele herdará); não há nenhuma base textual para ela. Yahwéh é quem diz que recompensará o Servo. O verbo tem a idéia de despojo; aquilo que foi ganho pelo sofrimento, pelo árduo labor em benefício dos pecadores rebeldes, será dado ao Servo em parte.

O termo bãrabtm não recebe interpretação unânime. Eablm pode referisse a muitos ou a grandes. O significado da preposição prefixada bè não é claro; daí alguns tradutores e comentadores não a tomarem em consideração.[71] A tradu­ção preferida parece ser "com".[72] Skinner, entretanto, prefere "entre".[73] Parece que a maneira de traduzir a preposição pode ser melhor determinada pela compreensão de a quem se refere o termo rabtm. Grandes vencedores, de modo geral? pessoas poderosas? (ver a declaração paralela seguinte). Ou será que tanto rabtm quanto 'ãsümtm se referem aos muitos que forarm feitos justos (53.11)? A última alternativa é preferível pelas seguintes razões: Primeiro, o conceito de muitos, isto é, os justificados, foi introduzido imediatamente antes. Segundo, a metáfora militar o sugere; assim como o comandante divide o espólio com seus soldados, assim os frutos do vitorioso labor do Servo será partilhado com os muitos fortes (os justificados). Terceiro, a preposição ’et antes do adjetivo "forte", assim como bè, pode ser traduzida "com". Quarto, que os frutos do labor do Servo são partilhados com os muitos justificados é apoiado pela repetição da sua obra vicária (53.12c-f). Quinto, está de acordo como ensino geral da Escritura a respeito dos resultados da obra expiatória vicária do Servo por aqueles que ele veio redimir.

As últimas quatro frases de 53.12 repetem o que o Servo fez quando suportou dor, sofrimento e agonia. Primeiro, ele entregou a sua vida — ele morreu. Segunda, identificou-se com os rebeldes, tomando o seu lugar. Tercei­ro, levou os hèf (pecados) dos rabtm (muitos). E quarto, ele intercedeu pelos rebeldes. Esses atos do Servo são afirmados para dar ênfase ao fato de que ele completou seu labor e tem a plena aprovação de Yahwéh. O Servo recebe alto encómio: "Muito bem! Desfruta o merecido repouso e os frutos do teu traba­lho." (Cf. Mt 25.21,23, par. Lc 19.17).



Importância Messiânica

No comentário introdutório ao estudo desta importante passagem (Is 52.13-53-12), afirmamos que o Servo sofredor deve ser identificado com o messiânico rei davídico. Essa afirmação foi feita com base em quase trinta anos de trabalho intermitente com as profecias de Isaías.[74] O estudo exegético precedente confirmou esta conclusão atingida durante três décadas de estudo.

E sua afirmação foi feita com a dolorosa consciência de que muitos eruditos rejeitam esta conclusão biblicamente fundada. Por outro lado, tem sido uma experiência confortadora registrar e consultar eruditos que têm aceito e confirmado a conclusão de que o Servo e o Messias davídico, ambos referidos por Isaías, são uma e a mesma pessoa.

Como um sumário histórico da interpretação de Isaías 52.13-53.12,[75] Ernst Hengstenberg, depois de concluir sua exegese de Isaías 53, escreveu uma história da interpretação até o seu tempo (cerca de 1868). Seu ensaio é dividido em quatro partes: (1) tuna história da interpretação; (2) um sumário dos argu­mentos contra a interpretação messiânica; (3) um sumário dos argumentos em seu favor; e (4) tuna demonstração do caráter insustentável da interpretação não-messiânica.[76] Em seu ensaio Hengstenberg demonstrou que alguns escri­tores judeus tinham inicialmente identificado o Servo sofredor com o Messias davídico.[77] Depois da polêmica entre cristãos e judeus a respeito de Jesus de Nazaré como o Servo sofredor ou o Messias davídico, poucos judeus, se é que algum, mantêm essa especiosa posição.[78] Hengstenberg também reexaminou brevememte as interpretações judaicas não-messiânicas mais antigas e concluiu que elas consideram o povo judeu como o objeto da profecia.[79] Entre os intér­pretes cristãos Hengstenberg nota uma diferença de opinião semelhamte, que se tomou mais pronunciada "quando o Naturalismo exerceu sua influência".[80]

O distinto erudito alemão Eduard Riehm,[81] poucas décadas depois de Hengstenberg, indicou que tinha sérias dificuldades com a tese básica de seus colegas alemães e com o método de interpretação que daí se seguia. Riehm pretende uma compreensão orgânica, historicamente enraizada, da atividade profética. Ele sustenta que os profetas antigos, em espírito de oração, plenamen­te cônscios de três conceitos principais — o pacto, o reino de Deus e a realeza teocrática — e tendo um vivo senso das forças e eventos que moldavam seus tempos, produziram as profecias. Ele também sustentava que o que foi afirmado em o Novo Testamento como cumprimento do Velho Testamento deve ser mantido distinto das profecias reais do Velho Testamento e não deve influenciar a sua interpretação. Eruditos de várias escolas saudaram o ponto de vista de Riehm como uma influência corretiva necessária. O problema, porém, com a posição de Riehm é que é por demais historicamente controlada, levando os pronunciamentos proféticos a se tomarem largamente esvaziados de seu caráter de revelação divina. Quanto à relação do Messias davídico e o Servo sofredor, Riehm é vago e inclinado a negar que a profecia de Isaías a respeito do Servo indique uma relação entre eles. Assim Riehm, com efeito, dá apoio à escola crítica de exegetas bíblicos que negam que essa relação tenha sido compreendi­da, e muito menos proclamada, pelos profetas.

