20 de julho de 2016

JOHN BRIGHT - O império neobabilônico e os últimos dias de Judá

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B. O IMPÉRIO NEOBABILÔNICO E OS ÚLTIMOS DIAS DE JUDÁ

1. Da morte de Josias à primeira deportação (609-597)

Embora os últimos anos de Josias testemunhassem a destruição final da Assíria, este feliz acontecimento não devia
trazer a paz a Judá, nem aos outros povos da Palestina e da
Síria. No momento mesmo em que Naum se alegrava com a
queda do tirano, potências rivais se estavam juntando como aves de rapina para dividir o cadáver. Vencesse quem vencesse, Judá sairia perdendo, porque o dia do pequenino Estado
independente do oeste da Ásia tinha, de há muito, chegado.
De fato, Judá perdeu — primeiro, sua independência; depois,
sua vida. A história destes trágicos dias foi brilhantemente esclarecida por textos recentemente publicados [1], e deve, de certo modo, interessar-nos.

a. A morte de Josias e o fim da independência. — Já
descrevemos como os babilônios e os medos arrasaram a Assíria,
tomando e destruindo Nínive em 612 e expulsando o governo
refugiado assírio de Haran em 610. Como os medos, no momento, estavam lutando para consolidar suas possessões no
leste e no norte das montanhas, o controle da parte oeste do
defunto império da Assíria ficou entre a Babilônia e o Egito,
o qual, esperando entre outras coisas ganhar carta branca na
Palestina e na Síria, fora aliado da Assíria. Entre os dois,
Judá foi arrastado à ruína.

O golpe foi desfechado em 609 (2Rs 23,29ss; 2Cr 35, 20-24 )[2]. Naquele ano Neco II (610-594), que havia sucedido a seu pai, Psamético, marchou com uma grande força para
Cárquemis, no Eufrates, a fim de ajudar Assur-uballit num
último esforço para retomar Haran dos babilônios. Em Megiddo,
agora parte do território de Israel reunido, Josias tentou detê-lo. Não sabemos se Josias era formalmente aliado dos babilônios, como Ezequias o fora certa vez, ou se agia independentemente. Mas, com certeza, ele não queria uma vitória
egípcio-assíria, cujo resultado seria colocá-lo à mercê das ambições do Egito. O resultado, de qualquer modo, seria trágico.
Josias foí morto na batalha[3] e levado morto em seu carro de
combate para Jerusalém, em meio a grande lamentação. Seu
filho Joaçaz foi ungido e proclamado rei em seu lugar[4].

Neco, entrementes, continuou até o Eufrates, para tomar
parte no assalto a Haran. O ataque fracassou fragorosamente,
embora não haja certeza de que a ação de Josias tenha detido
suficientemente o faraó a ponto de afetar o resultado final.
Com a Mesopotámia firmemente nas mãos dos babilonios, Ñeco decidiu consolidar sua posição a oeste do rio. Uma de suas
medidas foi chamar Joaçaz, que só estava no trono há três
meses, a seus quartéis generais em Rebla, no centro da Siria,
depondo-o e deportando-o para o Egito (2Rs 23,31-35; Jr 22.10-12). Eliakim, irmão de Joaçaz, com o nome mudado para
Joiakim[5], foi colocado no trono como vassalo do Egito e
o territorio foi sujeito a pesado tributo, que foi levantado com
extorsivas taxas impostas aos cidadãos livres. A independência
de Judá, que durara apenas uns minguados vinte anos, tinha
acabado.

Judá sob o dominio egipcio (609-605). — Embora
Ñeco não tivesse conseguido salvar a Assíria, a campanha de
609, como indicamos, trouxe a Palestina e a Siria para o seu
controle. Por alguns anos, ele conseguiu conservar as suas
conquistas. Durante 608/7 e 607/6, os babilonios, conduzidos
per Nabopalassar e seu filho, Nabucodoncsor, empreenderam
uma campanha nas montanhas armênias, presumivelmente para proteger o seu flanco direito, tendo em vista que o exército
egípcio estava postado a oeste do Eufrates. Durante estes anos, as hostilidades limitaram-se a incursões através do rio, de ambos
os lados, com os babilônios procurando uma cabeça de ponte
ao norte de Carquemis, de onde pudessem atacar as forças
egípcias que se encontravam naquela cidade, e com os egípcios
procurando evitá-lo [6]. Nessas operações, as forças se contrabalançavam, não havendo golpe decisivo de uma parte nem da
cutra.

