15 de julho de 2016

JOHN BRIGHT - O fim do domínio Assírio: Judá readquire a independência

danilo-moraes-antigo-testamento
O último século

Entre a morte de Ezequias e a conquista final de Jerusalém pelos babilónios transcorreu exatamente um século (687־
-587). Raramente uma nação experimentou tantas e tão repentinas mudanças de sorte em tempo relativamente tão curto.
Na primeira metade desse período, Judá era um Estado vassalo
da Assíria. Depois, em rápida sucessão, atravessou períodos
de independência e sujeição. Primeiramente foi conquistado
pelo Egito, e depois pela Babilônia, tendo sido destruído numa
rebelião inútil contra esta última. Estas fases seguiram-se tão
rapidamente que foi possível para um só homem presenciá-las a
todas, como aconteceu com Jeremias.

Nossas melhores fontes históricas vivas — novamente o
Livro dos Reis (2Rs 21 a 25), complementado pelo Cronista
(2Cr 33 a 36) — são bastante insuficientes e apresentam
muitas lacunas. Informações adicionais consideráveis nos são
fornecidas pelos livros dos Profetas que estiveram em atividade
durante aquele período especialmente Jeremias, mas também
Ezequiel, Sofonias, Naum e Habacuc. Além disso, fontes cuneiformes, particularmente a crônica babilónica que brilhantemente ilumina a última parte do período, nos possibilitam traçar
um quadro completo, que nunca poderíamos conseguir apenas
com as fontes bíblicas.

A. O FIM DO DOMÍNIO ASSÍRIO: JUDÁ READQUIRE A INDEPENDÊNCIA

1. Judá em meados do século sétimo

O esforço de Ezequias pela independência, como já dissemos, havia falhado. É provável que só a sua morte o tenha
salvo de severas represálias por parte de Senaquerib. Seu filho Manassés, que assumiu o trono ainda em criança (2Rs 21, 1), abandonou a resistência e declarou-se leal vassalo da Assiria.

a. O clímax da expansão da Assíria. — Humanamente
falando, Manassés quase não teve escolha. No segundo quar-
tel do século sétimo o Império Assírio atingiu as suas maiores
dimensões, e resistir-lhe teria sido uma inutilidade e mesmo
um suicídio. Senaquerib foi assassinado por alguns de seus filhos
(2Rs 19,37) e sucedido por Assaradon (680-669), um dos
fílhos mais jovens, o qual deu provas de ser um governante
extremamente enérgico. Tão logo se estabeleceu no poder,
Assaradon procurou estabilizar a situação na Babilônia. Para tanto, restaurou a cidade e o templo de Marduk, que seu
pai havia destruído. Isto, juntamente com várias campanhas,
nas quais não nos podemos deter, o manteve ocupado nos
primeiros anos de seu reinado. Depois disso, ele voltou sua
atenção para a conquista do Egito. Uma vez que o Egito havia
apoiado virtualmente todas as rebeliões que vinham causando
problemas na parte oeste do império da Assíria, esse empreendimento objetivava sem dúvida de uma vez por todas, pôr
um fim às perturbações na sua própria fonte. Embora uma
tentativa inicial (674/3) tenha sido aparentemente detida na
fronteira, Assaradon foi vitorioso.

Em 671, suas tropas derrotaram Taraka e ocuparam
Mênfis, apoderando-se da família real e dos tesouros da corte
egípcia. Os príncipes egípcios, então, lhe renderam tributos,
sendo-lhes permitido governar os seus distritos sob a supervisão dos governadores assírios.

Mas isso não colocou um fim à resistência egípcia. Nem
bem o exército assírio partiu, Taraka, que havia escapado para
o sul, provocou uma rebelião, fazendo com que uma nova
campanha se tornasse necessária. Assaradon, um homem doente, morreu a caminho do combate. Todavia, seu filho e sucessor, Assurbanípal (668-627), logo pressionou a campanha
e sufocou a rebelião (aproximadamente 667). Taraka escapou
novamente para o sul, onde, poucos anos após (aproximadamente 664), veio a falecer. Os príncipes rebeldes foram levados para Nínive e executados, com a única exceção de Neco,
o príncipe de Sais, que, juntamente com seu filho Psamético, foi poupado e reconduzido à sua posição [1]. Posteriormente,
quando Tanutamun, sucessor de Taraka, continuou a causar
perturbações, os assírios (663) marcharam para o sul, subiram
o Nilo até Tebas, tomaram a antiga capital e a destruíram (cf.
Na 3,8). Logo depois, o faraó retirou־se para a Núbia e a
Vigésima Quinta Dinastia terminou. Destruída a única força
capaz de oferecer resistência à Assíria, é fácil imaginar que
Manassés permanecesse dócil.


b. O reino de Manasses (687/6-642): negócios internos.

— Pelo que sabemos, baseados no Livro dos Reis e nos es-
critos assírios, Manassés continuou vassalo leal à Assíria durante
todo o seu longo reinado. Assaradon o incluí entre os vinte
e dois reis que foram solicitados a fornecer materiais para os
seus projetos de construção, enquanto que Assurbanípal o
aponta como um dos muitos vassalos que o ajudaram em
sua campanha contra o Egito[2]. De acordo com 2Cr 33,11-13, ele foi levado certa vez à força, acorrentado, à presença do rei
assírio, presumivelmente por suspeita de deslealdade, mas depois foi tratado com brandura e reconduzido ao seu trono.
Embora esse incidente não seja mencionado nos Reis, nem nos
documentos assírios, é razoável supor-se que ele tenha base
histórica ·— possivelmente em conexão com a revolta de
Shamas-shum-ukim (652-648), da qual logo falaremos. Não
sabemos se Manassés foi declarado inocente ou foi perdoado,
como ocorreu com o príncipe egípcio Neco. Mas é bem possível que ele não fosse tão leal à Assíria quanto devia ser e,
se pudesse, declararia sua independência.

