22 de agosto de 2016

GERARD van GRONINGEN - A mensagem messiânica em Jeremias (Parte 3)

gerard groningen danilo moraes
Visão geral de Jeremias 24-34. Outras passagens que falam do conceito messiânico são: 30.8,9,21,22; 23.1-8; 31.31-40; e 33.14-26. Essas passagens são uma elaboração do que Jeremias profetizara antes (3.14-17; 23.1-8) e também provêem um contexto mais amplo, no qual se pode esperar o cumprimento. Essas passagens podem não ter sido proferidas na ordem em que são apresen­tadas. Jr 25.1, por exemplo, refere-se ao quarto ano de Jeoaquim; 26.1 fala do "princípio do reinado de Jeoaquim", o que pode significar o primeiro ou o segundo ano; 27.1 menciona o "princípio do reinado de Zedequias"; e 29.3 refere-se a Zedequias como rei. Dessas referências podemos deduzir que o escritor não segue a ordem cronológica exata em que Jeremias proclamou suas mensagens e escreveu a carta aos exilados (29.1). Ao contrário, como nos caps. 21-23, foram reunidas profecias que tratam de alguns temas centrais, como a mensagem errônea de falsos profetas (28.12-14; 29.29-32), a queda de Jerusalém e o exílio do povo de Judá, a presença garantida da dinastia davídica, e a continuidade do pacto de Yahwéh com seu povo.

Um breve estudo do conteúdo dos caps. 24-34 lançará luz sobre o real contexto das referências messiânicas nesta seção das profecias de Jeremias.

Jeremias recebe confirmação por meio da visão dos dois cestos de figos (24.1b-3): um deles contém figos bons, representando os exilados, sobre quem Yahwéh vigia, e que retornarão; o outro tem maus figos, que representam Zedequias e seus oficiais, que serão lançados fora (24.8-10). Os representados pelos bons figos irão para o cativeiro por setenta anos (25.11,12) sob Nabucodonosor, que servirá como agente de Yahwéh. A mensagem de Jeremias a respeito da ira de Yahwéh a ser derramada sobre Judá e todas as outras nações destaca o fato de que Judá, em verdade, não é diferente das outras nações; não pode esperar privilégios especiais (25.27-29). Esse tipo de mensagem traz a Jeremias ameaças de morte (26.8-11; ver também 26.16), mas ele não pára de proclamar o julgamento que virá sobre Judá. Encena a escravidão do povo sob Nabucodonosor (27.1-22). Falsos profetas continuam a contradizê-lo (por exemplo, Hananias, de Gibeon, em 28.10,11) e a despertar falsas esperanças no coração do povo em Judá e daqueles que já estão no exílio. Jeremias envia uma carta aos exilados (29.1) dizendo-lhes que devem esperar setenta anos de exílio (29.10) e que, portanto, devem estabelecer para si um padrão regular de vida e observar o que Yahwéh fará aos reis que se assentam no trono de Davi (29.16-23). Jeremias faz o máximo para conter a falsa esperança que os profetas falsos inspiram (29.24-32). Mas o povo no exílio não deve renunciar a toda esperança. Yahwéh manterá a casa davídica (30.8,9,21,22); ele continuará a manter o pacto com eles (31.31-40) Jeremias demonstra sua fé nessa mensagem de restauração comprando um campo de seus parentes (32.8-29).

Em adição ao conteúdo da mensagem que proclama,, Jeremias demonstra a certeza de suas profecias. Depois de falar dos cestos de figos, ele põe em seu pescoço um jugo para pintar o cativeiro de Judá (27.2; cf. 28.10), e compra um campo para indicar sua certeza de que haverá um futuro. As atividades escusas e mensagens mentirosas dos falsos profetas e dos sacerdotes são contrapostas pela carta de Jeremias escrita às pessoas no exílio, em que ele esboça que tipo de vida eles devem levar em Babilônia. De maneira singular, Jeremias refere-se ao amor duradouro de Yahwéh (313-6) e convida o povo a regozijar-se no meio de suas aflições, longe de sua terra, de sua cidade, de seu lar (31.7-14). Fala confortadoramente da esperança que é sua, quando eles derramam lágrimas pelos seus queridos, perdidos no holocausto do exílio (31.15-22).[1]

Um fator no contexto do destino de Judá é de particular interesse no estudo da revelação do Messias, a saber, a referência a Nabucodonosor, rei de Babilônia, como servo de Yahwéh (25.9; 27.6).[2] Como vimos antes, esse termo tem signifi­cação messiânica específica sempre que é aplicado a Moisés (Nm 12.7,8) e Davi (2 Sm 7.5; 1 Rs 11.13,32).[3] Dois aspectos específicos do termo messiânico são aplicados a Nabucodonosor. Primeiro, como rei de Babilônia, ele é nomeado por Yahwéh para ser seu representante e agente entre os povos e nações do mundo. Reis, nações e mesmo animais selvagens (27.6b) hão de reconhecer Nabucodo­nosor como o governante a quem devem submissão e serviço (27.6-11). Há de reinar como representante de Yahwéh, como Salomão (1 Rs 1-11; SI 72) e como o Messias vindouro o fará. Como governante universal Nabucodonosor é um tipo do Messias que há de vir. Ele é designado para a posição régia de poder, honra e glória que os descendentes davídicos teriam, se honrassem e obedeces­sem a Yahwéh e governassem segundo a sua vontade. Assim, Nabucodonosor, por certo tempo, é designado para preencher o lugar da dinastia davídica.

Em segundo lugar, Nabucodonosor recebe uma dupla tarefa messiânica. Na qualidade de governante universal e juntamente com seu povo, ele será um agente de Yahwéh para julgamento (25.9-11). Infligirá o castigo de Yahwéh a Judá. Espalhará e esmagará a maior parte do povo e obrigará o remanescente a suportar o exílio.[4] Mas ele também vai poupar alguns do povo de Yahwéh, prover um lugar seguro para eles e protegê-los. Enquanto espalha a destruição entre os povos e nações, nesse julgamento ordenado por Yahwéh, Nabucodo­nosor servirá como servo de Yahwéh, sendo o salvador, protetor e provedor do remanescente que Yahwéh está preservando. Portanto, Nabucodonosor tem uma função de pastor. Pode ser difícil aceitar que esse impiedoso conquistador foi chamado e nomeado por Yahwéh para servir num papel messiânico real. Essa anomalia indubitavelmente levou à remoção, na Septuaginta, da referência a Nabucodonosor como servo de Yahwéh. Alguns eruditos têm tentado limitar o escopo da referência a 'abdi apelando a alguns antigos tratados de suserania, em que os vassalos são referidos como servos.[5] Pode haver uma analogia, mas permanece o fato de que, como Ciro foi chamado de mãSiah (messias) por causa da obra que foi convocado para fazer em favor do povo de Yahwéh, assim também Nabucodonosor é chamado, nomeado, dotado e autorizado a levar adiante o plano de Yahwéh. Yahwéh, em sua sabedoria e soberano poder, terá seus propósitos levados a efeito quando seus agentes inicialmente apontados, os representantes davídicos, recusarem obedecer e servi-lo, Yahwéh, em sua sabedoria e poder, pode empregar, e emprega, um déspota descrente e auto-en­grandecedor. Ele faz a ira do rei servi-lo (SI 76.10).[6]

Jr 30.8,9. Três passagens adicionais na profecia de Jeremias exigem atenção em nosso estudo da revelação do conceito messiânico.[7] Elas integram a "profecia de esperança" de Jeremias, como os capítulos 30-33 podem ser intitulados. Vários eruditos se referem a esses capítulos como o "Livro de Consolação" ou "Livro de Conforto". O que os críticos têm visto como proble­mas[8] não dá apoio à conclusão de que esses quatro capítulos não sejam considerados como uma unidade integrada.[9]

A questão sobre se os caps. 30-33 devem ser considerados messiânicos não tem sido discutida pela maioria dos especialistas; algumas partes, entretanto, têm sido consideradas messiânicas. Hengstenberg, por exemplo, sustenta que os caps. 30 e 31 são messiânicos por causa da salvação que virá por intermédio do Messias; outros têm considerado messiânica a seção inteira.[10] Não deve haver dúvidas de que essas passagens especificamente messiânicas dão a essa seção toda um caráter messiânico.

As referências ao rei Davi (30.9) e ao líder e governante (30.21) foram designadas messiânicas por eruditos como Hyatt[11] e Mowinckel.[12] Keil[13] também considerou essas passagens messiânicas, como também Aalders,[14]Feinberg,[15] Harrison,[16] Laetsch,[17] e Thompson.[18] Mas Hengstenberg não inclui a passagem em sua discussão.[19] O acordo geral concernente ao caráter messiânico desses versos não quer dizer que há acordo a respeito da interpretação e as referências pretendidas. Hyatt e Mowinckel consideram que a referência a Davi é estritamente política; sustentam o ponto de vista de muitos críticos de que Jeremias inspirou uma esperança de uma nação israelita redi­viva segundo o padrão do reinado de Davi. Mowinckel foi específico, admitin­do que esses versos têm origem pós-exílica. Segundo ele, essas passagens realmente refletem a esperança das pessoas que retornaram do exílio. Essa esperança, quando expressa em termos de um rei ideal, embora a referência seja a Davi, inclui elementos míticos.[20] Harrison tem uma perspectiva diferen­te: vê nesses versos uma referência ao povo de Israel como tendo uma tarefa messiânica. A. Van Selms vê uma referência geral ao Messias,[21] enquanto outros entendem que Jeremias se refere diretamente a um descendente régio da casa de Davi, isto é, o Messias prometido. Os eruditos que discernem uma referência direta ao Messias davídico e à sua liderança como Governante estão certos. Compreenderam corretamente que Jeremias está visando aquele de quem profetizara antes (3:14-17; 23:1-8). Um estudo da passagem em conside­ração confirmará isso.

