10 de agosto de 2016

GERARD van GRONINGEN - A mensagem messiânica de Sofonias e Habacuque

danilo moraes antigo testamento
A Mensagem Messiânica dos Profetas para Judá no Século VII 

Isaías morreu provavelmente pouco depois de Manasses tomar-se rei em Jerusalém (697 a.C.). Manasses reinou cinqüenta e cinco anos (2 Rs 21.1, par. 2 Cr 33.1) e foi sucedido por seu filho Amom, que reinou dois anos (2 Rs 21.19, par. 2 Cr 33.21). Josias então tomou-se rei (2 Rs 22.1, par. 2 Cr 34.1) em 638 a.C.; durante seu reinado três profetas apareceram — Sofonias (Sf 1.1), Habacuque, e Jeremias (Jr 1.2). A mensagem que esses três homens proclamaram não contém nenhum tema especificamente novo; mas por causa das condições religiosas, sociais e políticas a que se tiveram de dirigir, o tema do julgamento iminente foi especialmente destacado. Eles falaram do exílio que viria certa­mente muito breve. Jeremias testemunhou as três deportações; não sabemos se Habacuque e Sofonias as testemunharam (como ambos profetizaram cerca de duas décadas antes de começarem as deportações, é possível que não as tenham testemunhado). Os três profetas também profetizaram a respeito das infalíveis misericórdias de Yahwéh, da certeza da continuidade do pacto de Yahwéh com seu povo, e da obra de redenção em favor de pelo menos um remanescente. Esses profetas não falaram muitas palavras, comparados com profetas anteriores como Isaías, a respeito do Messias prometido. Entretanto, não deixaram o assunto passar em silêncio.


A Profecia de Sofonias

O Profeta e Seus Tempos

Os ancestrais de Sofonias remontam, em quatro gerações, a Ezequias (Sf .1.1). Não está claramente indicado se a referência é ao rei Ezequias; a maioria dos estudiosos do Velho Testamento pensa que o rei Ezequias foi ancestral de Sofonias.[1] As descrições expressivas que Sofonias faz dos pecados de Jerusalém indicam que ele estava intimamente familiarizado com a cidade. Seu tom e estilo refletem seu caráter: era um homem de compreensão e sensibilidade moral, e também franco e sincero em suas proclamações proféticas.

No debate sobre a data precisa da obra profética de Sofonias parece ter maior peso a opinião daqueles que creem que ele apareceu em cena antes que começasse a reforma de Josias. As descrições que Sofonias faz de seu ambiente é um dos principais argumentos para datar essa profecia de antes das reformas de Josias.[2] Assumindo-se que isso é verdade, Sofonias profetizou em 627 a.C, doze anos depois de Josias ter-se tomado rei e vinte e um anos antes da primeira deportação dos príncipes de Judá para Babilônia. O rei assírio Assur-banipal havia morrido (633 a.C.) e um dos últimos reis de Nínive, Sinshariskun, tinha começado a reinar (cerca de 615 a.C.). Nabopolassar estavaprestes a subir ao trono de Babilônia (626 a.C.). Psamético I era ainda o governante do Egito.[3] Em Judá, os efeitos trágicos do reinado idólatra de Manassés, que seu filho Amom continuou, eram muito evidentes. Degradação religiosa e apatia social, descritas em termos vívidos por Sofonias, não davam esperanças de uma reforma ampla e profunda em Jerusalém e Judá.

Introdução

A profecia de Sofonias não tem interessado muitos estudiosos e comenta­dores. Nos comentários sobre o Velho Testamento ou sobre os Profetas Meno­res se oferecem algumas conclusões gerais. Críticos têm recebido com agrado a obra de John M. Smith sobre Sofonias,[4] porque ele reflete a perspectiva crítica de eruditos do passado, como Nowack e Marti. Décadas mais tarde, foram escritas duas teses de doutorado que procuram refletir o que a erudição crítica tem oferecido ao estudo do texto e da teologia da profecia de Sofonias.[5] Donald L. Williams afirma em seu prefácio que sua tarefa inicial seria estabelecer um texto correto.[6] Certamente é verdade que o texto do profeta oferece alguns desafios ao estudioso, mas esses não são tão difíceis e sérios quanto Williams os faz, seguindo seus mentores críticos. Sua "tradução da profecia autêntica de Sofonias" indica sua ousada autoconfiança em fazer-se juiz e corretor confiável do texto bíblico. Ivan Jay Bali estudou o texto de Sofonias empregando o método retórico-crítico adotado de James Muilenberg. Bali explica pormeno­rizadamente o que ele compreende ser esse método, e como deve ser aplicado.[7] Sua obra é basicamente uma demonstração do método retórico-crítico, para o qual a profecia de Sofonias serve como um texto útil. Assim, a obra de Bali é basicamente um estudo literário, e não exegético ou teológico. Alguns aspectos recomendáveis no estudo de Bali, em contraste com o de Williams, são que seu estudo leva-o a assegurar apoio ao texto massorético em lugares onde este tem sido repetidamente contraditado;[8] que ele demonstra que "há uma boa possi­bilidade de que a obra inteira seja da mesma autoria ou mão";[9] e que ele provê algumas úteis compreensões teológicas na mensagem de Sofonias (que, no entanto, estão freqüentemente enterradas sob uma quantidade excessiva de verbosidade retórico-crítica).