Entretanto, a política de Manassés representava uma ruptura total com a de Ezequias e uma volta à de Acaz. Suas
conseqüências, especialmente em se tratando de matéria religiosa,
foram sérias (2Rs 21.3-7). Como vassalo, Manassés tinha de
prestar homenagem aos deuses de seu soberano, e realmente
o fez, erguendo altares para as divindades astrais assírias no próprio templo. Suas ações, contudo, foram muito mais do
que meramente perfunctórias, constituindo um repúdio total
à reforma e a todas as suas obras. Os santuários locais de
Iahweh, que Ezequias procurou fechar, foram restaurados. Os
cultos pagãos e as práticas — tanto nativas quanto estrangeiras
— tiveram livre curso, com todo o aparato da religião da
fertilidade, enquanto que os rituais da prostituição sagrada
eram tolerados até mesmo dentro do templo (v. 7, cf. 23,4-7;
Sf l,4ss). A adivinhação e a magia, que tinham grande popularidade na Assíria, entraram em voga em Jerusalém (2Rs
21,6), assim como as modas estrangeiras das mais diversas
espécies (Sf 1,8). O rito bárbaro do sacrifício humano novamente apareceu.

É provável que muitas dessas práticas não representassem
um abandono consciente do culto nacional. A natureza do
Javismo primitivo tinha sido tão amplamente esquecida e
ritos incompatíveis com ele tão longamente praticados que,
em muitas mentes, a distinção essencial entre Iahweh e os
deuses pagãos havia ficado obscurecida. É possível que o
povo praticasse tais ritos juntamente com o culto de Iahweh
sem consciência de que, assim o fazendo, estava renegando a
religião nacional. A situação era de um imenso perigo para
a integridade religiosa de Israel. O Javismo corria o risco de
se transformar sem sentir em politeísmo aberto. E, como
Iahweh sempre fora concebido rodeado de sua corte celeste e como os corpos celestes eram popularmente considerados
membros dessa corte —, a introdução do culto das divindades astrais levava o povo a pensar que estes deuses pagãos
eram membros da corte de Iahweh, e os adorava como tais.

Se não se tivesse colocado um freio a isso, Iahweh poderia
ter-se transformado em pouco tempo no Deus principal de
um panteão e a religião de Israel se teria prostituído completamente [3].

Além disso, a decadência da religião nacional trouxe consigo o desprezo da lei de Iahweh e novos incidentes de violência e injustiça (Sf l,9;3,l-7), juntamente com o ceticismo
em relação à capacidade de Iahweh para atuar nos acontecimentos (c. 1,12). A reforma de Ezequias foi completamente
cancelada e a voz da profecia silenciada. Os que protestavam - e foram muitos, realmente — foram tratados severamente
(2Rs 21,16).

O autor de Reis, assim, não pode falar bem de Manassés, classificando-o como o pior rei que já se sentou no
trono de Davi, cujo pecado era tal que jamais poderia ser
perdoado (cc. 21,9-15;24,3ss; cf. Jr 15,1-4) [4].

2. Os últimos dias do Império Assírio

Mesmo quando a Assíria alcançou o auge do seu poder,
as sombras de um iminente desastre começaram a projetar-se
sobre ela. De fato, ela se havia expandido muito. O seu coeso
império era uma estrutura construída às pressas com elementos heterogêneos ligados entre si pela força bruta. O esforço
constante para extorquir a docilidade de seus súditos, que só
alimentavam ódio para com ela, começou a dar seus frutos
exatamente quando novas forças começaram a aparecer além
de suas fronteiras, forças contra as quais ela não tinha condições de lutar. As pessoas já adultas na metade do século
sétimo, ainda iriam ver o desmoronar do império assírio e o seu
desaparecimento da face da terra.

a. Ameaças externas e internas ao Império da Assíria. —
Embora a Assíria não tivesse rival entre as potências mundiais,
possuía muitos inimigos dentro e fora de seu território. Na
Babilônia, onde o irmão mais velho de Assurbanípal, Shamas-shum-ukim, governou como rei substituto, continuava a insatisfação entre os elementos caldeus (arameus) da população[5], que, como sempre, podiam contar com o apoio de Elam, a leste.

Na extremidade oposta do reino, o Egito não podia ser
controlado eficientemente. Psamético I (664-610), filho de
Neco, para o qual os assírios tinham mostrado misericórdia,
embora fosse nominalmente vassalo, expandiu gradualmente
seu poder até que a maior parte do Egito ficou sob o se׳u
domínio. Assim que se sentiu bastante forte (aproximadamente
em 655, ou pouco depois), ele provavelmente deixou de pagar
tributo e tornou-se formalmente independente.

Então, começou a Vigésima Sexta Dinastia (Sait). Psamético contava com o apoio de Giges, rei. de Lídia, outro
inimigo da Assíria, que desejava causar-lhe todo mal que
pudesse. Assurbanípal, sempre ocupado, não estava em condições de contra-atacar eficazmente.

Uma ameaça ainda mais séria para a Assíria era constituída pelos povos indo-arianos, que estavam fazendo pressão
sobre sua fronteira do norte. Entre eles, naturalmente, estavam
os medos, que se localizavam no oeste do Irã desde o século
nono; os reis assírios tinham repetidas vezes feito campanhas
contra eles e os subjugado em parte. No fim do século oitavo,
como notamos acima, as hordas dos bárbaros sumérios desceram
de além do Cáucaso, sendo seguidas pelos citas. Os sumérios
devastaram Urartu durante o reinado de Sargão II, e depois
realizaram uma incursão à Ásia menor, destruindo o reinado
de Midas, na Frigia.

No século sétimo, outros sumérios e citas se estabeleceram
no noroeste do Irã. Assaradon procurou proteger-se contra esses
povos aliando-se aos citas contra os sumérios e medos. Assurbanípal combateu os sumérios na Ásia Menor, como o fizera Giges da Lídia, que por fim morreu numa batalha contra
eles. Embora Assurbanípal saísse vitorioso em todas as batalhas e protegesse eficazmente suas fronteiras, um observador
perspicaz temeria pelo que iria acontecer se o dique se rompesse.

