29 de julho de 2016

GERARD Van GRONINGEN - Messias no Livro de Isaías, 3: o Filho-Servo

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O Messias no Livro de Isaías, 3: o Filho-Servo 

Ao começar o estudo de Isaías 40.1-52.12, qualquer pessoa conhecedora da literatura disponível sobre Isaías 40-55/66 encontra-se novamente diante do problema da autoria. Um dos elementos que mais persistirão em fazer lembrar isto é o fato de comentários completos terem sido escritos sobre os últimos capítulos desse livro. Dividir a obra em duas, três ou mais partes tomou-se, na mente de muitos, a coisa erudita a ser feita. John L. McKenzie escreve que "a distinção entre o Primeiro e o Segundo Isaías é tão amplamente aceita na erudição moderna que não é necessário examinar extensamente o argumento que lhe é contrário".[1] McKenzie escreve na tradição e no espírito de eruditos como Bernhard Duhm,[2] Charles Cutler Torrey,[3] Paul Volz,[4] James Muilenberg,[5] e James D. Smart.[6] As referências de Smart ao Segundo Isaías como um evangelista, pastor, poeta, teólogo profundo e intérprete da história para um povo no exílio, bem como os fenômenos contraditórios dentro da própria segunda parte do livro, como base para a defesa de dois, preferivel­mente três ou mais autores,[7] fazem pouco para convencer o estudante cuida­doso e de mente aberta da profecia una do Isaías único. A afirmação dogmática de McKenzie a respeito da autoria múltipla serve ainda menos para convencer alguém que Isaías não estava profetizando (isto é, predizendo) acontecimentos futuros. Smart rejeita francamente o único meio pelo qual alguém poderia ver a solução das supostas contradições e anacronismos quando diz que não pode aceitar "a hipótese de que Isaías projetou sua mente dois séculos para o futuro e proferiu mensagens dirigidas a uma era futura".[8]

Os fatos que apóiam a unidade de Isaías não precisam ser mencionados aqui.[9] Três comentários, entretanto, devem ser feitos a esta altura. (1) O elo material direto que une os capítulos 39 e 40 não deve ser subestimado. Edward J. Young apresenta muito bem os fatos. O que é registrado no capítulo 39 ocorreu antes do que é contado no capítulo 38; mas a cronologia histórica não é seguida no livro porque o relato do capítulo 39 (a recepção por Ezequias dos enviados da Babilônia e a profecia de Isaías do exílio para Babilônia) serve como ambiente e introdução dos capítulos 40-66.[10] (2) Alguns críticos indicam outro elo material, incluindo os caps. 34-35 com os caps. 40-66.[11] (3) No estudo que se segue, ficará claro que o que Isaías profetizou a respeito de Yahwéh, de seu povo do pacto e do Messias é desenvolvido e explicado.[12] Isso é feito em harmonia com o estilo e a habilidade do próprio Isaías. Essa similaridade e integridade têm sido reconhecidas por vários eruditos, os quais, querendo pôr-se de acordo com posturas críticas, propuseram a idéia de uma escola de Isaías,[13] a qual incluiria inicialmente os dois filhos de Isaías (7.3; 8.3) e seus discípulos (8.16), e supostamente continuou a existir por cerca de dois séculos, isto é, até o fim do exílio, ou entre os exilados, ou entre o povo de Judá que nunca deixou a área da Judeia.[14] Não há nenhuma evidência válida para tal escola. Ela foi imaginada numa tentativa de resolver um problema que a profecia própria não apresenta. 

O Texto e a Estrutura de Isaías 40.1-52.12 

Crítica Textual 

Um estudioso do texto de Isaías pode facilmente compreender a afirmação de Smart de que as "autoridades" não estiveram certas no passado e, portanto, cada leitor deve ser encorajado "a usar seus próprios olhos no texto..."[15]

Em seu trabalho com o texto, Smart não dá evidência de suas dúvidas. McKenzie, entretanto, tem um número surpreendente de "emendas conjectu­rais" nos rodapés de sua tradução dos trinta e cinco poemas por ele descobertos em Isaías 40.1-52.12. John Skinner sabiamente procura não oferecer emendas. A Bíblia hebraica apresenta algumas leituras alternativas. O autor deste elabo­rado estudo, embora trabalhe com a tradução de Isaías da Berkeley Bible, acha que o texto é apoiado, com muito poucas exceções, tanto pelo rolo A quanto pelo rolo B de Isaías descobertos nas cavernas de Qumram.[16]

O texto tem recebido atenção excessiva num esforço de encontrar dessemelhanças entre os capítulos 1-39 e 40-66. Skinner afirmou sua posição a respeito das diferenças de estilo e linguagem da seguinte maneira: "A diferença é mais para ser sentida do que para ser descrita."[17] Isto, para dizer o mínimo, é altamente subjetivo. Os próprios comentários críticos a respeito de estilo, aspectos poéticos e uso da linguagem em vários escritores, são grandemente baseados no texto que tem sido preservado. Podemos concluir que o texto foi bem preservado, que reflete a situação histórica do tempo de Isaías e o período futuro da ascendência da Babilônia, durante o qual as circunstâncias em que o povo do pacto viveu foram drasticamente distintas, o que dá boa razão para algumas diferenças em tom, estilo e linguagem. A profecia, entretanto, é uma produção literária una, preservada num texto bem atestado. 

O Lugar e o Papel dos Cânticos do Servo 

Os assim chamados Cânticos do Servo (42.1-7; 49.1-6; 50.4-9; 52.13-53.12)[18] têm dado origem a grande discussão relativa a dois temas específicos. Primeiro, em relação aos próprios cânticos as divergências surgem em resposta às seguin­tes perguntas: primeiro, como é o texto a ser considerado? É uma unidade básica, 

com os chamados Cânticos do Servo como parte integrante, ou um texto compósito, em que os cânticos são adições ou inserções, com uma resposta acrescentada aos primeiros três cânticos?[19] Na discussão subseqüente, desen­volveremos a proposição de que os cânticos são aspectos integrantes da profecia e que o Servo é um de seus temas principais. O segundo tema específico, estreitamente relacionado com o primeiro, refere-se à identidade do Servo. H. Rowley escreve: "Nenhum tema relacionado com o Velho Testamento tem sido mais discutido quanto a questão da identidade do Servo Sofredor..."[20] Rowley refere-se ao magistral estudo de Christopher R. North[21] e propõe que se acrescente o que foi escrito nos dez anos posteriores ao aparecimento deste seu estudo. Um simples olhar ao índice do conteúdo do livro de North é chocante: é difícil supor que tenham sido sugeridas tantas interpretações.[22]

Não faremos nenhum esforço para mencionar ou discutir os vários pontos de vista a respeito da análise desta parte da profecia de Isaías[23] e a identidade do Servo. Ao contrário, determinaremos em amplo esboço a estrutura temática da passagem toda (ver quadro 10) e faremos a exegese de passagens seleciona­das. Dessas tiraremos conclusões a respeito da identidade do Servo. 

A Mensagem Teológica 

De um exame da estrutura temática pode deduzir-se o conteúdo teológico dos Cânticos do Servo. Primeiro, deve notar-se que algumas das passagens têm mais de um tema. Este fato é uma evidência de que a mensagem profética é integral. Não há justificativa para separar e retirar do contexto algumas passa­gens por causa do complexo tecido de temas numa só mensagem para o povo do pacto. Segundo, a voz em Isaías 40.1-11 não é identificada. Em o Novo Testamento, João Batista é identificado com a voz (Mt 3.1-3) que estava prepa­rando o início do ministério do Messias, e que chamava o povo a estar cônscio disso (Mc 1.1-8 par. Lc 3.2-16). Na passagem de Isaías, entretanto, a voz é coordenada com a palavra do porta-voz profético de Yahwéh. 

