19 de agosto de 2016

GERARD van GRONINGEN - A mensagem messiânica em Jeremias (Parte 2)

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Exegese de Passagens Messiânicas

Em Jeremias, o mais longo dos livros proféticos, há somente umas poucas passagens especificamente messiânicas. Ernst W. Hengstenberg notou quatro delas, mas não há acordo entre os estudiosos sobre se todas as quatro devem ser assim consideradas. Em outras passagens tem sido descoberta uma sugestão ou referência messiânica.[1] Não pode haver dúvida a respeito do fato de que Jeremias, servindo como um notável representante do fenômeno profético, trabalhou dentro da moldura dos profetas que o antecederam e seguiu sua agenda.[2] Jeremias foi chamado a proclamar julgamento e desastre; a maior parte de sua profecia trata disso. E nas comparativamente poucas passagens de restauração e esperança que Jeremias proclama alguns aspectos essenciais do conceito messiânico real que Yahwéh tinha revelado e que, por meio da repetição e elaboração proféticas, manteve diante do seu povo do pacto.

Jr 3.14-17. São necessários alguns comentários introdutórios. A passagem selecionada é parte integral da terceira seção da profecia de Jeremias: 1.4-19 relata o chamado de Jeremias; 2.1-3.5 dá a primeira proclamação de Jeremias a Jerusalém, lembrando o povo do casamento de Yahwéh com seu povo (2.1-3; 3.1); a referência é ao pacto que Yahwéh fez com os patriarcas e particularmente com Israel como nação sob a liderança de Moisés (Ex 19.9-25; cf. Dt 5.22-32). Jeremias, entretanto, descreve como Jerusalém, representando todo o povo do pacto, quebrou esse pacto, violando seu casamento com Yahwéh e buscando amor e conforto em outros deuses (ídolos). A passagem, pronunciada nos dias de Josias (Jr 2.1-3.5),[3] apresenta o real contexto dentro do qual Jeremias profetiza julgamento e esperança para o futuro.

Jeremias 3.6-6.30 é outra profecia que Jeremias pronunciou durante o reinado de Josias (3.6). Levantam-se algumas questões a respeito dapassagem: É ela uma unidade? A quem Jeremias se dirige? Quantas pessoas que falam são representadas?[4] As respostas são as seguintes, na ordem inversa: Yahwéh fala a Jeremias e, por meio dele, ao povo; daí a declaração: "Se voltares, ó Israel, diz o Senhor, volta para mim" (4.1). Ele tinha-se referido à infidelidade do povo (como a mulher infiel a seu marido, cf. 3.20).[5] Jeremias, entretanto, interpola sua própria resposta na mensagem que Yahwéh lhe dá (4.10,19-26,31). Ele também fala em favor do povo (3.22b-25). O caráter dialogal da passagem não pode ser desprezado no interesse de buscar uma variedade de fontes de que editores mais tarde derivaram seu material.

Jeremias começa essa profecia dirigindo-se a Israel que, como nação, tinha sido exilado na Assíria aproximadamente cem anos antes (cerca de 722 a.C.) Judá é ainda mais infiel do que Israel tinha sido (3.6-11). Assim, antes que o profeta proclame esperança para Judá no meio e depois do julgamento, Israel ouvirá uma animosa mensagem de esperança para si próprio. Do mesmo jeito, quando lhe é ordenado dirigir uma direta mensagem ao norte (3.12), Jeremias lembra a Israel que ele deve reconhecer que Yahwéh é misericordioso e não está mais irado. Israel, entretanto, é chamado a arrepender-se e a confessar seus pecados (v. 13). Esse chamado e promessa a Israel precedem imediatamente a passagem considerada de caráter messiânico específico. E imediatamente após está a proclamação de Jeremias sobre a reunificação de Israel e Judá depois do exílio. Assim, Israel também é incluído como um beneficiário dos planos futuros de Yahwéh.[6]

Como o quadro 13 indica, um fator importante em Jeremias 3.6-6.30 é a preocupação de Jeremias em dirigir-se a ambas essas nações — Israel já no exílio e Judá prestes a ser exilado. O profeta claramente conta com eles como entidades nacionais separadas, mas, ao mesmo tempo, considera basicamente o povo de ambas essas nações como culpado dos mesmos pecados. O chamado ao arrependimento e as promessas de misericórdia e esperança da parte de Yahwéh estendem-se a ambas essas nações, que, por meio do arrependimento e da restauração, têm a mesma esperança para o futuro. Essencialmente, elas são tratadas como um só povo do pacto, uma noiva de Yahwéh. As promessas messiânicas de 3.14-17, embora dirigidas diretamente a Israel, são, na verdade, para um povo reunido que terá Jerusalém como seu centro.

O Texto Massorético de 3.14-17 é bem atestado. A Septuaginta acrescenta uma frase ao v. 17, "e naqueles dias", depois de "naquele tempo". Os seus comentadores não estão todos de acordo quanto à estrutura de 3.11-18. Thomp­son considera os w. 12-18 como uma unidade,[7] Feinberg toma 14b-18 como uma unidade,[8] e Bright, por transposição, faz de 3.6-18 uma unidade, seguin- do-se a outra constituída de 3.1-5,19-4.4.[9] Aalders considera 3.6-4.2 uma unidade, com 3.14-17 como uma passagem dentro dela.[10] Assim, a promessa para o futuro é dada dentro do contexto imediato do chamamento do Israel infiel ao arrependimento.

3.14. Sübü bãnim Sôbãbtm (lit. volvei, filhos de retornos). O verbo hebraico, no imperativo, deve ser traduzido como "arrependei-vos". A ordem é dirigida aos filhos que se afastaram de Yahwéh; são esses os que no v. 13 são chamados a confessar sua culpa porque se afastaram de Yahwéh rebelando-se contra Ele, mostrando favores a outros deuses (NIV) e desobedecendo-lhe. O chamado ao arrependimento é realmente uma ordem para voltar a Yahwéh e assim negar o seu voltar-se de Yahwéh. Yahwéh revela que é realmente misericordioso (v. 12). Ele perdoará o Israel penitente. Isso é repetido com uma explicação no v. 22. A base fundamental para essa ordem de voltar a Yahwéh é o pacto com Israel, indicado por uma referência à relação de casamento: kl ’ãnõki ba'alti bãkem (porque eu sou um esposo para ti, v. 4b). O termo bã'al significa ser senhor ou estar em autoridade sobre uma pessoa. Yahwéh continua a conside­rar Israel como sua noiva. Para Yahwéh o laço pactual de amor e vida está ainda em existência e será tornado efetivo. Nem todos os membros individuais do povo do pacto compreenderão a misericórdia do Senhor de Israel. Jeremias prossegue proclamando que somente uns poucos retomarão — "um de uma cidade, dois de um clã" (3.14). Esses, não obstante, representarão a comunidade pactual como um todo. Os relativamente poucos a serem tomados serão trazidos (hebe’tt, hiphil de bõ’, trazer) a Sião, a cidade de Davi. A referência a Sião (não Jerusalém) prepara a cena para o que se segue, isto é, a promessa a Davi de sua casa servir como pastores sobre Israel (2 Sm 7.12-16).

