24 de julho de 2016

GERARD Van GRONINGEN - O Messias no Livro de Isaías : o Filho que Governa

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O Messias no Livro de Isaías, 2: o Filho que Governa 

O s títulos dados por vários autores aos temas do governante prometido (Is. 9.2-7 [TM 9.1-6]) e do renovo de Jessé (11.1-16) refletem uma compreensão clara e definida de seu caráter messiânico; por exemplo: o Messias-Rei na profecia de Isaías,[1] a realeza messiânica,[2] [3] o Príncipe da Paz e o reino davídico. Essas passagens, realmente, apresentam e revelação contínua por parte de Yahwéh do mediador messiânico, representado e tipificado no tempo de Isaías pela casa de Davi. Tanto o ponto de vista mais estrito do conceito messiânico, isto é, o que se refere à pessoa régia, quanto o ponto de vista mais amplo, referente à obra dessa pessoa régia e seus resultados, estão aí elaborados. 

O Governo do Rei Prometido (Is 9.2-7) 

Contexto Histórico 

O contexto histórico de Isaías 9 e 11 é o mesmo de Isaías 7. As ameaças e ataques da Síria e de Israel, o temor e a incerteza de Acaz e sua intenção de buscar ajuda militar de Assíria são os principais fatores. Depois de profetizar a respeito do filho da virgem, da devastação de Aram e Israel, e da Assíria como instrumento do julgamento de Yahwéh, ele expõe minuciosamente o que a Assíria vai fazer e como sua ação afetará Judá (7.18-8.10). A Assíria será como uma navalha e Judá voltará a um tipo de vida nômade (w. 18-25). Enquanto isso, Isaías escreverá um documento legal que será um testemunho das adver­tências concernentes à Assíria (8.1,2). Ele se casa de novo e dá a seu filho o nome de Maher-shalal hashbaA como testemunho adicional da veracidade de sua profecia. Ele vai adiante e profetiza como Judá será subjugado, mas Yahwéh não abandonará seu povo; Isaías repete duas vezes essa certeza (8.8,10). Ele dá expressão à fé pactual, como Acaz foi chamado a fazer mas não o fez, porém a virgem fez, ao dar a seu filho o nome de Imanuel (7.14). 

Yahwéh dirige-se a Isaías pessoalmente, advertindo-o a não seguir a casa real ou o povo, mas a olhar para Ele, o Todo-poderoso e santo Deus, única fonte de segurança (8.11-15). Isaías responde; ele dará um testemunho seguro a seus discípulos e continuará a esperar e confiar em Yahwéh (8.16,17). Ele e seus filhos continuarão a servir como sinais e símbolos para o povo, a fim de proclamar a verdade da palavra de Y ahwéh e a certeza de seu futuro julgamen­to. O povo não deve consultar os agentes das trevas (médiuns, espíritos), mas deve voltar-se para Yahwéh que trará luz entre as trevas de devastação que serão lançadas sobre ele (w. 18-23). 

Nesse claro contexto, a casa de Davi permanece como o tema básico subjacente. O papel de Isaías como profeta, seus filhos, seus escritos e a palavra de Yahwéh anunciada anteriormente (a lei mosaica e seus testemunhos) são postos como fontes confiáveis da verdade. O papel da Assíria como instru­mento de juízo, e não como um auxílio para a casa de Davi e o povo de Judá, é repetido com clareza e vigor. A triste condição do povo do pacto, subjugado por opressão militar, política e social, é referida como angústia, temível escu­ridão e trevas profundas (8.22). Essas trevas serão experimentadas inicialmente pelas tribos do norte, aquelas que se situam nas fronteiras de Tiro e Aram. Mas Yahwéh não esquecerá seu povo que habita ao longo da costa do Mediterrâneo, do mar da Galiléia e das margens do Jordão superior. Nessas trevas a luz virá. 

A utenticidade 

Isaías profetiza acerca de numerosos fatos importantes e de longo alcance, referentes ao Messias (Is 9.2-7 [TM 9.1-6]).[4] [5] Isso tem dado aos estudiosos razão para considerar a autenticidade do texto bíblico. Vários comentários têm sido feitos relativamente à idéia de uma pessoa, humano-divina.[6] Terá essa noção sido derivada de fontes pagãs? Esta questão, entretanto, não se reflete no caráter genuíno do texto. Alguns eruditos sugerem umas poucas emendas menõres, mas estas também não militam contra a autenticidade do texto. Deve-se à ação de editores posteriores o fato de os versículos terem, na tradução, numeração diferente da Bíblia hebraica.[7] Que o profeta mude, diri­gindo-se ao povo (v. 2 [TM 1]), em seguida a Deus (v. 3 [TM 2]), e novamente ao povo (v. 6 [TM 5]), é prática bastante comum entre os profetas maiores (cf. também Is 45.15).[8]

Exegese 

9.2 (TM 9.1). HTãm (o povo) é usado para referir-se ao povo do pacto de Yahwéh, os filhos de Jacó, os descendentes de Abraão, sob o governo da casa davídica. As tribos que tinham rompido com a casa davídica continuam a ser citadas como Israel; eram filhos de Jacó (cf. Gn 32.28), considerados como povo do pacto de Yahwéh, a despeito de sua separação e desobediência religiosa e social. O termo hã'ãm em nosso texto (9.2 [TM 9.1]) refere-se especialmente às tribos de Zebulom e Naftali, na parte setentrional de Canaã (Is 9.1 [TM 8.23]), que experimentaram as angústias iniciais e constantes dos ataques assírios e das pilhagens que fizeram em seus territórios conquistados. As frases paralelas que se seguem apontam para o povo subjugado. Eles estão andando em trevas. A forma participial de hãlak (andar) indica uma condição contínua. A frase "os que habitam" (yõSèbê) dá ênfase adicional à situação do povo conquistado, saqueado e oprimido. E os termos "trevas" e "sombra da morte" são descrições adequadas das condições da terra e do ambiente do povo. Sua separação da casa de Davi não lhes tinha sido vantajosa; na realidade, por ter Acaz buscado a ajuda militar e política da Assíria, essas regiões setentrionais estavam agora em cativeiro, sob opressão e humilhadas. Sua situação política e condições sociais parecem inteiramente desesperadoras. Trevas e morte são a sua heran­ça, principalmente por causa de um representante rebelde da casa de Davi. 

Entretanto,o povo em desespero recebe uma grande esperança: rã’ü rôr gãdôl (viram uma grande luz). O verbo, um perfeito, como os verbos que se seguem, expressa certeza profética. A visão da luz é certa, ainda que os plenos efeitos dessa luz não sejam ainda percebidos. A luz é brilhante e intensa, penetrando até mesmo nos cantos escondidos. O paralelo explicativo afirma que a luz brilha (nãgah) sobre o povo. A incandescência visível é uma luz brilhante real, resplandecendo em suas trevas e iluminando tudo o que o rodeia. As trevas e a morte trazidas pelos assírios não vão durar. Há esperança, há alívio, há um novo dia; a luz já está brilhando e o povo a viu. 

9.3. (TM 9.2). HLrbUã haggôy (fizeste a nação crescer). Isaías dirige-se a Yahwéh, reconhecendo seu domínio soberano sobre as gentes e nações. O povo do pacto é aqui considerado uma nação (gôy); a ênfase é sobre o povo como entidade política organizada, reconhecida, em crescimento. Isaías não diz em que sentido a nação está crescendo: numericamente? em força militar? em estabilidade política? O contexto seguinte sugere que o crescimento é em todas as áreas ou aspectos de sua vida. Um povo dizimado pela ação militar da Assíria é visto como uma nação em crescimento e um povo que se regozija sob uma luz brilhante. 

Lo’ higêdaltã haééimhâ (realmente, aumentaste sua alegria). A primeira palavra hebraica, lü’, tem provocado muita discussão. Em geral, ela tem o sentido de não. Mas pode também significar uma afirmação enfática. Assim, juntamente com a luz e o crescimento, vem a alegria.[9] Desespero, tristeza e dor são substituídos por alegria, júbilo e felicidade. Essa alegria, diz Isaías, é "diante" de Yahwéh. É como a alegria do povo que teve uma colheita abun­dante e alcançou uma grande vitória militar, da qual resultou um enorme despojo a ser partilhado por todo o povo. Isaías proclama um agudo contraste em relação ao que Acaz, a casa real de Davi, e aquelas pessoas que confiam no auxílio da Assíria podem esperar. A Assíria causará trevas e morte ao subjugar o povo; Acaz, não obstante, brilhará; o povo do pacto, mesmo aquele das regiões mais setentrionais, estará na luz, crescerá e se regozijará no meio de suas bênçãos. Isaías prossegue explicando como isso acontecerá. 

9.4 (TM9.3). M (porque) deve ser compreendido adequadamente. O texto hebraico tem uma linha vertical seguindo-se ao termo, acentuando assim sua importante função. O povo, vendo a luz, experimentando crescimento, e regozijando-se pela generosidade de Deus, pode fazer isso por causa da fidelidade de Yahwéh. Ele exerce sua autoridade soberana sobre todas as gentes e nações. O termo hebraico usado aqui para "quebraste" é hahittõtã (hiphil, "tu tens quebrado completamente".[10] São usadas três metáforas, cada uma delas trazendo uma clara reminiscência da opressão do Egito sobre os israelitas escravizados. A Assíria também imporá seu pesado jugo de servidão. Esse fardo doloroso (imagem do trabalho pesado do escravo); a vara que lhes feria os ombros (uma vara atravessada sobre os ombros, com um peso penden­te de cada extremidade, fazendo-a pressionar fortemente a carne e os ossos da espádua); e a vara do opressor (imagem do condutor de escravos empunhando uma vara ou açoite) — todos esses serão completamente destruídos. Isaías proclama liberdade nas áreas do trabalho, comércio e indústria; liberdade no campo social será dada por aquele que quebra os instrumentos do opressor. Isaías referiu-se antes àquele que multiplicaria o povo e lhe daria alegria. Ele não dá o nome dessa pessoa, embora o identifique estritamente com a grande luz. Antes de informar sua identidade, Isaías proclama como, por meio das atividades dele, o povo do pacto será abençoado. 

Isaías conhece a história de Israel. Por duas vezes refere-se à vitória espeta­cular de Gideão sobre os midianitas (9.4,10.26). Gideão empregou a tática da surpresa, sob as ordens de Yahwéh, ao lançar seu ataque inicial, atirando assim os opressores midianitas uns contra os outros. A seguir perseguiu-os, captu­rou-os e executou seus comandantes. O poder dos midianitas foi quebrado para sempre (Jz 7.14-8.12).[11] Uma libertação vitoriosa de seus atuais inimigos é garantida ao povo do pacto. 

9.5 (TM9.4). K (porque) requer atenção. O versículo anterior, como este e os seguintes, começa com ki (porque). Joseph A. Alexander[12] e Edward J. Young[13] consideram que esses versículos são paralelos; isso sugere que três razões distintas são apresentadas para regozijo. Delitzsch, entretanto, encara a destruição militar como um meio pelo qual a opressão social é quebrada.[14] Deve-se preferir a explicação de Delitzsch. O grande rei proclamado em 9.6 (TM 9.5) é a razão da vitória, que, por sua vez, é a razão da libertação, e, de novo, a causa de regozijo. Tal foi o caso no tempo de Gideão; quando ele respondeu ao chamado de Deus para guiar o povo, uma grande vitória foi alcançada e Israel recuperou a liberdade e a alegria. O próprio contexto também apóia essa preferência: Isaías assegura a Acaz que aquelas nações que ele teme serão derrotadas militarmente e que qualquer ameaça que elas repre­sentem à liberdade do povo será removida. Gramaticalmente é mais apropria­do considerar o seu contexto imediatamente precedente como ponto de refe­rência e não um contexto mais removido. Além disso, os Massoretas leram o texto dessa forma, porque destacaram apenas a primeira conjunção ki com um traço vertical, indicando que as outras conjunções seguintes não eram paralelas a essa. Finalmente, considerar as cláusulas movendo-se para um clímax, em vez de paralelas, traz ao pensamento o governo completo do grande rei sobre todos os aspectos da vida. Ele é o senhor dos aspectos militares, políticos, industriais e comerciais da vida, e guia e dirige todos esses atos de tal maneira que cada qual é parte integrante de toda a vida.[15]

O versículo 5 (TM 4) tem uma larga quantidade de termos hebraicos não muito comuns. Os comentadores sugerem várias possibilidades. O equipa­mento pessoal dos soldados inimigos derrotados, isto é, suas botas e roupas de cima, todas manchadas de sangue e sujas de pó, é destinado ao fogo. O inimigo é descrito como totalmente derrotado e completamente desarmado. Visuali­za-se plena, completa e perfeita paz. E em que base essa anunciada paz pode ser esperada? O versículo 6 (TM 5), iniciado pela conjunção ki, dá a resposta. 

