11 de julho de 2016

John Bright - O problama das campanhas de Senaqueribe na Palestina

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O PROBLEMA DAS CAMPANHAS DE SENAQUERIB NA PALESTINA

A narração dos feitos de Senaquerib contra Ezequias em
2Rs 18,13 a 19,37 (Is 36ss) [1] apresenta um problema difícil.
Ela contém o relato de uma ou duas campanhas? Esta pergunta foi assunto de debate por mais de um século sem que se
tenha chegado a nenhuma conclusão; e é provável que ainda
o seja, por falta da descoberta de prova recente extrabíblica —
isto é, dos anais oficiais de Senaquerib referentes à última
década de seu reinado aproximadamente (se é que tal prova
chegou a existir). Pode-se, portanto, assumir uma posição, mas
com a maior reserva[2]. E, embora a maioria das opiniões tenha no passado se inclinado para a opinião de que foi apenas
uma campanha[3], a posição que assumimos no texto baseia-se
na crença de que a evidência se satisfaz melhor supondo-se
que foram duas (uma em 701 e outra depois). Portanto,
algumas palavras de explicação vêm muito a propósito aqui.

As duas narrações bíblicas são, com pequenas diferenças
verbais, idênticas, só que a de 2Rs 18,14-16 está faltando em
Isaías. Esses versículos dizem-nos que, quando seu território
foi assolado pelos assírios, Ezequias rendeu-se, submeteu-se
a condições e pagou o tributo exigido. Em seguida, segue-se a
narração da exigência da rendição incondicional feita por Senaquerib, da recusa de Ezequias com o estímulo de Isaías e da
admirável libertação da cidade.

É provável — embora muitos tenham suas dúvidas —
que 2Rs 18,17 a 19,37 harmonize as duas narrações separadas,
a primeira nos capítulos 18,17 a 19,9a,36ss (Narração A), a
segunda no capítulo 19,9b-35 (Narração B). Mas, uma vez
que não tencionamos discutir que estas passagens se refiram a
duas diferentes campanhas (parecem ser paralelas), o ponto
não é vital para a questão em causa e pode ser deixado de
lado.

O importante é que 2Rs 18,14-16 (não em Isaías), e
somente esta passagem, é admiravelmente corroborada e suplementada pela narração que o próprio Senaquerib fez da campanha de 701 \ No presente texto, levamos em conta esta
narração. Basta-nos dizer que ela conta como os assírios, tendo tratado com Ashkelon e Ecron e tendo derrotado uma força
egípcia em EItekeh (perto de Ecron), dirigiu-se para Judá
e o assolou, prendendo Ezequias em Jerusalém e forçando-o
a render-se. Ela conclui dizendo que grande parte dos habitantes de Judá foi levada para os senhores filisteus leais, que
Ezequias ficou sobrecarregado com pesado tributo anual e que,
mais tarde, ele mandou seu tributo a Senaquerib, em Nínive.
Esta narração é um paralelo perfeito do c. 18,13.16. Não
existe conflito entre as duas, e a data é 701.

Como a história da libertação de Jerusalém, não ilustrada
por documentos assírios, pode ser relacionada com isto? Devemos notar a menção a Taraka, no c. 19,9. Naturalmente, concorda-se que Taraka só se tornou governante em 690/89 (no
ponto de vista que seguimos aqui, ele tornou-se co-regente
de seu irmão Shebteko naquele ano e foi coroado rei por
ocasião da morte deste em aproximadamente 685/4), mas
isto geralmente tem sido explicado com um anacronismo inofensivo, que atribui a Taraka a posição que ele ocupou posteriormente. Textos publicados anos atrás, porém, dão ao assunto uma luz diferente. Dizem-nos eles que Taraka só tinha
vinte anos quando veio pela primeira vez da Núbia para o
Baixo Egito, a fim de se associar a seu irmão. Assim, se
supusermos que ele foi feito co-regente imediatamente depois de
sua chegada (isto é, tendo ele chegado em 690), ele só poderia ter nove anos em 701. Mesmo se supusermos que ele chegou
à corte de seu irmão um pouco mais cedo, no reinado deste
(de acordo com a cronologia seguida aqui Shebteko só se
tornou governante em aproximadamente 696/5, ele não poderia
ser mais do que um jovem entre treze e dezenove anos em
701. De qualquer modo, os textos afirmam que ele nunca se
separou de sua mãe, na Núbia, antes de vir ter com seu irmão,
na idade de vinte anos. Portanto, dificilmente ele teria podido
comandar um exército na Palestina em 701.

