13 de agosto de 2016

DEREK KIDNER - Jossé e a migração para o Egito (capítulos 37-50) Parte 1

antigo testamento danilo moraes
IV. JOSÉ E A MIGRAÇÃO PARA O EGITO (capítulos 37-50)

Era intenção de Deus, já revelada a Abraão (15:13-16), conduzir a família escolhida ao domínio estrangeiro, até que se enchesse “a medi­da da iniquidade dos amorreus”, e Canaã estivesse madura para a pos­sessão. Assim a cadeia de acontecimentos que levaria Israel para o Egi­to é posta em movimento através das rivalidades e condições dos doze irmãos, pela mão de Deus. Esta história é um locus classiâus da provi­dência. Também exibe, como o haveria de mostrar Estêvão, um esque­ma humano que percorre o Velho Testamento e culmina no Calvário: o povo escolhido de Deus rejeita os seus libertadores, pela inveja e incre­dulidade dos seus parentes — rejeição que, entretanto, é levada final­mente a desempenhar o seu papel na concretização do salvamento. 

O livro de Gênesis consegue apropriado fecho no fim da carreira de José, com a promessa a Abraão claramente em processo de cumpri­mento, embora apontado para nova intervenção, e com os descenden­tes de Abraão multiplicando-se rapidamente, chegando aos limites ex­tremos daquilo que se pode chamar de família. Concluído este “livro de familias”, os filhos de Israel se verão, no estágio seguinte da sua história, não como um clã sequer, mas “uma nação grande, poderosa e populosa”. 

37:1-11. José aliena-se da família. 

Como Isaque e Jacó antes dele, José é apresentado como üm mem­bro da familia especialmente escolhido. Esta eleição divina é um dos te­mas de Gênesis (cf. Rm 9:11), e o designio de Deus não se vê mais con­trariado pela indiscrição dos seus aliados (aqui Israel e José), do que pela malícia dos seus opositores. O relato dos sonhos, vindo logo no início, faz de Deus, não de José, o “herói” da história: não é um conto de qualquer sucesso humano, mas da soberania divina. 

1. Depois do capítulo parentético sobre Esaú e os edomitas, o v. 1 retoma o fio do capítulo 35, levando-o até o título de divisão no v. 2 (sobre o que, ver comentário de 2:4). 

2. A frase era um moço com ... (RV, RSV; AA: “sendo ... jo­vem”) provavelmente usa a palavra “moço” no sentido de servo ou ajudante (assim o entendem, por ex., Delitzsch, Speiser), desde que já se mencionou a sua idade. A observação que vem depois contribui com algo para o seu sentido. Isto é, ele estava com os seus dez irmãos mais velhos, mas confiado particularmente aos quatro que eram filhos das viúvas secundárias. As más notícias que José dava dos seus irmãos não devem ser julgadas segundo o critério da solidariedade de grupo. A nar­rativa, como de costume, não faz comentário; deixa-a ao menos pre­sumível que o primeiro dever de José era para com seu pai. Cf. a obri­gação de testemunhar, em Lv 5:1. 

3.Israel nada aprendera de sua anterior experiência com o favori­tismo. Suportaria uma carga mais pesada ainda de ódio e fraude do que aquela a que se rendera na mocidade. Fosse a prova de favorecimento um casaco multicolorido (AV, RV), uma longa túnica de mangas (AA: “uma túnica talar de mangas compridas”), ou uma vestimenta cerimo­nial com ornamentos,1 era ostentosa e provocante. Um traje denomina­do assim em 2 Sm 13:18 era vestimenta real. 

4.Não aconteceu apenas que um novo combustível estava tornan­do as chamas cada vez mais quentes contra José nos quatro estágios dos vs. 2, 4, 8 e 11, mas também o fogo ia-se espalhando. No versículo 2 só quatro irmãos parecem estar envolvidos; no v. 4 é o grupo todo; no v. 10 a censura do pai, embora moderada, completou o isolamento do ra­paz, deixando-o aparentemente a sós contra todo o seu mundo. Observe-se, porém, o v. 11, fato ignorado por José. 

10.Sobre a expressão, tua mãe, a única designação conveniente de Lia, ver comentário de 37:35 (“filhas”); cf. Lc 2:48 (“teu pai”). É irrealismo fazê-la implicar em que Raquel vivia ainda. 

11.As duas atitudes neste versículo são as que sempre dividem as pessoas em suas reações face a novas provindas de Deus. O ceticismo dos irmãos era emocional e violento; a mente aberta do pai era produto de alguma humildade. Israel já aprendera, ao contrário dos seus filhos, a admitir a mão de Deus nos fatos, e o Seu direito de escolha entre os homens. [1]



37:12-24. José à mercê dos seus irmãos. 

O cenário da conspiração, a um dia de viagem de Siquém, ficava convenientemente longe de Hebrom. Tudo, desde a mal planejada incumbência até o encontro casual com o estrangeiro, conjugou-se para entregar José nas mãos dos seus irmãos. Contudo, ver-se-ia que Deus estivera vigiando com tanto cuidado quando oculto, como em qualquer milagre. Os dois extremos dos Seus métodos juntam-se de fato em Dotã, pois foi ali, onde José gritou em vão (42:21), que Eliseu se achou visivelmente cercado de carros de Deus (2 Rs 6:13-17). 

17.Os arqueólogos chamam a atenção para a antigüidade conheci­da de Dotã e as outras cidades mencionadas nestes registros, e para a população esparsa pelo interior que tornaram possível, na época pa­triarcal (já não tanto, porém, nos séculos posteriores), aos pastores nô­mades errar pelas colinas centrais da Palestina.[2]

19.A expressão mestre de sonhos, da RVmg, é versão exagerada de um comum modo hebraico de indicar uma característica (por ex.M glutão, Pr 23:2; cheio de ira, Na 1:2, etc.). “Este sonhador” (AA: “tal sonhador”) está exatamente correto. 

21,22. O v. 21 resume o que o v. 22 descreve (precisamente como o v. 5 resume o v. 6, como o expõe Delitzsch). Se a intenção de Rúben só teve êxito pela metade, a verdade é que ele livrou José. 

Em acréscimo ao seu temperamento natural (c/. nota sobre 34:25, fim), Rúben tinha toda a razão em hesitar sobre a trama. O sangue, especialmente de um irmão (4:10; 9:5), era sacrossanto, e Rúben, como o mais velho da família, seria o principal responsável por ele. Também já não contava com o favor do pai (35:22). O que ele fizesse com José po­deria arrumá-lo ou reabilitá-lo. 

Sem absolutamente nenhum apoio textual, a maioria dos comentadores modernos[3] propõe a mudança de “Rúben” para “Judá”, no v. 21, “em vista do restante da análise”, como o coloca Bertnétt, isto é, a fim de fornecer uma variante para o v. 22, que de outro modo concorda com esse versículo. Discute-se este singular expediente na nota adicio­nal, p. 172. 

24.A ausência de água exigiu a observação porque a “cova” (AV) era uma cisterna (cf. AA). 



37:25-36. José vendido e levado para o Egito. 



25.A refeição é o retoque final da dureza de coração. Cf., em di­ferentes contextos, Pv 30:20; Mt 27:35. 

Sobre os ismaelitas, ver comentário do v. 28. Sua rota procedente de Gileade e passando por Dotã fazia parte da imemorial via de comu­nicação entre Damasco e a estrada costeira para o sul, e as suas especia­rias eram produtos básicos do comércio com o Egito. Quanto ao bál­samo de Gileade, cf. Jr 8:22. 