3.15. Wenatattay lãkem rõ'im kilbi (e darei a vós pastores segundo meu coração). O verbo hebraico expressa a idéia de dádiva; pode também ser traduzido "colocar" ou "estabelecer". O ponto é que um dom certo e seguro, imerecido e, não obstante, que será recebido em razão do amor infalível de

Yahwéh, de sua graça e misericórdia. A idéia do pastor (cf. abaixo nosso estudo sobre Jr 23.1-8) certamente não era nova para o povo do Velho Testamento. Muitos deles eram pastores também. Mas o ponto é que Davi é referido como o pastor que Yahwéh deu ao povo do pacto (SI 78.70,71; 1 Sm 16.1; 2 Sm 7.7,8,25,26) e Davi era um homem "segundo o coração de Deus" (1 Sm 13.14; cf. At 13.22). Davi foi escolhido rei porque Yahwéh conhecia o seu coração (1 Sm 16.7). Ele sabia que Davi serviria, a despeito de suas muitas falhas e pecados, como verdadeiro representante do amor pactual de Yahwéh, de sua vontade e de seu cuidado com seu povo. Davi foi escolhido e nomeado rei para guiar, proteger e prover para o povo de Yahwéh. Jeremias repete essa afirmação falando dos pastores que hão de pastorear o povo de Yahwéh com muito conhecimento e sabedoria, após seu retomo.



3.16 O resultado da obra de pastorear os restaurados será que aqueles que se arrependeram e retomaram a Yahwéh não estarão mais presos aos aspectos externos do velho pacto, ao qual Jeremias se refere ao falar da arca da aliança. A arca e o templo, os dois símbolos temporários da presença de Yahwéh no meio de seu povo, terão perdido a sua significação; portanto, deles não se achará falta, nem serão substituídos. Jeremias proclama um futuro para Israel, sob a casa de Davi, no qual os símbolos e tipos do Velho Testamento não terão mais relevância.



3.17 Os dois conceitos hebraicos importantes neste verso são kissê’ yhwh (trono de Yahwéh) e kol-hagôyim (todas as gentes e nações). Não a arca, que representava a presença de Yahwéh, mas o trono da Pessoa messiânica será o foco central. Pois o trono, no verdadeiro sentido, substitui a arca. Yahwéh faz conhecidos sua presença, seu governo, sua graça, sua misericórdia, por meio do trono. E como tinha sido repetidamente prometido antes, todas as gentes e nações se reunirão ao redor desse trono do grande Pastor, que tem subpastores como seus representantes, tipos e preparadores da sua vinda e ascensão ao trono eterno. Israel e Judá reunidos participarão da grande reunião de todas as gentes e nações na cidade de Yahwéh (v. 18).

Muito cedo em seu ministério profético, Jeremias proclamou o plano e os propósitos imutáveis de Yahwéh. Ele foi chamado a profetizar o exílio de Judá, a destruição de Jerusalém e do templo, e a preparar o povo apóstata para as tragédias que o aguardavam. Mas a mensagem de esperança não foi esquecida.

Jeremias está muito consciente do que é a herança pactual de Israel. Ele dá a entender a consciência da dimensão universal do pacto de Yahwéh com Abraão (Gn 12.3) que Miquéias (Mq 4.3) e Isaías (Is 2.2,3) tinham repetido. Jeremias faz uma referência indireta ao pacto no Sinai (Ex 19-24) e repetido por Moisés (Dt 5.1-6.19). Ele refere-se ao pacto de Yahwéh com Davi (2 Sm 7.8-16). Empregando essa moldura pactual, estabelecida no passado, Jere­mias profetiza, em termos do mesmo pacto administrado em três momentos distintos da história de Israel, que a palavra de Yahwéh é uma palavra permanente. Sua fidelidade ao pacto continuará a ser revelada. Por meio da provisão de pastores fiéis nomeados, o povo receberá os plenos benefícios das misericórdias de Yahwéh e será guiado em verdade e sabedoria. Mais ainda, o povo será abençoado sob o reinado daquele que ocupará o trono de Yahwéh.

Jeremias não gasta tempo em escrever com pormenores o pleno conteúdo da agenda de Yahwéh. Ele toma os elementos principais que Joel tinha esboçado anos antes e introduz dois conceitos vitalmente importantes, que ele vai elaborar mais plenamente: a casa davídica e a nova administração do pacto (Jr 23.1-3; 31.31-40; 33.14-26).

Jr 3.14-17 tem sido corretamente caracterizado por vários eruditos conservadores como sendo messiânica.[11] Não por todos, entretanto. Calvino concen­trou-se sobre a referência profética de Jeremias à Igreja;[12] Thompson refere-se ao pacto com Davi, mas não àquele maior do que Davi.[13] Permanece o fato de que Jeremias, nesta mesma passagem, fala daquilo que profetas anteriores a ele declararam em termos messiânicos. É verdade que ele não faz menção direta do Messias como uma pessoa régia, o ponto de vista mais estrito, mas certamente aponta para o pacto do Velho Testamento, do qual o Messias por vir será o Mediador e como tal realizará a obra messiânica à qual Jeremias alude.

Finalmente, deve ser notado que na passagem Jeremias inclui em sua perspectiva os anos antes do exílio, durante o exílio e depois do exílio; e até mesmo a era do Novo Testamento. Todos esses períodos recebem muita atenção nas profecias de Jeremias. Do maior interesse e importância para este nosso estudo é a era do reino.

23.1-8. A passagem é considerada messiânica da parte de todos os reconhecidos comentadores e teólogos. Eduard Riehm coloca bem o caso: "Certamente o Messias encontra-nos nas profecias de Jeremias... (xxiii.5-8)".[14] Há, entretan­to, muito desacordo sobre o apropriado contexto da passagem e o tempo em que Jeremias a proclamou — dois fatores inter-relacionados. Primeiro, as diferenças não são devidas às variações textuais. O Texto Massorético é bem atestado e não oferece problemas maiores. O texto da Septuaginta tem algumas leituras alternativas nos w. 1-6, que não alteram o sentido de qualquer parte da passagem.[15] O que deve ser notado é que os versos 7 e 8 estão faltando na Septuaginta; esses dois versos servem como aplicação do que Jeremias tinha profetizado nos primeiros seis versos.