Em terceiro lugar, o tema de Yahwéh é o mais dominante. Ele é referido como o Santo (p. ex., 40.25; 41.14,16,20; 433,14,15); Ele não é outro senão o mesmo que Isaías viu quando foi chamado a ser o porta-voz de Yahwéh para o povo do pacto (Is 6.1-8). Yahwéh é o único Deus (40.18,25; 453,6,18,21; 463). Ele é o Eterno (40.28); Ele é o Glorioso (42.8,12; 44.23); Ele é o Reto (42.21; 51.4,8); Ele é o Todo-Poderoso (49.26); Ele é o Soberano (40.10; 49.22; 50.5,7,9);[24] Ele é quem criou o universo e tudo o que nele está (40.28; 42.5; 43.1); Ele mantém sua criação enquanto reina sobre tudo (40.22; 52.7). Ele é o Redentor e Salvador de seu povo (43.1,11; 44.6; 49.26). Ele é o Senhor do pacto, que não esquece seu pacto e suas promessas (42.6; 43.4,5; 50.1-5).[25] Ele garante a seu povo que seu propósito permanece firme (40.8; 46.10). Isaías proclama uma descrição abran­gente de Yahwéh, o Senhor do pacto, que confortará o seu povo (523,12) e que suscita uma voz, o seu porta-voz, para falar palavras de conforto (40.1) e assegurar ao povo do pacto que, qualquer que seja seu futuro destino, Ele, o Criador e Redentor, será o seu temo Pastor (40.11) e que os sustentará e protegerá em todas as circunstâncias (43.2) por causa de seu amor (43.4). 

Quarto, Isaías faz algumas referências aos ídolos e falsos deuses. Estes eram feitos por homens e adorados pelas nações, mas, tragicamente, também pelo próprio povo do pacto de Yahwéh. Isaías sobe aos cumes da sátira e do ridículo quando fala de sua origem humana, sua ignorância[26] e sua impotência (p. ex., 40.18-20; 44.9-20; 48.5). O soberano Senhor certamente removerá esses falsos deuses. Quão estúpido é quem olha para eles à espera de auxílio, força e conforto! 

Quinto, Isaías profetiza a destruição das nações que não adoram Yahwéh nem cumprem obedientemente as suas ordens. Mas o profeta também traz uma gloriosa mensagem de restauração de vida para elas (cf. passagens rela­cionadas na análise). 

Em sexto lugar, é de muito interesse ler como Yahwéh vai tratar com seu povo do pacto, necessitado de conforto (40.1), que foi perdoado (40.2; 43.25) e redimido (43.1-4). O processo de sua restauração já começou (p. ex.,403-5,9; 41.14-16; 43.2-7; 44.3-5,26-28; 45.25; 46.13; 48.12-22; 49.8-21; 52.7-10). O povo, embora ainda queixoso (40.27; 45.9,11; 49.14) e revelando sua natureza obstinada (48.1-8; 50.10), tem a certeza do divino amor que elege e persevera (49.15-18; 51.1-6). O fato notável, e para muitos estudiosos da Escritura, pertur­bador, é que Israel, ou Sião, ou Jacó, é também chamado "meu servo". Essa referência introduz o comentário final. Isaías profetiza a respeito do servo e do ungido. Suas mensagens relativas a esses estão inseparavelmente tecidas na profecia toda. Na exegese e nos resumos subseqüentes apontaremos quem é (quem são) o(s) servo(s), seu caráter, sua responsabilidade, sua obra, e como devem ser equipados para servir Yahwéh como seus agentes em favor de vários grupos de pessoas. 



Exegese de Passagens Selecionadas 

As várias passagens que receberão atenção exegética foram selecionadas por suas referências a "agentes" ou "servos" de Yahwéh; isto exige que se mencionem algumas passagens que não contêm o termo 'ebed (servo). Como dissemos antes, o caráter de Yahwéh, sua relação com seu povo e seus atos constituem o tema dominante, inclusivo, integrador. De interesse específico para nosso estudo é a pergunta: Segundo Is 40.1-52.12, a quem Yahwéh considera, chama e ordena servir como seu agente, e qual é a sua responsabi­lidade específica? São considerados cinco agentes: (1) Isaías, o profeta; (2) a voz; (3) o servo coletivo, Israel; (4) Ciro, o servo ungido; e (5) o Servo individual. Na exegese seguinte demonstraremos que esses cinco agentes são centrais e domi­nantes na proclamação de Isaías. Esses agentes designados são progressiva­mente revelados e refletem mais fielmente o texto do que as quatro categorias de Lindsey, a saber:" O Servo Chamado", "Comissionado", "Comprometido", e a "Carreira do Servo"; ou as quatro apresentadas na ilustração da pirâmide: Israel, a nação, como a base (42.19); Israel, o remanescente (48.20); o indivíduo (49.5-6); e Cristo (53.11).[27]

40.1-6a. Nesta primeira passagem[28] mencionam-se cinco temas: (1) "vosso" Deus que ordena seja dado conforto; (2) "meu" povo que deve ser consolado; (3) a voz de alguém que clama; (4) toda a humanidade (carne); e (5) o "eu" que responde à voz. 

"Meu povo" é posteriormente identificado como Jerusalém. A voz, em contraste, não é identificada. Os tradutores e comentadores não concordam sobre a frase "no deserto". É a voz que está no deserto ou a voz que clama pela preparação do caminho no deserto? O texto hebraico dá a entender que a primeira alternativa está certa, e isso é apoiado pelo que é dito a respeito da preparação do caminho. Os Evangelhos (Mt 33; Mc 13; Lc 3.4; Jo 1.23), seguindo a LXX, têm a última.[29] A identidade da voz é menos importante do que a mensagem referente à libertação, por Yahwéh, de seu povo, sua restau­ração e a revelação da glória de Yahwéh, que todos os povos, inclusive o de Yahwéh, hão de contemplar. 

A voz que clama deve ser distinguida do porta-voz que recebeu a ordem de consolar o povo de Yahwéh e de falar temamente ao coração de Jerusalém, proclamando o perdão (w. 1,2). Este responde também à voz (v. 6), pergun­tando "que deve clamar", e foi-lhe dito que, no meio das mudanças entre os povos do mundo, a palavra de Yahwéh permanece para sempre (v. 8). Este último é indubitavelmente o profeta Isaías, que recebeu como que um segundo chamado (cf. esp. 40.9) para trazer uma real mensagem profética ao povo do pacto e à humanidade. Sua mensagem é sumarizada em 40.6b-ll. O profeta, freqüentemente falando de tal maneira que é a própria mensagem de Yahwéh, refere-se a si mesmo como um mensageiro de boas novas (41.27). E ele diz explicitamente que foi enviado pelo soberano Senhor e equipado com o seu Espírito para chamar de volta o povo de Yahwéh do cativeiro (48.16-21). Fora de dúvida, então, a proclamação profética de Isaías deve ser considerada predominante. Como na primeira parte da profecia, ele é o porta-voz de Yahwéh, ocupa o ofício profético e cumpre a tarefa que lhe foi designada. Como tal, continua a funcionar na linha profética, mosaica, que recebe sua mais plena expressão e culminância no Messias prometido, Jesus Cristo. 

A voz de que Isaías fala, à qual responde, não é identificada. Serve como porta-voz de Yahwéh. Funciona também em favor de Isaías, o profeta. Assim, a voz cumpre uma função profética falando em lugar de Yahwéh, mas serve também nessa função ao chamar a atenção para ela, lembrando ao povo sua tarefa e sublinhando a mensagem a ser proclamada pelo profeta. Pode-se observar agora que a voz é, para Isaías, o que João Batista mais tarde seria para o maior profeta, Jesus Cristo. Assim, como Isaías funciona como predecessor e tipo de Cristo, assim também a voz funciona em relação a João Batista. 

Aquelas passagens que falam diretamente de 'ebed (servo) ou 'abclí (meu servo), ou que se referem a aspectos de seu papel, exigem agora atenção. Um breve estudo do termo ‘ebed como é empregado por Isaías é um bom ponto de partida.[30] As apropriadas conclusões serão tiradas a partir deste nosso estudo e da exegese de passagens que se seguirá. Não será feito nenhum esforço no sentido de sintetizar ou harmonizar os pontos de vista que têm sido expressos por numerosos estudiosos.[31]

O verbo 'ãbad significa basicamente "trabalhar", "laborar". Pode significar também servir a alguém com trabalho, como os súditos a um rei, a Deus, aos deuses, e no serviço levítico. 

O substantivo 'ebed significa "escravo" ou "servo". Seus sentidos subsidiá­rios, entretanto, indicam que o termo se refere ao súdito de um rei ou de Deus, ou a alguém no serviço e adoração de Deus, em quase todos os casos. Os respectivos contextos acrescentam numerosos matizes ao termo. 