26,27. Judá desenvolverá mais tarde algumas excelentes qualida­des (43:9; 44:33). No presente, não há nada nele mais elevado que o in­teresse próprio; no v. 27 pode-se conceder a presença de certa com punção. Proveito (AV) não é metáfora aqui. É uma áspera palavra mo­netária, semelhante a “assalto” ou “comissão fraudulenta”. O sentido mais forte da frase e esconder-lhe o sangue é, “mesmo que esconda­mos...”, e esse ocultamento é, quem sabe, considerado como dúplice: do homem e, evitando-se o derramamento de sangue propriamente di­to, de Deus. 

28.A presença alternada dos nomes ismaelitas e midianitas nos vs. 25, 27, 28, 36 e em 39:1 bastaria para dar a idéia de que eram sinônimos ou equivalentes sobrepostos, mesmo que nenhuma outra prova o con­firmasse. Este ponto é deveras firmado por Jz 8:24, que diz dos midia­nitas: “tinham argolas de ouro, pois eram ismaelitas”. Daí parece que “ismaelita” era um termo inclusivo, abrangendo os primos nômades de Israel (Ismael era o rebento mais velho de Abraão), mais ou menos co­mo o termo “árabe” abarca numerosas tribos em nossa maneira de fa­lar, podendo alternar com um dos seus nomes sem ofensa ou erro.[4] O uso alternado pode ser, em parte para variar, e em parte para registrar tanto o ponto principal (que José foi vendido a um povo de fora da aliança) como o pormenor concreto. 

Em seu contexto, a afirmação: ...o alçaram e o tiraram deve referir-se àqueles que tinham acabado de planejar isso. Os midianitas serão o sujeito da ação somente se este versículo for isolado artificial­mente do anterior. (A ambigüidade de AV desaparece em AA.) Sobre isso, ver a nota adicional, p. 172. . 

Cf. os vinte siclos de prata com Lv 27:5. No início do segundo milênio a.C.[5] era esse o preço normal de um escravo. 

29.A ausência de Rúben, longe de constituir uma dificuldade na história, como alguns têm sugerido, concorda plenamente com a vida real, na qual sempre ocorrem idas e vindas (particularmente no pasto­reio de rebanhos de ovelhas). Obviamente, o seu plano de resgate enca­rava oportunidades para desligar-se do grupo sem levantar comentário. 

31.É um traço de mestre da narrativa deixar a agitação de Rúben respondida somente pela perversa ocupação com a túnica de José. E ha­via ironia na escolha de um bode (c/27:9) para a fraude. 

32.A frieza da expressão de teu filho, desdenhando o nome pes­soal, volta a ser captada no diálogo registrado em Lc 15:30: “esse teu filho...” (aí com a gentil correção: “esse teu irmão...”). 

35.O plural, filhas, presumivelmente inclui as noras (c/. Rt 1:11, para o qual von Rad chama a atenção). A desconcertante recusa do pai a conformar-se com a perda lança luz sobre os dizeres do Evangelho acerca da atitude de outro Pai em relação a avaliações fraternas (Mt 18:6, 10; cf. Pv 24:11, 12). 

Sobre as palavras de Jacó, ver comentário de 25:8 e 42:38. 

36.O texto hebraico traz aqui medanitas, não midianitas. Pode ser um deslize textual,[6] mas desde que 25:2 mostra a estreita relação en­tre ambos, a companhia bem podia ter incluído elementos dos dois. 

Sobre o nome Potifar, reconhecidamente egípcio, ver a breve discussão no NDB. Oficialé estritamente “eunuco”, mas o termo tornou- se sinônimo geral de “cortesão”. A tradução comandante da guarda é discutível, mas provavelmente certa. A alternativa é “açougueiro- chefe”, apoiado pela etimologia (do verbo “matar” gado, como em 43:16; cf. 1 Sm 9:23, “o cozinheiro”), também pela LXX e pelo uso de um título parecido em egípcio para uma espécie de mordomo.[7] Contu­do, a versão comandante da guarda harmoniza-se com o comando da prisão exercido por Potifar (40:3) e está evidentemente certa em 2 Rs 25:8 (onde AA traz o sinônimo, “chefe da guarda”). 



Nota Adicional sobre o Capítulo 37 

É amplamente difundida a idéia de que toda a história de José foi transmitida de diferentes formas no sul de Israel (J) e no norte (E), sen­do as duas traduções entretecidas em Gênesis por um redator, talvez do século oitavo A. D. Uma vez que o prestígio da teoria tende a protegê-la da crítica, expomos a seguir a sua forma padrão (dos episódios do rapto e da prisão) e oferecemos alguns comentários a respeito. 

Diz-se que a versão J narra em 37:21 como Judá (e não Rúben co­mo se afirma ali) impede os seus irmãos de assassinarem José e sugere a venda dele a alguns ismaelitas que se aproximam (não há o episódio da cova), que o revendem a um egípcio cujo nome não é dado (39:1). Pela malícia da mulher do seu senhor, José é lançado numa cadeia comum (39:20, suprimindo-se a referência aos “prisioneiros do rei”), onde se eleva alcançando posição de confiança, e encontra o mordomo e o pa­deiro reais (40:1,3). 

Em E a sequência começa com Rúben persuadindo os irmãos a depositarem José numa cova (37:22), da qual, porém, é roubado pelos mi­dianitas enquanto os irmãos tomam sua refeição. Os midianitas o vendem a Potifar, alto oficial (37:36), e é posto a servir o mordomo e padeiro real mantido prisioneiro na casa de Potifar (40:2, 3, 4). Não hou­ve nenhum episódio de sedução, e José é apenas escravo, não prisionei­ro (pois 40:3,15 são explicados como intromissões de J). 

a. O mais notório traço disto é a liberdade que toma com o texto. Rúben é eliminado de 37:21 (J) e Judá é posto no lugar dele,[8] apenas para fazê-lo diferir do v. 22 (E). Nega-se o nome e posição de Potifar em 39:1 (J) só porque concorda com 37:36 (E). A referência aos prisio­neiros do rei é retirada de 39:20 (J) apenas para que não dê apoio a 40:2. (E). As afirmações de que José era prisioneiro em 40:3, 15; 41:14 são negadas a E, somente porque corroboram 39:20, de J. Além disso (antecipando), a afirmação de que José foi vendido, e não apenas rou­bado, em 45:4, 5, também será suprimida, para não eliminar o conflito daquela passagem E com J. 