Embora haja acordo geral em que Jeremias 22 e 23 se refere aos reis de Judá, os pormenores exatos são difíceis de esclarecer. Refere-se Jeremias ao rei Joacaz quando fala de Salum (22.10-12) e ao rei Joaquim quando fala de Conias (22.24-30)? Estará Zedequias incluído nos relatos sobre os últimos reis? Seu nome não é mencionado, mas parece haver uma referência a ele em 23.6 (ver abaixo nossa exegese sobre esse verso). Se Zedequias está incluído, a seção incluiria o cap. 21, que trata da pergunta desse rei a respeito dos planos de Nabucodonosor? De fato, o cap. 21 não relata que Jeremias teve ocasião de advertir Zedequias, lembrando-lhe o trágico fim de seus maus predecessores? Um problema adicional é apresentado pelos críticos que dizem que, porque o exílio é mencionado (23.3), pelo menos parte dessa seção (caps. 21-23) foi escrita durante o tempo do exílio.

É difícil encontrar uma solução para as questões do contexto de Jr 23.1-8 e do tempo em que foi proferido. Alguns comentários dão indicações úteis.[16] A posição de Feinberg provê um bom ponto de partida na busca de uma solução: 'Jeremias nos dá um feixe de profecias... ligadas não pela cronologia mas por temas semelhantes."[17] O tema principal é a casa real davídica. Os últimos quatro reis davídicos que reinaram em Judá são citados. Todos eles ficaram abaixo do que Yahwéh requeria da dinastia davídica. A mensagem profética certamente não foi proferida como uma unidade, porque parte dela foi falada diretamente ao rei Joaquim (22.24-27) e parte possivelmente ao rei Jeoaquim (22.18-23). Não há dúvida de que as próprias palavras de Jeremias a Zedequias (21.1-7) fornecem a introdução para o escritor das profecias de Jeremias em relação à casa de Davi. A solução mais satisfatória então é considerar os caps.

21.1-23.8 como uma unidade literária, tratando do tema do presente e do futuro da dinastia davídica. O escritor, ao preparar essa unidade, tomou profecias que tinham sido proferidas ao longo do tempo dos quatro últimos representantes da casa davídica.[18]

Os renomados comentadores não estão todos de acordo quanto ao gênero literário da passagem. Alguns consideram 23.1-6 como poesia e os versículos 7 e 8, prosa. A NIV segue o Texto Massorético, daí considerando os w. 1-4,7,8 como prosa e os w. 5 e 6 como poesia. O real conteúdo tem muita afinidade com o que Isaías dissera. Bright corretamente escolheu seguir Kittel (BHK).[19] Qualquer, porém, que seja a conclusão a respeito do gênero literário, tem pouca importância, se é que tem alguma, para o real conteúdo da mensagem.

Também as tentativas de dar um título a Jr 23.1-8 não resultaram em conclusão unânime. A NIV e Aalders escolheram um "Renovo Justo" (23 5).[20] Keil elabora este título: "A Promessa de um Renovo Justo de Davi".[21] Fein- berg escolheu "Líderes sem Deus contra o Renovo Justo de Davi".[22] Rudolph tem Der Zukunftskõnig ("O Rei Futuro"),[23] e Carroll, "A Respeito dos Reis de Judá".[24] Harrison intitulou seu comentário como "O Pastor e as Ove­lhas",[25] enquanto Bright[26] e Thompson[27] escolheram o título: "Promessas para o Futuro da Dinastia e para o Povo." Skinner pode ter escolhido o título mais apropriado, "O Rei Messiânico", mas sua interpretação da frase é difícil de aceitar.[28] O título "Restauração e Governo Ideal", de Hyatt, é demasiado geral para ser útil.[29] É verdade que todos esses títulos se referem a um elemento nessa discutida passagem profética. A afirmação de Riehm "o Messias encontra-nos em Jeremias 23.1-8", expressa o próprio coração da passagem.[30] Jeremias certamente tentou apresentar o Messias quando lhe foi ordenado proclamar a morte da própria nação de Judá e o eclipse de sua casa reinante, Quando profetizava o fim (8.20), Jeremias claramente queria transmitir também a mensagem de que o pacto de Yahwéh com Davi não teria fim.

A estrutura e unidade de Jr 23.1-8 podem ser convenientemente estudadas, dando-se particular atenção às interjeições, conjunções e pronomes (ver qd. 14).

Inkên do v. 2a introduz o que Yahwéh fala; lãkên do v. 7a introduz o que o povo dirá depois que a palavra de Yahwéh se tiver cumprido. Muni do v. 2c chama a atenção para o castigo que Yahwéh dará aos maus pastores; hinriêh do v. 5a assinala o que Yahwéh fará pela casa real e pelo povo; o hinriêh do v. 7 chama a atenção para qual será a resposta do povo, quando o que foi dito após as duas primeiras ocorrências de hinnth se realizar. Os pronomes esta­belecem o nítido contraste entre ’attem (vós, pastores) e ’ãnõki (eu, Yahwéh).

Nesta mesma passagem peculiarmente estruturada três temas centrais são proclamados: (1) a mensagem de julgamento sobre os reis davídicos, e a razão disso; (2) a garantia da restauração do povo, o rebanho de Yahwéh; e (3) a promessa da continuação da casa davídica. Uma rápida comparação de Jr 23.18 com Jr 3.14-17 dirá ao leitor que Jeremias não está introduzindo temas novos, mas, ao contrário, está desenvolvendo o que ele próprio havia profetizado anteriormente.

23.1a. Hôy (ai). A tradução precisa desse termo é difícil de determinar. Há incerteza sobre sua derivação,e sua relação com ’ôy (ai) e ’allèlay (ai). O último desses termos supõe-se derivado do verbo ’alai (lamentar ou deplorar), e ’ôy, de ã’w â, um termo que tem a idéia de grande desejo, anseio; quando o desejo é por algo não conseguido, o termo ’ôy é usado para expressar desapontamen­to, decepção. O uso, entretanto, parece sugerir que ele também expressa idéia de julgamento. A tradução mais adequada, portanto, é "ai" {hôy, se é correta a sua derivação da raiz hâ ou hayyâ, que tem a idéia de calamidade, seria melhor traduzida "ai de nós!"). O uso que Jeremias faz dos termos sugere que ele não faz grande distinção entre eles. Ele profere ’ôy nove vezes e hôy umas sete. Em Cada exemplo o texto refere-se a julgamento e calamidade, ou seus resultados, seja para o próprio Jeremias Jr 6.4; 10.19; 15.10; e 45.3), seja para o povo de Judá (4.13,31; Lm5.16), as demais nações (Moabe, 48.1,46; e Babilônia, 50.27), ou para Jerusalém (13.27). Os termos são também usados quando Jeremias se dirige a Yahwéh a respeito do julgamento iminente (22.18). Duas vezes, enquanto fala a respeito da casa davídica, Jeremias profere "ai"ou "ah" (22.13; hôy). O próprio contexto desses dois versículos certamente dá apoio à idéia de que Jeremias, com tristeza e dor, está proclamando que certamente virão calamidade e julgamento sobre a casa de Davi. O exílio da nação de Judá por causa de séculos de desobediência e rebeliões entristece Jeremias profundamente, e a iminente remoção da casa real de Davi de Jerusalém causa ao profeta extremo sofrimen­to. Mas a tristeza e a dor não impedem Jeremias de proclamar o julgamento certo de Deus que cairá sobre os descendentes reais de Davi. Depois de dirigir-se por várias vezes aos quatro últimos reis de Judá, Jeremias resume sua mensagem: "Ai deles!"; isto é, Yahwéh está trazendo julgamento, tratará a casa de Davi de acordo com a maneira com que ela se conduziu. A palavra de Yahwéh a Davi — que, se seus filhos procedessem mal, seriam punidos com açoites infligidos por homens (2 Sm 7.14) — será cumprida em toda sua extensão. Os açoites incluirão a remoção do trono, aprisionamento, exílio, tortura e morte.