Em 652, Assurbanípal enfrentou uma rebelião que ameaçou desmembrar o império. Na Babilônia, eclodiu uma revolta
geral, encabeçada por seu próprio irmão, Shamas-shum-ukim,
e apoiada pela população caldéia da área, assim como pelos
elamitas e vários povos das montanhas do Irã. O descontentamento se espalhou até a Palestina e a Síria, quase certamente instigado por Psamético, que já estava na ocasião independente do controle assírio.

É possível, como notamos acima, que Judá estivesse envolvido nesta rebelião, ou quase. Com efeito, despertava grave
suspeitas (2Cr 33,11). Ao mesmo tempo, tribos árabes do
deserto da Assíria aproveitaram-se da oportunidade para assolar os estados vassalos assírios a leste da Palestina e da Síria,
de Edom e de Moab, para o norte, até a área de Sobac, espalhando ruínas por toda parte. Foi uma emergênca de primeira
grandeza.

Embora Assurbanípal dominasse a situação, só o fez depois
de uma luta terrível, que abalou as bases do império. Em
648, a Babilônia foi tomada, depois de um cerco de dois
anos. Shamas-shum-ukim cometeu suicídio. Depois, Assurbanípal voltou-se para Elam, apoderou-se de Susa e (aproximadamente em 640) eliminou o Estado elamita. Vingou-se também das tribos árabes[6] e reafirmou sua autoridade na
Palestina, restabelecendo a população deportada de Elam e da
Babilônia na Samaria e outras partes do oeste (Esd 4,9ss) ״.

A reconquista do Egito, todavia, estava fora de questão
no momento. É bem possível que Assurbanípal se tenha mostrado clemente para com Manassés, permitindo-lhe mesmo reforçar suas fortificações (2Cr 33,14) para ganhar um vassalo
perto da fronteira egípcia, pronto e capaz de defender o reino
contra uma possível agressão daquele lado [7].


b. O colapso da Assíria. — Os últimos anos de Assurbanípal são pouco conhecidos. Naturalmente, tendo dominado
todos os seus inimigos, ele achou tempo para trabalhos de
paz — entre outras coisas, colecionando uma grande biblioteca,
onde foram preservadas cópias dos mitos e das epopéias da
antiga Babilônia, incluindo as histórias do dilúvio e da criação babilónica, cuja descoberta, há apenas um século, despertou
uma sensação sem precedentes.

Quando ele morreu — em 627, como está agora estabelecido [8] — o fim do império estava próximo. A gigantesca
estrutura da Assíria tremeu em suas bases, vacilou e caiu: em
menos de vinte anos, a Assíria havia desaparecido.

O curso preciso dos acontecimentos é incerto. Parece que
o filho de Assurbanípal, Sin-shar-ishkun, se associou a ele no
treno desde aproximadamente 629. Entretanto, quando o velho rei morreu, um certo general lançou uma rebelião e proclamou um outro filho, Asshur-etil-ilani, como rei. Isto resultou num conflito entre os dois rivais, o qual durou vários anos
(aproximadamente 627-624?), antes que Sin-shar-ishkun finalmente triunfasse. Apesar dos detalhes serem totalmente
obscuros, pode-se supor que, como resultado desses problemas
internos, o domínio da Assíria sobre seu grande império ficou
enfraquecido, É possível que o ataque mal sucedido dos medos
contra Nínive, mencionado por Heródoto (I, 102), que foi
repelido com ׳a ajuda dos citas e durante o qual o rei medo
Fraortes perdeu a vida, tenha ocorrido neste espaço de tempo [9]. Se é assim, parece igualmente ter havido uma invasão cita na Ásia Ocidental, da qual também fala Heródoto
(I, 103-106). E se ela realmente aconteceu (e a narrativa
pode muito bem ter base histórica), nos conturbados anos
após 625, isto coincidiu com o colapso final da Assíria [10]. Mas, 
no presente estado de nossos conhecimentos, é impossível dizer
mais. De qualquer modo, os medos, sob Ciaxares (aproximadamente 625-585), filho de Fraortes, logo se prepararam para
retomar o ataque contra a Assíria. Neste ínterim, os babilônios,
comandados pelo príncipe caldeu Nabopalassar (626-605) —
que foi o fundador do império neobabilônico —, levantaram-se novamente em luta pela independência. Em outubro de 626,
Nabopalassar derrotou os assírios fora da Babilônia e, no mês
seguinte, subiu ao trono [11]. Apesar de repetidos esforços, os assírios não puderam desalojá-lo.

Dentro de alguns anos, a Assíria estava lutando por sua
sobrevivência contra os medos e os babilônios. E nesta hora
de desespero, surpreendentemente, ela encontrou um aliado no
Egito. Psamético, pensando evidentemente que a Assíria não
podia mais ameaçá-lo e temendo que um eixo medo-babilônico
pudesse ser mais perigoso, desejou que a Assíria — que ele
manteve enfraquecida — lhe servisse de anteparo. Provavelmente, também, ele viu a chance de ganhar, em troca da sua ajuda,
carta branca na esfera de influência do Egito na Palestina e na
Síria.

As forças egípcias chegaram à Mescpotâmia em 616,
em tempo de ajudar a deter Nabopalassar, que tinha avançado
até o Eufrates e estava impondo à Assíria uma tremenda derrota. Mas os medos, agora, já começavam a tomar parte decisiva na guerra: depois de muitas manobras, Ciaxares tomou
de assalto Assur, a antiga capital assíria em 614. Nabopalassar,
entrando em cena demasiado cedo para participar, concluiu um
tratado formal com ele. Dois anos mais tarde (612), os aliados assaltaram Nínive e, depois de um cerco de três meses,
tomaram-na e destruíram-na completamente. Sin-shar-ishkun morreu na devastação. O que restou do exército assírio, sob o
comando de Assur-uballit II, retirou-se para Haran, no oeste,
onde, tendo os egípcios pelas costas, esforçaram-se por manter
viva a resistência. Mas, em 610, os babilônios e seus aliados
tomaram Haran. Asur-uballit, com a derrota de suas forças, retirou-se pelo Eufrates para cair nos braços do Egito. Uma
tentativa de retomar Haran (em 609) falhou miseravelmente.
A Assíria tinha terminado.


