25 de julho de 2016

JOHN BRIGHT - Os profetas dos últimos dias de Judá

antigo-testamento-danilo-moraes
OS PROFETAS DOS ÚLTIMOS DIAS DE JUDÁ

1 . Emergência teológica

No próximo capítulo, voltaremos a considerar a natureza da crise, tanto física quanto espiritual, na qual a queda de Jerusalém lançou os últimos restos da nação israelita e a
maneira como ela sobreviveu a esta crise. Contudo, deve-se
notar aqui que a sobrevivência só foi possível porque os
profetas que se dirigiam à nação na hora da sua mais cruel
agonia, já antes da tragédia haviam localizado os problemas
teológicos nela envolvidos e lhes dado uma resposta com base
na religião ancestral de Israel. Uma história das últimas horas
de Judá não seria completa sem a menção à obra destes profetas
e seu significado.

a. A teologia nacional em crise. — Qualquer pessoa que
tenha compreendido a natureza da teologia nacional de Judá,
como ela era popularmente entendida, verá que a nação estava
totalmente despreparada para enfrentar a emergência iminente.
Esta teologia, como dissemos antes, centralizava-se na afirmação da escolha de Sião por Iahweh como a sua sede e em suas
promessas imutáveis à dinastia de Davi, de um governo eterno
e de uma vitória permanente sobre seus inimigos. Vimos como
ela foi levada a uma violenta crise por ocasião das invasões
assírias e como Isaías, injetando-lhe uma profunda nota moral
e salientando a possibilidade de um castigo divino a ela inerente, reinterpretou-a, possibilitando sua sobrevivência. Contudo, Isaías não negou essa teologia; pelo contrário, ele a
reafirmou em nível mais profundo. Mas sua afirmação categórica a Ezequias de que Jerusalém não seria tomada, tão dramaticamente confirmada pelos acontecimentos, mais o colapso
da Assíria depois ocorrido, que parecia confirmar suas palavras, conspiraram para estabelecer na mente popular a inviolabilidade do templo, da cidade e da nação como um dogma
infalível.

Embora a reforma de Josias, apoiada por este dogma,
tenha chamado a nação para uma teologia mais antiga ainda,
isto foi temporário, como vimos, esvaindo-se na desilusão
com a trágica morte de Josias e com os infelizes acontecimentos que se seguiram. Quanto mais tenebrosa era a hora,
tanto mais desesperadoramente a nação se apegava às eternas
promessas feitas a Davi, achando segurança no templo onde
ficava o trono de Iahweh (Jr 7,4; 14,21), e no culto através do
qual sua cólera era acalmada e seu favor reconquistado (cc.6.14;8,11; 14,7-9.19-22). Enlevada per otimismo teológico, a nação marchou em direção à tragédia, confiante de que o Deus
que frustrara Senaquerib também frustraria Nabucodonosor (cc.
5,12; 14,13). É plenamente provável que os mais ferenhos
opositores de Jeremias (c. 26,7-11) fossem justamente os discípulos de mente estreita de Isaías, que não estavam a altura
de seu mestre!

O desastre de 597 reviveu os problemas levantados pelas
invasões assírias, mas com muito maior intensidade. Judá
nunca conhecera tão grande humilhação. O templo de Iahweh
saqueado de seus tesouros, o legítimo descendente de Davi
ignominiosamente tirado de seu trono e levado cativo para
uma terra distante! Pode-se supor que a impossibilidade de
aceitar tal situação à luz das promessas dinásticas, que acendera as violentas esperanças da apressada restauração de Joiaquim (cc. 27ss), fez com que outras esperanças fossem postas
em Sedecias (c. 23,5ss) — que era, afinal de contas, um
descendente de Davi — e finalmente levou a nação a uma rebelião suicida. Os acontecimentos de 597 parecem ter sido encarados como o grande expurgo disciplinar anunciado por
Isaías, depois dos quais as promessas se realizariam. Não se
pensava mais que a nação pudesse cair; até o fim esperava-se
a intervenção de Iahweh, como nos dias de Ezequias (c. 21,2)
Quando o fim realmente chegou, a teologia oficial foi incapaz de
explicá-lo.

