5 de julho de 2016

John Bright - Os profetas do fim do século oitavo em Judá

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OS PROFETAS DO FIM DO SÉCULO OITAVO EM JUDÁ

1. A emergência nacional e a mensagem profética

Não nos podemos afastar da história de Judá no final
do século oitavo sem uma menção qualquer aos profetas que
exerceram então o seu ministério, referindo-se incansavelmente
à emergência nacional. Proceder assim seria deixar a história
incompleta, pois tais profetas foram certamente de maior significação histórica do que alguns reis de Judá — ou da Assíria,
no caso vertente. Embora houvesse naturalmente outros, dois
nos são conhecidos. Isaías e Miquéias.

Ambos iniciaram suas pregações quando as sombras da
Assíria começavam a projetar-se sobre a terra e o Estado do
norte caminhava para seu túmulo, e ambos viveram até os
trágicos anos que se seguiram — Isaías durante todo o período
a que se refere este capítulo.

A crise espiritual de Judá. — Para apreciar estes profetas, deve-se entender a crise que a nação enfrentava. Não se tratava apenas da ameaça externa, física, da agressão assíria,
já descrita, mas de uma emergência espiritual, que coincidia
com ela e ameaçava o caráter e a religião nacionais em seus
próprios fundamentos. Esta emergência originava-se, em parte,
da mesma enfermidade interna que destruíra o Israel do norte
e que também estava presente em Judá, embora em escala
reduzida. Isto já notamos acima.

Falamos dos males sócio-econômicos, contra os quais a religião oficial não tinha nenhuma censura eficiente e os quais foram agravados pelas extorsões assírias, e falamos também
das tendências sincréticas, sempre endêmicas, que campeavam nos
dias de anarquia religiosa que se seguiram ao reconhecimento
dos deuses assírios por Acaz. Embora tais tendências ainda
não tivessem provavelmente tomado um caráter bastante sério
em si mesmas, a ponto de poder destruir a nação, elas indicam
um certo enfraquecimento na estrutura fundamental da nação
e certamente não eram capazes de ajudar a luta pela sua existência.

Em suma, com a desintegração progressiva dos padrões
sociais dos antepassados,׳a aliança do Sinai — com suas austeras obrigações religiosas, morais e sociais, que tinham sido a base original da sociedade israelita —, fora grandemente
esquecida por muitos cidadãos de Judá, para quem Iahweh se
havia tornado o protetor nacional, cuja função era, em retribuição a uma observância meticulosa do culto, proteger e abençoar a nação (Is 1,10-20).

Mas isto não era tudo. Como dissemos antes, a monarquia
em Judá não tinha sua legitimidade conferida pela antiga aliança de Moisés, mas pela aliança eterna de Iahweh com Davi.
Esta noção bastante diferente de aliança tinha visivelmente
obscurecido a noção mais antiga de aliança na mentalidade nacional. Acreditava-se e afirmava-se por meio do culto que lahweh escolhera Sião como sua morada e prometera a Davi uma
dinastia eterna; que cada rei, como “filho” ungido de Iahweh
(SI 2,7 etc.) seria protegido de seus inimigos; que, por fim,
a dinastia teria um domínio maior do que o de Davi, tendo
os reis da terra prostrados a seus pés (SI 2,7-11 ;72,8-11 etc.).

A existencia do Estado, em suma, não se baseava nos termos da aliança feita no deserto com Iahweh, mas nas suas
promessas incondicionais a Davi. Embora estas duas noções
de aliança não fossem totalmente incompatíveis, como o ilustra
o fato de ter havido um acordo entre elas, ocorria entretanto
uma certa tensão.

Na teologia oficial, embora as obrigações morais próprias do
Javismo fossem impostas ao rei (por exemplo, SI 72), que
devia manter a justiça sob pena de severa punição, as promessas eram certas e incondicionais (SI 89,1-4.19-37; 2Sm 7,
14-16). O culto oficial era o servo da teologia nacional. Sua
função era, através de sacrifícios e oferendas e pela reafirma-
ção ritual das promessas, assegurar o bem-estar da nação.

