1 de julho de 2016

John Bright - A luta pela independência de Ezequias (715-687)

antigo-testamento-danilo-moraes
1. A política de Ezequias e sua significação

Durante o reino de Acaz, Judá permaneceu submissa à
Assíria. Mas, embora tal situação parecesse não ter alternativa,
não podemos deixar de pensar que o povo patriota a sentia
amargamente. O filho de Acaz e seu sucessor, Ezequias, parece
que alimentava tal sentimento, já que ele modificou totalmente
a política de seu pai em todos os pontos. De início com certa
cautela, depois com ousadia, ele procurou livrar-se da Assíria.
Embora suas tentativas parecessem inúteis — de fato, elas
estavam de antemão condenadas ao fracasso — elas eram quase inevitáveis.

a. O fundamento da política de Ezequias: fatores internos.

O simples patriotismo, o natural desejo de independência
de um povo altivo certamente desempenhou um papel importante na formação da política de Ezequias. Entretanto, não
é suficiente para explicá-la. Como sempre em Israel, os fatores
religiosos estavam presentes. A política de Acaz tinha produzido uma situação intolerável para cs iahwehistas leais. Não é
provável que Isaías e Miquéias fossem as únicas pessoas que
se insurgiram contra os abusos sociais tolerados pelo regime,
ainda mais que as tendências paganizantes, embora seguidas por
muitos, sem dúvida despertavam uma oposição mais forte do
que as práticas semelhantes haviam despertado no norte de
Israel.

Não somente Judá, graças à sua população conservadora e
sua tradição de culto estável, era caracteristicamente menos
aberta a importações estrangeiras; na época, os elementos religiosos também tinham progredido muito além de uma fácil
tolerância de práticas religiosas populares, como teria sido possível antes, mesmo em Judá. Uma apostasia aberta para o paganismo era provavelmente mais uma exceção do que uma
regra em Judá. Quanto ao culto assírio oficial, ele não só era
religiosamente ofensivo, mas também constituía uma irritante
recordação da humilhação nacional, que poderia agradar apenas
a uns poucos bajuladores servis. Provavelmente, no fundo, o
próprio Acaz não estava satisfeito com este culto.

Em suma, havia uma apreciável porção de gente em Judá
que se deixava influenciar por idéias de reforma. Essas pessoas eram sem dúvida estimuladas pela maneira como os profetas explicavam a ruína que se abatera sobre Israel: o julgamento por Iahweh de um povo apóstata e violador da aliança
divina. E quando os profetas apontaram pecados semelhantes em
Judá e o ameaçaram com a ira divina por causa desses pecados,
deve ter havido um sentimento geral de que Judá tinha que
passar por uma reforma, se quisesse escapar da sorte de seu
irmão do norte. Todavia, enquanto Judá permanecesse sujeito
à Assíria nenhuma reforma satisfatória seria possível. A adoração dos deuses assírios, que tinha sido um fermento de paganismo, não podia ser afastada nem desprezada, pois isto constituiria um ato de rebelião. E os impostos assírios, que agravavam inapelavelmente os males sócioconômicos do povo, tampouco podiam ser eliminados. O desejo de uma reforma profunda, unindo-se ao patriotismo, produziu a fonte do descontentamento geral.

A própria natureza da teologia nacional oficial, a qual,
como indicamos[1], dava grande ênfase ao dogma da aliança
eterna de Iahweh com Davi, contribuiu para isto. Reafirmava-se
constantemente no culto que Iahweh havia escolhido Sião
como a sede terrena do seu governo, tendo prometido a Davi
uma dinastia que deveria reinar para sempre e triunfar sobre
todos os seus inimigos (SI 2,4-11 ;72,8-11 ;89,19-37; 132,11-18).

Poder-se-ia admitir, com certeza, que um rei pecador pu-
desse atrair castigo sobre si mesmo e sobre a nação (2Sm 7,
14-16; SI 89,30-37.38-51), mas não se podia admitir à possi-
bilidade de que a dinastia pudesse acabar ou que as promessas
falhassem. Uma teologia desta natureza só poderia encarar
aquela humilhação como sinal de desagrado divino para com o
rei de então.