Christopher North devotou muito tempo a uma revisão das posições defendidas por escritores desde os tempos pré-cristãos até os seus dias.[82] Conclui sua obra afirmándo: "De minha parte, não penso que haja qualquer ganho em fazer tentativas de provar que o Servo é o Messias davídico de Isaías IX e XI."[83] Na segunda edição North acrescentou um pós-escrito em que examina "Recen­tes Discussões Escandinavas", a maioria aparecida entre 1948 e 1955. A obra do autor é de grande valor histórico, mas sua compreensão exegética e teoló­gica do texto profético sofre drasticamente dos pressupostos a priori que controlam sua interpretação.[84]

Depois da primeira aparição da obra de North, H. H. Rowley fez duas preleções. Limitou seu exame dos pontos de vista sobre o Servo do Senhor ao que aparecera entre 1920 e 1950. Manifesta sua apreciação da "magistral súmula" de North, mas deixa claro que sua própria solução do problema difere da de North. Entretanto, adverte contra "a aceitação do meu ponto de vista, ou de qualquer outra pessoa, com uma satisfação fácil".[85] Na segunda preleção Rowley, embora concordando que alguns reconhecidos eruditos crêem que uns poucos judeus nos tempos pré-cristãos identificaram o Servo sofredor com o Messias davídico, junta-se àqueles que negam que haja evidência de que qualquer escrito judeu apóie este ponto de vista.[86] Rowley, por outro lado, afirmou claramente que não só Jesus reuniu os conceitos do Servo sofredor e do Messias davídico, mas também que havia razão para Jesus fazer isso. Em outras palavras, a literatura profética dá indicações de que os dois conceitos devem ser vistos como referindo-se a uma e mesma pessoa. Rowley hesitou em ser demasiado dogmático a respeito de evidências precisas, mas claramente acredita que muitos dos eruditos anteriores separaram indevidamente os dois conceitos e que estudos posteriores devem dar atenção às interrelações entre o Messias davídico, o Servo sofredor e o Filho do Homem (em Daniel).[87]

Nem todos os eruditos que escreveram depois de Rowley deram atenção ao seu conselho. James Muilenberg, no ensaio introdutório a seu comentário de 1956, escreveu: "Que o Messias davídico deva ser identificado com o Servo é dificil de crer, pois não há nenhuma evidência crível de que os dois fossem igualados antes da era cristã."[88] James Smart, embora concordando que o Servo sofredor de Isaías 53 deva ser identificado com o Servo referido nos caps. 40-52, não estabelece uma relação entre ele e o Messias davídico. De fato, Smart hesita mesmo em estabelecer uma relação direta entre o Servo sofredor e o próprio Jesus.[89] John McKenzie também não deu atenção ao conselho de Rowley. Em seu comentário de 1968 ele fez um breve sumário de teorias concernentes à identidade do Servo no curso do qual escreveu: "O Servo não é a mesma figura que o Messias, mas uma figura paralela, que não pode ser reconciliada com o rei messiânico."[90]

A conclusão derivada do estudo exegético das profecias de Isaías a respeito do Messias davídico (7.1-17; 9.2-7 [TM 9.1-6]; 11.1-11) e do Servo (passagens selecionadas de 40-53) é que Isaías profetizou a respeito de uma única e só pessoa, a saber, o redentor prometido, a semente dos patriarcas, o filho prome­tido da casa davídica. (Alguns fatos maiores que apoiam esta conclusão serão apresentados adiante).

Por enquanto basta destacar que se um leitor, estudante ou erudito inter­preta fielmente o texto de Isaías, bem como aquelas passagens messiânicas produzidas antes, empregando todos os instrumentos de exegese disponíveis, e cuidadosa e esmeradamente, com oração, avalia todo o material exegético, a conclusão final só pode ser a que afirmamos acima. O ponto é: aquelas conclu­sões que a contradizem são derivadas de fatores outros que não os apresenta­dos pelo material bíblico (assim o veremos).

A afirmação de uma conclusão direta não pretende indicar que não há desafios a serem enfrentados pelos comentadores evangélicos. Certamente que há. Alguns afloraram no estudo precedente. Uma das principais questões é: por que Isaías não menciona os epítetos hebraicos mãsiah (messias) ou dãwtd (Davi, ou a casa davídica) quando fala do Servo? Uma segunda questão é a respeito da referência a Jacó ou Israel como o Servo.

Segue-se uma reafirmação, em forma sumária, das principais razões para se chegar à conclusão de que o Messias davídico e o Servo sofredor são uma e a mesma pessoa.

Primeiro, o termo 'abdi (meu servo) é usado consistentemente a respeito de ambos. Davi e seus descendentes reais são especificamente referidos como servo de Yahwéh, ou meu servo. Moisés e diversos dos antigos profetas foram também assim designados para indicar uma relação específica e um papel predeterminado. O rei persa Ciro foi representado como "meu servo". Que esses tenham sido chamados "servo" foi, de modo geral, num contexto em que seu papel como predecessores ou prefiguradores ou tipos do Messias estava em vista. Na Escritura a pessoa que é por excelência o Messias é notada como o Servo e muitos agentes de Yahwéh, que prepararam o seu caminho ou que profetizaram a seu respeito foram conhecidos como servos.