O termo hebraico rõ'tm (pastores) pode ser considerado um particípio ativo plural, aqueles que pastoreiam. O verbo hebraico rõ'ô tem como sentido básico cuidar de animais domésticos, tais como ovelhas, bois ou jumentos, em pasta­gens. Na própria nação de Judá o real conceito de pastorear era bem conhecido. O termo recebeu atenção em capítulos precedentes deste livro e receberá trata­mento especial quando falarmos de Ezequiel 34 e Zacarias 12. Davi fora referido como pastor do rebanho de Yahwéh (SI 78.70-72). Seu dever como pastor das ovelhas de seu pai Jessé tinha sido guiá-las, alimentá-las e protegê-las. Seu dever como rei do povo de Yahwéh, isto é, do rebanho de Yahwéh (Jr 13.17) tinha sido o de guiá-lo e mantê-lo unido, guiá-lo nos caminhos de Yahwéh, ensiná-lo e protegê-lo. Como pastor, ele foi um exemplo de um viver justo e reto. Ele tinha de corrigir e disciplinar os que se transviavam. Em todas as ocasiões devia exercer as virtudes de brandura, misericórdia, graça e amor; devia demonstrar paciência e compaixão. Esses deveres, se bem que não claramente enunciados, estavam pelo menos implícitos nas acusações que tanto Jeremias quanto Eze­quiel (Jr 23.1-3; Ez34.1-16) dirigiram contra os pastores, e quando Yahwéh disse o que faria por seu rebanho, o eleito povo do pacto.

Há diferenças de opinião a respeito de quem Jeremias teria em mente quando se dirigiu aos pastores. Há acordo geral em que se trata de reis. Jeremias refere-se a quatro no contexto imediato. Como antes mencionamos, o patriarca real, Davi, fora mencionado como um pastor. Mas os zelosos comentadores têm atribuído tal designação também a profetas e sacerdotes.[31] Afinal de contas, eles também eram mestres e líderes. Outros profetas, quando se referiam a papéis de liderança, falaram claramente de sacerdotes (Os 4.4,6; Am 7.12-17; Is 24.2; 28.7). Jeremias refere-se repetidamente aos sacerdotes (p. ex., 6.13; 14.18) e no contexto (23.11) alude aos sacerdotes e profetas ímpios. Parece desnecessário argumentar extensamente sobre esse fato; como foi dito, os reis, membros da casa de Davi, tinham sido e eram freqüentemente tidos como pastores designados por Yahwéh para funcionar em nome do Dono e Senhor de seu povo. E na verdade profetas e sacerdotes também tiniram papel de liderança, mas estavam sob o governo do rei.

Freqüentemente os profetas dirigiram-se aos reis, não como se fossem superiores a eles, mas antes como simples membros do reino que tinham uma clara mensagem específica de Yahwéh para o rei e para seu reino. Os sacerdotes também eram membros desse reino. O rei reinava sobre eles com o dever de demonstrar a supremacia de Yahwéh. Deve ser também lembrado que os três ofícios deviam funcionar juntos, suplementando-se uns aos outros, apoiando- se mutuamente, embora não como um triunvirato. A casa davídica tinha a prerrogativa de governar como vice-regente de Yahwéh. Além disso, devemos notar que Jeremias faz uma referência específica e direta aos reis quando em 23.2 se refere ao que Yahwéh, o Deus de Israel, diz ’al-hãrõ'im hãrõ'im (aos pastores que pastoreiam), e então passa a falar de alguém que reinará correta­mente (v. 5). Finalmente, sustentar que são os reis os primariamente referidos aqui está em harmonia com a evidência que surge repetidas vezes neste nosso estudo — o preciso conceito real é dominante nos contextos onde o próprio conceito messiânico é referido ou elaborado.

As acusações que Jeremias faz contra os quatro reis de Judá são específicas: os reis provaram-se completamente inadequados e, portanto, desqualificados como reis-pastores do povo de Yahwéh.

Ne’um-yhwh (declarou Yahwéh). O próprio Yahwéh relaciona as acusa­ções. Essas são enumeradas direta e indiretamente à medida que Jeremias fala aos pastores e a respeito deles, e acerca da resposta de Yahwéh a eles.

23.1b. Mè ‘abdim (piei de ‘abad, exterminar, destruir). Os reis são engaja­dos numa atividade intensiva (forma do piel): estão causando a destruição do rebanho de Yahwéh. Essa destruição vem fazendo o povo de Yahwéh perecer — espiritual, social, política e fisicamente. Lembremos que Isaías tinha profe­tizado a respeito do povo de Yahwéh em trevas nas quais uma luz raiou (Is 9.2 [TM 9.1]).[32] Mas enquanto Isaías falava apenas de trevas parciais, Jeremias refere-se à escuridão total que abrangerá a nação inteira.

23.1c. Úmèpisim (hiphil depüs, dispersar). As ovelhas de Yahwéh serão destruídas como um rebanho. A referência é particularmente ao povo como comunidade pactual, politicamente unida sob o governo dos reis, e espiritual­mente em adoração e serviço a Yahwéh. Quando a destruição ocorrer, indiví­duos serão poupados, mas serão dispersos. Isso, de acordo com a palavra de Yahwéh, é realmente causado pelos próprios reis que deviam unir e manter o rebanho. Yahwéh repete essa acusação (23.2): hãpisõtem (eles fizeram que fossem dispersos). Yahwéh assim põe a culpa do exílio iminente sobre os ombros dos reis davídicos que, juntamente com seu rebanho, serão extermina­dos ou expulsos da terra.

