17 de julho de 2016

GERARD Van GRONINGEN - O Messias no Livro de Isaías 1: O Filho da Virgem

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O Messias no Livro de Isaías, 1: O Filho da Virgem

Os seis primeiros capítulos de Isaías constituem uma introdução incisiva para todo o livro.[1] O primeiro versículo afirma: Isaías, filho de Amoz, recebeu uma revelação de Yahwéh por meio de uma visão. O substantivo hãzôn (visão) e o verbo hãzâ (ele viu por visão) referem-se a um dos principais meios que Yahwéh emprega para informar seus servos, os profetas, o que eles devem proclamar.[2] Nesta introdução apresentaremos os principais subtemas de toda a profecia (ver quadro 8).

Por meio de uma sinopse, o quadro pode ser explicado do seguinte modo: o tema da profecia de Isaías é "a Salvação é de Yahwéh". Isaías, cujo nome tem o mesmo significado, foi chamado a proclamar esse tema. Ele o faz relembran­do ao povo do pacto seu fiel, soberano e santo Senhor, guardador do pacto. Isaías, entretanto, devia proclamar ao povo de Deus que Yahwéh tinha uma acusação contra ele pela quebra do pacto ratificado. O resultado desse proce­dimento é que Yahwéh achando culpado o povo, iria trazer julgamento sobre ele. A maldição do pacto (Lv 26.14-45; Dt 29.19-29) seria aplicada. O próprio Deus faria isso, mas através das nações, algumas das nações que o povo do pacto mais temia no tempo em que Isaías profetizou. Haveria, entretanto, esperança para o povo do pacto, se este retornasse ao modo de vida pactual. Yahwéh, entretanto, não retiraria o julgamento pelos pecados cometidos.

Enquanto seu julgamento estivesse sendo executado, suas promessas de um agente messiânico permaneceriam de pé e estariam sendo desdobradas; esse mediador do pacto cumpriria os propósitos de Yahwéh para o seu povo. Quando esses propósitos fossem realizados, aquelas nações, os próprios ins­trumentos do julgamento divino, seriam incluídas no povo do pacto do Senhor.

Em nosso estudo da revelação do Messias no Velho Testamento aquelas passagens que apresentam essa insigne pessoa (incluindo seus predecessores, tipos, e as metáforas usadas para referir-se a ele), seu caráter, experiências e obras, serão comentadas e interpretadas. Por ter sido o termo Filho utilizado como um conceito central das profecias mais antigas (p. ex. 7.14), o termo foi adotado em cada um dos dois títulos.

A Pessoa e Obra do Filho (Is 1-6)

Um Porta-Voz Profético

Is 1.1; 2.1 e 6.5-9a falam de Isaías, o profeta, que serviu como porta-voz de Yahwéh; ele também serviu como um tipo do Messias. Algumas evidências devem ser mencionadas. O nome do profeta significa "salvação é de Yahwéh ". Cumpre distingui-lo do nome de Oséias ou Josué, que significam "Yahwéh salva". É evidente, entretanto, que cada um desses três nomes tem o mesmo significado. Assim, de acordo com seu nome, Isaías fala da salvação que Yahwéh proverá. Em sua pessoa ele leva a mensa­gem que deve proclamar ao longo de sua carreira profética.

Já se fez referência, em comentário anterior, à linhagem real de Isaías.[3] Não se menciona em sua profecia que ele era de sangue real. Há, entretanto, algumas provas circunstanciais em apoio deste ponto de vista. Isaías tinha fácil acesso às cortes de Acaz (7.3) e de Ezequias (37.2), e morava em Jerusalém (8.3; 8.16; 30.8). A maneira como ele se dirige a seus compatriotas, fala das arrogan­tes esposas dos governantes (3.16) e investe contra a própria cidade (2.1), sugere uma estatura real. Seu tipo de discurso e seu uso da linguagem revelam uma dignidade adequada à realeza. Seu acesso ao templo (6.1) dá a isto apoio adicional. Há, pois, aspectos reais em sua pessoa. Ele é, entretanto, sujeito a experiências humilhantes: deve pregar, mas deve esperar rejeição pelo próprio povo do pacto ao qual se dirige (6.9,10); ele deve dar voz ao sofrimento por essa rejeição (53.1). Embora não tenha de suportar em sua vida pessoal a rejeição de sua esposa, como Oséias, ele fala da dor da rejeição sofrida por Yahwéh (5.7; 50.1). Como profeta, ele é predecessor do grande profeta que virá; e como profeta, ele prefigura o vindouro em sua realeza e humilhação. Em resumo, Isaías, o profeta, é um representante messiânico.

Sua experiência, ao receber sua missão profética, é única. Ele é introduzido à presença do Senhor por uma visão. É-lhe dada uma compreensão inesquecí­vel da soberania, glória, majestade e santidade de Yahwéh sentado no trono (6.1-4). Isaías é oprimido por sua própria indignidade. É, porém, ungido de um modo inesperado: é purificado e equipado para ser o porta-voz de Yahwéh (w.6-7). È preparado, depois disso, para dizer a Yahwéh: "Eis-me aqui. Envia-me" (v.8b). Torna-se, então, o enviado voluntário. Em o Novo Testamen­to Jesus repetidas vezes fala de si mesmo como o Enviado (Mt 10.40; Lc 4.18; 10.16; Jo 1.6; 4.34; 5.24; 8.16; 9.4; 165; 173,18; 20.21; G1 4.4; 1 Jo 4.10). Ele foi enviado, contemplando a glória do Pai e conhecendo sua vontade. Foi enviado plenamente cônscio da rejeição que iria experimentar. Isaías, como servo enviado, é um "preparador de caminho" para o grande "servo enviado" que serve como profeta, revelando a vontade de Deus Pai.

O Renovo

A frase semáh yhwh (renovo de Yahwéh) (Is 4.2) aparece diversas vezes na profecia de Isaías (por meio de diferentes substantivos hebraicos) e também nos profetas que se lhe seguiram (Jr 23.5; 33.15: Zc 3.8; 6-12). Sãmah significa surgir, brotar, como plantas quando surgem do solo ou como um rebento que surge do tronco e se toma um ramo.[4] Pelo uso que faz do termo, Isaías tem em mente uma árvore ou uma videira da qual cresce um ramo. Na passagem diz-se que o ramo é de Yahwéh (KJV) ou Ramo (NIV); é de Yahwéh, um rebento que Yahwéh fez surgir, não no sentido de um crescimento vindo do próprio Yahwéh. Em outras passagens afirma-se claramente qual é a fonte do ramo: é a cepa da casa de Jessé (11.1), ou seja, o filho mais novo de Jessé, Davi (Jr 23.5,6; 33.15,16).[5] O ramo de Yahwéh, portanto, refere-se ao Filho de quem Ele falou quando prometeu que a casa davídica seria uma dinastia para sempre (2 Sm 7.11-16).[6] A despeito das terríveis ameaças que Isaías teria de proclamar, ele é chamado a relembrar ao povo do pacto que as promessas de Yahwéh a Davi não serão esquecidas. A árvore da família davídica irá continuar a crescer até tomar-se o meio frutífero que Yahwéh pretendia que fosse, em favor de seu povo.

Quando fala do renovo de Yahwéh, em especial de seu fruto, Isaías empre­ga terminologia tomada do relato mosaico da redenção de Israel do Egito e da providencial proteção de Yahwéh e de seu cuidado por seu povo redimido enquanto no deserto (4.5,6). De fato, o Monte Sião purificado e renovado é descrito em termos do Monte Sinai, onde Yahwéh fez um pacto com seu povo e proveu meios miraculosos para a orientação, segurança e proteção de Israel. Isaías tem uma longa perspectiva histórica; o que Yahwéh fez por seu povo nos dias de Moisés e o que prometeu a Davi não foi esquecido. Na verdade, o que fora começado no passado seria certamente consumado.