Segundo, o Servo de Is 52.13-53.12 é descrito como sofredor; mas é o sofredor régio. Isaías tinha apontado diretamente para o sofrimento do Servo em 505,6. A rejeição por seu povo foi também repetidamente referida. A humilhação que o Servo suportou foi sugerida em 6.13; 11.1 (como um toco) e 7.14; 9.6 (TM 95) (em vista de seu nascimento humano como o descendente davídico). O próprio Davi, o rei, tinha falado de seu sofrimento (SI 22.1,2 [TM 2.3, 41.5-9 [TM 6-10]; 69.4 [TM 695]). A idéia do rei sob o peso do sofrimento já tinha sido indicada antes, na promessa maternal (Gn 3.15,16).[91]

Terceiro, Isaías deixa claro que tem em vista a casa real de Davi quando fala de Ciro como o pastor ungido (44.28; 45.1). O rei persa é chamado a servir como agente de Yahwéh por causa do pecado e da ruína da casa davídica. Em razão desse pecado e essa ruína os descendentes de Davi sofrerão. O Servo real sofredor toma sobre si mesmo a punição que caberia ao povo que seguiu os caminhos rebeldes, pecaminosos e iníquos de sua dinastia reinante, que fora divinamente nomeada.

Quarto, Ridderbos colocou o assunto devida e cuidadosamente. Depois de perguntar se esse grande futuro "Portador da Salvação" (o Servo sofredor de Isaías 53) é o mesmo Rei-Messias apresentado em outras passagens, responde: "De acordo com o intento do Espírito de profecia — indubitavelmente."[92] Ele apóia essa especial posição referindo-se a "linhas de conexão" entre as duas figuras. Duas dessas linhas são os pontos de vista mais estrito e mais amplo do conceito messiânico. O ponto de vista mais estrito aponta para uma pessoa — real, elevada, reinante, majestosa e gloriosa; o Servo é assim apresentado em 52.13 e sua exaltação é outra vez mencionada quando se fala de sua vitória em 53.12a-b. O ponto de vista mais amplo do conceito messiânico refere-se ao caráter, às responsabilidades e à obra do Messias; incluído nesse preciso conceito está o resultado para o povo, o reino e a realização dos propósitos de Yahwéh. Isaías fala repetidamente dos benditos resultados da obra do Servo-Messias, de seu árduo labor, de seu trabalho penoso e de sua morte expiatória vicária, que será seguida por sua ressurreição em vitória por si mesmo e por aqueles em cujo lugar ele sofreu e morreu.

Não há necessidade de examinar todas as opções que críticos têm oferecido como resposta à pergunta: Quem Isaías tinha em mente quando falou do Servo?[93] Alguns desses intérpretes críticos arrumaram e classificaram as op­ções.[94] O fato notável é que no período entre Skinner (cerca de 1898) e McKenzie 1968 não foi feito nenhum avanço significativo na obtenção de um consenso ou de alguma coisa próxima da unanimidade em suas conclusões. Eles, entre­tanto, concordam na rejeição da apresentação bíblica interpretada neste livro e por muitos outros eruditos evangélicos.

Os pontos de vista críticos, segundo uma tentativa honesta de compreen­dê-los, são prontamente vistos como controlados, em grande medida, por algumas pressuposições não-bíblicas. Primeiro, North aponta um fator que determina seu estudo: uma rejeição total do próprio testemunho da Escritura a respeito de sua inspiração pelo Espírito Santo. Por ser o ponto de vista conservador tradicional baseado nessa doutrina, ele não considera esse ponto de vista como opção exegética.[95] A rejeição crítica do ponto de vista tradicional, não com base num estudo do texto mas de uma posição a priori, coloca um abismo intransponível entre a erudição crítica e a bíblica.[96]

Segundo, a rejeição quase unânime da profecia preditiva impede os críticos de aceitar a posição bíblica de que o descendente de Davi e o Servo sofredor referem-se a uma e mesma pessoa, e que essas duas figuras encontram seu cumprimento último em Jesus Cristo.

Terceiro, a posição crítica exige que cada mensagem profética seja dirigida a uma situação histórica específica, à qual a palavra messiânica seja significa­tiva. Assim, a palavra de Isaías sobre o retomo do exílio babilónico tem sido colocada num contexto exílico imediatamente anterior a esse estupendo acon­tecimento. O sofrimento referido, concluem os críticos, tem de relacionar-se a essa experiência exílica. Deve ser clara e prontamente afirmado que a profecia preditiva podia ser e era significativa em muitos pontos da história de Israel, dando, como dava, garantia e esperança para o futuro.

Quarto, um fator importante na erudição crítica é sua insistência na divisão da profecia de Isaías em dois ou mais livros escritos por outros tantos autores. Estabelecer uma estreita relação entre eles é dar credibilidade à possibilidade e probabilidade de um Isaías unificado.

Alguns críticos não concordam quanto ao ensino do Novo Testamento a respeito da relação do rei davídico e do Servo sofredor, bem como quanto ao caráter messiânico de Is 52.13-53.12. H. H. Rowley é um relevante porta-voz daqueles que concordam que Jesus Cristo mesmo identificou ambos e os viu cumpridos em si mesmo.[97] Rowley vai mais longe do que muitos dos eruditos por quem ele expressa admiração, sugerindo que o próprio Velho Testamento oferece base para isso. É também importante notar que J. Ridderbos escreveu que alguém pode perguntar se o próprio Isaías compreendeu plenamente o que estava profetizando; mas não pode haver dúvida a respeito do propósito da Escritura sob a direção do Espírito Santo.[98]