23.2c. Watadihüm (hiphil de nada, lançar fora ou banir). No v. 2 Jeremias destaca a enormidade do caráter perverso dos reis davídicos e seu reinar levantando contra eles uma acusação muito forte. Os descendentes de Davi realmente baniram as ovelhas do rebanho de Yahwéh. O registro não diz que o banimento ocorreu por ordem direta dos reis de Judá. Os reis, entretanto, deviam saber que seu procedimento como reis realmente provocou o banimen­to de seus súditos de suas casas, de suas terras e da cidade de Jerusalém. Ezequiel expandiu esse fato (Ez 34.1-16).[33] Em outros contextos em que se fala do exílio, Yahwéh afirma que ninguém senão Ele próprio trará o exílio (cf. Jr 23.3b, "onde eu os tenho lançado"). Ele faz isso de acordo com as advertências de Moisés e de outros profetas: é o resultado da infidelidade, desobediência e rebelião (Dt 4.25-28; 28.36,37; 2 Rs 24.13; Jr 15.13).

23.2d. Welõ’ pèqadtem (e não tiveram cuidado [cf. NIV] por eles). A negativa enfática hebraica lõ’, deixa claro que o que Yahwéh exige dos reis está faltando completamente. O verbo hebraico pãqad tem vários matizes de signi­ficado, como "nomear", "apontar", mas é correto dizer que a idéia básica é "atender". O contexto, regra geral, faz claro que tipo de atenção é dado. Os reis não apascentaram o rebanho de Yahwéh preocupados com o seu bem-estar; não demonstraram o amor, a ternura, a compaixão, a disposição de sofrer, se necessário, para proteger o rebanho de Yahwéh. Deve ser notado que o verbo pãqad implicitamente tem a idéia de dever e responsabilidade; os reis têm o dever de apascentar o rebanho de Yahwéh.

No verso 4 o verbo pãqad aparece no niphal e é aí traduzido por "faltar" (NIV)/ isto é, nenhuma ovelha, quando o rebanho é apascentado por bons pastores, terá de ser procurada, pois nenhuma estará faltando.

23.4b. Welõ’ -yirè’ü 'ôd ivèlõ’ -yêhatâ (e não mais temerão ou serão aterrorizados), 'ôd evidencia que sob o cuidado de bons pastores não haverá mais o que tinha sido experimentado sob maus pastores, responsáveis pelo terror causado às ovelhas. Elas, pela falta de cuidado próprio e suficiente, tinham ficado "apalermadas", donde sido levadas ao terror. Mau pastoreio não somente leva a dificuldades e sofrimento físico, mas a estabilidade interna é também abalada, falta a confiança. Psicológica e espiritualmente os membros individuais do rebanho de Yahwéh estão num turbilhão interno.

A apreciação anterior das acusações de Yahwéh contra os reis da casa davídica traz à mente o que Yahwéh esperava dos quatro últimos reis davídicos. Eles tiniram tido antecessores como, por exemplo, Davi e Ezequias, que cumpriram o que Yahwéh requeria, sendo pastores e reis em grande extensão. Mais ainda, a palavra profética havia vindo repetidamente aos membros da dinastia davídica. Os reis davídicos, descedentes de Davi e ancestrais do grande Rei, o Messias prometido, a quem eles deviam prefigurar e tipificar, falharam tragicamente. Tinha chegado o tempo de removê-los.

23.2e. HLnni (dai atenção a mim), nè’um yhwh (declara Yahwéh). Isso é um chamado imperativo para os maus pastores. Yahwéh insiste em que as más novas que Ele tem para os reis sejam ouvidas.

23.2f. Põqêd 'ãlêkem (estou em processo de trazer sobre vós). O qal indica intenção e ação presentes. Nos dias de Jeremias Yahwéh está trazendo o julgamento sobre os últimos quatro reis da dinastia davídica. Seu tratamento a eles será medido pela mesma e exata medida em que eles, os reis, tratam as ovelhas de Yahwéh, que é específico: ’et-rõa! ma'allêkem (o mal de vossos feitos). Assim como as ovelhas foram espalhadas, abandonadas, descuidadas, aterrorizadas, assim a casa real também será. O fim chegou! O hôy (ai) do v. 1 recebe plena explanação. Um julgamento terrível está para vir sobre a casa davídica. Ela está condenada. Os gritos de dor e angústia de Jeremias podem ser plenamente compreendidos.

Será que ele grita de dor e angústia porque não há absolutamente nenhuma esperança para o rebanho de Yahwéh? As promessas de um futuro glorioso sob uma Pessoa real davídica foram anuladas? O futuro imediato parece ter somente nuvens negras de condenação e desespero. As mensagens proféticas de destruição e exílio da boca de Moisés e dos profetas, até Habacuque e Sofonias, tornaram-se fatos históricos. O fim da monarquia sob o governo da dinastia davídica está chegando. O eclipse da casa davídica como dinastia reinante em Jerusalém está inevitavelmente próximo. A luz está desaparecen­do; as trevas estão crescendo incessantemente sobre Jerusalém e Judá.

A profecia de Jeremias é dupla. Aguda como a mensagem de julgamento, assim também é a mensagem de esperança (cf. 3.14-17). Yahwéh não esquecerá seu povo ou suas promessas a Davi.

23.3a. Wa’ âni ’ãqabês(e eu reunirei, piel de qãbas, coletar, reunir). O verbo traz particularmente à mente o quadro do pastor que, tendo permitido que as ovelhas se espalhem à vontade à medida que pastam, reúne-as para proteção e segurança quando surge uma ameaça ou quando a noite vai caindo. Yahwéh, falando por meio de Jeremias, afirma enfaticamente que Ele mesmo vai tomar a responsabilidade de reunir alguns de seu rebanho disperso dos países para onde foram levados. Como Yahwéh usou agentes humanos para o banimento, assim Ele havia indicado por meio de Isaías como haveria de reunir de novo algumas de suas ovelhas (cf. Is 45.1).

Quando se refere ao rebanho a ser reunido, o termo sè'êrit (remanescente) é usado. Esse termo, ou seu cognato séãr, foi usado por Isaías (p. ex., Is 10.19-21; 11.11,16).[34] Jeremias, usando somente a forma feminina (sè'êrit), fala do remanescente vinte e quatro vezes, incluindo umas poucas referências a outras nações que escaparão à aniquilação (cf., p. ex., Ez 25.20; 47.4, concernente à Filístia). O termo remanescente, quando usado em relação a Judá e Israel, refere-se ao núcleo do povo escolhido de Yahwéh, a quem Ele poupará e com quem continuará a tratar a fim de cumprir seus propósitos pactuais. O termo remanescente não quer dizer nação, monarquia, reino ou teocracia. Assim, o profeta, quando fala do remanescente, não fala especificamente da explícita nação de Judá ou Israel. Antes, refere-se a um grupo de "deixados", de sobreviventes que representarão o povo como um todo, o qual terá sido espalhado e, como nação, exterminado.