9.6 (TM 9.5). M-yeled yullad-lãnü (porque um menino nos nasceu). A construção da frase hebraica deixa claro que a criança (filho, menino, jovem são traduções possíveis) é o tema principal e o centro da atenção. Isso traz à mente as anteriores palavras de Isaías a Acaz: a virgem ficaria grávida e daria à luz um filho (Is 7.14). Essa criança deve novamente ser considerada de vital importância para Acaz, para a casa davídica e para o povo como nação. Yullad, pual de yãlad, é voz passiva; assim, o nascimento em si não recebe aqui indevi­da atenção: antes, a atenção dirige-se agora ao que se segue: lãnü (a nós). Isaías, que se dirigira a Yahwéh em 9.3 (TM 9.2), agora identifica-se com a audiência à qual ele se dirigira antes de suas palavras a Deus. Essa criança nasceria em benefício do povo. Isso é apoiado pela frase paralela bên ntttan-lãnü (um filho foi dado a nós). Mais uma vez a construção dá ênfase ao filho, à criança. A for­ma niphal de nãtan (dar) deve ser tomada aqui como passiva; assim, o filho é um dom dado em favor, em benefício e para proveito de "nós", o povo. Acaz, da casa davídica, deverá compreender que uma criança ou filho, nascido den­tro da família real que ele representa, é também nascido e dado em seu benefí­cio. A semente real deve ainda ser considerada a chave para a paz, liberdade, alegria, crescimento e luz do povo do pacto. A Assíria, à qual Acaz havia ape­lado por auxílio, seria a causa e a fonte de trevas e de morte. Mas por meio da casa davídica, ou da família real, que Acaz representa, Yahwéh está trazendo tudo o que Acaz estava buscando, e ainda mais. Acaz, entretanto, não prestaria a devida atenção à mensagem divina; ele não serviria como vice-regente de Yahwéh. Apesar disso, Yahwéh continuaria a realizar seu plano por meio da casa davídica. E Isaías continuaria a trazer a mensagem a Acaz e ao povo. 

Wattèhi hammiérâ 'al-Sikmô (e o domínio estará sobre seu ombro). O termo miérâ tem alguns cognatos, tais como áar, "chefe", "governador" ou "príncipe", e éãrâ, uma forma feminina para designar princesa, ou uma senhora nobre (a esposa de Abraão tinha esse nome; cf. Gn 17.15). A raiz verbal não é conhecida; um verbo derivado do substantivo hebraico éãrâ significa ser ou agir como um príncipe, governar. Esse termo pouco usual, como será destacado mais tarde, refere-se a principado ou realeza, que são conhecidos pelo exercício da autoridade plena do mais alto regente no mundo. Essa criança, ou filho, terá a responsabilidade completa da casa real. Acaz pode recusar; Yahwéh realizará seu intento para a casa real. A criança, ou filho, de caráter principesco e de responsabilidades régias, é mais plenamente identifi­cado. 

Wayíqrã’ Sèmô (e seu nome se chamará). O nome que a virgem deu, Imanuel (Is 7.14) não é repetido, mas o caráter divino da criança é referido mais diretamente. Alguns fatos chamam a atenção. O vav consecutivo na forma qal de qãrãm (chamar) evidencia que o(s) nome(s) do filho está estreitamente identificado com seu caráter e responsabilidades reais. O termo Sêm (nome) indica o caráter e a natureza dessa criança. E embora Isaías não diga quem havia de dar esse(s) nome(s), a criança ou filho será conhecido, designado e chamado por seu(s) nome(s). A fonte do nome é de menor importância, comparada com o fato de que o filho realmente possui as qualidades, aptidões e identidade expressas pelo(s) nome(s). 

O termo Sèmô (seu nome) está no singular; entretanto, oito termos hebraicos são usados para esclarecer essa maravilhosa designação. Tem havido extensa discussão na busca das várias possíveis traduções de cada um deles.[16] [17] Deve­riam os oito epítetos ser ligados como um só nome?[18] Ou deveriam os nomes ser arranjados de modo a formar uma sentença?[19] Ou são quatro nomes em vez de oito?[20] Ou são seis?[21] Em vista da maneira como o Texto Massorético apresenta o material, e considerando que os últimos dois nomes consistem obviamente de dois termos cada um, e dada a simetria do texto, parece correto concluir que há quatro nomes. 

Pele’ yô'ês (maravilhoso conselheiro — NIV mg, KJV "Maravilhoso, Conselheiro"). O primeiro termo é um substantivo que designa alguma coisa desual ou extraordinária, muito difícil de entender, uma extraordinária mara­vilha no sentido de um milagre. Quando tomado como verbo expressa a natureza extraordinária do evento, isto é, o maravilhoso e miraculoso. Isaías usa esse termo em outros contextos, por exemplo, como uma expressão de louvor: "Tens feito coisas maravilhosas" (25.1 RSV). Ele pode estar citando o Cântico de Moisés, em que o grande, miraculoso livramento de Israel do Egito é referido como atos maravilhosos (Ex 15.11). Apontando para as coisas maravilhosas que ocorrem na própria natureza e na vida, Isaías observa que todas essas coisas vêm de Yahwéh, o soberano que é "maravilhoso em conselho"[22] e "magnífico em sabedoria" (Is 28.29 NIV). Isaías usa o termo três vezes para expressar como Yahwéh deixará as pessoas atônitas com suas maravilhas (29.14). No Êxodo o anjo de Yahwéh refere-se a si mesmo como "meu anjo" (imaVãki, Êx 23.23; 32.34), ou o mensageiro divino, que tem o nome "maravi­lhoso". O próprio contexto bíblico apóia a idéia de que aqui se fala dessa característica de Yahwéh: a maravilha divina, ou o divinamente maravilhoso. 

O termo pele.’ modifica o termo que se segue. Alexander não pensa assim,[23] mas Young corretamente assinala que o particípio hebraico yô'ês é um genitivo usado em aposição apele’?[24] O termo traduzido "conselheiro" sugere sabedoria (cf. Is 28.29). A criança ou filho, tendo o nome de Maravilha de um Conselheiro, ou Maravilhoso Conselheiro, caracteriza-se pela capacidade maravilhosa de aplicar a sabedoria; ao falar da sabedoria de Yahwéh, ela revelará que é maravilhosa, uma operadora de maravilhas. O primeiro nome obviamente expressa a natureza divina e a capacidade do filho a nascer em benefício do povo de Yahwéh. Esse nome, devemos lembrar, é dado para indicar que o filho será qualificado para cumprir suas responsabilidades e deveres régios. Salo­mão, o filho de Davi e representante do reino de Yahwéh, recebeu esse dom e deu-lhe expressão única.[25]

’El gibbôr (Deus de poder ou poderoso Deus). Esta frase tem grande peso na identificação do filho. Sua humanidade não é contestada. É ele, porém, divino? É ele realmente Deus? Os dois termos hebraicos empregados têm vários significados. ’El[26] significa forte ou poderoso e é aplicado a homens de posição ou influência, mas é usado mais freqüentemente para designar a deidade, tanto em referência a Yahwéh, o Deus de Israel, quanto aos deuses e ídolos dos adoradores pagãos. Moisés escrevera hã’el hciggãdôl, o "Deus grande" (Dt 10.17), e, de modo semelhante, Jeremias (Jr 32.18). Em Gn 35.1,3 hã’êl refere-se ao verdadeiro Deus de Jacó, distinto dos deuses estranhos, ídolos sem vida que a família de Jacó tinha tirado de Aram. Isaías usa o termo para apontar para Yahwéh quando fala de um remanescente de Jacó retoman­do ’el-’êl gibbôr (para o Deus poderoso, Is 10.21). Como a frase é assim usada por Isaías em outro contexto (cap. 10), pode-se admitir que não haveria esforço para interpretá-la diferentemente aqui (cap. 9). Tal não é o caso, porém. George Gray, recusando-se a aceitar a frase como referente a um "poderoso herói", como vários eruditos traduzem, escreve que a implicação é que o Messias "será uma espécie de semideus". Como, porém, não há no Velho Testamento nenhu­ma outra referência desse tipo, Gray refere-se ao Messias sobre quem o Espírito de Deus permanece e opera "como o próprio Deus poderoso".[27] R. B. Y. Scott dá a essa frase o significado de "divino em poder"; ele evidentemente sugere que o filho não seria divino de natureza.[28] George A. Smith escreve que em nenhum lugar é afirmado dogmaticamente que o filho (ou Messias) é divino; ao contrário, não é dito que ele é, mas antes que é chamado divino.[29] Vários comentários referem-se a autores que tentam retirar qualquer conceito de divindade do filho desse texto, e que afirmam, forte e corretamente, que a única interpretação aceitável é que a criança, ou filho, é divino; é chamada assim porque ela é assim.[30] O que está implícito no primeiro nome é afirmado explicitamente no segundo. O terceiro nome dá apoio adicional, isto é, que a criança ou o filho que vai nascer de uma determinada mãe humana é divino. 

O terceiro epíteto é ’àbi-ad (pai da eternidade ou pai eterno). O termo 'ad é um substantivo derivado da raiz verbal 'ãdâ que quer dizer passar adiante ou avançar. A referência básica do conceito é ao tempo,[31], passado ou futuro, e é usado para referir-se a uma existência contínua; Isaías usa-o dessa maneira em 26.4; 47.7; 65.18. A palavra é usada para referisse à existência contínua de Yahwéh (Is 57.15; 64.8). Isaías usa-a como paralelo para o termo hebraico 'ôlãm (por todas as eras, eterno; Is 36.8; 45.7; 57.17; cf. também Êxl5.14; SI 9.6; 119.44; 145.1,2,21; Mq 45). Devemos concluir que a força do termo aqui é a de permanente, eterno. O termo pai é usado para referisse a Yahwéh em relação a seu povo. Ele o traz à existência; Ele o ama, provê para ele e protege-o. Yahwéh nunca cessa de ser a sua segurança. O conceito da paternidade eterna é atribuído à criança, ou filho: Ele é pai e como tal é possuidor da eternidade. Uma de suas virtudes é ser eterno. Ele é o mesmo que Yahwéh para o povo do pacto. Deve ser lembrado que no contexto mais amplo a mensagem é dirigida à casa de Davi. Davi e todos os seus descendentes reinantes representam Yahwéh, o pai real; como reis eles devem demonstrar a paternidade de Yah­wéh. Acaz falhou em fazê-lo; Isaías incisivamente lembra a ele e ao povo que a intenção de Yahwéh para seu vice-regente e suas expectativas em relação a ele permanecem as mesmas. 

O título áar, equivalente ao termo assírio saru, refere-se não somente a um descendente real mas a alguém que tem o caráter da realeza e a autoridade para governar. Ser um príncipe, então, é ser um governante; na realidade, um rei. O epíteto príncipe destaca a autoridade e o poder político e militar que um governante exerce. O filho que vai nascer é considerado um verdadeiro des­cendente de Davi e Salomão, qualificado e capaz de realizar o que foi prome­tido umas poucas linhas acima (9.4,5 [TM 93,4]). O termo Sãlôm significa basicamente integridade, ausência de fraturas, de destruição e de desintegra­ção. Indica o desaparecimento da servidão política, da opressão militar e da privação econômica. Refere-se à presença da liberdade e uma integração da vida. Fala do contentamento do coração e do descanso no conhecimento da segurança. Exprime confiança para o presente e para o futuro. A criança ou filho, como Príncipe da Paz, será a encarnação da paz, de modo que, ao ele vir, a paz virá; e quando ele reinar etemamente, a paz estará presente para sempre, para todos os tempos e épocas. Salomão, como o sábio conselheiro, foi também um rei de paz, enquanto permaneceu obediente a Yahwéh (cf. SI 72.2-7,17). Acaz foi chamado para ser a incorporação da paz enquanto reinasse; mas ele, um governante trêmulo e agitado, buscando a ajuda da incompassiva Assíria, foi exatamente o oposto. Mas a intenção de Yahwéh e seu plano para a casa davídica e seus descendentes não foram alterados. Um filho nasceria para dai' plena realização às promessas pactuais de Yahwéh e aos seus planos. 