3. O reinado de Josias (640-609)

Quando a Assíria perdeu o controle de seu império, mais
uma vez Judá achou-se uma nação livre, mesmo que fosse à sua
revelia. Coincidindo com a conquista da independência — e
em parte como um aspecto dela — o jovem rei Josias lançou
a mais completa reforma de toda a história do país.

a. Judá retoma sua independência. — Manassés tinha continuado como um dócil vassalo de Nínive até o fim de seu longo
reinado. Sucedeu-lhe seu filho Amon (642-640) (2Rs 21,19-
-26), que, naturalmente, seguiu a sua política. Este infeliz rei
foi logo assassinado por certos membros de sua família que
viviam na corte, provavelmente por altos oficiais. Suspeita-se
que a conspiração foi maquinada por elementos antiassírios,
que escolheram este meio de luta para transformar a política
nacional[12]. Mas parece que alguns sentiam que a ocasião não
era bem apropriada para isto, porque lemos que “o povo da
terra”, evidentemente uma assembléia da pequena nobreza,
executou imediatamente os assassinos e colocou no trono o
filho do rei, Josias, que tinha então oito anos de idade.

Sob Josias, a independência de Judá foi um fato. As providências tomadas para o conseguir ainda permanecem, de certo
modo, matéria de conjeturas. A questão está ligada à reforma
de Josias, à qual voltaremos mais abaixo. Nada sabemos dos
dias de infância de Josias. Provavelmente, os negócios do Estado estavam nas mãos de conselheiros, que se mantinham numa discreta linha de ação diante da Assíria. A informação de
2Cr 34,3a pode indicar que, até o oitavo ano de Josias
(63/2), tomou-se a decisão de fazer uma mudança na política
nacional assim que fosse possível. Parece que esta oportunidade
chegou no décimo segundo ano de Josias (629/8). Nessa ocasião, Assurbanípal estava velho e seu filho Sin-shar-ishkun
havia subido ao trono como seu co-regente. A Assíria, cujo
controle efetivo do oeste já tinha começado a se enfraquecer,
não mais estava em condições de intervir.

É razoável supor-se que, por esta época (cf. 2Cr 34,3b-7),
Josias não só tenha lançado uma reforma violenta, como
também, tenha marchado para tomar posse das províncias de
Samaria e Megiddo (e provavelmente de Galaad), nas quais
os assírios tinham dividido o território do norte de Israel. Pelo
menos por algum tempo, ele também estendeu seu controle até
o Mediterrâneo, como indica uma sua fortaleza no litoral ao
sul de Jope[13]. Não sabemos se Josias anexou estas áreas imediatamente ou depois de algum tempo. Mas, como algumas
tropas assírias ficaram (se ficaram!) para lhe fazer oposição
e como a maior parte dos israelitas do norte provavelmente
recebeu a reforma de braços abertos, não parece que ele tenha
encontrado muita resistência.

É mesmo possível que Josias tenha tomado esta decisão
e dado este passo quando ainda era nominalmente vassalo,
uma vez que a Assíria não só era incapaz de o deter, mas
também estava querendo fazer todo o possível para manter
sua lealdade e persuadi-lo a afastar-se do Egito, na época
ainda uma potência hostil. Seja como for, na ocasião em que
a reforma de Josias chegou ao seu clímax (622) a Assíria estava nas últimas, deixando Judá livre, não só nominalmente, mas
também de fato.

c. A reforma de Josias: suas principais características. —
A reforma de Josias, sob muitos pontos de vista a mais
completa da história de Israel, é descrita em pormenores em
2Rs 22,3 a 23.25 e em 2Cr 34,1 a 35,19. No pensar dos escritores da Bíblia, ela eclipsa de tal maneira os demais atos de
Josias, que eles não nos dizem virtualmente nada mais sobre ele. Não podemos estar muito certos da ordem em que se
processaram suas diversas fases.

De acordo com o autor do Livro dos Reis (2Rs 22,3),
a reforma realizou-se no décimo oitavo ano de Josías (622),
quando, durante obras de reparo no templo, foi encontrada
urna copia do “livro da lei”. Levado à atenção do rei, o livro
despertou-lhe a mais profunda consternação. Tendo consultado
o oráculo, convocou os anciãos do povo para o templo, leu-lhes
a lei e, juntamente com eles, fez uma aliança com Iahweh
para prestar-lhe sempre obediência. Tem-se a impressão de que
esta lei foi a base das várias medidas que ele tomou e que todas
elas foram levadas a efeito no mesmo ano (cf. 2Rs 23,23).

Isto só parece improvável superficialmente. O próprio
fato de que o templo estava sendo reparado quando foi
encontrado o livro da lei indica que o processo de reforma já
estava em andamento, pois o reparo e a purificação do templo
já eram medidas de reforma. O Cronista, por outro lado, nos
diz que a reforma se deu em diversas fases e que ela já estava
sendo aplicada quando o livro da lei foi encontrado. Ele
também esquematiza seu material, colocando-o virtualmente
todo no décimo segundo ano de Josias e deixando pouco a ser
feito no oitavo: apenas celebrar uma Páscoa — o que é
igualmente improvável.