Falando por Yahwéh, Jeremias profetiza que haverá um retorno do exílio (ou dispersão). Ele se refere especificamente aos países para os quais Yahwéh baniu o seu povo, ou seja, Assíria e Babilônia, ambos os quais seriam mais tarde incluídos no Império Medo-Persa.[35]

WahàSbõti ’ethen ' al-nôwêhen (e-os farei voltar a seu repouso). O verbo hebraico (vav consecutivo, hiphil de Süb) fala do papel soberano de Yahwéh em favor do remanescente de seu povo. Reunindo-o, Yahwéh não o deixará numa terra estranha. Ele os fará retornar. Isaías tinha especificado como Yahwéh havia de fazer isso: ele suscitaria Ciro como seu pastor (Is 44.28) e como seu agente ungido, seu mãSlah (messias) (45.1; cf. v.13). É também de interesse notar que Jeremias não escreve 'al hä’äres (à terra). Ao contrário, ele se refere a um lugar de beleza que é sua nãwâ (pastagem) (cf. NIV). Esse substantivo hebraico pode ser usado para referir-se a um lugar de segurança, repouso e contentamento; daí, uma boa pastagem para as ovelhas é designada por esse termo. O lugar real que muito naturalmente vem à lembrança como lugar de repouso é aquele de que Salomão falou — a cidade e o templo (1 Rs 8.48). Na afirmação que conclui esta precisa passagem, Jeremias refere-se diretamente à terra (Jr 23.8), mas então usa o termo geral hã’ãrãm (sua terra), e não o termo ’eres, que, em regra, designa especificamente a área que as doze tribos conquis­taram e habitaram sob a direção de Josué (cf. Jr 16.15).

23.3b. Jeremias acrescenta uma frase hebraica de teor que relembra uma das promessas e bênçãos pactuais, isto é, ümãrü voerãbü (e eles serão frutíferos e se multiplicarão; cf., p. ex., Gn 1.22,28; 8.17; 9.1,7). Tinha sido dito por Moisés que Israel fora assim abençoado no Egito (Êx 1.7). Jeremias repetira antes essa antiga promessa (Jr 3.16). Esta frase certamente lembra ao povo que Yahwéh não esquecerá seu pacto com eles. Ocorrerão mudanças políticas e nacionais. A continuação do pacto de Yahwéh, entretanto, está assegurada.

Jeremias, no fecho da passagem, se estende sobre o seguro fato de que o remanescente voltará (23.7,8)[36] Ele tinha usado essa terminologia antes, quan­do profetizou o desastre que seria a queda de Judá e Jerusalém (16.14,15).[37] O ponto a ser observado é que, por grande que tenha sido o milagre do êxodo, um milagre tão grande, senão maior, vai ocorrer: o retomo do exílio. Israel, consti­tuído de setenta pessoas (cf. Gn 47.26,27), tinha buscado refúgio no Egito, onde José tinha um papel dominante como vice-regente de Faraó (Gn 41.41-57). A libertação do Egito, depois que as circunstâncias que se seguiram à morte de José tinham alterado a posição de Israel, foi um ato que Yahwéh levou a efeito com seu soberano poder. Israel e Judá, entretanto, haviam sido exilados por imperadores despóticos que demonstraram crueldade e força bruta. Os cativos hebreus tinham sido tomados e tratados como escravos. Que eles seriam liber­tados de tal cativeiro havia de ser ainda mais miraculoso. Mas o povo de Deus recebe a garantia de que o remanescente que voltará há de referir-se a esse milagre maior. Isso se tomará, por assim dizer, uma confissão do povo hebreu.

A frase final inclui wéyãsbâ (qal deyãSab, permanecer ou habitar) (23.8b). Esse verbo afirma a alternativa exata do que acontecerá. Os hebreus serão desarraigados, levados embora e escravizados em outras terras. Mas Yahwéh, relembrando suas promessas pactuais, há de libertá-los, reuni-los e fazê-los retornar. Podem esperar voltar a viver em sua própria terra. Assim, o retorno do exílio é um fato seguro a ser realizado no futuro. Assim como são certos as trevas e os desastres por causa dos pecados dos reis davídicos, assim também é certo o retomo final do exílio.

Esse futuro certo do remanescente está inseparavelmente relacionado com a restauração da dinastia davídica (23.5,6). Hinnêh yãmim bõ’tm (eis aí vêm dias). A interjeição introduz o ponto principal na profecia de Jeremias. Yahwéh declara "em dias por vir". Olhai para o futuro! O futuro imediato será um tempo de banimento, de fim. Além desse, porém, um acontecimento grande e glorioso se dará.

A mensagem que Jeremias profere não é nova (23.5). Isaías tinha profetiza­do a respeito do futuro da casa davídica (Is 9.6,7 [TM 9.5,6); 11.1-11; 52.13-15). Os principais elementos da mensagem de Jeremias serão apontados, mas uma discussão pormenorizada não é necessária aqui.[38]

Yahwéh é o Soberano que iniciará e terminará o que Ele prometera em seu pacto com Davi (2 Sm 7.4-16). A dinastia davídica há de continuar. Uma grande família real não estará sempre em cena. De fato, Jeremias repete o termo hebraico semah (rebento ou raiz; cf. Is 4.2; 11.1; 53.2). Mesmo que o termo seja traduzido como "ramo", a referência é a uma parte da árvore familiar. Essa idéia de raiz, rebento ou ramo é correlata à do termo remanescente. Nem a casa real, a família do pastor, nem o reino, o rebanho, estarão plenamente repre­sentados. Somente uma pequena parte, de fato, estará, mas será o núcleo, o coração, o próprio fator central, em ambos os exemplos.

Jeremias vai adiante e fala do melek (rei) que reinará. Isso certamente inclui, além da pessoa real, as idéias de trono e domínio.

O caráter do rei a ser suscitado será muito diferente do dos últimos quatro representantes da casa davídica. O futuro rei será reto e reinará prudentemente (cf. Is. 52.12-15).[39]

O caráter do reinado desse rei será como Isaías tinha profetizado. Retidão e justiça serão demonstradas. O remanescente pode esperar uma experiência, sob o futuro rei davídico, completamente diversa da que teve sob os últimos quatro reis (ler Jr 21 e 22 novamente, para obter uma descrição desses reina­dos).117 Esse futuro rei, representando a casa davídica, fará Israel e Judá viver próspera, segura e frutiferamente na terra.