Portanto, havia um desejo intenso, ilustrado pela incidência constante de oráculos messiânicos em profecias do período (por exemplo, Is 9,2-7;11,1-9; Mq 5,2-6) falando da vinda
de um rei melhor, um filho ideal de Davi, o qual, dotado de
carisma divino, estabeleceria vitoriosamente o seu reino de justiça e paz, realizando as promessas dinásticas. Para os profetas
que emitiam esses oráculos e para as pessoas que ouviam
suas palavras, a política de Acaz só poderia parecer uma covarde falta de fé. Não poucos quiseram aproveitar-se da primeira
chance para derrubar esta política.

b. O fundamento desta política: a situação mundial. — As
esperanças, sem dúvida, eram alimentadas pelos acontecimentos
em curso dentro e fora do império assírio. Nem bem se tinha
estabelecido no trono (721), Sargão II teve que enfrentar
uma rebelião na Babilônia, encabeçada pelo príncipe caldeu
Marduk-Aplaiddin, o Merodac-baladan da Bíblia (2Rs 20,12;
Is 39,1), que contou com a ajuda do rei de Elam. Completamente derrotado pelos rebeldes, Sargão perdeu o controle da
Babilônia, não o reconquistando senão depois de muitos anos.

Entrementes, outras campanhas chamaram sua atenção. Na
Ásia Menor, Mita (Midas), rei dos Mushkis frígios, mostrou ser
um terrível inimigo. Uma rebelião encabeçada por ele, envolvendo o Estado vassalo de Cárquemis, da Síria (717), provocou Sargão a destruir aquele antigo centro de cultura hitita,
deportar sua população e, em seguida, empreender várias campanhas contra a Ásia Menor. Sargão também se voltou contra
Urartu, já enfraquecido por Teglatfalasar III, e agora gravemente ameaçado pelas incursões de povos bárbaros indo-arianos
chamados sumérios, que desciam do Cáucaso.

Aproveitando-se da oportunidade, Sargão destruiu completamente o poder de Urartu, removendo assim um antigo rival
— mas, ao mesmo tempo, o dique mais resistente contra a
impetuosa torrente dos bárbaros. Outras campanhas, no nor-
deste do Irã, estabeleceram a autoridade assíria sobre os prínci-
pes medos lá reinantes. Intensamente ocupado como estava, a
não ser para uma demonstração de força numa incursão até o rio do Egito (716-715), depois de 720 Sargão não fez
mais nenhuma campanha importante na Palestina. Isto pode ter
encorajado os vassalos inquietos a imaginar que ele era um
homem com quem se podía brincar.

Entrementes, o Egito sofria uma reviravolta que o levaria
novamente a uma posição de relativa força. A autoridade central
do Egito havia desmoronado antes da metade do século oitavo.
A Vigésima Segunda Dinastia, enfraquecida há longo tempo,
teve durante alguns anos a rivalidade da Vigésima Terceira Dinastia, igualmente fraca[2], que acabou completamente por volta
de 730-725, quando vários rivais incapazes — incluindo a assim chamada Vigésima Quarta Dinastia (aproximadamente 725-
710/9־) passaram a disputar o poder. Esta era a situação
quando Samaría caiu, e a ajuda egípcia mostrou-se inútil.

Mas aproximadamente em 716/15 [3], o rei etíope, Piankhi,
tendo-se apoderado do Alto Egito, dominou todo o território,
acabando com a Vigésima Terceira Dinastia e permitindo que
Bocchoris, o último rei da Vigésima Quarta, governasse como
seu vassalo[4]. Piankhi fundou a Vigésima Quinta Dinastia (etícpe); pelo menos em 710/9, todo o Egito já estava unido
sob seu controle. Em vista destes sinais de ressurgimento, os
vassalos assírios da Palestina ousaram mais uma vez recorrer
ao Egito, pedindo socorro.

c. Os primeiros sinais de rebelião: Ezequias e Sargão. —
Assim que a Vigésima Quinta Dinastia se consolidou no poder,
o Egito retomou sua histórica política de intervenção na Ásia.