No começo deste livro demos especial atenção ao que eruditos escandina­vos admitiram como as raízes ou temas básicos dos quais deriva o conceito messiânico. Muito foi feito do conceito da realeza sagrada prevalecente nas mitologias babilónica e cananéia. Foi feita a tentativa de mostrar a relação entre a ideologia da realeza sagrada e o próprio conceito messiânico bíblico, e como este último foi adotado, adaptado e desenvolvido pelos escritores bíblicos. A conclusão crucial a que chegamos neste estudo é que não existe tal relação, quando muito somente uma vaga semelhança. Visto que as próprias passagens a respeito do Servo em Isaías não se referem à idéia messiânica bíblica mediante o termo hebraico mãSiah, podemos perguntar se o esforço escandinavo de encontrar raízes e temas originais para a idéia do Servo em Isaías na ideologização da realeza sagrada foi bem sucedida. Sigmund Mowinckel não descobre tal relação. Ele insiste em que é preciso procurar a idéia do Servo no fenômeno profético. De fato, ele sustenta, no correr de toda a sua carreira de estudioso a escrever, o ponto de vista de que o próprio profeta (Segundo Isaías) era o Servo sofredor. Portanto, Isaías 53 é basicamente uma autobiografia. O ponto de vista de Mowinckel é de interesse pelas seguintes razões: (1) ele está bem familiari­zado com a insistência dos outros escritores escandinavos de que a realeza sacra é o tema original do conceito bíblico; e (2) ele rejeita as sugestões de Nyberg, Engnell, Ringgren, Widengren, e outros, no sentido da realeza sacra, porque insiste, corretamente, em que não há nenhuma evidência no texto em favor desse ponto de vista.[99] Ao tentar estabelecer sua posição sobre a idéia do servo-profeta, ele desconsidera as referências e designações implícitas na realeza do Messias davídico.

Umas poucas observações finais são apropriadas neste ponto. Roland K. Harrison escreveu em sua Introdução ao Velho Testamento que é evidente entre certos críticos do Pentateuco "certa incapacidade egocêntrica de apreciar qualquer ponto de vista diferente do que eles próprios subscrevem".[100] A mesma atitude é demonstrada pelos críticos que, em nome da erudição cientí­fica, recusam-se a aceitar o testemunho bíblico a respeito do Servo sofredor.

Outro comentário relevante de Harrison é que a grande quantidade de soluções oferecidas pelos críticos, freqüentemente contraditórias, é em si mes­ma um poderoso argumento em favor das conclusões quase unânimes dos eruditos conservadores que adotam a autoria mosaica. Esta observação é também adequadamente aplicável à grande variedade de pontos de vista dos críticos a respeito da identidade do Servo sofredor e de sua relevância quanto às predições proféticas a respeito de Jesus Cristo.[101]

Finalmente, devemos apreciar o que North escreveu comentando sua inte­ração com Aage Bentzen: "A síntese de Bentzen é devocional, teológica e religiosamente valiosa, e, em última instância, todos nós vamos a ela quando pensamos no Servo como Cristo, o cabeça da sociedade redimida e redentiva da Igreja que é seu corpo".[102] Um problema dificílimo de resolver, entretanto, é a respeito da recusa de eruditos críticos em aceitar a revelação de Yahwéh no Velho Testamento a respeito do Messias, e em aceitar, pelo menos alguns deles, o cumprimento dessas profecias na pessoa de Jesus Cristo.

Resposta à Revelação Messiânica

Em primeiro lugar, devemos reafirmar que há diferentes pessoas que falam em Is 52.13-53:12. Na verdade, todas as suas palavras foram pronunciadas ou escritas por Isaías, o profeta. Mas, às vezes, como porta-voz de Yahwéh, ele fala como se o próprio Yahwéh estivesse falando.

Segundo, como expusemos em nosso estudo exegético, Isaías fala, ora citando Yahwéh, ora expressando seus próprios pensamentos. Este é particu­larmente o caso quando Isaías fala na primeira pessoa do plural. Ele expressa sua preocupação pelo fato de tão poucos dos ouvintes prestarem atenção à mensagem de Yahwéh ao povo (53.1: "nós"). Ele identifica-se com o povo, cuja rebelião, cuja culpa, cujos pecados foram removidos pelo Servo sofredor. Identifica-se com o povo que foi redimido, restaurado e curado pela obra expiatória, a morte vicária, do Servo sofredor. Assim, Isaías expressa preocu­pação com os muitos que não creram, mas prontamente faz afirmações de aceitação e fé no que Yahwéh revelou a ele e por meio dele.

Finalmente, devemos acentuar mais uma vez que se deve fazer uma clara distinção entre o que Yahwéh revelou e o que é resposta do profeta ou do povo a essa revelação. Uma trágica falácia por parte de muitos críticos é que essa dis­tinção é ou ignorada ou rejeitada. Seu ponto de vista é que a mensagem de Isaías é o resultado da sua própria percepção e raciocínio. Portanto, para eles não há nenhuma revelação ou inspiração por Yahwéh e seu Espírito; há somente, do lado humano, iluminação, percepção e expressão oral. Mais uma vez o abismo que separa os críticos dos eruditos bíblicos conservadores é muito largo e profundo. Não pode ser transposto por meio de uma síntese ou acomodação.[103]






[1] Cf. James Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.615: "O poema como um todo é de triunfo." 


[2] John Skinner, Isaiah XL-&CVI (Cambridge'. Cambridge University Press, 1910), p. 120, escreve: "este,,.último e maior, bem como o mais difícil... em diversos aspectos ocupa um lugar à parte." 


[3] Christopher R. North, The Second Isaiah (Oxford: Clarendon, 1964), pp. 226,227. 


[4] Bernhard Duhm, Das Buch Jesaja (Gõttingen: Vandenhoeck and Ruprecht, 1922 / 68), pp. 129-31. 


[5] Quando tomei parte na tradução de Isaías para a Berkeley Bibleem 1956-57, esta seção de Isaías representou um dos mais duros desafios. Além dos "diferentes termos usados", havia o fato de que bom número de vocábulos podiam ser interpretados e traduzidos de várias maneiras. 


[6] Christopher North, The Suffering Servant (Oxford: University Press, 1956), p. 165. Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em JB [1964], 5.614-615, afirma que é de quarenta e seis o número desses termos. 