23.6 Esta afirmação tem ocasionado várias sugestões quanto a quem eram os reis e quando o remanescente poderia esperar viver na terra. O nome pelo qual o rei vindouro será chamado também acrescenta razões para uma varie­dade de pontos de vista. O nom eyhwh sidèqênâ (Yahwéh, nossa justiça, ou nossa retidão) é peculiar a Jeremias. Vários eruditos têm atribuído esse nome ao último rei da linha davídica, cujo nome era sidèqíyãhü (Zedequias), "minha retidão é Yahwéh". Pensam que Jeremias estava-se referindo indiretamente ao rei que foi chamado para demonstrar a retidão de Yahwéh, porém, que se recusou a fazê-lo. Yahwéh, portanto, levantaria um rei davídico que, com toda a certeza, traria um reinado reto ao remanescente. Eles então certamente seriam capazes de dizer: "Yahwéh é nossa retidão." Embora seja verdade que Zedequias reinou no tempo de Jeremias, não é muito plausível que este esteja fazendo um jogo de palavras. Feinberg refere-se corretamente às diferenças na pontuação da palavra hebraica e ao fato de que os eruditos judeus e cristãos antigos não aceitam esse ponto de vista.119 Além disso, é difícil crer que Jeremias fizesse jogo de palavras quando estava penosamente profetizando a morte de Judá e o eclipse da casa de Davi.

Na busca da resposta às perguntas, alguns fatos devem servir de moldura dentro da qual a resposta deve ser formulada. Primeiro, Jeremias faz repetidas referências ao exílio que está para vir e do qual somente um remanescente voltará. Assim, um remanescente viverá segura e frutiferamente depois do retomo. Esse retomo ocorrerá setenta anos depois do exílio, sob o edito de Ciro (2 Cr 36.22,23; cf. Ed 6.3), como Jeremias havia profetizado (25.12-14). O remanescente recebe a promessa de uma habitação segura na terra onde ele será capaz de ser frutífero e multiplicar-se. Os relatos de Esdras e Neemias contam que houve um começo de cumprimento, embora profetas pós-exílicos como Malaquias certamente indicam que havia muita coisa errada no meio da comunidade do remanescente (Ml 1.6-2.17).

O rei a ser suscitado será da casa de Davi. Keil examina vários cumprimen­tos possíveis na comunidade pós-exílica. Embora ele falhe em encontrar uma pessoa que preencha os requisitos da profecia,[40] aponta corretamente que eruditos tanto cristãos quanto judeus originalmente consideravam que a refe­rência seria ao Messias que, ao vir, proveria a retidão de que a humanidade tanto necessita. Quando nos lembramos de que Isaías profetizou a respeito do Messias vindouro da mesma forma em que Jeremias o faz na passagem, então consideraremos que Jeremias e Isaías estão falando da mesma pessoa — o Messias que viria através da casa davídica. Assim como Isaías atribuiu deidade Àquele que havia de vir ("seu nome será... Deus forte", 9.2), assim também Jeremias não hesita em falar dele como Yahwéh. Aquele que virá, da casa de Davi, plenamente humano, será também plenamente divino. E ele é referido também como mãsiah (Messias) (2 Sm 23.1; SI 2.2; Dn 9.25,26).[41]

Aquele a quem Jeremias se refere como yhwh sidèqênü (Yahwéh, nossa Retidão) é o Messias. Os hábeis comentadores e críticos certamente estão corretos ao encarar a passagem (Jr 23.1-8) como sendo messiânica. O real conceito messiânico é claramente revelado num contexto histórico em que pareceria ser iminente o fim da casa davídica, em que, portanto, pareceria que as promessas feitas a Davi ou por meio de Davi não se realizariam. Embora um severo julgamento espere o povo de Judá, como o que as dez tribos do norte já haviam experimentado, as promessas pactuais de Yahwéh não falharão. Cer­tamente virá a pessoa régia (ponto de vista mais estrito), e a obra redentora dessa gloriosa Pessoa (o ponto de vista mais amplo) certamente será realizada. O Novo Testamento também faz muito claro que a profecia de Jeremias se refere ao Messias divino-humano, o Cristo, a fonte, o mediador e a garantia da retidão atribuída àqueles que, pela fé, aceitam o Messias e sua obra tal como apresentada nas Escrituras.[42]

A perspectiva escatológica reconhecida que Jeremias apresenta é de longo alcance. O retorno está pelo menos a setenta anos e a vinda do Messias, o renovo davídico, está num futuro muito mais distante. Entretanto, sua futura vinda está relacionada com o retomo do exílio. Tem este de ocorrer a fim de que a "vinda" possa acontecer (Mq 5.2 [TM 5.1]). Devemos concluir então que o Filho pré-encamado, que havia de aparecer na came como descendente de Davi, é também Yahwéh, que suscita a Ciro (Is 45.1,13), recupera um remanes­cente do exílio e capacita-o a voltar para casa.[43]

Finalmente, quando se pergunta a respeito da resposta dada à revelação de Yahwéh sobre a vinda do Messias e os acontecimentos anteriores e posteriores, dificilmente se pode esperar uma específica resposta derivada do contexto imediato. Como vimos acima, não se pode determinar com precisão o tempo em que a passagem foi proferida; ela é uma profecia de um feixe de proclama­ções de Jeremias dirigidas aos últimos quatro reis davídicos. Entretanto, de uma leitura do livro, verificamos que as profecias de Jeremias não foram bem recebidas, especialmente aquelas que se referem ao exílio do povo e ao fim da casa davídica. Jeremias, entretanto, acredita em suas próprias palavras; conti­nua a falar contra os pecados da casa real e da própria nação. Proclama também o futuro glorioso depois dos setenta anos de banimento e desespero.






[1] Hengstenberg, Christology of the Old Testament, 2.373,398, 424,459. J. Barton Payne não aceita duas das passagens de Hengstenberg (314-17; 3146); ele coloca-as num ambiente milenial terreno, mas vê uma referência ao Messias em 3.21 (cf. Encyclopedia of Biblical Prophecy [NewYork: Harper, 1973], pp, 327,344). 


[2] O profeta Joel tinha esboçado a agenda de antemão (cf. cap. 14 acima, subtítulo "A Mensagem Messiânica de Joel"), 


[3] Note-se que um erudito altamente crítico e severo como Carroll crê que a passagem foi proferida muito cedo na carreira de Jeremias (From Chaos to Covenant, p. 74). 


[4] Podem ser consultados comentários para um estudo pormenorizado dos problemas suscitados por essas perguntas. 


[5] As frases "diz Yahwéh" ou "declara Yahwéh" aparecem não menos do que dezenove vezes em 3.6-6.1. 


[6] Cf. J. Ridderbos, Het Gods Woord der Profeten, 4 vols. (Kampen: Kok, 1930), 3.268,269, sobre sua sucinta revisão dos temas relativos à divisão do material do cap. 3. 


[7] Thompson, Book of Jeremiah, pp. 197,198. 


[8] Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, 6.401. 


[9] Bright, Jeremiah, em AB (1965), 21.401. 


[10] Aalders, De Profeet Jeremia, 1.54-62. 


[11] Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary,, 6.401. Sua ênfase exagerada sobre uma posição escatológica específica, de fato, não esclarece plenamente o caráter messiânico, Ver também Hengsten- berg, Christology of the Old Testament, 2375-377. Ver também Aalders, De Profeet Jeremia, 1,60: "Agora o próprio Messias não é mencionado; não obstante, podemos designar a passagem como sendo messiânica no sentido mais amplo". 