O avanço assírio até às próprias fronteiras do Egito constituía
uma ameaça mortal para esta nação, uma vez que a invasão
tornou-se uma possibilidade sempre presente. Minar a autoridade assíria na Palestina tornou-se, portanto, a sua primeira
linha de defesa. Mal informados como mostraram estar, alguns
elementos da Palestina pensavam ter chegado o tempo da revolta. Por volta de 714, Asdode rebelou-se. Tendo-se recusado a pagar tributo à Assíria, o rei da Palestina foi destronado
e substituído por seu irmão. Mas a populaça rebelde imediatamente o baniu, aceitando um usurpador como seu rei. Outras
cidades da Palestina foram arrastadas para a revolta e, como
Sargão nos diz, Judá, Edom e Moab foram convidados a se
unir aos revoltosos; tanto a Bíblia como os textos assírios são
claros em que houve promessa da ajuda egípcia (Is 20). E,
de fato, como Isaías (c. 18, que quase certamente diz respeito
a este contexto) indica, os embaixadores do próprio rei etíope
serviram a Ezequias, esperando contar com sua cooperação[5].

As opiniões estavam divididas em Judá: participar ou não?
Como sabemos, Isaías sofreu terrível oposição, tanto por ter
procurado o rei para que desse uma resposta negativa aos
emissários etíopes, quanto por ilustrar simbolicamente a loucura de se confiar no Egito (c. 20), caminhando por toda
Jerusalém de pés descalços e vestindo somente uma tanga.

Não sabemos exatamente qual foi a decisão de Judá. Mas,
com certeza, as palavras de Isaías e daqueles que com ele
concordavam eram ouvidas. Pelo menos, quando a revolta foi
esmagada, Judá escapou ileso, o que provavelmente significa que
ele não tomou parte na revolta e não se entregou irrevogavelmente. Antes assim! Sargão, que por essa época estava
se preparando para reconquistar a Babilônia, encontrava-se no auge do poder. Em 712, seu general vingou-se cruelmente
dos rebeldes, reduzindo Asdod e reorganizando-a como província assíria . E a ajuda egípcia não somente deixou de con-
cretizar-se; quando o líder da rebelião fugiu para o Egito em
busca de ajuda, o faraó[6] covardemente o entregou aos assírios!
A decisão fatal de Judá foi temporariamente adiada.


d. Reforma de Ezequias. — Uma vez que, como indicamos
acima, o nacionalismo e o zelo javista convergiam em larga
escala na política de Ezequias, não é surpreendente sabermos
(2Rs 18,3-6; 2Cr 29 a 31) que ele instituiu uma reforma total
do culto. Não podemos dizer quando precisamente Ezequias
tomou as várias medidas que se lhe atribuem. Porém, com
certeza, elas não podiam ter sido tomadas todas ao mesmo
tempo. Como o repúdio aos deuses assírios significava virtualmente uma declaração de rebeldia, dificilmente isto foi feito
muito antes do começo da reforma (705). No entanto, as
medidas de reforma foram certamente tomadas muito antes.
É provável que a política de Ezequias tenha sido, de início,
feita cautelosamente, prevendo uma possível reação assíria e,
logo depois, intensificada e ampliada, à medida que o movimento
de independência ganhava corpo.

Quaisquer que tenham sido estas medidas, a reforma de
Ezequias foi grandemente eficaz, sendo a precursora da reforma de Josias, feita quase um século mais tarde. Não contente
em afastar as práticas estrangeiras introduzidas ultimamente por
Acaz, Ezequias começou a remover vários objetos de culto por
muito tempo associados pelo povo ao Javismo.

A menor delas foi (2Rs 18,4) a remoção de uma imagem
de bronze de uma cobra, que tinha fama de ter sido feita pelo
próprio Moisés e que fora colocada no templo desde tempos
imemoriais. Provavelmente porque as práticas paganizantes
estivessem se introduzindo sobretudo nos santuários de Iahweh,
Ezequias antecipou-se a Josias, tentando fechá-los — embora
não tenhamos condições de dizer com que sucesso conseguiu
aplicar tal medida.