Uma certa paganização interna era inevitável, embora externamente se mantivesse um Javismo normativo: o culto do
Estado tornou-se, como nas religiões pagãs em geral, o sustentáculo espiritual e a defesa da ordem existente. Seus ministros
poderiam possivelmente criticar um rei individualmente, mas
não podiam criticar fundamentalmente o Estado ou acreditar
que ele pudesse cair. Inevitavelmente, como demonstram Isaías
e Miquéias, a tendência era não haver absolutamente crítica
alguma.

Os acontecimentos do final do século oitavo caíram sobre
a teologia de Judá com toda a força de uma avalancha. Colocando em risco a própria existência do Estado e da dinastia,
׳a ideologia nacional foi posta fundamentalmente em dúvida.
Podia-se mesmo crer nas promessas de Davi? Se a Assíria pode
tratar a nação com desprezo, se os deuses assírios podem penetrar na casa de Iahweh, o que é que se podia dizer do
poder de Iahweh para realizar suas promessas?

A reação de Judá foi dupla e oposta: uma confiança
cega e fanática e uma infidelidade covarde — ambas igualmente
destrutivas. Havia aqueles que, certos de que Iahweh cumpriria suas promessas a Judá, mesmo que procedesse de maneira a mais desregrada, sem medir conseqüências, levaram a
nação a uma rebelião desastrosa e quase suicida. E havia aqueles que, como Acaz, possivelmente porque achassem ilusória
a confiança na teologia nacional (cf. Is 7,1-17), não viam
outra maneira de salvar Judá a não ser fazer dele um instrumento a serviço da Assíria. É de se admirar que, depois que
a submissão à Assíria trouxe somente miséria e a rebelião provou ser inteiramente infrutífera, não tenha ocorrido uma completa decepção com a teologia nacional e suas promessas; e,
com isto, o abandono de tudo a pretexto do Javismo. O perigo
desta situação foi agudo, como indicam os acontecimentos do
reinado de Manassés, ao qual voltaremos mais adiante. Que tal
não tenha acontecido realmente deve-se atribuir em grande
parte, humanamente falando, aos profetas — especialmente a
Isaías e aos que ouviam sua palavra.


b. O projeta Isaías: sua carreira e sua mensagem. — Em
toda a sua história, Israel produziu poucas figuras de maior
estatura que Isaías. Chamado à missão profética (Is 6,1)
no ano da morte de Osias, ele pairou sobre a cena de sua época
durante cinqüenta anos, e, embora talvez poucos naquela época
assim pensassem, guiou a nação através de suas horas de
tragédia e de crise, mais do que qualquer outro indivíduo. A
julgar pela facilidade com que se aproximava do rei, ele era
de boa família, se é que não era um membro da própria corte.
Entretanto, a missão da maior parte de sua vida foi opor-se
à política da corte e censurá-la com os termos mais severos.

Deprimido com sua primeira experiência (c. 6), tanto pela
terrível santidade de Iahweh quanto pela gravidade do pecado
nacional, Isaías transmitiu uma mensagem que, antes de tudo,
era uma denúncia formal totalmente de acordo com a tradição
de Amós. Com uma cólera furiosa, ele censurou os poderosos
e inescrupulosos nobres e os juizes venais que tinham conspirado para privar os desamparados de seus direitos (cf. 1,21-23;
3,13-15;5,8 e 23;10,l-4). As classes superiores decadentes,
mimadas, interessadas somente em bens materiais, preocupadas
apenas com prazeres (3,16 a 4,l;5,llss;22), admitindo qualquer
espécie de modo de vida estrangeiro e sem padrões morais ou
fé em Deus (5,18-21), pareciam-lhe merecer infinitamente a
ira divina.