Os nomes pelos quais o filho será chamado ou conhecido, ou que expressam sua natureza e caráter, refletem uma ampla variedade de atributos e posições. Dois desses atributos destacam-se. Reinado, realeza, ou caráter real, é expresso nos nomes e no contexto da passagem. O filho régio é tanto humano quanto divino. Alguns especialistas têm notado que isto se expressa em cada um dos quatro pares de termos. Os primeiros termos {maravilha e Deus) nos primeiros dois nomes expressam deidade; os dois últimos {conselheiros forte) expressam humanidade. Os primeiros termos {pai e príncipe) nos dois últimos nomes expressam humanidade, enquanto que os dois últimos {eternidade e paz) expressam deidade.[32] A criança ou filho a nascer é humano; aquele que é dado é divino. Isaías assim profetiza a respeito do Messias, que é tanto humano quanto divino.[33]

9.7 (TM 9.6). O reinado, ou governo, e a paz referidos no versículo anterior são novamente citados por Isaías: lémarbeh ’ên-qés[34] (à grandeza...nenhum fim). O substantivo grandeza é derivado do verbo rãbâ (tomar-se muitos, abundante, grande). Embora o termo incremento tenha várias traduções (KJV, NIV e RSV), deve ser preferido o termo grandeza: (1) Reflete melhor o sentido do hiphil — fazer ser muito, e, portanto, grande; embora o hiphil possa algumas vezes ser traduzido "incrementar", e em alguns casos seja mesmo preferível, neste contexto "incremento" sugeriria um reino em expansão con­tínua, o que não é o que Isaías diz quando se refere à constante grandeza do domínio. (2) Esta é uma forma peculiar do construto, portanto, "grandeza de" é melhor leitura. (3) Em Is 33.23 o termo aparece novamente como grandeza (RSV, NIV "abundância"). (4) O próprio contexto sugere essa preferência. Acaz esperava segurança do grande império assírio, que ele supunha garantir a continuidade do seu trono. É-lhe dito, entretanto, que o reino da paz, sobre o qual reinará o Filho de Davi, é ainda maior. Essa grandeza não acabará nunca; não haverá fim para ela. Como o Filho é eterno quanto ao seu caráter, assim também seu reino e sua paz serão eternos. As ameaças dos reis de Aram e Israel, portanto, não podiam e não deviam ser levadas a sério. 

Al-Kissê’ dãwid wè'al-mamlakíô (sobre o trono de Davi e sobre o seu reino).[35] O governo e sua paz sem fim são melhor identificados e especificados. A referência ao trono de Davi traz à lembrança a promessa pactual de Yahwéh a Davi (2 Sm 7.11), particularmente as frases "o trono de seu reino" (2 Sm 7.13) e "teu reino durará para sempre diante de mim; teu trono será estabelecido para sempre" (v. 16 RSV). É o trono de Davi, a sede da dignidade, do poder e da soberania reais, que é identificado com o do Filho. É o reino sobre o qual Davi, Salomão e seus descendentes reinam que é especificado como reino do Filho. Esse reino que se estende para os quatro pontos cardeais (cf. SI 72.8) é a prefiguração e o predecessor do trono e do reino do descendente real de Davi. O trono terreno e o reino de Davi são, assim, a manifestação inicial do reino eterno e glorioso, com seu trono da Criança que nascerá na casa davídica. A Criança ou o Filho, tendo os nomes, isto é, aquelas características e virtudes enumeradas, será ela própria a razão subjacente para a grandeza e a duração eterna do reino. Esse reino e seu trono são descritos por Isaías de maneira peculiar. 

O primeiro termo hebraico, o hiphil de kãn (estar firme, ser estabelecido ou fixado), acentua o ato real de firmar e estabelecer. O termo seguinte, ’õtãh, refere-se ao reino com seu trono. O terceiro termo, o qal sã'ad, significa apoiar e/ou sustentar (como o alimento sustenta uma pessoa). A tradução usual da preposição hebraica lè prefixada aos dois verbos hebraicos é jvara. O primeiro pensamento que a preposição para traz à mente é "para o propósito de". Esse, entretanto, não é o sentido aqui. Antes, a resposta à pergunta sobre por que o reino do Filho de Davi, com seu trono, paz, grandeza, há de durar para sempre, é que ele foi estabelecido e é sustentado segundo o caráter, a vontade e a preordenação de Yahwéh. Portanto, é correto ler a preposição lè como "por" ou "por causa de" seu estabelecimento e sustentação em justiça e retidão. Esse reino tem começo, fundação e caráter próprios. De várias maneiras, durante os primeiros anos da realeza de Salomão, quando ele exerceu sabedoria e reinou justa e retamente, foi dada expressão inicial ao reino eterno do Filho. O reino de Davi e de Salomão, que o trono de Acaz também representa, chegará à sua própria, plena e final expressão com o nascimento e a dádiva da Criança ou do Filho, nascido da virgem e chamado Imanuel. 

Os termos bèmiSpãf übisdãqâ (em justiça e retidão) requerem uma expli­cação.[36] Um exame do uso de miSpctt (justiça) no Velho Testamento deixa claro que ele é usado para referir-se a: (1) julgamento, como, por exemplo, o ato de decidir uma causa, o processo ou procedimento, e a decisão ou sentença; (2) o caráter de um juiz, seja Deus ou um ser humano. Ambos os usos implicam a presença de leis, padrões e sentenças ou decisões já estabelecidas e à luz das quais os julgamentos são processados e decididos. A maneira como um juiz realiza seu trabalho, com base em leis ratificadas, determina se ele é justo; ele será justo se funcionar de acordo com as leis; será injusto se assim não o faz. 

O termo sèdãqâ, "retidão", parece ser um termo menos claro. Ele implica a presença de leis e padrões e pode ser considerado um sinônimo de justiça em vários contextos. Há, entretanto, uma diferença importante; "retidão" dá ênfa­se a atitudes e relações exigidas por Yahwéh, que revelou as leis e estabeleceu os padrões. Quando se diz que Deus é reto, a referência é basicamente à sua atitude e relação consigo mesmo como o Legislador e as leis que Ele revelou (por exemplo, a lei mosaica). Ele sempre as há como considerar corretas; elas são certas para todas as situações. Ele sustentará essas leis e padrões e conservá-los-á preciosos e invioláveis. Sua atitude para com todas as situações, acontecimentos e pessoas será determinada pela sua lei moral revelada. Essa abordagem, por sua vez, guiará a relação que é estabelecida e mantida para as situações, acontecimentos e pessoas. Como Deus é reto, assim o povo é chama­do a ser reto, isto é, a ter uma atitude de obediência amorosa à vontade revelada de Deus em todas as circunstâncias. Como nenhum ser humano pode fazer isso, somente Deus pode ser reto e declarar e fazer pessoas retas.[37]

Isaías afirma que o governo e a paz da Criança/Filho serão grandes e duradouros porque foram estabelecidos e apoiados de acordo com a vontade revelada (lei) de Yahwéh; o rei funcionará de acordo com essa vontade, tendo a atitude própria para com essa vontade ou lei revelada. Sobre o Monte Sião, onde está o trono de Davi, sobre o qual o Rei se assenta e de onde exerce sua autoridade real, seu poder e soberania, a vontade de Yahwéh será conhecida, amada, executada e posta a governar todos os povos, acontecimentos e circuns­tâncias. Seu reino será uma expressão perfeita da vontade de Yahwéh. 

Acaz tinha a responsabilidade de servir como um rei desse tipo na tradição dinástica de Davi. Devia tomar por modelo o reino de Yahwéh, reinando com justiça e retidão e, assim, dando-lhe estabilidade e duração. Acaz, entretanto, falhou miseravelmente. Não olhou para Yahwéh com fé e confiança; não considerou a vontade revelada de Yahwéh como o padrão e guia para si mesmo e para seus súditos, cujos erros ele devia corrigir. Ele olhou antes para as demais nações vizinhas e desejou o apoio e poder que supunha que as potências militares ofereciam. Yahwéh, porém, não foi frustrado. Seu Filho levaria adiante a sua vontade por todos os tempos: m&attá wè'ad-ôlãm (de agora e por todas as eras). Afirma-se o período de tempo para esse reino de paz justo, reto e douradouro. Ele está presente quando Isaías fala e continuará sem fim. A frase não permite estabelecer um limite de duração do reinado do Filho.[38] Acaz tinha de compreender que ele, então e naquele lugar, era parte do plano infinito de Yahwéh. Era o responsável em representar o reinado sem fim do Filho de Davi. 

A seguir vem a sentença familiar: qin’at yhvoh sèbã‘ôt ta!àéeh-zõ’t (o zelo de Yahwéh dos exércitos fará isso). Somente Yahwéh pode estabelecer e manter o reino do Filho para sempre. Ele promulgará suas leis justas; ele praticará tudo o que é requerido. Ele pode fazê-lo porque: (1) ele é o Senhor dos exércitos,[39] o soberano absoluto sobre o cosmos inteiro — sobre todo e cada aspecto, e (2) ele tem também o desejo de fazê-lo. O termo hebraico qin’â tem o significado de ardor ou zelo. Pode também significar ciúme (Ec 4.4; Is 11.13).[40] O conceito de amor está contido no termo. O amor de Yahwéh pelo que ele quer e que começou a realizar não diminuirá. Ao conrário, permanecerá forte e duradou­ro. Esse amor prova ser a motivação de seu zelo em implementar seus propó­sitos. 

Uma análise da passagem de uma perspectiva temática, estrutural, põe em relevo cinco principais conceitos da mensagem que Isaías proclama. 

O opressor, que trouxe trevas, morte pelo poder militar e dura escravidão, foi vencido. O povo do pacto, que andava e vivia em trevas, foi libertado e engrandecido; teve grande alegria; recebeu um grande libertador e rei; e é participante do reino. 

A luz brilhando nas trevas traz vitória e liberdade. A luz é uma Criança ou Filho nascido e dado ao povo do pacto. Ele é uma pessoa absolutamente incomum, como seus nomes indicam: ele é o Rei. 

O reino do rei é fundado e sustentado em justiça e retidão; ele é um reino de paz e permanência. 

Yahwéh, o fiel Senhor do pacto, é quem capacitará seu povo a crescer, quem lhe deu alegria, quem fez a luz brilhar por meio da dádiva do Filho. Ele o fez por causa de seu zelo, isto é, seu grande amor por seu povo, que sempre o motiva a preservar fielmente e abençoar seu povo. 

Aspectos Messiânicos e Escatológicos 

Estes notabilíssimos sete versículos podem ser considerados uma passagem fundamental na revelação do conceito messiânico no Velho Testamento. São cruciais na profecia de Isaías; expandem o que Isaías já proclamara e estabele­cem a agenda para as profecias messiânicas posteriores de Isaías. A passagem é também a chave de todas as revelações messiânicas do Velho Testamento. Ela pode não incluir quaisquer conceitos especificamente novos, mas reúne e esclarece em termos específicos o que havia sido revelado antes. A grande obra de libertação prometida no jardim do Éden (Gn 3.15), a semente de Abraão e o rei que viria dele (Gn 12.2; cf. 21.1-3), o descendente real de Judá (49.8-12), o reino referido em Êx 19.6, o pacto feito com Davi (2 Sm 7.12-16) e a pessoa e o reinado de Salomão (1 Rs 2-11; SI 72) — esses são alguns dos conceitos messiânicos capitais que foram revelados a gerações anteriores e estão reuni­dos numa passagem sucinta pelo profeta. 

Algumas idéias messiânicas específicas são proclamadas: a casa davídica e a dinastia real são os verdadeiros conceitos centrais e formam a moldura dentro da qual a profecia é anunciada. A Criança ou Filho que virá e nos será dado é o descendente davídico nascido da virgem (Is 7.14). Tal pessoa seria humana, mas também divina. O Filho seria real, eterno, reinando em justiça e retidão. Ele traria luz, liberdade, alegria e paz. Seu reinado incluiria controle soberano das nações e juízo sobre os que oprimissem o povo do pacto. O rei por vir seria considerado messiânico no sentido mais estrito. Ele é uma pessoa régia; ocu­paria um trono, a partir do qual exerceria seu reinado. Ele deve ser também considerado messiânico de uma perspectiva mais ampla: sua obra e as bênçãos que ele traz são evidências. Em resumo, Isaías apresenta o Messias prometido de maneira plena e completa, tanto da perspectiva mais estrita quanto da mais ampla, mais do que qualquer outro porta-voz de Yahwéh o tinha feito antes. 