Ambas as narrações parece que englobam medidas tomadas
durante um certo período de tempo. Entretanto, embora não
seja possível uma certeza, é muito plausível supor (cf. 2Cr 34.3-8) que a decisão de repudiar o culto oficial assírio tenha
sido tomada no oitavo ano de Josias (633/2) e que depois,
no seu décimo segundo ano (629/8), coincidindo com a subida
de Sin-shar-ishkun ao trono da Assíria, tenha começado um
expurgo radical de todas as práticas idólatras, que também se
estendeu até o norte de Israel quando Josias marchou para
aquela região. Então, no oitavo ano (622), tendo terminado o
controle assírio, o fato de se ter achado o livro da lei deu à
reforma uma direção e levou-a à conclusão[14].

Com certeza, ninguém pode dizer precisamente que medidas
foram tomadas no décimo segundo ano e quais foram tomadas depois. Algumas delas, consideradas como do décimo segundo ano, também são tidas como inspiradas pelo livro da
lei, que ainda não havia sido encontrado. Mas o quadro do
Cronista, de uma reforma em varias fases, está certo. A reforma
marchou paralelamente com a independencia e prosseguiu com
ela.

As principais características da reforma são claras. Foi,
antes de tudo, um expurgo radical de cultos e práticas estrangeiros. Sendo odiada por todas as pessoas patriotas, a religião
assíria foi a primeira a entrar na mira da reforma. Os reparos
do templo, em pleno andamento em 622, representavam talvez
a purificação que se seguiu à remoção oficial. Vários cultos
solares e astrais, a maioria dos quais sem dúvida de origem
mesopotâmica (2Rs 23,4ss.llss), também foram banidos, como o foram os cultos pagaos nativos, alguns introduzidos
per Manassés (vv. 6,10), vários de longa data (vv. 13ss).
Seu pessoal, incluindo sacerdotes eunucos e prostitutas, de ambos os sexos, foi todo morto [15], Além disso, a prática da
adivinhação e da magia foi suprimida (v. 24). Os locais de
culto do norte de Israel — sendo, do ponto de vista de Jerusalém, uniformemente idólatras — difícilmente poderiam passar
despercebidos a um reformador tão zeloso quanto Josias. Na
medida que tomou o controle do norte, a reforma também se
estendeu naquela região, e os santuários da Samaría, particularmente o templo rival de Betel, foram profanados e destruídos,
sendo mortos os seus sacerdotes (vv. 15-20).

De acordo com 2Cr 34,6, do qual não há razão para se
duvidar, a reforma estendeu-se até o norte da Galiléia. O coroamento das medidas de Josias foi fazer o que Ezequias havia
tentado fazer, mas sem sucesso permanente: fechando todos
os santuários de Iahweh em todo Judá, ele centralizou toda
a adoração pública em Jerusalém[16]. Os sacerdotes rurais foram convidados para tomar lugar entre o clero do templo (2Rs
23,8). Nunca houvera antes uma reforma tão radical em seus
fins e tão consistente em sua execução!

a. A reforma de Josias: seus antecedentes e sua significação. — O livro da lei encontrado no templo, e que tão profundamente influenciou Josias, foi, como é consenso geral hoje, alguma forma do livro do Deuteronômio [17]. Inegavelmente, Jcsias tomou muitas medidas de acordo com este livro. Isto,
sem dúvida, é verdade para a centralização do culto de Jerusalém e para sua tentativa de integrar o clero rural com o do
templo, já que tais medidas são especificamente exigidas pelo
Deuteronômio (por exemplo, Dt 12,13ss.l7ss;18,6-8). Além
disso, a lei do Dt 13, que com veemência sem precedentes
considera a idolatria como um crime capital e a condena, pode
explicar a ferocidade com a qual ele tratou não só os funcionários dos cultos pagãos, como também os padres javistas do
norte de Israel — que eram idólatras a seus olhos.

Entretanto, do que ficou dito, deve ficar bem claro que
apenas o livro da lei não pode explicar a reforma. Outros fatores entraram em jogo. Em primeiro lugar, a reforma foi
obviamente uma faceta do nacionalismo ressurgente. A oscilação
entre o sincretismo e a reforma, que coincide com as mudanças na política nacional, terá certamente sido notada — e não
é com certeza nenhum acidente.

Como Ezequias derrotou Acaz, assim Josias também derrotou Manassés. E, sendo a religião assíria o próprio símbolo
da humilhação nacional, qualquer movimento de independência
certamente teria que se desfazer dela e, tendo-o conseguido,
teria que ir mais além, procurando eliminar todas as características religiosas consideradas não-israelitas. Além do mais,
a anexação do norte de Israel por Josias, que deu expressão
política ao ideal de um Israel livre e mais uma vez unido sob
o cetro de Davi, tinha necessariamente seus aspectos religiosos.
Essencialmente uma afirmação da teologia oficial de Judá, ela
deve ter sido acompanhada de ênfase na escolha de Sião por Iahweh como sede de seu domínio e legítimo centro religioso
nacional. Assim, a unificação política envolveu inevitavelmente
certo grau de unificação de culto e, conseqüentemente, um
áspero tratamento dos santuários rivais, javistas ou pagãos, que
lhe pudessem opor resistência. Vista deste modo, a reforma
foi um aspecto de nacionalismo e, realmente, não deixou de ser
uma reafirmação mais forte da política de Ezequias.

Mas só o nacionalismo não constitui uma explicação suficiente. Em todo o mundo da época pairava uma certa ansiedade no ar. As civilizações antigas do Oriente, que tinham
florescido durante milhares de anos, estavam chegando ao fim.
Os diques tinham-se rompido, e um dilúvio de águas revoltas
ameaçava levar tudo de vencida. Como indicam os textos da
época, os homens viviam com medo de serem condenados a cada momento, havia uma insegurança geral que corroía a paz
de cada um e, ao mesmo tempo, suspirava-se nostalgicamente
por melhores dias, pelos dias vividos antigamente. Assim, por
exemplo, os faraós da Vigésima Sexta Dinastia voltaram-se deliberadamente para a cultura da Idade das Pirâmides. Assurbanípal mandou copiar os documentos antigos e os recolheu
em sua biblioteca, e seu irmão Shamas-shum-ukim ordenou que
suas inscrições fossem exaradas em sumério, língua de há muito inteiramente morta. Em toda parte observavam-se tendências semelhantes [18].