Finalmente, uma exaustiva análise crítica da profecia de Sofonias foi escrita por Hubert Irsigler, um erudito católico romano.[10] O título de sua obra tradu­zido God's Judgment and Yahwéh's Day {O Julgamento de Deus e o Dia de Yahwéh) pode levar à errônea compreensão do real intento do escritor, isto é, apresentar uma obra sobre o texto e o discurso do Velho Testamento. Sua obra, entretanto, é de mais valor para um especialista em literatura do que para um exegeta, um teólogo bíblico, ou um pregador.

A leitura da profecia de Sofonias levar-nos-á a concordar como julgamento dos eruditos em que o tema da profecia é o Dia do Senhor que está para vir. George Robinson aponta corretamente que Sofonias desenvolveu esse tema em três fases.[11]

Na fase 1 o profeta denuncia os idólatras e apóstatas em Jerusalém e Judá e prediz a segura, porém terrível, revelação da ira de Yahwéh contra eles. Sofonias, incidentalmente, deixa claro que esse julgamento abrangerá a terra inteira. Esboça-se uma dimensão universal dentro da qual o julgamento espe­cífico de Judá é colocado.

A fase 2 desenvolve a predição da visitação da ira divina; várias nações são advertidas e exortadas. Mas Sofonias dirige um sério apelo a Jerusalém e Judá para que se arrependam, a fim de escaparem ao castigo destinado a cair sobre os pecadores obstinados (3.1-7).[12]

Sofonias conclui sua profecia (fase 3) proclamando salvação ao povo que se arrepender, particularmente ao remanescente de Israel. Inclui uma nota de reconhecimento universal dessa redenção (3.8-20).

Essas três fases não têm sido corretamente consideradas por vários eruditos criticamente inclinados. A unidade da profecia tem sido negada,[13] mas em tempos mais recentes advoga-se a idéia de um processo editorial que teria tomado lugar sobre um período de cerca de dois séculos. Assim, o que tem sido considerado elementos pós-exílicos são explicados como evidências editoriais pós-exílicas.[14] A questão levantada contra a tese de que a profecia inteira é um único livro escrito todo ele por Sofonias não tem sido ainda reconhecida. Ele é uma profecia integrada; o tema do Dia de Yahwéh, que será um tempo de ira, de correção, de esperança e de alegria universal, é central e desenvolvido ao longo dos três capítulos da profecia. Na verdade, Sofonias continua a tradição de Isaías, Miquéias e Amos. De fato, ele reitera e dá ênfase aos principais elementos da agenda da profecia de Joel.[15] [16]

O Conceito Messiânico

O termo hebraico mãSiah (messias) não aparece em Sofonias, nem há qualquer referência explícita a um libertador régio ou a uma pessoa messiânica. Isso não impediu vários estudiosos e comentadores de Sf 3.8-20 de referir-se a uma pessoa messiânica, uma obra messiânica,[17] ou um reino messiânico em tempos messiânicos.[18] Um estudo exegético de Sf 3.8-20 capacitará o estudante da Escritura a fazer seu próprio julgamento.

3.8-13. O profeta é um porta-voz de Yahwéh. Nos versículos precedentes ele se dirige a Jerusalém, que é descrita como uma cidade de opressores e rebeldes, e poluída. Seus habitantes não confiam em Yahwéh, nem o adoram. Os reis, profetas e sacerdotes são maus e destrutivos. Yahwéh permanece reto, mas é esquecido. Quando chama o povo de Jerusalém à vida correta, ele continua "a agir corruptamente em tudo o que eles fazem'" (NIV 3.7c). Isso é seguido de lãkên —portanto (v. 8a).