Entretanto, Joiakim continuava como vassalo do faraó.
A situação interna de Judá não era lá muito boa. É provável, embora não seja certo, que o território de Judá tenha
ficado mais uma vez restrito às dimensões que tinha antes de
Josias. Apesar de não termos novamente nenhuma prova
direta, não pode haver dúvida de que as taxas egípcias pesaram muito na economia da terra (agora presumivelmente
reduzida). Joiakim, além disso, não era um sucessor digno de
seu pai, mas um tiranete inapto para a posição de mando. Sua
desconsideração irresponsável para com seus súditos é muito bem
ilustrada por suas ações no começo do reinado, quando, visivelmente insatisfeito com o palácio de seu pai, esbanjou dinheiro na construção de um novo palácio, mais luxuoso e pior,
usando trabalho forçado para construí-lo (Jr 22,13-19 ). Isso
provocou Jeremias, cujo desprezo por Joiakim era ilimitado,
chegando até ao sarcasmo.

Sob Joiakim, a reforma perdeu seu vigor. O rei não tinha
visivelmente nenhum zelo por ela, ainda mais que a oposição
do povo à reforma também nunca afrouxara. Além disso, a
trágica morte de Josias e a conseqüente humilhação nacional,
vindo virtualmente sobre os passos da reforma, devem ter parecido a muitos uma negação da teologia do Deuteronômio, pois
a obediência às exigências deuteronômicas não tinha previsto
nenhum desastre como o acontecido.

Anos mais tarde, parece que muitos já consideravam a
reforma um erro, chegando mesmo a lamentar a calamidade
nacional “decorrente” da reforma (Jr 44,17ss). De qualquer
modo, as práticas pagãs recuaram (cc. 7,16-18;11,9-13; cf. Ez
8), mas a moralidade pública degenerou (por exemplo, Jr
5,26-29;7,l-15). Embora houvesse gente, mesmo em altos postos — como os nobres que defenderam Jeremias (cc. 26;36)
—, que deplorava tal situação, pouco se poderia fazer para
remediá-la. Os profetas que a censuravam encontraram oposição,
perseguição e, em alguns casos, a morte (c. 26,20-23). Tem-se
a sensação de que a teologia oficial, com suas promessas imutáveis, triunfou na sua forma mais distorcida e que o povo
continuava confiando em que o templo, a cidade e a nação
estavam eternamente protegidos em virtude da aliança de
Iahweh com Davi — na medida em que os profetas e sacerdotes o asseguravam (cc. 5,12;7,4;14,13 etc.).

b. O avanço da Babilônia: a primeira deportação de Judá.

— Em 605, uma repentina quebra do delicado equilíbrio mundial de forças colocou Judá diante de um novo perigo. Naquele
ano, Nabucodonosor lançou-se contra as forças egípcias em
Cárquemis e derrotou-as fragorosamente (cf. Jr 46,2ss); perseguindo-as para o sul, ele desferiu-lhes um segundo golpe, ainda mais violento, nas proximidades de Hamat [7]. O caminho para
o norte da Síria e da Palestina estava aberto. Em agosto de
605, o avanço babilónico foi sustado pelas notícias da morte de Nabopalassar, que obrigaram Nabucodonosor a voltar
às pressas para a pátria, a fim de assumir o poder. E o fez
em setembro do mesmo ano, embora o primeiro ano oficial de
seu reinado tenha começado no Ano Novo seguinte (abril
de 604).