O Renovo de Yahwéh é descrito por Isaías em termos de crescimento verdejante e do rico produto da terra. Os termos hebraicos para beleza e glória que descrevem o Renovo são paralelos aos termos para significar excelência (gã'ôn) e beleza (tip’eret), que descrevem o fruto da terra. A referência óbvia que Isaías tem em mente é que o povo do pacto será plantado na Terra Prometida e a partir desse lugar servirá a Yahwéh e será seu agente entre as demais nações (Gn 12.1-3). Yahwéh prometera a Abraão que sua descendência seria numerosa, próspera e famosa na terra "que mana leite e mel" (Êx 13.5; Dt 6.3). Dessa terra as bênçãos pactuais fluiriam para as demais nações. Isso é possível porque da semente da terra, da casa real que surgiu dessa semente, virá um que cumprirá todas as promessas e planos de Yahwéh.

Resumindo o que Isaías profetizou (4.2-6), é bom repetir que Isaías, usando a frase Renovo de Yahwéh (v.2), está-se referindo ao Messias prometido (ponto de vista mais estrito do conceito messiânico) que virá da dinastia davídica, a qual, por sua vez, é parte do povo com o qual pactuou no Sinai, e tudo isso em cumprimento de suas promessas a Abraão e mantendo seu propósito para com Adão.[7] Isaías tem muito mais a proclamar a respeito desse descendente de Davi. Entretanto, enquanto prega a respeito do pecado de Judá e profetiza a respeito do julgamento que está para vir, ele também proclama a firme execu­ção da salvação de Israel e Judá por meio do Messias prometido.

Um Toco

Isaías repete sua metáfora da árvore, ou parte dela, para a continuidade das promessas de Yahwéh aos patriarcas (6.13). Ele fala de árvores comuns na Palestina, o terebinto e o carvalho, que deixam somente um toco[8] no campo, quando um incêndio devastador varre a terra que já tinha sido devastada.[9] Uma enorme catástrofe vai engolfar Jerusalém e Judá por causa de sua rebelião contra Yahwéh e pela rejeição de sua palavra falada por seu servo Isaías. A devastação parecerá completa; a aniquilação total do povo do pacto afigura-se certa. As poucas pessoas que ficarão na terra não poderão aparentemente oferecer ne­nhuma esperança para o ressurgimento do povo do pacto como um grupo étnico identificável. Eles serão como um tronco morto, enegrecido, de uma árvore que não é mais do que um toco.[10] Yahwéh, entretanto, assegura a Isaías que há ainda vida nesse toco — a santa semente. O termo semente lembra logo as promessas de Yahwéh a Abraão a respeito da semente que ele podia esperar (Gn 155; 17.7,19). Ela seria uma semente única (Isaque) e também numerosa (um povo). No devido tempo, a semente numerosa seria novamente a fonte de uma semente única. A garantia dada a Isaías é de que as promessas feitas a Abraão e a sua posteridade serão certamente cumpridas. Nas profecias seguin­tes Isaías torna a repetir e expandir o real conceito da semente como aquele meio pelo qual Yahwéh dará continuidade ao seu povo pela redenção e restauração da semente (plural) por intermédio de uma semente (singular).[11]

O Filho da Virgem (Is 7.1-17)

A passagem que registra a entrevista de Isaías com o rei Acaz de Judá (Is 7.1-17) não pode ser devidamente compreendida, a menos que se conheça e compreenda a cena nacional e internacional que compõe o momento histórico para à mensagem de Isaías a Acaz.[12]

Embora alguns comentaristas e teólogos levem em conta a situação históri­ca, isso não tem sido de muita ajuda para que os eruditos concordem sobre alguns itens intimamente relacionados. As interpretações sobre um versículo 7.14 , a profecia de Imanuel, são numerosas e, em alguns casos, contraditó­rias.[13] As diferenças surgem especialmente em pontos tais como: se o substan­tivo ha'almâ deve ser traduzido "virgem" ou "mulher jovem"; se ela, uma jovem exemplar casada, conhecida na época, estivesse já grávida; se a jovem senhora era esposa de Isaías (8.3); se o fato (a virgem dar à luz um filho) ocorreria no tempo de Acaz e, portanto, teria relevância direta para o rei em sua situação, ou se o nascimento ocorreria num futuro distante e, neste caso, teria pouca ou nenhuma relevância para Acaz; se deve considerar-se o termo como uma simples metáfora para Jerusalém; se "Imanuel" seria o nome da criança ou se deveria ser aplicado ao remanescente ao qual o nome Shear- Jashúb ("um resto voltará") também se refere; se o sinal que Isaías oferece a Acaz é de esperança ou de julgamento que viria por causa da descrença de Acaz.

Neste nosso estudo a exposição da passagem não incluirá interação com os vários autores que têm apresentado pontos de vista alternativos sobre vários pontos. Cremos que é injustificado dedicar tempo e energia a uma análise pormenorizada de outros pontos de vista, especialmente em razão do grande volume do material que exigiria tratamento. Além disso, os livros publicados sobre Isaías 7 são facilmente encontráveis para consulta.[14] E por fim, uma exposição bíblica realmente positiva será de maior valor do que um tratado apologético ou polêmico.

O Seu Contexto

Vários estudiosos têm destacado, e corretamente, que Is 7.14 não pode ser compreendido sem que se considere o seu contexto, particularmente os versí­culos 1-9. Há quatro importantes temas que Isaías combina ao apresentar a palavra de Yahwéh.

Primeiro, a palavra é dirigida à casa de Davi e, através dela, a toda a nação de Judá sob seu governo. Acaz, filho de Jotão, é rei em Judá (7.1); é um descendente direto de Davi e Salomão. Portanto, o pacto que Yahwéh fizera com Davi (2 Sm 7.14-17; 23.5) inclui Acaz. As referências repetidas à casa real na passagem de Isaías — "a casa de Davi" (7.2,13), "a casa de nosso pai" (7.17) —colocam o pacto que Yahwéh fizera com Davi como contexto para a mensa­gem de Yahwéh a Acaz; além disso, o pacto davídico é o tema central que Acaz deve lembrar. Será a base para a confiança e a fonte de força para ele, que serve na qualidade de rei. Acaz, filho da casa davídica, tem o privilégio e a respon­sabilidade de servir como agente pactual de Yahwéh durante um tempo difícil da história política de Judá.

Isaías faz uma breve referência à causa da dificuldade de Judá e de Acaz. O profeta chama a atenção para Rezin, rei de Aram (NIV) ou Síria (KJV, RSV), e Peca, rei de Israel (7.1,2/4,5). O escritor de 2 Reis e o cronista dão-nos alguns pormenores reveladores.[15] Acaz por seus pecados (2 Rs 16.2-4, par. 2 Cr 28.2-4) trouxe o julgamento de Yahwéh sobre si mesmo e sobre Judá: Aram e Israel juntos derrotaram Judá. Aram levou muitos cativos de Judá para Damasco (2 Cr 28.5) e Israel matou ou levou milhares de judaítas — homens, mulheres e crianças — cativos para Samaria (2 Cr 28.8). O profeta Odede, entretanto, censurou os israelitas pela matança de membros do povo do mesmo pacto e ordenou que esses cativos tivessem permissão para voltar a Judá (28.9-11,14). Depois que as duas nações do norte tinham feito suas tentativas separadamen­te, concordaram em estabelecer uma aliança.[16] Esse pacto foi planejado para fortalecê-las contra a Assiria. Essas duas nações desejavam que Judá se juntasse a elas em aliança contra a Assíria. Como Acaz recusou, Rezin e Peca decidiram suprimir a casa real de Davi, dividir Judá, e colocar Tabeal de Gileade, um vassalo de Aram, como rei sobre a casa de Judá (Is 7.5,6). Isaías diz francamente: os vizinhos do norte "resolveram fazer-te mal" (rã'ã), ou, segundo a New International Version, "planejaram a tua ruína" (Is 7.5). A casa de Davi está sob uma ameaça terrível: a remoção da casa real de Judá e a eliminação do reino de Judá parecem iminentes.