[7] Como, p. ex., em 52.14,15; 53.1,2. John McKenzie, entretanto, apelou para a Septuaginta em abono de emendas aos versículos 8 e 11 {Second Isaiah, em AB [1968], 20:130). 


[8] Entre os pontos de vista que Muilenberg menciona em Isaiah, Chapters 40-66,5.614, estão: (1) hino sacrificial à maneira dos mistérios; (2) remodelação profética de composições litúrgicas de entronização; e (3) uma nênia ecoando salmos penitenciais. Muilenberg parece aberto a ver influências da liturgia do Tammuz acadiano, mas também vê semelhanças com algumas lamentações espalhadas pelo Velho Testamento. 


[9] Cf. cap. 1, onde esse fenômeno é discutido e avaliado extensamente. 


[10] Na exegese das estrofes apresentaremos soluções sobre quem é que fala. 


[11] A bibliografia sobre esta seção é considerável. Além dos muitos comentários de Isaías e estudos especiais já referidos previamente, atenção poder-se-ia dar a estudos expositivos e devocionais, tais como Robert D. Culver, The Sufferings, and the Glory ofthe Lord's Righteous Servant (Moline, 111.: Christian Service Foundation, 1958); Page Kelley, Judgment and Redemption in Isaiah (Nashville: Broadman, 1968), esp. pp. 84-92; Allen R. MacRae, 77ie Gospel of Isaiah (Chicago: Moody, 1977), cap. 19, pp. 129-150; Alfred Martin, Isaiah the Salvation of Jehovah (Chicago; Moody, 1956), cf. cap. 16, pp. 89-100, e Edward J. Young, Isaiah Fifty Three {Grand Rapids: Eerdmans, 1953). 


[12] Consideremos as seguintes opiniões opostas entre si: Muilenberg rejeita a transferência de 14b-14c para depois de 53.2. Por ser desajeitado aqui e adequado ali não se justifica fazê-lo — "Na realidade, a estrofe está soberbamente construída..." (Isaiah, Chapters 40-66, em IB [1964], 5,615). 

Por outro lado, John McKenzie (Second Isaiah, em AB [1968] 20.131) afirma dogmaticamente que há uma descontinuidade entre os versos 13 e 14: "13 está possivelmente deslocado."Mas ele é incapaz de encontrar um lugar no Cântico do Servo onde o verso 13 se adaptaria. 


[13] J. Ridderbos sustenta que aqui há três estágios: emergir da humilhação, contínua exaltação e admissão numa elevada posição; cf. seu Isaiah, trad. John Vriend (Grand Rapids: Zondervan, 1985), p.471. Edward Young, em The Book of Isaiah, 3 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1972), 3.335, sugere corretamente que não é essa a intenção de Isaías. Culver usa o termo mistério para referir-se à combinação singular dos três aspectos das experiências do Servo (cf. The Sufferings and the Glory of the Lord's Righteous Servant, pp. 19-37). 


[14] Vários comentadores lidam com a segunda parte do verso como se ela fosse o resultado. A gramática não apóia isso; aqui não há vav consecutivo nem conjunção que indique tal relação. 


[15] McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.131; Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.616,617. Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 121, acerta no alvo quando pretende que os versos 14 e 15 devem ser lidos como uma sentença composta. 


[16] Young, Book of Isaiah, 3336,337. O modo de a NIV dividir a frase não torna claro o sentido: "Just as... appalled... so will he sprinkle many nations" (RSV: "As many... astonished... so shall he startle"; cf. KJV). 


[17] KD, The Prophecies of Isaiah, 2.307. 


[18] Ver BDB, p. 633. 


[19] Cf.KD, The Prophecies of Isaiah, 2 307, 


[20] Ridderbos, Isaiah, p. 471. 


[21] A versão Almeida, ed. Revista e Atualizada, traduz: "assim causará admiração às nações" (n.t). 


[22] Cf. a emenda do tempo no ensaio de G. Moore, 'Isaiah 111X5", JBL9 (1980): 216-222. Young escreveu um excelente ensaio sobre o uso e o significado do termo em 'The Interpretation of Yzh in Isaiah 52:13“, WTJ3 (1941): 125-132. Muilenberg apóia a tradução de Young, "aspergir" (cf. seu Isaiah, Chapters 40-66, em IB [1964], 5.618). 


[23] Muitos tradutores (p. ex., NIV) e comentadores seguem a LXX, que tem "ele" (grego, autori). O Texto Massorético, entretanto, é fortemente apoiado. Isafas apresenta Yahwéh dirigindo-se ao Servo nessa frase, mas imediatamente volta a um discurso dirigido ao povo para o qual está profetizando e nesse discurso se refere novamente ao Servo na terceira pessoa. 


[24] McKenzie interpretou corretamente o v. 14 quando escreveu: "sua desfiguração era inumana, ele não mais se parecia com um homem" (SecondIsaiah, em AB [1968], 20.129). 


[25] Helmuth Frey, Gods Wereldpolitiek, trad, W. Tom (Franeker: Wever, s.d.). 


[26] É difícil compreender por que David Payne escreveu que o papel do Servo era parcialmente real e parcialmente profético ("Isaiah", em The International Bible Commentary, ed. F. F. Bruce, p. 716). Lindsey citou Payne com aprovação {The Servant Songs [Chicago: Moody, 1985], p. 40). Nenhum deles se refere ao papel sacerdotal do Servo, 


[27] Cf. a discussão desses conceitos e seus expoentes nos caps. 2-3, Ver Mowinckel, que passou os pontos de vista dos que falam do "empréstimo" de Isaías — Pedersen, Frankfort, Bohl, Durr, Engnell e outros {He That Cometh, trad. G, W. Anderson [Oxford: Blackwell, 1959], pp. 80,89). Mowinckel aceita as linhas gerais desse pensamento, mas adverte contra a superênfase sobre os elementos míticos (p. 186). Ver também seu estudo das passagens do Servo (cap. 7, pp. 187-257). 