Se relacionamos as duas narrações de 2Rs 18,17 a 19,37
aos acontecimentos conhecidos de 701, devemos considerá-las
como tardias, lendárias e de ínfimo valor histórico, ou então,
pelo menos, devemos considerar a menção a Taraka como um
erro. Escolher a primeira opção seria um procedimento injustificável. Embora as duas narrações não sejam em sentido algum
relações analísticas (como é o caso de 18,13-16), mas composições livres, certamente feitas pelos discípulos de Isaías e
de um tipo freqüentemente designado com fundamentos formais
como “lendas proféticas”, elas são notavelmente isentas de
características imaginosas. Pelo contrário, elas dão prova de
notável memória histórica.

Isto é a enfática verdade da Narração A. Ela não só lembra “corretamente” os nomes dos oficiais de Ezequias (Eliakim,
o primeiro-ministro; Sobna, o secretário real), como também contém (como faz a Narração B) varías alusões aos acontecimentos dos séculos nono e oitavo, que podem ser confirmados
pelos documentos assírio״. Além disso, em sua referência ao
discurso de Rabshakeh — embora ninguém suponha que ele
tenha sido recebido por uma estenógrafa —, o narrador mostra
um perfeito conhecimento dos usos militares e diplomáticos assirios e contemporáneos.

Características como estas, embora naturalmente não provem
a precisão da narração em todos os seus detalhes, levam-nos a
duvidar que o relato seja tardio e fruto de imaginação. Pelo
contrario, ele deve ter sido composto enquanto a lembrança das
invasões assírias ainda estavam vivas na memória nacional (e,
depois do reinado de Senaquerib, Judá não sofreu mais invasões, ao que saibamos).

Quanto à Narração B, embora ela se preocupe em apresentar
Ezequias como um paradigma do rei divino, cuja fé foi recom-
pensada (o que alguns consideram como uma característica “len-
dária”) não contém nada de fantástico ou incrível que nos
force a considerá-la como fictícia. Realmente, os 150 mil assí-
rios que teriam sido assassinados pelo anjo do Senhor, parece um
número impossivelmente alto [4]. Mas a dizimação do exército
assírio por uma epidemia não é, em si mesma, de maneira
nenhuma improvável e, além disso, pode talvez ser ilustrada
pela tradição de Heródoto (II, 141) que o exército de Senaquerib foi dizimado por ratos perto da fronteira egípcia [5]. De
qualquer modo, deve-se supor que houve uma libertação dramática de Jerusalém, pelo menos para explicar a crença popular
na inviolabilidade de Sião, que depois se tornou um dogma
fixo, como também o fato de que os oráculos de Isaías que prediziam esta libertação eram apreciados e preservados com estima.
As narrações de 2Rs 18,17 a 19,37 devem ser consideradas
como refletindo ocorrências históricas.

Mas, se admitimos que essas narrativas não deixam de ter
bases históricas, elas só podem ser relacionadas aos acontecimentos de 701 com a suposição de que a menção a Taraka
é um erro e a constatação que Senaquerib foi menos do que
franco conosco em suas inscrições, pretendendo que sua campanha
foi mais completamente vitoriosa do que realmente o foi.

Não se teria, a priori, nenhuma dificuldade em fazer a primeira suposição. Os reis assírios não costumavam celebrar derrotas, e muitas vezes falsificavam a verdade, pintando derrotas
como vitórias. Nunca se deve acreditar nas glórias narradas por
eles, sem um grande espírito crítico. Se Senaquerib procurou
amedrontar Jerusalém para levá-la à capitulação e fracassou,
se seu exército foi dizimado por uma epidemia, se circunstâncias de toda espécie o forçaram a retirar-se sem conseguir seus
objetivos, ele provavelmente não no-lo teria dito.

Certamente aconteceram coisas na campanha de 701 que
ele preferiu esconder da posteridade. Entretanto, deve-se dizer
que, se tivéssemos somente as inscrições de Senaquerib e 2Rs
18,13-16 (as duas narrações que certamente se referem a 701),
ninguém teria nunca duvidado de que a campanha realizou-se
exatamente como Senaquerib afirmou. A menção a Taraka, como
um erro, está certamente dentro das possibilidades. A memória
humana é uma coisa fraca, podendo armar ciladas a todos
nós; e pode também ter traído o antigo narrador. Entretanto,
não se deve, muito apressadamente — e com certeza não dogmaticamente —, supor que isto realmente aconteceu.