Isaías estava convencido desde o começo (c. 6,9ss) de que
estava falando para um povo incapaz de se corrigir. Comparando a nação (5,1-7) a uma vinha bem cuidada, que deveria
ter produzido boa uva mas não produziu, ele declarou que
Judá deveria ser destruído e, como uma vinha inútil, lançado
ao fogo, por não ter respondido à graça de Iahweh com uma
vida justa e correta. Ele declarou que, devido a seus crimes contra a justiça, o culto magnifícente com o qual Judá esperava
satisfazer as exigencias de Iahweh era inaceitável e ofensivo
à sua divindade (c. 1,10-20). Como Amós, Isaías esperava que
o dia de Iahweh chegasse como dia do juízo (2,6-21), e
considerava os assírios como instrumento daquele juízo (5,
26-29). Ele via a nação desmoronando internamente (3,1-12),
mergulhando na ruína (6,llss), reduzi la a escombros (10,
22ss) — e declarava que a pequena parte que dela sobrasse
deveria ser lançada de novo às chamas da catástrofe (6,13) [1].

O primeiro choque de Isaías com a política nacional ocorreu durante a crise de 735-733, quando a coalizão israelita-araméia marchava contra Jerusalém para obrigar Judá a cooperar na luta contra a Assíria. Por este tempo, Isaías teve um
filho, ao qual deu o nome ominoso de Searjasub (“um resto
voltará”)[2]. Sabendo que Acaz estava disposto a recorrer à
ajuda da Assíria, Isaías, acompanhado de seu filho, enfrentou
o rei (7,1-9) e, assegurando-lhe que os confederados nunca
conseguiriam realizar seu propósito, pediu-lhe insistentemente
que nao o fizesse, mas que confiasse nas promessas de Iahweh.

Diante da vacilação de Acaz, Isaías apareceu diante da
corte (7,10-17) e ofereceu um sinal da parte de Iahweh para
confirmar que o que ele tinha dito era verdade. Quando o
rei se recusou a atender seus pedidos com hipócritas palavras
piedosas, Isaías, aceso em ira, deu o famoso sinal de Emanuel:
o nascimento desta criança, provavelmente para a casa real,
significaría que as promessas de Iahweh a Davi estavam
firmes; mas, como Acaz não tinha acreditado, também seria
um sinal da terrível calamidade que sua covardia atrairia sobre
a nação.

Censurando repetidas vezes a política real e pintando suas
terríveis conseqüências (7,188,5-8;25־a), Isaías convocou todos
os que podiam ouvi-lo a cerrar fileiras na oposição (8,11-15).
Um segundo filho, nascido por essa época (c. 8,1-4), foi chamado de Maher-shalal-hash-baz (“Despojo rápido, presa veloz”)
como um lembrete de sua profecia de que a coalizão israelita-araméia seria logo desfeita, se o rei acreditasse nisso. Mas
Acaz não acreditava. Pelo contrário, ele mandou tributo a
Teglatfalasar e colocou a independência em suas mãos. Vendo
suas palavras rejeitadas com desdém, Isaías transmitiu a seus
discípulos uma instrução do que tinha dito, como testemunho
para o futuro (8,16-18), e retirou-se.

Apesar de tudo isto, Isaías não perdeu as esperanças. Sua
fé em Deus era bastante profunda para que ele supusesse que
o desprezo da nação fosse frustrar o propósito divino e cancelar suas promessas. Apesar de sua convicção de que Acaz
havia traído sua missão, e talvez por causa disso, Isaías considerava como um tesouro o ideal dinástico como havia sido
perpetuado no culto (SI 72) e deu uma expressão clássica à
expectativa de um rebento da linha de Davi, que iria realizar
este ideal (Is 9,2-7;11,1-9) mostrando os dons carismáticos
que se supunha se encontrarem na dinastia (c. 11,2), estabelecendo a justiça que sobretudo Acaz não estabelecera e
pondo um fim, para sempre, à humilhação nacional. Isaías
estava convencido de que Iahweh controlava os acontecimentos
e que sua finalidade de estabelecer seu governo régio de
paz sobre as nações era algo certo (cc. 2,2-4; 11,6-9) [3]. Por isso
é que ele encarava tal tragédia como parte daquela finalidade:
era uma disciplina, um expurgo pelo qual Iahweh removeria
a escória da nação deixando um povo corrigido e purificado
(cc. l,24-26;4,2-6).