1. Em 14.2 e 24.2 'ebed designa um servo ou escravo. 

2. Em 37.5,24 é usado para os servos (atendentes e porta-vozes) de um rei. Em 36.11 é uma forma polida de alguém referir-se a si mesmo diante de um rei estrangeiro. 

3. É freqüentemente usado para os adoradores de Yahwéh. Eliaquim (22.20) era evidentemente um dos fiéis, e em 56.6 lemos que estrangei­ros que vierem a reconhecer Yahwéh são também chamados "servos" no mesmo sentido. Aqueles em Israel que permanecem fiéis a Yahwéh são seus servos (63.17), e em 65.8-15 vemos o termo usado diversas vezes em contraste ainda mais forte com os inimigos de Deus, que são realmente os infiéis que esqueceram o Senhor. Uso semelhante é en­contrado em 66.14. Num contexto de conforto, os servos de Yahwéh recebem a garantia de final vindicação nas mãos de Deus (54.17). Devemos notar que essas passagens falam de "servos" (plural); qual­quer uso do singular indica uma referência pessoal óbvia a um dos contemporâneos do profeta. 

4. O substantivo 'ebed é usado para indivíduos especiais no Velho Testamento, que são obviamente mais proeminentes do que os fiéis adoradores do grupo acima referido. Profetas e mensageiros especiais de Deus pertencem a essa precisa categoria (44.26). Isaías está provavel­mente referindo-se a si mesmo nessa classe especial em 20.3. O rei Davi é um desses servos (37.35). O termo 'ebed é usado principalmente neste grupo, mas há também uma aplicação do quinto grupo nesta categoria. 

45.4 Israel, freqüentemente chamado "Jacó", em seu papel como o povo especialmente escolhido por Deus para a realização do seu plano redentor, é freqüentemente designado como 'ebed ou 'abdt (meu ser­vo) por Yahwéh. Alguns acham adequado não fazer distinção clara entre Israel como servo de Yahwéh e o Servo de Yahwéh, como veremos abaixo, todavia, quando examinamos as chamadas passagens do Servo notaremos algumas distinções bem claras entre os dois. Isaías 41.8,9 e 43.10 falam do ato eletivo soberano de Deus para com Israel, que é a base para uma vida de serviço dedicado, mas também divina­mente exigido, e agora a base do conforto para o povo. Isaías fala de maneira semelhante da escolha de Jacó para servir (44.1,2,21; 45.4). Em 45.4 há uma referência, de passagem, ao propósito que Yahwéh ainda tem para Israel. Em 42.19 Israel, o servo, é descrito em seu estado pecaminoso, cego e surdo, mas em 48.20 lemos uma profecia de sua redenção e restauração. Assim, o "servo Jacó" (Israel) é encarado como um servo, não tanto por causa de seu status diante de Deus, seja de pecado ou de obediência, mas, antes, como um servo de Yahwéh em razão de sua eleição para servir. Isso é um propósito a longo prazo de Deus, de modo que Israel pode chamar-se servo de Yahwéh a despeito de seus freqüentes pecados. Notemos também o uso do singular aqui. "Servo" é um conceito coletivo quando usado a respeito de Israel. É também interessante observar que é Yahwéh, não o profeta ou mesmo o povo, quem pensa em Israel como seu servo. 

5. O sentido final do conceito do Servo em Isaías encontra-se nas quatro passagens conhecidas como Cânticos do Servo, ou, preferivelmente, as "Profecias do Servo". 

41.8-10. O profeta Isaías fala de modo semelhante a Miquéias. Miquéias falara de nações reunindo-se contra Sião e ferindo seu governante; em contras­te, diz: "E tu, Belém" (Mq5.2 [TM5.1]). Assim Isaías diz: "E Tu" (wè’attâ). Na passagem precedente (41.1-7) ele profetizara de Yahwéh chamando alguém do leste (41.2),[32] entregando-lhe povos e nações e dando-lhe vitórias. Nesse pró­prio contexto Isaías diz: "E tu" (ver RSV, NIV, KJV: Mas tu). 

Yiárã’êl 'abdi (Israel, meu servo). A referência é a todas as tribos do pacto, não somente a Judá. Isso é confirmado pelas duas frases seguintes, em que os ancestrais patriarcais, Jacó e Abraão, são referidos. Israel é identificado como Jacó (cf. Gn 32.28) e como a zera (semente) de Abraão (cf. Gn 15.5; 17.7). Isaías está plenamente cônscio de que a palavra de Yahwéh aos patriarcas, relativa a seus descendentes, não foi esquecida (Is 40.8). 

Para dar ênfase à relação entre Israel e Yahwéh, Isaías usa três termos significativos, cada um dos quais qualifica os outros dois. O termo 'abdi (meu servo) neste caso indica uma relação estrita entre Yahwéh e seus súditos. A relação é particularmente em vista dos planos e propósitos que Yahwéh tinha atribuído ao súdito designado, para serem cumpridos por este. Suas responsa­bilidades e obrigações não são enumeradas por Isaías: ao contrário, o termo servo as resume nos contextos posteriores. 

O termo bèhartikã (eu te escolhi) amplia a relação entre Yahwéh e Israel. É um termo que tem uma rica história: todas as atividades de Yahwéh em escolher são postas em vista, a saber, a eleição de Abraão (Gn 12.1-3; 15.1-6), de Isaque (Gn 17.15-22), de Jacó (Gn 28.10-15), e de sua descendência (Êx 19.5,6; Dt 7.7). Aprouve a Yahwéh estabelecer um laço permanente entre Israel e Ele próprio, e o faz pela escolha soberana e graciosa de seu povo. Isaías prossegue referindo-se a Israel como "descendente de Abraão, meu amigo" (’õhâbt, literalmente "meu amado"). A forma participial de ’ãhab indica o amor ativo e contínuo de Yahwéh por Abraão. Alguns tradutores escolheram o termo amigo (NIV, RSV, KJV) (cf. 2 Cr 20.7; Tg 2.23; gr. philos). Moisés dera ênfase ao fato de a eleição de Abraão por Yahwéh e o amor de Yahwéh por Abraão continuarem pelas gerações subseqüentes. A posteridade era amada como os pais o tinham sido (Dt 7.7-9; 10.15). Como Yahwéh dera a Abraão seu coração, seu cuidado e sua afeição, assim também o fizera à sua posteridade. Isto Isaías relembra: tu, que foste chamado para servir, foste escolhido para isso, e foste o objeto do infinito amor de Deus. 

Isaías prossegue assegurando ao povo de Deus que, embora Yahwéh dis­perse Israel e Judá entre as várias nações e regiões da terra (cf. 11.11), Ele não os deixará aí. Isaías fala como se a ação de Yahwéh em fazê-los retomar já tivesse acontecido (41.9). 

Hthèzaqtikã (eu te segurei fortemente). O sentido básico do verbo hãzaq é ser ou tomar-se forte, fortalecer; no hiphil, a forma usada aqui, significa segurar, pegar fortemente (no v. 13 Yahwéh diz, usando o mesmo verbo, que segurou firmemente a mão direita do seu servo). Na frase paralela seguinte Isaías usa o termo qèrã’tik5 (eu te chamei) (v. 9). As ações são correlativas e explicam-se mutuamente: segurar firmemente é chamar, e vice-versa. Israel não precisa recear que o chamado seja inefetivo: ser chamado é ser seguro firmemente. Isaías repete a garantia de que Yahwéh reivindica para si Israel 'abdi-’attâ (meu servo — tu és) e que o escolheu, e para acentuar isso Isaías acrescenta a negativa oposta wèlõ’ mè’astikã (e não te rejeitei). O verbo mã’as tem a idéia de escárnio, juntamente com a de rejeição. Yahwéh jamais abando­nou Israel como alguém a ser desprezado, como alguém considerado indigno ou desagradável. 

É importante compreender que os verbos hebraicos que se referem à ação de Yahwéh no passado e no futuro estão no tempo perfeito. Como Yahwéh fez, assim ele fará no futuro. O tempo perfeito, usado para as ações certas de Yahwéh no futuro, deve ser considerado como perfeito profético. 