Qualquer teoria que faz isso com os seus dados está confessando o seu fiasco. , 

b. Supõe uma técnica de narrativa completamente inflexível. A consternação de Rúben ao encontrar vazia a cova (37:29) — pelo que o leitor de repente fica sabendo da sua ausência temporária — é conside­rada uma discrepância, não porque sua ausência fosse inconcebível, mas porque não foi registrada. Isso é impor uma abordagem indevida­mente laboriosa a qualquer autor. É ademais um jogo de palavras, tra­tando a palavra de José, “roubado”, em 40:15, como contrária ao mo- íif de compra e venda, como se a venda tivesse sido honesta. Na verda­de, Dt 24:7 esclarece (como se fosse necessário dizê-lo) que o sequestro com vistas à venda é roubo de natureza particularmente odiosa. 

c. Subestima a complexidade dos acontecimentos reais. Voltando a Rúben, um escritor de obra de ficção pode manter dez irmãos e seus rebanhos compactamente juntos entre um incidente e o seguinte, sem extravio de ovelhas e sem apelos das necessidades naturais que separassem um ou outro do grupo. Por contraste, há a negligência característica da realidade na circunstância de que Rúben de alguma forma esquecera a transação com os comerciantes. É a verdade, não a ficção, que tem essas pontas soltas. Ainda, a presença de mais de uma causa da inveja de que José era vitima, Longe de ser “outra pista segura” de uma narrativa dupla,[9] é fenômeno dos mais naturais — como von Rad, qua­se o único dos modernos, o indica.[10]

d. Presume que onde se diz uma coisa duas vezes, é dita por dois escritores. Esta hipótese é antieconômica. Por exemplo, em 37:5, a delaração resumida de 37:5 e os pormenores de 6-8 relacionam primeiro o novo acontecimento com o que se havia passado antes, e depois o deenvolvem. Este método é compreensivel e mesmo admirável; não neessita do aparelhamento de dois autores e um editor para explicá-lo. A mesma coisa se pode dizer dos vs. 13, 14; dos vs. 18, 19; dos vs. 21,22; e assim por diante. É uma expansão da forma familiar: “ele respondeu e disse”, “ele levantou os olhos e viu”, etc. Entretanto, essa escola de pensamento raramente se detém a considerar tão singela possibilidade. 

e. Subjacente a todo o precedente está a não confessa presunção de que uma abordagem harmonizadora da Escritura é de certo modo desonesta. Assim, a resposta simples dada em Jz 8:24 ao problema ismaelita-midianita é quase invariavelmente silenciada, e onde o texto de Gênesis dá explicito apoio à unidade da história, é o texto, e não a teoria, que sofre emenda, como o esclarecem as referências da seção a. e os demais exemplos dados na nota adicional do cap. 42. Isso talvez surja de um quixotesco desejo de enfrentar o pior, mas dificilmente se pode considerar atitude adequada. Uma teoria que insiste em alterar o seu dado fundamental, o texto, repetidamente, drasticamente, e sem o apoio de uma única versão antiga, talvez seja bem intencionada; dificil­mente pode ser verdadeira. 



38:1-30. Judá e sua sucessão familiar. 

Como peça de história familial, este capitulo é importante em que estabelece a antigüidade dentro da tribo de Judá, e contribui para a genealogia real de Mateus 1:3; Lucas 3:33. Como’rude interrupção da história de José, atende a outros propósitos também. Deixa suspenso o leitor, com o futuro de José na balança. Coloca a fé e a castidade de José, que logo serão descritas, num contexto que salienta a sua rarida­de. E completa o retrato do lider eficiente no meio dos dez irmãos. Não há boa razão para a assertiva, mas freqüentemente feita do que funda­mentada, de que os atores desta história são personificações de clãs. A narrativa (como a do cap. 34) tem uma coerência e uma precisão de pormenores que defendem vigorosamente a veracidade das pessoas e dos acontecimentos que a compõem. 

Contudo, os pecados e estratagemas desses indivíduos são de signi­ficação familial, e a história só pode ser apreciada nestes termos. O futuro pende das suas escolhas. O enredo gira em torno do direito que Tamar tem de ser a mãe do herdeiro de Judá, e as suas sucessivas frustrações e eventual vitória constituem o interesse dominante da nar­rativa. Num plano mais elevado, o livro de Rute trata de uma variante deste tema. E ambas as vezes a linhagem davídica, messiânica, estava envolvida, sem que o soubessem, no fato em foco. 

1-11. A linhagem de Judá em perigo. 

Nos vs. 1, 2 há casualidade nos passos de Judá rumo ao casamen­to, à semelhança de Sansão (Jz 14:1), e não se registra o nome da sua mulher cananéia, como a filistéia daquele. No fim da sua história, ain­da é conhecida apenas como filha de Sua (12). Adulão, torrão mais tar­de famoso pela caverna de Davi, ficava no território ao sul ou sudoeste de Jerusalém, e coube à tribo de Judá, após a conquista (cf. 2 Cr 11:5, 7). 

7.A não especificada perversidade de Er, como a específica de Onã (cf. 9, 10), é registrada por sua contribuição para a crise de suces­são. Ao mesmo tempo, acentua o abismal declínio moral da família es­colhida, contida por um pouco somente pela notável piedade de José. Essa tendência para um imediato salto para longe da graça, sempre que a fé deixa de ser força ativa, é evidente mais de uma vez em Gênesis. Mas este esquema aparece mais elaboradamente no livro de Juízes. 

8-10. O fato de que uma única palavra hebraica basta para a frase, cumpre o dever de cunhado (RSV) confirmaria que essa prática era normal, mesmo que não houvesse registro da lei em Dt 25:5ss. Cada uma das três referências que o Velho Testamento faz a este regulamento (cf. Rt 4:5) mostra que ele poderia ser mal recebido, principalmente devido ao fato de que o doador entrava com grande porção para a herança da família — menos para a sua própria parte. A enormidade do pecado de Onã está em seu planejado ultraje à família, à viúva do seu irmão, e ao seu próprio corpo. As versões inglesas usadas como modelos não dei­xam claro que Onã persistia nessa prática. Quando (9, AV, etc.) deveria traduzir-se por, “Sempre que” — como o faz AA: “todas as vezes que”. 

11. A insinceridade de Judá aéabou por evidenciar-se, havendo protelação após protelação (14, 26), pois é claro que decidira que Tamar era fatídica, e ele não tinha a intenção de arriscar a sorte do último filho que lhe restava — nem de enfrentar a ira de Tamar dizendo-lhe is­so. 

12-26.O estratagema de Tamar. 

Tamar estava totalmente interessada em seu direito de matriarca da mais antiga linhagem de Judà. A última frase do v. 24, “que seja queimada”, mostra o risco aceito por ela. A admissão de Judá, no v. 26, reconhece a injustiça que Tamar derrotou com seu gesto desespera­do. Ela demonstra algo do espírito indómito de uma Ester, de uma Jael ou de uma Rispa. Mas o texto, fiel à sua pragmática, não faz co­mentários sobre a moralidade do seu ato. Indiretamente, contudo, sua colocação dentro da história de José, fá-lo contrastar notavelmente com a fé que poderia ser arvorada e vindicada, em apertos muito piores do que os que ela sofreu. 

10.A tosquia de ovelhas era ocasião festiva (c/. 1 Sm 25:4, 11, 36), quando a tentação sexual seria aguçada pelo culto cananeu que in­centivava a fornicação ritual como magia da fertilidade. A palavra para prostituta nos vs. 21, 22 sugere que Tamar posou como prostituta cul­tual, talvez para ter dobrada segurança de captar sua vítima.11 O véu, do v. 14, parece confirmar isso, desde que (se a lei assíria serve de guia) nenhuma prostituta, exceto uma que o fosse cultual (e casada), podia usá-lo.[11] [12]

Tal era o mundo ao qual se unira Judá. Os profetas (por ex., Os 4:14) relatam o seu poder corruptor sobre Israel nas gerações vindou­ras. 

16.O cordão (RV, RSV, AA) esclarece que o sinete (AV) não era um anel, e sim um selo (c/. AA), provavelmente cilindrico, pendente do pescoço, que fazia parte do vestuário de todo homem de posição. O “cajado”, frequentemente entalhado, era também distintivo do seu do­no; cf. v. 25. 