Esta estreita conexão levou Keil a considerar 3.7,8 como uma unidade.[19] Theodore Laetsch, entretanto, trata do v. 8 como uma unidade separada.[20] Outros consideram o v. 8 como a introdução de uma proclamação de futuras bênçãos do pacto. A última opinião deve ser preferida. A conjunção hebraica lãkên, entretanto, ajuda-nos a compreender a quem o profeta se dirige, isto é, à cidade de Jerusalém ou, mais especificamente, a seus líderes e habitantes que acabam de ser descritos. Tanto os ímpios quanto os fiéis são chamados a ouvir; os líderes e o povo devem esperar o cumprimento do que Yahwéh decidiu fazer.[21]

A frase lèyôm qümi lé'ad (pois o dia eu suscito para avançar) refere-se ao tempo que deve ser esperado. O termo lè'ad tem sido alterado para leêd (para testemunho) (cf. LXX, siríaca, e também RSV, NIV).[22] A raiz de ’ad é 'ãdâ (passar adiante, avançar). Derivados dessa raiz podem ser usados em relação ao avanço do tempo,[23] ou em relação a objetos em direção aos quais se avança; neste especial contexto a idéia é de avanço à pilhagem (cf. NIV mg.) ou para fazer presa.[24] O próprio contexto apóia esta tradução; Yahwéh, em sua ira, vai avançar contra aqueles que incorreram em sua indignação e com eles haver-se. Sofonias continua a referir-se àqueles que receberão as terríveis conseqüências e àqueles que serão poupados no meio do julgamento.

O profeta identifica cinco diferentes categorias: (1) Gõyim... mamlakôt (nações... reinos). Essa referência é introduzida por uma única frase—Yahwéh declara pela boca de Sofonias ki miSpãti (que é meu julgamento). O termo tem sido traduzido "minha decisão" (RSV) ou "eu decidi" (NIV, tradução dinâmi­ca).[25] Laetsch vai ao ponto certo quando define: "determinação, literalmente, seu direito inalienável."[26] Yahwéh dá expressão a sua soberania sobre todos os povos, particularmente sobre entidades políticas individuais com seus direitos e privilégios nacionais. Essas nações e reinos Yahwéh, de acordo com seu direito e plano, há de reunir em um povo (Is 2.2-4; Mq 4.1-5), sobre o qual ele derramará za'am (indignação) e hãrôn ’ap (ardor de ira). A segunda frase hebraica aparece com freqüência no Velho Testamento (p. ex., Nm32.1;Js.7.26; 2 Rs 23.26; Os 11.9; Na 1.6). Jeremias usa-a oito vezes para falar da ira de Yahwéh como um fogo ardente com grandes efeitos consumidores. Sofonias assim fala do julgamento de Yahwéh — seu dia da ira para todos os povos — que certamente virá. Esperai por ele!

M kol-hã’ãres (pois toda a terra). Os povos do mundo hão de compreender que a terra inteira, inclusive eles, deve esperar o derramamento do zelo ardente de Yahwéh e seu julgamento final. Isso não quer dizer, entretanto, que o profeta está falando a respeito do evento final. Ao contrário, a intensidade e o objetivo do derramamento da ira de Yahwéh em "seu dia" devem ser entendidos em termos do julgamento final.

' Ãtãray bai-püsay (meus adoradores, filha de meus dispersos). O termo hebraico para adorador é derivado de uma raiz que significa orar, referindo-se a alguém que faz orações sinceras; daí a tradução "adoradores" ser correta. O termo "dispersos" é a tradução do qal depüs (ser espalhado, dispersado).

Para explicar quem é referido aí oferecem-se três opções. Primeiro, no v. 9 a referência é às gentes e nações que terão seus lábios mudados, isto é, purificados para adorar adequadamente a YahWéh. A frase hebraica liqrõ’ kullãm bèSêm yahwéh (invocar o nome de Yahwéh) é usada para adoração. Sofonias assim introduz, diz-se, a idéia de que adoradores de todos os povos e nações, que, ombro a ombro, como um só povo, se tornaram o povo que adora a Yahwéh. Esses virão das regiões mais distantes — de além dos rios da Etiópia (v. 10a), longe ao sudoeste de Judá. Eles oferecerão dádivas; isso é expresso nos termos da legislação mosaica, legislação que os hierosolimitas entenderiam. Como não há registro de um cativeiro de Judá nessas partes e como as dez tribos do norte foram exiladas para o norte e nordeste, para a Assíria, Sofonias está falando de convertidos dentre todos os povos e nações sobre os quais a ira de Yahwéh foi derramada. Essa opção liga topicamente os w. 9 e 10.

