17 de agosto de 2016

DEREK KIDNER - Jossé e a migração para o Egito (capítulos 37-50) Parte 2

antigo testamento danilo moraes
43:1-34. A segunda visita ao Egito.

1-14. Judá garante a segurança de Benjamim.

A atitude queixosa e negativa de Israel condiz muito bem com a vi­da. Sua repreensão era uma fuga da decisão que temia e um consolo pa­ra a sua auto-estima. Entretanto, apegando-se à sua superioridade so­bre os que o haviam prejudicado, estava pondo em perigo a si próprio e a eles — incluindo-se o seu amado Benjamim, a quem precisava perder para salvar (cf. 27:41-46). Ver ele ainda a ameaça a Benjamim como ameaça a si próprio trai a sua concentração em si mesmo: “Por que me fizestes esse mal...?” (6; cf. 42:36).

O rompimento do impasse é duplamente instrutivo: a cruel pressão da fome (cf. Os 5:15) e a calorosa iniciativa pessoal de Judá eram necessárias, uma para reforçar a outra. Assim Judá agora conseguiu su­cesso onde Rúben falhara (cf. 42:37, e a nota adicional desse capítulo).

7.Sobre este vislumbre da entrevista com José, ver a nota adicio­nal, pp. 186s.

11. O presente (mintjâ) era uma cortesia quase indispensável na aproximação a uma pessoa de posição (c/., por ex., 1 Sm 16:20; 17:18).

14. Deus Todo-poderoso (‘el-sadday) era um título especialmente evocativo da aliança com Abraão (17:1) e, portanto, do propósito fir­mado por Deus para esta família.

Sobre as implicações deste nome, e da alusão a Simeão, quanto à crítica das fontes, ver a nota adicional, pp. 186 ss.

15-34. Os onze hóspedes de José.

Pode haver uma ponta de ingenuidade no temor dos irmãos (18) de que o Egito, como qualquer clã insignificante, tivesse planos quanto aos seus jumentos. Isto ilumina o contraste entre os moradores em ten­das e as suas novas circunvizinhanças.

23. O mordomo não estava confessando que pusera o dinheiro, afirmando-lhes somente que o tinha recebido a salvo, e sugerindo que o dinheiro que tinham encontrado devia ter caído do céu — o que o leitor sabe ser verdade num sentido para eles ainda oculto.

A detenção de Simeão, prolongada como foi por causa da discus­são em torno de Benjamim, durou menos de dois anos (c/. 45:6). Sobre esta menção da soltura dele, ver a nota adicional do cap. 42.

26, 28. As repetidas mesuras são outro momento de cumprimento; cf. 42:6,9.

32.Como J.Vergote o expõe,[1] o preconceito contra comer junto provavelmente não era social (como em 46:34), mas cultual, visto que tecnicamente os estrangeiros contaminariam o alimento. Há abundan­tes provas desta crença num período posterior, nas atitudes dos egípcios para com os gregos. Assemelha-se à recusa judaica de comer com os gentios.

33.A misteriosa precisão na ordem em que se assentaram teria sua parte a desempenhar no plano de José, fazendo aumentar a incômoda sensação de estarem sendo expostos à intervenção divina.

34.Quanto a esta cortesia especial, veja 1 Sm 9:24, e, paradoxal­mente, João 13:26, 27.

44:1-17. A prisão de Benjamim.

A estratégia de José, já brilhantemente vitoriosa na produção de situações e tensões requeridas por ele, dá agora o seu golpe de mestre.

Como a sentença dada por Salomão, a súbita ameaça a Benjamim foi uma punhalada no coração; num instante os irmãos ficaram a desco­berto. Quando o mordomo trocou o desafio deles, no v. 9, pela oportu­nidade de liberdade à custa de Benjamim, apresentaram-se todas as condições propícias para nova traição, por um preço muito mais per­suasivo — a liberdade deles — do que os vinte siclos de prata que outrora tinham repartido entre si. A reação, por sua unanimidade (13), fran­queza (16) e constância (pois o oferecimento foi repetido, 17), demons­trou como o castigo fizera bem feito o seu trabalho. A súplica de Judá para que fosse feito prisioneiro em lugar de Benjamim está entre as mais belas e comoventes petições (ver vs. 18-34, abaixq).

1.Como a sequência mostra, o “dinheiro” desta vez não seria in­criminador, exceto como um “bem” adicional que eles pareciam estar pagando com o “mal” (4), roubando o copo. Nessa altura, estava cla­ro, depois de 43:23 e do banquete subseqüente, que o governador se dis­pusera a tratá-los como hóspedes — honra perigosa quando partida de um tirano.

5.O fato de que o copo estava sendo usado para beber indicaria a loucura de esperar que o roubo passasse despercebido, e se também fos­se utilizado para adivinhação, seria duplamente precioso. Mas como o expõe Vergote,[2] a frase e por meio do qual faz as suas adivinhações poder-se-ia traduzir: acerca disto ele certamente teria adivinhado. A di­ferença é pequena, mas acrescentaria um ponto ao v. 15, onde ficaria implícito: “Pensam que ele não perceberia?” Tal como está, o texto en­frenta outra objeção: que, aliás, a adivinhação por meio de um copo não conta com clara documentação quanto ao Egito desse período.

A adivinhação, quer atribuindo sentido aos movimentos dos líquidos num copo (e a outras configurações casuais, cf. Ez 21:21), quer por uma espécie de vidência pelo cristal, é fundamentalmente estranha a Israel, a quem Deus revelou de modo explícito a Sua vontade, como Balaão relutantemente testemunharia: “...Nem há qualquer adivi­nhação com Israel; no devido tempo se dirá a Israel o que Deus está fa­zendo (Nm 23:23; cf. RVmg). A menos que isto fizesse parte da postura assumida por José, tomou ele aqui o seu disfarce do Egito, em matéria sobre a qual ainda não estava em vigência lei alguma.

15.Ver comentário do v. 5.

16.Sem dúvida havia duplo sentido nas palavras: Deus descobriu a culpa... (RSV), como o indicam as expressões de profundo reconheci­mento registradas em 42:21, 22,28.



44:18-34. A intercessão de Judá.



Este nobre apelo não se funda apenas em compaixão sentimental; tem o peso cumulativo da lembrança dos fatos (19-23), da represen­tação gráfica (20, 24-29, 30) e de um interesse altruísta provado até o último na petição que fez, não de misericórdia, mas que o deixassem so­frer vicariamente (30-34). Em seu espírito, permite comparação com a intercessão de Moisés (Êx 32:9-14, 31), conquanto a de Judá, na verda­de, tenha sido feita em favor do inocente, não de um culpado.