Como vimos, o narrador “A” mostra uma memória histórica admiravelmente perfeita, indicando-nos nomes, lugares
e detalhes de costumes assírios. Não é possível (provável?)
que sua memória fosse igualmente boa neste ponto? É possível
que uma tradição que se lembrava corretamente mesmo de nomes de oficiais de Ezequias (certamente homens de importância
relativamente menor na história) tivesse se enganado sobre o
nome do faraó do Egito que desempenhou um papel importante nos acontecimentos? [6]

É possível, certamente, mas não pode ser considerado normal. Infelizmente, não podemos ter provas, nem de um nem
de outro. Mas, se é possível que um narrador que viveu uma
geração ou pouco mais depois dos acontecimentos possa ter tomado anacrónicamente o nome de Taraka como o faraó mais
conhecido do período, também é igualmente possível que o
compilador da história do Deuteronômio, que colocou a narrativa no seu estado presente e que viveu numa distância mesmo
maior dos acontecimentos, possa ter cometido um anacronismo
em relação a duas campanhas distintas [7]. Pode-se razoavelmente considerar a segunda possibilidade como mais provável.

Mas, admitindo-se que o nome de Taraka é um erro,
abrem-se dois caminhos diante de nós para a reconstrução dos
acontecimentos. Com infinitas variações e detalhes, os historia-
dores têm seguido um ou outro, ou uma combinação de ambos.
Podemos supor que os acontecimentos dos capítulos 18,17 a 19.37 se deram, na ordem da Bíblia, pouco depois da capitulação
descrita no c. 18,14-16 [8]; então, ou os versículos 13-16 devem
ser considerados como resumo de toda a campanha, estrutura
dentro da qual os acontecimentos de 18,17 a 19,37 devem ser
adaptados; ou então deve-se adotar uma acomodação entre ambos.



Admite-se que pode haver uma interpretação para
cada um desses pontos de vista, e não se pode provar que um
dos dois seja incorreto (admitindo-se mais uma vez que o nome
de Taraka seja um engano). Mas subentende-se aqui que nenhuma das duas posições é plenamente satisfatória e que ambas
estão sujeitas a muitas objeções positivas.

2. A primeira destas reconstruções implica a suposição
de que a libertação de Jerusalém se deu depois que Ezequias
se rendeu e aceitou as condições de Senaquerib (conforme a
descrição de 18,13-16 e das inscrições de Senaquerib). Deve-se
supor que Senaquerib, tendo feito incursões na planície dos
filisteus, derrotou os egípcios em EItekeh, tratou com seus
vassalos rebeldes na área, dirigiu-se para Judá, assolou-a e aprisionou Ezequias em Jerusalém.

Entretanto, Ezequias enviou mensageiros a Senaquerib,
que estava então cercando Láquis, e ofereceu-lhe submissão de
acordo com os termos de Senaquerib — que, como vimos,
eram severos, mas não envolviam a capitulação de Jerusalém.
Deve-se então supor que Senaquerib, lamentando depois sua
brandura, talvez devido à aproximação de uma nova força
egípcia sob o comando de “Taraka”, (c. 19,9), e temendo que
Ezequias lhe causasse problemas na retaguarda, enviou mensageiros e pediu que Jerusalém abrisse suas portas ao exército
assírio — uma solicitação que ia além dos termos que Ezequias
aceitara e que significaria com certeza o fim do reino de
Judá. Ezequias, temendo a perfídia do rei assírio, preferiu morrer a aceitar as propostas de Senaquerib. Este, contudo, não
foi capaz de manter suas exigências, ou porque seu exército
tivesse sido dizimado pela doença e temesse enfrentar a aproximação dos egípcios nesta situação de fraqueza, ou por causa
da notícia de que sua presença era necessária em casa, ou
por ambas as razões, vendo-se então obrigado a se retirar às
pressas e deixar Jerusalém ilesa.

Deve-se admitir que se pode fazer uma conjectura persuasória para esta reconstrução e que, se não fosse a menção a
Taraka, ela poderia ser considerada satisfatória como prova,
como qualquer reconstituição. Entretanto, muitas objeções podem surgir, as quais, tomadas em conjunto, têm um peso
considerável.

(1) No primeiro caso, Ezequias capitulou porque estava
indefeso. Tendo sido derrotados todos os seus aliados, tendo
sido derrotados os egípcios em EItekeh e estando todo o seu
país, salvo Jerusalém, nas mãos dos assírios (cf. Is 1,4-9),
ele viu que qualquer resistência seria inútil. Sendo assim, ele
se rendeu, colocando-se à mercê de Senaquerib (“ aceitarei o que
me impuseres”: 2Rs 18,14).

