9 de agosto de 2016

DEREK KIDNER - Jacó e o surgimento de Israel (Capítulos 27-36)

antigo testamento danilo moraesJACÓ E O SURGIMENTO DE ISRAEL (capítulos 27-36) 


27:1-46. Jacó toma posse da bênção.

Para uma visão geral da carreira de Jacó, ver comentário de 25:19. Julgaremos mal a situação se passarmos por alto a prova de Hb 12:16,17 de que, ao vender o direito de nascimento (25:31ss.), Esaú vendera a bênção a que tinha direito como primogênito. Isso torna qua­se igualmente culposos todos os quatro participantes da presente cena. Isaque, sabendo ou não da venda, sabia do oráculo pró-nascimento, de 25:33; todavia, empregou o poder de Deus para frustrá-lo (veja-se o v. 29). Esta é a perspectiva da magia, não da religião. Esaú, havendo con­cordado com o plano, quebrou o seu juramento, de 25:33. Rebeca e Jacó, tendo justa causa, não se aproximaram, nem de Deus, nem do homem, não fizeram nenhum gesto de fé ou de amor, e colheram o fru­to próprio do ódio. (Muito mais tarde Jacó aprenderia, enquanto abençoava a Efraim e Manasses, com que simplicidade Deus podia pôr em ordem essas coisas. Ver os comentários introdutórios do cap. 48.)

Estes estratagemas rivais só conseguiram fazer “tudo o que a ... mão e o ... propósito (de Deus) predeterminaram” (cf. At 4:28). Como um retoque de acabamento, numa hora em que Isaque não estava em condições de preocupar-se com quem Jacó poderia casar-se, este viu-se lançado fora do ninho que tão bem tecera, para procurar refúgio e es­posa entre os próprios parentes para os quais Abraão se voltara em obe­diência à visão (24:3).

1. Todos os cinco sentidos desempenham papel importante, em grande parte por sua falibilidade, nesta clássica tentativa de manejar responsabilidades espirituais mediante a luz da natureza. Ironicamente, mesmo o paladar, sentido de que Isaque se orgulhava, deu-lhe resposta errônea. Rebeca não teve a mínima dúvida de que poderia reproduzir a obra-prima gastronômica de Esaú — teria ela se aborrecido muitas ve­zes por isso? — numa fração do tempo gasto por Esaú. Mas o verdadei­ro escândalo é a frivolidade de Isaque. Fazia muito tempo que o seu pa­ladar governava o seu coração (25:28) e silenciava a sua língua (pois não teve forças para censurar o pecado que foi a queda de Esaú). Agora se propõe a fazer do seu paladar o árbitro entre povos e nações (29). A incapacidade para o ofício se mostra em cada ato deste homem cego, ao rejeitar a prova dos seus ouvidos, preferindo a das suas mãos, ao seguir as incitações do paladar e ao procurar inspiração por meio do nariz — acima de tudo mais (27). Todavia, Deus pôs todas estas coisas a Seu ser­viço.

12. RSV, substituem com acerto enganador (AV, RV) pela pala­vra zombador. O verbo é raro, mas 2 Cr 36:16 firma o sentido.

27-29. Deus toma e reorienta as vacilações e ambições de Isaque — as quais contêm um cerne de fé (Hb 11:20) — de molde a responder- lhes além de tudo quanto pode pedir ou pensar. As roupas do caçador, recendendo aroma dos campos, evocam a promessa da terra, realçada agora numa visão da abundância (em termos que seriam ampliados em Dt 11:11-15, por exemplo), não apenas de um espaço para viver. Seu ar­dente orgulho por Esaú exige que se lhe dê um império, contra o decre­to de 25:23 — e os SI 72 e 87 mostrarão de diferentes maneiras como o rei e a cidade de Jacó o desfrutarão. Finalmente, a maldição e a bênção protetoras são levadas a falar daquilo que dependerá da atitude de cada um (29, AV) para com o verdadeiro Israel.

33. As palavras de Isaque: e ele será abençoado, expressam mais que mera crença em que a palavra falada se faz cumprir; ele sabe que tem lutado contra Deus, como Esaú, e aceita a derrota.

34. Sobre o brado com profundo amargor, em Flb 12:16,17 se diz a última palavra.

39,40. A bênção de Esaú inicia-se com um eco da de Jacó. Evidentemente um eco melancólico, pois as palavras: da fertilidade ... (RV) podem igualmente significar: longe da fertilidade ... (RSV, cf. AA), co­mo o contexto agora exige. Cf. o double entendre em 40:13,19, e veja- se a nota de rodapé 29, do comentário de 3:15.

Assim Isaque pronuncia para Esaú o apropriado destino de alguém profano: a liberdade de viver sem ser abençoado (39) e não dominado (40).

41-46. A rapidez com que Rebeca compreende situações e personalidades mostra-se de novo, primeiro em seu reconhecimento de que deve perder Jacó para salvá-lo, e depois no seu manejo persuasivo tanto do filho como do pai. Em Jacó provocou suficiente alarme (42), espe­rança (43-45) e compunção (45) para arrancá-lo, caseiro como era. Contudo, não precisa partir como fugitivo, mas contando com o apoio do pai no lar que deixa atrás, e rumando para o abrigo da família da mãe — e Isaque há de ser quem, de preferência, lhe surgira a idéia. Com este fim, levantar Rebeca o assunto do casamento de Jacó foi um golpe de mestre; isto jogava também com o interesse próprio de Isaque e seus principios, A perspectiva de uma terceira nora hetéia e de uma es­posa perturbada desfibraria até mesmo um Abraão. A vitória di­plomática de Rebeca foi completa. Porém nunca mais tornaria a ver o filho.

28:1-9. Jacó é enviado à Mesopotâmia.

A segunda fase da vida de Jacó inicia-se agora (ver comentário de 25:19-34), e providencialmente, por meio da diplomacia de Rebeca (ver acima), já podia deixar o lar tendo um objetivo diante de si e uma bênção do pai atrás — o que constituía em si mesmo uma advertência a Esaú para que não interferisse. Embora Esaú tenha dado a atenção ao fato, sua tentativa de fazer o que fora aprovado foi, como costumam ser todos os esforços religiosos do homem natural,' superficial e avalia­da erroneamente. Tomar uma terceira esposa, ainda que uma ismaelita fosse melhor do que uma hetéia, não era bem o caminho de volta à bên­ção.

1. Padã-Arã, isto é, a planície de Arã, era o distrito situado perto de Harã, a noroeste da Mesopotâmia, onde se estabelecera Naor, irmão de Abraão. Era a terra natal de Rebeca.

2. O título Deus Todo-poderoso, El Shaddai, ligava-se especial­mente à aliança com Abraão (17:1), que Isaque estava interessado em acentuar, como o versículo seguinte o demonstra. Em sua solidão, Jacó podia estar seguro de que estava longe de achar-se isolado, e a inusitada frase: uma companhia de povos (RV, RSV; AA: “uma multidão de po­vos”) acrescenta novas riquezas às promessas feitas a Abraão e a Isa­que. Na palavra companhia, derivada da raiz de “congregar-se”, o ter­mo veterotestamentário para igreja ou congregação faz o seu primeiro aparecimento, trazendo consigo a idéia de coesão, bem como de multiplicidade. Aparece ligado a Jacó de novo em 35:11; 48:4.

5. Sírio (AV, RV) é melhor vertido para arameu (RSV, AA). Os arameus mais tarde estabeleceriam um reino em Damasco, mas nesta época achavam-se mormente muito mais ao norte. [1]



28:10-22. O sonho e o voto de Jacó.