O cap. 30 começa com uma frase que afirma explicitamente que o que se segue é hadãbãr (a palavra) de Yahwéh a Jeremias. O profeta recebe antes de tudo a ordem de escrever num sêper (livro) tudo o que Yahwéh lhe diz. Portanto, há uma afirmação clara e definida a respeito de Yahwéh como a fonte da mensagem, e há também uma referência clara ao escrever-se essa mensa­gem. A palavra de Yahwéh a Jeremias e por meio dele deve ser registrada como um relato seguro e confiável das intenções de Yahwéh. Mencionam-se dois itens principais: o cativeiro è o retorno à terra (30.3). O tempo do cativeiro e exílio será um tempo horrível, um tempo de terror por causa da grande catástrofe que virá sobre Judá e Jerusalém (30.5-7). A passagem termina com uma transição que expressa esperança: ümimmennâ ytwwãSêa’ (e dela tu serás libertado, niphal de yãSa', livrar). Alguns tradutores preferem "salvo" (RSV, NIV), implicando um resgate dramático bem sucedido realizado por alguém em favor "dele" (o povo). Jeremias prossegue com declarações breves, incisi­vas, afirmando o que se pode esperar deyhwh sèbã’ôt (Yahwéh dos Exércitos; cf. NIV, "Senhor Todo-poderoso").

A primeira frase no v. 8, yêhãyâ bayyôm hahü’(acontecerá naquele dia) refere-se ao tempo depois que Judá for exilado e escravizado. Depois dos setenta anos de cativeiro, ’eSbõr üllô (quebrarei o jugo). Yahwéh promete intervir em favor dos escravizados (postos sob jugo), destruindo os meios pelos quais eles são obrigados a trabalhar (cf. Is 9.4); ’ãnotêq (rasgarei) os liames pelos quais o povo é mantido preso (cf. Is 9.5). Assim, livre de ambos esses constran­gimentos, o povo de Yahwéh lõ’ ya'abdu bô (não servirá a ele [i.e., ao governante estrangeiro] como escravo). O povo do pacto não estará mais sob o jugo de estrangeiros. A promessa da poderosa intervenção de Yahwéh em favor de seu povo é feita para inspirar confiança e esperança ao coração do povo de Deus que está inevitavelmente destinado à captura, ao exílio e à escravização numa terra estranha. Essa promessa de livramento e restauração é aumentada pela revelação por parte de Yahwéh do que deve ser esperado depois do retomo.

30.9. Wè ’ãbdü (mas eles servirão).[22] A conjunção wè introduz um contras­te, contraste que não deve ser visto pela cessação do serviço. O povo libertado e restaurado não servirá mais aos zãrim (estrageiros) (v. 8). O real contraste é em relação a quem o serviço será prestado. Antes de tudo, será prestado a ’êt yhwh ’èlõhêhem (Yahwéh seu Deus). O verbo hebraico 'ãbad tem algumas conotações específicas.[23] O termo significa literalmente trabalhar, isto é, exer­cer energia física no desempenho de tarefas e deveres. Assim têm de fazer os escravos para produzir um campo lavrado, uma casa limpa, um celeiro cheio de frutos. Isso impõe obediência ao proprietário ou senhor que determina as tarefas ou deveres que devem ser cumpridos. O termo também implica o reconhecimento do senhor e honrá-lo. No sentido religioso a servidão significa honrar ou Yahwéh ou outro deus. Os profetas acusaram o povo de Yahwéh de escolher a adoração de ídolos ou deuses estrangeiros (cf. Is 1.4; 44.6-20; Jr 2.11) por atos de devoção e por meio de sacrifícios, ofertas e serviço manual. Este serviço a deuses estranhos era a principal razão para a submissão, deportação e escravização nas terras estrangeiras, onde seriam compelidos a honrar seus captores a exercer trabalho físico e a produzir coisas em benefício deles.

O preciso contraste que Jeremias proclama ao povo como palavra de Yahwéh é que o próprio Yahwéh, o senhor original de Judá, de fato o seu único e amoroso Senhor do pacto, receberá o reconhecimento, obediência, adoração e serviço físico de seu povo libertado e restaurado. Isso quer dizer que a totalidade da vida será dirigida para Yahwéh; cada aspecto da vida—religioso, social, econômico, político—será devotado a Yahwéh. O futuro do povo é uma promessa e uma expectativa segura. Como, porém, em toda situação de promessa e expectativa, há a inseparável dimensão de responsabilidade. Espe­ra-se que o povo libertado e restaurado sirva a Yahwéh. Falhar em fazê-lo, como antes do exílio, resultará em novo alheamento de Yahwéh e em trágicas conseqüências posteriores.

Jeremias prossegue profetizando que uma vida total de serviço a Yahwéh será também prestada wè’êt dãwid malkãrn (e a Davi seu rei). As frases a Yahwéh e a Davi são declarações paralelas. Servir a Yahwéh é servir também a Davi. Yahwéh e Davi são inseparáveis.

Como deve ser entendida a referência a Davi? Alguns críticos, como disse­mos acima, insistem numa expectativa estritamente política alimentada no coração de um povo empobrecido que havia retornado do exílio.[24] Este ponto de vista é difícil de aceitar em vista do que os próprios profetas proclamaram. Eles repetidas vezes se referiram à promessa que Yahwéh fizera a Davi (2 Sm 7) a respeito de sua casa (cf., p. ex., Is 7,9,11; Jr 23.1-8). O próprio Davi, que morrera e fora sepultado, não seria fisicamente restaurado. Ao contrário, espera-se um descendente davídico, seu representante. E essa expectativa se apoiará firmemente na promessa de Yahwéh, enfaticamente afirmada, ’àSer ’ãgtm lãhem (que eu farei levantar-se para eles). Daí, o rei davídico a quem Jeremias se refere não está fisicamente presente naquele tempo. Nos dias vindouros Yahwéh o trará e o estabelecerá no meio deles. Esse rei receberá o mesmo "serviço" que Yahwéh requer de seu povo.

Jeremias faz outras referências ao rei davídico. Em 30.21 esse rei é citado co­mo o ’ãdirô (o majestoso, termo derivado do verbo hebraico ’adir, ser grande, ser alto, ser nobre) e como o mlvlo (o governante sábio) que viria do meio do povo. Moisés tinha falado do rei do povo do pacto, vindo do meio do povo (Dt 17.15), e Samuel tinha ido a uma família de Judá e ungido a Davi no meio de sua família e nação (1 Sm 16.1-13). A promessa de Yahwéh por meio de Moisés e sua promessa e seu ato feitos a Davi serão mantidos firmes. A casa davídica não será removida, mas um descendente de Davi, uma pessoa nobre e majes­tosa, um governante sábio (30.21) será levantado por Yahwéh. Fora de qual­quer dúvida, Jeremias está-se referindo à mesma pessoa de quem falara quan­do profetizou a respeito do grande e fiel Pastor, o Renovo de Davi (Jr 23.5).

Jeremias, ao assegurar ao povo de Judá que depois de sua libertação e restauração Yahwéh será servido, e da mesma forma o seu agente, o rei davídico, repete uma fórmula pactual Qr 30.22). A frase "vós sereis meu povo" lembra o que Yahwéh tinha dito aos israelitas no Sinai: "Vós me sereis um reino... e uma nação santa" (Êx 19.6 RSV) e o que Yahwéh dissera a Abraão, "e eu serei seu Deus" (Gn 17.8b). O pacto feito com Abraão e expandido no Monte Sinai para incluir os descendentes de Abraão não foi esquecido nem esvaziado. Yahwéh se lembrará de seu pacto e cumprirá as promessas que fizera séculos antes. Aqui está uma sugestão de que o rei davídico é o mediador do pacto por meio de quem todas as promessas e responsabilidades do pacto se tornarão realidade.[25]

Como dissemos nas observações introdutórias a esta seção, Jr 30.8,9,20,21 deve ser compreendido como de teor messiânico. Jeremias está falando do Messias prometido. Fala primeiro e mais diretamente a respeito do conceito messiânico em seu ponto de vista mais estrito: profetiza a respeito da pessoa régia; fala do descendente de Davi a quem Yahwéh suscitará no futuro. Jeremias, além disso, refere-se ao conceito messiânico em seu sentido mais amplo quando fala dessa Pessoa régia como o Majestoso e Sábio, que cumprirá as promessas do pacto feitas a Abraão e aos seus descendentes no Monte Sinai. A referência ao pacto de Yahwéh com Abraão e Israel deve ser lembrada quando estudarmos a proclamação de Jeremias a respeito do Novo Pacto.