É de fundamental importância lembrar que Isaías proclama essa mensagem messiânica ao povo de Judá e a Acaz, seu rei, quando eles se julgavam amea­çados pelas nações vizinhas. Isaías lembra a Acaz e a seus súditos o que Yahwéh esperava da casa, do trono e do reino de Davi. Acaz tinha de lembrar- se de que ele representava essa régia casa. Tinha de ser lembrado explicitamen­te de que aquele que daria luz, liberdade e alegria, o governante vindouro, que reinaria em justiça e retidão, traria a paz, que aquele que reinaria eternamente, dando grandeza e segurança para sempre ao povo do pacto de Yahwéh, não somente seria um de seus descendentes, mas também que Acaz mesmo tinha de servir como um predecessor, um prefigurador, um tipo e um preparador de caminho para ele. Acaz tinha de inteirar-se do papel vital que Yahwéh lhe tinha preparado. E embora esse rei não aceitasse esses fatos e não assumisse o papel real em submissão a Yahwéh, este, não obstante, levaria adiante seu plano e seus propósitos. Acaz devia crer que seu descendente, nascido de mulher, seria divino e serviria como libertador e rei, e seu reino jamais seria vencido. Diante desses fatos assegurados, aceitando-os e crendo neles, ele teria recebido a prova de que necessitava para confiar em Yahwéh e colocar seu trono, seu reino e seu povo sob o controle soberano de Yahwéh. 

Os aspectos escatológicos dessa profecia já foram referidos na exegese e na discussão precedente. É útil fazer algumas afirmações resumidamente. Aquele que nascerá e será dado é chamado Pai eterno, Deus poderoso e Príncipe da paz. Ele é o Rei eterno, que virá como rei (Mq 5.2 [TM 5.1]; Gn 49.S-12) e permanecerá rei para sempre. Seu reino, entretanto, será realizado em dimen­sões diferentes. Sua soberania sobre a criação e sobre todas as gentes e nações é desde o princípio e nunca cessará.[41] Sua soberania sobre o povo será realizada de modo crescente. Seu reino recebe expressão na forma da teocracia do Velho Testamento, particularmente durante o tempo da monarquia. O reino típico, entretanto, é um reino que, à medida que assume um novo caráter, se "desen­volverá" num reino completo e universal, do qual os remidos de todas as épocas serão membros. Esse reino "desenvolvido" de justiça, retidão, paz e alegria, não será limitado a um tempo, uma área, ou a um grupo étnico específico. Isaías proclama que o coração do plano escatológico de Yahwéh é o rei, cujo reinado é uma realidade no tempo de Acaz e que será ainda mais no futuro, incluindo o fim dos tempos. 

Isaías, como profeta, respondeu pessoalmente a essa profecia messiânica essencial que proclamou. Ele concordou em dar um fiel testemunho do que Yahwéh planejara e, portanto, do que Ele faria. Isaías proclamou ousadamente a magnífica mensagem a respeito do Filho davídico vindouro, bem como o pleno estabelecimento do trono e do reinado desse Filho. Ele tomou-o pessoal. Ele viu-se a si mesmo como um recipiente da bênção e proclamou: a nós uma Criança, um Filho nasceu. 

O Reinado do Filho de Jessé (Is 11.1-16) 

Contexto Histórico 

A mensagem que Isaías proclama em relação a um governante justo (11.1-5) é parte integral da profecia toda que ele apresentou no tempo do rei Acaz, especialmente quando Acaz temia os reis de Aram e Israel (7.1,2) e voltava-se para a Assíria em busca de ajuda militar e política e em oposição a seus dois vizinhos do norte.[42] Na passagem Isaías desenvolve o que tinha escrito antes a respeito dos "últimos dias" (2.2 NIV); usa novamente a metáfora do "ramo" ou "renovo" (4.2-6) e dò "tronco" (6.13) para referir-se à Criança ou Filho da casa de Davi que reinará em justiça e retidão (9.2-7 [TM 9.1-6]). 

Depois da profecia sobre a Criança ou Filho e seu reino, Isaías profetiza a respeito de três assuntos muito relevantes para seu tempo. (1) Fala da cons­tante ira (’ap) de Yahwéh e de sua mão em posição levantada, uma indicação de que o julgamento virá em breve (7.16b, 17,20b; 10.4). As causas da ira divina e do juízo iminente são o orgulho e a arrogância de Jacó/Israel/Efraim-Samaria (9.8,9 [TM 9.7,8]), que se recusam a prestar atenção às advertências. Além disso, insistem que serão capazes de reconstruir o que pudesse ser destruído (9.10-10.4[TM 9.9-10.4]); nisso o povo é encorajado por seus anciãos, líderes e profetas que ensinam mentiras (9.15 [TM 9.14]) e mantêm leis que permitem vasta opressão do pobre e da viúva (10.1-4). (2) Isaías tece considerações acerca de um julgamento preciso que cairá sobre a Assíria, chamada para ser a vara de Yahwéh a ser usada contra Israel, que, porém, intenta ir além do plano de Yahwéh de punir Israel e Judá (10.5-11). Yahwéh punirá os assírios também por causa de seu orgulho e altivez (10.12), destruindo sua riqueza e seu exército (10.13-19). (3) Isaías profetiza que o povo do pacto não será totalmente destruí­do. Um remanescente, um núcleo da casa de Jacó retomará a ’êl gibbôr[43] (Deus Todo-poderoso) (10.21b). Esse mesmo Deus, referido como hã’ãdôn yhwh sébã’ôt (o Senhor Yahwéh dos exércitos) (v33), preservará um núcleo de seu povo em Jerusalém e Judá quando a Assíria for ferida, como o Egito fora séculos antes (w. 24-34). O povo que Yahwéh preservará será de sobreviventes tanto de Israel corno de Judá; juntos eles constituirão o núcleo do povo do pacto que será membro do reino governado com justiça e retidão pelo rei sobre o trono de Davi. Esse reino, já presente (9.7 [TM 9.6]), continuará para sempre e brotará no eterno reino universal sob o governo de um descendente de Davi. Isaías desenvolve esse tema do governo sobre o reino etemo e universal na passagem que examinaremos a seguir, capítulo 11. 



Considerações Textuais 

O texto hebraico de Is 11 é bem atestado. Há uns poucos exemplos de grafia incerta de termos.[44] O sentido do texto não é afetado, independentemente das escolhas que se façam em relação às grafias alternativas. Alguns críticos, entretanto, têm discutido sobre a unidade da passagem, levantando principal­mente questões a respeito da origem de 11.10-16 quanto à autoria de Isaías, porque a primeira parte do capítulo continua a exposição sobre o Messias e seu reinado, mas a segunda e última parte trata do retomo de Judá e de Israel do exílio. John Skinner, por exemplo, descobre que a situação histórica real que se infere da última parte do texto somente com algum esforço poderia ser harmo­nizada com as circunstâncias reais do tempo de Isaías.[45] Skinner admite que as bases para dividir o texto são o suposto período exilico como contexto histórico da última parte. Daí ser necessário dividir o texto. Esse argumento não é convincente para qualquer pessoa que aceita o ensino bíblico a respeito da profecia preditiva. Daí, pode-se admitir que o texto é confiável; ele fala da pessoa do Messias, do caráter de seu reino, do reconhecimento de sua retidão pelos gentios, de sua vitória sobre seus inimigos e de seu poder para trazer do exílio o povo do pacto. 

Um diagrama estrutural temático mostra a unidade da passagem (ver quadro 9). Seu tema capital é "o Rei universal". 

Antes de iniciarmos nosso estudo exegético de Is 11, é útil relembrar que o tema e os subtemas da passagem já haviam sido proclamados antes (2.1-4; 4.2-6; 6.13; 7.13-17; 92-7 [TM 9.1-6]). Foram repetidos, ampliados e aplicados mais tarde: a consumação do reino universal (cap. 24-27); julgamento e bênção para o povo do pacto (30.1-33); o reinado reto do rei (32.1-8); julgamento sobre as gentes e nações, mas preservação do povo de Yahwéh (34.1-17); bênção e alegria de proporções cósmicas para os redimidos (35.1-10).[46] Nos últimos cinco capí­tulos do livro de Isaías (62-66) os mesmos tema e subtemas são relembrados. 

Exegese 

11.1. A origem e linhagem de Davi, bem como as promessas feitas a ele (2 Sm 7.7-16), são lembradas pelo emprego de algumas metáforas.[47] Um renovo ou pequeno ramo (hõfer)[48] e seu broto (nêser)[49] surgirá do tronco (gêza') e da raiz (SereS) de Jessé.[50]

A cena trazida à mente é a de uma grande árvore que teve seus ramos principais e seu tronco de todo cortados, exceto a parte inferior do tronco — o toco. A raiz desse toco, firmemente presa ao solo e ainda viva, dá vida e poder ao toco, de modo que ele é capaz de produzir renovo e, se adequadamente cuidado, pode florescer de novo e tornar-se uma árvore com galhos e folhas. Além disso, Isaías vê essa nova árvore como produtiva: yipreh (será frutífera ou produzirá fruto). 

Isaías, falando novamente no tempo de Acaz, muito provavelmente ao próprio Acaz, proclama a quase destruição da dinastia davídica num futuro próximo. A família real tomar-se-á sem importância, mas a raiz e o toco não estão mortos; o solo ainda é fértil. Yahwéh, que plantou a árvore, não abandonará sua planta. Seu pacto continuará; os descendentes de Abraão, Judá e Davi não serão completamente cortados. O plano de Yahwéh da semente e do agente real não foi abandonado. Seu programa pactual continuará a ser desdobrado e executado por seus agentes designados, como prometeu a Davi. O renovo refere-se ao que Isaías dissera antes: o filho da virgem, chamado Imanuel (7.14), a Criança ou Filho chamado Maravilha de um Conselheiro, Deus poderoso, Pai eterno e Príncipe da paz (9.6 [TM 9.5]). O rei grande e excelso virá em circuns­tâncias humildes,[51] isto é, como um broto ou renovo surgindo de um tronco aparentemente morto. 

11.2,3a. O descendente davídico será qualificado para realizar sua obra. Ele será realmente frutífero porque riahà 'ãlãyw ruah yhivh (o Espírito de Yahwéh repousará sobre ele).[52] Como Eldade e Medade (Nm 11.26) e Elias (2 Rs 2.15)[53] tinham recebido o Espírito e foram por ele capacitados, assim acontecerá com o descendente de Davi. Isaías não deixa dúvida sobre a identidade desse Espírito: rüah yhwh (Espírito de Yahwéh). Delitzseh afirma corretamente que esse Espírito divino era o "veículo comunicador de toda a criativa plenitude dos poderes divinos".[54] O Espírito, um poder capacitador, reveste aquele sobre o qual repousa com as qualidades que o próprio Espírito possui.[55]

Há três pares de palavras que definem a qualificação espiritual, a primeira das quais destaca a "proficiência vocacional". Hokmâ designa particularmente a habilidade que essa pessoa terá para cumprir tudo o que deve fazer; btnâ refere-se à sua capacidade de compreender ou discernir as situações da vida (Is 112,3a). Juntas, essas duas palavras denotam alguém totalmente capaz e proficiente em tudo o que é chamado a fazer. 

O segundo par de palavras, ’êsâ e gèbürâ, define a capacidade da pessoa de levar adiante certo programa (11.2b).1êsâ é usada em contextos que tratam de conselhos na forma de um plano deliberado; refere-se à estratégia que leva totalmente em conta uma dada situação. Gèbürâ caracteriza o homem de poder, o herói de grande força. Este conceito, exemplificado por um dado comandante de exército que não permite que seu plano de ação seja embara­çado, acrescenta-se aos conceitos de habilidade e compreensão. 

O terceiro e último par especifica o que motiva a pessoa competente: o conhecimento (da'at) e o temor (yir’â) do Senhor (11.2c). Juntas, essas duas palavras expressam uma devoção absoluta. "Conhecimento" expressa não apenas uma consciência do Senhor, mas também uma familiaridade íntima com Ele e sua vontade, algo que não existe no povo do pacto. "Temor", nesse claro contexto, deve ser tomado no sentido de amor reverente, e não de terror ou medo.[56]

A frase seguinte (v. 3a) deve ser tomada como uma conexão e resumo da que a precede: "Assim o seu cheirar estará em relação com o temor do Senhor." 