Esta é uma suprema demonstração da graça divina, não procurada e incondicional. Não procurada, porque Jacó não era nenhum peregri­no ou pródigo de regresso, e contudo Deus saiu ao encontro dele, com Seu séquito de anjos e tudo, tomando-o totalmente de surpresa. Incon­dicional, pois não houve uma palavra de recriminação ou de exigência; somente uma torrente de garantias fluindo do foco central: “Eu sou o Senhor”, para propagar-se do passado (13) até o distante futuro, do ponto em que Jacó pousava (13) até os quatro cantos da terra (14), e de sua pessoa até abranger toda a humanidade (14). Foi também de ime­diato pertinente, pois atendeu à sua condição solitária, desamparada e precária, dando-lhe a segurança da aliança com os seus antepassados, adjudicando-lhe uma herança territorial e prometendo-lhe salvo- conduto.

A réplica de Jacó é freqüentemente condenada como simples trato comercial. Contudo, na medida do seu conhecimento, sua resposta foi tão completa quanto possível. Expressou profundo temor (16,17), prepcupação antes de tudo com o Ser que viera ao seu encontro, e não com as coisas que lhe foram prometidas. Daí decorreram a sua home­nagem e o seu voto de empenhar-se na aliança. Seu voto não foi um tra­to comercial, mais do que qualquer outro voto (a condicional “se” é inerente à forma). Seria mais bonito dizer que Jacó tomou a promessa do v. 15 e transferiu o geral para o particular. Além disso, ele acertadamente entendeu que o seu dízimo (22) não era uma oferta, mas uma de­volução.

12. “Escadaria” é melhor vocábulo do que escada, em vista do caudal de mensageiros subindo e descendo. No original, a palavra é análoga ao “montão” levantado contra uma cidade murada, 2 Sm 20:15, etc.).[2] Sobre o patrulhamento da terra feita pelos anjos, cf. Zc 1:1 Oss.; Jó 1:6.

Jesus tomou esta figura de um meio de acesso entre o céu e a terra, como vivida fruição antecipada do fato de ser Ele o Caminho (Jo 1:51).

13. O fato de que perto dele estava o Senhor, quer “em cima” da escadaria, quer (mg) “ao lado dele”, assinala esta ocasião como não das menos importantes: Deus e o céu inteiro estão atentos ao que ocor­re. Pode mesmo haver um contraste entre os anjos como comissionados de Deus na terra em geral, e o Senhor tratando em pessoa com Jacó (cf. Dt 32:8,9, RSV). Certamente esta vocação e seu resultado tomam na Escritura posição muito mais elevada que a ascensão e a queda dos impérios.

14. Sobre a expressão, serão abençoadas, ver o comentário de 12:1-3.

17. A porta dos céus convida-nos a frutuosa comparação com a história de Babel, principalmente em vista do nome desta. Ver o comentário de 11:9.

18. Coluna e azeite são os símbolos normais do memorial {cf. Dt 27:2; Is 19:19) e de consagração (Lv 8:10,11; cf. o Messias ou Cristo, o “ungido”. As colunas posteriormente proibidas eram marcos distinti­vos de Baal (Dt 12:3) e objetos de culto (Mq 5:13).

19. Betel quer dizer “Casa de Deus”. Cf. versículos 17,22.

22. A dádiva do dízimo era voluntária antes de ser ordenada. Tornar-se-ia um ídolo para os fariseus (Mt 23:23). Mas o princípio das ofertas proporcionais é mantido no Novo Testamento, embora sem especificação (1 Co 16:2).

29:1-30. Jacó e as filhas de Labão.

Em Labão, Jacó encontrou o seu competidor e o seu meio de disciplina. Vinte anos (31:41) de penoso labor e de atritos haveriam de do­mar o seu caráter. E o leitor pode refletir que presumivelmente Jacó não é a única pessoa necessitada de um Labão na vida.

Por intermédio deste homem, Jacó sorveu largamente o seu próprio remédio da duplicidade. Contudo, mesmo quando perdedor, revelou qualidades inexistentes em Esaú. A tenacidade que mostrou em seu nascimento e, de modo supremo, em Peniel, capacitou-o a conside­rar a frustração quanto a Raquel como simples recuo. Entretanto, mantendo-se na rota haveria de ganhar um prêmio maior do que todos quantos conhecera até então.

1-14. O incidente junto ao poço foi particularmente oportuno, em que apresentou o recém-chegado a Labão como um benfeitor em vez de um pedinte — não pequena conquista em se tratando desse tipo de ho­mem. Também nos retrata Jacó em suas características de homem im­pulsivo e empreendedor. A aquiescente atitude dos pastores (com o seu lema negativo (8): “Não podemos ...”e, com efeito, “Nós sempre ...”) não é para ele. Além disso, ele sabe tirar o melhor proveito das suas ações rematando a sua proeza de homem forte com outra de serviço, e este seguido da comunicação dramática. É uma entrada soberba.[3]

17.Tenros (AV, RV) provavelmente tem o sentido dé fracos (RSV), quer na visão, quer (como von Rad sugere) na cor (Cf. AA: “Baços”).

18.Sete anos era uma bela oferta. É evidente que Jacó não queria arriscar-se a uma recusa — fato que Labão não deixaria de notar e de explorar, como Jacó explorara a avidez de Esaú (25:32).

19.A resposta de Labão, conduzida de maneira que desse a apa­rência de consentimento sem seu conteúdo real. Dissimulou bem.

20.Poder-se-ia esperar que os sete anos pareceriam dolorosamen­te longos. A questão é que como preço por tal noiva, eram uma ninha­ria. .

21.O modo como Jacó falou, sem mencionar nome, veio a calhar para Labão. Mas de qualquer forma Labão não teria dificuldade em atender a seu modo à petição.

24.A abrupta menção do presente de uma serva para a noiva (cf. 29) é mais um dos pormenores iluminados pelas lâminas gravadas de Nuzi.[4]

25.As palavras: viu que era Lia constituem a própria encarnação do anticlímax, e neste momento uma miniatura de desilusão do ho­mem, experimentada do Éden em diante.

Todavia, a narrativa revela que Deus, e não Labão, teve a última palavra. O enganador Jacó foi enganado, e a desprezada Lia foi exalta­da, vindo a ser a mãe das tribos sacerdotal e real de Levi e Judá, além doutras tribos.

26.A afável resposta de Labão era verdadeira, sem dúvida, con­quanto algo tardia (cf. 18,19). Era inútil argumentar. Caracteristicamente, Jacó tratou de recuperar o que pudesse.

27.A semana era a semana das bodas (cf. Jz 14:17). Seguiu-se-lhe o casamento com Raquel, e o serviço extra de sete anos foi subseqüente, como a seqüência incluída no v. 30 o indica.

28.Mais tarde se proibiu o casamento com duas irmãs durante a vida de ambas (Lv 18:18). A presente narrativa ajuda a mostrar por que. É também um exemplo de registro fiel dos fatos, não fazendo re­troceder a lei como se pertencesse a um período mais antigo.

29:31-30:24. Os filhos de Jacó, de Rúben a José.

Em suas relações familiares Jacó prosseguiu semeando semente de amargura. Sua frieza para com a esposa não desejada é compreensível, mas 29:31 mostra que Deus, bem como Lia, pensou nisso. Existem pou­cas coisas mais patéticas do que os nomes dos três primeiros filhos de Lia, e modo de dar-lhos. Alguns frutos das misérias e intrigas deste período emergem nos últimos capítulos do livro, e as tribos estavam fa­dadas a ir através da história carregando consigo as lembranças das suas origens turbulentas. No plano humano, a narrativa demonstra a sede que os seres humános têm de amor e reconhecimento, e o preço que se tem que pagar por frustrá-la. Ao nível divino, mostra uma vez mais a graça de Deus escolhendo material difícil e nada prometedor.