Como o povo ainda não estava preparado para a medida,
e sem dúvida a ressentia, nem sempre ela foi bem sucedida. Mas não há razão para duvidar que Ezequias a tentou. Sabemos — e não é inacreditável — que os assírios mais tarde
tiveram como ponto de honra (2Rs 18,22) procurar afastar
o povo de Ezequias. Quer o ancestral da lei deuteronômica
fosse conhecido em Jerusalém nesse período quer não, devemos nos lembrar que a idéia de um santuário nacional central
não se originou de Josias, mas remonta, em última análise, à tradição do santuário da Arca da liga tribal.

Ezequias não limitou seus esforços a Judá. Como Josias
depois dele, ele procurou persuadir o povo do extinto Estado
do norte a participar do programa e aderir à adoração de
Iahweh em Jerusalém (2Cr 30,1-12). Apesar da maneira característica do Cronista tratar o material (Ezequias dirige-se
aos israelitas do norte como se eles fossem os futuros samaritanos!), não há nenhuma razão para pôr em dúvida a historicidade deste incidente.

A política de Ezequias não tinha por finalidade somente a
independência de Judá, mas também envolvia a reafirmação das
pretensões dinásticas representadas pelo sonho (cf. Is 9,1-7)
da reunião de Israel do norte e do sul sob o trono de Davi.
Esperava-se que a unificação religiosa, com a reativação de
Jerusalém como santuário nacional de Israel inteiro, servisse
de prelúdio para a unificação política e a independência [7].
Possivelmente a dificuldade que os assírios experimentaram em
manter dócil a população de Samaria desse visos de realidade ao
sonho.

O interesse sentido pelos reis de Judá de manter vínculos
com Israel do norte é ilustrado pelo fato de que a mulher de
Manassés, filho de Ezequias, era de uma família galiléia (2Rs
21,19) — como o seria também uma das mulheres de Josias, mais tarde (c. 23,36) [8]. Entretanto, o esforço não foi bem
sucedido. Sabemos que as propostas de Ezequias, embora conseguissem alguma reação no extremo norte, foram recusadas
em Efraim — em parte, sem dúvida, por causa da rivalidade
regional, mas em parte também porque os assírios, que certamente olhavam todas essas coisas com interesse crescente, tinham reorganizado o santuário de Betel (c. 17,27ss) justamente para contrabalançar essa propaganda. O sonho de um
Israel unido se havia desfeito, pelo menos no momento.

Embora não tenhamos informações diretas, a reforma de
Ezequias teve, sem dúvida, aspectos sociais. Uma volta ao
Javismo rigoroso teria necessariamente envolvido uma tentativa
de remover os abusos econômicos contra os quais Isaías e
Miquéias tinham-se insurgido. Sabemos (Jr 26,16-19; cf. Mq
3,12) que a pregação de Miquéias, que atacava em primeiro
lugar exatamente esses abusos, influenciaram Ezequias nos seus
esforços; e o fato de que Isaías, igualmente severo, estivesse
do lado de Ezequias, prova pelo menos que este rei não era
culpado de ser conivente com injustiças manifestas.

Não sabemos que medidas Ezequias deve ter tomado. O aparecimento, aproximadamente por essa épcca, de barcos
com o brasão real provavelmente indica alguma espécie de reforma fiscal ou administrativa, talvez uma tentativa por parte
do Estado de regularizar a coleta de impostos e de pôr fim à
desonestidade pela introdução de uma medida-padrão [9]. Talvez
este período também tenha sido testemunha da introdução de
um sistema de associações, modeladas de acordo com os padrões fenícios, tendo por finalidade proteger os artesãos dos
exploradores[10] -— embora não possamos dizer que papel o Estado jogou em tudo isso —, se é que teve algum. De qualquer
modo, a exploração não pôde mais continuar livremente. Estando a estrutura social de Judá ainda intacta, manteve-se uma
prosperidade geral relativa.