b. O problema da soberania divina e da justiça. — Embora a crise teológica de Judá só se tenha tornado aguda quando seu fim chegou, os problemas já tinham começado a surgir
muito antes deste término. Os acontecimentos dos últimos
anos, de fato, tinham desmentido as afirmações da teologia
oficial em todos os seus passos, tornando inevitável que se
pusesse em dúvida a capacidade de Iahweh para controlar os
acontecimentos e sua lealdade no cumprimento das promessas.
Entretanto, não podemos documentar esta dúvida como gostaríamos. Mas na moldura do quadro, por assim dizer, descobrimos indícios de que o povo, não tendo mais confiança total
no poder onipotente de Iahweh, achou prudente recorrer a
outros deuses (Jr 7,17-19;44,15-18; Ez 8), e em outras passagens (c. 18,2.25; Jr 31,29), registramos sussurros de
que Iahweh não era justo. Os trágicos acontecimentos exigiam uma explicação em termos do poder soberano de Iahweh
e de sua justiça que a religião oficial não podia fornecer.

Não é de se admirar, portanto, que a literatura do período
mostre uma intensa preocupação com este problema — em
Jeremias e Ezequiel, naturalmente, mas também em outros
autores. É o tema principal de Habacuc, que provavelmente
falou no reinado de Joiakim, quando se deu a invasão babilónica. Na tradição de Isaías, Habacuc via os babilônios
como instrumento da disciplina de Iahweh (Hab 1,2-11), os
quais, tendo servido à finalidade que lhes fora destinada, seriam julgados (v. 12-17). Confiando que o Iahweh que dominava em Sião era o único Deus (c. 2,18-20), justo e capaz
de libertar seu povo (l,12ss), Habacuc esperava confiante
(c. 2,4) por sua poderosa intervenção (c. 3) e pelo julgamento
da Babilônia (c. 2,6-17). A respeito, podemos mencionar os
livros histéricos Reis e Deuteronômio, que foram compostos
provavelmente por este tempo. O autor desta obra investigou
a teologia oficial até à teologia da aliança do Sinai como
vem expressa no Deuteronômio e, articulando as tradições
históricas do povo com a estrutura do argumento, procurou
mostrar que esta teologia tinha sido confirmada pelos acontecimentos e que não somente o futuro da nação mas também
todas as vicissitudes de sua história dependiam diretamente da
sua lealdade ou deslealdade em relação às estipulações da
aliança com Iahweh.

2. Os profetas e a sobrevivência da religião de Israel

Como dissemos, em boa parte a religião de Israel sobreviveu à tragédia porque os problemas teológicos surgidos já
tinham recebido resposta antecipada de certos profetas. Embora outros contribuíssem para tal resposta, ninguém contribuiu mais do que Jeremias e Ezequiel.

a. O profeta do julgamento de Iahweh: Jeremias. — Nenhum personagem mais enérgico ou mais trágico subiu ao palco
de Israel do que o profeta Jeremias. Sua voz era a voz autêntica do Javismo mosaico, falando, por assim dizer, extemporaneamente para a nação nas agonias da morte. Sua missão,
durante toda a vida, foi dizer, uma e repetidas vezes, que Judá estava condenado e que esta condenação era o julgamento justo
de Iahweh pela violação da aliança por parte de Judá.

Graças à abundância de material biográfico neste livro, a
história da vida de Jeremias é melhor conhecida do que a de
qualquer outro profeta [1]. Nascido perto do fim do reinado de
Manassés no vilarejo de Anatot, ao norte de Jerusalém, ele
ainda era um garoto quando começou sua carreira, cinco anos
antes de ser encontrado o livro da lei no templo (cc. l,lss.6).
Ele pertencia a uma linhagem sacerdotal. Sua família possivelmente descendia dos sacerdotes do antigo santuário da Area de
Silo[2] — o que poderá ajudar a explicar o profundo respeito
de Jeremias pelo passado de Israel e a natureza da aliança
primitiva. Já vimos como, a exemplo de Sofonias, combatendo
o paganismo que Manassés havia promovido, Jeremias ajudou
a preparar o clima para uma reforma mais completa.