Mas o avanço babilônio recomeçou em seguida. Embora
possa ter encontrado uma resistência mais tenaz do que os
textos sugerem, no fim de 604 o exército babilônio já estava
na planície da Palestina, onde tomou e destruiu Ascalon (cf.
Jr 47,5-7), deportando os líderes de sua população para a Babilônia [8]. É provável que uma carta aramaica descoberta no
Egito contenha um apelo fútil de seu rei, pedindo auxílio ao faraó [9]. Judá caiu na maior consternação em virtude desta
mudança nos acontecimentos, como indicam os pronunciamentos proféticos da época e o grande jejum observado em Jerusalém em 604 (Jr 36,9). Possivelmente um ano depois (603/2) do exército babilónico ter vencido a Filistéia, Joiakim
transferiu sua aliança para Nabucodonosor, tornando-se seu
vassalo (2Rs 24,1).

É incerto se Nabucodonosor realmente invadiu Judá ou
não; possivelmente tenha bastado uma exibição de força. O
destino de Judá havia completado um ciclo perfeito: mais uma
vez tornava-se súdito de um império mesopotâmico.

Joiakim, entretanto, não era um vassalo obediente. A esperança de Judá parecia mais uma vez estar com o Egito,
como estivera nos dias das invasões assírias, e esta esperança
não pareceu totalmente vã. Mais tarde, em 601, Nabucodonosor marchou novamente contra o Egito, e teve que travar uma
tremenda batalha com Neco perto da fronteira, na qual
ambos os lados sofreram terrivelmente. Mas, desde que Nabucodoncsor voltou para sua terra e passou o ano seguinte
reòrganizando seu exército, certamente não houve nenhuma
vitória babilônia.

Encorajado por isto, Joiakim rebelou-se (2Rs 24,1). Foi
um erro fatal. Embora não fizesse campanha em 600/599,
e estivesse ocupado em outras partes em 599/8, Nabuccdonosor não tinha nenhuma intenção de deixar Judá escapar.
Logo que pôde tomar uma atitude definitiva, despachou contra Judá os contingentes babilônios disponíveis na área, juntamente com bandos de guerrilhas arameus, moabitas e amonitas (2Rs 24,2; Jr 35,11), para que se apoderassem do território e o saqueassem. Em dezembro de 598, o exército babilônio marchou. E, naquele mesmo mês, Joiakim morreu[10].
Com toda a probabilidade, ele foi assassinado (cf, Jr 22,18ss;
36,30), por ser responsável pela situação da nação e persona non grata para os babilonios. Com o seu assassinato, esperava-se que as coisas melhorassem.

Seu filho de dezoito anos, Joiaquim, foi colocado no
trono (2Rs 24,8) e, decorridos três meses (em 16 de março
de 597), a cidade capitulou. A ajuda egípcia, se é que se
esperava alguma (v. 7), não chegou. O rei, a rainha-mãe, os
altos oficiais e os cidadãos eminentes, juntamente com uma
enorme presa, foram levados para a Babilônia (vv. 10,17).
O tio do rei, Matanias (Sedecias), foi instalado como governante em seu lugar.

2. O fim do reino de Judá

Poder-se-ia esperar que as experiências de 598-597 tivessem deixado Judá, pelo menos no momento, corrigido e dócil.
Porém, nada disso aconteceu. O reinado de Sedecias (597-
-587) não viu nada além de uma agitação contínua e uma
constante sedição, até que a nação, aparentemente destruindo-se
a si mesma, conseguiu finalmente atrair sobre si a ruína total.
Em apenas dez curtos anos, ela estaria acabada para sempre.

a. Judá depois de 597: os distúrbios de 594. — A insensatez de Joiakim custou caro a Judá. Algumas de suas
cidades principais, como Láquis e Dabir, foram tomadas de
assalto e violentamente danificadas [11]. Seu território foi provavelmente reduzido pela remoção do Negeb de seu controle [12].
Sua economia foi arruinada e sua população drasticamente diminuída [13]. Apesar de não ser grande o número dos que foram
realmente deportados [14], o foi proporcionalmente à população total e, além do mais, representavam a elite dos líderes da
região. Os nobres que ficaram para servir Sedecias parecem ter
sido chauvinistas da pior espécie, completamente cegos para
a realidade da situação.

Tampouco Sedecias era o homem indicado para dirigir
os destinos do país numa hora de tanta gravidade. Embora
pareça ter sido bem intencionado (Jr 37,17-21;38,7-28), ele foi
um fraco, incapaz de resistir aos nobres que o cercavam (c. 38.50), e temia a opinião popular (v. 19). Além disso, sua
posição era ambígua, porque seu sobrinho Joiaquim era ainda
considerado rei legítimo por muitos de seus súditos, e provavelmente também pelos babilônios.