Isaías registra que um grande temor se apossou de Acaz e do povo de Judá (7.2b). De modo pitoresco, Isaías descreve o resultado desse temor (ou mesmo terror). Como as árvores do bosque se agitam com o vento[17] {nüa' significa agitar-se, tremer, ser sacudido), assim ficou agitado o coração de Acaz e o coração do povo de Judá tremia e vergava. Nem Acaz nem o povo de Judá se lembraram do pacto de Yahwéh com Davi e sua semente. De fato, Acaz tinha rejeitado esse pacto e suas promessas. Tanto o autor de Reis quanto o cronista referem-se à idolatria de Acaz e ao sacrifício de seus filhos (semente do pacto) no fogo, seguindo o "detestável caminho das nações" (2 Rs 16.3, par. 2 Cr 28.3, NIV). A passagem de 2 Reis acrescenta que Acaz também "andou no caminho dos reis de Israel". Acaz e Judá não deviam esperar outra coisa senão o que Yahwéh dissera a Davi: "quando ele (um descendente de Davi) vier a transgre­dir, castigá-lo-ei com varas de homens, e com açoites de filhos de homens" (2 Sm 7.14b NIV). Na verdade, Acaz estava sendo punido: "homens" o estavam açoitando. E uma punição ainda mais severa o aguardava. O coração de Acaz de maneira compreensível se agitava de medo: é terrível antecipar a plena execução da maldição do pacto de Yahwéh. Tinha sido uma experiência devastadora experimentar o tratamento inicial que Yahwéh dera a Judá por meio dos reis de Aram e Israel (2 Cr 26.5). Parecia que uma tempestade ainda mais devastadora estava formando-se à frente.

Segundo, Yahwéh não tinha esquecido o que prometera a Davi: "mas a minha misericórdia não se apartará dele" (2 Sm 7.15). Consideremos as decla­rações claras e encorajadoras que Yahwéh, o Senhor,[18] faz por meio de Isaías a Acaz, a respeito dos planos de Rezin e Peca para destruir a casa de Davi, dividir Judá e colocar no trono um estrangeiro como rei do reino dividido: lõ’ tãqüm wèlõ’ tihyeh (não subsistirá nem acontecerá) (7.7). Quando se afirma na Escritura que o pacto de Yahwéh está firmemente estabelecido (p. ex., Gn 17.7), usa-se o verbo qum. Na passagem de Isaías este verbo é usado com uma negativa enfática: lõ’ (não). O pacto de Yahwéh com Davi está firmemente estabelecido: ele existe e funciona. A aliança dos dois reis para anular o pacto de Yahwéh, não terá resultado; não acontecerá; nunca existirá. Os dois reis são descritos como "dois tocos de tições fumegantes" (7.4b). Isaías emprega um contraste: os inimigos do pacto davídico e da casa real são tições mortos, quase queimados de todo; a casa de Davi, embora referida como um toco, é também um ramo frutífero (4.2; 11.1). A mensagem de Isaías, da parte de Yahwéh, para a casa de Davi é que o pacto dele com Davi está firmemente estabelecido; Ele, o soberano Senhor, não esqueceu suas promessas a Davi.

Terceiro, Yahwéh tem também uma palavra para Acaz, referente ao povo de Judá. Essa é introduzida de um modo peculiar. Yahwéh instrui Isaías a tomar consigo seu filho mais velho quando for encontrar-se com Acaz. A relevância de tomar consigo o menino não é somente expressar confiança em relação ao futuro (isto é, o filho fala da geração que se segue). Mais importante é o nome hebraico do filho: Se’ãr yãsâb, "um remanescente voltará". O real conceito de um remanescente aparece repetidas vezes nos profetas (p. ex., Jr 40.11,15; Mq 2.12), porque se refere ao núcleo, ao coração do povo de Yahwéh. Esse núcleo consiste dos seguidores fiéis em Judá; eles serão os protegidos. Eles representam a continuidade do povo do pacto de Yahwéh através das eras, quaisquer que sejam as circunstâncias. O verbo Sâb, "retomar e recuperar sua boa sorte", pode ser entendido de três maneiras: (1) o núcleo do povo de Yahwéh retomará do desastre político e militar sofrido nas mãos de Israel e de Aram. Isaías, isto deve ser compreendido, deu esse nome a seu filho quando muitos dos filhos de Judá tinham sido capturados. (2) O retomo do remanes­cente de um futuro exílio talvez seja contemplado. (3) A mensagem pode ser também o retomo de uma parte do povo ao serviço de Yahwéh, com um coração amoroso e obediente. Qualquer que seja a relevância do nome do menino, pode-se dizer com toda confiança que Isaías, ao dar a seu filho o nome "Shear-jashub" (RSV), expressa sua fé em Yahwéh e a confiança de que Ele manterá a semente de Abraão. Esta é a mensagem que Acaz deveria ouvir, crer, e dela receber confiança.

Quarto, Isaías traz a palavra de Yahwéh a Acaz a respeito dos privilégios e responsabilidades que ele, como rei davídico, tem a obrigação de exercer. Acaz é admoestado a agir de acordo com o pacto que Yahwéh fizera com Davi. Isaías deve dizer: (1) HiSSãmer (niphal; guarda, vigia, preserva). Ordena-se a Acaz que vigie a si mesmo; ele não deve ser tomado pelo terror; não deve apressasse nem ser arrastado a uma atividade tola (7.4). (2) Hasèqêf (hiphil de Sãqat, estar quieto, imperturbável). Mais tarde Isaías usará o termo para referisse ao fruto da justiça na vida de alguém (32.17). (3) ’Al-iírâ’ (não temas). Yahwéh dirigi­ra-se a Abraão com idêntica frase, quando o patriarca ficou preocupado com o seu futuro, depois de ter derrotado os cinco reis (Gn 15.1). (4) Lèbóbkã ’al- yêrak. Isaías ordena que Acaz aja responsavelmente como um líder do pacto. Ele deve ser o destemido e confiante pastor do povo de Yahwéh, como o fora Davi (SI 7870-72; cf. Jr 23.3,4; Ez 34.11-16). Ele deve descansar nas promessas que Yahwéh fez a Abraão e Davi. Ordena-se ao rei que receba coragem, força e firmeza do fiel autor e mantenedor do pacto — o próprio Yahwéh. Acaz é chamado a cumprir seus deveres como agente do pacto de Yahwéh.

Isaías conclui seu primeiro discurso com uma advertência: (7.9b): ’tm lõ’ ta’âmînû kl lõ’ tê’âmënû (se não estiveres firme, então não ficarás firme). Isaías usa aqui o verbo ’ãman (que tem várias nuances; o sentido exato, dependendo do contexto, é confirmar, suportar, ter fé, exercer confiança). No niphal, que é usado aqui, as significações são tornar-se firme, estar seguro, estabelecido, confirmado, ou ser verdadeiro.[19] Indubitavelmente, Isaías usa um jogo de palavras[20] e uma frase de causa-e-resultado ("se-então") para levar Acaz a compreender que lhe é absolutamente necessário crer na palavra de Yahwéh, confiar nele completamente e extrair dele irrestrita força, segurança e firmeza. Assim, o profeta aponta o único e exclusivo caminho que Acaz pode seguir se quiser tornar-se um líder forte e confiável. Há somente um caminho a seguir no exercício de sua realeza: confiança em Yahwéh de todo o coração. O resultado disso será a consolidação contínua do trono de Davi e a segurança duradoura do povo de Judá.[21]

A Profecia

Acaz, rei de Judá, estava envolvido por uma crise de proporções políticas e militares.[22] Isaías diz a Acaz que a crise é, primeiro do que tudo, de crença e confiança em Yahwéh e em sua palavra e pacto (7.9b). Acaz treme de medo ao pensar que Aram e Efraim (Israel) podem destruí-lo e a Judá; Isaías fala-lhe a respeito da descrença e falta de confiança que o estão destruindo.

Depois do discurso inicial de Isaías a Acaz vem logo um segundo (7.10-17), sobre o qual algumas considerações exegéticas são apresentadas em seqüência.