20.“Jovem” (RSV; cf. AA), melhor do que pequeno (AV, RV), faz justiça ao hebraico e ao contexto. Benjamim teria mais de vinte anos, pelo menos, e com maior probabilidade, mais de trinta, uma vez que José tinha então cerca de quarenta (c/. 37:2; 41:46, 53). Ver também 46:21 e referências.

29.Ver comentário de 42:38.

30.A vivida figura de linguagem da última frase, onde sua alma (sua nepes) significa o seu ser pessoal, é empregada em 1 Sm 18:1 quan­to à dedicação de Jônatas a Davi.

45:1-15. José dá-se a conhecer.

A convicção de que a vontade de Deus, e não a do homem, era a realidade diretora em cada acontecimento, refulge como a luz orienta­dora de José e o segredo de sua espantosa falta de rancor (ver co­mentário do v. 5). Tratava-se de teologia aplicada, a verdade de Deus li­berando a vontade para o esforço construtivo, e as emoções para o afe­to sanador. Nesta passagem, o sentimento vigoroso e o saudável argu­mento espiritual completam a obra de reconciliação que exigira severi­dade cirúrgica através dos estágios anteriores. Fora uma tarefa para o homem integral, pacientemente sustentado pela convicção, não por me­ros impulsos.

3.Esta pergunta, depois de tudo que Judá dissera, ilustra o fato de que viver, no Velho Testamento, tende a incluir a idéia de gozo de saúde e bem-estar (como no v. 27, onde “reviveu” é literalmente “vi­veu”; cf. também Lv 18:5; Dt 8:3; Pv 14:30; Hc 2:4; etc.).

4.Sobre a alusão de José a ter sido vendido — tão significativa pa­ra este momento cheio de tensão, embora tão embaraçante para a análise crítica — ver a nota adicional do cap. 37, p. 172.

5.As palavras, por me haverdes vendido ... Deus me enviou, constituem uma das afirmações clássicas do governo providencial. Este realismo bíblico, isto é, ver claramente os dois aspectos de todos os fa­tos — por um lado, a maneira errônea de os homens dirigirem as coisas (e a ação cega da natureza); por outro, a perfeita vontade de Deus — e fixar a atenção na última como sendo a única importante, haveria de ser exemplificado em grau máximo no Getsêmani, onde Jesus aceitou a traição que sofreu como “o cálice que o Pai me deu” (Jo 18:11). Cf. vs. 8; 50:20; SI 76:10; At 2:23; 4:28; 13:27; Rm 8:28; Fp 1:12.

6.Sobre esta indicação de tempo, ver comentário de 41:46.

7.Apesar da sobrevivência da família toda, as palavras de José: um remanescente e um grande livramento (AV, RV), salientam o perigo de que ela escapara, uma das muitas crises de juízo e salvação, do Velho Testamento.

8.“Não fostes vós ... e, sim, Deus expressa o fato da Providência (ver comentário do v. 5, acima) numa linguagem bíblica tipicamente arrebatadora. Quanto a este linguajar, cf. o “não ... mas” de Jo 6:27; 15:16; e a maneira alternativa de colocar tais contrastes, em Os 6:6.

A frase pai de Faraó, reconhecido título de vizires e altos oficiais, J. Vergote interpreta como virtualmente “conselheiro do rei”.[3] Ver também a nota de rodapé de 41:42.

9.Note-se que Deus é o assunto da primeira sentença dirigida por José a seu pai.

10.Gósen é nome que continua sem documentação, no que con­cerne aos vestígios egípcios; mas 47:11 dá-nqs o nome que esse ter­ritório levava tempos depois: “terra de Ramessés”. Este nome, ao lado do fato de que a região era fértil (47:6) e perto de José, na corte, dá a idéia de que ficava na parte leste do delta do Nilo, perto de Tânis, sede dos reis hicsos[4] do século dezessete e dos reis da dinastia de Ramessés, do século treze, os prováveis períodos de José e Moisés, respectivamen­te.

45:16-28. Faraó manda buscar Jacó.

Este convite real, por amor a José, convite feito a um Israel próximo ao fim da esperança, e aos dez irmãos carregados de culpa, di­ficilmente pode deixar de lembrar ao cristão o divino: “Vinde ... e eu darei” (AV; AA: “Vinde ... e eu vos aliviarei”; cf. v. 18), revestido de tais termos de boas-vindas e desafio. Mas historicamente este é um pon­to de transição de espécie diferente, predito há muito tempo (15:13-16): o início de uma fase de isolamento (em que a família, completamente alheada, podia multiplicar-se sem perder a identidade), e de eventual es­cravidão e livramento que produziria um povo que desde então ia saber-se redimido, bem como vocacionado.

21.O nome Israel é, para os especialistas críticos, uma anomalia nesta seção, anomalia atribuída a uma fonte (E) que só devia falar de Jacó (ver a nota adicional do cap. 42, p. 186. A expressão genealógica, filhos de Israel, poderia explicá-lo aqui, não porém no v. 28, e a fraque­za da teoria se evidencia particularmente em 46:2.

23.Sobre a antigüidade da palavra mãzôn (provisão, RSV, AA), que se costumava considerar um aramaísmo tardio, ver D. J. Wiseman em Tyndale House Bulletin, 14, junho de 1964, p. 11.

24.O tiro de partida dado por José foi realista, pois o antigo cri­me estava agora prestes a vir à luz perante o pai deles, e era provável que proliferassem as acusações recíprocas (c/. 42:22).

46:1-7. A bênção de Deus durante a viagem.

1.O local e o caráter do culto oferecido por Jacó indicam a sua es­trutura mental, pois Berseba fora o principal centro de Isaque. Dirigindo-se a Deus como Deus de seu pai reconhecia a vocação da família, e implicitamente procurava evitar a saída de Canaã. Sua atitu­de foi muito diversa da de Abrão em 12:10.

2.Ver comentário de 45:21.

3.4. A resposta de Deus falou ao interesse de Jacó (ver acima) e acrescentou nova particularidade à velha promessa feita em Betel; a sa­ber, que o crescimento do povo como nação teria lugar no Egito (lá, 3). Pouco assim Deus se prende a uma localidade. Mas a promessa de Ca­naã permanecia (cf. Rm 11:29), e o Egito era, na longa marcha, um passo para lá — como fora prenunciado a Abrão, em 15:13.

Note-se no v. 4 a rápida transição do sentido coletivo de ti no meio da frase, para o teus completamente individual, no fim. A tênue linha divisória entre ambos pode ter um ponto de apoio na interpretação das passagens sobre o Servo, em Isaías, por exemplo, como coletivas e individuais em diferentes contextos.

A referência da última frase é provavelmente ao ato de José cer­rando os olhos de Israel, à morte deste (assim AA) — contraste com o atormentado fim que este predissera para si, em 37:35.