Segundo, o v. 9 refere-se a convertidos de todas as gentes e nações. Há, entretanto, uma sensível mudança de assunto no v. 10 que serve para introdu­zir as palavras de Sofonias a respeito de Jerusalém nos w. 10 al3. Como Ezequiel também falou do rebanho disperso (34.5,6), considera-se que ele usou a mesma frase de Sofonias para designar os exilados que retomaram para seguir os preceitos de Moisés trazendo suas oferendas a Yahwéh.[27]

Terceiro, o povo purificado deve ser considerado como aqueles de entre as gentes e nações que se prepararam para adorar a Yahwéh. Quando eles vierem, trarão suas oferendas que consistirão dos exilados de Israel e Judá regenerados e convertidos. Assim, Sofonias proclama uma grande reversão; ao invés de o povo do pacto levar luz aos gentios e reuni-los na congregação de Yahwéh, os gentios, tendo sido trazidos a Yahwéh, tomarão consigo os israelitas. Nesse caso, Sofonias teria predito o grande esforço missionário da era do Novo Testamento.[28]

A evidência apresentada no texto hebraico dá sólido apoio à primeira opção. Gramaticalmente, os vv. 9 e 10 são ligados; o v. 9 começa com ki-’ãz (então), e o que é introduzido continua até o fim do v. 10 sem qualquer solução de continuidade. Além disso, a frase bayyôm hahü’ (naquele dia) começa uma nova estrofe em que de novo o profeta se dirige diretamente a Jerusalém. Mais ainda, o v. 10 não se dirige diretamente nem a Jerusalém nem a Judá. Sofonias profetiza ao povo de Jerusalém, mas não especificamente a respeito dele, como o faz nos vv. 11 a 13. Finalmente, deve-se ressaltar a estrutura da profecia de Sofonias. Em 1.2-2.22 o profeta, tendo descrito os pecados de Jerusalém e Judá, bem como a ira de Yahwéh que está para vir sobre eles por suas transgressões, proclama esperança (2.3). Buscai! Obedecei! Vós podeis ser protegidos. Ele então proclama, em termos inconfundíveis, o julgamento que está para cair sobre os povos e nações — Filístia, Moabe, Amom, Cush ou Etiópia e Assíria (2.4-15). Jerusalém e Judá serão tratadas da mesma forma. (Amós seguira um padrão similar de começar com as demais nações vizinhas e depois focalizar o povo ao qual ele estava profetizando [Am 1.2-3.1]). A afirmação desse julga­mento é seguida por palavras de esperança: para as gentes e nações; elas também serão chamadas, purificadas, e se tornarão adoradoras de Yahwéh. Isaías tinha-o proclamado vividamente (Is 4.2-6; 11.12-16; 19.23-25). Depois de dirigir-se às gentes e nações, o profeta dirige-se de novo a Jerusalém com palavras de esperança e um chamado a regozijar-se.

A quarta categoria de pessoas de quem Sofonias fala são aqueles a quem Yahwéh removerá de Jerusalém porque se regozijaram em seu orgulho (gè’ônãm, 2.10) e insolência. Amós falara a respeito do orgulho de Jacó (Am 8.7) de que, como eleito de Yahwéh, estava seguro e não tinha necessidade de temer a ira de Yahwéh contra os violadores do pacto (8.3). Sofonias refere-se ao orgulho de Jerusalém, ao colocá-la em contraste com a quinta categoria a respeito de quem ele está falando, e a quem sua mensagem profética é especificamente dirigida: Sè’êrit yiérã’el (o remanescente de Israel, v. 13a). Sofonias garante a Jerusalém que o tempo da vergonha virá, quando os pecadores, orgulhosos e insolentes, serão tratados adequadamente e quando o povo fiel, os verdadeiros israelitas, os fiéis habitantes de Jerusalém, serão poupados e servirão fielmente a Yahwéh, em culto, em estilo de vida e em obras. A descrição dos fiéis é ao mesmo tempo realista — mansos, humildes e confiantes (v. 12) — e idealista — sem nenhum engano, mentira ou temor (v. 13). Mais uma vez, Sofonias fala como Isaías o fizera antes (Is 11). Como ele trovejara a intensidade e o alcance da ira de Yahwéh em termos do julgamento final, assim também proclama as precisas características do fiel povo do pacto.

Depois de ter proclamado o caráter universal do julgamento e da redenção de Yahwéh, que os povos e nações, inclusive Judá, experimentarão, Sofonias retoma seu discurso dirigido aos habitantes de Jerusalém. Ele se concentrara sobre eles de modo climático ao concluir a da parte precedente de sua mensa­gem. A seção seguinte (3.14-20) apresenta o tema principal e clímax da mensa­gem de Sofonias.

3.14-20. Sofonias agora dirige-se diretamente a Jerusalém. Fala-lhe como a uma cidade purificada, embora a deportação e o exílio na Babilônia estejam ainda por ser executados. Mas Sofonias fala como um verdadeiro profeta. O futuro glorioso é tão garantido que ele pode falar como se já tivesse vindo.