7.10. O texto afirma que Yahwéh se dirige a Acaz. Como Ele é citado na terceira pessoa nos versículos 11 e 13, devemos entender que Isaías transmite a palavra de Yahwéh. Não se deve concluir daí que o texto está incorreto;[23] o que deve ser compreendido é que a mensagem que Acaz recebe é "de uma origem mais alta", isto é, é uma revelação de Yahwéh mesmo, em lugar de quem Isaías fala.[24]

O verbo yôSêp (hiphil deyõsap, acrescentar), deixa claro que a passagem se segue diretamente à que a precede. Alguns comentaristas têm sugerido que pode ter decorrido um período de tempo entre elas. John Skinner, entretanto, está certo quando escreve que é mais natural supor que a segunda comunicação vem imediatamente depois da primeira.[25] Acaz, evidentemente, não respon­deu positivamente à admoestação (7:9b) para "ser firme em sua confiança em Yahwéh". A graça de Yahwéh se revela no fato de que Acaz não é repreendido, mas são-lhe até oferecidos conselho e assistência para servir como um repre­sentante respeitável e eficiente da casa davídica e como agente de Yahwéh.

7.11. èè’al-lèkã (qal de Sã’al, pedir, pedir para si mesmo). Yahwéh ordena a Acaz qúe peça mê'im yhwh (de Yahwéh). Yahwéh exige obediência, mas também oferece a assistência e a garantia de que Acaz tão desesperadamente necessita. É evidente que Yahwéh está profundamente preocupado com Acaz, que deseja fortalecer o rei e quer que o ofício real funcione de acordo com os preceitos do pacto.

Yahwéh está preparado para fazer por Acaz o que fez por Moisés, quando a incerteza fez que esse grande profeta hesitasse (Êx 3.12) — dar um sinal (’ôt). No caso de Moisés o sinal, uma ocorrência desusada, a ocorrer então e ali, garantia a confiabilidade da afirmativa que Yahwéh lhe fez. O sinal a Acaz não precisava ser um fato cumprido imediatamente diante do rei. Contudo, quer o sinal a ser pedido fosse um fenômeno miraculoso ("nas mais profundas profundezas ou nas mais altas alturas", NIV), uma promessa, uma profecia, ou o que quer que fosse, devia ser uma evidência segura de que a mensagem de Yahwéh trazida por Isaías tomar-se-ia uma realidade. As duas nações amea­çadoras não seriam bem sucedidas em seus planos, mas seriam despedaçadas (7.8-9). O conselho de Isaías a Acaz, de requerer uma confirmação da palavra de Yahwéh, mais uma vez exige fé por parte de Acaz. O profeta pressiona o rei a responder positivamente ao que ele dissera antes, "permanecer firme em tua fé" (cf. 7.9). Acaz é chamado a ser um fiel e verdadeiro representante da casa de Davi e um obediente agente real de Yahwéh no meio do trêmulo povo de Judá (7.2).

7.12. Acaz responde com lõ’ ~’eSè’al (não pedirei). A resposta pronta e abrupta de Acaz indica sua recusa em obedecer e confiar em Yahwéh. Acaz escolhe o caminho da descrença; é o caminho seguro para uma severa crise para ele e para seu povo. A escolha de Acaz é óbvia: uma aliança com a Assíria e, por meio dela, uma vitória, ele espera, sobre seus inimigos do norte. Mas Acaz não expressa sua razão óbvia para recusar-se a pedir um sinal. Ao contrário, ele dá uma razão que se poderia chamar de bíblica e religiosa: W^àriãseh ’et-yhwh (não tentarei Yahwéh). Israel, no deserto, tinha tentado Yahwéh. O povo tinha duvidado de sua fidelidade e capacidade de cuidar dele. (Êx 17.2,7; Nm 14.22), e Moisés o censurou por pedir sinais da providência de Yahwéh. Moisés advertira os israelitas, quando estes estavam a ponto de atravessar o Jordão, para não tentar, ou pôr à prova, a paciência de Yahwéh seu Deus (Dt 6.16). A capacidade de Acaz de "citar" a letra, não o espírito, da lei mosaica, entretanto, é a maior prova de sua rejeição da presteza de Yahwéh em apoiá-lo e sustentá-lo. Ele sabia o que Yahwéh fizera no passado; Deus tinha dado sinais e provas de seu poder soberano. Acaz também sabia que, se Yahwéh oferecia um sinal como uma confirmação de sua palavra, ele, o rei, não estaria testando, tentando ou provando Yahwéh, se aceitasse o oferecimen­to, como Gideão tinha feito antes (Jz 6.36-40), e pedisse qualquer sinal a Yahwéh. A réplica de Isaías evidencia que Acaz fez precisamente o que disse que não faria.

7.13. Isaías fala incisivamente a Acaz; dirige-se a ele como a casa de Davi (bet dãwid), que ele realmente representa. A pergunta retórica encerra uma severa censura. Acaz está fatigando "homens", isto é, Isaías e os seguidores de Yahwéh em Judá. E isto bastante? Não! Tem ele também de talè’ü (hiphil de lã’â, ser enfadado, impacientado) "meu Deus?" Isaías faz clara sua posição. Yahwéh é o Senhor Deus; Acaz está fazendo Yahwéh impaciente. Acaz é advertido de que, embora Yahwéh se tenha revelado um Deus paciente, o rei rebelde está levando essa paciência ao limite. A descrença e rejeição por parte de Acaz, impacientando Yahwéh e seus servos hebreus, não impedirão a ação de Yahwéh. Ele fará o que pretende: dará um sinal.[26]

7.14. Lãken (portanto). O que precede é a razão do que segue. O medo de Acaz, o terror do povo, a oferta de um sinal por Yahwéh, e a recusa de Acaz de ser um fiel, confiante e obediente representante da casa de Davi, que está ameaçada de destruição, que, porém, recebera de Yahwéh a promessa de que haveria de perdurar, movem Isaías a fazer a seguinte declaração: yttten ’âdõnãy hü‘ lãkem (Adonai dará, ele a vós). Isaías usa o nome Adonai para dar ênfase a que Yahwéh é o soberano Senhor, inclusive de Acaz, dirigindo e controlando a casa de Davi. Acaz tem de submeter-se. Ha, significando "ele" nesse preciso contexto, seria melhor traduzido "ele mesmo". Nenhum outro, senão o próprio Yahwéh, o Senhor, determina os eventos e o destino dos povos, das casas reais e das nações. Acaz não tem nenhum lãkem (a vós) alternativo; a forma plural é usada para designar a casa de Davi, então e no futuro. Yttten significa dará. Do Senhor ao servo será dado um sinal (’ôt). O que ele se recusa a pedir, por causa de sua descrença, que, porém, ele e a casa de Davi requerem, será dado — não alguma coisa que acontecerá imediatamente, mas um fato seguro a ser realizado, o qual confirmará a palavra de Yahwéh.[27]

Hinriêh (contempla, vê, conhece isso agora) é empregado para chamar a atenção para o fato específico a ser afirmado. Young, em sua discussão da profecia de Imanuel, considera a partícula como introdutória de uma visão que Isaías recebeu.[28] É verdade que hinnêh é usado no contexto de receber uma visão, mas ocorre também em outros contextos, por exemplo, Gn 1.29 (eis que vos tenho dado todas as ervas...) e Êx 1.9 (o rei do Egito chama a atenção para o crescimento da população de Israel). Isaías pede a Acaz que preste especial atenção. Não há indício de uma visão súbita dada a Isaías enquanto ele fala a Acaz.

O substantivo articulado ha'almâ tem motivado muitas páginas escritas por eruditos, estudiosos e autores populares; alguns, entretanto, fazem apenas uma breve afirmação, expressando uma preferência ou opinião.[29] Os traduto­res da Septuaginta escolheram o substantivo grego parthenos, que tem o sentido específico de "virgem" (A, Símaco e Teodócio têm o termo grego neanis, "mulher jovem", que pode referir-se a uma virgem ou a uma jovem casada). Mateus, o Evangelista, traduz a passagem, via Septuaginta, pelo grego parthenos, "virgem". Um segundo substantivo, mais comum (bêtülâ), usual­mente traduzido "virgem", pode trmbém designar uma jovem noiva ou mes­mo uma mulher que "conheceu", isto é, teve relações íntimas com um ho­mem.[30] Se forem examinadas todas as referências do Velho Testamento em que ocorre o termo hebraico 'almâ — tanto no singular: Rebeca (Gn 24.43 [NIV donzela; KJV virgem; RSVmoça], também bètülâ em 24.16 [RSV donzela; KJV, NIV virgem]) e Míriam (Êx 2.8 [NIV, RSV menina], e na relação de um homem com uma donzela (Pv 30.19), e no plural (SI 68.25 [TM 26]; Ct 1.3 [NIV, RSV, donzelas], 6.8 (1 Cr 15.20; SI 46.1 [alãmôt sugerida como a relacionasse com 'almâ, é de sentido incerto, possivelmente um termo de cunho musical, assim NIV mg.]) — tem-se de concluir que 'almâ indica primariamente uma virgem como Rebeca ou Míriam ou virgens, possivelmente jovens cantoras casadas, embora não haja evidência concreta para essa asserção.