46:8-27. A família de Jacó: setenta pessoas.

Esta lista dispõe a família em seus grupos de Lia e Raquel: primei­ro os descendentes de Lia e de sua serva Zilpa (33 mais 16); depois os de Raquel e Bila (14 mais 7). Isto dá um total de 70, conforme os subtotais arrolados nos vs. 15, 18, 22, 25. Mas Diná (15) deve ser acrescentada, dando 71, e 5 nomes devem ser subtraídos (Er e Onã, enterrados em Canaã, v. 12; José, Manassés e Efraim, já no Egito, v. 20), para chegar-se ao número da progénie de Jacó que de fato viajou com ele (isto é, 66, v. 26). O v. 27 acrescenta depois os dois filhos de José e, por inferência, o próprio José, além de Jacó, para dar a soma de “todas as almas da casa de Jacó” (AV) que chegaram ao Egito mais cedo ou mais tarde, na história. As noras, embora membros da família, não são contadas nes­tes totais, que se referem somente aos descendentes de Jacó propria­mente ditos (v. 26).

9.Hanoque (AV) é o nome mais bem conhecido como Enoque (c/. AA). Quanto a seu sentido, ver comentário de 4:17.

12. A história familial de Judá consta no cap. 38.

21. O fato de que Benjamim já podia estar com dez filhos concordaria com outras indicações da sua idade; ver comentário de 44:20. Contudo, Nm 26:38-40 e 1 Cr 7:6; 8:1, parecem indicar que alguns des­ses nomes são de netos, presumivelmente incluídos por antecipação (c/. Hb 7:10).

26, 27. Sobre estes dois totais, ver o comentário introdutório deste parágrafo.



46:28-34. José e seu pai reunidos.

28. Compreende-se com a maior simplicidade a missão de Judá como a de escoltar José até à sua família em Gósen. Mostrar o caminho (RV) se reconhece como ato de cortesia, e não de necessidade, a menos que de fato a família tivesse combinado com Judá um ponto de encon­tro. RSV substitui essa expressão por: para comparecer diante dele em Gósen (ligeira mudança do hebraico, indicada pela LXX), mas como José não estava ainda em Gósen, isto faz pouco sentido.

30. A seu modo, este é um Nunc Dimitis do Velho Testamento. Quase todas as palavras de Jacó registradas desde 37:35 são sobre a morte, e continuam assim, mas depois do ponto de transição de 45:28, o amargor é substituído em grande medida por um sentido de cumpri­mento e de esperança.

34. A aversão dos egípcios pelos pastores é às vezes atribuída a suas amargas lembranças dos governantes hicsos, após a sua expulsão, como “reis pastores”. Mas parece que esta interpretação do nome foi a compreensão errônea de uma época posterior, e o período de José proavelmente caiu dentro do regime deles, não depois.[5] Uma explicação mais provável é a de J. Vergote,[6] no sentido de tratar-se apenas da pe­rene antipatia do citadino pelo nômade ou pelo cigano. José viu a im­portância de dar ênfase a isso, para assegurar que a boa vontade de Fa­raó fosse para o benefício real da família, não em seu detrimento levando-a a um desacostumado modo de vida na capital.

47:1-12. A família de José perante Faraó.

Foi pelo sábio conselho de José, em 46:33, que os seus irmãos souberam o que precisavam e não fizeram segredo do que eram. A entrevis­ta é bom modelo de honradas e pacificas negociações entre um povo pe­regrino e o poder temporal (cf. 1 Pe 2:11-17).

Quanto a Jacó, é a soberana longevidade personificada — livre de preocupação com a hierarquia social (7; 10; cf. Hb 7:7), descontraído e ponderado, adotando um modo independente de ver os acontecimen­tos, e fazendo sombrias comparações com o passado. É um pequeno re­trato magistral.

11.Terra de Ramessés é o nome mais recente de Gósen, comum na época de Moisés (cf. Êx 1:11). Quanto à sua provável localização, ver comentário de 45:10.



47:13-27. A política econômica de José.

Era axiomático no mundo antigo que o devedor pagava como po­dia, desde que possuísse algo que pudesse entregar — inclusa, em úl­tima instância, a própria liberdade pessoal. A lei israelita aceitou o princípio, embora modificando-o com a introdução do direito de resga­te (Lv 25:25). A tática de José, portanto, foi notável principalmente por ser por completo em beneficio do rei. Tem-se dito que empregou meios comerciais, comprando o excesso da produção de cereais com dinheiro real nos bons anos;[7] [8] [9] mas é mais simples entender que ele impôs, por autoridade, um tributo, como inicialmente havia recomendado, em 41:34.

19. Tecendo comentários sobre um Faraó posterior, A. H. Gardi­ner diz: “Há ampla evidência de que ele se considerava dono de toda e qualquer propriedade egípcia”.[10] Sobre a realização de José, K. A. Kit­chen observa que “a política econômica de José em Gn 47:16-19 sim­plesmente fez do Egito, de fato, o que sempre foi em teoria: a terra veio a ser propriedade de Faraó, e os seus habitantes, inquilinos dele”.[11]

21.O texto hebraico, à semelhança de AV, RV (removeu-os para as cidades), talvez se encaixe numa situação que requeria um simplifica­do esquema de distribuição. Por outro lado, o remédio é tão drástico, que o texto alternativo (fez deles escravos, RSV; AA: eie os escravizou, ao povo) dá melhor sentido em vista da própria declaração feita pelo povo, nos vs. 19, 24 (“seremos escravos”), e da distribuição que José fez das sementes para semear (23). RSV, AA seguem a LXX e o Texto Samaritano.

22.Vale a pena assinalar[12] que esta passagem fala da isenção sacer­dotal da taxa da colheita somente, não de débitos de outras espécies.

47:28-31. Jacó designa o lugar da sua sepultura.

“O israelita moribundo”, como disse R. Martin-Achard, “parece preocupar-se menos com o mundo desconhecido em que está entrando do que com o futuro do povo de Deus.”[13] Isto ficará evidente de modo direto nos dois próximos capítulos; aqui é indireto, no senso de conti­nuidade de Jacó: tem de ir para o lugar ao qual pertence, e este não é o Egito de José, nem a Mesopotâmia dos seus antepassados, mas a terra prometida “a Abraão e â sua semente para sempre”. Cf. os co­mentários introdutórios dos capítulos 23 e 48.

28.Sobre a duração da vida patriarcal, ver comentário de 12:14.

29.Quanto à colocação da mão debaixo da coxa, cf. 24:2.