31. O significado de odiada (AV) nesta espécie de contexto (cf. Dt ^1:15) é demonstrado pelo v. 30; um termo quase equivalente seria “não amada” (cf. AA: “desprezada”).

32. O sentido especial que Lia deu a Rúben iguala-se ao padrão já discutido em 4:1. O nome era provavelmente de uso comum (“Olhem, um filho”); com um único fio de cordel a partir dele, ela agora alinhava os seus pensamentos e esperanças.

Assim também com os nomes restantes. Na maioria, como aqui, um verbo começa a linha de pensamento, e alguns dos arabescos são mais livres que outros. Todos eles refletem as tensões e vitórias domés­ticas imediatas. Mais tarde, na bênção de Jacó (cap. 49), os nomes e os incidentes ligados a eles darão surgimento a oráculos prospectivos para as doze tribos.

30:3. A expressão: nos meus joelhos (AV; AA: “ao meu colo”) se usa de modo semelhante em 50:23 com o sentido de: “filhos contados como meus próprios” (onde AA traduz como AV). Cf. comentário de 16:1-3.

8. Grandes lutas são literalmente “lutas de Deus”.

11. Gade, que pode significar tropa (AV), é também palavra que significa fortuna (cf. LXX, RV, RSV, AA) e, a despeito de 49:19, este é o sentido mais provável, especialmente em vista do v. 13. Em Isaías 65:11 a Fortuna tornou-se uma deusa, como aconteceu com os termos equivalentes Tyche e Fortuna em grego e latim.[5]

14. Cria-se que as mandrágoras davam fertilidade, como o seu amoroso nome hebraico sugere. Daí a avidez de Raquel por elas. O resultado foi irônico: as mandrágoras nada fizeram por Raquel, ao passo que, partilhando delas. Lia teve outro filho. É mais um exemplo, nesta família, de comércio feito com coisas que deviam estar acima do comércio, e de recorrer a Deus, na adversidade, com o coração dividi­do. Mas o nome Issacar, com um elemento que lembra aquela estranha permuta, recebeu de Lia a sobreposição de um significado mais feliz no v. 18; cf. comentário de 21:6. Mais tarde ainda, receberia outras asso­ciações; ver comentário de 49:15.

20.Duas raízes hebraicas, z — b —dez — b — /, são usadas num jogo de palavras nas duas metades deste versículo, e agora parecem es­tar ligadas tanto pelo sentido como pelo som, à luz da palavra acádia zubullü, “presente do noivo”. Speiser, que chamou a atenção para esta raiz, traduz a segunda sentença assim: “Desta vez o meu marido me trará presentes...”. Desde que AV, RV, AA tiveram que inserir a pre­posição “com” para formar o sentido de permanecer, e desde que hon­rar, da RSV, tem derivação precária, a sugestão de Speiser tem muita coisa a seu favor.

21.Diná reaparecerá no capitulo 34.

23,24. Há certa assonância entre ’ãsãp (“tirou”, literalmente “recolheu”) cyõsêp (possa ... acrescentar). A oração contida neste nome é bom exemplo da fé que insiste em obter mais do que aquilo que Deus já deu.

30:25-43. Jacó suplanta a Labão.

Se Labão estranhamente parecia não suspeitar da proposta do seu genro, certamente era porque tinha olhado para além dela e formara o rápido plano em contraposição que consta dos versículos 35,36. Pôr três dias entre os dois rebanhos, e seús próprios filhos a cargo dos ani­mais malhados, inclinou habilmente a balança a seu favor. Qualquer protesto teria posto fora a Jacó.

Na obtenção da resposta, Jacó deveu a Deus mais do que talvez te­nha imaginado, apesar do seu reconhecimento, em 31:9. Dispondo as varas listadas por ocasião do acasalamento, agiu baseado na crença ge­neralizada de que se algo impressionar vivamente a visão durante a gra­videz ou a concepção, deixará sua marca no embrião. Mas é evidente que isto não tem fundamento algum.[6] Sem dúvida, parte do seu sucesso veio do acasalamento selétivo (40-42), mas este processo sozinho teria funcionado com muita lentidão, como o considerou o próprio Labão.

Evidentemente, Deus interferiu (ver 31:9-12) para concretizar as espe­ranças que Jacó depositara nas varas, usando-as Deus como usara as flechas de Joás ou os ossos de Eliseu como meios (ou ocasiões) para operar milagrosamente. Não seria a última vez que a Sua participação no bom êxito de um feito seria muito maior do que parecia ao observa­dor.

27.AV, RV têm toda a razão de inserir a palavra: “fica” (AA: “fica comigo”). Labão prepara o caminho para a proposta que faz no versículo seguinte. Não está sendo desinteressadamente obsequioso co­mo pretende RSV. Quanto à sua expressão: “Adivinhei” (RV, melhor do que a de AV: Aprendi pela experiência; cf. AA: Tenho experimenta­do), ver 44:5,15. Labão pode ter literalmente procurado prognosticadores, ou ter falado figuradamente. O uso que o Velho Testamento faz do verbo sugere o primeiro termo da alternativa.

32. Na primeira metade do versículo, as palavras: todas as ovelhas salpicadas e malhadas (RSV; cf. AV, RV, AA) parece, ter-se arrastado para dentro do texto, vindas da segunda metade. Nesta passagem, elas estão ausentes da LXX, e os atos de Labão, no v. 35, confirmam que a parte de Jacó consistia das ovelhas (AA: “cordeiros”) negras e dos bo­des multicores (AA: “... listados e malhados e todas as cabras salpica­das e malhadas”) — em cada caso o tipo mais raro.

37. Pelou-as. Istoé, descascou-as (AA: “... lhes removeu a cas­ca”).

38,39. RSV insere as palavras desde que e assim, mas o hebrai­co se satisfaz em estabelecer a seqüência pura e simples, como em AV, RV, AA, sem firmar relação de causa e efeito. O v 39 é post hoc (se­qüência natural), não explicitamente propter hoc (efeito de uma causa eficiente).

43. Jacó formou esta riqueza num período de seis anos (31:41). 31:1-21. Jacó foge de Labão.

Dos fatores que agora agitaram o ninho de Jacó, impelindo-o a retornar à casa paterna, o mais premente foi a atitude perigosa de Labão, com habilidade exposta reticentemente no v. 2, pois o contrato agora o irritava para onde quer que se voltasse (7,8). Mas Jacó foi chamado, além de compelido. Havia seu voto para cumprir, à ordem de Deus no novo sonho; havia também seu irmão, para ser encarado, simplesmente ao chamamento da sua consciência — pois parece que ele seguiu espontaneamente o árduo curso de 32:3. Esta elevada motivação não deve ser obscurecida por sua discrição. Sem dúvida ele agiu aí em grande parte como estrategista, como qualquer pessoa se sentiria tentada a agir com Labão, mas também estava sendo obediente à convocação divina.

1.Se Jacó estava ficando com a parte do leão, os seus críticos ig­noraram por conveniência o imenso aumento do total (30:30) e os ca­torze anos de trabalho não remunerado. Foi algo perfeitamente justo.

A idéia básica de glória (AV) no hebraico é peso; portanto, subs­tância ou riqueza (RSV, AA) é tradução apropriada. Mas a escolha da palavra sugere que os seus parentes ficaram ao abrigo do seu estilo de vida (cf. 30:43).

2,3. A seqüência: Jacó ... reparou ... E disse o Senhor é digna de notar-se como exemplo de direção divina. Os fatos externos o alertaram para a voz interior. Eles próprios não bastavam para guiá-lo. Note-se também que o que o senhor disse harmonizava-se com a Sua promessa anterior, de 28:15. Jacó faz um relato mais completo da visão nos v. 11­13, abaixo.