Poder-se-ia pensar que, se Senaquerib lhe tivesse imposto
quaisquer exigências que julgasse oportunas — inclusive a
rendição de sua própria pessoa —, Ezequias não teria nenhuma escolha, a não ser obedecer compulsoriamente. Contudo,
nem o capítulo 18,14 nem Senaquerib falam de qualquer
coisa, a não ser de um tributo oneroso, mais a redução do
território de Judá e — de acordo com outra versão dos anais
de Senaquerib — a entrega de grandes quantidades de material
bélico: carros, escudos, lanças, arcos e flechas, dardos etc.[9]

E, naturalmente, também se poderia supor que Ezequias
estava obrigado a entregar este material imediatamente, juntamente com toda a parcela do tributo que pudesse recolher na hora. Portanto, é difícil entender que Ezequias,
tendo possivelmente sido efetivamente desarmado, pudesse ter
pensado em empreender alguma resistência em 701, mesmo que,
como este ponto de vista presume, Senaquerib tenha depois
aumentado suas exigências, incluindo a capitulação de Jerusa
lém.

(2) Essa reconstituição supõe que a derreta dos egípcios
em EItekeh se deu antes da capitulação inicial de Ezequias.
Poder-se-ia pensar que isto tivesse destruído qualquer confiança que Ezequias possa ter tido na eficácia da ajuda egípcia;
com efeito, o fracasso egípcio, sem dúvida, desempenhou um
papel importante em sua decisão de solicitar condições de capitulação. Contudo (c. 18,19-25), Rabshakeh é depois (neste
ponto de vista) visto como censurando-o por continuar (reassumir) a não querer confiar no Egito. Isto, em si mesmo,
é estranho. Realmente, ninguém supõe que o discurso de
Rabshakeh, como é relatado, represente uma cópia estenográfica, e não se pode tirar inferências muito amplas de suas palavras. Mas, como os que propõem esta interpretação geralmente supõem que ainda havia realmente esperança de ajuda
egípcia e que isto fortalecia a disposição de Ezequias a resistir,
devemos considerar este ponto muito importante. Freqüentemente se afirma que a força derrotada em EItekeh era pequena — talvez não mais do que um destacamento de vanguarda[10] e que o exército principal egípcio, (comandado por Taraka)
estava avançando na retaguarda.

Mas isto parece improvável, por numerosas razões. Não
há realmente nenhuma razão para se crer — exceto porque
convenha à reconstituição que a força derrotada em EItekeh
fosse uma força pequena, e ainda menos que fosse uma
simples vanguarda. Se este fosse o caso, o faraó teria sido
culpado de uma deplorável ignorância da ciência militar,
expondo suas forças dispersas diante do exército assírio. E,
não sendo uma pequena força, é difícil acreditar que os egípcios,
em vista de sua notória incapacidade militar, tivessem um
segundo exército, preparado para tomar a ofensiva dentro de
um mês ou dois, no exterior. E é mesmo mais improvável que
o faraó tivesse levado um exército para a Palestina depois de
uma derrota inicial, e numa ocasião em que, como seu serviço
de inteligência deveria tê-lo informado, a rebelião que ele
vinha apoiar já havia sido sufocada (a capitulação inicial de
Ezequias parece tê-la terminado). Um segundo reforço militar egípcio em 701 é uma suposição muito improvável.

(3) Além disso, deve-se notar que os termos que devem
ter sido impostos a Ezequias, segundo nossas fontes, são, exteriormente, incompatíveis. No c. 18,14-16, Ezequias está onerado com pesado tributo, o qual ele paga. Senaquerib diz ter exigido um tributo anual crescente, e afirma que os emissários de Ezequias o entregaram em Nínive (o que não exclui a possibilidade, senão a probabilidade de que ele tenha recebido pelo menos um pagamento inicial na hora). Ele também nos diz ter reduzido o território de Ezequias — uma medida que ele deve ter tomado antes de deixar a Palestina.

Tudo isso implica a intenção de deixar Ezequias no seu trono e o
reino de Judá continuar existindo. Contudo, Rabshakeh, em seu
discurso (c. 18,31ss), exige a rendição de Jerusalém e diz ao povo (o que parece que ele já sabe) que ele deverá ser
deportado, mas que a pronta submissão tomará sua sorte mais
suave; isto é, o reino de Judá devia acabar. (Independentemente da importância que dermos às palavras do discurso de
Rabshakeh, como ele nos é relatado, é isto o que exatamente
teria sucedido nas circunstâncias, de acordo com a prática normal assíria).

Como se deve explicar esta incompatibilidade? Senaquerib exigiu um tributo anual crescente e depois decidiu pôr fim
ao reinado de Judá e deportar sua população; em seguida,
quando Ezequias, desafiadoramente, recusou-se a entregar Jerusalém (ele que já se havia rendido) terá Senaquerib voltado
às exigências originais — e as terá recebido?