30.Conquanto a sequência talvez não deva ser forçada, RV dá a idéia mais próxima do hebraico, dizendo: quando eu repousar com os meus pais, tu me levarás... Isto fortalece a impressão de que a reunião com os ancestrais foi vista como devendo ser apenas simbolizada, não produzida, pelo sepultamento no local da família. Jacó ter-se-ia junta­do a eles antes de seu corpo ter sido enterrado com os deles. Cf. co­mentário de 25:8.

31.O TM traz cama (mittâ), mas a LXX (utilizada em Hb 11:21) interpretou as mesmas consoantes hebraicas como representando mat- teh, bordão. Embora essas duas versões tragam “cama” em 48:2, a presente ocasião fala de Jacó antes da sua última enfermidade (cf. 48:1), e bem pode ser que “bordão” seja o sentido certo. Seria um ob­jeto apropriado para merecer menção, como símbolo da sua peregri­nação (cf. as suas palavras de gratidão em 32:10), digno da proeminên­cia que recebe na passagem do Novo Testamento.




48:1-22. Jacó abençoa a Efraim e Manassés.

Da longa carreira de Jacó, Hb 11:21 seleciona este como o seu notável ato de fé. Tem a qualidade, exaltada naquele capítulo, de prosseguir em direção às promessas, mesmo em face da morte, “vendo-as ... de longe, e saudando-as” (Hb 11:13). Há gentil ironia no fato de que justamente esta situação é como aquela na qual exercitara a sua astúcia na mocidade. Uma vez mais, a bênção do primogênito é destinada ao irmão mais novo, mas agora não há um esquema incrédulo, nem gosto amargo depois (c/. Pv 10:22). É uma lição objetiva no sereno cunho responsivo e fé.

3. Sobre o nome Deus Todo-poderoso, ver comentário de 17:1; 43:14. Luz é o nome antigo de Betel (28:19).

5.Esta declaração de adoção (c/. 16) deixou sua duradoura marca na estrutura de Israel, em que Efraim herdou a chefia de todos os doze, chefia perdida por Rúben (cf. 49:4). 1 Cr 5:1, 2 estabelece a posição: “(... Deu-se a sua primogenitura”, de Rúben, “aos filhos de José... Judá, na verdade, foi poderoso entre seus irmãos, é dele veio o prínci­pe; porém o direito da primogenitura foi de José)”.

7.O lugar especial que José ocupava nas afeições de Israel trouxe à memória a bem-amada Raquel. É um pungente olhar ao passado num contexto de esperança; uma súbita fraqueza que se trai a si mesma no esforço com que o ancião retorna ao presente no versículo seguinte. A expressão para minha tristeza (RSV; AA: com pesar meu) tem o apoio da maioria dos comentadores como sendo a inferência de (lit.)“sobre mim”, isto é: “como uma carga para levar”; cf. comentário de 33:13. Mas a reticência do hebraico, em seu simples matiz de sofrimento, tal­vez esteja mais bem preservada pela semideclaração de AV, RV: junto a mim.

8.9. A pergunta, Quem são estes?, com a resposta que obteve, produziu adequado prólogo para a bênção. Cf. a pergunta e resposta na páscoa (Êx 12:26) e, por contraste, o diálogo travado por ocasião da bênção dada ao próprio Jacó (Gn 27:18).

10.12. Ainda os preliminares afetivos da bênção, confirmando que Jacó aceita os jovens quando os toma entre os joelhos (12; cf. v. 5 e a nota sobre 30:3). Depois José os retira[14] e se prostra, antes de apresentá-los para a bênção mesma.

13s. Sobre a tranqüila inversão das bênçãos, ver os comentários introdutórios do capítulo. Jacó já mencionara o mais jovem antes do mais velho no v. 5, e a subsequente história de Israel mostraria que a mão de Deus estava por trás das mãos que agora pousavam sobre eles.

15s. José, na frase introdutória, é um termo coletivo para os dois filhos, como em 1 Cr 5:2 (citado no comentário do v. 5, acima). Acen­tua que a bênção que deverão agora desfrutar é por amor dele, como seus representantes.

A tríplice invocação de Deus abre muitas perspectivas, não mencionando os Seus atributos (embora haja lugar para isto; cf. Êx 34:6), mas evocando os Seus procedimentos. Era o Deus que mantinha ali­ança com meus pais, fato que tinha firmado a fé que animava Jacó em muitas crises (cf. 28:13; 31:5, 42; 32:9; 46:3). Na época do Novo Testa­mento, para não dizer na atual, as duas gerações de Jacó teriam au­mentado impressionantemente; cf. Lc 1:50. Voltando à sua experiên­cia pessoal, dizer que Deus o sustentou (AV, RV, AA) ou que o guiou (RSV) era reconhecê-lo como pastor. O verbo antecipa o Salmo 23, e Jacó tinha bastante conhecimento íntimo do seu sentido literal (ver co­mentário de 31:38-40). Na expressão o Anjo (16) vêm à memória os en­contros visíveis de Deus com ele[15] nas encruzilhadas da sua vida, sobre­tudo em Peniel; e a palavra redimiu (AV; AA: “me tens livrado”) ex­pressa a proteção e reivindicação que um gõ’êl ou parente de alguém providenciava em tempos adversos (cf., por ex., Lv 25:25, 47; Nm 35:19, hebraico; Jó 19:25).

21.A palavra eu é enfática nesta passagem, em consciente opo­sição à frase seguinte; cf. o comentário introdutório do capítulo.

22.Este versículo é obscuro quanto ao sentido e àquilo a que alu­de. A palavra traduzida por porção em AV, RV é literalmente “om­bro”, possivelmente expressão oriunda da comparação da altura das pessoas (cf. 1 Sm 10:23?), ou mais simplesmente significando declive de montanha (RSV; cf. AA). Se este é o certo, parece representar o idênti­co toponímico de Siquém, que haveria de estar incluído no território de Manassés, no centro da área coberta pelas duas tribos de José (cf. Jo 4:5). Speiser propõe a tradução: “Eu lhe darei, no que concerne a um dos seus irmãos acima, Siquém...”, tomando “um” como referente a José, e não a Siquém; mas é difícil ver essa idéia no curso da sentença.[16]

O fim do versículo possivelmente se refere ao massacre narrado no capítulo 34, visto como sinal da conquista; mas aquele não levou à ocupação da cidade. O fato de que Jacó repudiou a ação dos seus filhos (34:30) é menos decisivo: qualquer presa da vitória seria considerada dele. Mas a alusão pode ser a algum outro incidente não registrado.

49:1-28. A bênção aos doze filhos.