No verso 10 Isaías garante que Yahwéh realmente é o Senhor do pacto, para o presente e para o futuro, como tinha sido no passado. O imperativo não temas tinha sido usado antes quando, por exemplo, Yahwéh se dirige a Abraão (Gn 15.1 e Isaque (Gn 26.24) e renovou seu pacto com eles. As frases eu estou contigo e eu sou o teu Deus são usadas para dar certeza de que o servo do pacto não ficará sozinho. As promessas de fortalecimento e ajuda tinham sido feitas a esses dois patriarcas e tinham sido repetidas quando Josué, servo de Yahwéh, recebeu a ordem de guiar Israel na conquista de sua herança prometida (Js 1.5-9; cf. 8.1). 

Sem qualquer dúvida os israelitas tinham de ouvir que eram o servo amado e escolhido de Yahwéh; que o pacto de Yahwéh permanecia firme e inalterado. O próprio coração da relação pactual — eleição, amor e sustentação — é reiterado enfaticamente. E como povo do pacto, o servo coletivo de Yahwéh, eles seriam redimidos (Is 41.14), seriam trazidos ao serviço ativo (41.15,16a), se regozijariam e se gloriariam no "Santo de Israel" (v. 16,b NIV). 

42.1-9. No contexto precedente (41.8-10) Isaías tinha confortado Israel, servo de Yahwéh, com a gloriosa verdade: Yahwéh mantinha e continuaria a manter o seu pacto com ele. Os falsos deuses que Israel tinha adorado são desafiados a fazer o que Yahwéh fez, ou seja, prever o que o futuro trará.[33] Mas eles são "menos do que nada" (41.24). Isaías repete que Yahwéh suscita um no norte (cf. 41.25); Yahwéh sabe de antemão o que vai acontecer — mesmo duzentos anos mais tarde (41.26-29) — e Sião é informada disso. 

Quando seu olhar é dirigido para o futuro, Isaías proclama que sucederá outro grande evento: o Servo trará justiça![34] Hzn (eis) (42.1). Isaías chama a atenção para o que Yahwéh quer revelar a seu povo: 'abdt (meu servo). O povo que tinha sido chamado "meu servo" é agora instado a considerar e dar atenção a outro a quem Yahwéh designa como seu Servo. Por esse Servo Yahwéh age do mesmo jeito como agiu pelo outro servo: ’etrriãk-bô (sustenho-o, seguro-o). O sentido é de que o Todo-Poderoso dá apoio (cf. novamente 41.9,10) ao Eleito de Yahwéh (42.1b; cf. 41.8,9). A relação desse Servo escolhido com Yahwéh é muito rica. A alma de Yahwéh, ou seu ser interior, rostâ (compraz-se) nele. O Servo agrada Yahwéh, e sua pessoa e sua atitude são muitíssimo aceitáveis. Isaías tinha proclamado anteriormente que o descendente de Davi, referido como servo de Yahwéh (2 Sm 7.8), deleitava-se no temor do Senhor (Is 11.3). Assim, uma relação recíproca existe entre Yahwéh e seu Servo. Isaías, além disso, reafirma o que fora profetizado antes: Yahwéh dará, ou porá, seu Espírito sobre Ele. O Espírito de Yahwéh fora descrito previamente (cf. 11.2); ele era, na verdade, um poderoso capacitador divino.[35] Com sua presença e sustento o Servo fará que a justiça chegue às gentes ou nações (gôytm). Isso não é um pensamento novo de Isaías, porque diversos capítulos antes ele procla­mou que o descendente de Davi reinaria com justiça e retidão (9.6 [TM 95]) e traria julgamentos justos para os pobres das nações (11.4).[36] As demais nações, consideradas aqui como entidades nacionais politicamente organizadas, rece­berão continuamente essa justiça em numerosas atividades governamentais (e não somente nas áreas judiciais, como alguns sugerem), porque o Servo fará essa virtude fluir constantemente (cf. o hiphil de^ãsã’ [42.1]). 

O ministério do Servo é descrito a seguir (w. 2-4). Mencionam-se quatro características, cada uma das quais consistente com a personalidade e com a operação do Espírito Santo. (1) Negativamente, ele não sã'aq (gritará; 42.2); o sentido é de que ele não clamará em voz alta. (Em outras línguas semitas o termo é usado para exprimir o barulho de um raio ou de um touro mugindo). Em paralelo com esse verbo hebraico estão lõ’ yiésã’ (não levantará) (cf. RSV) e lô’yaSmi'a (não fazer ouvir) sua voz na rua. Sob o ministério governamental do Servo não haverá ordens gritadas, Ele não adotará o método das autorida­des públicas ou dos comandantes militares. Ele não forçará sua audiência a ouvir suas palavras, seja uma pessoa ou muitas. Positivamente, a idéia é de comunicação calma, tranqüila, que tem em si mesma autoridade e exige respeito. (2) Novamente, no sentido negativo, o Servo não "esmagará a cana quebrada nem apagará o pavio vacilante da vela" (v. 3a). A primeira figura sugere uma cena em que homens ou animais pisam os caniços à beira de um curso d'água. O pavio fumegante sugere uma candeia cujo óleo está quase totalmente queimado. Ambas servem como metáforas para os oprimidos, sobrecarregados e perturbados, as viúvas, os órfãos, os idosos, os miseráveis. O caniço não será completamente esmagado; a chama não será totalmente extinta. Pois o Servo ministrará brandamente, compassivamente, em seu ofício real. Ninguém precisa temer os seus serviços, especialmente os desamparados. 

(3) Positivamente, o Servo administrará justiça segundo a verdade (ile’êmet), como rei, juiz, conselheiro, chefe de exércitos e legislador (cf. 3b). Os advérbios usados para traduzir o termo hebraico são seguramente, eonfiavelmente e fíelmente (cf. RSV, NIV, KJV verdade). Yahwéh revelou-se a Moisés cheio de fidelidade (Êx 34.6). O descendente de Davi foi anteriormente descrito por Isaías como tendo a fidelidade como um cinto ao redor de seus lombos (Is 11.5). Todos os povos e todas as nações, especialmente os desamparados e oprimidos, virão a conhecer o Servo como fiel e totalmente confiável. (4) Finalmente, e de novo afirmado negativamente, lõ‘ yikheh wèlõ’ yãrüs (não desanimará nem hesitará) (42.4a). O Servo não se enfraquecerá nem dará uma luz pobre, como o pavio fumegante, nem se curvará ou cairá como um junco quebrado. Afirmativamente, Ele ministrará com força, firmeza e coragem em todas as suas capacidades reais, continuamente, até cumprir tudo o que lhe foi dado para fazer (v. 4). 

O ministério de justiça do Servo será para todas as gentes e nações (v. la); será estabelecido em todas as regiões da terra (v. 4). Isaías declara brevemente qual será a resposta a esse ministério referido como tôrãtô (sua lei). O sentido mais abrangente de "instrução" deve ser preferido aqui ao sentido mais estrito de "lei", porque o ministério do Servo terá um alcance muito maior do que apenas o aspecto judicial. As regiões mais longínquas porão sua confiança na instrução que procede do Servo; reconhecê-la-ão como o caminho da vida e de bênçãos. A passagem seguinte (42.5-9) tem sido considerada como uma res­posta ao poema (w. 1-4).[37] Skinner, entretanto, vê aqui uma relação diferente: a última passagem contém a promessa de Yahwéh a Israel baseada na descrição precedente.[38] Young considera a última passagem como um reforço da mag­nitude da mensagem anterior; assim, ele vê uma relação muito estreita entre elas.[39] Não deve haver dúvida de que os w. 5-9 formam uma segunda perícope. Ela é introduzida por "isto é o que hã’êl Yhwh (o Deus Yahwéh) diz". Ele comenta o que foi afirmado. Dá apoio e esclarecimento. 