A palavra hebraica traduzida aqui por "cheirar" (hãrihô, hiphil de rãwah, com prefixo) tem causado alguma dificuldade. Calvino e Young sugerem que ela se relaciona com o poder de percepção.[57] O descendente davídico, então, teria capacidade de perceber instantaneamente o que é que se relaciona com o temor de Yahwéh. Outros propõem que, como á palavra quase sempre se refere ao cheiro de um sacrifício, a construção deve referir-se ao que é "cheirado". Isso significaria então que foi estabelecido um contraste entre as oferendas inaceitáveis do culto israelita e o uso temporário de animais nesse culto, e a oferenda daquele que está revestido do Espírito (é recebida ou "cheirada"), a qual é relacionada com o temor do Senhor. 

Esta parte da mensagem de Isaías (11.1,2,3a) fala das qualificações divinas e da plena aceitação do descendente e representante de Davi. Ele será como um sacrifício fragrante que agrada a Yahwéh, quando cumpre sua obra com amor e reverência. Um resultado dessa presença e obra do rei revestido pelo Espírito, segundo uma profecia posterior de Isaías, é que o Espírito será derramado sobre todo o povo e as virtudes divinas do rei tornar-se-ão univer­salmente presentes (32.15-20). 

11.3b-5.O caráter virtuoso do rei que virá torna-se evidente. Ele, revestido do Espírito, demonstrará isto ao julgar e executar suas decisões. Primeiro, é feita uma declaração negativa: ele, o juiz real, não será influenciado pelas aparências, nem tomará decisões com base em boatos. Isaías obviamente está-se referindo e condenando àqueles em posição de autoridade que são corrompidos por várias circunstâncias e influências. Muito provavelmente, Acaz está sendo avaliado como injusto em sua maneira de reinar e de julgar. O termo hebraico sèdãqã, empregado em 9.7 (TM 9.6) para indicar o caráter do reinado do Filho como sedeq (reto) (11.4), é empregado novamente para caracterizar a maneira de julgar, de decidir ou de provar (hôkiah, hiphil de yãkah, raciocinar, pensar). Isaías fala da vinda do reinado reto e justo do rei em outro contexto (32.1) e dos resultados benditos de seu governo para o povo (32.2-4). 

É preciso ser cuidadoso para não ler demais ou de menos no sentido de "pobre" e "necessitado" (NIV) ou "humilde" (KJV, NIV). Esses termos não podem ser espiritualizados; a referência é àqueles que estão nessa triste condi­ção por terem sido tratados injustamente por outros e não receberem o trata­mento adequado dos juízes e líderes de Judá. Havia uma expectativa ansiosa pelo rei messiânico, um rei que endireitaria as coisas e proveria libertação e justiça, sem olhar para a condição social (SI 72.1-4). Porque essa "raiz de Jessé" tem o Espírito do Senhor ela pode trazer tal julgamento em favor do pobre e do aflito. O "físico" e o "espiritual" serão aspectos integrais de uma só e mesma realidade. 

A construção paralela seguinte (v. 4b) acrescenta mais um fator: o descen­dente de Jessé demonstrará sua oposição ao mal, mas o fará apenas por palavras. Há algumas diferenças entre os comentadores sobre qual é a intenção do profeta. "Terra" aqui refere-se a seus habitantes ou à própria criação? e a "vara (Sêbef) de sua boca" significa meramente uma ordem de matar ou uma expressão natural de ira?[58] Não seria correto dividir nesse paralelismo o que se intentou como uma unidade. A terra como criação de Deus não pode ser divorciada de seus habitantes, pois ela recebe julgamento quando esse é devido a seus habitantes. O fato de "terra" e "perverso" serem paralelos também parece indicar isso. A palavra de Deus é também uma unidade. Yahwéh pode falar fazendo com que uma nação (p.ex., a Assíria) castigue Israel e Judá. Essa especial palavra falada, em sua forma escrita e encarnada, tem o mesmo poder de julgamento. A "(palavra) de sua boca", portanto, pode ter pelo menos um triplo significado; mas o ponto é que Deus pode eliminar o mal simplesmente por meio de sua palavra, a que ninguém pode resistir. 

O versículo 5 resume as qualificações desse juiz: ele incorpora "retidão" e "fidelidade", mais do que usualmente se atribui à maneira em que um rei ou juiz cumpre suas decisões (sentenças). É também possível admitir que essa construção paralela (v. 5) se refira a todas as suas qualificações prévias. Então, embora "retidão" e "fidelidade" sejam paralelas, a primeira referir-se-ia espe­cialmente aos versículos 3 e 4, e a última ao versículo 2. O significado, então, seria que essa pessoa julgaria somente com imparcialidade e tomaria decisões certas em relação a padrões judiciais objetivos; mas ele agiria desta maneira até que sua responsabilidade fosse levada até o fim e com fidelidade àquele que o enviou. 



11.6-9. Tendo falado a respeito do caráter do juiz real e demonstrado suas virtudes e seus benditos resultados para o pobre e o necessitado (11.2-5), Isaías fala do impacto desse governante e juiz reto e justo sobre o cosmos (cf. 35.1,2). Isaías pinta uma cena idílica: animais selvagens (lobos, leopardos, leões e ursos), que caçam, matam e devoram animais domésticos (cordeiros, cabritos, bezerros, vacas, bois) viverão e se alimentarão juntos. Partilharão seu "habitat", andarão juntos e partilharão o mesmo alimento. A criancinha inocente, que seria presa de animais selvagens, guiará tanto os animais domésticos quanto as feras. De fato, o veneno de uma serpente e a picada mortal de um escorpião tomar-se-ão inofensivos quando a criancinha brincar entre seus ninhos ou mesmo puser neles a mão. O que aqui se representa é o paraíso, como o que existiu antes da queda. É posta diante de Acaz e do povo de Judá uma descrição da paz cósmica. Pessoas (jovens e velhas), animais e vegetais terão ali seu lugar, mas viverão e servirão juntos em completa harmonia. Uma integração perfeita de todos os elementos do mundo criado será demonstrada (cf. a elaboração de Isaías em 35.3-10). Medo, terror e morte, forças que causam separação e destruição, serão completamente removidas. Nada estará presente para fazer mal (v. 9,yãrê'ü) e destruir (yishttâ). 

A frase bèkol-har qodsi (em todo o meu santo monte) não deve ser tomada com referência apenas ao monte do templo, à colina chamada Sião (Is 23). O monte deve ser compreendido como o lugar onde Deus está presente e se revela. A referência pode ser a uma determinada montanha, mas Yahwéh está presente em vários lugares e faz-se conhecido a várias pessoas em vários lugares. Assim, mesmo o povo de Deus pode ser considerado a montanha de Deus. O monte é um símbolo usado para comunicar uma verdade gloriosa, isto é, que a revelação de Yahwéh, dada a seu povo em determinado tempo e lugar, irá a todo o mundo, a todas as gentes e nações (cf. Is 2.1-4; 4.2-6). Isaías, numa declaração posterior, toma isto claro: dê1 â (conhecimento), isto é, a revelação de Yahwéh, estará em toda parte. Será assegurada a toda a humanidade. Como as águas cobrem completamente toda parte do fundo do oceano, assim a revelação de Yahwéh e sua compreensão pelos homens permearão todas as regiões imagináveis. Essa revelação divina e o conhecimento humano de Yahwéh, segundo Isaías, eram, são e serão o fator central no reinado do descendente de Davi, na obra que ele realiza como governador e juiz e no efeito e influência que essa obra terá sobre todos os elementos — orgânicos, inorgâ­nicos, animais e humanos (cf. novamente 35.1-10). 

Isaías profetiza a respeito do efeito que a presença, o caráter, o juízo e o reinado do frutífero descendente da casa de Davi terão sobre os inimigos ou opressores (cf. Is 13-23, julgamento das nações) e sobre o pobre e oprimido (justiça, retidão e fidelidade a ser demonstradas) (ver também Is 27.1-13; 32.1-8). Ele, então, fala de seu efeito sobre o cosmos como um todo e sobre vários de seus aspectos representativos — paz, vida, gozo da verdade de Yahwéh. A seguir, ele profetiza acerca do efeito que isso terá sobre as demais nações e sobre o povo do pacto, especificamente os exilados ou seu remanes­cente. Torna-se agora bem evidente que Isaías não está seguindo ou apresen­tando uma ordem cronológica ou lógica em que esses eventos acontecerão. Cada um deles, entretanto, é dependente do outro; quando um acontecer, outro acontecerá. Isto é evidente do precedente e o será ainda mais do que se seguir. 

11.10. Wehãyâ bayyôm hãhü (e naquele dia). Isaías chama especialmente a atenção para o que foi profetizado imediatamente antes (11.1-9). Enquanto tudo aquilo acontecer, acontecerá também o seguinte. O vavé melhor enten­dido como consecutivo, indicando estreita relação entre o que precede e o que o segue. Note-se também que o agente é o mesmo: a "raiz de Jessé" (RSV). 

O descendente de Davi que reina e julga, demonstrando justiça, retidão e fidelidade, trazendo restauração e paz, terá um impacto universal. Isaías esclarece isso referindo-se a três fatores. Primeiro, ele permanecerá Çõniêd, particípio ativo, indicando atividade contínua) como um estandarte, bandeira ou insígnia (riês) para os povos. O estandarte foi usado durante a peregrinação no deserto como um ponto de reunião ou como uma insígnia, indicando a iden­tidade do grupo que o leva ou que acampa ao seu redor. Entre os povos, isto é, nações, inclusive Israel e Judá, o descendente de Davi será notável, e assim atrairá a atenção deles todos. O ponto é: ele será visto; ele será considerado. 

Segundo, os povos, também referidos como nações (gôyim), o buscarão (yidrõSü). Não apenas ele os atrai: eles também o desejam. Isaías falara disso anteriormente (2.2-4). A busca universal das nações é o cumprimento do que Yahwéh prometera a Abraão (Gn 123) e que começara a acontecer quando Salomão, o rei sábio, governava em paz (1 Rs 10.6-10; SI 72.12-14). Um maior do que o primeiro Salomão haverá de vir e servirá com propósito ainda maior e mais frutiferamente. É interessante notar que, embora esse rei e juiz vindouro traga julgamentos destrutivos sobre as demais nações (IsT3-23,31; 34.1-17), os remanescentes destas se voltarão para esse rei e juiz e se tornarão um com seu povo (Is 19.23-25; 34.15,16). 

Terceiro, o descendente de Davi terá também seu mènuhãiô kãbôd (seu repouso de glória). Edward Young escreveu corretamente que seu lugar de repouso, onde ele estabelece seu governo para reinar e viver, é a própria glória.[59] Há uma referência implícita ao Monte Sião (SI 132.8,14), que era o lugar do trono davídico. A Sião terrena, entretanto, é um tipo do trono universal e eterno do descendente de Davi (9.6,7 [TM 9.5,6]). O termo hebraico kãbôd (glória) expressa o maior grau possível de majestade, beleza e esplendor, que não somente rodeiam o trono, mas também brotam daquele que reina e julga. 

Tendo profetizado a respeito da pessoa, de suas qualidades e dos efeitos de seu reinado sobre o cosmos e sobre os povos e nações, Isaías agora dirige sua atenção ao plano e à obra de Yahwéh em favor do povo do pacto — Israel e Judá. 



11.11-16. Wehãyâ bayyôm hãhu (e naquele dia). Isaías repete a frase que usou para falar da reunião das nações (v. 10). Que ele não está pensando em um período subseqüente é apoiado por sua segunda referência ao estandarte (riês) a ser levantado para os povos e nações, as quais também, no mesmo tempo e de maneira idêntica, servirão ao exilado povo do pacto (11.12). 

Alguns fatores nesta passagem (v. 11) exigem especial atenção. Primeiro, o Senhor ãdõnãy) estenderá sua mão (yãdô) pela segunda vez. Na primeira vez feriu o Egito quando seu povo estava escravizado. Ele saiu e seguiu o caminho pelo qual Yahwéh o guiou. 

Segundo, pela segunda vez a mão do Senhor será estendida, mas sobre uma área muito mais vasta: Alto e Baixo Egito, Etiópia ou Cush, Norte da Mesopo­tamia, Aram ou Síria, Babilônia e ilhas do mar serão cobertos por sua mão. A reunião das nações tem dimensão universal, assim como o ajuntamento dos dispersos de Judá e Israel. 