Era um tempo perigoso, um tempo em que o homem
necessitava da ajuda dos deuses. E Judá não estava isento
desta situação. Ao lado do entusiasmo da independência há
pouco conquistada e do otimismo implícito na teologia dinástica
oficial, achavam-se uma profunda insatisfação e um pressentimento de julgamento, juntamente com o sentimento, sem dúvida inconsciente, de que a segurança da nação estava na volta
às tradições antigas.

Além disso, foi justamente nessa época que o movimento
profético entrou numa fase de florescimento. Assegurando que
a nação estava sob julgamento e iria conhecer a ira de Iahweh
se não se arrependesse, os profetas ajudaram a preparar o terreno para a reforma.

Conhecemos dois profetas que exerceram seus ministérios
por este tempo: Sofonias e o jovem Jeremias [19]. Sofonias, que
deve ter sido da casa real (Sf 1,1), levou adiante a tradição
de Isaías, no verdadeiro sentido da palavra[20]. Ele denunciou
os pecados, tanto os de culto como os pecados éticos que a
política de Manassés havia permitido que florescessem, como
uma arrogante rebelião contra Iahweh, a qual atraíra toda a ira
do Todo-pcdercso (cc. l,4-6.8ss.l2;3,l-4.11). Anunciando que
o terrível Dia de Iahweh estava iminente (c. l,2ss.7.14-18),
ele declarou que a nação não tinha outra esperança que não
a do arrependimento (c. 2,1-3), para o qual Iahweh havia
oferecido uma última oportunidade (c. 3,6ss). Como Isaías,
Sofonias acreditava que Iahweh tencionava tirar de uma nação castigada e corrigida um resto puro (c. 3,11-13).

Jeremias, que começou seu ministério em 627 (Jr 1,2)
conservava-se numa tradição ainda mais antiga, indo, através
de Oséias, até à própria aliança de Moisés. Atacando violentamente a idolatria com a qual a nação se havia paganizado, ele
declarava que este pecado era indesculpável, pois representava
um pecado contra a bondade de Iahweh, que tirara Israel do
Egito e o transformara em seu povo (c. 2,5-13). Empregando
a imagem de Oséias, comparava Judá a uma esposa adúltera,
que certamente receberia a pena do divórcio se não se arrependesse (cc. 3,l-5.19-25;4,lss). Ao mesmo tempo que pedia a
Iahweh por seu povo, ele também alimentava esperanças de
que a nação de Israel voltasse a ser novamente a família de
Iahweh (cc. 3,12-14;31,2-6.15-22). Uma pregação desta natureza naturalmente despertava simpatia pela política religiosa e
oficial de Josias. Embora seja improvável que Jeremias tenha tomado parte ativa de sua execução, quase certamente ele
favoreceu seus objetivos no começo. Com certeza ele não
admiraria Josias, como admirou (c. 22,15ss), se julgasse que
a ação maior do rei era um erro.

Dentro deste fermento de nacionalismo ressurgente, embora de certa ansiedade, a lei deuteronômica soou como um
despertador de consciências. Embora, sem dúvida, fosse repetida
na geração que precedeu à reforma, não se tratava de uma
lei nova, e muito menos de uma “fraude piedosa”, como
muitas vezes tem sido chamada, mas de uma coleção homilética de leis antigas que, em última análise, derivavam da
tradição legal de Israel primitivo. Naturalmente, transmitida
no norte de Israel, certamente ela foi trazida para Jerusalém
depois da queda de Samaria e lá, entre Ezequias e Josias, reformulada e transformada em programa para a reforma [21]. Suas
leis, portanto, em sua maior parte, não poderiam ter sido tão
novas assim.

Mas o quadro da aliança primitiva de Moisés e suas
exigências, durante séculos sobreposto na mente popular por
outra noção de aliança, a davídica, foi realmente uma novidade.

O Deuteronômio, impregnado de nostalgia e de saudade
dos dias antigos, sentimentos característicos dos tempos, declarava com desesperada urgência que a própria vida da nação
dependia de uma volta à relação da aliança na qual se tinha
baseado originalmente a existência nacional. Sua descoberta
representava nada mais nada menos do que a redescoberta da
tradição mosaica. A consternação que ela despertou reflete-se
muito bem no comportamento de Josias, que (2Rs 22,11) rasgou suas roupas em sinal de profunda tristeza. Deve ter parecido ao jovem rei religioso que, se esta era realmente a lei de
Iahweh, a nação estava vivendo num paraíso de loucos, supondo
que Iahweh, através das promessas feitas a Davi, estaria irrevogavelmente comprometido em defendê-la.

Em nome da teologia oficial da aliança com Davi, a reforma convocava o povo a uma noção de aliança mais antiga,
comprometendo a nação e o povo à obediência a suas estipulações. Entretanto, deve-se notar que a aliança (c. 23,3) havia
sido feita “diante de Iahweh” (isto é, Iahweh fora mais uma
testemunha do que um participante), e o rei desempenhava
um papel semelhante ao de Moisés no Deuteronômio (e Josué,
em Js 24). Através desta aliança solene, feita pelo rei e pelo
povo, a lei deuteronômica era, com efeito, reconhecida como
a lei básica do Estado, à qual toda a sua política devia se
adequar.

d. Os últimos anos de Josias: conseqüências da reforma.

— Não sabemos virtualmente nada do reinado de Josias entre
o término da reforma e sua morte. Tendo acabado com a
última pretensão assíria à suserania, não havia no momento
ninguém para questionar a independência de Josias e seu controle sobre os territórios que conseguira anexar. Apesar de
não termos certeza da verdadeira extensão de seus domínios
é provável que a maior parte das áreas nitidamente israelitas
estivesse em suas mãos. Certamente, ele dominava as antigas
províncias da Samaria e de Megiddo, e provavelmente também
Galaad[22]; e governava também parte da planície costeira, como
já vimos.