Jr 31.31-34. A passagem é parte integral do Livro de Conforto.[26] Ela expande o conceito do Messias, não falando diretamente dele nem da casa davídica, mas referindo-se à moldura pactual em que o Messias é proclamado e ao contexto em que Ele vai atuar. Como antes mencionamos, Jeremias estava plenamente cônscio do pacto mosaico e vez ou outra se refere a ele, isto é, ao pacto de Yahwéh com Israel (povo) e com Davi (indivíduo). Ambos os pactos eram inteiramente messiânicos em caráter.[27] Jeremias fala do novo pacto dentro do contexto deles. Note-se como ele introduz o capítulo sobre o novo pacto repetindo as promessas históricas e invioláveis dos pactos abraâmico, mosaico e davídico, "naquele tempo", isto é, no tempo da libertação e restau­ração de Israel e Judá, as promessas de Yahwéh serão mantidas firmes. Ele será Deus de todas as famílias de Israel e elas serão seu povo (31.1).

Antes de estudarmos os w. 31-40, devemos considerar os w. 15 e 22. Eles são parte de uma passagem em que Jeremias fala[28] de como ele procurou confortar o povo que tinha perdido e iria perder entes queridos na deportação de Israel e Judá.152 Alguns comentadores notam que a referência de Jeremias a Raquel é evidência de que ele estava-se referindo à experiência de mães nas dez tribos do norte, quando foram sobrepujadas pelos assírios. Raquel era a ancestral de Efraim e Manasses, duas das maiores tribos. Mas deve ser também notado que há uma referência a Ramá, que estava dentro das fronteiras de Benjamim. Benjamim era parte do reino de Judá. Não se pode ignorar a ênfase de Jeremias nas experiências das tribos do norte (cf. vv. 18,20). Tinha havido muita dor e sofrimento quando o exército de Israel foi derrotado, muitos de seus homens, mulheres e crianças massacrados e famílias brutalmente separa­das. O pranto das esposas e mães era ouvido em toda parte. Essa tristeza era a conseqüência de Israel ter-se apartado de Yahwéh, o que foi seguido de desgraça e vergonha (31.19). Assim como a mãe de Israel tinha pranteado, também Judá começou a prantear quando ocorreu a primeira deportação. Jeremias proclama que o sofrimento e a tristeza de Judá se tornarão ainda mais intensos quando Judá enfrentar destruição, exílio e escravidão.

A referência à tristeza materna é seguida por um apelo à esperança. As mães não devem mais chorar! Devem considerar o que Yahwéh está fazendo. Ele está preservando seu povo; o povo retornará do cativeiro depois de experimen­tar a disciplina que Yahwéh lhes está infligindo (31.16d,17). Assim, o ponto principal da passagem é que há esperança para o futuro. Yahwéh não se esquecerá de seu pacto e de suas promessas. O sofrimento e a tristeza são necessários.

O propósito de incluir a discussão do pranto de Raquel em nosso estudo da revelação do conceito messiânico é o fato de Mateus citar esse verso (31.15) após relatar o massacre dos meninos de idade aproximada à do infante Jesus, ordenado por Herodes (Mt 2.18). Primeiro, deve ser compreendido que Jr 31.15 não é estritamente messiânico; não se refere a uma pessoa régia, nem às próprias características, reinado ou obra do Messias prometido. Segundo, a referência de Mateus à tristeza do passado, dentro do contexto do nascimento de Jesus, evidencia que os escritores inspirados do Novo Testamento viram uma conexão definida entre as experiências do povo do pacto e os aconteci­mentos que cercam o nascimento de Jesus. Esta reconhecida conexão não é uma simples construção de idéias. Os autores do Novo Testamento viram e procla­maram a unidade orgânica do modo de Yahwéh lidar com seu povo e das experiências do povo, à medida que Ele levava adiante seus planos imutáveis para o povo no decurso do tempo. Terceiro, o cumprimento de que Mateus fala deve ser considerado tipológico de um modo especial. A matança dos meninos por Herodes, a agonia e a tristeza causadas pelo ingrato acontecimento são tipológico spor analogia}53 A angústia e as lágrimas causadas pela deportação eram análogas às das mães nos dias do nascimento de Jesus. À medida que Yahwéh levava adiante seu propósito pactual, surgiam circunstâncias que traziam angústia e lágrimas. Assim, quando os violadores do pacto eram punidos, havia dor e sofrimento. E quando o Mediador do pacto foi trazido ao mundo, houve lágrimas outra vez, embora as circunstâncias fossem diferentes; o banho de sangue de Herodes desencadeou uma torrente de emoções repre­sadas. Portanto, embora as circunstâncias sejam diferentes, a dor, o sofrimento, a tristeza estão presentes quando Yahwéh leva adiante seus propósitos pac­tuais e cumpre suas promessas.

Jeremias conclui a passagem (31.15-22) com uma frase peculiar. Lembremo- nos de que o profeta tinha estado proclamando uma segura mensagem de esperança para o futuro. Ele apela ao arrependimento do povo do pacto e insta-o a que cesse de errar. Dirige-se a ele como bétülat yiérãlel (a virgem de Israel) (v. 21) e como habaf (a filha) que foi infiel (v. 22).

E então, numa das mais discutidas passagens de todo o livro, a referência no v. 22b é à nèqêbâ (mulher) que têsübêk (rodeia) um homem, um tipo heróico.[29] [30] Essas três referências femininas devem ser vistas pelo que real­mente elas são.[31] Jeremias dirige-se a Israel como uma virgem, isto é, uma jovem moralmente pura. Ela tem o potencial de tornar-se mãe frutífera, um futuro possível para todas em Israel. Mas o povo é também lembrado do que tem sido — uma filha infiel. Enquanto é desleal, o povo não pode retornar. Arrependimento e purificação são pré-requisitos absolutos. Cumpridos es­ses, a filha infiel pode ser, e de fato é, chamada de virgem e convidada a retomar à casa. A proclamação de Jeremias é uma reminiscência da própria experiência de Oséias com a infidelidade (Os 1-3) e das suas profecias a respeito da fidelidade de Yahwéh (esp. 6.1-3). Indubitavelmente Jeremias tinha também em mente as experiências de Yahwéh com Israel no deserto e em tempos ainda anteriores da história de Israel. Assim como Israel fora infiel no passado e a disciplina de Yahwéh levara ao arrependimento e ao perdão, isto é, à purificação, assim também um nova fase ia começar na vida do povo do pacto.

A terceira referência feminina apresenta um problema particularmente difícil. Que é que Jeremias quer dizer quando fala da "mulher rodeando um homem"? Enquanto nos primeiros tempos do Cristianismo isso foi considera­do uma profecia do nascimento virginal, poucos, se algum intérprete do século vinte mantém este ponto de vista.[32] A interpretação de Calvino, aceita por alguns comentadores, de que o termo geral feminino mulher é usado para referir-se ao fraco (Israel) tornando-se superior ao forte (os babilônios), é mera conjectura, assim como qualquer outra que tenha sido sugerida.[33]

Parece mais sábio considerar a frase como um provérbio que seria bem conhecido nos dias de Jeremias. Como um provérbio, refere-se a um fenômeno pouco usual. A situação comum era um homem deixar seus pais e unir-se a sua mulher (Gn 2.24). O homem, o forte, consola mães entristecidas abraçan­do-as e confortando-as. De modo semelhante, homens fortes procuram amar e abraçar virgens que, como filhas infiéis, permitem que amantes as toquem. Mas uma coisa surpreendente ocorrerá — um homem forte ser seguro num poderoso abraço pela mulher. Esse provérbio assim refere-se a um aconteci­mento muito surpreendente que Yahwéh está a ponto de realizar para Israel e Judá. A filha infiel vai tornar-se uma virgem moralmente pura, de fato, uma grande força para o bem. Isso é, na verdade, hãdãSâ, a coisa nova que Yahwéh vai criar na terra. Somente Yahwéh pode fazer tal milagre — transformar uma prostituta em uma virgem. Porque Yahwéh é o Senhor soberano, Ele não somente promete, mas realmente cria um futuro de esperança, a despeito dos desastres que trazem destruição, morte, exílio e escravidão. Em outras pala­vras, Jeremias refere-se à nova criação que Yahwéh está a ponto de fazer, isto é, a mulher infiel tornar-se uma virgem inocente.

No contexto é importante notar o termo hãdãSâ (novo) que Jeremias usa outra vez no mesmo capítulo (31.31). O termo novo não quer dizer que cada aspecto específico é novo no sentido de não ter estado presente antes. O termo novo aqui é aplicado a Israel e Judá pelo uso dos termos filha infiel e virgem.

Jeremias vê uma situação nova, uma condição nova, um arranjo novo, mas os mesmos elementos que tiniram estado presentes antes agora são os princi­pais elementos contituintes do novo.