A reconstituição que estamos discutindo supõe que foi
este o caso: que Senaquerib, depois que Ezequias pediu e
aceitou os seus termos, perfidamente aumentou suas exigências e tentou tomar posse de Jerusalém, mas foi impedido de
fazê-lo por uma combinação de (para ele) circunstâncias infelizes para suas intenções; então, ele tinha forçosamente de exigir o que pudesse conseguir. Naturalmente, não se pode
provar que esta reconstituição dos acontecimentos seja incor-
reta. Mas é mais fácil acreditar que os termos mencionados
por Senaquerib e no c. 18,14-16 (as duas únicas fontes que
certamente se referem a 701) eram os únicos existentes e que
a rendição de Jerusalém nunca foi exigida.

A relativa brandura de Senaquerib para com Ezequias pode ser facilmente explicada, supondo-se que, tendo os egípcios
sido derrotados e a revolta sufocada em todas as partes, Senaquerib, quando Ezequias solicitou cláusulas de rendição, se
satisfez em aceitá-las, feliz por evitar a perda de tempo e o
esforço que a redução de Jerusalém pelo cerco teria exigido
(a operação, mais tarde, tomou a Nabucodonosor um ano e
meio).

(4) Finalmente, a passagem dos cc. 19,7,36ss implica (e
a narração foi composta depois do acontecimento) em que
Senaquerib tenha sido assassinado logo depois de sua tentativa
de tomar Jerusalém. Mas isto só aconteceu realmente vinte
anos depois de 701. Talvez não se deva dar muita importância
a isto. Com efeito, alguns historiadores concluem que este
aparente lapso de tempo dos acontecimentos, juntamente com
a menção a Taraka seja mais uma prova de que a narração foi composta numa data muito posterior, quando a memória dos
acontecimentos já não estava muito clara. E talvez tenha sido
assim. Mas deve-se salientar que é justamente a conclusão
oposta que deve ser tirada.

Se cs acontecimentos de 18,17 a 19,37 realmente se
deram enquanto Taraka governava o Egito, então não houve
lapso significativo (somente uns seis ou sete anos, que na
longa perspectiva da história, não devem ser em absoluto
considerados), e isto deve ser tomado como prova adicional
de que a memória histórica do narrador era correta (ou a memória da tradição sobre a qual ela baseou). E, se não houve
lapso de tempo entre a ameaça de Senaquerib a Jerusalém
e sua morte, então deve haver um lapso entre 18,16 e 17,
onde — podemos supor — o historiador do Deuteronômio
juntou as narrações de duas campanhas distintas. Por estas
razões — e acima de tudo por causa da menção a Taraka, que
não deve ser desprezada como errônea por falta de maior evidência — é difícil considerar os acontecimentos de 18,17 a 19.37 como tendo ocorrido em 701, como uma conseqüência
da capitulação de Ezequias narrada em 18,13-16.

3. A segunda reconstituição dos acontecimentos mencionada acima argumenta que a narrativa de 18,17 a 19,37 deve
ser lida dentro da estrutura de 18,13-16, e não como sua sequência. Esta reconstituição, embora evitando algumas das dificuldades oferecidas pela primeira, suscita outras, ainda mais
sérias, que devem ser consideradas.

Ela pressupõe algo como o que se segue. Quando Senaquerib estava cercando Láquis, Ezequias enviou embaixadores a ele, implorando condições de capitulação (18,14). Senaquerib, ocupado no momento, enviou o Rabshakeh, com uma
força considerável, para exigir uma rendição incondicional (cc.
18,17 a 19,7) — o que Ezequias, com o conselho e o estímulo de Isaías, recusou. O Rabshakeh (copeiro-mor) voltou
(19,8) e encontrou Senaquerib em Lebna. Nesse ínterim, Láquis
havia caído. Mais ou menos nesta ocasião, os egípcios se aproximaram (o exército dirigido por “Taraka” e o mencionado por
Senaquerib eram o mesmo), e Senaquerib os encontrou e desbaratou em EItekeh. Entrementes, ele enviou uma segunda
mensagem a Ezequias (c. 19,9-13) , que, desta vez (apesar da impressão dada pela narrativa), desistiu e pagou o tributo
exigido, como vemos em 18,14-16 e em Senaquerib. Mas, então, os assírios se retiraram sem ocupar a cidade e sem fazer
novas represálias — ou porque Senaquerib tenha-se abrandado em virtude da capitulação de Jerusalém sem combate ou
por causa de uma epidemia em seu exército, ou por outras
razões.