Dois temas específicos são proclamados, isto é, o caráter de Yahwéh e a missão do Servo. Primeiro, Yahwéh é proclamado por Isaías como o Criador soberano, aquele que formou os céus e a terra, é o Doador e Sustentador da vida (42.5). Seu nome é Yahwéh, o Deus do pacto, é zeloso de sua glória, que ele não partilhará com deuses ou ídolos (v. 8). Ele é o que controla o presente e revela o futuro (v. 9).[40] Segundo, o verbo hebraico qérã’tikã (eu te chamei) só pode ter aqui um significado: o "te" refere-se ao Servo da profecia de Isaías. Isaías, porta-voz de Yahwéh, dirige-se ao Servo de Yahwéh direta e pessoal­mente. Em sentido real, Yahwéh, por meio de Isaías, comissiona o Servo. 

Acentuam-se três fatos. (1) Yahwéh chama o Servo em retidão (42.6; cf. 9.7 [TM 9.6]), isto é, de acordo com a natureza, a vontade e o padrão de Yahwéh revelado para a vida humana e para o cosmos. Esse chamado em retidão estabelece a relação legal correta entre Yahwéh e o Servo, de modo que este pode executar justamente todas as suas funções. (2) Yahwéh garante seu pleno apoio ao Servo (42.6b). Ele segura a mão do Servo, como garantira a seu servo Israel. Ele o segurará e sustentará (41.9,10) e ’eççãrèkã (qal de riãsar, vigiar, guardar ou manter). Eu te vigiarei para guardar-te de perigos, isto é, eu te manterei em tua posição e tarefa. E (3) Yahwéh, além de chamá-lo e sustê-lo, 'etnèkã librtt 'ãm (fará dele um pacto "para o" povo) e lè’ôr gôyim (para luz das nações) (42.6a). A última frase já foi usada antes (cf. Is 9.2 [TM 9.1]). Luz significa libertação, restauração, e uma nova vida, provida pela Criança ou Filho para os israelitas nas trevas e na morte de um cativeiro opressivo.[41] Isaías estende a imagem da luz aos povos e às nações na passagem.[42] O Filho davídico, ou Servo, será o portador de luz e vida a Israel e aos povos e nações. Em outras palavras, particularismo dará lugar ao universalismo. 

A frase pacto para o povo tem dado lugar a muita discussão. D. W. Van Winkle refere-se a ela como "uma frase notoriamente difícil.[43] Skinner apre­senta um resumo útil de interpretações possiveis.[44] Young, entretanto, expõe o caso mais claramente.[45] Assim como o Servo é uma luz (cf. o dito de Jesus, "eu sou a luz do mundo", Jo 8.12) para os povos e nações, assim também o Servo é o pacto "que pertence ao povo", aqui melhor traduzido "um pacto para o povo (cf. NIV). A idéia do pacto, como notamos mais de uma vez, foi explicada aos patriarcas, particularmente por Moisés a Israel, e especificamen­te por Deus a Davi. Todas as bênçãos, promessas e garantias incorporadas no pacto têm sua raiz e origem no Servo e são dispensadas por ele, que é o próprio centro de todas essas bênçãos. Em resumo, o Servo não será um simples mediador do pacto, como foi Moisés, mas ele também será o próprio pacto. Ambos são inseparáveis. O Servo é o elemento real de ligação do pacto, e todas as bênçãos do pacto estão nele e virão ao povo por meio dele. Como pacto e luz, o Servo trará vista, liberdade e vida aos que estão nas trevas.[46]

42.18-25. Nas duas passagens discutidas acima (41.8-10; 42.1-9), 'ebed refe­re-se ao povo do pacto e a um indivíduo. Na passagem seguinte (42.18-25), o termo 'ebed aparece duas vezes, como 'abdí (meu servo) e ke'ebed yhwh (servo de Yahwéh) (42.19); em ambas as vezes está no singular. O servo é designado particularmente para ser de Yahwéh, isto é, numa relação de posse e de senhor-agente. Uma consideração do que é dito do Servo tomará evidente que a passagem se refere a Israel como povo do pacto. 

Yahwéh fala através de seu porta-voz, o profeta Isaías. Um chamado profético é dirigido aos hahêrStm (plural de hêfêS, surdo; a raiz verbal é hãraS, ser mudo, sem fala, e surdo). (O termo foi usado antes por Isaías [29.18; 35.5] para referir-se a Israel como nação). As pessoas abordadas pelo profeta são também chamadas de ha'twerim (os cegos), aos quais se insiste que habbífü (prestem atenção; hiphil de nâbaf) (42.18). O que se diz mais adiante dos ídolos feitos e adorados por descrentes (44.17,18) é atribuído aqui àqueles a quem o profeta se dirige. O profeta de Deus fora advertido de que sua audiência seria desse tipo (6.10). Realmente, eles são cegos, surdos, e não prestam atenção às muitas coisas que experimentaram em outras situações (42.20). Isaías procla­ma que as duras experiências que os esperam não sensibilizarão aqueles que são alertados para os desastres futuros (42.23). 

Aqueles aqui chamados de cegos e surdos, tendo experimentado "muitas coisas", são designados por um termo diferente de "Servo" ou "Servo de Yahwéh". A frase kèmaVãki ’eSlah (como meu mensageiro enviei)[47] leva a pensar de Isaías como um mensageiro enviado por Yahwéh (Is 6.8,9), bem como de outros profetas. A tragédia aqui apresentada por Isaías mostra o próprio agente, enviado com uma própria mensagem, o qual não ouve, não vê, não aprende e não fala. Na verdade, os que são chamados têm olhos para ver e ouvidos para ouvir (42.20) os ensinamentos (tôrâ) "grandes e gloriosos" que Yahwéh lhes deu (v. 21). Mas a resposta foi não obedecer e não seguir (v. 24b); não houve nenhum serviço de mensageiro de Yahwéh. A referência é a Israel como nação, ao povo saqueado (v. 22) por exércitos invasores de nações que os exilaram. A referência a Israel está além de qualquer dúvida porque Isaías usa os dois termos, Israel e Jacó, para referir-se a eles (v. 24a). 

O papel de servo dos descendentes de Abraão entre as demais nações é básico para a compreensão desta passagem. Abraão foi chamado para ser um agente de bênçãos às demais nações (Gn 12.1-3); Israel como nação fora declarado e comissionado como reino de sacerdotes (para servir como reino sacerdotal entre as demais nações e em favor delas) (Êx 19.4-6); Israel sabia que tinha de chamar as demais nações à adoração e ao serviço de Yahwéh (SI 67.2-4 [TM 3-5]; 117.1).[48] Por ter falhado como servo obediente de Yahwéh entre os povos e nações, o julgamento de Yahwéh virá espalhar Israel, cego, surdo e cativo, entre essas nações. Os propósitos de Yahwéh, entretanto, não serão frustrados. Seu povo-servo pode falhar em cumprir sua tarefa, mas a tarefa divinamente formulada será, não obstante, cumprida. 

43.8-13. Depois de falar do julgamento futuro sobre o servo desobediente (42.18-25), Isaías passa para a redenção de Jacó ou Israel. A promessa e garantia pactual é repetida: "Não temas, pois eu te remi... tu és meu" (43.1 NIV). O amor de Yahwéh por seu povo é reafirmado (43.4), seu retomo do exílio é de novo acentuado (w. 5-7). O próprio Yahwéh, o Criador, será o Remidor de Israel. Este grande feito deve ser proclamado a todos, perto e longe. Mas quem há de fazê-lo? 

O primeiro termo no verso 8, hôst’ (hiphil de yãsa', vir para), tem dado origem a diferentes interpretações. Skinner interpreta-o como um imperativo (cf. RSV, NIV, KJV); Israel foi chamado a ser testemunha de Yahwéh numa cena imaginária de julgamento.[49] Outros tomam o verbo como um perfeito hiphil (ou um infinito construto); como tal, referir-se-ia ao que Yahwéh como Reden­tor tem feito por seu povo, Israel.[50] O último ponto de vista está mais de acordo com o contexto precedente. Isaías apresentara Yahwéh como o Juiz derraman­do ira sobre um povo surdo, cego e desobediente, mas o mesmo Yahwéh é também o Redentor de Israel. O profeta, empregando o perfeito profético, proclama a grande obra redentora de Yahwéh: os surdos têm ouvidos, os cegos têm olhos (43.8). Quem entre os povos e nações previu ou anunciou tão grande libertação e transformação espiritual? As 'êday (minhas testemunhas) de Yah­wéh são especificamente referidas como 'abdi (meu servo) (v. 10). Os que devem proclamar a grande verdade de Yahwéh, o Criador e Redentor de seu povo, o único Deus vivo e Salvador, não são outros senão o povo do pacto, a semente de Abraão, Isaque e Jacó. Esse testemunho é um aspecto integral da obra que Israel, como servo de Yahwéh, deve realizar. Isaías apresenta Israel como um servo com uma vocação (que ele falhou miseravelmente em cumprir), mas também como um servo redimido e restaurado que continua a ter os mandatos do pacto diante de si. 