Terceiro, é ’et-5è’ãr 'arnmô (o remanescente de seu povo, 11.11) que ele reclama e possui como súditos verdadeiros, leais, sob seu governo. Esse remanescente é o núcleo de Israel e Judá; de modo nenhum quer isto dizer que todos os indivíduos serão reunidos, reclamados e governados. O remanescente hebreu inclui os que foram exilados para a Assíria (Israel) e Babilônia (Judá), bem como os que tinham ido para o Egito e outras regiões (11.12). 

Quarto, a unidade será restaurada entre o povo do norte e o do sul. Será removida a hostilidade e o ciúme entre Efraim e Judá. Haverá somente um remanescente —não dois. 

Quinto, o remanescente único não estará mais sujeito à opressão de vizinhos hostis (11.14,15). Ao contrário, o povo reunificado e reclamado por Deus será um povo vitorioso. Na linguagem de seus dias, Isaías fala do remanescente caindo sobre outras nações e pilhando-as. Isso, porém, não deve ser tomado literalmente. Yahwéh, segundo Is 13-23, traz julgamento sobre esses povos e capacita-os a ver o estandarte, voltar-se para ele e buscar o descendente da casa de Davi. Assim, pois, o remanescente reunificado será um povo que depois da vitória, vive em paz. 

Sexto, o remanescente reunificado e refeito tomar-se-á um com o povo de outras nações, especialmente Assina e Egito (11.16). Um caminha será prepa­rado para o remanescente de Israel e Judá, mas também para o povo do Egito e da Assíria (19.23-25). Isaías proclama que os egípcios, os assírios e os israelitas adorarão juntos, que serão abençoados juntos, e que o Egito será chamado "meu povo" ('amrrd), e a Assíria, "obra das minhas mãos" (maiâéeh yãday), e Israel, "minha herança" (nahàlãti) (19.25). Esses três termos põem as três nações em pé de igualdade, dão-lhes igual "status"; todos eles passam a ser o povo do pacto de Yahwéh sob o reinado da Criança nascida da casa davídica e dada pelo soberano Senhor do pacto. 

Aspectos Messiânicos e Escatológicos 

Pode ser dito sem receio de contradição que Isaías se refere mais freqüentemente e desenvolve mais elaboradamente o programa messiânico e escato- lógico de Yahwéh do que qualquer dos seus predecessores. Entretanto, ele não introduz aspectos e dimensões novos. Os salmistas haviam cantado com alegria em louvor do rei, de suas virtudes, de seu reinado; os profetas Joel, Naum, Jonas, Miquéias e Amós falaram das dimensões universais da obra do Messias.[60] Oséias apontara para o caráter daquele que viria, bem como o fizeram outros dos profetas menores. O reinado e domínio da casa real de Davi também fora mencionado antes. Isaías reúne elementos previamente revelados e, assim fazendo, apresenta mais claramente os parâmetros, a moldura e os elementos constituintes. 

Isaías não pretende apresentar uma agenda histórica. O profeta não procla­ma um desdobramento ordenado da história, passo a passo. O tempo de cada aspecto e as relações específicas e diretas da maioria dos eventos não foram conhecidos por ele nem se tornaram conhecidos por meio dele. A verdade para Isaías era a mesma que Jesus disse mais tarde a respeito de eventos escatológicos: os tempos e as épocas são conhecidos exclusivamente pelo Pai. Eles não são revelados, nem aos profetas nem aos discípulos (Mt 24.36,42; cf. At 1.7). Fatos grandes e maravilhosos a respeito do rei vindouro, de seu trono, de seu reinado, e fatores e eventos concomitantes são proclamados. Os ouvintes de Isaías e todos os leitores de sua profecia, devem vigiar para perceber os vários cumprimentos, à medida que ocorram, e esperar com confiança os cumprimen­tos futuros, embora conscientes de que ninguém, além do Pai celestial, conhece a hora, o ano ou a época em que tudo isso será cumprido. 

Os aspectos messiânicos que Isaías destaca são os seguintes: Primeiro, a casa davídica deve continuar, de acordo com o pacto feito com Davi (2 Sm 7.12-16; 23.1-5; SI 18.50 [TM 1851]; 89.19-28 [TM 89.20-29]). Isaías torna bem claro por meio de metáforas — broto, ramo, tronco, raiz — que a dinastia davídica às vezes parece ter sido cortada, que ela deixa de ser frutífera e produtiva, e que pouca ou nenhuma esperança pode derivar dela, quando seu representante age pateticamente como no caso de Acaz. A despeito das sucessivas aparências em contrário, Yahwéh manterá a dinastia davídica. Seu pacto permanecerá, contra todos os assaltos de Satanás e de suas servis coortes. Mesmo os poderes satânicos atuando dentro da casa de Davi não poderão destruir a linhagem davídica. 

Segundo, o duplo conceito messiânico previamente revelado é apresentado aqui com clareza. O ponto de vista mais estrito do conceito messiânico recebe ênfase. Uma pessoa real há de nascer, surgir, e proceder como uma pessoa régia. O Rei dos reis, o Senhor de todos os senhores terrenos, o Soberano sobre o cosmos e sobre todos os povos e nações é proclamado. Ele virá de antepas­sados régios, de uma família dinástica. Ele será descendente dos dois mais ilustres reis que reinaram sobre as doze tribos — Davi e Salomão. Ele será verdadeiramente humano. Seu caráter e suas prerrogativas divinos são tam­bém demonstrados. Os nomes pelos quais ele será chamado, tanto humanos quanto divinos (cf. 9.6 [TM 9.5]) terão sido dados apropriadamente. As virtu­des divinas de justiça, retidão e fidelidade serão demonstradas.[61] Realmente, Isaías fala de uma pessoa régia, de linhagem real, de caráter real, embora fale também das circunstâncias humildes em que ele surgirá. 

O ponto de vista mais amplo do conceito messiânico também é revelado. A obra a ser cumprida e seus resultados recebem muita atenção. O descendente de Davi reinará; ele exercerá o poder real. Isaías dissera antes que a função de governar estaria sobre seus ombros, que ele a desempenharia e que assumiria plena responsabilidade por ela (9.6,7 [TM 9.5-6]). O profeta repete isso desta­cando os efeitos de seu reinado (11.5-16) e de novo mais adiante (32.1-8;35.1-10). Isaías acrescenta uma nova dimensão à tarefa de reinar. Como rei ele deve julgar; como juiz ele demonstrará as virtudes éticas de justiça, retidão e fidelidade. Os resultados de seu julgamento serão alívio, liberdade e uma vida cheia de bênçãos para os pobres e necessitados (11.3-5). A cegueira, a ignorân­cia e a loucura desaparecerão (32.3-8). Por outro lado, serão praticados atos de nobreza: os famintos serão alimentados e os ímpios serão desarraigados. O cosmos inteiro será restaurado e renovado sob o reinado do descendente real da casa de Davi. 

Terceiro, o profeta Isaías usa o símbolo do estandarte ou bandeira para representar o rei e sua obra. O descendente de Jessé o levantará e pessoas de todas as demais nações, vendo-o, dirigir-se-ão para ele (2.1-4), buscá-lo-ão 11.10 e se reunirão ao seu redor. Um povo, tirado de muitas nações, será formado. E juntamente com esses virão os remanescentes de Israel e Judá. O ciúme e a ira entre eles desaparecerão e juntos eles serão parte da grande multidão que se reunirá ao redor do estandarte. 

Quarto e último, a obra messiânica inclui a introdução da paz universal. Isaías acentuou anteriormente o caráter eterno do Messias por vir e de seu reinado. Agora conclui sua profecia a Acaz e seus contemporâneos proclaman­do a paz universal. Haverá a remoção de toda hostilidade, inimizade e medo entre as pessoas, e também entre os animais, e entre animais e pessoas. Paz eterna e universal surgirá do descendente da casa real de Davi, quando ele reinar e julgar. 

Isaías, na verdade, proclamou uma profecia sobre o Messias e sua obra que excede todas as profecias anteriores. Ele não se lhes contrapõe, pelo contrário, reunindo o que eles haviam dito, expandiu-o e implicitamente aplicou uma desafiante mensagem para Acaz, descendente da casa de Davi, ouvir, crer e confiar. 

Passando aos aspectos escatológicos da profecia de Isaías, logo se notará que eles são íntima e inseparavelmente relacionados com os elementos mes­siânicos mencionados nos parágrafos precedentes. Seria bom, não obstante, rever brevemente os principais fatores e mencionar o que é freqüentemente designado como seu cumprimento. Este último tema tem causado agudas diferenças, principalmente por causa da diversidade nos métodos de interpre­tação e do desejo de apresentar "uma agenda dos eventos históricos antes que eles aconteçam".[62]

Primeiro, Isaías esclarece que o que ele está profetizando tem relevância direta para seus contemporâneos. Quando fala do reinado do descendente de Davi, ele está-se dirigindo a um deles, Acaz, que é chamado a representar, preparar e tipificar a pessoa do rei que virá, seu caráter e seu reinado. Assim, para Isaías a pessoa messiânica está presente, isto é, seu ancestral e tipo; o reinado, o domínio e a meta final estão presentes e tiveram seus primeiros "cumprimentos". Isaías toma isto claro na frase mê’attâ wè'ad-'ôlãm (desde agora e para sempre (9.7 [TM 9.6]). O reinado e a pessoa reinante são evidências iniciais que aguardam dimensões maiores quando se expandirem e desenvol­verem no futuro. 

Segundo, o julgamento de Yahwéh sobre os povos e nações já começou. Israel, as dez tribos do norte, já o tinha experimentado; Judá também o tinha, e temia maiores julgamentos próximos (cf. 7.1-3; também 8.10; 10.10,11). Os futuros julgamentos devastariam e destruiriam consideravelmente, mas, na maioria dos casos, não o destruiriam de completo porque Yahwéh preservaria um remanescente da maioria dos povos ou nações, que, juntos, constituiríam o seu povo reunido. 

Terceiro, a remoção de Israel e Judá de sua terra é proclamada por Isaías. O exílio era uma certeza para o povo do pacto, caso ele não se arrependesse de sua idolatria e de suas aberrações sociais. Isaías falara antes desses pecados e transgressões (1.2-17) e afirmara que, se a rebelião e a resistência continuassem, a espada viria a devorar o povo (1.20-23; 2.6-3.26; 5.8-30; 8.8-10; 9.8 [TM 9.7-10.4). Isaías, entretanto, não declara, como profetas posteriores o fariam, que era "tarde demais". Há ainda tempo para arrependimento e confissão (1.18; cf.7.1-17).[63]

Quarto, o exílio primeiro e a posterior dispersão do povo do pacto não significarão o fim do povo peculiar de Yahwéh. Um remanescente será preser­vado, alguns dos quais retornarão a Jerusalém e seus arredores. As doze tribos separadas não estarão mais divididas; elas se unirão para formar uma nova unidade (11.11-13). Grupos dispersos por várias partes do antigo Oriente Médio estarão representados numa reunião ao redor do estandarte do repre­sentante de Davi. Isaías não dá uma localização geográfica em falando da convocação (11.10-13,16). Ele fala do "monte santo de Deus", no contexto de toda a terra cheia do "conhecimento de Yahwéh" (11.9). Esta é uma referência simbólica à habitação de Yahwéh, que não deve ser considerada uma localiza­ção geográfica. A apresentação que Isaías faz da presença de Yahwéh deixa claro que o lugar de habitação de Yahwéh não pode ser contido num lugar, seja um tabernáculo portátil ou um templo construído no alto de um monte.[64] Isto é fortemente apoiado pelo próximo fator a mencionar-se. 

Quinto, a revelação de Yahwéh, emanando da montanha do templo do Senhor (lembremo-nos de que isto não deve ser entendido literalmente), ou seja, da própria presença de Yahwéh, se espalhará pelas nações próximas e distantes. Yahwéh estenderá sua mão (11.10,11) porque o conhecimento de Yahwéh (sua verdade, palavra, revelação) estarão em todo o mundo (11.9). A expansão universal do Evangelho está aqui indubitavelmente indicada, um fato de certa forma do próprio tempo de Isaías, porque o Egito tinha sido exposto a ele; no tempo de Salomão, quando nações, como Sabá, tinham ouvido dele, e representantes tinham vindo a ele; e quando um general assírio ridicu­larizava o povo do pacto por adorar a Yahwéh (2 Rs 18.22). O que tinha acontecido no tempo de Moisés, Davi, Salomão e Ezequias continuaria a acontecer. Cristo, depois de sua ascensão, ordenou que a revelação da verdade de Yahwéh, a ser cumprida particularmente a respeito de si mesmo e da presença de seu Espírito e poder, fosse espalhada por todo o mundo (At 1.8, cf.Mt 28.19). 