Este é o último (exceto quanto ao juramento de José, pouco antes de morrer, 50:25) dos grandes pronunciamentos sobre destino, das bên­çãos, maldições, juízos e promessas que pontilham o livro de Gênesis, a começar pela história da criação, e imprimem o seu vigoroso impulso para diante. Para os que não podem admitir predição, os oráculos deste capítulo são vatidnia ex eventibus, profecias fabricadas com os aconte­cimentos que parecem prever; e porquanto os acontecimentos são am­plamente separados, sua elocução deve ser partida numa corrente de pronunciamentos feitos através dos séculos. Tomando-se, porém, este conteúdo do texto como genuína visão de Jacó, a sua extensão variável não apresenta dificuldade. Não há razão por que o pano deva cair no mesmo ponto para todas as tribos; há toda razão para que não caia. Quanto ao período geral em vista, é mormente o do estabelecimento dos doze em seus territórios tribais (visão mais próxima da promessa que foi a estrela polar dos três patriarcas), embora haja aí um vislumbre (10) de uma consumação mais distante.

1. Este versículo, falando de predição, e o v. 28 com o seu termo “bênção”, resumem a natureza do oráculo, que é poderoso bem como informativo. Cf. a afirmação de Isaque em 27:33, 37.

A expressão de RSV, AA, dias vindouros é preferível a os últimos dias ou os dias posteriores (AV, RV). A expressão pode ser muito geral (cf. Dt 31:29), como o indica von Rad.

2. Exórdio.

Os nomes Jacó e Israel são empregados em paralelismo poético (cf. vs. 7,24), como acontecerá com freqüência em Isaías 40, por exemplo. Raramente se salientam as suas nuanças diversas. Isso também faz a teoria de que diferentes fontes jazem atrás deles parecer um tanto artifi­cial.

3,4. Rúben.

A pilha de frase sobre frase majestosa no versículo 3, culminando com um colapso ignominioso, reflete as exaltadas esperanças destroça­das pela queda de Rúben (registrada em 35:22). Seria difícil achar con­traste mais mortificante entre um homem e sua vocação, ou menos li­sonjeiro relato de uma grande paixão. Numa repentina mudança para a terceira pessoa no fim, ele subiu (AV, RV), Jacó volta-se e o expõe a seus irmãos. É um gesto de revulsão que não deve ser enfraquecido pela mais suave construção da LXX na segunda pessoa (adotada por RSV, AA).

Instável, AV, (pafjaz) vem da raiz que descreve a súcia de elemen­tos fora da lei de Jz 9:4 e os profetas levianos de Sf 3:4. O termo sugere ao mesmo tempo selvageria e fraqueza (c/. Speiser: “desenfreado”;[17] AA: “impetuoso”. O ponto de comparação está neste aspecto da água, que tão rapidamente se transforma numa torrente desgovernada, como em Pv 17:14. Rúben era um homem de impulsos desgovernados.

A tribo de Rúben falharia na liderança. Nos dias de Débora ficou famosa pela falta de resolução (Jz 5:15, 16); mais tarde parece ter sido eclipsado por Gade e periodicamente calcado por Moabe. O único momento de parcial iniciativa registrado deu-se na inglória rebelião de Datã e Abirão (Nm 16:1).

Sobre um ponto da crítica, pode-se acrescentar que o oráculo faz bom sentido em seus próprios termos, mas será muito difícil de explicar como velada alusão a um incidente tribal.[18] Portanto, ser cético quanto à existência pessoal de Rúben não é resolver problemas e, sim, criá-los.

5-7. Simeão e Levi.

O Velho Testamento distingue claramente entre um massacre por sentença divina (c/. 15:16) e uma simples vindita (cf. Am 1:1, 6,9), e es­te oráculo é uma negligenciada testemunha do fato. É também impor­tante como julgamento moral de uma história narrada previamente sem comentário (cap. 34); deixa claro que o costumeiro alheamento do narrador é a restrição, não a indiferença; “o Juiz de toda a terra” vê e cui­da.

5. Isto é mais que truísmo; estes homens são “dois de um par”, e suas armas são instrumentos de anarquia (cf. 6:11), não de justiça. A palavra final, não encontrada noutra parte, assemelha-se um tanto à palavra grega para “espada”[19] (cf. RV, RSV), mas não há acordo sobre o seu sentido.

6.Minha glória (RV, AA; kfbõdT) é expressão empregada em al­guns salmos em paralelo com minha alma ou coração, como aqui. A idéia básica é de algum peso. A versão da LXX, “meu fígado” (kfbêdi) podia estar certa, visto que os órgãos vitais são empregados como figu­ras da vida ou das emoções em muitos idiomas.

O nome Levi (“associado”, 29:34) bem pode ter sugerido a idéia da ímpia aliança que Jacó rechassa com as palavras não se ajunte. Mas este verbo, ajunte, deriva doutra raiz hebraica.

A poesia aponta dois pormenores do massacre (o segundo deles não registrado antes):[20] os termos homem e boi (RV) são vividas expres­sões do plural na forma singular. A tradução poderia ser: “Foi em sua ira que mataram homens, e em seu capricho aleijaram bois” (cf. AA). Foi a cruel paga do despeito, ser completamente rejeitado pelo seu mo­tivo e, no v. 7, pelo seu excesso.

7.A eventual história das duas tribos é um exemplo ilustrativo da abertura dos decretos de Deus, que nada têm da fixidez do destino (cf. Jr 18:7). As duas tribos foram dispersas; mas enquanto Simeão se de­sintegrava, espalhado parte entre os de Judá (cf. Js 19:2-9 com 15:26-32 e Ne 11:25-28), parte entre as tribos do norte (2 Cr 34:6), Levi foi pre­miado com uma honrosa dispersão como o elemento, sacerdotal de Is­rael (Êx 32:26,29; Nm 18:20,23; 35:2-8).

8-12. Judá.

Em comprimento e eloquência, esta bênção só é rivalizada pela de José, que muito se distancia em sua classe de profecia. Tem como pivô o termo “até” do v. 10. Antes de atingir esse ponto, o tema é o feroz domínio exercido pela tribo entre as demais (8, 9). Depois, com o ad­vento do prometido, que governará as nações, o cenário se transforma num paraíso terrestre, tal como os profetas prenunciam em seus poe­mas messiânicos. É uma miniatura do esquema bíblico da história.

5.Louvarão é um trocadilho com o nome de Judá; ver 29:35.

9.Sobre Judá como Leão, cf. o oráculo de Balaão sobre Israel (Nm 24:9). A palavra traduzida por leoa em RV, RSV, AA, e por leão velho em AV, é simplesmente um termo hebraico variante para leão. Se Judá é “o leão das tribos”, como diz H. B. Swete[21] comentando Ap 5:5, “...o mais nobre filho da tribo de Judá é adequadamente intitula­do o Leão dessa tribo”; mas o Novo Testamento O vê revelando força mais sublime que a do leão: “Vi... de pé ... um Cordeiro como tinha si­do morto” (Ap 5:6).