Os textos descobertos na Babilônia, que mostram que
Joiaquim foi cortesão na corte de Nabucodonosor, chamam-lhe
“rei de Judá”, enquanto que alças de jarro encontradas na
Palestina trazem a inscrição “Eleakim, mordomo real de Joiaquim”. Isto mostra que a propriedade da coroa ainda era
sua. Os judeus da Babilônia chegavam até a contar as datas
“do exílio do rei Joiaquim” (Ez 1,2 etc.). Muitos em Judá
pensavam da mesma forma e desejavam seu rápido retorno
(Jr 27ss). A ambigüidade da posição de Sedecias, sem dúvida,
cortou toda a autoridade que ele pudesse ter. Ao mesmo tempo, entre os nobres de Sedecias, havia provavelmente aqueles
que se aproveitaram da deportação de seus predecessores, considerando-se os verdadeiros remanescentes de Judá, aos quais
o território pertencia de direito (cf. Ez ll,14ss;33,24). E,
naturalmente, tais elementos começaram a colocar as esperanças
dinásticas em Sedecias (cf. Jr 23,5ss). Enquanto houvesse
esta mentalidade, quer tendo-se esperança em Joiaquim ou
Sedecias, era inevitável um fermento atuante.

As fagulhas foram sopradas por uma rebelião que eclodiu na Babilônia em 595/4, envolvendo possivelmente elementos do exército, com a qual parecem ter-se envolvido alguns
judeus deportados, instigados por seus profetas com promessas de uma libertação rápida e incitados a cometer atos de
desordem (Jr 29; cf. vv, 7 a 9). Embora não saibamos até
que ponto chegou a insatisfação entre os judeus, alguns de
seus profetas foram executados por Nabucodonosor (vv. 21 a
23), sem dúvida por causa de suas afirmações subversivas.
Esta rebelião, embora logo sufocada, despertou esperanças
na Palestina.

Durante o ano de 594/3, os embaixadores de Edom,
Moab, Amon, Tiro e Sidon (c. 27,3) encontraram-se em
Jerusalém para discutir planos de revolta [15]. Aí também os profetas incitavam o povo, declarando que Iahweh tinha quebrado o jugo do rei da Babilônia e que, dentro de dois anos (c.
28,2ss) Joiaquim e os cutros exilados voltariam triunfalmente
para Jerusalém. Jeremias (c. 27ss) os denunciou violentamente
como rumores mentirosos espalhados em nome de Iahweh, e
também escreveu uma carta aos exilados (Jr 29), mandando
que eles se esquecessem de seus sonhos loucos e se preparassem
para ficar no exílio ainda por um longo tempo. Ou porgue
os egípcios não a tenham apoiado, ou porque tenha prevalecido uma decisão mais prudente, ou porque os conspiradores
não tenham chegado a um acordo entre si, a rebelião não deu
realmente em nada. Sedecias enviou emissários à Babilônia
(Jr 29,3) — e talvez tenha ido pessoalmente (Jr 51,59) —
para fazer as pazes com Nabucodonosor e testemunhar-lhe sua
lealdade.

37,3- A rebelião final: a destruição de Jerusalém. — O
passo fatal fora protelado apenas temporariamente. Depois de
cinco anos (por volta de 589), um patriotismo feroz, apoiado
por uma confiança cega e imprudente, arrastou Judá a uma
rebelião aberta e irrevogável. Não sabemos por que meios
Judá foi levado nesta direção. Houve certamente um entendimento com o Egito, cujo faraó, Hophra (Áprías; 589-570),
sucessor de Psamético II (594-589), retomou a política de interferência na Ásia. Por outro lado, não parece que a revolta
se houvesse espalhado na Palestina e na Síria. Ao que sabemos,
somente Tiro, que foi cercada por Nabucodonosor depois que Jerusalém caiu, e Amon parecem ter-se envolvido. Os outros
Estados parece que ficaram indiferentes ou hostis à idéia, com
Edom mesmo passando finalmente para o lado da Babilônia
(cf. Ab vv. 10 a 14; Lm 4,21ss; SI 137,7). O próprio Sedecias,
a julgar por suas repetidas consultas com Jeremias (Jr 21,1-7; 37.3)10.17;38,14-23), não estava muito certo e firme no seu
pensamento, mas não era capaz de resistir ao entusiasmo dos
seus nobres.