Sexto, estreitamente relacionada com o quinto ponto, é a reação positiva das nações à bandeira de Yahwéh levantada e à difusão de sua verdade: Os povos e nações ouvirão! Eles verão! Realmente, aquelas nações que sofreram julga­mentos nas mãos do justo, reto e fiel rei da casa de Davi, considerarão que a mão de julgamento levantada e pronta a ferir é também a mão de livramento e redenção. Este foi o caso quando Yahwéh feriu o Egito durante o cativeiro de Israel. Ele deu aos egípcios a oportunidade de experimentarem eles mesmos a liberdade (Êx 12.15). Tal foi também a situação durante as peregrinações no deserto. Israelitas, mordidos por serpentes, viram numa serpente levantada o meio de viver (Nm 21.4-9). Mais uma vez, essa mão de julgamento não deve ser considerada localmente; ela foi vista e experimentada de leste a oeste e de norte a sul no mundo conhecido no tempo de Isaías. Ela era, numa palavra, "universal". 

Sétimo, os povos e nações não terão permissão de estar em repouso mera­mente vendo e ouvindo; Yahwéh, por meios não indicados por Isaías, reunirá seu povo disperso e abrirá caminho para pessoas de todos os povos e nações se reunirem ao redor da verdade de Yahwéh, proclamada e conhecida univer­salmente. Como o remanescente de Judá e Israel estarão reunidos, assim também pessoas de outras nações serão reunidas como um só povo de Yahwéh. Assírios, representantes das nações do norte e do leste, e egípcios, repre­sentantes das nações do sul e do oeste, reunir-se-ão para formar o povo de Yahwéh, a obra de suas mãos e sua herança (19.23-25). 

Finalmente, Isaías fala do efeito renovador que o reinado do rei davídico terá sobre o cosmos, a saber, o mundo natural, com os animais em paz (11.6-9) e com o deserto florescente (35.1,2). O paraíso será restaurado — plena e completamente, para o tempo e pela eternidade. 

Cumprimento 

Quando e como considerar cumpridas as profecias de Isaías a respeito do descendente de Davi e sua obra? Esta questão não tem recebido resposta unânime. Os críticos liberais têm estado divididos não somente quanto ao tipo e à natureza das mensagens de Isaías, mas também quanto à sua relevância para tempos futuros. Os próprios conservadores também se dividem sobre certos temas. Há um acordo generalizado sobre o caráter inspirado e digno de confiança da profecia de Isaías e sobre o cumprimento de suas predições proféticas. As principais diferenças entre eruditos evangélicos conservadores não são a respeito da veracidade das oito expectativas escatológicas resumidas nos parágrafos precedentes. Antes, as principais diferenças são a respeito da maneira, do método e da ordem em que esses fatores que ainda não se cumpriram, em parte ou no todo, serão plenamente realizados.[65]

Os fatos a serem destacados são: (1) Isaías, dirigindo-se a Acaz, o descen­dente de Davi, e ao povo sobre o qual ele reinava, fala em termos que sua audiência compreendia. (2) Isaías refere-se a algumas coisas que, entretanto, sua própria audiência não teria entendido literalmente, por exemplo, uma bandeira numa colina comparativamente baixa da Palestina poder ser vista pelas pessoas de nações remotas. (3) A descrição do cosmos renovado em termos de seu ambiente é ideal, uma utopia, muito contrária às circunstâncias reais, e daí não se espera que elas aconteçam fisicamente num futuro previsível. (4)As afirmações de Isaías de que Yahwéh não abandonará seu plano e suas promessas pactuais, nem seus intentos em relação à casa de Davi e seus futuros representantes, devem ser tomadas como o ponto principal de suas profecias. (5) Os vários aspectos que ele menciona são partes integrais do programa pactual de Yahwéh, a respeito do qual Isaías não deixa dúvida. (6) Isaías torna claro que alguns eventos se desenrolarão concorrente e independentemente; daí, Isaías não deve ser citado como se apresentasse uma cronologia de eventos sucessivos. 

Da perspectiva dos leitores e estudiosos da Bíblia vivendo na década de 1990, podemos concluir que partes da profecia de Isaías já se realizaram. Por exemplo, nasceu o filho de uma virgem que era humano e divino e, portanto, realmente Imanuel — um fato histórico realizado. Esse Filho era da linhagem de Davi, de Judá e de Abraão. Uma parte do remanescente de Israel e Judá tinha retomado à Terra Prometida; alguns de seus descendentes, bem como alguns dos que permaneceram na dispersão, uniram-se para formar um povo, o núcleo da Igreja do Novo Testamento. A revelação de Deus e o conhecimento a respeito de Deus, de seu Filho e de seu Espírito têm ido a todas as gentes e nações do mundo. E pessoas de quase todos os países e regiões têm-se unido na comunidade de Yahwéh. Esses não são um povo diferente dos muitos descendentes da semente de Abraão. Judeus e gentios, vivendo juntos na fé e na obediência sob a palavra revelada de Yahwéh, tomaram-se o corpo do Filho de Davi. Ele sofreu humilhação (como um renovo de um tronco aparentemente morto, Is 11.1), mas tem reinado e continua a reinar com justiça, retidão e fidelidade à mão direita do Pai desde a ascensão. Vários dos fatos profetizados, repetimos, têm acontecido. Mas seu cumprimento não está sempre de acordo com as interpretações dadas pelos estudiosos ou com as expectativas dos leigos. Por outro lado, alguns dos fatos profetizados por Isaías não se cumpri­ram completamente, ou mesmo nem começaram a ser cumpridos. É certo que finalmente tudo se cumprirá. Seu método, seqüência e tempo não foram esclarecidos. Têm sido feitas tentativas de estabelecê-los. Como no passado, quando muitos foram desiludidos e desapontados quando suas expectativas específi­cas não se realizaram, assim pode acontecer de novo, especialmente para aque­les que procuram estabelecer tempos precisos, épocas, seqüências de eventos e localidades geográficas específicas para que esses eventos aconteçam. 

Resposta à(s) Profeda(s) de Isaías 

Acaz não respondeu com fé e obediência. Quando o profeta lhe disse que pedisse um sinal, ele se recusou (Is 7.12). Não se registra nenhuma outra resposta dele no livro de Isaías. O cronista, entretanto, informa ao leitor que Acaz rejeitou as mensagens de Isaías e pediu auxílio ao rei da Assíria (2 Cr 28.16). Então acrescenta: "No tempo da sua angústia cometeu ainda maiores transgressões contra o Senhor" (28.22 NIV). Acaz recusou-se a crer, obedecer e servir como um filho de Davi, como tipo, agente e predecessor do Filho régio que seria dado por Yahwéh. 

Como era o rei, assim seria o povo. Isaías suplicou ao povo do pacto que ouvisse e continuasse no caminho de Yahwéh. Garantiu-lhes que Yahwéh ansiava por ser misericordioso para com eles e mostrar-lhes sua compaixao; Yahwéh era um Deus de justiça e abençoaria todos aqueles que esperassem nele (Is 30.18 NIV). O profeta prometeu ao povo que a salvação seria dele, em silêncio e repouso; em confiança eles teriam força (v. 15). Mas Isaías deu sua resposta: "Mas vós não o quiseste" (v. 15d). Yahwéh prometera anteriormente a seu servo Elias que ele reservaria um pequeno grupo fiel; indubitavelmente isso aconteceu novamente. Mas o povo como um todo não receberia nada da mensagem de Isaías. Eles tinham suas esperanças e expectativas como um "povo escolhido e favorecido". Essas, entretanto, eram contrárias ao que Isaías profetizara.[66]

Isaías deu respostas de fé às mensagens que ele próprio proclamou. Con­cluiu sua magnífica profecia, registrada nos capítulos 7-11 com um belo cântico de louvor (o capítulo 12) [67] Isaías reconheceu a ira de Yahwéh contra seu povo, mas também tinha certeza, depois de proclamar a mensagem relativa ao Filho governante que governaria e julgaria em justiça, retidão e fidelidade. Ele rece­beu a garantia de que a ira de Yahwéh não permaneceria sobre o povo do pacto por todo o tempo.[68] Salvação e conforto certamente viriam para aqueles que confiassem em Yahwéh e gozassem de sua presença, do Santo, que é verdadei­ramente Imanuel, o grande e santo Deus no meio de seu povo pecador. 







[1] Este é o título de uma preleção feita por J.Ridderbos (Kampen: Kok, 1920). Cf. sua declaração em Het Gods Woord der Profeten, 2 vols. (Kampen: Kok, 1930), 2.206, relativa a Is 9.2-7 (TM 1-6): "Aqui está completamente claro que o profeta fala diretamente do Messias." 


[2] Cf. George A. Riggan, Messianic lheology and Christian Faith (Filadélfia: Westminster, 1967), pp. 53-60. Lembremo-nos de que Riggan coloca Isaías no segundo estágio das expectações messiânicas de Israel, que se desenvolveram segundo as várias mudanças políticas que o povo hebreu experimentou em sua existência religiosa e civil. 


[3] Numeramos os versículos segundo o Texto Massorético depois da citação numérica em português (n.t.). 


[4] Ou como NIV: "pronto para pilhar, rápido para despojar." 


[5] Riggan faz algumas declarações preconceituosas quando escreve que dois dos oráculos de Isaías (9.2-7 [TM 9,1-6] e 11,1-9) são de data incerta. Se são genuinamente dele, afirma Riggan, devem referir-se a certos reis de Judá "em sua entronização" (Messianic Theology and Christian Faith, p. 58). Ele vai adiante e diz que seu uso como predições da história do Natal "viola a sua intenção original" (ibid., p. 58), Este ponto de vista não é geralmente aceito. Ver Michael E. W. Thompson, " Isaiah's Ideal King?, em que sãosumarizadós vários pontos de vista referentes à origem da mensagem de Isaías 9 e seu ambiente histórico.Thompson conclui que a passagem é originária de Isaías, mas não se deve buscar um acontecimento histórico específico, como determinada entronização; ao contrário, Isaías está expressando seu ponto de vista sobre uma realeza ideal, sem referência direta a uma situação histórica (JSOT, 24 [1982]:78-88). 


[6] Sigmurtd Mowinckel elucida que a idéia de um governante divino-humano foi tomada dos salmos que, ao serem compostos, adotaram a idéia das nações vizinhas (He That Cometh), trad. G. W, Anderson [Oxford: Blackwell,1959], p. 175). Ridderbos demonstra que essa idéia é sem base (ibid,, 2.185-208). 


[7] Cf. Conrad von Orelli, The Prophecies ofbaiah, trad. J. S. Banks (Edimburgo: T. & T. Clark, 1889), p. 64. 


[8] Cf. John Skinner, Isaiah I-XXXIX(Cambridge: University Press, 1910), p.74. 


[9] O termo hebraico tõ normalmente quer dizer "não". O contexto, especialmente o que se segue, destaca o positivo — a alegria foi aumentada. Muitos eruditos têm, por isso, sugerido a emenda lo (para o, lhe). Estudos recentes no ugarítico confirmaram oque alguns eruditos sugeriram anteriormente, isto é, que/õ também expressa uma forte asserção positiva. Cf. William L. Moran, "The Hebrew Language in its Northwest Semitic Background", em The Bible and the Ancient Near East, ed. G. Ernest Wright (Garden City: Doubleday, 1961), cap. 3. Outras passagens no texto hebraico onde tõ ê interpretado como enfático são 2 Sm 23.19,23, par. 1 Cr 11.21,25. Se o tô dessas passagens fosse negativo, contradiria diretamente 2 Sm 23.18,22, par. 1 Cr 11.20,24. 


[10] Ou, como Delitzsch traduziu, "quebrado em pedaços" (KD, The Prophecies of Isaiah, 1.246). 


[11] Ver T. V. Brisco, "Midian, Midianites", em The International Standard Bible Encyclopedia, ed. Geoffrey Bromiley, 4 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1985), 3.349-351. 


[12] Joseph A. Alexander, Commentary on the Prophecies of Isaiah (republ. Grand Rapids: Zondervan, 1953), 

p.202. 


[13] Edward Young, The Book of Isaiah, 3 vols. (Grand Rapids; Eerdmans, 1965/81), 1.328, n. 63. 