3. Deste versículo e do v. 19 emerge o fato de que Labão agora abandonara as suas astutas operações com os rebanhos (cf. 30:35,36), sem dúvida fazendo uma das suas revisões do acordo.

4. Como Jacó pretendia levar consigo uma família que fosse voluntariamente e como peregrina, sua fala visava a algo mais que a autodefesa. Apontava para a mão de Deus em seu sucesso, e agora para o chamamento de Deus presente na proposta que fez. Também evoca devidamente uma resposta de fé, demonstrada na réplica registrada no v. 16 (cf. coment. de 24:34-51).

6. Dez é muitas vezes usado como número redondo. Nós provavelmente diríamos “cem” ou “mil vezes”.

8,9. Feita esta colocação, a prova do favor de Deus parece incontestável. E na verdade foi um fator decisivo, como Jacó quis dar a en­tender. Este é o conteúdo substancial do sonho (cf. v. 12). Ver também comentário de 30:25-43.

11.O Anjo de Deus é uma vez mais uma expressão que se refere ao próprio Deus. Cf. 13 e a Introdução, p. .

13. A construção hebraica (a menos que lhe faltem algumas pala­vras, como a LXX sugere) dá à frase o sentido de : “O Deus em Betel”.

14,15. A exploração que Labão fazia de suas filhas não lhes pas­sou despercebida. Ao perder a boa disposição delas para com ele, pa­gou parte do obscuro preço da cobiça em geral (cf. Hc 2:6-8).

14- Ver comentário de 5, acima.

19. Ao roubar os terafins (RV; AV: imagens) ou ídolos do lar (AA, RSV), Raquel pode ter tido um motivo religioso, em parte (cf. 35:2,4), mas o fato de que possuí-los poderia fortalecer a reivindicação da herança (como o revelam as lâminas de Nuzi)[7] dá-nos o mais provável indício do seu ato. Retinem nesse feito as suas palavras, em 14-16, e se pode imaginar Raquel dizendo-se a si mesma que não estava se apropriando de nada mais do que era seu de direito. Mais uma vez nesta narrativa, o próprio ato sugerido pelo seu egoísmo levou-a à beira da desgraça.

21. Siga-se RSV: ... e cruzou o rio Eufrates, e firmou o rosto na direção da região montanhosa de Gileade. Isto é: “... tomou o rumo da região montanhosa...”; cf. AA.

31:22-42. Perseguição e confronto.

A mão de Deus é decisiva de novo. Ao nível humano, Labão bem podia ter vencido em todo o trato negociado (ver comentário de 30:25­43) e também no presente encontro físico (cf. v. 23,29a). Foi somente porque Deus o fez prosperar e o protegeu (24) que Jacó pôde levar algo, e mesmo a sua vida, de volta do exílio.

24. O sonho exortatório lembra o de Abimeleque, em 20:3. Cada um dos três patriarcas teve que ser desenredado ingloriamente de algu­ma aventura.

26-30. A tentação de tocar todas as teclas foi demasiado grande para Labão. As atitudes de pai ferido e vingador frustrado dificilmente se combinam, e ao invectivar sobre o que teria feito se Deus não o tives­se chamado, ele só deu mais segurança a Jacó. Mas o seu sarcasmo final (30) foi soberbo.

32. A venturosa ignorância de Jacó torna insuportavelmente tensa a procura, e o seu contra-ataque, devastador.

38-40. O relato das asperezas é um austero corretivo das idéias românticas quanto ao pastor bíblico. Nada idílica é esta vocação do pas­tor, reminiscente das adversidades de Paulo registradas em 2 Coríntios 11:26, ou de fato das de Davi, Amós ou Jesus (SI 23:4,5; Am 3:12; Jo 10:11).

41. Dez vezes: ver comentário do v. 7, acima.

42. Albright sugeriu o parente de Isaque para substituir o temor de Isaque (AA: “o Temor ...”), aduzindo apoio extraído de línguas corre­latas.[8] Mas o significado normal, “temor” (literalmente “trêmulo”;“que treme”) dá bom sentido, iluminado pelos sinônimos em passa­gens como Is 8:13, por exemplo.[9]

31:43-55. A aliança de despedida com Labão.

A aliança, por mais limitada que fosse, permitiu um final muito mais feliz dos vinte anos de luta do que o áspero corte deixado pela fuga de Jacó. A habilidade com que Deus levou Labão a propô-la foi uma lição objetiva para Jacó — e continua sendo — em prol da fé e contra o pânico (“tive medo”, 31), e do tratamento franco, em vez das intrigas, no manejo de um relacionamento difícil. Labão não mudara; mas desta vez Jacó não estava deixando atrás “um irmão ofendido”.

45. Se o papel de testemunha desempenhado pelo montão de pe­dras foi idéia copiada das cláusulas das testemunhas dos tratados, ou não, era natural ter-se um sinal visível (cf. Js 24:27) e marcos de limites. Seus dois nomes, no v. 47, são os termos aramaico e hebraico para “montão do testemunho”. Seu nome posterior, Mispa (49), “torre de vigia”, leva a pensar na testemunha e fiador divino, que outra vez pode ser um traço sugerido por formas de tratado costumeiras. Esta impres­são é fortalecida pelo hebraico do v. 53, que corre como se, na mente de Labão, de cada lado se invocasse um deus, como nas alianças políticas.[10] (Quanto às palavras: Temor de ... Isaque (53) ver co­mentário do v. 42, acima.)

54. A festa da aliança, sendo sacrificial, foi feita com a intenção de criar mais que simples laço de união de duas partes, que se conside­rariam entrelaçadas na mesa da comunhão do seu divino hospedeiro. Ver também comentário de 26:30.

32:1-32. Visão, prognóstico e luta.

“No vigor da sua idade lutou com Deus” (ver comentário de 25:19-34). Na peregrinação de Jacó, o caminho para as alturas agora le­vava através de um vale de humilhação que ele não fez nenhuma tenta­tiva para contornar. Geograficamente, a chamada para Betel não o le­varia a qualquer lugar próximo de Esaú, entrincheirado este no extremo sul, no Monte Seir. Espiritualmente, não podia chegar a Betel por outro caminho. Deus lhe prometera a terra (28:13,14), e um dia as suas fron­teiras se delimitariam com o território de Esaú. Além disso, para encontrar-se com Deus era preciso “reconciliar-se primeiro” com o seu irmão. A seqüência dos capítulos 32,33, culminando em 35:1-15, desen­volve vigorosamente os princípios de Mt 5:23-25.

1.2.A visão de anjos.

Seguiu o seu caminho — a frase é significativa: a reafirmação da certeza lhe foi dada enquanto seguia adiante (c/. Lc 17:14; Jo4:51),e o que saiu ao encontro dele, vindo do desconhecido, foi um exército de Deus (cf. Is 64:5), recordação e novo antegozo de Betel. O que o nome Maanaim, “acampamento dobrado”, salienta é que a própria compa­nhia de Jacó outra se irmanava, como ele podia ver agora. Foi um co­meço encorajador para a sua provação, pois dentro em breve o seu gru­po seria dividido por temer-se um massacre (8).

2-21. A chegada iminente de Esaú.

Teu servo ... meu senhor (4,5), era a linguagem da cortesia {cf. 30:27), mas tocou a tecla certa da esperada satisfação de Esaú, sem adulação e com simplicidade.

5. Nada podia ser mais nefasto do que o silêncio de Esaú e sua rápida aproximação com forças armadas. A reação de Jacó é caracteristicamente enérgica: planeja, 7,8 — ora, 9-12 — planeja, 13-21 — ora, 22-32 — planeja, 33:1-3. É abuso condenar os seus elaborados mo­vimentos como expressando falta de fé, pois a Escritura aprova a es­tratégia quando é instrumento, e não um substituto de Deus {cf. Js 8:1, 2; Ne 4:9). As orações de Jacó mostram onde está a sua confiança.