[28] Entrar em debate com os que oferecem pontos de vista alternativos exigiria uma longa discussão que não seria de muito valor para este nosso estudo, Qualquer leitor que desejar familiarizar-se com esses pontos de vista deve consultar os principais comentários referidos acima, 


[29] Para uma discussão crítica dos pronomes,, ver D J. A. Clines, I, He, We, The/: A Literary Approach to Isaiah 53(Shef¥ield: JSOT, 1976). 


[30] Young, Book of Isaiah, 3 341. 


[31] North, SecondIsaiah, pp. 236,237, descarta sem muita discussão os pontos de vista de Engnell e Nyberg de que a idéia de um 'lactente" indica o contexto ideológico de Tammuz. North, porém, parece admitir alguma conexão com Aquiles da Ilíada, como sugeriu C. Gordon. 


[32] McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20131, sugere a metáfora do crescimento de um arbusto no deserto. 


[33] Ibid., 20.133. McKenzie sugere que o "voltar as costas" do povo é motivado pelo temor de maldição. A idéia pode ser verdadeira, mas não é sugerida pelo texto. Não medo, mas repulsa, é a idéia do texto. 


[34] Cf. Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66,em IB (1964), 5.619,620, que, sem base suficiente, expressa dúvida sobre se a referência é definidamente ao rebento de Davi; ele pensa que os que vêem mais do que um eco da mitologia acádica estão indo longe demais. Essas aparentes "similaridades" ou "ecos" são forçados; são imagi­nários, não reais, como a comparação entre a profeda de Isaías e as antigas predições pagãs logo mostrará. 


[35] Cf. Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.620. 


[36] Ivan Engnell, "Ebed Yahwéh Songs and the Suffering Messiah", p. 84 (citado por Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB, 5.621; ver também o comentário de Muilenberg de que Engnell "pode estar certo em ver uma adaptação profética hebraica" de liturgias acádicas [pp. 621,622]). 


[37] Young, Book oflsaiah, 3 346. Outros comentadores também se referem ao ponto de vista judaico de que o texto tenciona referir-se à lepra. Cf. Hengstenberg, Christology ofthe Old Textament, trad. Theodore Mayer, 2 vols. (Edimburgo: T. &T. Clark, 1868), 2.283-284, que traduziu "plagued" (infectado por lepra ou peste). 


[38] North, SecondIsaiah, p. 239, lembra que um leproso não poderia ser executado como um criminoso nem, se o fosse, sua execução teria despertado o grau de consternação expresso na passagem. 


[39] Cf. Young, Book oflsaiah, 3347, que enfatiza que o termo não significa a quebra de leis humanas nem erros desastrosos. 


[40] Robert B. Girdlestone, Synonymsofthe Old Testament(republ. Grand Rapids: Eerdmans, 1978), cap. 6, pp. 76-86, Ver também TWOT, 2.650,651,741,742. 


[41] Comentadores de várias escolas de interpretação afirmam que devemos reconhecer que Deus ou Yahwéh trata com o sofredor; cf. McKenzie, que infelizmente usou o termo inglês touch (tocar) por smote (golpeou) e desconsiderou a distinção entre rebelião e depravação, traduzindo a última por "transgressão" {Second Isaiah, em AB [1968], 20.130). Ver também Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB, (1964), 5.622; North, Second Isaiah, pp. 238,239; Henry Sloane {IB, 5.622) também tentou minimizar o papel de Deus no sofrimento do Servo, dizendo que a idéia de Deus causar o sofrimento vem dos reis pagãos e que o escritor de Isaías 53 protesta contra essa doutrina. James Smart escreve que a ênfase é sobre a ira de Deus contra o pecador, não contra o Servo {History and Theologyin Second Isaiah (Filadélfia: Westminster, 1965), pp .208,209. 


[42] A frase todos nós pode referir-se não somente à comunidade crente curada; pode referir-se a todos, porque todos erraram. 


[43] Delitzsch falhou quando disse que se tratava de um olhar de volta para o exílio {The Prophecies oflsaiah, em KD, 2320). Muilenberg está certo quando escreve: "um desviar-se de Deus, um voltar atrás, cada um a seu próprio caminho egocêntrico" {Isaiah, Chapters 40-66, em IB [1964], 5,623). 


[44] Muilenberg, Jsaiah, Chapters 40-66, em IB [1964], 5.624. Cf. Lindsey, ServantSongs, p. 125, que se refere a esse contraste usando termos, tais como "paáênda" e "submissão", quando experimentou maus tratos; e David Payne, "Isaiah", em The International Bible Commentary, ed. F. F.Bruce,p.756: "inocente, contudo, condenado à morte". 


[45] Muilenberg, Jsaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.624. Ele cita Albright, que se refere a inscrições de reis neobabilônicos que falam de si mesmos como "os mansos e humildes", em seu From Stone Age to Christianity, 2* ed. (Baltimore: John Hopkins University Press, 1946), pp. 254,255. 


[46] Young sugere que o cordeiro foi mencionado aqui porque Isaías estaria refletindo sobre o cordeiro sacrificial do êxodo. È possível, mas não parece plausível (Book of Jsaiah, 3 351). 


[47] Muilenberg, op. cit., em IB (1964) 5.625, classifica esse versículo como particularmente difícil; ele dta numerosas variantes que diversos autores têm sugerido. J. Ridderbos refere-se ao restante deste capítulo como mais difícil de traduzir e interpretar (/sa/a^p. 48). Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 129, escreve que cada palavra na primeira parte do v. 8 é ambígua. 