2. Ezequias e Senaquerib

Enquanto Sargão reinou, não houve nenhum rompimento
aberto com a Assíria. Mas quando o rei foi sucedido por seu
filho Senaquerib (704-681), um homem de muito menos
habilidade, Ezequias, pensando evidentemente que a ocasião
era propícia, recusou formalmente o tributo (2Rs 18,7) e
tomou providências para defender a sua independência.

a. O desencadeamento da rebelião. — Parecia que a situação podia oferecer esperanças de sucesso. Sargão morrera
durante uma de suas grandes campanhas, numa batalha que
redundou provavelmente em derrota séria para a Assíria, sendo
enterrado muito longe de sua pátria.

Assim que assumiu o trono, Senaquerib deparou-se com
uma rebelião em ambas as extremidades de seu reino. Na Babilônia, Marduk-Aplaiddin (Merodac-baladan), o príncipe caldeu que mantivera sua independência contra Sargão durante a
maior parte do reinado deste, restabeleceu-se como rei e, com
a ajuda elamita, estava desafiando os esforços assírios para
destroná-lo (somente em 702 é que o conseguiram).

Simultaneamente, a revolta fervia no oeste. Isto fazia parte
de um plano conjunto, pois sabemos que Merodac-baladan enviou
mensageiros a Ezequias (2Rs 20,12-19; Is 39), como sem dúvida o fizera com relação a outros reis, procurando obter
sua participação[11]. O Egito igualmente deveria dar seu apoio.
Agora governado pelo enérgico Shabako (aproximadamente
710/9 a 696/5) [12] o Egito parecia estar em melhores condições
do que antes para tornar efetiva sua ajuda. A medida que
a revolta se espalhava em toda parte, na Palestina e na Síria, formou-se uma coalizão considerável. O rei de Tiro era o chefe,
seguido também por outras cidades fenícias. Na Filistéia, embora Asdod e Gaza se mantivessem indiferentes, Ashkelon e
Ecron estavam profundamente empenhados [13].

Pode ser que Moab, Edom e Amon também tenham tomado parte, mas sem oferecer qualquer resistência quando Senaquerib atacou. Ezequias, embora nacionalista convicto e ardente, estava sob pressão, tanto da parte dos confederados
como da parte de certos nobres patriotas. Apesar das severas
admoestações de Isaías, que censurava toda aquela situação,
tachando-a de loucura e rebelião contra Iahweh, Ezequias tomou
parte na coalizão e enviou mensageiros ao Egito para negociar
um tratado (cf. Is 30,l-7;31,l-3). E, de fato, tornou-se um
dos chefes da revolta.

Como Senaquerib nos conta, Padi, rei de Ecron, que
havia permanecido leal à Assíria, foi entregue por seus súditos
a Ezequias e feito prisioneiro em Jerusalém. Se a passagem
de 2Rs 18,8 refere-se a este contexto, Ezequias também usou
da força contra as cidades relutantes dos filisteus, procurando
dominá-las[14]. Ezequias, naturalmente, sabia que Senaquerib não
iria deixar passar a oportunidade; então, no breve tempo que
tinha à sua disposição, procurou providenciar suas defesas
(2Cr 32,3-5) e conseguir abastecimento de água para o caso
de um cerco. Foi então que ele cavou o famoso aqueduto de
Siloé (2Rs 20,20; 2Cr 32,30), que trouxe as águas da fonte
de Gion, por debaixo da colina de Jerusalém, para um reser-
vatório na extremidade inferior da cidade[15]. A sorte tinha
sido lançada.

b. Campanha de Senaquerib em 701. — Em 701, com
a Babilônia momentaneamente pacificada, Senaquerib estava
livre para atacar. Temos conhecimento dessa campanha pela
narração de 2Rs 18,13-16 e da própria inscrição de Senaquerib, que a ratifica mas também a aumenta incomensuravelmente.
Deslocando-se para o sul, ao longo da costa, Senaquerib começou esmagando a resistência no reino de Tiro e substituindo seu
rei, que fugiu para Chipre, por um governador de sua própria
escolha. As invasões assírias, ocasionalmente, foram tão desas-
trosas para Tiro como para Israel. Tendo terminado o auge
de sua glória, ela foi substituída em importância comercial pelos
gregos e por algumas de suas próprias colônias, como Cartago.
Com a submissão de Tiro, a revolta começou a fracassar. Reis
de perto e de longe — Byblos, Arvad, Asdod, Moab, Edom,
Amon acorreram a Senaquerib com tributo.