Tem havido muita discussão a respeito do uso e significado do termo ugarítico glmt encontrado em uns poucos documentos de Rás Shamra. O peso da evidência é em favor do significado de "virgem", pois galmatué semelhante a 'almâ. Alguns eruditos têm argumentado que o contexto não dá indicação suficiente para apoiar o significado de virgem, enquanto outros consideram a evidência como a confirmá-la.[31]

Um exame dos materiais disponíveis a estudiosos e peritos, como indicado acima, leva-nos à segura conclusão de que, com base no uso do termo tanto em hebraico quanto em ugarítico o termo hebraico 'almâ deve ser traduzido por "virgem". A Septuaginta dá pleno apoio a isto e o testemunho do Novo Testamento (Mt 1.23) dá a palavra final. Isaías disse e pretendeu dizer virgem (cf. KJV, NIV, RSV mg.).

Outro fato deve ser mencionado. Isaías usa um artigo definido, ha 'almâ, a virgem. Isto quer dizer que ele fala de uma mulher bem conhecida, tanto dele quanto de Acaz. Tem sido sugerido que se deve preferir aqui o uso genérico do artigo definido;[32] poderia ter sido usado, então, para diferenciar entre mulheres — aquelas que tinham conhecido intimamente um homem, e aquelas que não o tinham. O uso geral do artigo definido e o próprio contexto aqui, de dar um sinal confirmatório, apóiam a preferência pela tese de que Isaías falou de uma jovem específica, ainda não casada. JHarâ tem o sentido de estar grávida; normalmente refere-se a alguém que teve relações sexuais e que concebeu, mas ainda não deu à luz. Esse é o sentido óbvio do termo em Gn 16.11: hinnãk harã (eis que [tu estás] grávida), e isso é seguido do mesmo verbo na forma em que aparece na passagem de Isaías, "e darás à luz". A questão a ser considerada é: Como no caso de Agar que já estava grávida, porque Abraão havia-se "deitado" com ela (NIV), devemos também considerar que o profeta está falando da virgem que já está grávida e dará à luz?

O predicado harâ aponta para "ele" (masculino) ou para um adjetivo verbal; o texto não contém o pronome "ela" (feminino), hãrãíâ, como seria de esperar. Se fosse usado o particípio feminino hôrâ, a palavra poderia ser interpretada como a expressar o ato ou condição, sem referência ao tempo. Edward /. Young interpreta o termo no sentido de "estar grávida", mas ele considera que isso ocorre numa visão que Isaías teve. Clements também considera apropriado traduzir o termo como "está grávida", mas acrescenta que a interpretação messiânica tem encorajado o uso do tempo futuro, e, então, admite, significativamente, que o hebraico possivelmente teria o sentido de "tomar-se grávida".[33] [34] É óbvio que Mateus entendeu o termo como uma refe­rência futura (Mt 1.23). Se o termo deve ser entendido com referência ao futuro no contexto de Isaías a falar com Acaz, a frase poderia ser traduzida como segue: "Considera isto: a virgem, que agora ainda não está grávida, nem mesmo casada, não obstante (como um sinal para ti), num futuro não muito distante estará grávida, e no devido tempo dará à luz um filho."

Wêyõledet bên (e dará à luz um filho). A forma do verbo yalad é um particípio feminino. Quase todos os lúcidos comentadores concordam em que esse termo deve ser traduzido como futuro. John Skinner acrescenta que, desde que o nascimento é certamente futuro, parece natural tomar o primeiro verbo também no sentido futuro.[35]

Weqãrã’t Sèmô ’tmniãnu tl (e ela chamará seu nome: Conosco Deus). A pessoa que dará nome à criança é a virgem (mas ver LXX, gr. kaléseis, tu chamarás), que conceberia e daria à luz o filho. Falando na terceira pessoa do singular, Isaías dá à passagem um contexto diferente daquele de Yahwéh falando diretamente a Agar (Gn 16.7-14), ou seja, Yahwéh dirige-se a Agar, uma fugitiva mulher grávida, ao passo que Isaías se dirige a Acaz, que não está diretamente envolvido senão para ser informado da futura concepção da virgem e do nascimento do filho, como um sinal. O nome a ser dado é uma confissão pactual que Acaz, da casa de Davi, deveria ter feito.[36] Isaías, ao informar a Acaz qual será o sinal e o nome, novamente o chama a ser um servo crente e confiante de Yahwéh, que tinha prometido ser Deus de seu povo, estar com ele e abençoá-lo. A casa de Davi e o povo sob seu governo não tinham, pois, motivo para atemorizar-se, muito menos tremer de terror.

7.15,16, Os dois versículos seguintes falam do filho que nascerá, e especial­mente dos primeiros estágios de seu desenvolvimento.[37] Isaías fala de duas situações no estágio inicial do desenvolvimento da criança: (1) ela estará comendo coalhada e mel, ou alimentos sólidos; e (2) estará num estágio de saber diferenciar entre o bem e o mal, ou entre o procedimento certo e o errado. Essa diferenciação será demonstrada pela rejeição do mal e do errado e pela escolha do bom e do certo. É difícil determinar a relação exata entre essas duas frases; ela é expressa pela preposição lê prefixada ao termo da'at (conhecendo, conhecimento). Se interpretada como "quando" (NIV, RSV), indicaria que a criança começaria a comer alimentos sólidos quando fosse capaz de saber o que rejeitar e o que escolher. Se interpretado como "antes" (LXX, gr. priri), indicaria que a criança já estaria comendo alimento sólido quando fosse capaz de diferenciar. Portanto, o segundo, "antes", sugere que a criança está um pouco mais madura do que o primeiro, quando. Em qualquer caso, porém, a criança não teria muita idade. Portanto, presume-se que um tempo relativa­mente curto teria passado entre o nascimento e o tempo de rejeitar e escolher. Não foi definido o tempo que teria decorrido entre a palavra de Isaías a Acaz e o nascimento da criança. Os que traduzem o termo hãrâ por "está grávida agora" indicam três ou quatro anos no máximo. Se, entretanto, o termo é traduzido por "se tomará grávida", o espaço de tempo pode ser maior. Um fator deve ser lembrado: Isaías está-se referindo a um período curto de tempo, porque no verso 16 ele assegura a Acaz que a terra das duas nações (Aram e Israel), que ele teme, será devastada. Isso deve acontecer num futuro muito próximo, ou seja, antes que essas nações executem seus planos de derrotar Judá, remover a casa de Davi e submeter Judá ao seu domínio.

A ênfase principal dada pelos versículos 15-16 está no fim dos reinados de Peca de Israel e Rezim de Aram. Acaz precisa ouvir e crer que, ao contrário dos sinais e expectativas aparentes, Yahwéh protegerá e preservará a casa de Davi e o povo sob seu governo, bem como rechaçará totalmente qualquer ameaça das duas nações do norte. A referência ao estágio de desenvolvimento da criança é para reforçar aquela ênfase e acrescentar que Acaz não terá de esperar muito tempo para ver o fim da ameaça.

7.17. Isaías continua a dirigisse a Acaz com uma forte e severa advertência. Como já mencionamos acima, Acaz estava pensando em apelar à Assiria contra os dois reis ameaçadores da vizinhança. Isaías afirma claramente: nem Aram nem Israel trarão devastações sobre Judá; ao contrário, a nação à qual Acaz intenta aliar-se tornar-se-á o instrumento de Yahwéh para destruição. A Assí­ria, na verdade, impedirá que os dois reis do norte se tomem uma ameaça, porém essa mesma nação causará uma tragédia muito maior. Tal tragédia trará humilhação e decréscimo de estatura política, tanto quanto a separação das dez tribos da casa davídica o tinha feito dois séculos antes. Isaías não profetiza que a Assíria dominaria Judá; ele adverte, entretanto, que a Assíria seria uma ameaça maior para Judá do que Israel e Síria juntos.