24. Não temos por que desconfiar que houve hipocrisia consciente na explosão de Judá, tanto como na profunda desonestidade de adotar um padrão para os homens e outro para as mulheres. Oséias 4:14 (RSV, AA), citado acima, é um dos ataques explícitos mais antigo a esse fato. 



27-30. Os filhos gêmeos de Tamar. 

A luta pré-natal, não muito diversa da de Jacó e Esaú (25:22-26), leva um capítulo violento a um fim condizente, e apropriadamente lança a tribo de Judá em sua carreira. O fio encarnado é a espécie de minúcia que uma família lembra e transmite. Mas Perez (“que rompe saída”) é considerado o primogênito nas genealogias, e fói a linhagem dele que levou a Davi (cf. Rt 4:18) e assim a Cristo. 

39:1-23. José posto à prova. 

A simetria deste capítulo, em que a serena abertura (1-6) se equipa­ra, ponto por ponto, em novo nível ao encerramento (19-23) a despeito de tudo o que interfere, expressa perfeitamente o tranquilo domínio exercido por Deus e a tranqüila vitória do homem de fé. A boa semente é enterrada fundo, para então lançar-se para o alto; o servo que é fiel no pouco, marcha para a posse de autoridade sobre o muito. 

Sobre o Conto dos Dois Irmãos, egípcio, ver a nota adicional deste capítulo, p. 178. 

1-6. José como escravo de confiança. 

No v. 1, a frase inicial é mais estritamente: “Ora, José fora leva­do...”, reassume a história depois da digressão do cap. 38. 

Quanto ao nome e aos títulos de Potifar, ver comentário de 37:36; e sobre a prova deste versículo em favor da unidade da narrativa, ver a nota adicional do cap. 37, p. 172. 

2. RSV (semelhante a AA) é melhor, com “tornou-se homem de sucesso”. A palavra-chave reaparece no v. 3, que poderia traduzir-se “...feito ...(homem de) sucesso”. O toque ligeiramente complacente da expressão em inglês não faz parte dela. É a palavra para, por exemplo, o êxito da missão de Eliezer em 24:21, 40, e do Servo sofredor em Isaías 53:10. Fala de realização, antes que de posição social. 

3-6. O modo como o v. 3 toma o v. 2 e o leva um passo além (do sucesso ao sucesso observado) é seguido de novo nos vs. 4 e 5, onde a promoção do servo vem a ser a bênção do amo; e a progressão toda é coroada pelo v. 6, sendo que o seu pináculo final prepara o leitor para o ataque, que esse final quase convida. 

6-18. A tentação de José. 

As razões de José para a recusa (8, 9) foram as que outro homem podia ter dado para ceder, tão neutra é a força das circunstâncias. O fa­to de estar livre de supervisão e a sua rápida promoção, que corrompe­ram outros mordomos (c/. Is 22:15-25; Lc 16:1), como também a sua compreensão de que somente uma esfera (9) lhe era barrada (que ou­tros, de Eva em diante, têm interpretado como frustração), para José foram todos eles argumentos em prol da lealdade. Dando à proposta o correto nome de maldade (9), fez da verdade sua aliada, e ao relacionar tudo com Deus (9c), plantou a sua lealdade a seu amo bastante fundo para manter-se. 

10.A pressão constante, dia após dia (RSV), foi profundamente intensa. Foi isto que atrapalhou Sansão duas vezes em sua carreira (Jz 14:17; 16:16). Veja, por contraste, a persistência noutra espécie de pres­são imposta, conforme Hb 3:13. Ademais, o ataque tinha flexibilidade; se José não podia ser levado a conturbar-se, podia ser adulado, pois uma recusa‘a quando muito “estar com ela” pareceria completamente desarrazoada. Não se deixando atrair, José mostra a sabedoria realista de, por exemplo, Pv 5:8 (“Afasta o teu caminho da mulher adúlte­ra...”), e da oração do Senhor; cf. o conselho de Ezequias aos cida­dãos, em 2 Rs 18:36. 

11-12. Sofrendo resistência até o fim, a tentação pôde seguir seu curso completo e desenvolver toda a sua estratégia: a primeira aborda­gem, com adulação e procurando impressionar (7); o longo atrito, pela constante reabertura da questão encerrada (10); e agora, a cilada final, onde se ganha ou se perde tudo num momento (12). A fuga de José, di­versa da de um covarde, salvou sua honra à custa das suas perspectivas; atitude que o Novo Testamento recomenda (2 Tm 2:22; 2 Pe 1:4). 

14. A nota de desprezo aqui e no v. 17, ao falar a mulher de este hebreu; “o servo hebreu”, faz acorde com os tons sociais do nome, quanto se conhecem. Ver comentário de 10:24. Pelo golpe de lado dado a seu marido com a expressão de ofensa sofrida, “Vede, trouxe-nos meu marido este hebreu...” (RSV: Vede, ele trouxe para o nosso meio...), a mulher de Potifar deu colorido à sua estudada pose de víti­ma, e pressionou o marido a agir. 

19-23. José como prisioneiro de confiança. 

Sobre a simetria destes versículos, em relação aos vs. 1-6, ver o comentário introdutório do capítulo. A humilhação, já bastante severa, é reeditada em nível mais profundo, embora não demasiado profundo para Deus. 

19, 20. A morte era a única penalidade que razoavelmente José podia esperar. Seu abrandamento presumivelmente deveu muito ao res­peito que havia conquistado. E o fato de Potifar mesclar ira e auto- repressão talvez reflita uma leve dúvida quanto à plena exatidão da denúncia. Mas o desenvolvimento da história patenteia que Deus, que o tinha levado para lá, o estava preservando para a sua tarefa. 

Uma palavra incomum, sõhar, que se acha somente nestes capítu­los, é empregada para “prisão”. A raiz hebraica sugere uma estrutura redonda e, portanto, uma fortaleza talvez, termo usado pela LXX para traduzi-la. Sabe-se de prisioneiros enviados a esses postos de defesa e submetidos a trabalho forçado. Alternativamente, a palavra pode transliterar um nome egípcio, mas não se fez ainda nenhuma identifi­cação convincente.[13]

Este capítulo harmoniza-se com o capítulo 40 no emprego deste ra­ro termo para prisão (40:3, 5), na apresentação de José como prisionei­ro {cf. 40:3, 15), e no registro de que os presos do rei também estavam confinados ali. Os que opõem os dois capítulos um ao outro (ver a nota adicional, p. 172.), fazem isso afrontando esta prova, que é textual­mente incontestável, fora a omissão de sõhar em 40:3 (não 5), na Ver­são Siríaca. 

19.Quanto à presença de Deus e seus efeitos, cf. vs. 2-4. Mas a lembrança preservada em SI 105:18 corrige qualquer idéia de que José teve recepção amável: “cujos pés apertaram com grilhões, e a quem pu­seram em ferros”. 

22-23. Cf. vs. 4-6, e 41:40, 44; as notáveis habilidades e integrida­de de José, coroadas pelo toque de Deus, eram constantes em todos os níveis: como prisioneiro e como governador ele era simplesmente o mesmo homem. 