[12] Calvino, Commentaries on the Prophet Jeremiah, 1.182,183, 


[13] Thompson, Book of Jeremiah, pp. 201-204, 


[14] Eduard Riehm, Messianic Prophecy, trad. Lewis A. Muirhead (Edimburgo: T. & T. Clark, 1900), p. 128. Hyatt, Jeremiah, em IB (1856) 5,989, afirma que o messianismo não desempenha um papel decisivo no pensamento de Jeremias e então, incorretamente, acrescenta que está presente só em 23.1-8 e possivelmente em 30.8,9 e 33.17. Sigmund Mowinckel, em He That Cometh, pp. 3-5,15,16, rejeita muitas das passagens messiânicas tradicionais como propriamente messiânicas. Ele inclui 235ss porque se refere a uma figura política escatológica e, assim, contém um dos pré-requisitos do autor para uma passagem ser considerada autenticamente messiânica. Mowinckel afasta-se da maioria dos eruditos quando considera Jr 17,25 como sendo messiânico. Este versículo, no contexto do discurso de Jeremias sobre o Sábado, fala de reis "que se assentarão no trono de Davi” e continuariam a reinar, se o povo guardasse obedientemente o Sábado, Não é necessário dizer que Jeremias não estava orientado para a profecia messiânica nesse mesmo e especial contexto. 


[15] A LXX omite a frase hebraica nè*um yhwh (v. 1) e também *èlõhê Yiárã*2l (v. 2); e traduz o heb. jo’nt (minhas ovelhas) pelo gr. laón (povo), quando a referência é ao remanescente (v .3). No v. 4 a LXX omite a frase enenhuma delas estará faltando, mas a põe na conclusão de 5.40. Ver também BHKaobxe outras variações. 


[16] Cf. esp. Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, 6505-521; Thompson, Book of Jeremiah, pp. 446-562. Ridderbos, Het Gods Woord der Profeten, 3.223-247, tem algumas percepções úteis, mas espalhadas ao longo de suas análises. Aalders oferece também alguns comentários úteis (De Profeet Jeremia, 2.223-247). 


[17] Feinberg, "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, 6.510. 


[18] A respeito de uma conclusão que considera Jeremias como religando Jeoaquim e Joaquim no contexto imediato de Jr 231-8, ver Keil, em KD, Jeremiah, 1.332,333; Harrison, Introduction to the Old Testament, pp. 815,816. 


[19] Bright, Jeraráah,em -45(1965), 21.139,140. 


[20] Aalders, DePrç&etJeraria, 1230. 


[21] Em KD, "Jeremiah*, 1332. 


[22] Feinberg, "Jeremiah", em lbeExpcsitcr's BibleCcmnentary, 6517. 


[23] W. Rudolph, JârerriahÇTübingen, 1968), p. 146. 


[24] Carroll, Frctn Cbaca to Covenant, p. 147. 


[25] Harrison, JeroráahandLam3itaticns,p. 119. 


[26] Bright, Jersrttah, em -45(1965), 21:139. 


[27] Thompson, Bcckcfjersniah, p. 485. 


[28] Skinner, PrqjhecyandReUgicc^-pp. 310-319. 


[29] Hyatt, Jer&riah,em ÍB(1956),5.987. 


[30] Riehm, MessianícPrcpòecy, p. 128, 


[31] Cf. Feinberg/ "Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, 6517; Keil, em KD, Jeremiah, 1348; Thompson, Book of Jeremiah, p. 487, entretanto, limita o termo aos governantes, não só aqueles de tempos recentes mas também "uma longa lista de governantes ineptos, descuidados e negligentes, desde muitos anos passados". Bright, Jeremiah, em AB (1965), 21.143, inclui também os nobres que dominavam os reis. 


[32] Cf. no cap.18 adma, subtítulo "O Governo do Rei Prometido", a exegese de Is 91-6. 


[33] Ver Keil, em KD, Jerenráah, 1348. 


[34] Cf. nosso estudo sobre Is 73 no cap. 17, subtítulo "O Filho da Virgem"; e de 11.11 no cap. 18, subtítulo "O Reinado do Filho de Jessé". Ver também o estudo de Gerhard F. Hasel, The Remnant (Berrien Springs, Mich.: Andrews University Press, 1972), especialmente suas conclusões, pp. 396-403. 


[35] Cf. Aalders, De Profeet Jeremia, 1.244; KD, Jeremiah, 1349; Thompson, Book of Jeremiah, pp. 387,388. É difícil aceitar a declaração de Feinberg de que, quando Jeremias diz em nome de Yahwéh "dos países para onde eu os tenho lançado", refere-se a uma dispersão mundial ("Jeremiah", em The Expositor's Bible Commentary, 6517,518). 


[36] Thompson, Book of Jeremiah, pp. 491,492. 


[37] A LXX e outros tradutores transpõem a passagem, colocando-a no fim do cap. 23. Evidentemente, querem incluir a graça de Yahwéh, mostrada no retomo do exílio, como desfazendo os pecados dos falsos profetas, contra os quais Jeremias profetizou (23,9-40), bem como os pecados dos reis. Também os sentimentos de esperança expressos nos vv. 7 e 8 contêm um forte clímax, que pareceria ser a conclusão adequada para um capítulo que acentua o desastre, a condenação e a morte. 


[38] Ver cap. 18, subtítulo "O Governo do Rei Prometido". 


[39] Thompson, BookofJerenuah,pAS7, refere-se a uma tentativa de traduzir $adlk como "legítimo". Asugestâo surge de uma leitura de uma referência ugarítica a um rei que era "um descendente legítimo". Assim Jeremias estar-se-ia referindo a Joaquim, e não a Zedequias, como o rei legítimo. Esse ponto de vista é difícil de aceitar, 


[40] Keil, em KD, Jeremiah,, 1.352,353. Ver também a argumentação de Hengstenberg, Christology of the Old Testament, 2.416,423. Thompson, Book of Jeremiah, pp. 490,491, não tenta identificar uma pessoa específica. 


[41] Ver os caps. 14-16 acima a respeito das conclusões a que chegamos no estudo dos profetas que precederam Jeremias. 


[42] Rm3.22;4.11;5.17-19; 1 Co 130;5.2; Ef 4.24. 


[43] Alguns escritores, como Hyatt, Jeremiah, em IB(1956), 5.1024; Mowinckel, He That Cometh, p. 16; Riehm, Messianic Prophecy, p. 128; e Thompson, Book of Jeremiah, p. 562, referem-se a três versos como sendo messiânicos, enquanto Hengstenberg, Christology of the Old 7e,steme/it2.423,424, move-se de 23.1-8 diretamen­te a 3331-40.