Mais uma passagem (31.23-30) que precede a principal, que estamos estudando, requer um breve comentário. Nos w. 23-25 Jeremias relata o que Yahwéh dos Exércitos, o Deus de Israel (note-se a ênfase no caráter do Senhor de Israel), garante a seu povo. Eles retomarão e reconhecerão Yahwéh como a única fonte de bênçãos para o povo, tanto nas áreas rurais quanto nas urbanas. Repetem-se as promessas de bênçãos para uma vida vigorosa e satisfeita. O próprio Jeremias recebe essa mensagem enquanto dormia, e ela o revigora e encoraja (v. 26). Jeremias então repete os planos e promessas de Yahwéh. O profeta foi instruído, quando de sua vocação, a derrubar e arrancar, a plantar e construir. Agora Yahwéh lhe assegura que, como ele vela sobre a destruição, deportação e escravização de seu povo, velará também sobre ele quando replantado e reconstruído. O verbo Sãqad (vigiar) pode significar "estar acor­dado sobre". A idéia é a de uma preocupação persistente, ou de um forte intento de conseguir o resultado desejado. O termo hebraico é tomado da figura de um leopardo que, afeito a capturar a presa, mantém os olhos firmes sobre ela (Jr 5.6). O ponto é que Yahwéh, que nunca dorme mas está sempre vigilante (SI 121.3-8), tem o pleno controle das tragédias que vieram e ainda virão sobre o povo do pacto; Ele estará também em pleno controle da restauração futura e do povo que confessar esse fato (31.29,30).

A passagem (31.29,30) repete e acentua que Israel e Judá serão restaurados (30.1-3). O pacto davídico será relembrado e as promessas pactuais feitas a Abraão e a Moisés, e por seu intermédio, certamente serão cumpridas (30.8,9,21,22). Mas o castigo por meio da derrota, exílio e deportação certamen­te virá. Entretanto, haverá libertação por causa do amor permanente de Yah­wéh para com seu povo (31.3-6). O cântico surgirá no futuro (31.7), embora seja precedido de tristeza inconsolável (v. 15). Das condições do mais profundo desespero Yahwéh trará miraculosamente "alguma coisa" nova, isto é, sua noiva regenerada, purificada e restaurada será trazida de volta para o seu lar.

Voltando-nos para o texto de 31.31-40, veremos que ele consiste de quatro passagens.[34] De cada uma delas se declara ser palavra de Yahwéh, o autor original: nè’um (declara, v. 31), ’amar (diz, w. 35-37), nè’um (declara, v. 38). Os versos 31 e 38 são introduzidos pela frase hebraica hinneh yãmtm (eis dias) enquanto que o v. 31 acrescenta bõ’im (vindo).[35] Está claro, portanto, pelas asserções feitas que o próprio Yahwéh revela o que vai acontecer no futuro, num dia não determinado. O próprio contexto, entretanto, como indicamos nos parágrafos precedentes, aponta primeira e principalmente para a liberta­ção do exílio e da escravidão, ao retorno e fixação na terra natal de Israel e Judá. O conteúdo dos w. 31-40 não é material inteiramente novo. Os principais pontos acentuados nas passagens precedentes constituem o ponto central, mas a moldura dentro da qual esse material é expresso acrescenta novas dimensões históricas e teológicas pervasivas às afirmações de Yahwéh a respeito do futuro de seu povo.

Yahwéh declara que wêkãrati... bèrü[36] (quando eu cortar... um pacto). No contexto o verbo, um perfeito com vav, deve ser compreendido como future. Assim Yahwéh revela que em dias vindouros não especificados, mas num tempo que se pode entender como começando com o retomo do exílio, ocorrerá a feitura de um pacto.[37]

Vários profetas foram chamados tipicamente para proclamar a mensagem de Yahwéh concernente ao Messias num contexto pactual.[38] De fato, a maior parte das profecias a respeito do pacto de Yahwéh com a casa davídica e Israel ou Judá inclui referências diretas ou implícitas ao conceito messiânico. A pergunta a ser respondida agora é: Esta singular passagem sobre o novo pacto contém uma real mensagem messiânica?[39]

O profeta menciona várias vezes o bérit (pacto). Em 3.16 fala da arca da aliança em frente à qual o povo de Judá fez seus votos. A arca encerrava uma cópia da lei do pacto, revelada no Sinai quando Yahwéh pactuou com seu povo libertado do Egito. Foi então que Yahwéh revelou que estaria com seu povo, habitando em sua presença, guiando-o e protegendo-o. Jeremias, referindo-se à arca, faz referência particularmente ao pacto sinaitico, no qual as promessas feitas séculos antes a Abraão foram incluídas. Em Jr 11.1-13 usa-se o termo pacto pelo menos cinco vezes para dar ênfase ao que Yahwéh havia feito, prometido e ameaçado depois que Israel tinha sido libertado do Egito (Ex 19-24) e antes de sua entrada na Terra Prometida (Js 4.1). A ênfase no contexto está sobre a lei que Yahwéh proclamou como parte integral do pacto com seu povo. Mas a lei foi desobedecida e o pacto foi quebrado pelo povo. Não obstante, o pacto permanece em efeito: mas são as suas maldições, em vez das bênçãos prometidas, que são executadas. Assim, embora o pacto tenha sido quebrado por desobediência, permanece inviolado quanto a Yahwéh, como é provado pelo cumprimento das maldições previstas (cf. esp. Dt 4.15-31; 8.10-20; 11.26-32; 27.15-26; 28.15-68).

Jeremias, proclamando a execução certa da ira de Yahwéh sobre Judá, por meio da seca, da fome, e da espada, suplica a Yahwéh: zèkõr... bèrltkã (lembra- te... de teu pacto, 14.21).[40] Nessa frase Jeremias resume as misericórdias, graça, perdão e bênçãos de Yahwéh. Ele roga a Yahwéh que se lembre de seu próprio nome (v. 21a), indubitavelmente apelando ao nome do pacto, Eu sou o que sou (Êx3.14).

Jeremias responde à nação que pergunta por que Jerusalém foi destruída referindo-se ao pacto que Israel tinha abandonado, quando adorou e serviu a outros deuses (22.8). Aqui a referência é particularmente ao laço de amor, vida e bênçãos pactuais que Yahwéh tinha estabelecido com seu povo; ele, porém, tinha-se inclinado diante de outros deuses para amar, servir e obter vida e bênçãos.

Jeremias usa também o termo bèrit para referir-se a um acordo político e social entre o rei e seu povo, em relação aos escravos e escravas judaicos (34.8-22). Aqui o termo é usado em seu sentido estritamente formal, de um acordo entre o rei e seus súditos. É um acordo que trará liberdade aos escravos. Mas os donos de escravos, depois de tê-los libertado, tornavam a escravizá-los. Dessa maneira quebravam o pacto que tinham feito com seu rei. Mas Jeremias assinala que manter alguém como escravo depois de um período de seis anos é em si mesmo a quebra de um dos requisitos do pacto que Yahwéh tinha feito com Israel. O ponto a ser destacado aqui é que o pacto de Yahwéh com Israel tinha condições e implicações sociais, e não só religiosas.

Em 50.5 Jeremias profetiza a respeito do pacto eterno, que se refere ao laço que nunca será quebrado entre um povo arrependido, obediente, e seu Senhor. Esse pacto eterno refere-se ao novo pacto de Jr 31.31-34.

Quando se resume assim o uso que Jeremias faz do termo hebraico bèrit, pode ser dito que, nas passagens examinadas, ele se refere ao pacto de Yahwéh com os patriarcas e seus descendentes, Israel e Judá. Os aspectos principais do pacto são o laço estabelecido, as promessas de bênçãos a Abraão, a garantia de um laço eterno de amor e vida entre Israel e Yahwéh, a lei e a resposta obediente a ela, os aspectos religiosos e sociais e a maldição pela desobediência. É de importância vital relembrar que Jeremias fala desses aspectos como duradou­ros e permanentes. Portanto, Jeremias não considera que todas as atividades e aspectos pactuais passados sejam abolidos, esquecidos, ou tornados sem rele­vância. Mas haverá uma sensível mudança. O verbo kãrat (cortar) o sugere; o adjetivo hãdãsâ (novo) fala diretamente disso.

O sentido preciso do termo hãdãsâ é difícil de determinar. A maioria dos comentadores refere-se ou discute as diferenças entre o velho e o novo pacto,[41] mas poucos, se algum, tentam definir com precisão o significado e referência desse adjetivo. É também o caso dos que escrevem artigos em revistas.[42]

Especialistas dos nossos dias têm-se mostrado refratários ao estudo acurado de um termo que possa ajudá-los na compreensão de uma passagem.[43] No contexto, um estudo da palavra confirma fortemente o que o próprio contexto exige. Como já mencionamos acima, os elementos principais do pacto com Abraão, Moisés, Israel e Davi permanecem em vigor nas proclamações de Jeremias.[44] Ele usa o adjetivo hebraico hàdãSâ no seu sentido básico de renovar, restaurar, reparar. Em Lm 5.21 Jeremias pede uma renovação como nos velhos tempos. O mesmo, porém renovado, em nova força, em operação renovada, é o intento específico.[45] Assim o pacto de Yahwéh há de ser renovado.