Nota Adicional sobre o Capítulo 39 

O Conto dos Dois Irmãos, fantasia egípcia conhecida graças a um manuscrito da parte final do século treze a.C., é muitas vezes compara­do com a história deste capítulo, atribuindo-se-lhe até o papel de fonte de inspiração dela. Começa com a vã tentativa de sedução de um jovem feita pela mulher do seu irmão, a qual se vinga do seu fracasso acusando-o de estupro. O rapaz escapa da morte às mãos do irmão por um milagre espetacular, e suas aventuras posteriores, que incluem sua transformação num touro e num par de árvores, são uma miscelânea de prodígios mágicos. Certamente a sedução, a recusa e a calúnia são pon­tos de evidente semelhança. Mas, como o observa J. M. Plumley, “exigir-se-ia muito maior similaridade nos pormenores ... para justifi­car a sugestão muitas vezes feita de que a narrativa egípcia é a origem do incidente descrito em Gênesis”.[14] Plumley demonstra mais, que a si­ tuação não é inteiramente única, como o evidencia a literatura doutros povos. 

40:1-23. Os sonhos do mordomo e do padeiro. 

1.O hebraico é mais forte do que ofender. Isto é, este versículo mostra que houve base para o aborrecimento registrado no v. 2. 

Mordomo-chefe (copeiro) e padeiro ou “padeiro-chefe” eram ofi­ciais altamente considerados: cf. em dias posteriores Neemias que, co­mo copeiro de Artaxerxes, era influente e de muita capacidade. Ver também comentários dos vs. 11 e 17. 

3.José estava confinado (RSV): somente negando esta prova e a do v. 15 é que se pode sustentar que este capítulo retrata um José que não foi prisioneiro. Ver a nota adicional da p. 172. 

4.Não é surpreendente que os arranjos para atender a esses notáveis recém-chegados fossem feitos pelo próprio comandante da guarda[15] (presumivelmente Potifar ainda, que se lembraria da fidedignidade de José), e não por seu subordinado, o “carcereiro”[16] cujos pro­cedimentos para com José foram descritos em 39:21. Assim José, tendo afinal conseguido subir a um ponto mais elevado, desceu outra vez, co­mo servo de prisioneiros.[17] [18] Entretanto, isto, em vez de sua promoção anterior, haveria de mostrar o caminho para frente. 

6-8. O pronto interesse de José traz à luz outra faceta dele, além da eficiência e da integridade. E sua imediata referência a Deus soa com tom de sinceridade: era hábito da sua mente (cf. 39:9; 41:16, 51, 52; 45:8; etc.). Da parte dos que sonharam, a convicção de que os sonhos têm sentido é igualmente típica: era crença comum no Egito que eram proféticos, e se desenvolveu um conjunto de escritos sobre a arte de interpretá-los. 

Como J. Vergote expõe, as ações do sonho podem simbolizar, em vez de descrever, os deveres do copeiro, mas possivelmente lançam luz sobre o epíteto “limpo de mãos” que às vezes acompanhava o seu título. Os seus deveres incluíam abrir e provar vinho. Isto é, era res­ponsável pela qualidade do que apresentava. 

10.Quanto à expressiva metáfora de levantar a cabeça de alguém que fora rebaixado (AV), cf. 2 Rs 25:27 e, com outro verbo hebraico, SI 3:3; 27:6. Ver, porém, comentário do 19. 

15.Sobre a significação de roubado, e de me pusessem nesta mas­morra, ver a nota adicional do cap. 37. 

16.Uma palavra hebraica, hört, que se acha somente aqui, explica as traduções variantes. Uma raiz árabe parecida dá a idéia de brancura (isto é, dos cestos ou do seu conteúdo); outra, favorecida por Speiser, sugere obra de vime. 

17.J. Vergote[19] chama a atenção para as 38 variedades de bolo e 57 de pão arroladas no Wörterbuch der ägyptischen Sprache, que dão corpo à frase, toda sorte de manjares feitos por padeiro (AV, RV) e dão uma idéia dos padrões profissionais deste setor. 

19. Quanto ao início crítico, ambíguo, deste oráculo sobre desti­no, cf. 27:39, e observe-se: parece que era um estilo aceito. Contudo, a patente crueldade da frase, como aparece no frio papel impresso, levan­tando esperanças somente para frustrá-las, pode ser ilusória. Nada ha­via que impedisse que a tristeza da notícia ficasse de imediato evidente no modo e no tom de voz do orador. 

41:1-45. Os sonhos de Faraó e a elevação de José ao ministério público. 

1, 2. RSV, AA acertadamente especificam o Nilo, como o hebrai­co o deixa claro. Podemos notar de passagem o colorido egípcio do so­nho, com as vacas saindo do rio (onde, como o indica Vergote, gosta­vam de ficar meio submersas, abrigadas do calor e dos insetos) em bus­ca de pasto no carriçal (RV, RSV, AA) ou nos canteiros de papiros. O termo hebraico ’ãhü, para os últimos, é um estrangeirismo oriundo do Egito;[20] reaparece em Jó 8:11 {cf. LXX de Is 19:7 e de Eclesiástico 40:16). 

6. Vento oriental é quase uma expressão técnica para designar o vento do deserto, fosse o seu quadrante estritamente leste ou não. Essas rajadas abrasadoras — o siroco da Palestina, e o khamsin do Egito — podem ser devastadoras para as colheitas {cf. Ez 17:10; Os 13:15s.).[21]

7.“Magos” (AV: mágicos) é outra palavra de base egípcia, har­tummim-, parece fazer parte de um título composto, designativo dos pe­ritos em manusear os livros rituais do ofício sacerdotal e da magia.[22] Aparecem em Êxodo 7:11, onde foram necessários encantamentos; aqui estariam consultando a considerável literatura sobre sonhos (cf. comentários de 40:6-8). 

13.O modo hebraico de colocar as coisas, reproduzido em AV, RV, a mim restaurou ... a ele enforcou, é digno de nota pelo apoio que dá a outros dizeres bíblicos nos quais uma declaração pode soar como uma ação praticada (por ex., Jo 20:23: “... perdoardes ... retiverdes 

14.As palavras fora da masmorra (AV) são mais outro sinal da unidade da narrativa; ver a nota adicional do capítulo 37. 

O fato de José barbear-se é outro pormenor da etiqueta egípcia, contrariamente à semita (exemplo, Jr 41:5). 

15.16. Enquanto Faraó pensava em perícia na “ciência” dos so­nhos, José repudiou quase explosivamente toda essa abordagem (a ex­plicação, não está isso em mim é uma palavra só). Com eloqüente brevída, passa de si para Deus (a posição na sentença a torna enfática) co­mo o único revelador, governador e benfeitor. Sua maneira abrupta contrasta-se cdm o modo polido como Daniel fala com o mesmo objeti­vo (Dn 2:27-30). Talvez se possa sentir a agitação não ainda serenada depois da súbita mudança dos acontecimentos. 

_ 19. O toque descritivo extra no v. 19 faz do relato mais que mera 

repetição, e somente agora tomamos conhecimento da falta de mu­dança no gado magro (21), que será interpretada no v. 31. 

25. A reiteração da frase, que ele (Deus) há de fazer (AV: O que Deus está para fazer...), no v. 28, e a ênfase do v. 32 à sua certeza e imi­nência, são apelos para a ação, não para a resignação — exatamente co­mo na pregação dos profetas. Discute-se o principio em Jr 18:7-10. Ver a seguir, porém, comentário de 33. 