Quatro aspectos são facilmente discemíveis na proclamação profética. J&nni bat-styôn (exulta, filha de Sião, v. 14a). O imperativo deve ser notado; o povo de Jerusalém tem de cantar em voz alta. Eles devem gritar. Todo o povo do pacto recebe a ordem de dar expressão à alegria e ao júbilo. Isso vai ser feito bèkõl-lêb (de todo coração), ou, em outras palavras, a pessoa toda. Sofonias clama por alegria, como Isaías o tinha feito antes, profetizando a respeito da vinda e do reinado do Messias davídico (Is7.14; 9.2-7 [TM 9.1-6); 11.1-11; 12.1-6; 51.11). O salmista, de modo semelhante, convoca a tal regozijo (p. ex., SI 32.11; 33.1-3), e o profeta Zacarias haveria de fazê-lo mais tarde (Zc 2.10).

fíesir yhwh miSpãfayik (Yahwéh fez que teu julgamento fosse removido, hiphil de sür, virar para o lado, v. 15). O julgamento é a punição irada de Yahwéh. A referência específica é à quebra do poder de Babilônia, que levará Judá e Jerusalém ao exílio. O inimigo foi derrotado, assegura Sofonias a sua audiência. Isso quer dizer particularmente que a ira de Yahwéh acabou; o castigo está completo. Significa também a restauração da vida do pacto e da comunhão com Yahwéh.

Melek yiárã’êl yhwh bèqirbêk (o Rei de Israel Yahwéh está no meio de ti, v. 15b). Com essa frase Sofonias começa uma relação de promessas pactuais que foram certamente cumpridas. O Rei é identificado: ele é Yahwéh, o fiel Senhor do pacto (v. 15c). O profeta repete essa garantia (v. 17a). O epíteto Deus é então usado em lugar de Rei.[29] A promessa dada aos patriarcas de que Yahwéh seria seu Deus e que estaria com eles é então repetida. Yahwéh continua a ser o sempre-presente, fiel Senhor guardador do pacto. Como tal, Ele dará a seu povo a segurança; eles não viverão em temor, nem serão desencorajados com as mãos a pender inertes (v. 16). Sua alegria por seu povo, seu amor por aqueles que são seus, dar-lhes-ão paz de coração e de mente (v. 17). Os fardos e as tristezas serão tirados porque os opressores terão sido punidos, isto é, as maldições do pacto terão vindo sobre eles (w. 18,19a). Os aleijados e espalhados serão trazidos, e sua fama e honra serão restauradas (v. 19b). Realmente Yahwéh demonstrará que o pacto é inviolável. Suas promessas são firmes. Cada palavra que ele falou será cumprida.

BèSubi ’et-Sèbütêkem (em meu retornar o vosso cativeiro, v. 20b). Yahwéh assegura ao remanescente que sua restauração (cf. NIV, RSV) do exílio é uma certeza absoluta. Será ocasião para seu povo receber honra e louvor entre os povos e nações, quando a fortuna retornar a eles. Essa restauração será inevi­tável: estará diante de seus olhos. Eles a verão e a experimentarão.

Em resumo, os seguintes pontos devem ser destacados: A mensagem de Sofonias é orientada em primeiro lugar ao que vai acontecer no século seguinte. Yahwéh derramará sua ira sobre o povo do pacto em Jerusalém e Judá por causa de sua crescente idolatria e mau modo de viver. Como o advertira Moisés e outros profetas tinham proclamado, a destruição às mãos de uma nação inimiga e o exílio certamente acontecerão.

O amor e o favor de Yahwéh serão demonstrados no retomo do exílio. O povo terá a comunhão e a bênção do pacto restauradas. Mas somente parte da comunidade original participará dessas bênçãos, a saber, os mansos e humildes.

A visitação da ira de Yahwéh sobre a Jerusalém rebelde é expressa em termos da intensidade e do escopo do julgamento final. Embora esse terrifican­te evento futuro não seja diretamente profetizado, é referido de tal maneira que a audiência de Sofonias é levada a lançar seus pensamentos para o futuro, além do tempo do cativeiro. Assim Sofonias fala de um retorno glorioso. Ele dirige seus ouvintes para a restauração do exílio, mas de tal maneira que eles são levados a projetar seu pensamento para um acontecimento maior e mais glorioso.

A restauração iniciará uma série de eventos que serão de um escopo intensivo e extensivo, isto é, todo o plano de redenção de Yahwéh para o remanescente de Israel, para os convertidos entre as gentes e nações, e para todo o cosmos.

Sofonias dá também relances do estabelecimento do reino eterno de Yah­wéh. O Rei, Yahwéh Deus, estará sempre presente. Ele reinará soberanamente em amor e paz sobre seu povo. A grande restauração e o desdobramento da soberania de Yahwéh incluirá os povos e nações do mundo. Estas se tornarão um com o remanescente de Israel, como o povo único do reino de Yahwéh.