Será renovado ’et-bêt Yiérã’êl wè’et bêt yèhüdâ (com a casa de Israel e com a casa de Judá). Jeremias reconhece a divisão do povo do pacto, ao nomear separadamente os dois grupos, mas ele considera-os reunidos no futuro. Esse é um dos elementos envolvidos na renovação.[46]

Haverá uma diferença. Jeremias sugere esse fato com a frase hebraica lõ’ kabèrit (não como o pacto) (v. 32a), que ele define como o que Yahwéh fez (lit. cortou) com seus antepassados quando os tomou pela mão e os tirou do Egito. Yahwéh insiste, proclama Jeremias, que Ele tem sido fiel {’ãriõkí bã'alti bãm, "eu, eu tenho sido um esposo para eles") (v. 32b). Seu amor, proteção, provisão e cuidado nunca falharam. Mas Yahwéh não foi reconhecido como tal. Sua noiva quebrou o pacto; não obedeceu aos seus mandamentos, que lhe foram dados em tábuas de pedra, para serem lidos periodicamente para ela. Devemos observar que Yahwéh não diz que o pacto do Sinai com suas obrigações está anulado por ter sido quebrado, porque suas condições não foram cumpridas e a lei foi desobedecida.

São feitas três fortes afirmações (31.33). Primeiro, zõ’t habèrit (este pacto); este é o pacto que será cortado depois daqueles dias. A existência do pacto de Yahwéh com seu povo é garantida. No futuro esse pacto será restabelecido com o povo de Israel. A ênfase está na preposição com (o povo). O pacto foi quebrado; o povo estava, pois, sob a maldição do pacto quando vivia em desobediência e no exílio. Mas essa vida desobediente e esse duro exílio estão para findar. O pacto será renovado e permanecerá efetivo por todos os tempos.

A segunda afirmação forte é a referência de Yahwéh a ’et-tôrãti que foi uma parte integral do pacto do Sinai e que Abraão também obedeceu (Gn 26.5). A mesma lei, no pacto renovado, não será mantida diante do povo apenas por meio da palavra falada ou escrita. Yahwéh diz que Ele mesmo nãtati... bèqirbãm (pô-la-ei em seu interior),[47] e para explicar esse pensamento Jere­mias acrescenta 'al-libãm ’ektãbennâ (e sobre seus corações a escreverei). Colocando na frase, em primeiro lugar, o termo "coração", é dar-lhe ênfase como fator central. O próprio coração do povo de Yahwéh será mudado; terá o pacto de Yahwéh escrito indelevelmente sobre ele. O pacto e seus requisitos vão tomar-se presentes de modo muito pessoal e inevitável em todos os tempos. O coração será mudado. Yahwéh, ao renovar seu pacto, tratará com a pessoa inteira, de dentro para fora. Esse coração mudado, renovado, não retornará à sua primitiva coitdição pecaminosa, rebelde.

A terceira afirmação em 31.33 é a repetição da proinessa pactual básica, wêhãyiti lãhem lê’lõhim (e eu lhes serei por Deus, ou eu serei seu Deus). Essa frase e a seguinte (e eles serão meu povo) afirma fortemente que o pacto original com Abraão e Israel (com Moisés como seu mediador) permanece. Yahwéh continuará a ser o Esposo, o Senhor, o Pastor, a Luz, a Vida e a fonte de todas as outras coisas necessárias para o bem-estar espiritual e social de seu povo.

Jeremias continua a tratar do tema do pacto renovado (31.34). De novo são feitas três declarações positivas. Não haverá necessidade de ninguém na comunidade redimida tratar outro membro como se esse não conhecesse Yahwéh.[48] A comunidade do pacto, como um todo, receberá um coração renovado. É verdade que cada indivíduo deve requerê-lo, mas ninguém será omitido.

Jeremias, em segundo lugar, acrescenta klkülãm yêdé'ü ’ôti (porque todos me conhecerão, v. 34a). O real conhecimeiito de Yahwéh, como resultado de seu pacto com o povo, será um aspecto integral do escrever-se a sua lei no coração do povo. Ninguém poderá excusar-se de não conhecer Yahwéh e sua vontade pactual. Como a noiva conhece o seu noivo e seus desejos e vontade, assim Yahwéh será conhecido, axnado e honrado.

Terceiro, Jeremias expressa uma promessa muito confortante: Yahwéh se lembrará de seu povo e de seu pacto: kl ’eslah 'ãwõnãm (pois perdoarei suas iniqüidades). O verbo hebraico sãlah tem o significado básico de perdoar. Moisés suplicou a Yahwéh que perdoasse, que não levasse em conta o pecado dos adoradores de ídolos (Ex 34.9). Moisés suplicava um registro limpo. Fez de novo a mesma coisa quando o povo se recusou a aceitar o bom relato dos dois espias e se rebelou contra Moisés e Yahwéh. A resposta de Yahwéh então tinha sido a palavra de perdão; ele apagou o registro do pecado e da culpa do povo.[49] Essa declaração é afirmada pela bem conhecida afirmação paralela: ülèhattã’tãm lõ’ ’ezkar-ôd (e de seus pecados não me lembrarei mais). A limpeza da ficha inclui o apagar-se o registro também da mente de Yahwéh.

Como profetizara Miquéias que Yahwéh em sua grande misericórdia perdoa­ria e esqueceria (Mq 7.18-20), assim Yahwéh, pela boca de Jeremias, assegura à comunidade do pacto que Ele realmente criará uma coisa nova na terra (Jr 31.22): a filha vil, infiel, tornar-se-á uma virgem pura. Assim, as promessas do pacto feitas e aplicadas em tempos anteriores serão mantidas no futuro. De fato, serão completa e efetivamente aplicadas para todos os tempos, e isso como nunca antes.

Na parte restante da passagem Jeremias dá garantia adicional (31.35-40) de que o pacto renovado nunca será ab-rogado. Nos w. 35 e 36 ele lembra aspectos integrais dos pactos de Yahwéh com Adão (Gn 1,2) e Noé (Gn 11). Tão certo como os vários aspectos da criação, os ciclos da própria natureza e as forças da criação continuam a existir, assim também continuará o pacto renovado de Yahwéh. Tão certo como Yahwéh é todo-poderoso, assim também seu pacto permanecerá com Israel como nação (v. 36b). Essa última frase é expandida nos w. 38-40. Jerusalém será reconstruída, seus arredores renovados e todos os aspectos da cidade serão santificados e dedicados a Yahwéh.

Repetimos a pergunta: A passagem (31.31-40) é messiânica? Não somente o termo não aparece, como também não há nenhuma referência direta à casa davídica ou a uma pessoa régia que realizará as promessas de Deus. O próprio Yahwéh é quem vai renovar o pacto, quem perdoará e esquecerá o passado e trará as promessas do pacto feito com Abraão e Israel à sua plena realidade. Portanto, não se pode dizer que a passagem seja messiânica no sentido mais estrito, isto é, relativa a uma pessoa régia. Entretanto, a influência e a obra da pessoa messiânica são várias vezes declaradas como as próprias atividades que Yahwéh assegura a seu povo haverem de ser realizadas em seu benefício.[50] Portanto, a obra messiânica é referida na passagem, que, neste caso, é messiâ­nica no sentido mais amplo do termo. Também deve ser afirmado que Jeremias desenvolve o real conceito do pacto: dá uma explicação mais ampla e clara de seu significado e do que ele trará no futuro. Ele desenvolve a moldura pactuai dentro da qual o Messias deve atuar. Ele capacita seus ouvintes e leitores a compreenderem mais plenamente o que o Messias, o Mediador do pacto, trará. Quem será esse mediador, ele o tinha proclamado antes (23.1-8) e o identificaria de novo. Realmente, Jeremias se refere a Ele no Livro de Conforto, que estamos agora considerando (30-33).

Jr 33.14-26. No final do reinado de Zedequias (cerca de 586 a.C.) Jeremias foi aprisionado por causa de sua insistência de que Jerusalém devia render-se a Nabucodonosor. Comprando um campo em Anatote de um parente, entre­tanto, ele mostrara sua crença de que haveria um retorno à terra (32.1-44). Continuou também a predizer a restauração, a cura, a paz e segurança para Judá, que Yahwéh, o Criador dos céus e da terra, garantiria (33.1-13). Essa profecia de restauração é o contexto em que Jeremias proclama sua profecia messiânica mais explícita e completa. Em toda a sua vida ele não profetizou tanto a respeito do Messias vindouro como Isaías o tinha feito, mas, no contexto da destruição iminente de Jerusalém e da deportação de seu povo, Jeremias coloca diante do povo a promessa do Redentor, o Senhor da justiça, o Rei, o Bom Pastor, e a Fonte de águas vivas, que não é nenhum outro senão o Renovo da casa de Davi.[51] Na passagem o profeta repete algumas referências e acrescenta que o verdadeiro culto, como representado pelo sacerdócio levítico, certamente seria um fator concomitante.[52]

É oportuno fazer uma breve referência ao texto. A Septuaginta omite inteiramente a passagem. Isso leva certos críticos a sugerirem que a passagem é uma adição de editores deuteronômicos e que foi acrescentada ao texto hebraico depois de feita a tradução grega.[53] A passagem, textualmente, é muito semelhante a outras profecias de Jeremias. Frases como "os dias estão vindo" ou "naqueles dias" eram usadas repetidas vezes como introdução a profecias de Yahwéh, porque, como o fizera freqüentemente antes, Jeremias diz incisivamente: "declara o Senhor" (33.14,17) ou "a palavra do Senhor veio a Jeremias" (34.12). J. H. Thompson está certo em dizer que ela contém uma coleção de "profecias messiânicas".[54] Estas, muito provavelmente proferidas em diversos tempos durante a sua prisão, foram reunidas quando essa seção foi escrita.