A nota ominosa no nome de seu filho Searjasub começou
a dar lugar a um nome cheio de esperança (c. 10,20ss): talvez
somente um resto, mas pelo menos um resto, voltará (isto é,
se arrependerá). Embora repetidas vezes desiludido, Isaías nunca perdeu a esperança de que Deus tiraria da tragédia um remanescente corrigido e purificado do seu povo (cc. 28,5ss;
37,30-32).

a. Isaías: sua carreira e sua mensagem {continuação). — Depois de não ter sido atendido em 735-733, parece que Isaías
não fez nenhuma tentativa para influenciar a política nacional
durante o reinado de Acaz. Vamos encontrá-lo depois que
Ezequias tomou posse do trono, quando (714-712) solicitaram
a Judá que participasse da revolta contra a Assíria, encabeçada
por Asdod e apoiada pelo Egito. Como vimos, embaixadores
da Vigésima Quinta Dinastia (c. 18) e provavelmente também
dos filisteus (c. 14.28-32), foram ter com Ezequias para
solicitar sua cooperação. Isaías (que se havia oposto à submissão à Assíria!) opôs-se tenazmente ao esquema. Sua posição
era de que Iahweh tinha fundado Sião e bastava para sua defesa
(c. 14,32), e que ele, no devido momento, daria o sinal para
a destruição da Assíria (c. 18,3-6); mas até então, deixaria
que o povo esperasse! Quando a conspiração estava sendo
planejada, Isaías circulou por Jerusalém descalço e vestindo
apenas uma tanga, como um prisioneiro de guerra (c. 20),
protestando simbolicamente contra os resultados desastrosos
da confiança na ajuda do Egito. Possivelmente ele foi ouvido,
uma vez que Judá saiu ileso quando a rebelião foi esmagada,
com certeza porque não havia participado dela.

Mas a vitória de Isaías, se é que houve, foi breve. Quando
uma rebelião geral irrompeu por ocasião da morte de Sargão
(705), Judá, como vimos, estava totalmente dentro do movimento, tendo negociado ajuda com o Egito. Isaías censurou
os governantes com toda a violência de que era capaz e predisse o desastre total (por exemplo, cc. 28,1430,1-7.12-17;22־;31.1-3). Ele não só sabia que a ajuda egípcia era inútil, como
também considerava a aliança, selada em nome dos deuses
egípcios (c. 28,15), como prova de uma pecaminosa falta
de fé em Iahweh (por exemplo, cc. 18,12.16ss;30,15). Mas
os líderes da nação, um bando de pagãos e imorais (cf. cc.
28,7ss;29,15), zombaram dele (c. 28,9-13.14), dizendo-lhe sumariamente que saísse do caminho e parasse de repetir sempre
a mesma coisa (c. 30,9-11).

Rejeitado, Isaías mais uma vez pôs por escrito o que tinha
dito, como testemunho para o futuro (c. 30,8). Mas nunca
abriu mão de sua posição. Quando, em 701, a rebelião levou
a nação à beira da ruína, ele a denunciou (c. 1,4-9) e recomendou com insistência que se desistisse dela (v. 5). E,
quando ela terminou, a conduta daqueles que escaparam com
vida — e não graças a si mesmos — parecia-lhe prova de que
a nação era mesmo incorrigível (c. 22,1-14) [4].

Ouvimos falar pela última vez de Isaías quando (aproximadamente em 688) Ezequias mais uma vez se rebelou e
Senaquerib invadiu Judá pela segunda vez [5]. Nessa ocasião,
Isaías tinha a convicção de que a Assíria, antes destinada a ser
instrumento do juízo de Iahweh, havia esgotado a paciência
divina ccm seus ímpios bubris (c. 10,5-19), e que Iahweh
estava prestes a mostrar sua soberania derrotando a Assíria no
selo da Palestina (cc. 14,24-27;31,4'9) e salvando seu povo,
como fizera certa feita no Egito (c. 10,24-27)“. Portanto, aparentemente, ele se comportava de maneira inteiramente paradoxal. Ele, que com tanta persistência se opusera à rebelião
contra a Assíria, na hora da dificuldade extrema de Judá, ficou
quase sozinho do lado de seu rei e o estimulou a manter-se
firme, declarando que os assírios haviam se excedido em seu
orgulho e blasfemado contra Iahweh (c. 37,21-29), razão pela
qual nunca conseguiriam tomar Jerusalém (cc. 29,5-8;37,33-35)!
Ezequias permaneceu firme, a cidade não foi tomada e Isaías
foi vingado. Com isto, o idoso profeta desaparece de cena.
A tradição de que ele teria sido martirizado pelo ímpio Ma-
nasses é tardia e não tem fundamento.