Sofonias não dá uma cronologia de eventos sucessivos. Ao contrário, apre­senta um vasto panorama em que vários aspectos e dimensões são postos em ousado relevo.

Sofonias não fala de um Messias real pessoal,[30] mas de Yahwéh como Rei. De outros profetas podemos concluir que Yahwéh exercerá sua realeza por meio do Messias (cf. Is 9.2-7 [TM 9.1-6]; 11.1-11; Mq 5.2 [TM 5.1]). Sofonias, entretanto, não se refere ao conceito messiânico em sua concepção mais estrita. Mas, assim como os profetas que o precederam, fala da obra messiânica e de seus benditos resultados. Assim, o ponto de vista mais amplo do conceito messiânico está presente. É feita também referência ao reino e suas bênçãos, que Yahwéh introduzirá no reino do Messias.

Por inferência e indução indireta, a era do Novo Testamento é posta diante da audiência de Sofonias, particularmente a proclamação da vinda dos gentios.

Os que procuram encontrar evidência para um reino milenial terreno do Messias não recebem apoio para seu ponto de vista nesta profecia. Como indicamos acima, Sofonias tem o exílio e o retomo como os aspectos principais de sua profecia. Sua terminologia indica certa consciência de acontecimentos futuros maiores. Estes, entretanto, não são explicados suficiente, clara ou programaticamente para garantir o ponto de vista de que Sofonias teria falado de um reino terreno milenial, ao qual o Messias viria e sobre o qual reinaria.

A Profecia de Habacuque

O Homem e Seus Tempos

O estudioso das Escrituras pode informar-se a respeito de Habacuque somente em seus escritos; nada é dito nas Escrituras a respeito dele pessoal­mente.[31] Sua sincera confissão, "o justo viverá por sua fé" (Hb 2.4), é citada em o Novo Testamento (Rm 1.17; G1 3.11), mas não há nenhuma referência a ele pessoalmente. É chamado o profeta-filósofo porque sua profecia expressa a preocupação a respeito do problema da maldade amplamente espalhada em Jerusalém e Judá, bem como com a aparente falta de preocupação de Yahwéh. Quando, porém, ele é informado do plano de Yahwéh de usar os babilônios, mais ímpios ainda, como vara de julgamento para Judá, seus problemas se intensificam. Ora, como pode um Deus santo e reto usar um instrumento vil para punir o próprio povo do seu pacto? Habacuque recebe a resposta: "vive por sua fidelidade".[32] Yahwéh tratará soberanamente, e também sabiamente, de Judá primeiro, e então dos babilônios. Os babilônios serão totalmente destruídos sob o julgamento de Yahwéh.

Os problemas de Habacuque refletem o caráter reto do profeta. Refletem também os tempos trágicos em que viveu. O tempo é provavelmente pouco antes da primeira deportação (cerca de 606 a.C.). As vitórias e conquistas da Babilônia ao norte e ao leste eram conhecidas, bem como as atrocidades praticadas pelos conquistadores militares.[33]



A Mensagem Profética de Habacuque

Os principais elementos da profecia de Habacuque são:

1. O caráter intolerável da maldade, seja no povo do pacto ou nas nações gentias, aos olhos dos justos e do seu justo Deus (1.2-4).

2. A necessidade de os retos, isto é, os servos obedientes de Yahwéh, exercerem sua fé e confiança em Yahwéh em todas as circunstâncias da vida (2.1-4,20).

3. A certeza absoluta do julgamento divino que há de cair sobre todos os perpetradores da maldade (1.5-11; 2.6-19).

4. A possibilidade de absoluta confiança na misericórdia de Yahwéh, que seguramente será revelada e demonstrada no tempo do exílio. Assim como essa misericórdia foi experimentada no tempo do êxodo, será também durante a visitação do julgamento de Yahwéh sobre o povo do pacto (Hb 3.1,2,16-19).