10.O versículo como um todo prediz a liderança de Judá (cf. Nm 2:9; 10:14; Jz 1:1, 2) durante o tempo indicado pelo termo “até”, e (a julgar pelo vívido tom do oráculo) ainda mais desse tempo em diante (cf., por ex., o “até” de 28:15).

Sobre o preciso significado desta expressão, ainda não é seguro dogmatizar. Siló (AV, RV, AA) em nenhuma outra parte é título bíbli­co do Messias, nem apresenta qualquer sentido claro como palavra. A construção alternativa: “até que ele venha a Siló” não condiz com ne­nhum evento messiânico. Mas uma primitiva variante, vocalizando uma grafia abreviada das consoantes hebraicas como sellõh, dá ou “até que o que é seu venha” (isto é, “até que surja a plena herança de Judá”; cf. LXX), ou “até que ele venha, a quem [ela pertence]” (cf. RSV). Esta forma, conquanto elíptica, parece que é captada e interpre­tada por Ez 21:26s. (TM 31) em palavras dirigidas ao último rei de Judá: “Tira o diadema e remove a coroa ... até que venha aquele a quem ela pertence de direito', a ele a darei”. Aí está o melhor apoio para o conteúdo messiânico que a exegese judaica e cristã encontrou no pro­nunciamento proveniente dos tempos mais remotos.[22]

10,12. Em todo o seu curso, estes versículos falam de abundância exuberante, inebriante: é a idade de ouro Daquele que Vem,[23] cujo governo universal foi vislumbrado no v. 10. É deliberadamente a lingua­gem do exagero. O folgazão do v. 12 (cuja “vermelhidão de olhos”; AV: “vermelhos com o vinho”; AA: “cintilantes de vinho” — na vida real é recebido mais friamente em Pv 23:29)[24] impressiona bastante, mas o v. 11 já mandou aos ares cautela e parcimônia, com a sua conver­sa sobre vinhas usadas como paus de amarrar animais e sobre vinho co­mo água para lavar roupa. Em seus próprios termos substanciais, dá adeus ao apertado regime de espinhos e suor pelo “grito dos que triun­fam, pela canção dos que festejam”. Jesus anunciou a idade por vir justamente com estas figuras em Seu primeiro “sinal”, em Caná da Galiléia.



13-15. Zebulom e Issacar.



A terra destinada a Zebulom em Js 19:10-16 não chegava à costa, diversamente da do seu vizinho Aser (c/. Jz 5:17), nem chegava muito perto de Sidom. Mas estava suficientemente perto de ambos para ser beneficiada pelo comércio marítimo (para chupar “a abundância dos mares”, Dt 33:19), e as preposições do versículo poderiam significar “em direção a Outra possibilidade, sugerida por M. Noth,[25] é que, nos primeiros tempos, Zebulom, Dã e Aser (cf. Jz 5:17) pagaram por seu estabelecimento em território dominado por Sidom com trabalho forçado (como Issacar fez a um soberano mais ao sul, 15) nos portos sidônios.

No v. 14, a tradução de AV, duas cargas,[26] isto é, as duas cestas da cangalha, é favorecida pelos comentadores modernos, e se adapta ao retrato de uma tribo muito disposta a negociar a sua liberdade a troco de bens materiais da vida.

16-18. Dã.

Depois da impressionante introdução, o anticlímax do v. 17 revela o mesmo abismo entre chamado e realização, que foi a desgraça de Rúben nos vs. 3 e 4. O nome e o chamado de Dã eram para julgar, vin­gando os desconsolados como Deus vingara a Raquel (30:6); mas a sua escolha, como tribo, foi a violência e a traição, como em Jz 18. No rol das tribos que compõem o Israel de Ap 7:5-8, Dã não acha lugar.

O aparte de Jacó no v. 18 é sincero; talvez tenha brotado das orações de um pai, como as de Abraão por Ismael (17:18), ou possivel­mente da súbita lembrança da sua própria traição, havia muito tempo renunciada, evocada pelos atos e palavras (talão ou talões, 17, 19) asso­ciados ao seu nome próprio. Ver comentário de 25:26.

19.Gade.

Das seis palavras hebraicas deste versículo, quatro consistem do nome de Gade e de trocadilhos com ele. Isto pode indicar que AV teve razão de traduzi-lo por “uma tropa” em 30:11. Mas os trocadilhos po­dem seguir o som, bem como o sentido (cf. o hebraico de Is 10:30: “po­bre Anatote” — como em AA). Invasões das fronteiras na verdade ha­veriam de ser a sua sorte na Transjordânia. A Pedra Moabita[27] do século nono registra um exemplo delas. Compare-se com a sua bênção, austera mas estimulante, Julian de Norwich: “Ele não disse — ‘Não serás atormentado, não serás levado à fadiga...’; mas disse: ‘Não serás dominado’ ”.[28]

20.Aser.

Com uma planície fértil e rotas comerciais para o mar, Aser ba­nharia “em azeite o seu pé” (Dt 33:24) e forneceria notável quota ao palácio (c/. 1 Rs 4:7). O contraste com o versículo anterior traz à luz a diversidade que enriqueceria a comunidade de Israel, enquanto que o correspondente perigo de desunião transparece em Jz 5:17.

21.Naftali.

Esta tribo das terras montanhosas haveria de conquistar nome sob Baraque, levando Israel a livrar-se de uma arrasadora escravidão (Jz 4 e 5). As palavras formosas de AV, RV, AA constituem uma abrupta transição e, sem contar a parte que Baraque teve no cântico de Débora (Jz 5:1), nada desta natureza em Naftali chega ao nosso conhecimento. A expressão de RSV, gazelas elegantes è mais provável, e não envolve alteração do texto: este livre povo montanhês, em outras palavras, se desenvolverá fiel, e manterá o seu caráter.

22-26. José.

Quanto a pormenores, há obscuridades aqui, mas uma impressio­nante eloqüência. Nas traduções de AV, RV, RSV, AA, o pensamento move-se do presente — do verão dos dias de José — para as pressões so­fridas no passado e, ainda atrás, para Deus, cujos atavios de títulos for­mam a rica peça central do oráculo. Depois, a profusão de bênçãos de Deus impetradas sobre José leva o pensamento para o futuro.

22.A árvore frutífera bem suprida de água e de longos ramos re­trata deliciosamente a profundidade do caráter de José e a amplitude da sua influência, e o fato de que capta a sua própria metáfora, entesoura­da no nome Efraim (41:52), dá base para a tradução familiar de AV, RV, RSV, AA. Mas o sentido está longe de ser óbvio no hebraico, que está cheio de ambiguidades e de anomalias gramaticais.[29]

24.Tanto aqui como em outras passagens (Is 1:24; 49:26; 60:16; também, menos obviamente, SI 132:2,5), a palavra ‘abir, O Poderoso, é empregada para referir-se a Deus como o herói da Sua causa. Sobre o elo especial com Jacó, ver a segunda nota de rodapé referente a 31:42.