33.14-16. A passagem é uma repetição de Jr 23.5,6, mas tem algumas alterações; somente estas serão consideradas aqui.[55] Após as frases introdutó­rias habituais, Jeremias, para lembrar à casa de Israel e à casa de Judá ’àSer dibbarti (o que lhes falei), proclama hâqimõtt ’êt-hadãbãr hatfôb (estabele­cerei a palavra boa). A NIV traduz essa frase de modo abrandado e interpre- tativo: "I will fulfill the gracious promise" ("eu cumprirei a graciosa promes­sa"). O verbo hebraico qüm no hiphil é freqüentemente usado para expressar o caráter seguro e inquebrantável do pacto de Yahwéh com seu povo. A idéia é a mesma aqui. As incisivas palavras que Yahwéh falou a ambas as casas, ou a todo o seu povo, são seguras e firmes. Apóiam-se sobre um alicerce firme, que é a própria vontade imutável de Yahwéh. Essa promessa inteiramente confiável é referida como boa. O mesmo termo hebraico é repetidamente usado para caracterizar como Deus considerou a sua criação. Yahwéh, o Criador, realiza aquilo que vai ao encontro de seu plano perfeito, sua visão ideal. O mesmo é verdade do que Ele disse a respeito do futuro de seu povo e especial­mente a respeito de sua casa real. O elemento de graça é visto no adjetivo boa; o povo do pacto perdeu o direito de esperar que Yahwéh realize seu plano ideal para ele. Mas a graça de Yahwéh é revelada na realização certa de seu plano perfeito para seu povo.

A palavra segura pertence particularmente ao Renovo justo. Em 23.5 Jere­mias tinha usado o verbo hàqimõti (estabelecer; os termos suscitar e cumprir também foram usados); em 33.15, emprega o verbo hebraico ’asmtah, hiphil de sãmah, fazer brotar). Literalmente: "Eu farei brotar um renovo a Davi". Yahwéh declara que Ele próprio é a causa da ação: o renovo será verdadeira­mente davídico porque virá dele. Como um broto é homogêneo a sua raiz, assim o Rei prometido será verdadeiramente davídico, humano, real, e, ao mesmo tempo, será também um dom de Yahwéh a seu povo.

O adjetivo reto é usado outra vez e o resultado do reinado desse Rei (que não é repetido segunda vez) será como foi prometido por Isaías (Is 9.5,6; 11.1-10) e por Jeremias (Jr 23.5,6). Há uma única mudança na última frase. O nome Yahwéh, nossa retidão é aplicado à pessoa davídica que virá, em 23.6. Em 33.16 o termo hebraico lãh (a ela) refere-se a Jerusalém. Portanto, a real característica de retidão que o próprio Yahwéh aplicará à Pessoa davídica será estendida à nação sobre a qual ela deve reinar. Assim, Jeremias acrescenta um pensamento específico para dar certeza e conforto ao povo. Embora eles, por causa do pecado e da culpa a que foram levados por Zedequias, membro da casa davídica, sejam severamente castigados, Yahwéh há de fazê-los e declará-los justos no futuro, por meio da mesma família davídica, mediante o sábio, justo e reto descendente que Yahwéh fará surgir. Esta é uma palavra imutável, um fato estabelecido a ser realizado. Jeremias prossegue expandindo essa certeza.

33.17,18. Repetem-se dois aspectos das promessas pactuais de Yahwéh. A frase hebraica lõ’-yikkãret (não será cortado, niphal de karat) é uma alternativa negativa absoluta à afirmação positiva que Yahwéh fez quando disse que "cortou", isto é, "fez" um pacto. "Nunca será cortado" de Davi um homem para sentar-se no trono. Yahwéh fizera uma promessa segura e inquebrantável a Davi (2 Sm 7.12-16; SI 89.37 [TM 89.38]; 2 Cr 17.18). A promessa, no fundo, assinala que a casa davídica nunca será erradicada. Haverá sempre alguém para ocupar o trono — e da perspectiva histórica bem pode ser acrescentado: mesmo se não houvesse um trono físico, terreno, para ser ocupado.[56]

A casa aarônica também deve continuar. O sacerdócio levítico, encarregado do culto e especialmente dos sacrifícios e dos ritos que os acompanham, com efeito deve permanecer. A relação inseparável entre o governo de Yahwéh sobre seu povo e sua verdadeira adoração continuará. Zacarias, depois do retorno do exílio, assume essa relação (Zc 6.9-15). Jeremias não introduz aqui um novo fator, mas refere-se brevemente ao fato de que, enquando um rei justo reinar sábia e retamente, será prestado culto por um povo justo e reto. O rei davídico tinha e terá um papel determinante nisso.

33.19-22. Jeremias acrescenta à proclamação que proferira ao povo no contexto das garantias que haveria uma restauração do povo e uma renovação da relação do pacto. É óbvio que Jeremias, no sentido real, proclamou uma renovação do pacto, como também Moisés às margens do Jordão (Deuteronô- mio) e Samuel em Mizpa (1 Sm 7.2-6) tinham feito antes. Jeremias assegura ao povo o amor permanente e o caráter imutável do pacto de Yahwéh com Davi e os levitas, apelando ao pacto que Yahwéh estabelecera no tempo da criação e repetira a Noé.[57] E na última frase da passagem, Jeremias cita a promessa pactual feita aos patriarcas (Gn 15.5; 22.17; 32.17). Assim, o caráter permanente da relação pactual de Yahwéh nos vários tempos da história da humanidade é proclamado. E no próprio coração da relação do pacto está o Mediador mes­siânico, um Mediador que levará adiante todas as atividades necessárias para validar o pacto e transformar todas as promessas em benditas realidades.

33.23-26. Esta última passagem contém o acréscimo de uma garantia de que o pacto de Yahwéh com Israel, como um todo, e com a casa davídica, como parte, está firmemente estabelecido. Jeremias proclama essa garantia em res­posta a uma queixa pública a respeito da rejeição, por Yahwéh, dos dois reinos — Israel e Judá. Jeremias de novo cita Yahwéh em relação à absoluta firmeza do pacto da criação e de suas inerentes leis naturais; assim como essas são seguras, assim certamente serão as promessas feitas, de que um da casa de Davi reinará sobre o povo de Yahwéh. E Jeremias é específico: Yahwéh disse que Ele faria seu povo retornar do exílio (33.26).

A Ênfase Messiânica no Livro de Jeremias
Nas várias passagens temos mostrado que Jeremias é um tipo profético messiânico. Durante o ministério terreno de Cristo, algumas pessoas se perguntavam se Jeremias teria retornado à terra. Em suas profecias Jeremias faz algumas referências messiânicas definidas num contexto histórico específico. Ele prepara o povo de Judá para a derrota, a morte, o exílio e a escravização. Convida o rei davídico Zedequias a render-se ao rei da Babilônia. Enquanto prega calamidade, repete e proclama esperança e bênçãos futuras. Estas pro­piciam a ocasião para suas profecias messiânicas. Além do mais, Jeremias profetiza a respeito do Messias como o executor certo do pacto de Yahwéh com o seu povo e a casa de Davi. De todos os profetas, Jeremias, mais do que qualquer outro, revela como são inter-relacionados o pacto de Yahwéh e o prometido agente messiânico do pacto.
Jeremias faz referência específica à identidade do Messias. Ele não usa o termo mãSiah nem uma vez, mas suas referências ao Ramo ou Renovo da casa davídica (23.5; 33.15) não deixam lugar para dúvidas. Ele está falando da mesma Pessoa régia que Isaías tinha proclamado ser a posteridade de Davi, e Pai da eternidade, e Deus forte (Is 9.6,7 [TM 9.5,6]; 11.1). Jeremias, portanto, trabalha com o ponto de vista mais estrito do conceito messiânico. Ele viu, apontou e descreveu o futuro Rei e Redentor. Referiu-se também aos aspectos mais amplos do conceito messiânico. Fala das virtudes — sábio, justo, reto, compassivo — do futuro Rei. Fala de seus atos: Ele governará, servirá como pastor, julgará os maus e fará de todas as promessas do pacto bênçãos realiza­das. Ele libertará, restaurará e porá seu povo em segurança. Jeremias, como os profetas antes dele, usa as imagens e o simbolismo disponíveis para falar das benditas certezas que o real Redentor trará a seu povo, e as refere em termos conhecidos e significativos em seus tempos e circunstâncias.
A Moldura Escatológica da Mensagem Messiânica de Jeremias
Jeremias recorre ao passado para prover a ambiência de sua obra profética. Suas referências repetidas ao pacto — o pacto da criação, estabelecido com Adão e repetido a Noé, o pacto com os patriarcas e com Israel como nação (no Sinai e nas margens do Jordão), e com Davi e sua casa — dão-lhe uma procedente moldura teológica dentro da qual ele expressa suas profecias. E é em termos do pacto que ele fala do futuro: o pacto do passado e do presente será o pacto do futuro, este, porém, renovado. O Rei davídico será seu garantidor e executor, mas todos os elementos básicos estarão presentes, tomados aplicáveis e terão efeitos abençoados.
Jeremias faz somente uma referência específica ao retomo do exílio. Esse será o primeiro evento escatológico e a fonte da qual fluirão os demais eventos escatológicos. Esses, entretanto, Jeremias apresenta nos termos de sua época.[1] Jeremias não apresenta um quadro pormenorizado, uma história do futuro. Ã medida que os acontecimentos se desdobraram no remanescente da vida de Israel, à medida que o ministério de Cristo foi realizado e que a Igreja foi instituída e desenvolvida, então somente se tomou claro o que Jeremias profetizara a respeito do Messias da linhagem davídica, do pacto renovado e eterno, e do futuro do povo de Yahwéh.