Habacuque não faz nenhuma referência a um Messias pessoal, nem refe­rência alguma direta ao caráter ou à obra de uma figura messiânica de cunho pessoal. Sua mensagem, entretanto, confirma e elabora as próprias palavras de Moisés e de outros profetas relativas ao julgamento que será certamente executado pelo Agente-Servo-Ungido de Yahwéh sobre um povo desobedien­te e rebelde. De modo semelhante, a confiança de Habacuque na misericórdia de Yahwéh, e sua certeza de que Yahwéh continuará sua grande obra redentora (3.2) apóiam outras passagens proféticas que fazem referências diretas a um Messias pessoal, a seu caráter e à sua obra. Concluímos, portanto, que não é correto falar da profecia de Habacuque como sendo messiânica. Ela tem, entretanto, significação messiânica, embora em vista das profecias messiâ­nicas proferidas por outros profetas. Habacuque se demora sobre a necessida­de de julgamento sobre um povo rebelde, não santo, e suas muitas misericór­dias asseguradas por Yahwéh a um povo do pacto, fiel, vivo e reto. Pode ser dito, portanto, que Habacuque se estende sobre dois aspectos da agenda profética que Joel havia esboçado, a saber, o grande julgamento por vir e a segura salvação que Yahwéh tem preparado para seu povo.[34] Tanto um quanto outra serão executados pelo Servo de Yahwéh, que é também o Messias de Yahwéh.






[1] Argumentos pró e contra podem ser encontrados em várias obras. Ver Charles L. Feinberg, TheMinor Prophets(Chicago: Moody, 1977), p.221; Roland K.Harrison, Introduction tothe Old Testament{Qxai\á Rapids: Eerdmans, 1969), p. 931; Theodore Laetsch, TheMinor Prophets (St. Louis: Concordia, 1956), p, 354; William S. Lasor, David A. Hubbard e Frederic W, Bush, Old TestamentSurvey (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), p. 431; G. L. Robinson, The Twelve Minor Prophets (xçpubl, Grand Rapids: 1952), pp. 130,131, 


[2] Ver Brevard Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Filadélfia: Fortress, 1979), p. 458. Ver tambémEdward Young, comentários introdutórios emHolmanStudy Bible,p.S9VD. Ver também D.L. Williams, 'The Date of Zephaniah",/SL 82 (1963:77-88. 


[3] Psamético I reinou de 664 a 610 a.C. Foi um período de força para o Egito. 


[4] John M. Smith, A Criticai and Exegetical Conunentary on Micah, Zephaniah and Nahum (republ. Edim­burgo: T. & T. Clark, 1915), pp. 172-174. 


[5] Donald L. Williams, "Zephaniah: A Re-interpretation" (Ann Arbor; University Microfilms, 1962). Ivan Bali, "A Rhetorical Study of Zephaniah" (Ann Arbor: University Microfilms, 1972). Ambas essas obras incluem uma extensa bibliografia sobre o livro de Sofonias. 


[6] Williams, "Zephaniah",p. 111, julga que o texto de Sofonias só perde para o de Oséias no que toca à extensão da corrupção textual .Sua obra ressente-se da excessiva especulação sobre o que o texto devia ser, e isso, por sua vez, impede-o de um tratamento positivo aceitável da mensagem de Sofonias, 


[7] Ball, "Rhetorical Study", pp. 294-298. 


[8] Ibid., pp. 16, 97. 


[9] Ibid., p. 287. 


[10] Hubert Irsigler, Gottesgericht undJahwetag(St. Ottilien: Eoo, 1977). O livro inclui uma extensa bibliografia (pp. 469-489); sugere, entretanto, muito poucos livros sobre Sofonias. 


[11] George L. Robinson, The Twelve Minor Prophets (Republ. Grand Rapids: Baker, 1952), pp, 132,133. 


[12] Ibid, p. 132. 


[13] Smith, Criticai andExegetical Commentary onMicah, Zephaniah and Nahum, pp. 172-174. 


[14] Cf.,p. ex., Childs, Introduction to the Old TestamentasScripture,pp. 459-461. 


[15] Cf. cap. 14, subtítulo "A Mensagem Messiânica de Joel". 


[16] Cf. Emst Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, trad. Theodore Meyer, 2 vols. (Edimburgo: T. & T. Clark, 1868) 2358: "A pessoa do Messias, embora não apareça aqui, permanece no fundo e forma o centro invisível". 


[17] Cf.,p.ex., Laetsch, Minor Prophets, p. 382. 


[18] Feinberg, Minor Prophets, pp. 233-235. Os tempos e o reino messiânicos têm o reino milenial como seu ponto focal, segundo o autor. Ao invés do reino milenial, Hengstenberg fala da Igreja em o Novo Testamento, como também o faz João Calvino, em Commentaries on the Minor Prophets, trad. John Owen, 5 vols. (republ. 

Grand Rapids: Baker, 1981), 4.218. Ver também Keil, em KD, Minor Prophets, 2.164; Laetsch, Minor Prophets pp. 377-379. 


[19] Keil, em KD, Minor Prophets, 2.152; Calvino, Commentaries on theMinorProphets, 4.282, que considera o que se segue como uma ameaça. 


[20] Laetsch, Minor Prophets, p. 376. Ele considera-o um apelo a confiar nos planos de Yahwéh para a punição de seus inimigos. 