Embora seja improvável que Jeremias tenha participado
ativamente da própria reforma, certamente ele deve ter apro-
vado a erradicação das práticas pagãs e a tentativa de reviver
a teologia da aliança mosaica. Ele admirava muito Josias (c.
22,15ss) e, quando o rei promoveu seu programa de reunifi-
cação, esperou pelo dia em que um Israel restaurado viesse
juntar-se a Judá na adoração de Iahweh em Sião (cc. 3,12-14; 6.15-22). Mas, como também já vimos, ele logo ma-
nifestou ter apreensões. Ele viu um culto ativo, mas não notou
nenhuma volta aos caminhos de outrora (c. 6,16-21); um
conhecimento da lei de Iahweh, mas uma falta de vontade de
ouvir a palavra de Iahweh (c. 8,8ss) e um clero que oferecia
a paz divina a um povo cujos crimes contra as normas da
aliança eram notórios (cc. 6,13-15;8,10-12;7,5-11). Ele pen- sou que as exigências da aliança se tinham esvaído por trás da
exterioridade do culto (c. 7,21-23), e que a reforma havia
sido uma coisa oficial que não tinha conseguido obter o ar-
rependimento de ninguém (cc. 4,3ss;8,4-7).

Jeremias, que vivia obcecado pela premonição de condenação que tornara-se ultimamente seu principal tema, ficou
completamente desiludido sob Joiakim. Quando este rei deixou
que a reforma caducasse, Jeremias começou a pronunciar a
oração fúnebre da nação, declarando que, tendo-se revoltado
contra seu divino rei (c. 11,9-17), ela iria conhecer os castigos que a aliança de Iahweh reservava para aqueles que
violassem suas cláusulas. A humilhação de 609, afirmou ele,
não era uma negação da teologia do Deuteronômio, mas precisamente uma ilustração dela — algo que a nação atraiu sobre
si pelo desprezo de Iahweh (c. 2,16). Mas este castigo, avisava ele, era ,apenas provisório, pois Iahweh estava enviando
“do norte” o agente do seu julgamento ·— agora visto como
os babilônios (cc. 4,5-8.11-17;5,15-17;6,22-26) — que, iria
lançar-se sobre a nação impenitente e destruí-la completamente
(cc. 4,23-26;8,13-17) [3].

Apoiando-se assim na teologia da aliança mosaica, Jeremias rejeitou totalmente a confiança nacional nas promessas
davídicas. Ele não negou, com certeza, que aquelas promessas
tinham validade teórica (c. 23,5ss), nem rejeitou a institui-
ção da monarquia como tal. Mas estava convencido de que,
uma vez que o Estado existente falhara em suas obrigações, nem
ele nem seus reis iriam conhecer nada das promessas (cc.
21,12 a 22,30): a promessa de Iahweh à nação era a ruína
total! A confiança popular na eterna escolha de Sião por
Iahweh era por ele considerada como uma fraude e uma
mentira, declarando que Iahweh abandonaria sua casa e a
entregaria à destruição, como fizera com o santuário da Arca
de Silo (cc. 7,16־26,1;15־.

A perseguição que estas palavras causaram a Jeremias
e a agonia que lhe causou tê-las pronunciado formam um dos
capítulos mais emocionantes da história da religião. Jeremias
foi odiado, escarnecido, relegado ao ostracismo (cc. 15,10ss.l7; 18,18;20,10), continuamente atormentado e, mais de uma vez,
quase morto (cc. 11,18 a 12,6;26;36). Condenando assim o
Estado e o templo, ele tinha, como a teologia oficial o interpretava, cometido uma traição e pronunciado uma blasfêmia:
ele havia acusado Iahweh de infidelidade em relação à sua
aliança com Davi (c. 26,7-11)! O espírito de Jeremias quase
rompeu-se com tal situação. Ele desabafava em acessos de recriminação e cólera, chegava a estados tristes de depressão e
quase ao desespero suicida (cc. 15,15-18;18,19-23;20,7-12.14-
-18). Ele odiou sua missão e quis deixá-la (cc. 9,2-6;17,14-18),
mas o ímpeto e a compulsão da palavra de Iahweh impediam-no de ficar em silêncio (c. 20,9); ele sempre achava
forças para continuar (c. 15,19-21) — pronunciando o julgamento de Iahweh. Entretanto, quando este julgamento chegou,
o profeta sofreu a mais profunda agonia (cc. 4,19-21;8,18 a
9,l;10,19ss).