A reação da Babilônia foi rápida. Já em janeiro de 588
(2Rs 25,1; Jr 52,4), seu exército chegou e, bloqueando Jerusalém (cf. Jr 21,3-7), começou a redução dos pontos fortes
distantes, tomando-os um por um, até que, finalmente, no fim
do ano, sobravam somente Láquis e Azeca (Jr 34,6ss). A
queda de Azeca, talvez, é ilustrada por uma das cartas de
Láquis, nas quais um oficial comandante de um posto de
observação escreve ao comandante da guarnição de Láquis, dizendo que não mais podiam ser vistos os sinais de fogo em
Azeca[16]. O moral de Judá ficou deprimido, com muitos, até
mesmo entre seus líderes, sentindo que o caso de Judá não
tinha esperanças [17]. Provavelmente no verão de 588, as notícias
de que o exército egípcio estava avançando forçaram os babilônios a levantar temporariamente o cerco de Jerusalém (Jr 37.5). Talvez os egípcios estivessem marchando em resposta a
um apelo direto de Sedecias, possivelmente refletido em outra
Carta de Láquis (III), que nos diz que o comandante do
exército de Judá foi para o Egito aproximadamente nessa
época. Uma onda de alívio espalhou-se em Jerusalém. Somente
Jeremias continuava a predizer o pior (Jr 37,6-10;33,21ss),
e ainda qüe suas palavras certamente não fossem bem recebidas, ele estava com a razão. A força egípcia foi logo rechaçada
e o cerco retomado.

Embora Jerusalém resistisse com tenacidade heróica até
o verão seguinte, o seu destino estava traçado. Sedecias queria capitular (Jr 38,14-23), mas temia fazê-lo. Em julho de 587
(2Rs 25,2ss; Jr 52.5ss), exatamente quando as reservas de
alimentos da cidade terminavam os babilônios abriram brechas
através das muralhas e se lançaram dentro da cidade. Com
alguns de seus soldados, Sedecias fugiu de noite para o Jordão
(2Rs 25,3ss; Jr 52,7ss), sem dúvida esperando estar seguro,
pelo menos temporariamente, em Amon. Mas foi levado para
perto de Jerico e conduzido diante de Nabucodonosor, em seu
quartel-general de Rebla, no centro da Síria. Não tiveram
compaixão dele. Depois de fazê-lo testemunhar a execução de
seus filhos, cegaram-no e o levaram acorrentado à Babilônia,
onde ele morreu (2Rs 25,6ss; Jr 52,9-11)

Um mês mais tarde (2Rs 25,8-12; Jr 52,12-16), Nabuzaradan, comandante da guarda de Nabucodonosor, chegou a
Jerusalém e, cumprindo ordens, pôs fogo à cidade e derrubou
suas muralhas. Alguns dos oficiais eclesiásticos, militares, civis e
alguns cidadãos eminentes foram levados diante de Nabucodonosor, em Rebla, sendo ali executados (2Rs 25,18-21; Jr
52,24-27), enquanto outro grupo da população era deportado
para a Babilônia [18]. O Estado de Judá acabara para sempre.

b. Epílogo: Godolias. — Resta ainda um breve apêndice
à história (Jr cc. 40 a 44; 2Rs 25,22-26). Depois da destruição de Jerusalém, os babilônios organizaram Judá de acordo
com o sistema provincial do império. O país tinha ficado completamente arrasado: suas cidades destruídas, sua economia
arruinada, seus cidadãos mais importantes mortos ou deportados, sobrevivendo apenas a população composta principalmente por camponeses, incapazes de causar qualquer distúrbio
(2Rs 25,12; Jr 52,16).