33. É importante notar que a fome iminente, diversamente de muitas das desgraças preditas no Velho Testamento, não é julgamento. È uma das irregularidades da vida, e José demonstra que um sábio ad­ministrador dará segurança contra estas, adotando medidas extraor­dinárias, se for capaz de ver perigos extraordinários. O princípio da profecia prenunciadora está de pé (ver comentário do v. 25, acima): Deus procura reação ativa. A uma ameaça de julgamento, a reação es­perada será de arrependimento; a uma advertência amigável (cf. Jr 38:17; Mt 24:15), precauções realistas. 




38, 39. O Espírito de Deus seria uma frase colorida de politeísmo para Faraó, que não foi o último homem da Escritura a falar mais sabiamente do que sabia (cf. Jo 11:49-52). Suas palavras nos dois versículos mostram que o protesto inicial de José (16) lograra um tento.

40. Sobre o sentido de sobre a minha casa (AV), ver comentário e nota de rodapé do v. 42. Enquanto o sentido geral da segunda frase é claro, a expressão traduzida por será governado (AV) ou se ordenarão (RSV) apresenta dificuldade. A segunda alternativa de RVmg, “pres­tará homenagem”, está mais próxima do hebraico, que traz literalmen­te, “beijará”. Isto se harmoniza com a metáfora, quer do beijo de ho­menagem, costume comum na entronização, quer do gesto de beijar o pó (prostrando-se), que corresponde a um idiotismo egípcio.[23] A ex­pressão ‘alpikã (lit. “à tua boca”) significa “à tua ordem”, como em 45:21.

42.O cargo de José “sobre a casa”, tendo acima de si somente Fa­raó (40) é geralmente o do vizir.[24] O “anel de sinete” levava a autorida­de do rei, embora esta fosse delegada a mais de um oficial proeminente (ver nota de rodapé), e linho fino (uma palavra egípcia) era traje da cor­te. Uma corrente de ouro (AV) ou colar (cf. AA) era emblema costu­meiro da apreciação real desde um período muito antigo; comumente era prêmio por serviços já prestados, mas também é exibido como um dos pormenores da investidura de um vizir no reino de Seti I (cerca de 1300). Todavia, o valor desta inscrição (uma pintura tumular),[25] quan­to a lançar luz sobre a história de José, é discutível, visto que a ocasião foi uns 400 anos mais tarde.

43.Embora seja possível entender as outras honras de José como sinais de uma primazia simplesmente departamental (ver a nota de ro­dapé sobre o v. 42), o segundo carro claramente o proclama o próximo depois de Faraó: o primeiro cidadão, ou vizir, de todo o território. Do­brai os joelhos (AV) confirma-se como o sentido mais provável do mandado ’abrêk, que parece ser uma forma adaptada de uma raiz semita, que se sabe foi imitada em egípcio. Reflete uma etiqueta retratada nos desenhos egípcios. (Quánto a outras sugestões, ver NDB, p. 744, sub verbum “Inclinai-vos”, e referências ali registradas.)

45.Está bem documentada a prática de dar nome egípcio a estran­geiros, mas não existe acordo sobre o sentido de Zafenate-Panéia. Têm- se dado interpretações com base no egípcio, tão diferentes como “Deus falou, e ele vive” (G. Steindorff), “Aquele que sabe coisas” (J. Vergo­te), e “José”, queéchamado ’Ip‘ankh’(K. A. Kitchen).[26]

Azenate e Potífera são reconhecivelmente nomes egípcios, signifi­cando respectivamente “Ela pertence (ou, Que ela pertença) a Neith” (uma deusa), e “Aquele que Ra deu”. Ra era o deus sol, cultuado em On, cidade que mais tarde os gregos denominaram Heliópolis, cidade do sol.

41:46-57. José inicia a sua administração.

45.O registro da idade de José assinala uma história que começou quando ele tinha dezessete anos (37:2) e chegará a seu clímax noutro período de nove anos (45:6), mais de vinte anos depois do primeiro rompimento com os seus irmãos. É comparável à extensão de tempo, quanto a Abraão, entre promessa e cumprimento (12:4; 21:5), e quanto a Jacó, a serviço de Labão (31:41). Cada um destes períodos demora­dos foi frutífero, mas não houve dois deles semelhantes na forma e no propósito.

A observação de que José andou por toda a terra do Egito, quase repetindo 45, salienta a energia pessoal da sua administração; teria sido fortalecida pela alegria da libertação?

51, 52. Estes nomes, que são hebraicos, não egípcios, condizem com os dois lados da experiência de José. Com Manassés havia ainda os sentimentos mistos que vão com o encerramento de um capítulo da vi­da, expressos nas duas frases de 51. Com Efraim, havia um sentimento mais vigoroso de cumprimento, talvez devendo algo à fenomenal pro­dutividade da terra nesse momento (cf. v. 47), segundo a promessa.

55. Talvez haja um eco intencional desta história do grande prove­dor, no registro feito por João das palavras semelhantes (“Fazei tudo o que ele vos disser”, Jo 2:5) que abriram caminho para o milagre de Caná. O que José foi para os homens dos seus dias (talvez João o tives­se implícito em seu registro), isto e muito mais Jesus seria para o mun­do.

56, 57. Quão grave fome pode ter havido no Egito, que é uma fai­xa de solo fértil entre desertos, indica-se duas vezes nos relatos que con­tam que os seus habitantes recorreram ao canibalismo.[27] Mas, porque a Palestina era regada pelas chuvas e o Egito pelo Nilo, era raro a colhei­ta falhar simultaneamente em ambos (c/. 12:10; 26:1, 2). Desta vez, fo­ram somente as medidas tomadas por um homem que impediram uma catástrofe múltipla.

42:1-38. Os irmãos de José vão ao Egito em busca de cereais.

1-5. Jacó envia todos, menos Benjamim.

O toque de aspereza nas palavras de Jacó mostra uma não dimi­nuída firmeza de punho, reminiscente do seu ativo conselho dado aos pastores de Harã, muitos anos antes (29:7); e sua recusa em separar-se de Benjamim revela com bastante clareza o que ele viera a suspeitar. Suas palavras de firme decisão e de falta de confiança (4)[28] refletem com exatidão o estado do seu conhecimento: acerca do destino de José, não viera à luz um fato; acerca da culpa dos irmãos, pouca dúvida res­tava. Aos olhos de um pai, os seus crimes concretizados podiam ser acobertados, mas o caráter deles não.

3.Sobre o uso do nome Israel nesta passagem, ver comentário de 45:21.

6-17.0 primeiro encontro com José.

À primeira vista, as rudes manobras que agora dominam a cena até o fim do capítulo 44, têm a aparência de espírito vingativo. Nada pode­ria ser mais natural, mas nada está mais longe da verdade. Por trás da dura atitude assumida havia caloroso afeto (42:24, etc.), e sob o exame, bondade irresistível. Mesmo as ameaças foram temperadas com a mise­ricórdia (c/. 42:16-19; 44:9,10), e os choques aplicados tomaram a for­ma de embaraços, não de golpes. Um José vingativo poderia ter levado os irmãos ao desânimo total com pesadas cargas, ou tê-los submetido a suplícios para seu gáudio, como eles o haviam supliciado (37:24, 25). Os enigmáticos presentes que fez foram um teste dos mais benévolos e profundos. Como a sua política foi bem-intencionada, pode-se ver no florescimento de atitudes inteiramente novas nos irmãos, pois a alter­nação de calor e gelo levou-os a abrir-se para Deus.