44.1-5. Depois de Isaías proclamar que o povo do pacto de Yahwéh conti­nuará sob o mandato divinamente ordenado, ele proclama que Yahwéh, o santo Redentor de seu povo, revelará a ele sua misericórdia, tratando a Babilônia como tratou o Egito (43.14-21). Isso ele fará de modo que o povo que Yahwéh formou para si mesmo proclamará o seu louvor (v. 21). Contrastando com a fidelidade e misericórdia de Yahwéh, Jacó ou Israel não respondeu com testemunho, serviço e adoração. Isaías, em nome de Yahwéh, desafia o povo a proclamar-se "inocente" (v. 26), como se ele pudesse considerar-se não neces­sitado de perdão (v. 25). A despeito da inconstância do povo do pacto, Yahwéh permanecerá fiel à sua palavra falada a eles e por eles. 

iWattâ (e agora) (44.1). A tradução da New Internacional Version, "mas agora", faz bom sentido, porque acentua a grande diferença entre Yahwéh e ya'ãqõb 'abdi Qacó, meu servo), que recebeu ordem de Sèma’ (ouvir). Jacó, o servo, é novamente lembrado como o que Yahwéh bãhartl (elegeu). Isaías empregara essa terminologia anteriormente quando o servo reinante de Yah­wéh, que deveria estabelecer justiça, estava diante de sua audiência; assim, o que foi dito do servo individual é agora atribuído ao servo coletivo. O que é de particular interesse é a mensagem divina que Isaías passa a proferir a respeito de Jacó ou Israel como servo de Yahwéh. 

No v. 2 Isaías refere-se novamente à formação de Israel como nação. Israel yhwh 'õéekã (Yahwéh fez); de fato, o povo foi formado mtbbeten (desde o ventre). O Egito tinha sido o "ventre" onde a nação de Israel se tinha desenvol­vido; e imediatamente depois do êxodo do Egito o povo redimido tinha se tomado nação (Êx 19-24). A promessa de contínuo auxílio é repetida, como o é a ordem "não temas" Çal-ttrã’). Surpreendentemente, embora Isaías condene o povo do pacto por inconstância, Jacó, o servo escolhido de Yahwéh, é chamado pelo nome, ou título, wXSurün (Jeshurun, v. 2b). Este termo tinha sido usado por Moisés quando descrevia a bem-aventurança que o povo redimido podia esperar de seu Deus (Dt 33.5,26), ou podia referir-se à maneira em que Israel deveria agir como povo obediente, servidor e adorador. O termo Jeshu­run é tido como derivado do verbo hebraico yãSar, ser reto, direito. Podemos concluir que Isaías fala de Israel como o povo "ideal", do modo como Yahwéh o imagina e do modo como ele podia e devia ser. Israel como Jeshurun, povo ideal de Yahwéh, é abençoado e "engorda" com as riquezas que Yahwéh lhe concede (Dt 32.15). 

Isaías 44.3,4 amplia este conceito introduzido por Jeshurun. Os dons gran­des e bons que Yahwéh dará, como prometeu, são tanto de caráter natural quanto espiritual. A chuva e as torrentes que ela traz regarão a terra; boas colheitas, alimento em abundância e bem-estar material são assegurados. O Espírito de Yahwéh será derramado sobre a descendência de Jacó e estarão presentes no meio do povo copiosas manifestações do Espírito.[51] Eles terão crescimento e uma boa vida; serão como a relva verde no prado ou como árvores copadas à beira do rio. Isaías resume as promessas pactuais que Yahwéh repetira várias vezes antes, aos patriarcas, por meio de Moisés (cf. esp. Dt 8.1-10; 28.1-14; 30.1-10) e por meio de Joel (2.28 [TM 3.1]). Isaías dissera (Is 11.2 e diria de novo (61.1) que o Servo individual, o ramo da casa de Davi, teria a mesma experiência de derramamento do Espírito.[52]

Um resultado claramente mencionado do modo de Yahwéh tratar com seu servo Jacó e do derramamento do Espírito sobre ele será uma resposta positiva. Em duas declarações paralelas — Eu pertenço ao Senhor e serei chamado pelo nome de Jacó — Isaías destaca isso. (1) Haverá uma confissão e testemunho de pertencer a Yahwéh — permanentemente escrito (escrito na mão). A resposta pactual à declaração pactual, "Eu sou o teu Deus", será: "Eu pertenço a ti" — sou teu servo, teu adorador, um fiel agente do pacto. (2) Será tomado o nome de Jacó e de Israel. Identificação com Yahwéh resultará em identificação com o seu povo (44.5). Não se afirma explicitamente quem vai identificar-se com Yahwéh e Jacó. Isaías fala de modo geral zeh wèzeh (esse, alguém). Pode referir-se a descendentes de Jacó-Israel, que se anunciarão aberta e publicamen­te como servos de Yahwéh e membros de Jacó-Israel. Embora esta seja uma probabilidade, é preferível pensar em outras pessoas que não descendem diretamente dos patriarcas, que, porém, se identificam com Yahwéh e seu povo. A própria passagem sugere um horizonte amplo, universal, além do escopo nacional, pela maneira como Isaías imaginativamente aponta para além de sua audiência imediata em Jerusalém e designa "este aqui, e aquele ali". No contexto mais amplo, o aspecto universal é ainda mais destacado (Is 43.8,9; cf. 22.4).[53]

Nessa surpreendente passagem (Is 44.1-5) o povo do pacto de Yahwéh é chamado de o eleito de Yahwéh, obra de suas mãos, seu povo material e espiritualmente qualificado, que servirá como poder de atração, trazendo pessoas de todos os povos e nações a Yahwéh e a seu povo. Cumpre repetir que esse glorioso modo de ver o povo de Yahwéh é muito diferente do que Isaías proclamou a respeito da situação real de Israel ou Jacó. Ele profetizou a respeito do julgamento que viria por causa da idolatria (44.6-20). O ideal e o real são justapostos diante dos ouvintes e leitores das profecias de Isaías. A nota final, entretanto, é que a palavra de Yahwéh permanecerá firme: o Israel real será trazido a julgamento; e o próprio Yahwéh fará surgir o Israel ideal. 

44.21-23. A passagem começa com o mandamento de zèkãr- êlleh (lembrar essas coisas). O profeta dirige-se de novo a Jacó, direta e pessoalmente. A designação "essas coisas" refere-se particularmente à origem humana dos deuses-ídolos; a impotência das imagens materiais e as atitudes, crenças e expectativas ridículas de seus adoradores (cf. w. 6-20). Em contraste com essas deidades indignas está o Yahwéh do pacto, que é o Rei (melek) de Israel, seu Redentor (gõ'êl), o Senhor dos Exércitos (yhwh sèbã’ôt). Mais ainda, ele é o primeiro e o último, o fim de todas as coisas, o único Deus (v. 6). Isaías proclama que esse Yahwéh punirá severamente, derramando sua ira, lõ’ UnnãSênl (não ser esquecido, niphal de riãSã’, esquecer, ignorar). Jacó, que tem sido trazido para ser servo de Yahwéh, não será varrido da memória de Yahwéh, mesmo que tenha de experimentar o severo julgamento do exílio. A garantia de perdão é afirmada em termos expressivos: ofensas e pecados serão varridos como névoa matinal diante do sol brilhante (v. 22). O chamado a arrependesse e retomar é feito; a base para esse chamado é a segura redenção a ser cumprida por Yahwéh em favor de seu povo (v. 21) .Essa redenção por vir é um fato tão certo que Isaías convida a criação, os céus, a terra, as montanhas, florestas e árvores a regozijarem-se, bradarem e irromper adiante por causa da revelação da glória de Yahwéh na redenção de seu povo (v. 23).[54]

Isaías proclama os fatos certos sobre o futuro de Jacó ou Israel. Yahwéh permitirá que seu povo seja saqueado (42.24,25); Jerusalém será devastada e despovoada; e a ira de Yahwéh será derramada sobre Sião, Jerusalém, Judá, Israel —os filhos ou descendentes de Jacó, Isaque, Abraão. Mas suas promessas de ser Deus para eles, estar com eles, sustentá-los, abençoá-los, permanecem de pé. Como serão reconciliadas estas duas atitudes opostas —Jacó ou Israel no exílio, e no entanto perdoados e restaurados? De fato, Jerusalém será repovoada e as cidades de Judá serão reconstruídas (44.26). Mas será mesmo Yahwéh que fará ocorrer simultaneamente esses dois eventos contraditórios? 