d. A mensagem de Miquéias. — Antes de analisar a significação da mensagem de Isaías, deve-se dizer uma palavra sobre seu contemporâneo Miquéias. Pouco sabemos de Miquéias,
a não ser que veio de uma aldeia chamada Moreset-Gat, ao sul
de Judá (Mq 1,1) e que seu ministério começou aproximadamente junto com o de Isaías, continuando até o reinado de Ezequias (Jr 26,16-19).

Os ataques de Miquéias seguiram o padrão profético
clássico, com ênfase — talvez devido a suas origens humildes — nos abusos sócio-econômicos, particularmente na opressão dos proprietários rurais pelos nobres ricos de Jerusalém.
Parecia a Miquéias que Jerusalém era sob todos os aspectos tão má quanto Samaria, merecendo igualmente o juízo de
Deus (c. 1,2-9), pois lá ele viu homens gananciosos desapropriando os pobres (cc. 2,lss.8ss), governantes corruptos que
não faziam justiça e eram culpados de cruel opressão (cc. 3,
1-3,9-11) e um clero que não abria a boca porque sua única
preocupação era viver (c. 3,5.11). Miquéias denunciou tudo isto veementemente — e não lhe agradeceram pelo trabalho
(c. 2,6)! Contudo, com admiração, ele viu que seu povo, certo
das promessas incondicionais da teologia oficial e confiante de
que Iahweh habitava em seu meio, não sentiu nenhum medo
de perigo (c. 3..11).

A resposta de Miquéias a isto foi uma desassombrada
mensagem de condenação. Apegado como era às tradições do
Javismo primitivo, ele considerava esta iniqüidade como uma
violação dos preceitos da aliança, que Iahweh certamente vingaria. Numa passagem clássica (c. 6,1-8)[6] ele imaginou
Iahweh tendo uma querela com seu povo, que havia esquecido
suas ações generosas para com ele no passado. Afirmava
também que a vontade de Deus — que consiste num modo de
vida justo e generoso e numa humilde obediência — certamente não pode ser satisfeita por nenhuma atividade de culto.
Miquéias pronunciou contra Judá uma sentença de condenação
de proporções totais.

Indo além de Isaías, ele chegou a declarar que Jerusalém
e o templo seriam transformados num montão de ruínas, numa
floresta (c. 3,12). A confiança, apoiada na teologia oficial,
de que Iahweh escolhera Sião como o local de sua morada
eterna (SI 132) é rejeitada sem mais rodeios. Contudo, mesmo
aqui (provavelmente o mesmo Miquéias e certamente aqueles
discípulos que preservaram suas palavras), a esperança íntima
na aliança de Davi ainda se conserva (c. 5,2-6 [Heb. v,
1-5]). Mas com uma diferença: espera-se que Jerusalém cairá,
mas que Judá, totalmente livre, será governado por um príncipe da Casa de Davi, de Belém, que surgirá na Idade da Paz.
Parece que alguns acreditavam nas promessas associadas à dinastia de Davi, mas rejeitavam o aspecto ligado a Jerusalém e
ao templo.

2. Os efeitos da pregação profética

Os efeitos da pregação profética, embora em sua maior
parte intangíveis e difíceis de avaliar, foram profundos. Em
particular, a pregação profética forneceu uma explicação para
a humilhação da nação pelos assírios que permitia à teologia nacional ajustar-se à crise. Deu um impulso ao movimento de
reforma em Judá, que produziu frutos durante gerações. Deu
à esperança futura de Israel uma forma clássica e durável, afetando deste modo a história, tanto de Israel como do mundo,
através dos séculos futuros.

a. Os profetas e a teologia nacional. — Notamos como
a aliança do Sinai, com suas severas obrigações morais e sanções foi encoberta no pensamento popular pela aliança de
Davi, com suas promessas incondicionais. Embora esta última
também tivesse suas exigências morais (SI 72,1-4.12-14), a
ênfase não recaía sobre elas, mas sobre as promessas, as quais