Embora não estejamos informados dos posteriores atos régios de Josias, deve ter sido imperativa uma reorganização
militar, em vista da independência recém-conquistada e de suas
vastas fronteiras [23]. Também deve ter sido necessária uma revisão
da máquina administrativa . Além disso, mesmo que a reforma tenha-se orientado sobretudo no sentido de acabar com
abusos religiosos, sem a menor dúvida ela teve efeitos benéficos
que foram muito além da esfera especificamente litúrgica. A
abolição dos cultos pagãos com seus inumeráveis ritos não
podia deixar de ser uma bênção para a terra, moral e espiritualmente. E, uma vez que o Estado estava empenhado na observância da lei da aliança, e como o próprio Josias era um
homem justo (Jr 22,15ss), podemos estar certos de que a
moralidade pública e administração da justiça receberam, pelo
menos por algum tempo, um grande impulso para melhor.

Entretanto, permanece a questão de se a reforma foi
inteiramente bem sucedida. É certo que ela estabeleceu firmemente Jerusalém nas boas graças de muitos, que passaram a
considerá-la como o único santuário legítimo, o que podemos
constatar no fato de que, mesmo depois de sua destruição,
as pessoas (do norte de Israel!) continuavam a fazer peregrinações à cidade (Jr 41,5). Mas, como era de se esperar, tal
centralização era violentamente atacada por outros. O clero
dos santuários extintos relutava em ceder suas antigas prerrogativas e integrar-se humildemente no sacerdócio de Jerusalém,
e muitos se recusaram terminantemente a fazê-lo (2Rs 23,9).
Mas tampouco o clero de Jerusalém queria recebê-los de boa
vontade, a não ser numa condição de inferioridade. Esta posi-
ção permaneceu ambígua até muito mais tarde, quando (Ez 44.9-14) a situação de facto foi estabelecida de jure, ficando definida uma classe subordinada de clero.

Portanto, a reforma estabeleceu um monopólio sacerdotal
em Jerusalém que certamente não poderia ser benéfico —, pelo
menos totalmente benéfico —, como raramente o são os monopólios espirituais. Além do que, a abolição dos santuários
locais e a concomitante redução de ocasiões de culto das
quais o povo pudesse participar deve inevitavelmente ter resultado numa certa secularização da vida em áreas afastadas,
numa separação entre a vida do culto e a vida comum como
nunca tinha existido antes. O vácuo assim criado devia ser
preenchido por alguma coisa, boa ou má.

Mais sério foi o fato de a reforma tender a satisfazer-se
com medidas externas, as quais, longe de afetar profundamente
a vida espiritual da nação, criavam um falso senso de paz
que nada podia penetrar. Jeremias queixava-se de que ela só
resultara numa maior atividade de culto, sem uma volta real acs “caminhos de outrora” (Jr 6,16-21), e de que os pecados
da sociedade continuavam, sem protesto por parte do clero
(c. 5,20-31). Parecia-lhe que a nação, tão satisfeita consigo
mesma porque possuía a lei de Iahweh, já não queria cuvir
suas palavras proféticas (c. 8,8ss e estava mergulhando na
ruína como um “cavalo que se atira ao combate” (vv. 4-7).

A promulgação oficial da lei antiga, marcou, de fato, o
primeiro passo no processo que progressivamente a elevou ao
ponto de ser ela nos tempos pós-exílicos o princípio organizador da religião e, ao mesmo tempo, o primeiro passo no
processo concomitante pelo qual o movimento profético, tendo
suas palavras, progressivamente, se tornado supérfluas, chegou
ao fim. A própria lei da reforma, que tomava de empréstimo
uma nota de responsabilidade moral e religiosa à teologia nacional, fortificava este espúrio senso de segurança contra o qual Jeremias batalhou em vão. Como a lei exigia uma reforma como o
preço da segurança nacional, o povo supunha que, fazendo-se
essa reforma, as exigências de Iahweh estariam satisfeitas
(cc. 6,13ss;8,10ss). A aliança de Moisés, sendo suas exigências supostamente satisfeitas, tornou-se serva da aliança de
Davi, garantindo a permanência do templo, a dinastia e o Estado. A teologia da lei tornara-se, pois, uma caricatura de si
mesma: a proteção automática comprada por uma submissão
externa. Criou-se um sério problema teológico, que a tragédia logo viria a agravar ainda mais.

[1] Pritchard, in ANET, pp. 294ss, para os detalhes. 


[2] Pritchard, in ANET, pp. 291, 294. 


[3] Cf. especialmente G. E. Wright, The Old Testament Against Its 


[4] 2Cr 33,15-17 conta como Manassés se arrependeu e como se
corrigiu; cf. também a Prece apócrifa de Manassés. Entretanto, em
2Rs, c. 23, está daro que os abusos pelos quais ele era responsável
continuaram até que Josias os extirpou. 


[5] A própria população da Assíria se tinha tornado aratnéia, e o
aramaico começava a sobrepujar o assírio como a língua da diplomacia
e do comércio; 2Rs 18,26 ilustra este processo, uma geração antes.
Cf. R. A. Bowman, Arameans, Aramaic and the Bible, in JNES, VII
(1948), pp. 65-90; v. também A. Jeffrey, Aramaic (in IDB, I, pp.
185-190), que conténs mais literatura sobre o assunto. 


[6] Cf. Pritchard, in ANET, pp. 297-301, para os textos. 


[7] Esta é provavelmente a melhor explicação de 2Cr 33,14; cf.
Rudolph, Chronikbücher, in HAT (196.5), p. 317. 