Isaías conclui sua palavra a Acaz pintando umas poucas cenas do que acontecerá quando Yahwéh levar adiante seu julgamento sobre Judá (7.18-25). "Moscas" do Egito[38] e "abelhas" da Assíria, chamadas por Yahwéh (v.18), invadirão a terra — até mesmo os lugares nus e rochosos serão infestados; então a terra e a nação de Judá serão marcadas pela pobreza econômica, privação doméstica e caos na agricultura. Outras referências bíblicas indicam que Acaz rejeitou as advertências de Isaías (2 Rs 16.17,18; 2 Cr 28.22-25), tal como fizera com a oferta de um sinal.

Diversas implicações teológicas surgem da passagem messiânica que aca­bamos de discutir.

Primeiro, o tema central dessa profecia é a casa de Davi. Acaz representa essa nobre casa; representa, aliás, tudo o que Yahwéh planejara e prometera com vistas ao agente mediador real que deveria cumprir todas as promessas pactuais que Yahwéh fizera. Esse agente real tinha sido, primeiramente, nin­guém mais do que o próprio Adão, que, após a queda, foi restaurado pela promessa de redenção através da semente da mulher (Gn 3.15). Yahwéh manteve sua promessa. Uma semente real foi estabelecida, de Noé, através de Sem, a Abraão, cuja linhagem foi transmitida através de Jacó e Judá e, final­mente, trazida à plena dignidade real em Davi e Salomão. A Davi particular­mente foi feita a promessa de uma casa permanente (2 Sm 7.8-16). A linha real da semente tinha sido ameaçada por ação satânica desde os primórdios da existência de Adão. Yahwéh manteve-a protegida e preservada. Ataques cons­tantes lhe foram feitos, de fora e de dentro da linhagem real. O próprio Acaz representa um perigo para a continuidade da semente real herdada por meio de Davi, Abraão e Adão. Ele recusou-se a ser um agente mediador do pacto, como um rei pastor que deveria cumprir a exigência de fé, confiança, obediên­cia e serviço pactuais. A recusa de Acaz em acatar as advertências de Isaías deve ser vista como um desafio direto e perigoso ao plano de Yahwéh para a redenção de seu povo. Mas Yahwéh não está disposto a renunciar às suas intenções. Ele faz saber, por seu porta-voz Isaías, que, assim como as intenções dos reis de Israel e Aram não serão levadas a cabo (7.7), assim também a recusa de Acaz em ouvir a palavra de Yahwéh não invalida Sua palavra nem a vontade e a obra de Yahwéh. Essa certeza é comunicada pela referência à virgem como um sinal.

Segundo, a quem Isaías se refere quando fala da virgem? Devemos fixar alguns pontos bem definidos. (1) Acaz, recomendado a pedir um sinal, é por este meio encorajado a seguir no caminho pactual de seus antepassados, e nesse caminho ser um elo seguro dentro da linhagem real que vai de Davi ao Filho, o qual seria maior do que o próprio Salomão. Portanto, a atenção continua sobre a casa real davídica. (2) Acaz é instado a pedir um sinal; ele necessita de um. Isaías diz que o Senhor (’ãdõnãy) lhe dará um sinal. O profeta toma-o perfeitamente claro: a virgem é um sinal para ele. (3) Não há nenhuma indicação sobre a identidade da virgem mencionada por Isaías. Deve ser entendido, entretanto, que ela pertence à família real, porque essa família é o tema central da mensagem; ela devia ser bem conhecida em Jerusalém, porque é chamada "a virgem",[39] ela porá em seu filho o nome "Imanuel", que na Escritura é um nome intimamente ligado aos descendentes de Davi; ela falará pela família real, como Acaz devia falar e não o fez.[40] (4) A virgem, quando Isaías fala, não está grávida, mas ele, como que surpreso, diz: "a mulher que agora é virgem, ei-la grávida." Ela se casará logo, ficará grávida e dará à luz um filho. Isaías fala em termos diretos, positivos: grávida e dará à luz, o que é realmente inesperado. Será, entretanto, uma realidade presente dentro de pouco tempo. (5) Não há nenhuma indicação a respeito de quem o filho é e do que ele fará quando adulto. Não há nenhum registro oficial de seu nascimento ou de seu nome. Mais tarde, o filho da virgem Maria recebe o nome de Jesus (Mt 1.21); ele é oficialmente o Messias. Por ser divino, Ele toma a presença de Deus com seu povo uma realidade histórica e, portanto, pode ser chamado, de fato, "Deus conosco" ('immãnâ’êl; gr. Emmanouêl).

Terceiro, como mostrado acima na exegese de 7.14, um sinal era usualmente um fenômeno inesperado, desusado ou miraculoso (p. ex., a vara de Moisés transformada em cobra, Êx 4.4; a vara de Aarão florescente, Nm 17.8; o velo seco e úmido de Gideão, Jz 6.36-40). Neste caso o realmente inesperado era a combinação do seguinte: "a virgem", que logo se casaria, conceber, dar à luz e nomear seu filho "Imanuel" — Deus conosco. O evento que fez tudo isso especialmente desusado era que essa jovem mãe, membro da família descrente de Acaz, daria expressão a sua fé nas promessas pactuais de Yahwéh: Eu sou teu Deus; serei contigo e te abençoarei; Eu manterei a linha real por mim designada; Eu farei com que meus propósitos se mantenham. A virgem prati­caria a fé e daria uma expressão contínua a essa fé, que o próprio Acaz tinha sido chamado a expressar e demonstrar.

Quarto, os estudiosos desta profecia estão divididos em suas conclusões a respeito da real natureza e do intento específico das palavras do profeta a Acaz. Isaías estaria proclamando uma promessa? Ou estaria fazendo uma advertên­cia? Ou estaria de fato ameaçando Acaz? Isaías fez todas essas coisas.

Acaz tinha rejeitado a palavra que lhe garantia que Israel e Aram cedo seriam eliminados como ameaças a Judá. Ele foi advertido de que, a menos que confiasse firmemente em Yahwéh, não permaneceria firme em seu trono como rei de Judá e representante da casa real davídica (7.7-9). Quando Isaías instou para que ele exercitasse sua fé e a fortalecesse por meio de um sinal de Yahwéh, Acaz recusou-se a fazê-lo. Isaías então expressou sua exasperação e impaciên­cia com o rei e declarou que Yahwéh, não obstante, reservava um sinal para ele. E como indicamos acima, outra pessoa expressaria a crença, a confiança, a segurança que Yahwéh exigia do rei. Com essas palavras ele está dizendo a Acaz que ele não permanecerá firme! Ele sofrerá humilhação e derrota. Isaías vai além e proclama que não somente os dois reis, de Israel e de Aram, serão devastados, mas também que um tempo terrível virá. Acaz e Judá sofrerão nas mãos da Assíria, nação à qual ele planeja apelar por auxílio. E esse tempo terrível está muito próximo (7.16,17). Acaz não terá parte nas bênçãos pactuais que Yahwéh tem para seu povo; pelo contrário, ele experimentará, em breve, a maldição do pacto por sua falta de fé e de obediência.

As ameaçadoras palavras a Acaz são também palavras de promessa. A casa de Davi continuará. O sinal é uma profecia para então, para o futuro próximo e também para o futuro distante. Yahwéh continuará a ser o Deus fiel mante­nedor do pacto. Ele continuará a estar com seu povo. A casa de Davi não será extinta. A virgem dará eloqüente testemunho dentro da casa de Davi para a casa de Davi e para os súditos debaixo de seu teto.