— como era de sentimento geral — garantiam a segurança da
nação, sua sobrevivência e seu glorioso futuro. A crise assíria
contradizia frontalmente esta teologia otimista e levantava uma
questão: as promessas de Iahweh, que não podiam nem mesmo
proteger sua nação da humilhação e sua própria casa da invasão
indevida, tinham alguma validade? Sem uma interpretação que
possibilitasse à teologia nacional explicar a calamidade com
base em suas próprias premissas, é bem possível que ela não
tivesse sobrevivido. E foram os profetas — sobretudo Isaías —
que deram tal interpretação.

Tanto nas mensagens de Isaías como nas de Miquéias notamos uma justaposição aparenteme e inconsistente entre condenação inflexível e segurança inequívoca. Mas se não devemos
tentar uma harmonização artificial, tampouco a dificuldade deve
ser removida por meio da crítica, pois trata-se, de fato, da
chave do problema. A pregação de Isaías era, ao mesmo
tempo, uma poderosa reafirmação da teologia davídica e de
suas promessas, uma rejeição daquela teologia tal como era po pularmente aceita e a infusão nela de um elemento condicional
tirado das tradições do Javismo primitivo.

Isaías acreditava firmemente nas promessas de Iahweh a
Davi, e durante toda a sua vida exortou a nação a confiar
nelas; somente desta maneira a sua mensagem pode ser entendida. Ele se opôs a Acaz em 735/733, não apenas porque
pensasse que a política do rei era insensata, mas também porque ela indicava (Is 7,9) uma pecaminosa falta de fé na própria teologia que o rei afirmava no seu culto oficial! Em
714-712 e em 705-701, ele se opôs ao fato de se confiar
no Egito não simplesmente porque soubesse que o Egito
era uma “cana pisada”, mas também porque não podia
concordar com uma política baseada na habilidade humana,
sem confiança em Iahweh (cc. 28,14-22;29,15;30,l-7;31,l-3).
E certamente ficou do lado de Ezequias, reafirmando as promessas de Iahweh a Sião, porque, na hora de desespero, Ezequias, sem nenhuma ajuda, tinha finalmente confiado! Durante
toda a sua vida, o lema de Isaías fora confiança nas promessas
(cc. 7,9;14,32;28,12 e 16ss): “Se vos retirardes e vos aquietardes, sereis salvos; tranqüilidade e confiança serão a vossa
força” (c. 30,15). Ele declarou (c. 7,17) que a nação estava
em dificuldade não porque as promessas a Davi não fossem
verdadeiras, mas porque não se acreditava nelas! E, porque
não se acreditava, o próprio Iahweh estava combatendo contra
Jerusalém, como Davi fizera uma vez (c. 29,1-4).

Mas Isaías (e Miquéias) certamente rejeitavam a teologia
nacional tal como era popularmente entendida. No espírito do
Javismo primitivo, Isaías não conhecia promessas incondicionais. Embora seu livro contenha poucas alusões claras à tradição do Êxodo — nunca é usada a palavra “aliança” —, a lembrança da aliança antiga, com suas terríveis obrigações,
informava o ataque de Isaías ao pecado nacional. Pode-se dizer que as alianças de Davi e do Sinai — uma enfatizando a
presença de Iahweh com seu povo e suas promessas a este
mesmo povo, a outra seus generosos atos passados e as exigências morais — encontram-se em tensão na teologia de Isaías, ou
melhor, que a aliança do Sinai se harmoniza com a aliança
de Davi pela ênfase na possibilidade de castigo inerente nesta
última (2Sm 7,14; SI 89,30-32), o que a teologia oficial tinha
pensado evitar com atividades de culto. Isaías encarava a humilhação da nação como o castigo divino do seu pecado. E,
precisamente por tratar-se de castigo, não implicava a revogação das promessas.

Esta característica, juntamente com a concepção incomparavelmente exaltada que Isaías tinha de Iahweh, cujo trono
divino (mas não cuja “morada” literal!) estava em Sião, o
capacitava a interpretar com uma altivez nunca antes igualada
o desastre em curso no desenrolar dos acontecimentos mundiais com base na teologia nacional.