Depois de 597, quando parecia que o julgamento se
cumprira e havia esperanças arrebatadoras de uma pronta restauração, Jeremias prosseguiu na monótona repetição de sua
condenação. Não vendo nenhum sinal de que qualquer lição
tivesse sido aprendida e nenhum sinal de arrependimento causado pela tragédia, declarou que o povo — que reviravolta no
tema de Isaías (Is 1,24-26)! — era metal de refugo, que não podia ser purificado (Jr 6,27-30).

Realmente, parecia-lhe (c. 24) que o melhor fruto da
nação e sua esperança tinham sido arrancados, restando apenas
o refugo imprestável. E quando (594) o povo esperava que
Joiaquim logo voltasse, Jeremias denunciou o fato; e, colocando uma canga de boi ao pescoço (c. 27ss), declarou que o
próprio Deus tinha colocado o jugo da Babilônia no pescoço
das nações e que elas deveriam submeter-se a este jugo ou
perecer. Quando chegou a rebelião final, Jeremias resolutamente predisse o pior, anunciando que não ia haver nenhum
milagre, e que o próprio Iahweh estava combatendo contra
seu povo (c. 21,1-7).

Quando os judeus começaram a ter esperanças, por ocasião
do avanço dos egípcios (c. 37,3-10), ele os zurziu sem piedade.
E chegou ao ponto de aconselhar o povo a desertar (c. 21,8-10)
o que muitos fizeram (cc. 38,19;39,9). Por isto ele foi colocado num calabouço, onde quase morreu (c. 38). Os babilôhios
finalmente o soltaram e, pensando que ele estava do seu lado (c. 39,11-14), permitiram-lhe que escolhesse entre ir para a
Babilônia ou não. Ele preferiu ficar (c. 40,1-6),

Depois do assassinato de Godolias, os judeus que fugiram
para o Egito levaram-no com eles contra sua vontade; e foi
lá que ele morreu. As últimas palavras que saíram de seus
lábios (c. 44) foram ainda sobre o julgamento do pecado do
seu povo. A esperança, para Jeremias — e ele tinha esperança,
como veremos —, ficava muito além do reino de Judá, que
tinha sido destruído por Iahweh devido à violação da aliança.



b. A mensagem do julgamento: Ezequiel. — À voz de
Jeremias, desde a longínqua Babilônia, juntou-se a voz de seu
jovem contemporâneo Ezequiel, que anunciava igualmente a
condenação de Judá como o julgamento justo de Iahweh. Da
vida de Ezequiel conhecemos muito pouco. Ele era sacerdote
(Ez 1,3). Quase certamente pertencia ao clero do templo, que
tinha sido levado para a Babilônia na deportação de 597. É
muito provável que, muito jovem ainda, ele tenha ouvido a
violenta pregação de Jeremias nas ruas de Jerusalém e se tenha
comovido com ela[4]. Chamado à missão profética no ano de
593 (c. 1,2), por meio da bizarra e aterradora visão da glória
de Iahweh (c. 1) ele continuou a pregar entre os exilados
durante pelo menos vinte anos (cc. 29,17;40,1), portanto até
mais ou menos uns quinze anos depois da queda final de
Jerusalém. Mas, antes deste acontecimento, ele só tinha uma
palavra: condenação sem piedade, sem remorso (c. 2,9ss).