3.Governador é antes uma vigorosa palavra hebraica, que salien­ta o domínio completo exercido por José.

7.A lembrança dos sonhos foi mais que confirmação; à presente cena faltou o pleno cumprimento da promessa dada por meio deles, e talvez tenha levado José a insistir na presença da família toda — insis­tência que começou a fazer. “Para ver a nudez da terra” (AV, RV) era um modo enfático de dizer: para espreitar as nossas atividades privadas (AA: “para ver os pontos fracos da terra”).

18-38. Simeão é deixado como refém.

Os três dias que todos eles passaram juntos na prisão deram ampla prova da autoridade do governador. Sob esta luz, o seu interesse pelas famílias deles e sua motivação confessa, pois temo a Deus, não podiam deixar de fazer pensar (18-20). A nova decisão pode ter sido uma verdadeira mudança de opinião; em qualquer caso, traz à luz o saudável efei­to de um governo exercido piedosamente. O inverso se demonstra em 14:1,4.

21. Os clamores da vítima, quando nos rogava, ou “nos pedia misericórdia”, não se ouvem no capítulo 37, mas somente aqui, voltando a zunir nos ouvidos que antes se haviam fechado para eles. Um sabor de retribuição (angústia ... esta angústia, AV; AA: “angústia ... esta ansiedade) foi despertando sentimentos que as lágrimas de um irmão e do pai não tinham tocado nem um pouco.

24.O refém era necessário para garantir o retorno dos irmãos, e Simeão, o mais velho depois de Rúben, era a escolha óbvia.

25.Quer José quisesse que o dinheiro fosse encontrado na primei­ra parada, ou só quando chegassem em casa (se a comida para o cami­nho estava num pacote à parte), o acontecimento provou-se mais eficaz do que o esperado num ou noutro caso, com o seu choque inicial repeti­do com maior força ainda em casa, na presença de Jacó.[29]

O sentimento de culpa, já despertado (21), levou depressa o grupo a ver a mão de Deus no modo de agir do governador. Consequentemen­te, a sua pergunta: Que é isto que Deus nos fez (28), é, na medida do seu alcance, um modelo de frutífera reação ao dissabor (cf., por ex., a atitude descrita no Salmo 60), embora Jacó não consiga ver além do dissabor propriamente dito. Sua ênfase, no v. 36, é compreensível, mas instrutivamente mal orientada: “Tendes-me privado ... Todas estas cousas me sobrevêm” (ou “vêm contra mim”), nesta boa tradução do texto hebraico. E Jacó se fecha na suicida posição defensiva do v. 38 e de 43:1-10.

35.Sobre a relação do oferecimento de Rúben com o de Judá (43:8), ver a nota adicional, abaixo.

36.“Sheol"w (RSV) é mais acurada tradução do que sepultura, de AV, RV, AA, e comunica mais da essência deste prognóstico, que pode ter incluído a idéia de não achar repouso na morte. As palavras causaram profunda impressão; cf. 44:29,31, 34.

Nota Adicional Sobre o Capítulo 42

A escola de pensamento que acha duas tradições por trás da história de José[30] [31] sustenta que do capítulo 39 em diante elas não estão mais entrelaçadas, mas se alternam. Julga-se que o editor seguiu a tra­dição J no v. 39, E nos vs. 40-42 (exceto o último versículo), J nos vs. 43, 44 (mais 42:38), e E de novo nos vs. 45-46:5, deixando contudo cair uma frase de tempo em tempo, de um relato a outro.

Esta análise se obriga a desafiar os seus critérios linguísticos habituais, desde que, do capítulo 40 até o fim de Gênesis, o nome Yahweh só aparece uma vez (49:18), e as passagens aqui atribuídas a J empre­gam o termo de E, Elohim (e na verdade o termo de P, [El] Shaddai, cm 43:14; 49:25). Os nomes Jacó e Israel, outro critério, recortam repe­tidamente a análise nos capítulos 42-46. Portanto, a abordagem é mais subjetiva, partindo da convicção de que as duas tradições defendi­das para o capítulo 37 terão continuado, deixando seus traços em dupli­catas e variantes, conquanto o editor tenha feito o melhor que pôde pa­ra fundi-las numa só.

Assim, se a análise ampla atribui a E o início do incidente de Simeão, quaisquer referências a isso em J são excluídas do sistema, e o conseqiiente silêncio de J33 sobre o assunto (ver algo mais, abaixo) é tratado como uma divergência importante. Ou, se Judá e seus irmãos di­zem a Israel em 43:3 (cf. 44:19) que a história da sua família só foi pos­ta a descoberto pela pressão de um interrogatório, isso é tratado como incompatível com 42:7, onde a informação parece voluntária, em res­posta a uma acusação de espionagem. A resposta elementar, de que estas passagens dão extratos complementares da entrevista, não é sequer considerada. Faz-se a suposição de que não podemos saber o que aconteceu, mas somente o que as histórias põem diante do editor do Pentateuco.[32] O mesmo tratamento é dado ao episódio do dinheiro no cereal. É fraca a razão para achar dificuldade no fato de que somente um ho­mem notou o seu dinheiro quando os sacos foram abertos, e é mais que natural que os irmãos resumissem o seu relato dos dois estágios da descoberta (43:21). Mas se cria um caso com isso. Em J, todo o dinheiro vem à luz na viagem, e em E, todo ele em casa; daí a descoberta feita por um dos homens deve ser um fragmento introdutório de J, privado da sua conclusão e inserido em E para interligar os dois elementos incompatíveis.[33]

Todavia, as duas principais discrepâncias são captadas nos papéis desempenhados por Simeão, Rúben e Judá.

a. Simeão. Como se observou acima, diz-se que Simeão só aparece em E (42:19, 24). No conclave da família, segundo J, em 43:1-14, o que pretensamente se discute é a fome, não o refém, e quem ocupa em primeiro lugar os pensamentos de Israel é Benjamim, não Simeão.

Isso é artificial, porém. A dificuldade surge precisamente porque o capítulo 43 foi despojado do seu contexto. Na história não mutilada os irmãos tinham alimentado a esperança de voltar logo a Simeão, com Benjamim, mas foram proibidos disso (42:33-38). Somente a renovada pressão da fome reabriria a questão (43:1). Esta seqüência não é apenas coerente; encaixa-Se exatamente nas duas realidades paralelas da po­sição fixa de Jacó e da persistência da fome.

A dificuldade é artificial noutro sentido mais. De acordo com 43:14, Simeão foi mencionado na discussão, e só se pode dizer que este capitulo “nada sabe dele” silenciando este testemunho (sem nenhuma prova textual), pondo-se depois a silenciar o testemunho correlato do v. 23.Pois, para a perplexidade da teoria, o final da história de Simeão está metido no estrato errado. Aprisionado em E, faz manobras para ser solto em J (43:23) — foi sempre indisciplinado — e uma vez mais tem-se que diagnosticar uma interpretação harmonizadora, para ajus­tar o texto à teoria.

b. Rúben e Judá. Pela análise, diz-se que E faz de Rúben (42:37) a segurança de Benjamim, enquanto J confia esse papel a Judá (43:8-10); assim, a fonte nortista de E esposa a tribo do norte, e a sulista, a do sul. Mas Rúben, por esta teoria, não faz o oferecimento apenas; é aceito, pelo silêncio de E, como Judá o é em J. Portanto, em lugar de dois estágios, há duas histórias rivais.