No entanto, os Estados de Ashkelon e Ecron, juntamente
com Judá, ainda resistiam. Senaquerib marchou contra eles.
Primeiro, reduziu os territórios tributários de Ashkelon, perto
de Jope, e, em seguida, marchou para o sul, a fim de tratar
com Ecron — cujo rei, devemos nos recordar, estava prisioneiro em Jerusalém por ter-se recusado a cooperar. Um exército
egípcio que marchava em socorro de Ecron foi derrotado em
Eltekeh, perto de Ecron. Em seguida, . O morticínio deve ter sido horrível (Is 1.4-9). As escavações de Láquis, que Senaquerib assolou, revelam, juntamente com provas da destruição, uma enorme cova,
dentro da qual os despojos de uns mil e quinhentos corpos
foram lançados e cobertos com ossos de porco e outros entu-
lhos — provavelmente o lixo do exército assírio [16].

O caso de Ezequias era desesperador. Abandonado por
algumas de suas tropas[17] e instado pelo próprio Isaías a desistir (Is 1,5), ele mandou emissários a Senaquerib quando este
ainda estava cercando Láquis (2Rs 18,14), solicitando trégua.
Os termos da trégua foram severos. O rei de Ecron foi entregue e restabelecido em seu trono. Partes do territorio de Judá,
de dimensões incertas[18], foram divididas entre ele e os reis
leáis de Asdod e Gaza. Além disso, Senaquerib exigiu um tributo drasticamente alto, obrigando Ezequias a despojar o templo e os tesouros reais para levantar a quantia, que foi depois
enviado a Nínive, juntamente com outros presentes, incluindo
algumas das filhas de Ezequias como concubinas.

c. Os últimos dias de Ezequias. — Depois de 701, os
acontecimentos são incertos. Mas, uma vez que, como tentaremos mostrar no Apêndice I, a narrativa de 2Rs 18,17 a 19,37
e Is 36ss pouco se enquadra em 701, embora não deva ser considerada como lendária, é possível que tenha havido outra
rebelião e uma segunda invasão assíria, depois que Taraka
(2Rs 19,9) assumiu o poder no Egito (aproximadamente 690/
89).

As circunstâncias deveriam ter sido favoráveis. Depois de
sua campanha de 701, Senaquerib enfrentou uma emergência
contínua e cada vez maior na Babilônia. Quando o governador
lá instalado depois da expulsão de Merodac-baladan (Bel-ibni)
se rebelou (aproximadamente 700), Senaquerib substituiu-o por
seu filho Asshur-nadin-shum. Mas aproximadamente em 694/3
outra rebelião, encabeçada pelo rei de Elam, colocou o usurpador (Nergal-ushezib) no trono; o filho de Senaquerib foi preso
e depois morto. Este usurpador foi liquidado rapidamente, e
seguiu-se logo outro (Mushezib-Marduk). Toda a Babilônia
estava em rebelião declarada. E quando marchou para lá, a fim
de sufocá-la (691), Senaquerib teve de enfrentar uma coalizão de babilônios, elamitas e outros, sofrendo uma grave derrota.

Parecia que a Assíria estava perdendo o controle da situação. Exatamente nessa ocasião (690/89), o enérgico jovem Taraka tornou-se co-regente e governador real do Egito. É plenamente plausível supor que as notícias dos reveses assírios,
mais a promessa de ajuda por parte do Egito, tenham levado
Ezequias mais uma vez a rebelar-se. Naturalmente, não podemos
dizer se outros também estavam envolvidos. Se a passagem de
2Rs 18,8 refere-se a este acontecimento[19], é possível que Ezequias tenha se aproveitado da oportunidade para recuperar o
território que lhe fora tomado por Senaquerib.