Não se pode encontrar figura mais estranha em toda a
seqüência dos profetas do que Ezequiel. Ele era uma personalidade severa, e não muito atraente, cheio de contradições,
possuindo uma maneira de ser áspera que ocultava emoções
apaixonadas e, podemos suspeitá-lo, profundamente reprimidas.

O seu ensinamento tem ora a secura de uma pregação sacerdotal, ora uma eloqüência vibrante e indisciplinada. Embora um
autocontrole rígido naturalmente lhe proibisse desabafos como
os de Jeremias, a condenação que ele se sentia obrigado a
anunciar provocava-lhe violentas tensões internas e, às vezes,
deixava-o fisicamente esgotado (cc. 24,27;33,22).

Em momentos de êxtase ou quase-êxtase, ele transmitia
sua mensagem através de atos simbólicos, que devem ter parecido, mesmo a seus contemporâneos, completamente singulares.
Traçando um diagrama de Jerusalém num tijolo de argila, ele
comia alimento racionado, enquanto dispunha o assédio simulado da cidade (c. 4,1-15). Rapando os cabelos e a barba, ele
queimou um pouco do cabelo, cortou outro pouco com a espada, espalhou-os ao vento, com o restante fez um feixe e pregou-o
na orla de seu manto (c. 5,1-4), simbolizando o destino do seu
povo. Numa ocasião (c. 12,3-7), fazendo um buraco na parede de
sua casa, Ezequiel saiu por ele ao crepúsculo e, carregando às
costas a sua bagagem, fingiu estar indo para o exílio. Quando,
um pouco antes de Jerusalém cair, sua mulher veio a falecer,
ele reprimiu qualquer sinal de tristeza, indicando a aproxima-
ção de um desastre, muito profundo para lágrimas (c. 24,15-
-24). Ezequiel não era um homem que se pudesse chamar
de normal[5]. Entretanto, ele permanecia como uma sentinela,
guardando seu povo (c. 3,17-21) e anunciando o juízo justo
de Iahweh com a autêntica voz da religião normativa de
Israel.

O tema de condenação de Ezequiel, embora diferente em
sua maneira de expressão, era fundamentalmente o mesmo de
Jeremias. Condenando a idolatria persistente de seu povo
(c. 8), sua rebelião e sua obstinação inflexível, ele declarava
que estas coisas atraíam a ira divina. Diferentemente de Jeremias (Jr 2,2ss) e de Oséias (Os 2,15 etc.), que tinham idealizado os dias do deserto como um tempo em que Israel
fora fiel e puro, Ezequiel declarou que seu povo fora corrupto
desde o começo (Ez 20,1-31 ;23).

Retomando a figura da mulher adúltera de Oséias, ele
caracterizou Jerusalém (c. 16) como um filho bastardo do pecado, cuja maldade tinha excedido de muito a de Samaria e de Sodoma. Mesmo que tivesse em seu seio os homens
mais justos — Noé, Daniel e Jó — sua justiça não seria
suficiente para contrabalançar sua culpa e salvá-la (c. 14,12-20).
Como Jeremias, Ezequiel considerava a nação como uma escória, que devia ser lançada na fornalha da ira de Iahweh (c.
22,17-22). Embora ele lutasse contra a idéia (cc. 9,8; 11,13),
sabia que até este último remanescente de Israel iria ser
destruído.

Por tudo isso, Ezequiel rejeitou a esperança nacional tão
obstinadamente quanto Jeremias. Sabendo que o decreto de
destruição de Iahweh estava lançado contra a cidade (cc. 9 a 11, ele assemelhava-se aos profetas que davam oráculos esperançosos aos loucos que tentavam salvar uma parede que
cedia simplesmente rebccando-a com argamassa (c. 13,1-16).
Ezequiel, como veremos, não perdeu as esperanças fundamentadas nas promessas de Davi, mas arrancou-a de suas raízes
no Estado de então e lançou-a em direção ao futuro. Numa
linguagem de grande força de expressão, ele descreve uma
visão que teve, na qual viu a própria presença de Iahweh,
por assim dizer, levantar-se do seu trono, sair do templo, sobrepairar sobre ele — e partir (cc. 9,3; 10,15-19; 11,22,ss).
Iahweh cancelara sua escolha de Sião e já não estava em sua
casa! Ezequiel interpretava plenamente o desastre nacional como o julgamento justo do pecado da nação por Iahweh. Não
era somente uma ação de Iahweh, mas, positivamente, era
Iahweh vingando-se a si mesmo como Deus soberano (c. 14,20-23 etc.).