Apesar desta reconstituição ter a vantagem de não exigir a
suposição de que as duas forças egípcias marcharam contra a
Palestina em 701 ou que Ezequias voltou à resistência depois
de ter capitulado, pode apresentar algumas objeções:

(1) Como a primeira reconstituição, ela exige que consideremos o nome de Taraka como um engano (e contra esta
suposição já mostramos fortes reservas acima), e também
envolve o mesmo lapso de tempo aparente entre a morte de
Senaquerib (em 681) e os acontecimentos de 701.

(2) Além disso, deve-se objetar que esta reconstituição
não leva muito a sério a tradição bíblica da libertação de
Jerusalém. Ela não dá nenhuma explicação convincente de como tal tradição poderia ter-se originado. Ela nos leva a crer
que a campanha de 701 terminou com a abjeta capitulação de
Ezequias e o pagamento do tributo, muito embora tenha dado
origem a uma (dupla) tradição de libertação miraculosa, que
impressionou profundamente a memória nacional. Isto parece
muito improvável. Na verdade, a ação de Ezequias, sem dúvida,
salvou a cidade do assalto e da destruição e seu povo da deportação ou de coisa pior. Mas, realmente, não é fácil entender
como a humilhação descrita em 18,14-16 e em Senaquerib
possa ter sido interpretada como uma ilustração da capacidade
de Iahweh para defender Sião de seus inimigos.

(5) As palavras de Isaías a Ezequias (19,32-34) prometem
(literalmente: “ele não virá a esta cidade”) não só que os
assírios não tomarão Jerusalém, como também que eles nem
mesmo se aproximarão dela ou a cercarão, mas sim voltarão
para sua terra por outro caminho. Isto parece contradizer as
conhecidas palavras de Isaías, ditas exatamente antes de 701
(Is 29,1-4), quando ele declarou que Jerusalém seria cercada.
Embora não esteja claro que o principal exército assírio estava diante de Jerusalém em 701, nem que a cidade foi tomada
de assalto, Senaquerib nos diz que ele bloqueou a cidade
com fortificações e forçou Ezequias a render-se. As palavras de
Isaías em 2Rs 19,32-34 poderiam ter sido proferidas em 701?
Se o foram, Isaías estava errado; e, se ele estava errado (isto
é, se a cidade foi bloqueada e se rendeu), por que suas palavras
asseguravam a sua tão apreciada inviolabilidade?

(4) Além disto, esta reconstituição, pelo menos em algumas das formas em que é apresentada, pressupõe que, quando
Ezequias ainda tinha esperanças de ajuda egípcia, Senaquerib
impôs-lhe exigências tão irracionais (capitulação incondicional e
ameaça de deportação) que ele foi obrigado a recusar, mas
que, quando os egípcios foram vencidos e Ezequias ficou só,
sua capitulação foi aceita com condições muito mais suaves.
Isto parece estranho.

(5) Finalmente, supor que o exército de “Taraka” e a
força derrotada em EItekeh eram o mesmo implica em dificuldades geográficas, isto é, se dermos importância às palavras de 19,8ss. De acordo com estes versículos, “Taraka”
aproximou-se quando Senaquerib dirigia-se para Lebna, depois
de ter vencido Láquis. Senaquerib, contudo, nos diz que a
força vencida em EItekeh estava vindo em socorro de Ecron,
e que foi batida antes que Ecron, EItekeh e Timnah fossem
tomadas. E, como Láquis fica consideravelmente ao sul dos
últimos lugares mencionados (Lebna fica a meio caminho entre
os dois pontos), isso nos levaria a supor que Senaquerib dirigiu-se da área de Jope para o sul, através do território de
Ecron — deixando para trás suas principais cidades, sem
conquistá-las —, reduziu Láquis e voltou para Lebna, assediando nesse ínterim Judá, antes de voltar para o norte, onde
se encontraria com os egípcios em EItekeh e venceria Ecron.
Não é um quadro impossível. Mas tampouco é provável, nem
é algo que corresponde inteiramente ao que dizem as inscrições de Senaquerib.

4. Além das considerações acima, embora o espaço nos
proíba extensos debates e questões críticas e exegéticas aqui,
as afirmações de Isaías com referência à crise assíria — parece-me são muito melhor entendidas se supomos que houve duas
invasões por parte de Senaquerib. As palavras que lhe são
atribuídas em 2Rs 18,17 a 19,37 (Is c. 36ss) expressam, todas, uma tranqüila segurança de que Jerusalém seria salva e os
assírios frustrados pelo poder de Iahweh. Não existe nenhuma
alusão a censuras a Ezequias por causa de sua política desastrosa, que levara a nação a tal situação. Vários outros
oráculos, inquestionavelmente de Isaías (Is 14,24-27;17,12-14;
30,27-33;31,4-9), são semelhantes em tom e deixam pouca
dúvida de que, pelo menos em alguma fase de sua carreira,
ele tenha realmente expressado tais sentimentos.