Quinto, o que foi predito tomou-se realidade. A Assíria aproveitou-se do apelo de Judá por ajuda. Sabendo que Judá não se uniria à coalizão, o rei da Assíria marchou contra Aram e Israel. Mas ele não parou nas fronteiras meridionais desses dois reinos. Ele atacou também Judá e causou muita devastação a seus termos.41

A criança, cujo nascimento e nome foram profetizados, era um menino ainda novo quando a Assíria devastou Aram e Israel e trouxe também muita ruína a Judá. Isaías tinha dito que o menino seria ainda novo, porque sua dieta ainda não era a de um adulto quando a Assíria devastou os dois países (7.15,16).

A continuação da casa davídica, como fora assegurado por Isaías, tomou-se um fato histórico. Ezequias sucedeu a seu pai Acaz no trono de Judá.[41] Durante seu longo reinado a ameaça assíria foi afastada. A casa davídica serviu a Yahwéh como agente real. O povo era novamente governado por um pastor, que serviu como a casa davídica fora chamada a servir.

De acordo com o Evangelista Mateus (1.23), o cumprimento da profecia de Isaías com relação à virgem que daria à luz um filho ocorreu quando Maria deu à luz Jesus Cristo. A virgem, que era um sinal para Acaz, foi um cumpri­mento inicial no sentido de que foi uma precursora ou, mais precisamente, um tipo de Maria. Esta, ao dar nascimento a Jesus, realizou plenamente o que tinha sido uma realização incompleta, embora real. Considerando que Isaías profe­tizou a respeito do nascimento de Jesus como o cumprimento seguro e com­pleto da promessa de Yahwéh a Davi (2 Sm 7.12-16), o sinal a Acaz a respeito da virgem e seu filho era um estágio necessário no desenvolvimento do plano de Yahwéh quando a casa de Davi esteve sob uma severa ameaça de extinção.[42]

A reação pessoal de Isaías e sua resposta à mensagem que transmitiu a Acaz pode ser explicada brevemente. Ele estava plenamente convencido de que essas palavras que proferiu eram as próprias palavras de Yahwéh a Acaz. O intercâmbio entre Yahwéh e Isaías ao se expressarem confirma isso. Mas Isaías estava pessoalmente envolvido; ele refletiu impaciência, possivelmente ira, quando Acaz se recusou a pedir um sinal. Isaías deu mostras de genuína preocupação com a casa de Davi e com Acaz, que devia manifestar a respon­sabilidade que tinha como representante legal da casa real. Mais ainda, Isaías expressou sua confiança na preservação do povo por Yahwéh quando chamou o seu prmeiro filho Sear-jasub (um remanescente voltará). Deu também expres­são plena à sua consciência da realidade da ameaça assíria contra Judá quando nomeou seu segundo filho Maher-shalal-hashbaz (ligeiro em saquear, cf. NIV). Isaías não entrou empânico. Continuou a profetizar a respeito dos julgamentos que viriam sobre Judá, mas também continuou a servir como porta-voz volun­tário de Yahwéh, proclamando a continuidade do plano e dos propósitos pactuais de Yahwéh em relação a seu povo e ao seu mediador provido por Deus.






[1] Cf. Edward J. Young, The Book oflsaiah, 3 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1965/1981), 1.27-29. 


[2] Cf. TWOT, 1.274,275. 


[3] Ver cap. 16, subtítulo "A Mensagem Messiânica de Isaías para o Judá Urbano"'. 


[4] TWOT,2.769,770. 


[5] O ponto de vista apresentado por alguns eruditos de que 4.2 refere-se ao "crescimento de Yahwéh", isto é, o produto da terra e a ornamentação que ele oferece, em contraste com os adornos humanos (3.18-22) que Yahwéh removerá não é aceitável. Não se nega que Jeremias e Zacarias usam a metáfora para referir-se ao Messias davídico. Mas advoga-se que os profetas posteriores que usaram o termo tomaram-no de Isaías para referir-se ao produto do campo e, desta maneira, expressaram uma esperança messiânica. Cf., p. ex., Edward J. Kissane, 77?e Bookoflsaiah (Dublin: Richview, 1960), pp. 47,48; e Conrad von Orelli, ThePropheciesof Isaiah, trad. J.S. Banks (Edimburgo: T. & T. Clark, 1889), pp. 21-32. 


[6] Cf. H. C. Leupold, Exposition on Isaiah, 2 vols. (Grand Rapids: Baker, 1968), 1.102,103. 


[7] Cap.3, subtítulo "A Promessa Messiânica Inidal (Gn 3.8-4.10)", 


[8] O termo hebraico maqçebet é usualmente traduzido "pilar"; somente aqui, em todas as suas ocorrências, deve ser traduzido "toco". Em Is 11.1, a NIV e a RSV traduzem o hebraico g&za* como "stump" (toco); a tradução usual é "toro" ou "cepo" (KJV), 


9» A cena visualizada por Isaías é a de encostas de colinas em que os madeireiros trabalharam tirando todos os troncos altos e retos e deixando atrás ramos, folhas, arbustos e árvores excessivamente ramificadas: a seguir é ateado fogo para limpar o terreno e prepará-lo para o reflorestamento. O fogo mata as árvores restantes, queimando as folhas, brotos éramos. Somente um toco de uma grande árvor^que tinha sido cortada permanece. 


[10] É inevitável concluir que Isaías foi informado por Yahwéh dos ataques da Babilônia, que desnudariam a terra de Judá. Críticos, usando algumas vezes o termo "toco" por base para rejeitar esse versículo como autêntico, tentam, assim, remover a profecia preditiva desses primeiros capítulos de Isaías. 


[11] Nos caps. 40-66 Isaías refere-se outra vez ao plural, ou coletivo, e ao singular, quando fala do servo (cf. cap. 19). 


[12] Cf .cap. 16. Importa recorrer novamente ao sumário de Edward Young e sua discussão sobre o papel da Síria em vários acontecimentos. 


[13] Wolf refere-se a algumas interpretações conflitantes em seu ensaio "A Solution1". Ver também os ensaios de Willis J. Beecher, "The Prophecy of the Virgin Mother", em Classical Evangelical Essays in Old Testament Interpretation, ed. Walter C. Kaiser (Grand Rapids: Baker, 1972), pp. 179-185; Charles Feinberg, "The Virgin Birth in the Old Testament and Isaiah 7.14“, Bibliotheca Sacra 119 (1962):251-258; Norman K. Gottwaid, "Immanuel as the Prophet's Son", VT& (1958):3647; Joseph Jensen, "The Age of Immanuel", CBQ41Í2 (abril, 1979):220-239; Martin McNamara, 'The Immanuel Prophecy and Its Context", El, Scripturel55 (1963):84,85; William McKane, "The Interpretation of Isaiah VII 14-25", VT17 (1967);208-219; John A. Motyer, "Context and Content in the Interpretation of Isaiah 7.141’, Tyndale Bulletin 21 (1970):120-122; Gene Rice, "A Neglected Interpretation of the Immanuel Prophecy", ZA PV90/2 (1978):220-227, Robert Vasholz, "Isaiah and Ahaz: A Brief History of Crisis in Isaiah 7 and 8", Presbyterion 13/2 (1987):79-84; Edward J. Young, "The Immanuel Prophecy". 


[14] R. C. Clements, Isaiah 1-39, em NCBC{19&0), pp. xiv,xv. 


[15] Os pormenores não sãosufídentes para permitir um relato preciso e completo dos acontecimentos políticos e militares entre Aram, Israel e Judá (cf.as várias tentativas de descrever a situação internacional, p. ex., Edward Young, "Immanuel Prophecy", ibid,; e R. E. Clements, Isaiah 139, pp. 10, 78*85. 


[16] O verbo hebraico nãhâ, "descansar" ou "apoiar-se", tem sido traduzido como "aliar-se", isto é, Aram "apoiou-se sobre" (cf. KJV mg.), "recebeu apoio" de Israel. Geoffrey W. Grogan refere-se a uma cena com soldados estrangeiros ajuntando-se como insetos, estabelecendo bases em Israel para um avanço combinado sobre Jerusalém, em The Expositor's Bible Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 1986), 6.61, 


[17] KoB, p. 603. 


[18] Isaías inclui 'ãdõriãy junto com o nome Yahwéh. O fiel guardador do pacto — Yahwéh — é também o Senhor, o soberano Mestre da criação e de todas as gentes e nações. 