c. Os profetas e o futuro de Israel. — Embora notados
por poucos durante a sua vida, estes profetas talvez tenham
feito mais do que todos os outros para salvar Israel da extinção., Demolindo impiedosamente a falsa esperança geral, anunciando a calamidade que caía sobre a nação como o julgamento
justo de Iahweh soberano, eles deram uma explicação à tragédia
antecipadamente, em termos de religião, evitando assim que ela destruísse sua religião.

Embora isto tenha certamente tirado muitos de sua segurança religiosa e mergulhado outros em pleno desespero, os
israelitas sinceros eram levados a se recolher dentro de seus
corações e a fazer penitência. Mais do que isto, a mensagem profética, embora dirigida à nação, também tinha sido uma convocação a todos os que pudessem ouvir para que permanecessem fiéis à palavra de Iahweh, contra a política nacional e as
instituições oficiais.

Com isso, facilitava a formação de uma comunidade nova,
baseada na decisão individual, que poderia sobreviver ao naufrágio da antiga. Certamente, falar de Jeremias e Ezequiel
como pais do individualismo, como muitas vezes fazem os
manuais, é uma orientação errada. Por toda a sua natureza
fortemente coesa, a religião de Israel nunca desconheceu os
direitos e responsabilidades do indivíduo sob a lei da aliança
de Iahweh. E tampouco Jeremias ou Ezequiel proclamam uma
religião individual contra uma religião comunitária, porque
ambos ansiavam precisamente pela formação de uma nova
comunidade.

Contudo, a comunidade do culto nacional, à qual todo
cidadão pertencia automaticamente, estava terminando. Uma
nova comunidade, baseada na decisão individual, teria de substituí-la, se Israel tivesse que continuar como povo. A pregação profética foi exatamente uma preparação para esta comunidade.

A religião de Jeremias era intensamente individual, no
bom sentido da palavra, porque, para ele, o culto nacional
era uma abominação da qual ele não podia participar. O fato
de ele não só censurá-lo, como também declarar que o seu
ritual de sacrifício não passava de um ritual superficial em
relação às exigências de Iahweh (Jr 6,16-21;7,21-23), juntamente com a ênfase contínua que dava à necessidade de purificação interna (Jr 4,3ss; 14 etc.), certamente preparava o caminho para o grande dia em que a religião viveria sem um
culto externo de qualquer espécie — uma coisa impossível
para a mentalidade antiga. E, através da sua famosa individualização do problema da justiça divina (Ez 18), aparentemente mecânica e facilmente levada ao absurdo, Ezequiel também ajudou a liberar os homens das algemas das associações
(v. 19) e do sentimento fatalista (Ez 33,10;37,11) de que
eles estavam para sempre condenados pelo pecado do passado:
cada geração e cada indivíduo tem a sua chance diante da justiça divina. Assim, ambos os profetas encorajavam os judeus,
perdidos e desesperados, a serem individualmente leais à vocação de Iahweh, que era ainda, mesmo neste caso, Senhor Soberano. E ambos asseguravam ao povo que Iahweh o
receberia sem templo e sem culto, na terra do seu cativeiro,
se ele o procurasse de todo o coração (Jr 29,11-14; Ez 11,16;
Dt 4,27-31). Os homens que recebiam estas palavras não perdiam as esperanças.