44.28-45.13. Esta importante passagem tem sido um dos pontos principais no debate a respeito da unidade do livro de Isaías. O ponto particular de discussão é o nome hebraico KõreS, traduzido como Ciro.[55] Skinner, como muitos outros, afirma que "as alusões a Ciro na profecia tomam perfeitamente claro que o tempo a que ela se refere está entre 549 e 538 a.C. A nação (Israel) está no exílio, mas às vésperas da libertação".[56] Segundo registros históricos,[57] não bíblicos, Ciro foi conhecido primeiro como rei de Ansã, no Elão, um país a leste da Babilônia. Tomou-se logo rei da Pérsia, derrotou Astíages, rei da Média (cerca de 549 a.C.), e pôde assim formar uma nação, o reino medo-persa. Então passou a conquistar países ao norte e, tendo sido bem sucedido, planejou atacar a Babilônia, a oeste. Em 538 a.C. capturou a cidade e seu império, tomando-se governante de uma área que incluía a maior parte da Ásia Ociden­tal. No período de dois anos após esta sua vitória, ele permitiu o retorno dos exilados israelitas a Jerusalém, fatos históricos que estão de acordo com o relato bíblico (2 Cr 36.22,23 par. Ed 1.1,2). 

A pergunta a ser respondida é: Tendo Isaías recebido a revelação de Yah­wéh, profetizou especificamente a respeito da ascensão de Ciro, escolhido por Yahwéh como agente libertador e restaurador, 150 anos antes de o rei persa aparecer no cenário da história? Ou foi um segundo Isaías, que viveu e profeti­zou no tempo da ascensão de Ciro ao poder e de suas conquistas? A resposta dada anteriormente é que, quando Isaías profetizou, predisse a ascensão e o governo de Ciro.[58] Esta resposta está inteiramente em harmonia com o que Isaías estava profetizando. Consideremos de novo como Isaías acusou o povo do pacto de falsa adoração (43.22), de sacrifícios corruptos (43.23,24a), e de sobrecarregar Yahwéh com seus pecados (v. 24b). Estes eram os próprios pecados de que ele tinha falado antes (cf. 1.10-16). Por essas iniqüidades e males o povo havia de ser assolado, saqueado e destruído (17-9; 3.1-26; 41.25; 43.28). Esse julgamento destrutivo, entretanto, não seria o fim do povo de Yahwéh (o "peso" real da mensagem de Isaías nos capítulos 40-52); Yahwéh remirá e restaurará. Note-se também que Isaías, vivendo e ministrando nas proximidades do templo, fala de sua restauração depois que ele fosse destruído. Como e por quê? 

Yahwéh levantará um agente totalmente inesperado para libertar e restau­rar: Ciro! Ele o chamará pelo nome, pessoalmente (45.14). E esse estrangeiro será levantado lêma'an (por causa de) dois fatores específicos. (1) por causa de Jacó, meu servo, por causa de Israel, meu escolhido (45.4). A eleição de Abraão e sua semente, o pacto de Yahwéh com essa semente, as promessas e os planos de Yahwéh para essa semente, e o uso dessa semente por Ele para trazer a Semente, não podem ser frustrados ou impedidos. Jacó ou Israel estará desamparado em cativeiro, por vontade do próprio Yahwéh. Mas Ele quebrará esses grilhões por meio de Ciro; assim o povo será de novo capacitado a cumprir os propósitos divinos. E (2) por causa da humanidade, que deve saber que Yahwéh somente é Deus {’èlõhim) (w. 5,6) e que não há outro — um Senhor fiel, guardador do pacto, que traz trevas e desastre, mas também luz e vida (v. 7). 

A mensagem que Isaías proclama é: Yahwéh suscitará o rei medo-persa Ciro porque Ele tem seu povo em mente, e o conhecimento de si próprio entre os povos e nações como seu propósito. O particularismo e o universalismo da misericórdia, graça e amor de Yahwéh motivam-no a fazê-lo; no desdobramen­to de ambos a glória de Yahwéh será revelada, apreendida e adorada. 

Ciro não é mencionado como servo de Yahwéh. Os termos escolhidos para descrever o caráter e o serviço do Servo de Yahwéh, entretanto, são usados em relação a esse monarca. 

44.28. Hi’ õmer lèkôreS rõ'i (Aquele que diz a Ciro: "Meu pastor"). Yahwéh, Senhor da criação e da história, Redentor e Protetor de seu povo, o único Deus, o Santo, aponta para Ciro como seu pastor. O real conceito de servir como pastor em nome de Yahwéh foi usado para descrever a obra de Moisés (Nm 12.7) e de Josué (Nm 27*18-23); esses dois homens tiveram o dever de ir e vir, de guiar o povo de Yahwéh. Os juízes de Israel também deviam ser pastores sobre o povo do pacto (2 Sm 7.7), como também Davi, um bom representante do rei-pastor ideal de Yahwéh (SI 78.70-72). Mais tarde, profetas como Jeremias Jr 25.34-36; cf. 33.12) e Ezequiel (Ez 34.1-16) falaram de falsos e verdadeiros pastores. Sua referência era particularmente aos reis da casa davídica. O próprio Isaías tinha apontado para o caráter e os deveres dos pastores, como o próprio Yahwéh os tinha demonstrado (40.11). 

O povo de Yahwéh requeria o serviço de alguém que atuasse como pastor representando Yahwéh. Isaías tinha anteriormente mostrado como o rei Acaz, da casa de Davi, falhou como pastor (Is 7-11). Agora, ele levanta outra acusação contra os descendentes de Davi: um estrangeiro desconhecido, não um filho da dinastia davídica, representará e servirá Yahwéh, o grande Pastor de seu povo. 

A tarefa dada especificamente a Ciro, o pastor, é resumida nas palavras wèkol-hepst yasllm (todo o meu prazer ele completará). O verbo Sãlam no hiphil tem o sentido de fazer levar a um fim completo. Isaías assim resume a libertação do povo do pacto do exílio e sua restauração a sua própria terra, cidade e lugar de culto. A obra de Ciro terá um clímax na reconstrução de Jerusalém e no restabelecimento do templo. Em outras palavras, Ciro, como subpastor de Yahwéh, deve reunir o rebanho disperso, trazê-lo a seu lugar de habitação, prover suas necessidades e tomar possivel que o "aprisco das ovelhas", isto é, a cidade e o templo, seja reconstruído e atenda às reais necessidades do povo. 

45.1-5. Isaías continua sua proclamação a respeito de Ciro, o servo de Yahwéh. Ele é o mãsiah (Messias, ungido) de Yahwéh. Este epíteto resume a escolha, chamado, qualificação e separação de Ciro por Yahwéh.[59]

Ciro será capaz de cumprir suas responsabilidades como pastor ungido de Yahwéh. São feitas a ele três promessas específicas: a primeira é hehêzaqti biminô (eu te darei força ao segurar fortemente tua mão). O termo foi usado por Isaías quando falou do apoio que Yahwéh dará a seu servo Israel (41.9a). Ciro receberá precisamente o que Yahwéh daria a seu servo — tanto individual quanto coletivo. Ciro recebe garantia de sucesso, pois com Yahwéh tomando-o pela mão direita, o simbolo do cumprimento, ele superará todos os obstáculos. As gôyim (nações) serão conquistadas e subjugadas (lèrad, qal de rãdad). Ciro será vitorioso sobre toda e qualquer nação que o desafiar e se lhe opuser. Yahwéh demonstrará sua soberania sobre todos os povos e nações por meio das vitórias de Ciro: os mèlãktm (reis) das nações subjugadas tornar-se-ão impotentes, com a remoção de todos os seus meios de fazer guerra.[60]

E mais: os muros da cidade não serão escalados porque as portas não se fecharão. Yahwéh abrirá as entradas (dèlãtim, de delet, porta ou portão) das cidades e das fortalezas. Yahwéh, segurando a mão direita de Ciro, torná-lo-á invencível como chefe militar e como líder político. Ciro será de vários modos o que foi dito do Filho em Isaías 9.2-7 (TM 1-6). 