9-12. Esta prece comovente é um modelo de sua espécie. Repousa firmemente no alicerce da aliança, mandamento e promessa (9), e mos­tra o verdadeiro espírito de culto em sua admiração da misericórdia de Deus (10), vista como além de todo o merecimento ou predição (até mesmo a divisão do seu grupo é contemplada agora sob esta luz positi­va). O pedido urgente, retido até este ponto, revela nova brecha na ar­madura de Jacó por sua última frase: as mães com os filhos (11): ele já não é mais auto-suficiente; e nem mesmo o seu passado lhe pertence. Mas o temor confesso do v. 11 é logo exposto à promessa relembrada, que agora flanqueia a oração dos dois lados (12; cf 9) e leva em conta o futuro distante. A ameaça iminente já parece menos irresistível.

20. Os termos sacrificiais de Jacó inconscientemente ilustram o golfo entre o pensamento do homem e o de Deus. O pagão aborda a sua divindade como Jacó se aproxima agora de Esaú (cf 33:10), certo de que “o presente que o homem faz alarga-lhe o caminho” (Pv 18:16). Mas no Velho Testamento, o presente de um homem é primeiro presen­te dado a ele por Deus, bem antes de ele o ofertar a Deus (Lv 17:11). Como Jacó ia descobrir logo, a graça, e não negociações, é o único sol­vente da culpa.

22-32. A luta em Peniel.

O grandioso encontro com Deus foi quando Jacó reconheceu estar exposto a uma situação que ia muito além de sua capacidade. A ameaça desta já o havia levado à oração (9-12), e tanto o seu renovado desejo de ficar só (ver comentário do v. 23, abaixo), como a forma que a luta noturna tomou, indicam agora fome de Deus; fome despertada, mas não determinada pela crise.

A identidade do homem que o atacou emerge apenas gradativa­mente, e Jacó velozmente capta todos os indícios dela. Por trás das li­mitações humanas (24,25) há uma temível reserva de poder (25), e por trás da relutância contra ser surpreendido pelo dia poderia estar a fuga­cidade de alguma visão noturna, ou então a santidade de Deus, cujo rosto não pode ser visto. A resposta de Jacó, na qual pediu uma bênção, mostra que ele vislumbrou a verdade, e o diálogo posterior eli­minou toda a dúvida, tanto pelo que foi dito (28) como pelo que foi ne­gado (29). Para Jacó, bem como para Manoá, em Jz 13:18, a recusa em dizer o nome de Deus não foi absoluta: advertiu contra a intromissão, mas deixou aberta a porta do lado de Deus, para revelar-se. Cf. a decla­ração a Moisés, em Ex 33:18-34:7, com um semelhante equilíbrio entre reserva e revelação.

O conflito levou ao ponto culminante as lutas e as avançadas às apalpadelas de toda uma vida, e o desesperado abraço dado por Jacó expressou a sua atitude ambivalente para com Deus — de amor e hostilidade, de desafio e dependência. Era contra Deus, não contra Esaú ou Labão, que ele estivera medindo forças, como agora descobriu. Contu­do, a iniciativa fora de Deus, como o foi nessa noite, para depurá-lo do seu orgulho e desafiar a sua tenacidade. “Com o matreiro lutarás deve­ras” (SI 18:26; cf AVmg). O fato de aleijá-lo e de dar-lhe outro nome mostra que os fins de Deus continuavam sendo os mesmos: queria ter para Si toda a disposição que Jacó tinha para vencer, alcançar, conse­guir, mas expurgada da auto-suficiência e reorientada para o objeto certo do amor humano — Deus mesmo.

Era derrota e vitória numa coisa só. De novo Oséias lança luz so­bre isto: “Lutou com o anjo, e prevaleceu” — esta é a linguagem da força; “chorou, e lhe pediu mercê” — a linguagem da fraqueza. Depois do ferimento sofrido, a combatividade se tornara insistente dependên­cia, e Jacó saiu roto, com nome novo, e abençoado. Seu aleijão seria uma última prova da realidade da luta: esta não fora um sonho, e conti­nha severo julgamento. O novo nome seria um atestado da sua nova posição; foi um sinal da graça, apagando uma antiga repreensão (27:36), e um investimento honroso pelo qual viver. Desta vez a bênção foi sem mancha, no receber e no dar: era dele mesmo, não tramada, e sem intermediário.

22.O Jaboque (moderno “Zerpa”) corre para o oeste através de Gileade, numa profunda fenda das montanhas, rumo ao Jordão.

23,24a. O motivo pelo qual Jacó mandou sua família na frente não era proteger-se, como o esclarece 33:3. Sentisse ou não necessidade de ficar ele só antes da crise, Deus o entendeu e lhe atendeu.

24,25. Quando Deus aparece como “um homem” no Velho Testamento, é usualmente chamado o Anjo do Senhor, título alternado com “Deus” ou “o Senhor” (28,30; cf. Os 13:3,4). Ver Introdução, p. 32.

26. Já rompeu o dia: ver o segundo parágrafo da introdução dos vs. 22-32, acima.

27. Saber o nome de um homem dá a alguém mal-intencionado al­gum poder sobre ele, conforme as religiões mágicas. Mas a Bíblia consi­dera o nome como um indicativo potencial do caráter de quem o leva. Declarar o nome de alguém podia ser, às vezes, um ato de auto- revelação (ver v. 29 e, quanto a Jacó, 27:36; cf. Mc 5:9).

28. Israel é um nome verbal, como Jacó (ver comentário de 25:26). O nome propriamente dito transmitiria o sentido de “Que Deus lute (por ele)”, mas, à semelhança de outros nomes de Gênesis, toma da sua ocasião um novo colorido, e celebra o lado de Jacó na luta, e o seu caráter, deste modo revelado. O verbo chave, “lutar” (possivelmente “perseverar”), só se acha aqui e em Oséias 12:4,5, e não há certeza quanto ao seu significado. Já não há apoio, porém, para fazê-lo derivar do substantivo “príncipe”, como o faz AV (onde a frase toda, “como um príncipe tens poder”, retrata esta única palavra; semelhantemente AA: como príncipe lutaste).

30,31. Peniel ou Penuel significa “face de Deus”. Uma cidade com este nome, nessa vizinhança, aparece em Jz 8:8; 1 Rs 12:25. [11]

A narrativa implica em que a visão de Deus foi obscura; não obs­tante, foi face a face. Para a proteção de Jacó, Deus retirou-se com a alvorada (26), e quando o sol nasceu, Jacó estava sozinho (31).

32. A proibição de comer esta parte dos animais não reaparece no Velho Testamento, mas se acha no judaísmo rabínico (por ex., Pesahim 22a, 83b). Junto com os dois nomes, Israel e Peniel, veio a ser um ter­ceiro lembrete final desta noite decisiva.

33:1-17. O encontro com Esaú.

Fiel ao esquema bíblico, a visão de Jacó não foi fuga da realidade. Sua linguagem mostra que via os dois encontros, com seu Senhor e com seu irmão, como dois níveis de um único acontecimento. Cf. 10 com 32:30.

O encontro é uma experiência clássica de reconciliação. A torrente de dádivas e as formais procissões da família, super-organizadas quase comicamente (como acabaram sendo), dão certa idéia da carga que pe­sava na consciência de Jacó, e da límpida graça da réplica de Esaú. A culpa e o perdão são tão eloquentes em cada movimento da mútua aproximação (3,4), que o Senhor nosso não pôde achar melhor modelo para o pai do pródigo neste ponto, do que Esaú {cf. 4 com Lc 15:20).