[7] Cf. E. K. Kienitz, Die Politische Geschichte Ägyptens vom 7, bis 


[8] Pela inscrição de Nabonidus, que mostra que Assurbanípal reinou
até seu quadragésimo segundo ano; cf. Pritchard, in ANE, Suppl. pp.
560-562, para o texto. Para discussão, cf. especialmente C. J. Gadd, Ana-
tolian Studies, 8 (1958), pp. 35-92, v. também R. Borger, Weiner
Zeitschrift für die Kunde des Morgenlandes, 55 (1959), pp. 62-76. 


[9] Cf. R. Labat, Kastariti, Phraorte et les debuts de l’histoire mède
in Journal Asia tique, 249 (1961) pp. 1-12, que argumenta convincente-
mente que Heródoto tencionava incluir os anos da dominação cita,
da qual ele fala dentro do reinado de Ciaxares, sucessor de Phraortes,
e que este foi morto em 625, aproximadamente. 


[10] Para discussão desta questão tão controvertida, cf. ínter alia, 


[11] Cf. a Crônica Babilónica. Veja referências na nota 40, adiante 


[12] Cf. A. Malamat, The Historical Background of the Assassination
of Amon King of Judah, in IEJ, 3 (1953), pp. 26-29, sobre o assunto. 


[13] Sobre as escavações em Yabneh-yam (Mesad Hashavyahu), cf. J.
Naveh, in IEJ. 12 (1962), pp. 89-113. Um óstraco hebreu (e fragmentos
de outros) descoberto no íocal não deixa , a menor dúvida de que Josias
controlava esta área; cf. Naveh, in IEJ, 10, pp. 129-139; F. M. Cross, in
BASOR, 165 (1962), pp. 3446; S. Talmon, in BASOR, 176 (1964), pp.
29- 38. Asas de jarros com o selo real, encontradas em Gazer, indicam
controle judaico daquela cidade; cf. H. D. Lance, in BA, XXX (1967),
pp. 45ss. 


[14] Embora muitos se tenham mostrado céticos sobre a narração do
Cronista (por exemplo, Rudolph, Chronikbücher in HAT [1955], pp.
319-321), seu quadro de uma reforma em estágios deve ser considerado
como o mais historicamente plausível: por exemplo, W. A. L. Elmslie,
in IB, III (1954), pp. 537-539; J. M. Myers, II Chronicles in AB
(1965), pp. 205-208; F. Michaeli, Les Livres des Chroniques, d’Esdras
ei de Néhémie, Delachaux & Niestlé, Neuchâtel, 1967, pp. 243ss; A.
Jepsen, Die Reform des Josia in Festscbrift Fr. Baumgãrlel, Erlanger
Forschungen, Reihe A, Band 110 1959, pp. 97-108. 


[15] A palavra de 2Rs 23,5 tradu2ida por “deposto” (RSV) significa
literalmente “feito cessar”; ela implica uma execução (cf. 2Cr 34,5;
2Rs 23,20). Os “sacerdotes idólatras” (kemãrim) são sacerdotes eu-
nucos; cf. Albright, in FSAC, pp. 234ss. 


[16] O templo de Arad é provavelmente uma ilustração disto. Ele
existiu desde o século décimo, mas quando foi construída a última cidadela
(VI), ele foi abandonado e destruído (passaram um muro de casa-
mata através dele): cf. Y. Aharoni, in BA, XXXI (1968), pp. 18-27;
AOTS, pp. 395-397. 


[17] Este ponto de vista foi sugerido por alguns padres da Igreja (por
exemplo, São Jerônimo); e agora, nos tempos modernos, é geralmente
aceito. Para um sumário da discussão, com bibliografia, cf. H. H.
Rowley, The Prophet ]eremiah and the Book of Deuteronomy, 1950
(reedição, in From Moses to Quniran, Lutterworth Press, Londres, 1963,
pp. 187-208). 


[18] Cf. Albright, in FSAC, pp. 314-319, paia discussão e mais
exemplos. Posteriormente,. Nabucodonosor empregou um babilónico ar-
caico em suas inscrições; Nabonidus superou a todos em seu zelo
arcaico, como veremos. 


[19] Sofonias deve ter profetizado antes da reforma, uma vez que vá-
rios dos abusos que ele atacou foram justamente os abusos que a refor-
ma extirpou. Alguns historiadores acreditam que o ministério de Jeremias
começou no fim do reinado de Josias, mas seus argumentos não con-
vencem. Para uma revisão do assunto discutido, com bibliografia, cf. 

H. Rowley, The Earley Prophecies of Jeremiah in their Setting
(reeditado in Men of God, Thomas Nelson & Sons, 196.3, pp. 133-168). 


[20] Por exemplo, no seu entendimento de pecado, em sua concepção
do Dia de Iahweh e de um remanescente purificado. Cf. F. Horst, Die
Zwölf Kleinen Propheten in Hat, 2* ed. (1954), pp. 188, 198ss; K.
Elliger, Das Buch der Zwölf Kleinen Propheten, II, in ATD, 3? ed.
(1965), pp. 79ss. 


[21] Sobre a origem do Deuteronômio, veja especialmente G. VON Rad,
Studies in Deuteronomy (Trad. ingl., SCM Press, Ltd., Londres, 1953); 

E. Wright, in IB, II (1953), pp. 311-329; A. Alt, Die Heimat des
־Denteronomiums (in KS, II, pp. 250-275); para uma excelente resenha da
discussão, cf. E. W. Nicholson, ־Deuteronomy and Tradition, Basil
Blackwell & Mott, Ltd., Oxford, 1967. 


[22] Embora não tenhamos uma evidência direta disto, parece a pricri
provável (cf. Noth, in Hl, pp. 273ss). Mas deve-se ter cautela em
deduzir a extensão do domínio de Josias das listas de cidades de Josué,
porque estas, com toda probabilidade, refletem condições anteriores; cf.
acima, p. 364, nota 65. 


[23] A menção de Kittim no óstraco de Arad, do Stratum VI, jun-