A frase Pelo nome {missen) do Pastor (RSV), condiz bem com a expressão, Pelas mãos..., imediatamente anterior, e não acarreta mu­dança no texto consonantal. O uso tradicional dos sinais, Daí (missam) é o pastor (AV, RV), cria um aparte abrupto e uma referência impes­soal a Deus,[30] sem razão perceptível.

25.Quanto ao significado, com relação a Jacó, do “Deus de teu pai”, ver comentário de 46:1. Sobre o termo “Todo-poderoso” (sadday), ver comentário de 17:1.

26.À luz de Dt 33:15, RSV tem quase toda a razão de traduzir (com a LXX) os montes eternos, em lugar da versão do TM, meus pro­genitores para (é a diferença entre o w hebraico e o r, parecido), e na tradução bondades (literalmente, coisas desejáveis, singular ou plural) em vez de “o limite extremo” (AV, RV).

Com poucas palavras magnificai, desenrola-se a visão veterotestamentária da “terra” de Deus “com o seu acúmulo de maravilhas inau­ditas”. Mesmo “o abismo” (tehôm, cf. 1:2), recostando-se como uma vigorosa fera (cf. vers. 9), pertence a Deus e aos Seus servos. Uma antecipação desta bênção viria no quinhão da nata de Canaã dada a Efraim e Manassés, sendo de presumir-se que coisas maiores se lhe seguiriam. No caso da fruição sequer disto ser inseguro e breve, a razão pode achar-se no orgulho de Efraim (Jz 8:1; 12:1) e em sua apostasia suicida (Os 4:17; 5:3 epassim).

A frase final, separado dos seus irmãos, fala de um elemento sin­gular entre os outros, não de um elemento posto fora {cf. AA: “distin­guido entre seus irmãos”). A palavra mais tarde foi empregada para de­signar o nazireu, separado para Deus.

27.Benjamim.

É surpreendente que a Moisés foi dado pronunciar o terno oráculo sobre Benjamim (Dt 33:12), e a Jacó o cruel. Algo do arrojo e do gênio da tribo pode ver-se em Jz 5:14; SI 68:27; algo da sua violência em Jz 19-21.



49:29-50:10 49:29-50:3. A morte de Jacó.



Sobre a esplêndida atitude de Jacó à aproximação da morte, ver comentário de 47:28-31.

31.A morte de Lia só é mencionada aqui, embora estivesse implícita em sua ausência da lista de emigrantes, em 46:8.

33. A frase, rendeu o espírito (AV, RV), traduz uma só palavra hebraica, um sinônimo de “morreu” (cf. AA: “expirou”), que nada tem a ver com a expressão, “entregou o seu espírito”, referente à morte voluntária de nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 19:30; cf. AA, aí e em Mt 27:50; Lc 23:46).

50:2. Uma vez que os embalsamadores e os médicos pertenciam a profissões diferentes, o fato de José utilizar-se destes pareceu anômalo a alguns escritores. Contudo, J. Vergote explica que os médicos eram mais que competentes para realizar a tarefa, e que José bem pode ter querido evitar os ritos mágico-religiosos dos embalsamadores profissio­nais.[31]

3. O período de embalsamamento raramente era de menos de um mês, e quando essa arte estava no apogeu, da 18 dinastia em diante (is­to é, no período que se iniciou um ou dois séculos depois da morte de Jacó), normalmente gastava setenta dias.[32] O período de luto por Jacó, conforme o observa von Rad, significativamente foi de pouco menos de setenta e dois dias, período de luto por um Faraó.

50:4-13. O enterro de Jacó.

Uma vez mais o sepulcro patriarcal é proeminente na história co­mo o marco remanescente na terra prometida, e a família de Jacó, jun­to com o seu séquito de assessores gentios, ensaia, por assim dizer, em miniatura e com menor importância, o final retorno dos seus filhos ao lar, retorno que um dia farão escoltados à sua herança, “dentre todas as nações ... sobre cavalos, em liteiras” (Is 66:20; AV: “sobre cavalos, e em carros”).

5. A palavra traduzida por cavei (AV, RV) ou abri (AA, RSV) po­dia igualmente traduzir-se por “comprei” (RVmg), fazendo-a derivar de uma raiz que se acha em Dt 2:6; Os 3:2; e esta tradução parece pre­ferível.

10.Este lugar é desconhecido, mas a sua posição requer um giro em torno do Mar Morto para atingir Hebrom do nordeste, e não do su­doeste. Presumivelmente havia intranquilidade em algum ponto, que a chegada da caravana teria corrido o risco de agravar. No Êxodo, a rota direta seria de novo impraticável (Êx 13:17). Mas a menção dos cananeus (11) mostra que a lamentação deu-se no lado oeste do Jordão: per­to do rio, não além dele.[33] Isto é, o grupo tinha acabado de cruzar o rio, entrando em Canaã; era um momento propício para pausa.

Abelmizraim contém um jogo de palavras, em que ’ãbêl (c/. 37, 35) pode significar pranto, como a forma de uso mais comum, ’èbel, mas também pode significar “curso de água” ou “campo”. “Mizraim”é Egito.

50:14-21. José tranqüiliza os seus irmãos.

A maneira de contar a história sugere vigorosamente (conforme von Rad) que a mensagem em nome de Jacó foi fictícia. Certamente foi isto, junto com a abordagem a meia distância (16), narrando a sua própria história de medo e desconfiança, que comoveu José às lágri­mas.

Cada sentença da sua tríplice resposta é um pináculo da fé característica do Velho Testamento (e do Novo). Deixar com Deus todo o acerto dos erros alheios (19; cf. Rm 12:19; 1 Ts 5:15; 1 Pe 4:19); ver a Providência divina na ruindade do homem (20; cf. comentário de 45:5), e pagar o mal não somente com o perdão, mas também com demons­tração prática de afeto (21; cf. Lc 6:27), são atitudes que antecipam o adjetivo que qualifica alguém como ‘cristão” e mesmo como “seme­lhante a Cristo”. Note-se que no v. 21 o “eu” é enfático: José promete algo mais pessoal do que filantropia.

50:22-26. A morte de José.

Talvez seja um indicativo de prêmio à honra de José no Egito, haver-lhe sido assegurada uma longevidade em geral considerada como idealmente desejável.[34] Seja como for, ver os próprios netos era uma bênção proverbial (cf. SI 128:6; Pv 17:6), e Maquir haveria de encon­trar um vigoroso clã em Manassés (Js 17:1; Jz 5:14). Sobre a expressão, sobre os seus joelhos (23), ver comentário de 30:3.