Contudo, o próprio calor das boas-vindas trouxe novo risco de fal­so companheirismo e de conseqüente desvio. Conquanto Jacó se empe­nhasse, algo dubiamente, para desenredar-se, o incidente seguinte mos­tra que se tratava de uma questão particularmente vital para ele, ime­diatamente após a sua escravidão sob Labão.

8.Toda esta companhia (RV, RSV) refere-se aos “bandos” de animais, 32:13 {cf. AA).

10.Sobre a linguagem do culto, empregada por Jacó, ver o co­mentário introdutório deste capítulo; também comentário de 32:20.

11.Os dois termos hebraicos para presente (oferta em homena­gem), v. 10, e dom (AV: bênção; AA: presente) expressam a humildade e a boa vontade com que foi oferecido. Ao aceitá-los, Esaú, de sua par­te, mostrou boa vontade, apegando-se à reconciliação. Cf. Jz 13:23.

13.Comigo (AV, RV, AA) é literalmente “sobre mim”. Daí a tra­dução de RSV: uma preocupação para mim. Cf. comentário de 48:7.

14.Até chegar ...em Seir — mas, na verdade, Jacó virou para o norte, assim que ficou só, rumo a Sucote (16,17). Poucos de nós pode­riam atirar-lhe a primeira pedra por deixar de combinar a graça, com a verdade na recusa de um convite incômodo. Também é possível, como o sugere Delitzsch, que ele intentasse visitar Seir um dia, e tivesse enga­nado a Esaú “enganando-se a si mesmo”. Não obstante, parte dos extravios do velho Jacó vem à luz, pois podia ter dito simplesmente que estava sob juramento de que devia ir para Betel.

17.Sucote era dar um passo atrás, espiritual e geograficamente (ver comentário do v 14). É difícil conciliar o chamamento para Betel com a prolongada permanência envolvida na construção de abrigos pa­ra o gado (daí o nome, Sucote), e de uma casa, a leste do Jordão. A ida­de da filha de Jacó, e dos filhos mais velhos deste, implícita no próximo incidente em Siquém, revela que se haviam passado vários anos, num destes lugares ou em ambos, visto que evidentemente Diná era uma criança de cerca de sete anos quando a família saiu de Padã-Arã (cf. 30:19-25; 31:41).

33:18-34:31. Massacre em Siquém.

Siquém ofereceu a Jacó as atrações de uma transigência. Estava convocado era para Betel. Mas Siquém, a perto de um dia de jornada distante de lá, ficava atrativamente no entroncamento das estradas do comércio. Ele foi chamado para ser estrangeiro e peregrino; mas en­quanto comprava seu lote de terra ali (33:19), podia arrazoar que estava dentro das fronteiras da terra que lhe fora prometida. Não foi nada me­nos que desobediência, e seu ato piedoso, erigindo um altar e reivindi­cando o seu novo nome de Israel (20) não poderia disfarçar o fato.

O capítulo 34 mostra o preço disso, pago em estupro, traição e massacre — corrente de males logicamente decorrentes da desigual as­sociação com a comunidade cananéia. Haveria ainda ecos disso nos dias dos juízes (cf. Jz 9:28). A própria fúria da mesma, foi na verdade o que salvou Jacó, em sua atitude apaziguadora (5,30), de reeditar a história de Ló. Somente o medo por sua vida abriu-lhe de novo os ouvi­dos para a chamada de Deus para Betel.

Os estudos críticos modernos tendem a fazer supor que esta história, juntamente com 49:5-7, é apenas uma versão personalizada de alguma tentativa feita pelas tribos de Simeão e Levi, de estabelecer-se em Siquém. Todavia, nada na história mesma o requer. É vívida e coe­rente, e surgem sérias dificuldades quando é transferida da esfera do pessoal para a do tribal. Em particular, não se deixa lugar para Jacó ou para a personagem central, Diná (a menos que ela seja apresentada co­mo personalização do problema do casamento misto, o que é demasia­do artificial). Esta reinterpretação drástica do fato surge, não do texto, mas da opinião de que Jacó não teve filhos e filha com esses nomes.

33:18. A palavra sãlen podia significar em paz (RV; cf. 34:21), mas com maior probabilidade a salvo (RSV; cf. AA: “são e salvo”). A versão de AV: a Shalém, uma cidade de Siquém”, é igualmente possivel. S.R. Driver demonstrou que ainda existe uma povoação cha­mada Salim que fica a pouco mais de seis quilômetros a leste de Siquém (istoé, “diante de” Siquém).

19.O nome Hamor, que significa “asno”, leva Albright[12] a conje­turar que os filhos de Hamor é uma expressão que designa um grupo de pessoas ligadas entre si por um tratado selado com o sacrifício de um asno, em analogia com um costume testemunhado em Mari. Certamen­te o caráter sagrado deste animal pode explicar o nome; mas Hamor é um indivíduo, tanto aqui como em Jz 9:28.

20.O título El-elohe-Israel, “Deus (é) o Deus de Israel”, evocava o voto de Jacó, de 28:21 (“então o Senhor será o meu Deus”), e ao mes­mo tempo reivindicava o seu novo nome próprio.

34:1. Sobre o considerável lapso de tempo desde Peniel, ver comentário de 33:17. Interrompendo a sua peregrinação, Jacó estava pondo em perigo outras pessoas mais vulneráveis do que ele.

2,3Os verbos possessivos do v. 2 (ver também comentário do v. 7, fim), e os verbos màis generosos do v. 3, refletem fielmente esta espécie de amor. Seu melhor aspecto podia mitigar o mal que esse tipo de amor desencadeou; não podia apagá-lo.

.5 O silêncio de Jacó começa a parecer diplomático demais, con­forme o capítulo avança. Sua explosão, no v. 30, sugere maior preocu­pação pela paz do que pela honra. Se pudesse engolir os seus escrúpu­los, como não o puderam os seus filhos, bem sabia que posição social (9,10) e riqueza (12) teria.

7.Desatino é palavra muito fraca para traduzir nebalâ, que sempre inclui algum ato ou atitude ultrajante, como em Js 7:15; Jz 20:6; cf. SI 14:1 — por exemplo. Em 2 Samuel 13:12, vem ao lado de “não se devia fazer” (ou simplesmente: não se faz; AA: “fazer-lhe cousa alguma”), frase que exprime consciência coletiva {cf. 20:9). A expressão “em Is­rael {cf. Dt 22:21; Jr 29:23) sugere que o clã sabia em que era diferente da cidade; talvez já estivesse aí em embrião a noção da diferença entre a igreja e o mundo.

Os termos usados com relação ao tratamento dado por Siquém a Diná (“a humilhou”, “fora violada”, 2,5), juntamente com os deste versículo, dão a cabal idéia bíblica da incontinência. Não está claro se se referem a rapto ou fornicação. O segundo verbo do v. 2 significa ba­sicamente “tomou” (AV, RV; AA: “tomando-a”), possivelmente im­plicando em “seqüestrou” (RSV), não com certeza, porém. Num ou noutro caso, não foi uma ligação casual, mas com vistas ao casamento, pois Diná ficou na casa de Siquém (17b,26). Contudo, como 2:24 já o demonstrou, o casamento não pode ser “antecipado” verdadeiramen­te, na ordem natural das coisas.

13. A exigência da circuncisão era a mais plausível, porque o rito, fora de Israel, às vezes era uma iniciação para o estado matrimonial; cf. comentário de 17:9-14.