A Resposta às Profecias Messiânicas de Jeremias

Falar de uma resposta às profecias de Jeremias é aceitar que Yahwéh revelou o que Jeremias profetizou. Continua sendo necessário, em vista de muitas ênfases contemporâneas sobre a mensagem profética na condição de resposta a eventos, acentuar que Yahwéh iniciou os processos de pensamento a respeito do conceito messiâiaico. Quando Jeremias profetizou, a confiança do público, bem como da casa davídica, era de que a presente ordem continuaria. Não havia nenhuma idéia de um futuro reino messiânico ideal da parte do pecaminoso Judá e de seus governantes. Por ordem de Yahwéh, Jeremias coloca diante do povo um modo de vida pactual renovado e restaurado, sob o Governante davídico prometido. Na verdade, Jeremias profetizou a ouvidos surdos, pregou a corações não receptivos e tentou, sem sucesso, penetrar mentes e corações endurecidos pela descrença.

A resposta pessoal de Jeremias foi muito diferente. Ele chorou e se lamentou por causa das tragédias à vista. Mas falou com esperança ardente a respeito do Governante davídico prometido. Ele certa vez se abalançou a dizer que des­pertou de um sono, e exclama que o sono era muito agradável, quando, provavelmente em visão ou sonho, ele tinha sido renovado em sua certeza a respeito do futuro (31.26). Sua iniciativa de comprar uma propriedade fora de Jerusalém, quando a perspectiva imediata, política e militarmente, era sombria, dá expressão à resposta pessoal de Jeremias às mensagens que ele estava convencido de que Yahwéh lhe dera. Em resumo, Jeremias cria plenamente no que Yahwéh lhe dera a profetizar. As mensagens proféticas messiânicas de Jeremias não surgiram de seu próprio coração. E nem ele deu expressão a uma esperança messiânica a desenvolver-se, como Sigmund Mowinckel, George Riggan e outros de sua escola têm postulado.




[1] A leitura de vários comentários, como os referidos acima, revela largas diferenças de opinião na interpre­tação dos aspectos escatológicos das profecias de Jeremias.

[1] Nenhum comentário apresenta uma discussão plenamentesatisfatória desses fatores. Entretanto, a consulta a alguns comentários nos capacitará a obter uma compreensão mais ampla e profunda desses elementos muito importantes da profecia de Jeremias. 


[2] ALXX traduz por "uma família do norte" em lugar de "Nabucodonosor meu servo" em 25.9 e omite-o em 27.6. 


[3] O termo hebraico *ebed (em várias formas e com vários pronomes) aparece freqüentemente na Escritura em referência a Moisés e Davi, bem como a diversos profetas. 


[4] Cf. a discussão sobre Jr 23.1-8 na seção precedente. 


[5] Cf. Thompson, Book of Jeremiah, p. 513, que parece sugerir que o ponto de vista de Zeit, exposto em seu curto ensaio 'The Use of 'ebed as a Diplomatic Term", JBL 88 (1969):74-77, é aceitável. 


[6] Cf. a nota sobre SI 76.10 em NJVStudy Bible, p. 864, que limita desnecessariamente a referência do salmista à ira de Yahwéh contra homens maus; o salmista, entretanto, está-se referindo ao uso por Yahwéh de homens de ira para executar o julgamento mencionado no salmo. Essa-omissão na LXX tem levado alguns críticos a dizer que a referência a Nabucodonosor é uma interpolação de editores. Keil rejeita esse ponto de vista [KD, Jeremiah, 1373). 


[7] Essas passagens são 30.8,9,21,22; 31.31-40; e 33.14-26. Em tempos passados, duas outras passagens, 31.15 (o pranto de Raquel) e 31.22 (a mulher que rodeia um homem) foram consideradas messiânicas. Essas duas passagens no cap. 31 serão referidas brevemente na introdução ao estudo de 31.31-40. 


[8] Thompson escreveu — corretamente — que poucas porções de Jeremias têm causado tanta discussão e desacordo quanto à autoria, tempo e interpretação. Ver, por exemplo, Carroll, que considera os caps. 30-33 uma unidade, dando-lhes o título de "Livro da Consolação", mas em sua discussão separou várias partes por causa de seus diferentes gêneros literários: 30,31/ poético; 32,33, prosa (From Chaos to Covenant, pp. 204-225). Hyatt, Jeremiah,em 75(1956),5.1022,1042,1049, preferiu intitular os caps. 30 e 31 como "Livro de Conforto" edar titules separados aos caps. 32 e 33. 

Barnabas Linders caracteriza o "Livro da Consolação" como uma coleção artificial de passagens, algumas partes do qual podem ser datadas do exílio babilónico ("Rachel Weeping For Their Children—Jr 31.15-22u,JSOT 12 [1979]:47-62). Bright considera a seção inteira como uma unidade e dá-lhe o título de "Livro da Consolação" (Jeremiah, em AB [1965], 21.265,298). 


[9] Thompson, Book of Jeremiah, pp. 551-553, escreveu um útil estudo dos problemas dos críticos, e embora admita que houve alguma revisão editorial, não há razão para crer que o pensamento foi distorcido. 


[10] Hengstenberg, Christologyofthe Old Testament, 2.426,427. Ver também o que Thompson escreveu emsua introdução a Jeremias em Holman Study Bible: "Um remanescente voltará e viverá sob o governo do Messias... (o que) ajuda a explicar a doutrina de Jeremias a respeito do Novo Pacto" (p. 711b). 


[11] Hyatt, Jeremiah,em IB(1956),5.1024. 


[12] Mowinckel, He That Cometh,ip.l6. 


[13] Keil, em KD, Jeremiah 2.7. 


[14] Aalders, De Profeet Jeremia, 2 561. 


[15] Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary,, 6.74. 


[16] Harrison, Jeremiah and Lamentations, p. 134. 


[17] Laetsch, Jeremiah, p. 241. 


[18] Thompson, Book of Jeremiah, p. 556. 


[19] Ver Hengstenberg, Christologyofthe Old Testament, 2.423,424, para conhecer sua transição de 23.1-8 para 3131-40. Ao iniciar sua discussão do Novo Pacto, ele a mencionou numa nota (p. 425). 


[20] Mowinckel, He That Cometh, p. 20; e sua discussão no cap. 3, "O Lugar do Rei na Esperança Futura: O Messias" (pp. 155-186). Dessa maneira, Jeremias refletiria um estágio no desenvolvimento das esperanças messiânicas políticas de Judá e Israel. Cf. George Riggan e suas categorias do desenvolvimento do pensamento messiânico. Ele coloca Jeremias na segunda fase (ibid., pp. 60-72). 


[21] A. Van Selms, Jeremia, em "Prediking van het oude Testament" (Nijkerk: Callenbach, 1974), 2.65. 


[22] A NIV e Feinberg, "Jeremiah" em The Expositor's Bible Commentary, 6.530, traduzem por "em vez de"; comentadores como Bright, Jeremiah, em AB (1965), 21.270; Hyatt, Jeremiah, em IB (1956) 5.1024; e Thompson, Book of Jeremiah, p. 556, traduzem por "mas". 


[23] Ver TWOT, 2.639,640. 


[24] Cf. n. 139, acima. Hyatt fala de um rei ideal da linhagem davídica. Repete o que tinha afirmado antes, sem uma boa razão, que o próprio Jeremias põe pouca ênfase na expectativa de um Messias davídico (Jeremiah, em 75(1956),5.1024). Hyatt está certo reconsiderarmos que a referência é a uma figura política, assim como os quatro últimos reis davídicos que reinaram em Jerusalém. Jeremias, entretanto, tinha uma compreensão mais ampla e rica do futuro Messias davídico. 


[25] Note-se como a promessa do pacto é repetida em Jr 31.1. 


[26] Cf. os pertinentes comentários introdutórios à seção precedente. 


[27] Ver nosso estudo sobre esses pactos nos caps. 7 e 9, acima. Também a Judá, indiretamente, porque Ramá ficava em Judá (cf. Linders, "Rachel Weeping", pp. 52,53). 