[48] Young, Book ofIsaiah, 3 352, n. 29. A idéia de restringir ou fechar-se pode expressar como oprimido, detido, aprisionado. 


[49] Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 129. 


[50] Quando trabalhava na tradução da passagem para a Berkeley Bible, traduzi: "From distress and from judgment." Não é mais a tradução que prefiro, mas mantenho a minha tradução do restante do versículo. 


[51] Cf., p. ex., a discussão de Muilenberg (Jsaiah, Chapters 40-66, em IB [1964], 5.626). 


[52] Cf., p. exMcKenzie, Second Jsaiah, em AB (1968), 20.130. 


[53] Skinner, Jsaiah XL-LXVI, p. 130, prefere manter a leitura da LXX, eis thanaton, lendo em lugar de lèmô (a ele), lèmôt (para morte). A intenção da passagem não é realmente alterada, mas a ênfase na substituição é atenuada em certa medida, removendo-se a frase a quem era devido. 


[54] Alguns comentadores têm procurado determinar se as frases são paralelos sintéticos ou antitéticos: com criminosos, sim os ricos (que são criminosos), ou, com criminosos ele morreu, e com os ricos foi sepultado. Esta última alternativa tornou-se a situação real quando Cristo morreu: foi crucificado entre criminosos; foi sepultado na tumba de um homem rico. Tomar as frases antiteticamente remove a sugestão de que os criminosos são ricos e vice-versa. A Escritura não iguala os dois termos. 


[55] McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.132, detectou inconsistências, particularmente em relação ao Servo vivendo novamente; Christopher North recorre à mitologia babilónica—Tammuz — para assegurar uma resposta a muita coisa que causa perplexidade {Second Isaiah, p. 242). Muilenberg, em baiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5 527, está muito mais próximo da verdade quando escreve que essa estrofe é o clímax e acrescenta temas desuprema importância. Acrescenta ele que o pensamento do profeta é "incandescente em sua intensidade e concentração". John Skinner acha difíceis estes versículos; não havia clara conexão entre as idéias; a gramática era peculiar; com toda probabilidade havia "considerável desordem textual" {Isaiah, XL-LXVI, p. 131). Consulta do Texto Massorético e de outros manuscritos indica, no todo, um texto bem comprovado. 


[56] Cf. TWOT, 2587-591 sobre nepeS e cognatos. 


[57] Paulo escreve que Cristo entregou-se a si mesmo como oferta e sacrifício a Deus (Ef 5.2). 


[58] Ridderbos, Isaiah, p. 484. Ver também TWOT, 1.178,179: 'õáôm, ’õSemâ, ofertas por pecado, transgressão e culpa. 


[59] Cf. Young, BookofIsaiah, 3354, que traduz como terceira pessoa; ver também Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 132. Martin Wyngaarden, The Future ofthe Kingdom (Grand Rapids: Baker, 1955), p. 34, argumenta em favor da segunda pessoa. 


[60] Provavelmente a tradução na versão Berkeley é a mais aceitável: "quando sua alma constituir uma oferta pelo pecado." 


[61] Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 132, observa que o substantivo semente refere-se ao verdadeiro Israel espiritual, os convertidos. Eles estão incluídos, mas Skinner limitou seu horizonte. Assim, a promessa a Abraão a respeito de uma semente inumerável é plenamente cumprida (cf. Ridderbos, Isaiah, p. 484). 


[62] Young, Book ofIsaiah, 3313. 


[63] Cf. Hengstenberg, ChristologyoftheOldTestament,2302,303./.Ridderbos, HetGods WoordderProfeten, 4 vols. (Kampen; Kok, 1930). Young, Book of Isaiah, 3 55, apóia esta interpretação. . 


[64] Muilenberg implicitamente corrobora o dilema. Ele indicara previamente que oservo individual era o tema. Em relação a este versículo, escreve que "parece expressar a idéia de ressurreição..." Depois acrescenta: "se o Servo é a comunidade, então temos amplo precedente... mas seria muito surpreendente se se referisse à ressurreição de um indivíduo", o que para ele, segundo R. H. Pfeiffer, foi um desenvolvimento posterior (cf. seu Isaiah, Chapters 40-66, em IB [1964], 5.629). Muilenberg não devia ter descartado referências anteriores à ressurreição, como em Jó 19 e SI 16. 


[65] Cf., p, ex., North, Secord Isaiah, p. 242; Skinner, Isaíah XL-LXVI, p. 132; Young, Book of Isaiah, 3356, McKenzie, SecondIsaiah, em AB (1968), 20.130, traduziu "plano"; Ridderbos, Isaiah, pA84, traduziu "vontade". 


[66] Preferido por Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 132. 


[67] Preferido por Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.630; North, Second Isaiah, p. 241; Ridderbos, Isaiah, p.485. McKenzie traduziu "por"' {SecondIsaiah, em >45 [1968] 20.130); Young traduziu "de" {Book of Isaiah, 3 353). 


[68] Provavelmente seguindo SI 56.13 (TM 56.14), onde a luz da vida é contrastada com as trevas do abismo da morte. 


[69] Cf. os diversos comentários citados nas notas; ver também traduções tais como AV, ARV, Berkeley e NIV. 


[70] McKenzie, SecondIsaiah, em /45(196o):20.136; Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 133: "Uma expressão proverbial para vitória ou sucesso." 


[71] Cf., p. ex.; a nota de John Vriend no livro de Ridderbos, Isaiah, p. 487 n. 34. Young, Book oflsaiah, 356, afirma que "se deve dar o reconhecimento devido à preposição". 


[72] Cf. a tradução de Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.631, que Young também aceita (Book oflsaiah, 3.58). 


[73] Skinner, Isaiah XL-LXVI, p. 133. 