Entretanto, suas afirmações conhecidas, em 701 e nos
anos imediatamente anteriores (cc. 28,7-13.14-22;30,1-7.8-17; 31.1-3), mostram que ele denunciou constantemente a rebelião
e a aliança egípcia que a apoiava como uma loucura e um
pecado e predisse como conseqüência um desastre fatal. Em
701, quando Senaquerib devastou todo o território e bloqueou
Jerusalém (c. 1,4-9), se as palavras significam alguma coisa,
ele aconselhou a capitulação ("Para que golpear-vos mais, se
persistis na rebeldia?”; v. 5). E o c. 22,1-14, que foi provavelmente proferido quando os assírios levantavam seu bloqueio
e se retiravam, sugere que nada durante o curso destes acontecimentos fez com que ele alterasse o seu juízo sobre o
caráter e a política nacionais. Não é fácil acreditar que, nesse
mesmo ano, ele também aconselhasse a rebelião e prometesse
a libertação.

Todavia, é uma verdade indubitável que a polaridade do
pensamento de Isaías em relação à Assíria não pode ser explicada como uma evolução dos seus pontos de vista durante o
curso de sua carreira ou uma mudança de posição teológica
devido a circunstâncias diferentes[11]. Isaías nunca considerou a
Assíria senão como um instrumento nas mãos de Deus e
nunca acreditou que ela devesse ter a última palavra na história, mas que, tendo cumprido sua missão, chegaria ao fim
e seria humilhada por seu orgulho blasfemo (c. 10,5-19).
Portanto, em qualquer época de sua vida ele poderia ter
anunciado a destruição final da Assíria. Mas é quase inconcebível que, durante a mesma rebelião (a que culminou em
701), ele tivesse expressado simultaneamente ambas as convicções acima, isto é, o desastre fatal de Judá (c. 30,8-17)
e a promessa de que Deus protegeria Judá e arrasaria a Assíria
(cc. 14,24-27;31,4-9); que pudesse predizer o cerco de Jerusalém (c. 29,1-4) e anunciar que não haveria nenhum cerco
(c. 37,33-35); que pudesse aconselhar a capitulação (c. 1,5) e
recomendar a resistência.

Sempre houve uma polaridade no pensamento de Isaías em
relação à Assíria, e ambas as afirmações acima são conseqüências legítimas de sua teologia. Mas, com certeza, ele não
poderia ter feito afirmações tão opostas — e, aparentemente,
tão contraditórias — na única e mesma ocasião; deve-se supor
circunstâncias diferentes.

Certamente, se poderia argumentar, como fazem os que
propõem a primeira reconstituição descrita acima, que Isaías
passou por uma mudança repentina de atitude em 701. Com
efeito, ele denunciou a rebelião, predisse que ela terminaria
num desastre e urgiu para que desistissem dela. Mas então,
quando Senaquerib violou com perfídia os termos com base nos
quais tinha aceito a capitulação de Ezequias e exigiu que
Jerusalém lhe abrisse as portas, Isaías se convenceu de que a
Assíria, com sua traição e orgulho, havia esgotado demais
a paciência divina, razão pela qual Deus interviria para defender sua cidade e salvá-la, de acordo com suas promessas
a Davi.

Mas depois, quando os assírios se retiraram, Isaías ficou
amargamente desiludido ao descobrir (c. 22,1-14) que o povo
nada aprendera de penitência, gratidão ou confiança em Deus
com as experiências que havia passado. Naturalmente, isto
ilustra as características aparentemente contraditórias da mensagem de Isaías em relação aos acontecimentos de 701, que
muitos acharam aceitáveis. Mas, além do fato de pressupor duas
mudanças muito repentinas de atitude por parte de Isaías no
decorrer de um período muito breve de tempo, depende inteiramente da primeira reconstituição dos acontecimentos descritos acima, a qual já colocamos em dúvida com fundamentação.
Em vista deste fato e da conhecida atitude de Isaías em 701
e nos anos imediatamente anteriores, deve-se supor a possibilidade de que pelo menos alguns de seus oráculos que anunciavam a defesa certa de Sião por parte de Deus e sua intenção
de aniquilar a Assíria, foram emitidos durante uma invasão
assíria posterior — quando esses oráculos teriam plena aplica-
ção [12].