Como governador, os babilônios nomearam Godolias, membro de uma família nobre, cujo pai, Aicão, salvara certa vez a
vida de Jeremias (Jr 26,24) e cujo avô, Safan, tinha sido,
provavelmente, secretário de estado de Josias (2Rs 22,3) e um
dos principais acionadores da grande reforma. Como indica um sinete encontrado em Láquis com seu nome, Godolias foi
primeiro-ministro (“sobre a casa”) do gabinete de Sedecias...
Possivelmente porque Jerusalém estivesse inabitável, ele colocou a sede de seu governo em Masfa (provavelmente Tel en-Nasbeh).

Mas esta experiência logo fracassou. Embora Godolias tenha procurado conciliar o povo (Tr 40,7-12) e restaurar o
país, dando-lhe certo ar de normalidade (v. 10), as pessoas
exigentes consideravam-no colaboracionista. Não sabemos quanto tempo durou no cargo, uma vez que nem Jr 40,1 nem
2Rs 25,25 informam em que ano terminou seu governo.
Tem-se a impressão que durou apenas dois ou três meses,
embora possa muito bem ter sido um ano ou dois, ou até mais.
De qualquer modo, foi descoberto um plano para matá-lo, de
um tal Ismael, membro da casa real, que era apoiado pelo rei de
Amon, para onde Ismael havia fugido e onde a resistência ainda
continuava. Embora fosse avisado por seus amigos, Godolias
era muito orgulhoso para acreditar no que ouvia. Como recompensa por seu orgulho, foi traiçoeiramente assassinado por
Ismael e seus conspiradores, juntamente com uma pequena
guarnição de babilônios e grande número de inocentes espectadores. Apesar da enérgica perseguição dos homens de
Godolias, Ismael fugiu para Amon. Os amigos de Godolias,
embora inocentes, naturalmente temiam a vingança de Nabucodonosor׳; assim, contra os pedidos mais insistentes de Jeremias,
resolveram fugir para o Egito — e levaram Jeremias com
eles. Uma terceira deportação, mencionada em Jr 52,30 (em
582), pode ter representado uma represália tardia a estas
desordens. A província de Judá provavelmente tenha sido
eliminada, e pelo menos a maior parte de seu território foi
incorporada à província vizinha de Samaria. Mas não temos
informações dos detalhes.



[1] Cf. D. J. Wiesman, Chronícles of Chaldean Kings (626-556 B.C.)
in the British Museum, The British Museum, Londres, 1956, que traz
passagens destas crônicas inéditas até aqui, mais parte publicada por
C, J. Gadd em 1923. Apareceram muitos artigos relacionando estes
textos com a história de Judá, todos eles fundamentais para a discussão
seguinte; cf. W. F. Albright, in BASOR, 143 (1956), pp. 28-33; E. R.
Thiele, ibid., pp. 22-27; D. N. Freedmann, in BA, XIX (1956), pp.
50-60; H. Tadmor, in JNES, XV (1956), pp. 226-230; J. P. Hyatt, in
JBL, LXXV (1956), pp. 277-284; A Malamat, in IEJ, 6 (1956),
pp. 246-256; idem, in IEJ, 18 (1968), pp. 137-156; E. Vogt, in VT,
Supl. Vol. IV (1956), pp. 67-96. Sobre todo este período, cf. Albright,
The Seal of Aliakim and the Las Pre Exilic History of Judah in JBL,
LI (1932), pp, 77-106, um artigo que ainda conserva todo o seu valor. 


[2] Não 608, como argumentaram alguns: por exemplo, M. B. Row-
ton, in JNES, X (1951), pp. 128-130; Kienitz, o.c., pp. 21ss. Os
documentos falam de um movimento egípcio em massa em 609, mas
não existe nenhuma referência a movimento em 608; em 608/7, os
babilônios estavam ativos em toda parte. Cf. Albright, in BASOR, 143
(1956), pp. 29-31; Tadmor, in JNES XV (1956), p. 228; etc. 


[3] Cf. 2Cr .35,20-24. Como o livro de Reis não menciona nenhuma
batalha, alguns (por exemplo, Noth, in Hl, p. 278) pensam que não
se deu nenhuma, mas que Josias foi preso e executado. Mas a narração
do Cronista traz a marca da autenticidade: cf. B. Couroyer, in RB, LV
(1948), pp. 388-396; pp. 331-333. Chronikbücher, in HAT (1955), Ru-
DOLPH. Megiddo II foi destruída mais ou menos por este tempo (cf.
Wright, in BAR, p. 177), que sugere que houve uma batalha. 