Além do mais, Jeremias e Ezequiel, os demolidores da falsa esperança, ofereciam uma esperança positiva, porque ambos
consideravam o exílio como um intervalo (Jr 29,10-14; Ez 11-21), depois do qual estava o futuro de Deus. A esperança
em Jeremias era tão fora de toda a expectativa que alguns
duvidaram que ele tivesse esperança, mas ele a tinha! Mesmo
quando Jerusalém estava se desmoronando, manteve sua fé
no futuro de seu povo — e no solo da Palestina! ·— comprando uma propriedade (Jr 32,6-15) e declarando que “as
casas e os campos e as vinhas deverão ser comprados novamente
nesta terra”. É verdade que isto não era propriamente esperança, mas um triunfo da fé nas intenções de Iahweh sobre
o desânimo do próprio Jeremias (Jr 32,16-17a,24ss). Tampouco baseava-se em qualquer ressurgimento esperado da nação
ou em qualquer esforço humano, mas em um novo ato redentor (Jr 31,31-34): Iahweh chamaria novamente seu povo —
como uma vez tinha chamado do Egito — e, perdoando seus
pecados, faria com ele uma nova aliança, escrevendo a lei
desta aliança nos seus corações. O abismo terrível entre as exigências da aliança de Iahweh, segundo as quais a nação tinha
sido julgada, e suas promessas certas, as quais a religião não
podia frustrar, foi preenchido do lado da graça divina. A
própria teologia do êxodo, que tinha condenado a nação, tornou-se o fundamento de sua esperança.

Depois de 587, Ezequiel dirigiu igualmente a seus companheiros de exílio palavras de conforto e esperança. Ele falou de
uma nova libertação de êxodo, e de uma nova disciplina de
deserto, durante as quais Iahweh purificaria seu povo antes de levá-lo para a pátria (Ez 20,33-38). Embora esperasse ansiosamente a restauração de um Israel unido sob o governo de
Davi (cc. 34,23ss;37,15-28), ele esperava que isto fosse realizado por Iahweh, o bom pastor de suas ovelhas (c. 34).
Iahweh sopraria o seu espírito sobre os ossos de uma nação
extinta, fazendo com que ela surgisse como um exército
sobremaneira grande” (c. 37.1-14), dando a seu povo um coração
novo e um novo espírito para servi-lo (v. 14; cf. cc. 11,19; 36,25-27 etc.), reconduzindo-o à sua terra e estabelecendo
com ele sua eterna aliança de paz (cc. 34,25;37,26-28), e colocando o seu santuário para sempre no meio dele.

A antiga esperança nacional estava assim mantida, mas
projetada no futuro, esperando como recompensa uma nação
nova e transformada, totalmente dependente de um novo ato
salvador de Deus. Estas eram as esperanças em torno das
quais o núcleo de uma nova comunidade de Israel deveria
formar-se, esperando através das trevas pelo futuro de Deus.






[1] Para detalhes, além dos comentários, veja os estudos de J.
Skinner, Prophecy and Religion, Cambridge University Press, 1922;
G. A. Smith, Jeremiab, Harper & Brothers, 4■ ed., 1929; A. C. Welch,
]eremiah: His Time and His Work, Oxford University Press, Londres,
1928; v. também J. Bright, Jeremiah, in AB (1965). 


[2] Não é certo, mas provável. A casa de Abiatar era em Anatot
(lRs 2,26ss) e ele era da casa de Eli (ISm 14,3; 22,20). É impro-
vável que Anatot contivesse diversas famílias sacerdotais não relacionadas.
A memória de Silo era certamente real para Jeremias (Jr 7,12 e 14:
26,6). 


[3] Não se pode dizer quantas destas palavras foram pronunciadas 


[4] Sobre suas relações, cf. J. W. Miller, Das Verhãltniss Jeremias
und Hesekiels sprachlich und theologisch untersucht, van Gorcum &
Co., Assen, 1953. 


[5] As tentativas de psicanalisar Ezequiel de longa distância são
inúteis. Cf. C. G. Howie, The ־Date and Composition of Ezekiel (JBL,
Monograph Series, IV [1950], cap. IV), sobre este ponto. Para uma
discussão bem dirigida da personalidade de Ezequiel, cf. Kittel, in GVI,
III, pp. 144-180.