O livro de Gênesis, na qualidade de microcosmo do Velho Testamento, termina apontando para além da sua história. O homem viajou para longe do Éden, para um esquife, e a família eleita para longe de Canaã, para o Egito, mas as suas ordens quanto aos seus próprios os­sos” foram um gesto de fé (Hb 11:22), que não sofreria desapontamen­to (Êx 13:19; Js 24:32). Não sairia um cortejo fúnebre como o de Jacó para Canaã: a questão esperaria o tempo de Deus e um êxodo melhor. Assim, a promessa foi simbolizada, como também comunicada oral­mente, e germinaria um dia na mente de Moisés (c/. At 7:23, 25), despertando-o para a sua missão. As palavras de José, pouco antes de morrer, resumiram a esperança sobre a qual o Velho Testamento, e na verdade o Novo (c/. Ap 22:20), cairiam em expectante silêncio: Certa­mente Deus vos visitará.




[1] Op. cit., p. 188.


[2] Op. cit., p. 172, desenvolvendo uma sugestão de A. von Hoonacker.


[3] Op. cit., p. 114.


[4] Os hicsos (“chefes de Terras Forâneas”) eram invasores semitas que dominaram o Egito de cerca de 1720 a 1580 a.C. Após a sua expulsão, até a fundação da décima nona dinastia, os Faraós governaram principalmente sediados em Tebas, uns 650 km ao sul.


[5] Ver a nota de rodapé de 45:10.


[6] Op.cit., p. 188.


[7] Assim Vergote, p. 192, em conformidade com a sua teoria de que José não era


mais do que o administrador da propriedade da coroa; ver, porém, comentário de 41:43.


44 The Wilbour Papyrus. II. Commentary (O.U.P., 1948), p. 202 (cit. por Vergote,


p. 191).


[11] NDB, p. 866e.


[12] Cf. Vergote, loc. cit., Kitchen, toc. cií.


[13] From Death to Life, p. 24.


[14] Possivelmente um ato simbólico declarando-os sucessão direta de Jacó, como nos ritos de adoção de um período mais recente. Cf. F. Büchsel no Theological Dictionary of the NT, de Kittel (Eerdmans, 1964) I, p. 669.


[15] O anjo de Deus ou do Senhor é uma expressão normalmente usada no Velho Tes­tamento para Deus manifestado em forma humana. Cf. 31:11, 13, e observe-se co­mentário de 16:13,14. Ver também a Introdução, p. 32.


[16] Ele afirma que o numeral deveria ser feminino (“uma”), se se referisse a ombro, no hebraico. Mas “ombro” é masculino em Sf 3:9, única outra passagem suscetível de re­velar o seu gênero (no original hebraico; AA: “de comum acordo”).


[17] Em árabe, uma raiz parecida significa “ser jactancioso”; em aramaico, “ser lasci­vo”. Falta de restrição parece constituir o elemento comum.


[18] Cf. von Rad, in loc.: “Se o que se diz no v. 4 acerca do antepassado contém uma recordação de um grave crime cometido pela tribo de Rúben, é-nos completamente in­compreensível...”


[19] Hebraico mekêrâ, cf. o grego machaira?As duas formas podiam ter um antepas­sado comum, ou uma ser copiada da outra (ver Gordon, Antiquity, XXX, 1956, p. 23), desde que havia contatos entre povos semitas e indo-europeus na Canaã deste período. Mas a semelhança pode ser fortuita, e há várias raízes hebraicas que podiam ter originado mekêrâ. Por exemplo, Speiser arrisca o sentido “mercadorias”, de mkr, “vender, nego­ciar”.


[20] Mas boi (sor) pode significar “cidadão proeminente”, como o demonstra B. Vaw- ter em CBQ, XVII, 1955, p. 4, sobre a analogia de Keret III., iv. 19.


[21] The Apocalypse of St. John (Macmillan, 1906), in loc.


[22] Entre outras interpretações, Speiser chama a atenção para a vocalização feita pelo Midrash das consoantes existentes como say lõh: até que o tributo venha a ele, apoiado por Is 18:7. A idéia de que Siló representa uma palavra acádia, shêlu ou shílu, governador ou conselheiro (assim Halévy, Jorna! Asiatique, 1910, p. 383, e, independentemente, G. K. Driver, JTS, XXIII, 1921-2, p. 70, e outros), é combatida por W. L. Moran como sen­do um “mito lexicográfico”, shílu significando de fato nada mais que “buraco” (Bib., XXXIX, 1958, p. 405-425).


[23] Quanto a uma versão deste oráculo completamente diversa (e super-engenhosa),

que o entende como um comentário alusivamente irônico dos feitos de Judá em Gn 37 e 38, ver E. M. Good, JBL, LXXXII, 1963, p. 427-432. '


[24] O bêbado de olhos turvos de Provérbios torna improvável a tradução, “mais es­curo do que o vinho ... mais branco do que o leite”. De qualquer forma, isto seria uma digressão do tema da abundância.


[25] TheHistory of Israet (A. and C. Black, 1958), p. 79.


[26] Noutro lugar em que ocorre esta palavra, Jz 5:16, o sentido de “redis” (AA: “currais”) pareceria mais facilmente aceitável. Mas é possível que a figura ai deva algo ao presente versículo, e retrate um animal negando-se a mover-se com a sua carga.


[27] Ver, por ex., DOTT, p. 196.


[28] Revelations of Divine Love, ed. Grace Warrack (Methuen, 1949), p. 169, citado por H. A. Williams em Soundings (C.U.P., 1962), p. 83.


[29] Pode-se levantar uma questão, vendo-se em vez disso, metáforas tiradas do mun­do animal, como em Dt 33:17. Ver a discussão de Speiser, in loc., e de B. Vawter em CBQ, XVII, 1955, p. 7.


[30] Quanto a um paralelo “daí”, como significando “de Deus”, Delitzsch cita “ali” (AV), em Ec 3:17. Mas em Eclesiastes o contraste com esta terra (3:16) dá lugar à expres­são.


[31] Op. cit., p. 197.


[32] Ibid.


[33] B. Gemser, em VT, II, 1952, p. 349-355, mostra que b 'èbèr hayyardên normal­mente significa “na região do Jordão”, melhor do que “além” dele. Demonstra também que Jerônimo localizou Atade um pouco ao sul de Jerico (em Bete-Hogla; cf. Delitzsch, in toe.). É território benjamita.


[34] Nada menos de vinte e sete referências a essa idade, provindas de todas as épocas, foram coligidas por J. M. A. Janssen (cit. por Vergote, p. 200).