[4] Parece, em 2Rs 23,31.36 que Joaçaz era um filho mais novo. Sendo
certa a suposição, ele foi certamente colocado no trono de preferência
a Joiakim, na expectativa de que ele continuasse a política de Josias.
Mas (cf. 2.2,1) Joiakim nasceu quando seu pai tinha apenas 14 anos? 


[5] Sobre nomes de trono em Judá, cf. A. M. Moneyman, in JBL. 


[6] Para detalhes, veja especialmente Albright, in BASOR, 143
(1956), pp. 29ss. 


[7] Veja as referências na nota 40, sobre os pormenores. 


[8] Príncipes ascalônios, marinheiros, artesãos etc. são relacionados
entre cs cativos daí uns dez anos mais tarde; cf. E. F. Weiuner, Mé-
langes Syriens ofjerts à M. René Dussaud, Vol. II, Paul Geuther, Paris,
1939, pp. 923-935. 


[9] A. Dupont-Sommer (in Semítica, I [1948], pp. 43-68), H. L.
Ginsberg, in BASOR, III (1948), pp. 24-27, e a mim mesmo, in BA,
XII (1949), pp. 46-52; v. também J. A. Fitzmyer, in Bíblica, 46 (1965),
pp. 41-55, onde se encontra mais literatura. Mas alguns duvidam que
a carta tenha vindo de Ascalon; cf. E. Vogt, o.c., pp. 85-89; v. também
A. Malamat, in IEJ. 18 (1968), pp. 142ss, que o relaciona com os
acontecimentos de 601. 


[10] Cf. Freedman, in BA, XIX (1956), pp. 54ss e a nota 22;
Hyatt, in JBL, LXXV (1956), pp. 278ss sobre o ponto. Este é claro
de uma comparação entre 2Rs 24,6 e 8 e 10ss e a Crônica Babilónica. 


[11] Cf. Wright, in BAR, pp. 178ss. Sobre Dabir, cf. Albright, in
AASOR, XXI ■XXII (1943), pp. 66-68. Com relação a Láquis há
uma diferença de opinião; cf. Wright, ibid.; idem, in VT, V (1955),
pp. 97-105; Albright, in BASOR, 150 (1958), p. 24. 


[12] Isto é, o “Negeb de Simeão”; cf. H. L. Ginsberg, in Alex, Max
Jubilee, Jewish Theological Seminary (1950), p. 363ss, e as observações
de Albright citadas na nota 47a, para a evidência. A última fortaleza
de Arad parece ter sido destruída nesta época; cf. Y. Aharoni, in BA,
XXXI (1968), p. 9. Mas, como Dabir foi novamente devastada em
588/7, a região montanhosa do sul de Judá ^ncontra-se ainda dentro
do Estado. 


[13] Albright (in BP, pp. 84, 105ss) julga que a população de Judá
caiu de um elevado número de aproximadamente 250 mil no século oitavo
para talvez a metade deste número entre 597 e 587. 


[14] 2Rs 24,14.16 dá dez mil a oito mil, respectivamente, o que é 


[15] A data do quarto ano de Sedecias (Jr 28,1b); o c. 27,1 está 


[16] A IV Carta de Láquis. As Cartas de Láquis são um grupo de 

óstracos, descoberto em 1935 e 1938. A maior parte delas data de
589/8 (uma é datada exatamente do “nono ano” [de Sedecias]).
Cf. Wright, in BAR, pp. 181ss para uma boa descrição; Albright em
Pritchard, in ANET, pp. 321ss, para a tradução e mais literatura. 


[17] A Carta VI de Láquis. Nesta carta, há uma queixa de que os
nobres “enfraquecem as mãos” do povo — o mesmo de que Jeremias
foi acusado (Jr 38,4)! 


[18] O número exato de 832 pessoas (Jr 52,29) provavelmente leva
em conta somente homens adultos, e possivelmente apenas pessoas
tiradas da população de Jerusalém,