20. A porta era o local normal utilizado para as negociações públicas./. 23:18; ver Rt4:l.

25. Praticada cruamente, a circuncisão podia incapacitar total­mente a pessoa, sobretudo dois ou três dias depois. O massacre nãõ foi façanha sobre-humana, mesmo que Simeão e Levi tenham agido so­zinhos (parece que os demais irmãos se juntaram a eles apenas para a pilhagem e para levar o gado, 27). Fora Rúben, homem impulsivo, a quem faltava a fria crueldade e resolução dos outros (para o maior bem e para o maior mal; cf. 37:21; 42:37; 49:4), tratava-se dos irmãos mais velhos de Diná, por parte de pai e mãe.

30,31. O apaziguador e os vingadores mutuamente exasperados, e dominados respectivamente pelo medo e pelo furor, talvez estivessem equidistantes da verdadeira justiça. Exemplificam duas perenes mas estéreis reações ao mal.

35:1-15. De novo para Betel.

Betel ocupa algo do mesmo lugar focal na carreira de Jacó, que o nascimento de Isaque ocupou para Abraão, provando a sua flutuante obediência e seu apego à promessa, por mais de vinte anos. Seu regresso para lá marca um fim e um começo: hora de partir, com a morte da ve­lha criada Débora e da amada Raquel; e um ponto de transição, quan­do a promessa foi ratificada, e a família ficou completa com o nasci­mento de Benjamim. Jacó ainda viveria muito, mas o centro de gravi­dade se deslocaria agora para os seus filhos.

1. Quanto ao cenário de fundo desta ordem, ver 28:20-22; 31:13.

2-4. Qualquer impressão de que o culto patriarcal era livre e fácil é descartada por estas exigências, que já apresentam os componentes estruturais da lei do Sinai em seu apelo para uma lealdade única, para a pureza cerimonial, e para a renúncia da magia (“as argolas... das ore­lhas” eram evidentemente objetos para encantamento; cf. talvez Os 2:13). No mesmo local, possivelmente incitado pelo exemplo de Jacó, Josué um dia lançaria um apelo muito parecido com esse a Israel (Js 24:23).

5. Quer a frase hebraica, literalmente “um terror de Deus” (cf. AA) simplesmente expresse um superlativo (RV), quer defina a fonte do temor (AV, RSV; cf., por ex., 2 Cr 14:14), a proteção é claramente divina, e claramente imerecida; cf. comentário de 31:24. [13]

7.0 nome El-Betel, “O Deus de Betel”, tem sugerido a alguns que o conceito que Jacó tinha de Deus era o de que Ele estava ligado à loca­lidade ou que residia na rocha. Conquanto se possa encontrar analogias pagãs disto, são as analogias israelitas e cristãs, de lugares onde houve intervenções de Deus, e das experiências que a frase celebra (c/. o hino “Ó Deus de Betel”), que se harmonizam com o que sabemos da teolo­gia de Jacó (cf. sua oração registrada em 32-9).

8.Sobre Débora e seus longos serviços prestados à família, ver co­mentário de 24:59. Alom-Bacute significa “Carvalho da lamentação”; cf. Boquim (Jz 2:5), da mesma raiz.

10.Compare-se esta reafirmação do novo nome (e, contudo, a per­sistência do nome antigo), com “Simão ... Pedro”, em Jo 1:42 e Mt 16:17,18).

11.Sobre Deus Todo-poderoso, ver comentário de 17:1. Os termos da bênção, com a menção de reis, são semelhantes aos de 17:6,7, refe­rentes a Abraão, enquanto que a multidão de nações é uma visão prospectiva assegurada particularmente a Jacó; ver comentário de 28:3.

14,15. As ações de 28:18,19, reproduzidas quase exatamente, ago­ra são acrescidas do conteúdo do cumprimento como acontecera, por exemplo, com a segunda visita de Moisés ao monte Horebe-Sinai (Êx 3:12; 19:3,4). “Novos perigos já passados, novos pecados perdoados” separam as duas ocasiões, tornando a segunda interiormente mais rica do que a primeira. As repetições de Deus, se este é um caso delas, são voltas de uma espiral, e não de uma roda.

35:16-20. A morte de Raquel.

16. Efrata, ou Belém (19), fica a cerca de vinte quilômetros ao sul do local em que Raquel foi sepultada, que 1 Sm 10:2 situa na fronteira benjamita. Tem-se sentido alguma dificuldade sobre a distância entre os dois lugares, mas este versículo e 48:7 salientam que Efrata, para a qual evidentemente se dirigia Jacó, estava ainda um bom trecho adian­te.

17. No Velho Testamento a alma não é concebida como entidade separada do corpo com existência própria (como no pensamento gre­go) mas, antes, como a vida, que aqui se esvai. Cf. comentário de 2:7, fim.

Foi um belo gesto de fé alterar o nome de “filho da minha triste­za” para o de “filho da destra” — aspecto positivo de uma experiência tão sombria. O nome, como de costume, era já existente, cujo conheci­mento nos vem de documentos de Mari que dele falam como nome de tribo, significando ali “filho do sul”.[14] É possível que a jornada de Jacó em direção ao sul tenha ajudado a sugeri-lo, mas “destra” deve ser tomado em seu sentido normal, acompanhado dos seus propícios e variegados reflexos de honra (SI 110:1), habilidade (SI 137:5) e firmeza (Ec 10:2).

20. A coluna, erigida tão logo depois da do v. 14, testemunhava a transitoriedade e dor que constituem uma faceta da existência, enquan­to aquela sua companheira celebrava a bondade e a misericórdia, que são a outra faceta. A coluna de Raquel, com tal lastro a anteceder-lhe, contém pungente aspereza, não porém o trevoso desespero da de Absalão (2 Sm 18:18).

35:21-22. A lascívia de Rúben.

O registro lacônico deixa a cargo da imaginação o choque desta violação da família; é partilhado pelo fulminante julgamento que cons­ta de 49:3,4.

35:22-26. Os doze filhos de Jacó.

O ponto de interesse deste sumário é que a promessa ou oração expressa no nome do undécimo filho de Jacó (30:24) agora se cumpre com o nascimento de Benjamim, e a família se completa. Através de todo o Velho Testamento, bem como do Novo, doze será o número que simbo­liza o “Israel de Deus” completo. Cf. Ap 21:12,14, as doze tribos e os doze apóstolos.

35:27-29. A morte de Isaque.

A reunião de Jacó e Esaú junto ao leito de morte do seu pai encerra a longa história da sua geração. Outros passarão agora a dominar a ce­na.

Sobre a idade de Isaque, ver comentário de 12:14. Sobre a frase recolhido ao seu povo, ver comentário de 25:8.

36:1-43. Os descendentes de Esaú.

O fato de que Esaú e Jacó são irmãos, sobrevivendo nas nações de Edom e Israel, nunca é esquecido no Velho Testamento. O presente capítulo, com os seus pormenores minuciosos, é testemunha deste senso de parentesco, que mais tarde virá à superfície em contextos de diplo­macia, lei e sentimento nacional (ver, respectivamente, Nm 20:14; Dt 23:7; Ob 10-12).

Depois do esquema normalmente seguido em Gênesis, onde um novo estágio da história deve ser introduzido, o registro do ramo cola­teral da família é feito até completar-se, antes de se retomar o fio prin­cipal dos acontecimentos. Este capítulo deixa livre o terreno para a seção final do livro.

1-8. Esaú e sua família imediata.

Quanto ao nome Edom (1), ver 25:30.