Ele declarava que a humilhação de Judá era um ato de
Iahweh, representando um justo julgamento dos pecados de
Judá, mas também a disciplina purificadora (c. 1,24-26) que
possibilitaria o cumprimento de suas promessas. Isaías considerava a poderosa Assíria como instrumento de Iahweh, o
açoite da sua cólera (cc. 5,26-29;10,519־) que, depois de ter
servido para sua finalidade, seria cortado por causa de seu
ímpio orgulho. Para ele, tudo isto é parte do plano de Iahweh
(c. 14,24-27), cuja finalidade é ainda a de cumprir para com
Judá castigado e corrigido as promessas feitas a Davi (cc. 9,2-7; 11.1-9). Aqueles que receberam as palavras de Isaías nunca
poderiam considerar a humilhação da nação como um fracasso de
Iahweh, mas como uma demonstração de seu poder justo e
soberano; e tampouco a tragédia poderia extinguir a esperança - porque Isaías colocara a esperança precisamente além de
um julgamento trágico, parte do próprio plano de Iahweh.

b. Os profetas e o movimento da reforma. — A pregação dos profetas também encorajou Ezequias em suas tentativas de reforma. Sabemos especificamente que as severas palavras de Miquéias perturbaram a consciência do rei e o levaram à penitência (Jr 26,16-19; Mq 3,12), e podemos supor
que as palavras de Isaías tenham produzido o mesmo efeito.
É verdade que a remoção de cultos estrangeiros foi uma faceta
do nacionalismo ressurgente, e provavelmente se daria de
qualquer modo. Mas o ataque dos profetas contra os abusos
sócio-econômicos e as admoestações de julgamento sem dúvida
deram à reforma uma urgência e uma dimensão ética que ela
de outro modo não poderia ter. Embora não tenhamos conhecimento de nenhuma medida tangível que resultasse da pregação profética, é certo que ela produziu seus frutos. Os profetas tinham seus discípulos (Is 8,16), que não somente se lembravam de suas palavras, mas também as preservavam carinhosamente e conservavam vivos os seus ideais.

Estes homens de Deus, que não podem mais ser identificados, consideravam tais oráculos como tesouros, da mesma
maneira que os profetas que os tinham escrito (Is 8,16;30,8)
lembravam-se de outros e punham-nos por escrito ou os transmitiam oralmente. Foi deste modo que começou este longo
processo de coletar e transmitir a matéria que constituiu os
livros proféticos, tais como os conhecemos. As palavras dos
antigos profetas, Amós e Oséias, embora dirigidas em primeiro
lugar a Israel do norte, também eram acatadas e transmitidas
em Jerusalém e aplicadas a Judá[7].

O resultado foi que, embora a reforma de Ezequias fosse
de curta duração, a pregação profética continuava a causar um
grande impacto. A natureza condicional da aliança com Iahweh
e a terrível obrigação que ela impunha à nação não mais
podiam ser esquecidas. O núcleo de um partido de reforma
estava criado em Judá, o qual, apesar de impotente durante
longo tempo, nunca pôde contentar-se e acomodar-se enquanto o paganismo florescesse na terra e a lei da aliança fosse violada. É provável que numa época qualquer depois de 721, o
núcleo da lei do Deuteronômio, que representava uma antiga
tradição legal, com suas raízes na lei consuetudinária da antiga
liga tribal, tenha sido trazido de Israel do norte para Jerusalém
e aí preservado por círculos simpatizantes dos ideais proféticos.
Reeditado no reinado de Ezequias ou Manassés, ele tornou-se a
base da grande reforma de Josias, da qual falaremos no próximo capítulo.


c. Os profetas e a esperança nacional. — Da maior importância e significação, contudo, foi o modo como os profetas
transmutaram a esperança nacional, dando-lhe sua forma clássica
e definitiva. A teologia oficial, tal como era interpretada por
Isaías, recebeu uma dramática justificação nos acontecimentos.
Isaías havia anunciado a crise como o castigo divino para os
crimes de Judá e a Assíria como o instrumento deste castigo
determinado por Deus. E, apegando-se às promessas da aliança
de Davi, declarou finalmente que Jerusalém se manteria firme
e que o resto da nação sobreviveria. E assim aconteceu,
teceu!