[21] Habacuque, de modo semelhante, recebe ordem de esperar (2.3), mas isso lhe foi dito quando ele se queixava da maldade do povo do pacto e do plano de Yahwéh para lidar com ele. 


[22] Os tradutores da NIV optaram por "witness" (testemunha), como também o fez Smith, Criticai and Exegetical Commentary on Micah, Zephaniah and Nah um, p. 246. 


[23] O termo, em vários contextos, pode ser melhor traduzido como "assim"; não, porém, neste contexto, como Calvino, em Commentaries on the Minor Prophets, 4.280,281, muito bem acentuou. 


[24] Essa interpretação foi aceita por João Calvino, Feinberg, Hengstenberg, Keil e Laetsch. 


[25] Smith, Criticai and Exegetical Commentary on Micah, Zephaniah, and Nah um, p. 246. 


[26] Laetsch, Minor Prophets, p. 376. 


[27] Calvino, Commentaries on theMinorProphets, 4.286,287; Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, 2302,303, prefere essa opção. Os que sustentam uma escatologia pré-milenista ou dispensacionista acham que esta referência é uma chave sobre a participação de Israel no reino milenial. 


[28] Cf. Laetsch, Minor Prophets, pp. 376,377. 


[29] Vários escritores têm procurado razões para identificar o rei com o Messias. Não há nenhuma evidência específica em abono dessa identificação, 


[30] Laetsch, Minor Prophets, pp. 379-381, faz uma aplicação messiânica, indo além da interpretação de Hengstenberg. 


[31] Cf. William H. Ward: "A história e a tradição não nos dão nenhum fato confiável a respeito de sua personalidade, de modo que dependemos inteiramente da evidência interna para nossas conclusões." Ver A Critical andExegetical Commentary on Habakkuk (New York: Scribner, 1911), p. 3. Ver também Keil, em KD, Minor Prophets, p. 49; Paul Kleinert, 'The Book of Habakkuk", em Minor Prophets (New York: Scribner, Armstrong, 1874), p. 7; Edward B. Pusey, Habakkuk, em The Minor Prophets — A Commentary (G rand Rapids: Baker, 1958), pp. 167,168. No todo, o livro de Habacuque não tem atraído a atenção dos eruditos contemporâneos. Segundo o Index to Religious Periodical Literature, e também o Christian Periodical Index, nada tem sido publicado em revistas sobre Habacuque nas décadas de 1970 e 1980. 


[32] O termo, na maioria das traduções, é "fé", evidentemente seguindo a tradução de Paulo em Rm 1.17 e G1 3.11. O hebraico tem be’emunatt, "em sua fidelidade" (ou firmeza). Habacuque foi instruído a viver de acordo com sua fé, sendo fiel. William H. Ward traduziu incorretamente, "o justo viverá por minha fidelidade" (Criticai and Exegetical Commentary on Habakkuk, p. 13). 


[33] Há diferenças de opiniões quanto ao tempo de Habacuque. George A. Smith corretamente escreveu: 'Todos admitem que (Habacuque) deve ser datado em algum tempo ao longo da extensa carreira de Jeremias, 627^586". Em uma nota de rodapé acrescentou: "Exceto um ou dois críticos1' (cf.seu "Habakkuk", em The Expositor's Bible). Ver também W. Robertson Nicoll, vol. 4 (Grand Rapids: Eerdmans, 1943), p. 588, Charles L. Taylor, entretanto, algumas vezes parece juntar-se aos críticos que negam a integridade de Habacuque; ele, com outros eruditos recentes, consideram o cap. 3 como uma pia meditação produzida durante as vitórias e conquistas de Alexandre o Grande. Cf. Habakkuk, em IB (1956):973-977, Os rolos do Mar Morto incluem um Pesher sobre Habacuque 1 e 2. Por que razão o cap. 3 foi omitido tem sido muito comentado. Brownlee apresenta um sucinto excurso a respeito desse problema (William H. Brownlee, The Midrash Pesher of Habakkuk (Missoula: Scholars, 1979), pp. 218, 219. Ver também a obra anterior de Brownlee, em que ele conclui que o Pesher não contém alternativas significantesao texto de Habacuque, emboraas variantes ortográficas sejam numerosas (cf. The Text of Habakkuk in the Ancient Commentary from Qumran [Filadélfia: SBL, 1959], esp. pp. 118-130). 


[34] Pieter A. Verhoef resumiu a obra de Habacuque no apropriado título de seu livro (Krisiswoorde in Krisistye (Capetown: NGK, s. d.). Ele declara que usou a palavra "crise"para indicar que o tempo de decisão havia chegado; de fato, era tempo de "ou uma coisa ou outra"; adiar a decisão não era mais possível.