Por um momento, Senaquerib nada pôde fazer. Mas, em
689, a rebelião na Babilônia foi dominada. A Babilônia foi
tomada e assolada, seus habitantes tratados com a maior
ferocidade, seus templos profanados e destruídos e a imagem de Marduk levada para a Assíria. Isto deixou Senaquerib
livre para voltar-se para o oeste, e é provável que ele o tenha
feito, aproximadamente em 688. Os acontecimentos narrados
em 2Rs 18,17 a 19,37 e Is 36ss adaptam-se mais a este
contexto.

Embora não tenhamos nenhum detalhe, parece (2Rs 18,
17;19,8) que Senaquerib apareceu mais uma vez na planície costeira e, como antes, começou a reduzir as fortalezas da fronteira de Judá (Láquis e Lebna), ao mesmo tempo em que
bloqueava mais uma vez Ezequias em Jerusalém.

Entretanto, Taraka (c. 19,9) estava marchando em socorro de Ezequias. Querendo resolver a situação de Judá antes de
enfrentar o faraó e sabendo que não havia tempo para vencer
Jerusalém pelo cerco e por assalto, mandou seu comandante
geral a Ezequias, exigindo capitulação [20]. Mas Ezequias, sabendo muito bem que a capitulação significaria o fim de
Judá e a deportação de seus habitantes (18,31ss), preferiu
morrer combatendo. Nisto, ele teve o apoio do ancião Isaías,
que, convencido agora de que a Assíria havia esgotado a paciência divina assegurava-lhe que Jerusalém nunca seria tomada
(2Rs 19,29-34; Is 14,24-27:17,12-14:31,4-9 etc.).

O resultado do encontro entre Senaquerib e Taraka é desconhecido. Provavelmente foi urna vitória assíria — e certamente o foi, se algo existe na tradição de Heródoto (II, 141)
no sentido de que os assírios fizeram pressão contra as fronteiras do Egito. Mas Jerusalém não foi tomada. Sugerem-se
duas explicações: que o exército de Senaquerib foi atacado
por uma epidemia (2Rs 19,35) e que chegaram notícias de
que sua presença era necessária na pátria (v. 7). As duas não
se excluem obrigatoriamente e ambas são plausíveis. A primeira
pode alegar o apoio um tanto duvidoso da tradição de Heródoto, que dá conta de que o exército assírio foi dizimado por
uma praga de ratos. Talvez a peste bubônica. De qualquer modo, deve-se supor alguma notável preservação׳, pelo menos em
virtude dos oráculos de Isaías, que prediziam que ela seria
preservada, e porque o que ocorreu serviu para fortalecer a fé
na inviolabilidade de Sião, até que nos últimos anos esta opinião tornou-se um dogma nacional fixo.

Mas, embora os assírios se retirassem deixando Jerusalém
intacta, Judá não era livre. O fato de Senaquerib não ter
voltado para vingar-se explica-se muito bem por ter Ezequias
morrido no ano seguinte (687/6). Seu filho Manasses, então,
desistiu da rebelião e fez as pazes. O golpe em favor da independência, que tão caro custara a Judá, havia fracassado.



[1] Veja acima c. 5, pp. 294-299. 

[1] Como a revolta, que durou 3 anos (Is 20,3), foi sufocada em
712 (ou 711); mas cf. H. Tadmor, in JCS, XII (1958), pp. 79-84, pelo
qual ela deve ter começado em 714/13. 


[2] Sobre os dificílimos problemas cronológicos deste período da
história do Egito, cf. especialmente Albright, in BASOR, 130, pp.
8-11; ibid., 141 (1956), pp. 23-26. 


[3] Esta data é agora preferida por Albright (ibid., p. 25), em-
bora geralmente se dê uma data perto de 720 (ou mais cedo); assim,
Albright anteriormente, seguindo E. Drioton e J. Vandier, L’Égypte,
in Les Peuples de VOrient mêditerranéen, Vol. II, Presses Uníversitaires
de France, Paris, 2? ed., 1946, pp. 512-521, 542ss. 