Devemos repetir que nossas afirmações não contribuem
para nenhuma prova definitiva. A matéria deve ser considerada em aberto. Mas, em virtude das linhas anteriores de evidência, deve-se levar em consideração a possibilidade de que
2Rs tenha unido as narrativas de duas campanhas, uma em
701 (c. 18,13-16), a outra mais tarde (c. 18-17 a 19,37).
Este ponto de vista, que é desenvolvido no texto, sugere que,
enquanto Senaquerib estava ocupado em submeter a Babilônia,
depois de sua derrota para os babilônios e elamitas em 691,
desencadeou-se outra rebelião no oeste, encabeçada por Taraka,
para a qual Ezequias foi atraído. Uma vez que Senaquerib
venceu a Babilônia em 689, possivelmente ele marchou contra ela em 688, e foi justamente então que se deu a milagrosa
libertação de Jerusalém. Contudo, Ezequias foi sem dúvida
salvo de outras represálias porque morreu aproximadamente
um ano mais tarde (687/6).

É inteiramente certo que as inscrições assírias não mencionam esta campanha posterior. Mas isto não pode ser usado
como evidência de uma ou outra maneira, já que não temos
nenhum relato histórico de qualquer espécie sobre o reinado
de Senaquerib (depois de 680. Embora uma nova evidência
possa alterar o quadro — e o dogmatismo também deve ser
evitado — parece que a teoria de duas campanhas é, atualmente, a que melhor corresponde à verdade.






[1] As referências de versículo serão dadas aqui somente para a
narração de 2 Reis. 


[2] Para uma revisão completa das evidências e das várias soluções
propostas, mostrando as debilidades de cada uma delas, veja a disser-
tação de L. L. Onor Senaquerib’s invasión of Palestine (1926), (reedi-
ção AMS Press, Inc., 1966). Mais recentemente, B. S. Childs (Isaiab and
the Assyrian Crisis, SCM Press, Ltd., Londres, 1967) também fez uma
revisão das evidências e recusou-se a tirar quaisquer conclusões históri-
cas. Realmente, quaisquer conclusões não poderão passar de meras su-
posições. Mas o historiador não se pode contentar em tirar nenhuma
delas, estando porém obrigado a indicar onde parece estar o equilíbrio
da probabilidade na questão. 


[3] Para a defesa da opinião que afirma ter havido uma só campa-
nha e uma lista completa de literatura atualizada, cf. H. H. Rowley,
Hezekiah's Reform and Rebellion (1962; reeditado in Men of God,
Thomas Melson & Sons, 1963, pp. 98-132); v. também G. Fohrer, Das
Bucb ]esaja, Vol. II in Zürcber Bibelkommentare, Zwingli Verlag, Zuri-
que, 1962, pp. 151-181: W. Eichrodt, Der Herr der Gesc.hichte,
}esaja 13-23,28-39, Calwer Verlag, Stuttgart, 1967, pp. 225-260. 


[4] Cf. Hokn, o.c., pp. 27ss, que acredita que o número era origi- 


[5] O rei ato de Heródoto é tão deturpado que muitos historiad ores
recusam-se terminantemente a dar-lhe qualquer crédito; por exemplo,
W. Baumgartner, Herodots babylonische und assyrische Nacbrichien, in
Zum Alten Testament und seiner Umwelt, E. J. Briü, Leiden 1959, pp.
282-331 (cf. pp. 305,309). Certamente não se pode usar isto para provar
nada; entretanto, como outros acreditam, ele pode encerrar uma vaga
lembrança do desastre do exército de Senaquerib no período posterior ao
reinado de Shabako (Heródoto coloca o incidente no reinado do sucessor
de Shabako, mas lhe dá o nome errado). 


[6] Da mesma forma como um inglês que vivesse uma geração depois
do fim da Primeira Guerra Mundial, e que conhecesse a fundo as táticas
políticas e militares da diplomacia alemã e soubesse corretamente os nomes
dos ministros ingleses que serviram neste tempo, mas que confundisse o
Presidente Roosevelt com o Presidente Wilson, ou o general Eisenhower
com o general Pershing. Evidentemente, esta analogia não vem a prova
nada, mas pede ser um exemplo esclarecedor. 


15 Cf. Gray, o.c., pp. 604ss. 


[8] Cf. Kittel, in GVI, II, pp. 430-439; mais recentemente, Rowley,
o.c., e Eichrobt, o.c. 


[9] Cf. D. D. Luckenbill, The Annals of Sennacherib, The Uni-
versity Chicago Press, 1924, p. 60; Rowley, o.c., pp. 119ss. 


[10] Cf. Rowley, o.c., pp. 122ss. 


[11] Ccmo Childs, o.c., p. 120, observa muito corretamente. Mas eu
nunca pensei de outro modo, como ele parece supor. 


[12] Dizeres como os de Isaías 10,20ss.24-27 parecem claramente
pressupor que o horror de 701 é coisa do passado e que eles esperam