2,3. Sobre heteu, ver comentário de 23:3. Sobre heveu, ver comentário do v. 20, abaixo. Os nomes das mulheres de Esaú evidentemente são tomados de um registro de família independente de 26:34 e 28:9. A presente lista concorda com aquelas quanto a duas das famílias às quais Esaú se uniu por casamento (as de Elom e Ismael), mas Base­mate ora aparece numa, ora noutra, e os nomes restantes não coincidem. A explicação mais simples é que as listas foram prejudicadas du­rante a transmissão;[15] mas também pode ter havido alguns nomes alternativos (como o apelido Edom, do próprio Esaú). Além disso, é possível que Esaú tivesse quatro esposas, e não três, pois não há ne­nhum ponto de contato perceptível entre Judite (26:34) e Oolibama. (Este nome, que significa “tenda do lugar alto”, talvez tenha sugerido a Ezequiel os nomes que empregou em Ez 23:4: Oolá de Oolibá.

Aná (2) era evidentemente filho (RSV, seguindo a LXX, etc.), não filha, de Zibeão. Ver o v. 24.

6- 8. Este sumário mostra somente o fator de contenda que confir­mou a escolha que Esaú fez do monte de Seir. Os dez capítulos anterio­res dão o pleno conteúdo da história.

9-14. Os filhos e netos de Esaú.

A junção dos nomes Elifaz e Temã no v. 11 indica Edom como o provável cenário do livro de Jó, onde um “Elifaz o temanita” é proeminente. Temã reaparece várias vezes no Velho Testamento como tribo e cidade de Edom, e Amaleque (12) haveria de ser um dos mais cruéis inimigos de Israel — se é que este Amaleque se relaciona com a tribo desse nome.



15-19. Chefes descendentes de Esaú.

Chefe (RSV) é melhor título do que duque (AV, RV; cf. AA: “príncipe”), para traduzir ’allüp, cabeça de “mil” ou de um clã.

20-30. Chefes dos horeus.

Dt 2:12 registra que o grupo dc Esaú desapossou os horeus, como Israel o fez com os cananeus. Mas Esaú ligou-se por casamento com uma família de prol — a de Aná, filho de Zibeão (cf. 2 com 24,25). O grupo familiar de Aná é chamado heveu no v. 2, mas horeu aqui. Isto indica, ou que os termos se sobrepõem, equivalendo-se, ou que “he­veu” pode ser, aqui e nos outros lugares em que ocorre, erro de um co­pista ao copiar “horeu”. O termo “horeus” geralmente parece indicar os hurrianos, povo não-semita amplamente disperso no antigo Oriente Próximo. Contudo, os nomes semitas presentes nestes versículos suge­rem que os horeus do monte de Seir eram de tronco diverso.[16] A palavra podia significar habitantes das cavernas, possivelmente mineiros.[17]

24. Nesta nota intrigante há o toque de uma tradição familiar. Mas fontes quentes (a tradução da Vulgata; cf. AA: “fontes termais”) pode ser ou não o sentido de yemim, que se acha somente aqui. A LXX não faz nenhuma tentativa para traduzir essa palavra. Conjeturas há que in­cluem “víboras” (K-B) e, supondo uma transposição de consoantes, “água”, mayim (Speiser).

31-39. Reis de Edom.

Da alusão à realeza de Israel (31), embora negativa, a inferência mais natural é a de que esta declaração ou seção foi escrita no período da monarquia. Quanto ao apoio disto firmado na data de Gênesis, ver Introdução, p. 15.

Nenhum destes reis é filho do seu antecessor. Isto provavelmente indica sucessão mediante eleição, apesar de que Albright sugere que a realeza era transmitida por meio do lado da mulher,[18] em vista do regis­tro de três gerações femininas no v. 39. Alguns especialistas conjetura­ram que as dinastias de curta duração de Israel do Norte deveram algo da sua instabilidade a este exemplo de reinado não dinástico num esta­do vizinho. Mas a indignação do rei Saul contra a condescendente atitu­de de Jônatas para com Davi, e o fato de que Is-Bosete, filho de Saul, sucedeu-o parcialmente, conquanto fosse fraco (2 Sm 2:8-10; 3:8), mos­tram que a realeza em Israel era tida como hereditária desde o principio.

40-43. Lista final de chefes.

A ênfase desta seção recai nas esferas das possessões e da influên­cia mantidas pelas principais famílias edomitas (segundo... os seus lu­gares, 40; segundo as suas habitações, 43), e não nas relações de uns com os outros como na primeira parte do capítulo.






[1] Cf. 1 Co 2:14. 


[2] A. R. Millard, em ET, LXXVIII, 1966, p. 86s., chama a atenção para uma palavra acádia cognata no conto de “Nergal e Ereshkígal”, em que mensageiros dos deuses per­correm “a longa escadaria (simmiltu) do céu”. 


[3] Os encontros ao lado de poços em Gn 24 e Êx 2 pedem comparação com este. Elie- zer, com a sua religiosidade sincera, orou e foi atendido. Moisés, campeão dos oprimi­dos, obteve um lar por meio do mesmo heroísmo fidalgo que lhe havia custado outro. E com Jacó deu-se coisa parecida, pelo uso agora apropriado do seu espírito competitivo. 


[4] Ver comentário e nota de rodapé de 16:1-3. 


[5] Conjeturar, a partir disto que a tribo se considerava descendente da deusa (cf., por ex., Oesterley e Robinson, “Hebrew Religion” 2 [S.P.C.K., 1937], p. 100) não tem base nenhuma. Mesmo que já numa época tão antiga como esta a Fortuna tivesse sido deifica- da (do que não há prova alguma), ainda não necessitaria ter qualquer propensão teológi­ca. Cf. o termo ‘àstãrôi (ashtaroth) na criação de ovelhas (Dt 7:13, etc., hebraico), ou o uso que nós mesmos fazemos (em inglês e em português) da palavra “jovial” (de Júpiter), do nome Diana, etc. 


[6] Cf. D. M. Blair, "A Doctor Looks at the Bible”2 (/. V.F., 1959), p. 5. Em apoio a tais crenças, Delitzsch citou costumes de sua época concernentes à procriação, e S. R. Driver e J. Skinner, entre outros, o acompanharam. Mas esses costumes tendem a ser fa­vorecidos com resultados devidos a outros fatores. Ver também a nota sobre 30:38,39. 


[7] BA, III, 1940, p. 5. 


[8] FSAC, p. 248 n. 


[9] A teoria de A. Alt (“Der Gott der Vâter”, 1920, em “Kleine Schriften”2 I [Beck, 1959], p. 24), de que o Deus de Abraão, o Temor de Isaque e (49:24) o Poderoso de Jacó eram originalmente três divindades distintas, foi erigida precariamente numa teoria gra­tuita de que não havia relação entre os três patriarcas, e que eram desconhecidos uns dos outros. Mas numerosos exemplos mostram que o Velho e o Novo Testamentos deleitam- se em multiplicar nomes para o Deus Único (cf., por ex., SI 18:2; Ap 15:3), ao passo que quanto à relação paterno-filial dos patriarcas, este é o pivô dos capítulos centrais de Gê­nesis, em torno do qual tudo gira sobre a promessa de um filho a Abraão e a eleição do fi­lho mais novo de Isaque. 


[10] “Julgue” é verbo no plural, no v. 53, e a frase precedente pode ser traduzida por: “os deuses do pai deles”. Cf. Js 24:2. 


[11] Os 12:4, RSV, AA; cf. a nota sobre Gn 25:19-34. 


[12] FSAC, p. 279. 


[13] Cf., por ex., W. Thesiger, The Marsch Arabs, p. 102. 


[14] Para nós, o leste está mentalmente à nossa direita. Para os que se “orientam” olhando para o leste (como em geral se faz no Brasil), a direita indica o sul, como em he­braico. 


[15] Por ex., o Texto Samaritano traz Maalate (c/. 28:9) em lugar de Basemate, em 36:3,4,10,13,17. 


[16] Speiser, p. 282. 


[17] Assim G. Dossin, citado por D. J. Wiseman em NDB, sub verbum “Horeus”. 


IS ARI3, p. 206, n. 58.