Se se pergunta o que foi feito da negativa de Jacó a Rúben (42:38), a resposta é que a análise faz amputação dela,[34] enxertando-a no capítulo seguinte (43:2), de molde a deixar Rúben sem ouvir resposta e aceito por inferência. Uma vez mais não existe base lingüística para o deslocamento; e desta vez o sentido da alteração é exatamente o inver­so.

Aqui de novo, a discórdia é criada gratuitamente, fora do material harmonioso. Correspondia fielmente à situação e à personalidade, que Jacó recusasse o inoportuno oferecimento de Rúben, em quem, em to­do caso, ele não confiava (42:37, 38; cf. 49:4), mas aceitasse o de Judá (43:8), quando forçado pela fome. Era só questão de bom senso que um filho diferente fizesse a segunda abordagem, e há coerência em que fos­sem estes dois que se erguessem um tanto acima dos demais, como no capítulo 37. Para romper tão forçosa seqüência, as provas teriam de ser irresistíveis.

Em nenhum caso há este peso de prova contra a integridade da narrativa. O leitor bem pode perguntar-se qual modo de entender o tex­to requer a justificação menos complicada, ou explica mais convincenemente o poder e a vitalidade da história.






'Assim Speiser, in loc., de um item de um texto cuneiforme catalogado em JNES, 8, 1949, p. 177. 


[2] Cf. J. Bright, A History of Israel (S.C.M., 1960), p. 74. 


[3] Speiser é uma exceção. 


[4] Cf. o seguinte: “Perguntei se íamos encontrar árabes em Jabrim, e Muhammad disse: ‘É-nos forçoso encontrar Murra lá’ ... Eu esperava realmente encontrar árabes em Jabrim” (W. Thesiger, Arabian Sands, p. 232). Quanto a um exemplo egípcio (de cerca de 1850 a.C.) de três designações aparecendo em poucas linhas, cf. K. A. Kitchen, NDB, p. 862b. 


[5] Cf. K. A. Kitchen, NDB, p. 517c. 


[6] Todas as versões antigas trazem “midianitas”. 


[7] J. Vergote, Joseph en Égypte (Louvain, 1959), p. 31-35. 


[8] Mas Speiser diverge disto (Genesis, p. 291). 


[9] Skinner, p. 443. 


[10] Mas depois von Rad atribui isso ao desenvolvimento pré-literário do material, não à forma real dos acontecimentos (Genesis, p. 354). 


[11] M. C. Astour, JBL, LXXXV, 1966, p. 185-196. Ver especialmente p. 192; em ou­tros lugares o argumento tende a afastar-se dos dados. 


[12] O v. 15, contudo, usa a palavra comum para prostituta, e Speiser pode estar certo em sugerir que foi o amigo de Judá que introduziu o vocábulo religioso “a fim de colocar a questão em um nível social mais alto”. 


[13] Ver Vergote, p. 25-28. 


[14] DOTT, p. 168. O texto integral do “Conto” e dado em A. Erman, The Literature of the Ancient Egyptians!, Methuen, 1927, p. 150-161. 


[15] Quanto ao efeito amaciador da simples idéia de dinheiro ou posição, cf. At 23:18, 19:24:23,26. 


[16] Sobre a graduação dos componentes do pessoal em serviço na prisão, ver K.A. Kitchen, “Um papiro egípcio recentemente publicado e sua relação com a história de José”, em TyndaleHouse Bulletin N? 2 (Winter 1956-7), p. 1,2. 


[17] É curioso que esta nova vicissitude, tão característica das abruptas inversões num regime autoritário, é comumente tomada como estando em conflito com 39:22, a despeito da afirmação de que se deu passadas estas cousas (40:1). 


[18] Op. cit., p. 36. 


[19] Op. cit., p. 37. 


[20] Ver Vergote, p. 59-66. Parece desnecessário, e precário, tentar estabelecer cone­xões mais sutis com o pensamento egípcio pela exploração das idéias associadas à vaca. O gado e o trigo concretos, nos dois sonhos, registram de modo suficientemente vivido as condições de fartura ou de fome. 


[21] Cf. D. Baly, The Geography of the Bible (Lutterwork, 1957), p. 67-70; G. A. Smith, The Historical Geography of the Holy Land 13 (Hodder and Stoughton, 1907), p. 67-69. 


[22] Cf. Vergote, p. 66-73. 


[23] Vergote, p. 97. Quanto ao beijo de homenagem, cf. SI 2:12; quanto a prostrar-se, SI 72:9. 


[24] Contudo, W. A. Ward, JSS, V, 1960, p. 144-150, discute isto. Argumenta que a preeminência de José foi departamental, como superintendente dos Celeiros do Alto e Baixo Egito, e mordomo das terras da coroa, diretamente sob o rei. Conquanto fosse, se­gundo essa opinião, “um dos mais importantes oficiais do governo egípcio”, e estivesse entre os elementos da elite da nobreza, não seria o único a levar o selo real ou a receber o título de “Pai de Deus” (isto é, de Faraó), implícito em 45:8. Contra essa idéia, ver co­mentário do v. 43. Doutro ângulo, J. M. A. Janssen, Ex Oriente Lux, XIV, 1955-6, p. 66, nota a ausência do nome de José entre os vizires que conhecemos; mas J. Vergote mostra que poucos desses nomes sobrevivem, do período dos hicsos (p. 105). 


[25] Reproduzido em NDB, artigo “José”. 


[26] Estas são discutidas em Vergote, p. 141-146, e em NDB, p. 1673. 


[27] J. Vandier, La Famine dans L’Egypte Ancienne (Cairo, 1936), p. 8, 14. 


[28] Ou pensamentos (c/. RSV). A expressão disse ele (AV, RV); dizia (AA) pode ser empregada com referência a palavras ditas ou não ditas. 


[29] Em 43:21, os irmãos compreensivelmente resumem a história para o mordomo, para quem os dois estágios da descoberta seriam uma digressão. 


.w Sobre este vocábulo, ver NDB, s.v. “Inferno” 1; R. Martin-Achard, From Death to Life, p. 36-47; A. Heidel, The Gilgamesh Epic and Old Testament Parallels, p. 137­223. 


[31] Ver a nota adicional do cap. 37, p. 171 

Passagens atribuídas a E contem Jacó oito vezes e Israel cinco, as atribuídas a J contem Israel três vezes e Jacó uma. 

" por ex., von Rad, p. 377: “o cap. 43:1 ... nada sabe de uma detenção de S meão" — isto a despeito de 43:14, 23! 


[32] “As várias narrativas patriarcais ... não podem mais ser consideradas como regis­tros dignos de fé provindos das vidas reais destes homens” (G. von Rad, Old Testament Theology, II [Oliver and Boyd, 1965], p. 424). Cf. Skinner, p. 473: “Os escritores levam ao máximo a sua inventividade para retardar o dénoument do enredo”. 


[33] A palavra pretensamente J para “saco”, ’armatjaf, ocorre neste “fragmento”, 42:27, 28. Mas sucede o mesmo com a palavra E, saq; assim também a palavra E para Deus, Elohim. Lingüisticamente, o equilíbrio é constante, e a presença dos dois sinôni­mos num versículo deveria desencorajar a tentativa para lançar um contra o outro. 


[34] Contudo, com a divergência de Speiser (Genesis, p. 323).