Isto, naturalmente, deu grande prestígio a Isaías, confirmando a teologia nacional e suas promessas na mente popular.
Mas nem tudo era positivo. A inviolabilidade de Sião tornou-se um dogma fixo, que seria perigoso contradizer (Jr c. 26).
Embora se concebesse que Judá deveria ser castigado, por seus
pecados, acreditava-se que ele sempre permaneceria firme e que
as gloriosas promessas de Iahweh se realizariam um dia para ele.

Isaías, sem dúvida, teria repudiado este dogma. Embora
tanto ele como Miquéias tivessem conservado o ideal dinástico
e suas promessas, sua pregação tivera o efeito de estender as
promessas além da nação existente, conquanto lhe atribuíssem
condições morais que a nação existente não poderia de fato
cumprir. Sua esperança não era a esperança popular expressa
no culto — para esta nação, e sem condição! Pelo contrário,
eles condenavam a nação existente e, como Amós, consideravam
o dia da intervenção de Iahweh como o dia do seu julgamento.

As promessas de Davi que eles conservavam, portanto,
foram levadas além do dia de Iahweh, o qual, como o dia do
castigo, da disciplina e do expurgo, tornou-se o prelúdio da
promessa. Além disso, o ideal de Davi, como eles o pintavam,
a própria essência do ideal dinástico, estava de fato muito
além das possibilidades da atual Casa de Davi. A esperança nacional era assim mantida — mas ganhava uma dimensão mais
ampla. A promessa não era somente promessa. Era, com
efeito, promessa a um Israel novo e obediente, que ainda não
existia.

A esperança nacional, assim transmutada e levada além da
nação existente, estava capacitada a sobreviver à queda da
nação, como de fato sucedeu, continuando a existir mesmo depois da teologia régia que a havia criado ter deixado de ter
significação. Na pregação de Isaías estava o começo daquela
busca incessante de um remanescente puro, de um novo
Israel que um dia se elevaria do rescaldo de tragédia e ao qual
seriam cumpridas as promessas, e também do desejo daquele
que deveria vir em plena história para remir Israel e estabelecer o seu governo divino sobre a terra.

Esta expectação, muitas vezes frustrada, encontrou sua
plena realização — assim dizem os cristãos — somente depois
de longos e penosos anos “na plenitude dos tempos”, quando
veio o descendente “da casa e da linhagem de Davi”, que a fé
considera como “o Cristo [Messias], o Filho do Deus vivo”.


[1] Sobre este texto muito difícil, cf. Albright, in VT ^1957), pp.
254ss; S. Iwry, in JBL, LXXVI (1957), pp. 225-232. 


53 O nome também é capaz de uma conotação auspiciosa (“Só um 


[3] Provavelmente nunca será decidido com uma evidência objetiva
se as palavras de Is 2,2-4 (igualmente Mq 4,1-5) são de Isaías ou de
Miquéias, ou de algum profeta desconhecido. Todavia, não vejo razão
para considerá-las como uma expressão de esperança profética do século
oitavo, apreciada pelos discípulos de ambos os profetas. Cf. especialmente 

Wildberg, in VT, 7 (1957), pp. 62-81. 


[4] Embota isso seja discutido, eu relaciono Is 1,4-9 e 22,1-14
ao ano de 701. Para discussão, veja os comentários. 


61 Veja acima, pp, 369-386 e apêndice I. 


[6] Não vejo razão de espécie alguma para atribuir 6,1-8, a uma data
posterior, como alguns fizeram. Sobre o fundamento da mensagem de
Miquéias, cf. W. Beyeklin, Die Kulttraditionen Israels in der Ver-
kündigung des Propbeten Micha, in FRLÂNT, N.F., 54 (1959). 


[7] Várias passagens em Amos e Oséirs sugerem a aplicação de
suas palavras a Judá: cf. Am 2,4ss;9,llss; Os l,7;4,15a;6,lla.