[28] A sugestão de que 31.21,22 era original mente separado de 31,15-20 (cf. Hyatt, Jeremiah, em IB [1956], 5.1033), não deve ser considerada uma opção séria. Que a passagem tem dado motivo para muito debate infere-se das discussões concernentes a ela em vários comentários e ensaios, tais como o de Linders, "Rachel Weeping", p. 290; ver também Bernhard Anderson, 'The Lord Has Created Sometinhg New: A Stylistic Study of Jeremiah 31.15-22", GB£?40 (1978):463-478, Ele não quer recorrer a emendas (um expediente desesperado) como A. Weiser fez com seu Das Buch des Profeten Jeremia (Gottingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1959), p. 290. Ver também Bright, Jeremiah, em AB (1965), 21 282; Rudolph, Jeremiah, p. 290. Phyllis Trible procurou dar alguma ajuda à compreensão de Jr 31.15-22 em seu ensaio, "The Gift of a Poem— A Rhetorical Study of Jeremiah 31.15-22", 


[29] Cf. Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, pp. 571,572, sobre o v. 15. Para uma discussão da tipologia bíblica e seus vários aspectos, ver cap. 6, subtítulo "Tipologia Messiânica". 


[30] Thompson decidiu que o significado exato da frase, que ele toma como um provérbio, não é claro, mas ele entende que se refere a alguma coisa não usual e inesperada. Ele dá um sumário geral das interpretações sugeridas (Book of Jeremiah, p. 576J>77). Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, 6571, também examina as interpretações sugeridas, e conclui com Bright {Jeremiah, em AB [1965], 21.275,276) que o significado desafia as soluções. 


[31] Anderson lida com os três termos femininos, buscando uma chave para a interpretação da frase. 


[32] É geralmente conhecido que os pais da Igreja, tais como Jerônimo, tomaram a frase como a referir-se à concepção virginal de Maria, levando em si o Cristo ainda não nascido. Calvino, segundo Feinberg, concorda que a referência seja ao nascimento virginal. É difícil entender como Feinberg concluiu isso, porque Calvino dá uma explicação muito diferente. As quatro razões de Feinberg, para considerar como não válida a referência ao nascimento virginal, são aceitáveis. 


[33] Calvino escreveu: "Isso é o que considero ser o sentido do que disse o profeta — 'Uma simples mulher será superior a muitos homens, ou cada judeu excederá em valor a um caldeu'" (Commentaries on the Prophet Jeremiah, 4.115). 


[34] Hyatt corretamente afirma que poucos eruditos negam que "a passagem se originou com Jeremias" (Jeremiah, em IB [1956], 5.1037). Bright,/ere/ruaA, em AB (1965) 21.287, escreve que a autenticidade da passagem nunca foi questionada. 

Carroll, entretanto, primeiro indicou que a autoria da passagem do novo pacto reaimente não é importante, mas prossegue atribuindo a autoria ao furtivo deuteronomista {From Chãos to Covenant, pp. 216-218). 

J. Thompson, reconhecendo que há um forte debate entre os que pretendem uma autoria deuteronômica e os que defendem a autoria de Jeremias, concorda que ela "remonta a Jeremias" (Book of Jeremiah, p. 580). Ver também Harry D. Potter, em seu ensaio "The New Covenant in Jeremiah xxxí31-34'', PT33/1 (1983):347-357. Ele examina brevemente os argumentos em favor de uma origem deuteronômica da passagem, mas, assim também, concluí que o próprio Jeremias a proclamou, acentuando que viría o tempo em que os escribas não mais seriam necessários. 


[35] Um grande número de manuscritos acrescenta o termo hebraico bõ*lm no v. 28, evidentemente seguindo o padrão do v. 31. 


[36] Dois verbos são usados para expressar a ação envolvida em fazer um pacto: kãrat (cortar) é mais freqüentemente usado quando a referência é ao estabelecimento de um arranjo totalmente novo ou quando se acrescenta uma dimensão especificamente nova (cf. Gn 15.18). Qum (erigir ou manter, no hiphil; causar a permanência) é freqüentemente usado para expressar a continuação (cf. Gn 17.7,19). 


[37] Alguns críticos falam do pensamento de Jeremias como tendo atingido aqui um ponto alto. Cf. Hyatt, Jeremiah, em IB (1956), 5.1037, enquanto Carroll, em From Chãos to Covenant, escreve que este é um ponto alto na profecia. Enquanto não há nenhum desacordo a respeito da importância do conteúdo da passagem, a origem e razão da importância deve ser mantida claramente diante do leitor: Yahwéh revelou esse fato; Jeremias proclamou-o como verdade e também creu nisso. 


[38] Ver cap. 10; a revelação messiânica atingiu níveis elevados quando Yahwéh fez o pacto com Davi. 


[39] Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, 2.427, considera que a passagem é de caráter messiânico: 'Toda a descrição em ambos os capítulos (30,31) é messiânica." Ele então prossegue, apelando à revelação do Novo Testamento, indicando que a vinda de Cristo é realmente o coração do novo pacto (p. 432). Embora não se possa discordar dessa afirmação do ponto de vista teológico e da perspectiva cristológica, é legítimo perguntar se Jeremias, no dia em que profetizou, falou intencionalmente do próprio Messias na passagem. 


[40] Essa súplica é um apelo a Yahwéh para que repita o que fizera quando Israel estava no cativeiro egfpdo; "ele lembrou-se de seu pacto" (Êx 2.24). 


[41] Cf. os valiosos comentários referidos nas notas precedentes sobre 31,31, 


[42] Cf., p. ex., Heinrich Weippert, "Das Wort vom Neuen Bund Jeremia xxxi31-34", VT29 (1979):336-351. Os artigos sobre Jr 3131-34 são muito numerosos, como se pode verificar no Religious Index of Periodicals. Gordon Garner escreveu; "O termo novopactonão oferece ajuda direta porque não hápassagens comparativas1' (Tyndale Paper 8/1 [Março 1968]:8). 

Três estudos sobre o real conceito do pacto apareceram desde 1980: Thomas Edward McCominsky, The Covenants of Promise: A Theology of the Old Testament Covenants (Grand Rapids: Baker, 1985); William J. Dumbrell, Covenant and Creation: A Theology of Old Testament Covenants (New York: Nelson, 1984), esp.pp. 170-185; O. Palmer Robertson, The Christ of the Co venants (Philüpsburg, N J.: Presbyterian and Reformed, 1980), esp. pp. 273-300. 


[43] Esse movimento foi começado particularmente pelo escrito de Barr sobre estudo de palavra. 


[44] Ver Feinberg/ "Jeremiah" em The Expositor's Bible Commentary, 6574-578; ele faz uma distinção aguda entre Israel e a Igreja e não pode afirmar precisamente para quem o novo pacto foi instituído. Homer A. Kent Jr. também foi incapaz de resolver esse problema pela mesma razão ("The New Covenant and The Church", Grace 

Theological Journals 12 [1985]:289-298). Ver também Calvino, Commentaries on the ProphetJeremiah, 4126-128; Keil, em KD, Jeremiah, 13840. 


[45] Ver TWOT, 1,265,266, para um estudo sucinto mas preciso desse termo. 


[46] Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, 6.575, inclui uma discussão em seu comentário sobre como deve ser vista a Igreja em relação ao povo do pacto do Velho Testamento reunido; outros comentadores, como Calvino e Keil, consideram que a Igreja do Novo Testamento inclui os arrependidos do Israel reunido. Um estudo muito útil sobre esse assunto foi apresentado por Hans K. La Rondelle, The Israel of God in Prophecy (Berrien Springs, Mich.: Andrews University Press, 1983). 


[47] A NIV, sem uma boa razão, traduziu o termo por "mente". Como a frase paralela fala do coração, não se deve escolher outra aparência da pessoa, ou seja, a mente. 


[48] Cônsul tem-se os bons comentários para observar como essa frase tem sido interpretada e aplicada. 


[49] Esse termo, no Velho Testamento, é usado somente a respeito de Deus; só Ele pode eperdoa completamente. 


[50] Ver Hengstenberg, Christology ofthe Old Testameni, 2.426,427. 


[51] É de admirar-se que, à luz do que Jeremias realmente profetizou, Skinner pudesse escrever: "A figura do Messias tem uma posição muito subordinada, e na verdade precária, na escatologia de Jeremias" {Prophecy and Religion, p. 310). 


[52] Cf. Harrison, Jeremiah and Lamentations, pp. 144,145, sobre um sumário sucinto, porém completo, da passagem. 


[53] Cf. Bright Jeremiah, em A5(1965), 21.298; e Hyatt, Jeremiah, em IB(1956), 5.1051,1052. J. Thompson, porém, não vê necessidade de afirmar que esses versos sejam um desenvolvimento do pensamento de Jeremias por um outro autor {Book of Jeremiah, p. 601); ver também Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, 6591'594. 


[54] Thompson, Book of Jeremiah, p. 600. 


[55] Consulte-se o estudo de Jr 23.18, acima. 


[56] Cônsul tem-se comentários e estudos de teologia bíblica em relação a várias tentativas de interpretar e aplicar essa declaração profética, bem como a promessa concernente ao sacerdócio levítico em 33.18. 


[57] Ver especialmente Robertson, Christ and the Covenants, pp. 67-87, sobre o pacto da criação e sua relação com o pactuar contínuo de Yahwéh com seu povo.