[19] BDB, p.52. 


[20] Ibid., p. 53 


[21] R. E. Qements, em Isaiah 1-39, em NCBC (1980) p. 85, corretamente afirma que Isaías fez sentir a Acaz que "sua própria permanência no trono estaria em risco". Clements lamentavelmente não foi tão definido a respeito da ameaça à dinastia davídica; em relação a isso ele escreveu "parece positivamente sugerir... que a dinastia davídica estaria ameaçada" (ibid.). 


[22] Cf.a discussão precedente sobre 7,1-9. Para uma perspectiva, ver Michael E. W. Thompson, que acredita que Is 7.10-17 reflete uma situação diferente de 7.1-9. Em 7.10-17 Isaías está tentando trazer Acaz à fé apresen- tando-lhe uma explícita mensagem que é ao mesmo tempo ameaçadora e esperançosa ("Isaiah's Sign of Immanuel", Ext95/3 (dezembro, 1983):67-71). 


[23] Cf. BHK. John Gray, em A Critical and Exegetical Commentary on Isaiah, ICC (New York: Scribner, 1912), p. 121, escreve, embora sem base: "na forma original da narrativa, se autobiográfica, a cláusula devia ser 'fcilei outra vez'". 


[24] Cf. Edward J. Kissane, The Book of Isaiah (Dublin: Richview, I960), p. 84: "A forma da expressão mostra claramente que o que se segue é uma revelação distinta." Ver também Edward Young, Studies in Isaiah (Grand Rapids: Eerdmans, 1954), p. 143. 


[25] John Skinner, Isaiah 41 ~66 (Cambridge: Cambridge University Press, 1910), 2 54. 


[26] Se, nesse especial contexto, o sinal deve ser considerado uma evidente ameaça, uma promessa, ou ambas, será discutido na próxima seção. 


[27] Quando o sinal será realizado é discutido abaixo. Cf. Geoffrey Grogan, que corretamente acentua que a mãe e a criança "têm de ser vistas como um sinal para Acaz" (77?e Expositor's Bible Commentary [Grand Rapids: Zondervan, 1986], p. 63). O sumário que Grogan faz de várias interpretações é valioso (cf. pp. 62-65). 


[28] Studies in Isaiah, pp. 161-163. 


[29] Cf., p. ex., R. E. Clements, Isaiah 1^39, em IVGBC(1980), pp. 87-90. 


[30] Cf. Young, Studies in Isaiah, pp. 178-183. Richard Niessen, em "The Virginity of the Almah in Isaiah 7.14", após rever as raizes do termo hebraico 'almâ e suas várias referências, concluiu que todas as evidências apóiam a interpretação tradicional de virgindade (Bibliotheca Sacra 137 [1980]:T33-150). 


[31] Cf., p. ex„ Cyrus Gordon, Ugaritic Literature (Roma: Pontifical Biblical Institute, 1949), pp. 62-64; Erling Hammershaimb, Some Aspects of Old Testament Prophecy (Copenhague: Bagger, 1966), p. 128; Sigmund Mowinckel, He That Cometh, pp. 113,114. H. Wolf, em Interpreting Isaiah: The Suffering and Glory of the Messiah (Grand Rapids: Zondervan, 1985), p. 450, escreve: "Nos três lugares onde glmt, o equivalente exato de 'almâ, é usado, ele refere-se a uma jovem procurada para casamento"; ver também Young, Studies in Isaiah, pp. 166-170. 


[32] Alguns eruditos têm apelado para o que consideram um princípio incontestável na sintaxe hebraica, isto é, que embora uma palavra em hebraico tenha o artigo definido, como em Is 7.14 (a virgem), porque a pessoa é defini­da na mente do narrador, pode ser indefinida em inglês (e em português). Tais exemplos, entretanto, são comparati­vamente poucos. O contexto de Isaías 7 exige uma referência definida em vista da séria situação a ser enfrentada. 


[33] Young, Studies in Isaiah, p. 162. Emst Hengstenberg também traduz o termo no "presente" (cf. seu Christology ofthe Old Testament, 2.44) 


[34] Clements, Isaiah 1-39, em 7VCBC(1980):87,88. 


[35] Skinner, Isaiah 41-66, p. 56, vèr também KD, The Prophecies ofIsaiah, 1,216. 


[36] Cf. J. Ridderbos, Isaiah, trad John Vriend (Grand Rapids: Zondervan, 1985), p. 86. 


[37] Esses versículos têm causado dificuldades a intérpretes e comentadores. Alguns consideram o v, 15, em particular, como um acréscimo feito por um editor para dar sentido ao v. 16. 

A referência a coalhada e mel tem ensejado também algumas interpretações, p. ex., seriam os únicos alimentos disponíveis para um povo submetido à destruição por forças militares estrangeiras (cf. 7,21-23); ou referir-se-iam a uma época de abundância; ou não significariam nenhuma dessas situações, mas seriam os primeiros alimentos naturais sólidos que uma criança poderia comer, quaisquer que fossem as circunstâncias políticas. 

Para conhecer outras interpretações, que envolvem uma abordagem crítica inaceitável, cf. o ensaio de J. Jensen, "The Age of Immanuel", CBQ 41 (abril, 1979)227-229, em que ele revisa algumas delas e conclui que não é necessário cortar qualquer parte do texto7.15-21;sua conclusão final, baseada na discussão sobre comer coalhada e mel, é que a idade de Imanuel deve referir-se à sua fase adulta e não à sua infância (ibid., pp. 238,239). Gene Rice, em seu ensaio "Interpretation of Isaiah 7.15-17“, sugere uma nova abordagem: Imanuel, comendo leite coagulado e mel, experimentando penúria e adversidade, viria a ver a crise espiritual que Acaz se recusava a ver. 

Outra interpretação requer o uso genérico do artigo definido: não "o" menino, mas "um" menino. O sentido seria então: o tempo decorrido entre a palavra de Isaías a Acaz e a derrota dos dois reis seria igual ao tempo decorrido entre o nascimento de um menino e a época em que ele começasse a comer coalhada, isto é, no máximo 2-4 anos. 


[38] Há indícios de que Acaz estava também pensando em apelar ao Egito por ajuda (cf., p. ex., Is 31.1). 


[39] Uma situação de algum modo semelhante é a de Tamar, filha de Davi, a bela irmã solteira e virgem de Absalão (2 Sm 13.2,12) 


[40] Isto nega o ponto de vista segundo o qual a virgem seria a profetisa, que Isaías teria tomado como sua segunda esposa (cf. H. Wolf, Interpretíng Isaiah [Grand Rapids: Zondervan, 1985], que defende fortemente este ponto de vista); deve notar-se que à criança então nascida foi dado outro nome que não Imanuel (Is 8 3). De igual modo, o ponto de vista de Edward J. Young, de que a virgem Maria foi vista em visão, não é aceitável pelas razões dadas; além disso, a virgem Maria não podia servir como um sinal para Acaz, aii e naquele momento. Young admite ainda que os vv. 15-17 se referem ao tempo de Acaz e Isaías; se assim é, em conseqüênda todo esforço deve ser feito para considerar-se o v. 14, que faz parte da mesma passagem, como relativo ao mesmo período de tempo, 


[41] Ezequias não era o filho da virgem, pois ele teria a idade de pelo menos oito anos quando Isaías falou a Acaz (cf.2 Rs 16.1; 18.1,2). 


[42] Joseph A. Alexander, em seu Commentary on the Prophecies of Isaiah (republ. Grand Rapids: Zondervan, 1953), discute várias opções ou proposições com relação ao cumprimento dessa profecia; ele examina os argumentos a favor e contra um sentido "inferior" e um "superior" do cumprimento. Ele é incisivo em afirmar que "a Igreja em todas as eras acertou ao considerar a passagem como um sinal e uma predição clara da concepção e natividade miraculosas de Jesus Cristo". Admite, entretanto, que o profeta também prevê o nascimento de outra criança, no tempo de Acaz. Ele não discute a relação entre esses dois nascimentos, exceto para referir-se a um sentido "inferior" e um "superior" (ibid., pp. 168-173).