[74] O autor esteve envolvido na tradução de Isaías para a Berkeley Bibleem 1956-1957. De 1960 a 1986 dedicou muito tempo ao estudo exegético e teológico das profecias de Isaías. 


[75] Ensaios em dicionários bíblicos e enciclopédias sobre o Servo sofredor oferecem um breve estudo desta história. Livros e artigos pormenorizados devem ser também consultados. 


[76] Hengstenberg, Chrístology ofthe Old Testament, 2311-342. 


[77] Ibid., 2311-314. Seu comentário avaliativo final está correto; "O que foi dito será prova suficiente de que... a maioria das passagens citadas refere-se realmente ao Messias sofredor." 


[78] Ibid., 2.315: "por sua controvérsia com os cristãos eles foram levados a procurar outras explicações." 


[79] Ibid„2:317-319. 


[80] Ibid., 2.330. 


[81] Eduard Riehm, Messianic Prophecy, trad. Lewis A. Muirhead (Edimburgo T. &T. Clark, 1900), pp. 1-10. A. B. Davidson, na introdução, sugere que o autor provavelmente gastou tempo demasiado discutindo com Hengstenberg e König sobre a natureza da inspiração profética (p. xi). 


[82] North/ Sufferíng Servant, pp. 207-219. Quando a segunda edição desta obra apareceu o autor sentiu que seu trabalho ainda não necessitava "de uma revisão drástica" (p. v). 


[83] Ibid., p. 218. 


[84] Cf. cap. 20/ sob o mesmo subtítulo. 


[85] H. H. Rowley/ The Servant ofthe Lord (Londres: Lutterworth, 1952), p. 3. 


[86] Ibid*pp.61,62. 


[87] Ibid* esp. pp. 85-88. 


[88] Muilenberg/ Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.412. Muilenberg apela para Rowley em apoio de sua conclusão negativa. O problema é que ele não leu o que Rowley prossegue dizendo: "Não obstante, é insuficiente para manter a separação das duas idéias" (Rowley, The Servant ofthe Lord, p. 85). 


[89] James D. Smart, History and Theoíogy in Second Isaiah (Filadélfia: Westminster, 1965), esp. pp. 192-196, 297-304. 


[90] McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.11, 


[91] Cf. cap. 3, subtítulo "A Promessa Messiânica Inicial". 


[92] Ridderbos, Het Gods Woord derProfeten, 2.414. Diversos eruditos concordam com Ridderbos: Oswald T. Allis, The Unity of Isaiah (Filadélfia: Presbyterian and Reformed, 1950), pp. 87-101; João Calvino, Commentary on the Book of Isaiah, trad. William Pringle, 4 vols (republ. Grand Rapids: Baker, 1981), 4.724; Hengstenberg, Christology of the Old Testament, 2.264; Delitzsch, em KD, The Prophecies of Isaiah, 2312; C. von Orelli, The Prophecies of Isaiah, trad. J. S. Banks (Edimburgo: T. &T. Clark, 1889), p 288 ("53.2" inequivocamente refere-se a "11.1"); Hans La Rondelle, The Israel of God in Prophecy (Berrien Springs, Mich.: Andrews University Press, 1983), p. 95; Young, Book of Isaiah, 3342. 

Joseph A. Alexander, Commentary on the Prophecies of Isaiah (republ. Grand Rapids: Zondervan, 1953), Hengstenberg e Delitzsch põem muita ênfase no Servo como a profeda de Cristo, separando, desta maneira, a perspectiva futura do ponto de vista retrospectivo. 


[93] Apresentamos um breve sumário em nossos comentários a respeito de Isaías 40.1^52.12 (ver cap. 19, subtítulo "Exegese de Passagens Selecionadas"). 


[94] Cf. particularmente North, Suffering Servant, Rowley, Servant of the Lord. Ver também Skinner, Isaiah XL-LXVI, ap., n. 1, pp. 233-238; Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, pp. 406-414; e McKenzie, Second Isaiah, em AB, 20 .xxxviii-iv. 


[95] North, Suffering Servant, p. 207: "A objeção fundamental à interpretação messiânica tradicional é que ela está unida a uma doutrina de inspiração demasiadamente mecânica. Isto parece pô-la de lado, como indigna de consideração séria." 


[96] Esse fato não capadta eruditos evangélicos como Michael Bauman a ganhar a atenção dos não-inerrantistas para seu proposto trabalho sobre o texto bíblico afirmado como fator ou meio de obter essa atenção. Bauman está certo em dar seis razões para essa falta de atenção, mas por causa do abismo intransponível na abordagem do texto não há nenhuma razão para esperar-se a atenção dos críticos ("Why Noninerrantists Are Not Listening: Six Tactical Errors Evangelicals Commit", JEIS29/3 [1986]:317-324). 


[97] Bowley, Servant of the Lord, pp. 85,86. 


[98] Ridderbos, Het Gods Woord derProfeten, pp. 414,415. 


[99] O ponto de vista de Mowinckel encontra-se em algumas de suas obras, a ultima das quais é seu trabalho sobre o Messias. Paraas obras de outros eruditos escandinavos, ver abibliografia. North, em seu Suffering Servant acrescenta um pós-escrito no qual apresenta um sumário útil dos escritos de vários autores escandinavos que discutem o messianismo bíblico em geral e o Servo sofredor em particular (ibid., pp. 220-239). 


[100] Roland K. Harrison, Introduction to the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1969), p. 25 (cf. p. 40). 


[101] Ibid., pp. 80-82. 


[102] North, Suffering Servant, p. 239. 


[103] Cf. William S. Lasor, David A. Hubbard e Frederic W. Bush, Old Testament Survey (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), pp. 371-377.