[14] Delitzsch, em KD, The Prophecies of Isaiah, 1.247,248. Geoffrey W. Grogan, Isaiah, em The Expositor's Bible Commentary, ed. Frank E. Gaebelein,12 vols. (Grand Rapids: Zondervan, 1986), 6.74, omite a referenda ao lugar e ao papel dessa importante conjunção nos vv. 4,5 e somente comenta sua junção no v. 6, onde ele corretamente declara que todos os eventos precedentes encontram sua causa em Cristo (ibid,, p. 74). 


[15] Young declara, corretamente, que não havia nenhuma necessidade de falar da destruição das armas, porque 


[16] A LXX, Sirfaca e Vulgata refletem o niphal de qãra\ será chamado. 


[17] Cf. tais comentários como Calvino, KD e Young. 


[18] P.ex., o erudito judeu Isaac Leeser, em TheHoly Scriptures, 2 volumes (New York: Hebrew, s ,d ,),1.673, que traduz: "Maravilhoso, Conselheiro do Deus Todo-poderoso, do eterno Pai, o príncipe da paz." 


[19] Outra tradução judaica é o Targum: Maravilhoso Conselheiro, Deus poderoso, Aquele que vive para sempre, o Messias, em cujos dias a paz aumentará sobre nós"; e também a de Kimchi: "O Deus, que é chamado e que é Maravilhoso, Conselheiro, o Deus poderoso, o Pai eterno, chama seu nome o Príncipe da Paz" (também Young, Bookoflssiãh, 1.332); ver ainda o sumário não-publicado deMartin J. Wyngaarden, do CalvinTheological Seminary. E óbvio que essas traduções sugeridas não expressam o caráter divino do filho. 


[20] O primeiro, terceiro, quinto e sétimo termos qualificariam respectivamente o segundo, quarto, sexto e oitavo? 


[21] Cada um dos primeiros dois termos dá um nome específico. 


[22] HiplV (28.29) é melhor traduzido "maravilhoso em conselho" (cf. RSV, NIV). Embora divirja em forma de 9.6 (TM 95), tem o mesmo significado. 


[23] Alexander, Commentary on the Prophedes oflsaiah, p. 204. 


[24] Young, Book oflsaiah, 1334, n. 76. 


[25] Cf. cap. 10, subtítulo "Salomão, um Governante Real" 


[26] Em hebraico, *el, uma preposição que significa "para, em direção a", é totalmente diferente de *el, um substantivo que significa "Deus" (KoB, pp. 4549). 


[27] George B. Gray, A Critical and Exegetical Commentary on Isaiah, em ICC (New York; Scribner, 1912), p. 174. 


[28] R. B. Y. Scott, Isaiah em IB (1956), 5.233. 


[29] George A. Smith, "The Book of Isaiah", em The Expositor's Bible, ed. W. Robert Nicoll (Grand Rapids: Eerdmans, 1956), 3.652. Edward J. Kissane, The Book of Isaiah (Dublin: Richview, 1960), também escreve que isso não significava "que a pessoa era divina" (ibid,, p. 106). Ver também Skinner, Isaiah I-XXXIX, p. 75; e vários artigos escritos sobre o assunto. 


[30] Alexander, Commentary on the Prophecies of Isaiah, p. 204; Delitzsch, em KD, The Prophecies of Isaiah, 1.251-253; Young, Book of Isaiah, 1335-337. Young também se refere ao uso dessa frase em ugarítico, onde significa uma deidade, para distinguir dos seres humanos (1336). 


[31] O termo é usado também para referir-se a butim (saque ou despojo) ou presa (cf. BDB, p. 723, col. b, onde a tradução sugerida é "pai do butim", ou seja, "distribuidor do butim"). É usado desta maneira não mais do que cinco vezes em todo o Velho Testamento. 


[32] Cf. Young, Book oflsaiah, 1.333, dtando o alemão Volkmar Hemtrich. 


[33] Estabelecido isto, as referências ao filho ou à criança serão de agora em diante feitas com a inicial maiuscula: Criança ou Filho. 


[34] O substantivo marbeh está escrito com um mem fechado; normalmente, o men fechado ocorre somente no fim de uma palavra. A maioria dos eruditos vê aqui um problema de ditografia, uma repetição do men fechado da palavra hebraica precedente, Sãlôm. Young menciona algumas "interpretações imaginosas" insinuadas sobre este fenômeno (Book oflsaiah, 1:342, n. 83). 


[35] O substantivo mamlãkâ, "reino", tem a mesma raiz que malkút (cf. mãlak, "reinar" "ser rei" [KoB, pp 529-531,533,534]); os termos são intercambiáveis em muitos exemplos. Ambos podem referir-se ao ato de reinar e à autoridade de um rei, bem como à área sobre a qual o reinar e a autoridade são exercidos. 


[36] A maioria dos comentadores faz um ou dois comentários gerais sobre cada um dos termos, mas realmente não esclarecem o sentido peculiar de cada um, se são ou não sinônimos, e, se não são, qual a diferença. A confusão aumenta nas traduções, porque em algumas línguas um só termo (p. ex., em português: justiça) é empregado para traduzir ambos os termos hebraicos. 


[37] Cf. TWOT, 2.947-949 (miipSf); e 2.752-755 {çèdãqâ). 


[38] Não há possibilidade de essa frase referir-se a um milênio real histórico. 


[39] $èbã*ôt pode referir-se aos exércitos de Israel, às estrelas, aos anjos e a vários poderes celestes. Ver Hermann H.Schultz, Old Testament Theology, trad James A. Paterson (Edimburgo: T. &T. Clark, 1882), 2.134-141,214-241 (ver KoB, p. 791). Ver também Geerhardus Vos, Biblical Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1959),pp. 259-263. 


[40] O amor sempre procura manter-se a si mesmo e ao seu objeto; levanta-se em sua defesa; motiva ação ofensiva; e dá força e perseverança para cumprir a tarefa. 


[41] Cf .o que foi escrito nos capítulos precedentes sobre as mensagens proféticas de Joel, Naum, Amós e Miquéias, a respeito do caráter universal do reino messiânico. 


[42] Cf. cap.16, subtítulo "O Contexto Histórico de Miquéias e Isaías". 


[43] Cf. Is 9.6 CTM 95), um dos nomes dados à Criança ou Filho. 


[44] Cf. Edward J. Kissane, The Book oflsaiah (Dublin: Richview, 1960), p. 131. Ver também BHK. 


[45] Skinner, Is ai ah I-XXXIX, p. 95. Skinner não aceita o ponto de vista de Delitzsch (KD, Prophedes oflsaiah, 1.261,282), e de Bredenkamp, de que Isaías foi transportado para o futuro. É bom lembrar que a profeda preditiva não exige tal transporte para o futuro. Yahwéh revela tais circunstâncias futuras através dos profetas sem realmente transportá-los. 

Sigmund Mowinckel, He That Cometh, pp. 16-20, separa tanto 11.1-9 como 11.10 dos outros versículos do contexto imediato. 


[46] Cf. as referências abaixo. 


[47] Isaías não usa na passagem çemal} (ramo) nemma$?Sòô (pilar). Mas os dois termc» que o profeta emprega assemelham-se aos dois que ele escolhera antes (4.2; 6.13). 


[48] Em Pv 143, hofer, um "hapax legomenon", refere-se a um bastão ou vara, usada nas costas do tolo. 


[49] Isaías usa o termo como um rebento ou um pequeno ramo, deixado de lado para o fogo (14.19) 


[50] Por que a referência a Jessé e não a seu filho Davi? Comentadores como Alexander (Commentary on the Prophedes of Isaiah), Calvino (Commentary on the Book of Isaiah, 1372) e Young (Book of Isaiah, 1.378) concordam que isso se deveu à condição degenerada da casa davídica. 


[51] Ver também Mq 5.2 (TM 5.1) e Is 52.13-53.12, para compreender a elaboração desses fatos por Isaías, e o subtítulo "O Filho Sofredor", abaixo, cap. 20. 


[52] Nuaíi, "descer sobre", "pousar sobre", ou "descansar sobre" (KoB, p. 601). 


[53] Ver também outros exemplos no Velho Testamento da desdda do Espírito do Senhor sobre quatro juízes: Otoniel (Jz 3.10), Gideão (6 34), Jefté (11.29) e Sansão (13.25; 14.6). Note-se também a referência de Isaías à desdda do Espírito para capacitar uma pessoa não identificada (61,1). 


[54] KD, Prophecies oflsaiah, 1.282. 


[55] Cf. ErnstHengstenberg, Chrístology ofthe Old Testament, trad .TheodoreMeyer (Edimburgo: T, &T. Clark, 1868), 2.114,115. Young dá o nome gramatical de genitivo de causalidade (Book oflsaiah, 1:381, n. 8). 


[56] Para um estudo mais completo ver TWOT, 1366,367 (ddat); 1399,400 (yir>â). 


[57] Ver Calvino, Commentary on Isaiah,1376', Young, Book oflsaiah, 1383. 


[58] Cf. Alexander, Commentary on the Prophecies of Isaiah, pp. 251,252. 


[59] Young, Book of Isaiah, 1394. 


[60] Cf. o estudo das mensagens proféticas individuais nos caps. 14 e 15, acima. 


[61] É interessante notar que Mowinckel, que rejeita muitas das passagens tradidonalmente reconhecidas como sendo messiânicas, aceita Is 4.2; 7.10-17; 9.1-6; 11.1-10 como autênticas. Sua razão para selecionar estas, e a interpretação que faz delas, requer uma avaliação cuidadosa, podendo ser consideradas falhas em vários pontos (He That Cometh, pp. 15-18). 


[62] Para um estudo e interpretação amplos de várias perspectivas escatológicas, ver Robert G. Gouse, The Meaning oftheMillenium (Downers Grove, Iü.: Inter-Varsity, 1977), que apresenta quatro diferentes pontos de vista do reinado milenário de Cristo; Louis de Caro, Israel Toda/(Nutley, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1976), que fala do cumprimento da profecia bíblica; Anthony Hoekema, The Bible and the Future (Grand Rapids: Eerdmans, 1979), esp. cap.14, pp. 180-193,209-212; Hans K. La Rondelle, The Israel of God in Frophecy (Berrien Springs, Mich.: Andrews Umversity Press, 1983); Martin Wyngaarden, The Future of the Kingdom (Grand Rapids: Baker, 1955); Young, Book oflsaiah, 1.266-401. 


[63] Cf. Geerhardus Vos, Biblical Theology (Grand Rapids; Eerdmans, 1959), pp, 207,208, que contrasta a ênfase dos profetas do século VIII a.C. sobre arrependimento e mudança no presente, com a dos profetas do século VII a.C. sobre regeneração e transformação no futuro. 


[64] Em 2.2-4 Isaías fala da casa de Yahwéh sobre o cume de um monte, do qual a palavra sairá e atrairá as demais nações. Isaías usa um ponto de referência conhecido de sua audiência para apresentar um escopo universal que excede em muito as limitações do símbolo. Cf. Ridderbos, Het Gods Woord derProfeten, 2.208-214. Esse erudito holandês conclui: "O Novo Testamento ensina-nos que o cumprimento não se limita à letra, pelo contrário, consiste essencialmente na salvação espiritual que Cristo executou durante sua primeira vinda." 


[65] Cf. as obras relacionadas neste cap., n. 64, adma. 


[66] Escritores como Riggan {Messianic Theology and Chrístian Faitti) e Mowinckel (He That Cometh) não tratam seriamente as evidências que os profetas apresentam quanto à rejeição de certas predições proféticas específicas. Seu ponto de vista de que os profetas refletem as expectativas populares não pode ser fundamentado no próprio testemunho da Escritura. 


[67] John Skinner considera difícil aceitar que o cap, 12 fosse escrito por Isaías; ele encontra afinidades com o Cântico de Moisés e com certos salmos, admitindo que um editor acrescentou o cântico, Que esse cântico de Isaías tenha similaridades com o Cântico de Moisés, não é surpresa nenhuma. Isaías comparou o êxodo de Israel do Egito a um segundo levantamento da mão de Yahwéh (Is 11.11). Isaías conhecia a revelação prévia, conhecia o caráter de Yahwéh e conhecia suas promessas redentivas. Assim, por que não cantar como o grande profeta que o precedera? 


[68] Cf. Young, Book of Isaiah, p. 402, n. 31, para um estudo exegético da frase "tu te iraste". Calvino escreveu que o pensamento nesse cântico é que Deus, embora justamente ofendido com seu povo, satisfaz-se em infligir-lhe um castigo moderado e mostra-se disposto a ser pacificado (Commentary on the Book of Isaiah, 1398).