[4] Cf. Albright, ibid. The Shilheni, que deu cavalos de presente a
Sargão em 716, quando este marchou para o rio do Egito, toi prova-
velmente Osorcon IV, último rei da Vigésima Terceira Dinastia. O “fa-
raó” mencionado por Sargão em 715 foi provavelmente Bocchoris, da
Vigésima Quarta Dinastia; cf. Pritchard, in ANET, p. 286, para os
textos. 


[5] Apesar das dificuldades inerentes a esta interpretação (sobre a qual
veja os comentários), devo concordar com aqueles que vêem em Isaías
14,28-32 a resposta do profeta aos emissários filisteus nessa mesma época. 


[6] Provavelmente Piankhi, de acordo com a cronologia adotada acima; 


[7] Sobre possíveis aspectos políticos da reforma de Ezequias, cf.
E. Nicolson, in VT, XIII (1963), pp. 380-389; M. Weinfeld, in JNES,
XXIII (1964), pp. 202-212. 


[8] Cf. Albright, in JBL, LVIII (1939), p. 184ss. 


[9] As mais antigas delas datam provavelmente do reino de Ezequias.
Trazem a inscrição “do rei” (Imlk) e um nome de lugar (Hebron,
Ziph, Socoh ou mmst). A sua significação é discutida; cf. entre outros
D. Diringer, in BA, XII (1949), pp. 70-86; P. W. Lapp, in BASOR,
158 (1960), pp. 11-22; Y. Yadin, in BASOR, 163, (1961), pp. 6-12;
Aharoni, in LOB, pp. 340-346 (onde há mais literatura relacionada).
Cf. também A. D. Tushingham, in BASOR, 80 (1940), pp. 22-35. 


[10] Cf. Albright, in BP, pp. 75ss; I. Mendelson, in BASOR, 80 


[11] O incidente adapta-se muito bem aqui (cf. Noth, in Hl, p. 267;
Oesterley e Robinson History of Israel, Clarendon Press, Oxford,
1932, vol. I, p. 388), embora possa ser plausivelmente colocado em
714-712, quando Ashdod estava em plena revolta e a participação de
Ezequias era solicitada pelo Egito e por outros. 


[12] Novamente segundo a cronologia de Albright, in BASOR, 130
(1953), pp. 8-11. 


[13] O rei de Ecron foi leal, mas seus súditos o depuseram; veja
a inscrição de Senaquerib: Pritchard, in ANET, pp. 287ss. 


[14] Mas o versículo pode referir-se a um esforço posterior para
reconquistar o território perdido em 701; Cf. Kittel, in GVI, II, p. 391
(cf. adiante, p. 385). Veja H. L. Ginsberg, in Alex, Marx Jubilee
Volume, (Jewish Theological Seminary, 1950), pp. 348ss, para uma
discussão do assunto. 


[15] O túnel foi cavado a partir de ambas as extremidades e uma ins- 


[16] Para a descrição, cf. Wright, in BAR, pp. 167-171; idem, in
VT, V (1955), pp. 97-105, para a discussão sobre o problema estra-
tigráfico. Veja também os quadros de Senaquerib: Pritchard, in ANET,
placas 371-374. Dabir também revela uma destruição parcial neste pe-
ríodo. 


[17] Sf. Senaquerib. Isaías 22,2ss alude ao fato? 


[18] A expressão de Senaquerib é ambígua. Alguns (por exemplo, 


[19] Cf. Kittel, in GVI, II, p. 391; mas cf. 283 e a nota 47 acima. 


[20] Se Senaquerib se dirigiu uma ou duas vezes a Ezequias para que
ele se rendesse, isto depende de se considerar 2Rs 18,17 a 19,8 (9a),
36ss e 19,9 (9b) — 35 como narrativas paralelas ou utna narração
contínua. A questão não tem tanto interesse para o quadro total.






Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.