A segunda promessa, estritamente relacionada com a primeira, é que o próprio Yahwéh lèpãnêkã ’êlêk (diante de ti irei, qal de hãlak, ir) (v. 22). 

Yahwéh promete guiar, dirigir, conduzir Ciro, como Ele tinha guiado os israelitas através do deserto até a Terra Prometida. As preciosas promessas feitas aos israelitas cativos, isto é, seu retomo para casa, tomar-se-iam possíveis, endireitando-se os caminhos tortuosos, aplainando-se montanhas e ater­rando-se vales, isto é, preparando-se uma boa estrada (40.3,4). Isso seria feito por Yahwéh por meio de Ciro (45.2), que, como libertador, será também o eficiente restaurador do pacto, com o apoio e direção de Yahwéh. Isaías repete que ninguém será capaz de opor-se a Ciro, porque Yahwéh quebrará mesmo as barreiras mais fortes — simbolicamente referidas como "portões de bronze" e "barras de ferro" (42.2b NIV). 

A terceira promessa feita em relação a Ciro é que Yahwéh equipará e enriquecerá o governante (45.3a). ’Ôsèrôt hõSek (os tesouros das trevas) são valores acumulados e escondidos em lugares secretos. Essas "casas de tesouro" serão abertas e Ciro receberá os meios de cumprir a incumbência que Yahwéh pôs sobre ele. 

Apoiado e equipado por Yahwéh, Ciro deve reconhecer Yahwéh como aquele que o chamou e capacitou para ser o agente vitorioso, libertador e restau­rador (45.3b). Embora não conhecesse Yahwéh quando foi chamado e honrado para servir como seu agente, Ciro receberá dele sustentação e força (45.5). 

Mais um aspecto a respeito de Ciro como agente messiânico requer nossa atenção. 

45.13’Ãnõki ha'irõtihü bèsedeq (eu o levantarei em retidão) (NIV Ciro; RSV, KJV ele). Isaías falara dessa maneira antes, sem mencionar o nome de Ciro, mas obviamente referindo-se a ele em 45.2. Ele também não é mencionado pelo nome no verso 13. Não há como negar, porém, que ele esteja sendo citado aqui, porquanto ele é o assunto principal da passagem inteira (44.28-45.13), especialmente em relação à retificação de seus caminhos (45.2) — uma bela perspectiva repetida no versõculo 13. A afirmação de que Yahwéh levantará Ciro[61] vem depois de Isaías ter, por assim dizer, respondido a supostas objeções a respeito de sua missão. Isaías proclama que Yahwéh, o Soberano Senhor, infligiu desastre e assegurou bem-estar (v. 7); Yahwéh trouxe prosperidade e retidão (v. 8). Porém, os que ouvem Isaías reclamam; eles contendem com Yahwéh (w. 9-11). O Deus de Abraão, de Jacó e de seus descendentes irá a uma nação pagã para suscitar um libertador que desfrutará do apoio e da direção de Yahwéh? Isaías responde: Yahwéh, o Criador e Governador da terra, da humanidade, dos céus e de suas estrelas, levantará Ciro para libertar os exilados e fazer reconstruir Jerusalém. Ciro fará isso sem nenhuma vantagem para si mesmo (v. 13c). O governante persa se levantará e servirá Yahwéh em retidão. As relações entre Yahwéh e Ciro estarão de perfeito acordo com seus atos passados como Criador e Sustentador do universo. Além disso, Yahwéh, empregando o descrente Ciro, não fará coisa alguma contrária a sua própria natureza, sua vontade, seu propósito. De fato, os serviços de Ciro revelarão 

Yahwéh como um Deus perfeitamente consistente, coerente com sua palavra da promessa revelada, sua lei, sua instrução para seu povo (e para as demais nações). Por seu serviço a Yahwéh em favor do povo de Deus, Ciro não pleiteará prerrogativas e honras para si mesmo, mas Yahwéh de tal maneira tratará com ele e por meio dele que o poderoso monarca será para Ele um instrumento de louvor, adoração e honra. Assim, a retidão de Yahwéh, que cairá como chuva (v. 8), será gloriosamente revelada na libertação de Israel ou Judá do cativeiro e sua restauração por meio de Ciro, o ungido de Yahwéh. 

Em contexto subseqüente,[62] será comentado o papel de Ciro como agente messiânico. Neste ponto, entretanto, é oportuno afirmar que, embora Ciro não seja identificado como 'abdi (meu servo), é estabelecido como quem presta grande serviço a Yahwéh e a seu povo. De fato, ele fará a obra de um agente messiânico real, em vista da falha dos descendentes reais de Davi. Como tal, Ciro é um tipo do Messias prometido. 

Convém repetir que nesta especial passagem (44.28-45.13) o termo hebraico ’abdi refere-se a Jacó; ele aponta diretamente para os descendentes de Jacó, o povo ou nação de Israel ou de Judá, em cuja causa Ciro é convocado para servir (45.4). Também deve ser dada atenção ao fato de que o termo 'abdô (seu servo) ocorre como paralelo para maVãkãyw (seus mensageiros), cujas palavras serão cumpridas (44.26). A referência é aos profetas, particularmente a Isaías, cujas mensagens devem ser consideradas seguras e confiáveis. O ponto específico a ser notado nesse contexto é que os profetas, mensageiros de Yahwéh, estão em relação especial com Ele, como seus porta-vozes, e estavam a serviço de Yahwéh, de modo que eram chamados seus servos. 

48.20. Depois de falar de Ciro como o servo que Yahwéh vai empregar, Isaías declara enfaticamente que o soberano Senhor das nações (45.14), que opera de modos misteriosos (45.15), isto é, Yahwéh o Criador, o único Deus (v. 18), que se revelou a si mesmo (v. 19), seguramente livrará e restaurará seu povo (w. 17,20-25). Fala, então, a respeito dos deuses da Babilônia que são impotentes (46.1,2); por outro lado, o propósito e a vontade de Yahwéh se cumprirão (46.3-13). Babilônia certamente cairá, a despeito de seu orgulho e de seu poder (47.1-15).[63] Isaías fala novamente a respeito da loucura, surdez, insensatez e rebelião daqueles que são chamados pelo nome de Israel e que vêm da linhagem de Judá (48.1-11). A despeito de seu caráter, atitudes e pecados, Jacó é chamado a ouvir (48.12) e recebe a garantia de que a missão de Yahwéh para ele será levada a cabo (v. 15). Guiado pelo Espírito, Isaías (v. 16) assegura a Israel ou Judá que o livramento e a restauração virão; portanto, ele profere a convocação para deixar Babilônia (v. 20a) e a fazer conhecido — em todas as partes da terra — que Yahwéh redimiu Jacó, seu servo. Isaías refere-se repetidamente aos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó como servos de Yahwéh, e como tais serão libertados e redimidos. Serão salvos para servir. (O serviço específico para o qual Jacó foi designado foi formulado em resumo quando discutimos 41.8; 42.1-7,18-25; e 43.8-13). 

49.1-12. Este e os capítulos imediatamente subsequentes, segundo a maioria dos estudiosos de Isaías, apresentam quatro desafios específicos ao intérprete desse notável livro. Primeiro, os capítulos 49-55 introduzem uma dimensão nova na mensagem de Isaías? Muilenberg, que tem dado muita atenção à estrutura literária de Isaías 40-66 (como notamos anteriormente), intitula os capítulos 40-48 "A Vinda Iminente de Deus", e os capítulos 49-55 "A Redenção de Israel".[64] Young também revela consciência de mudança; ele intitulou os primeiros capítulos "Terminou a Guerra em Jerusalém", e 49-57.21, "A Iniqüidade de Jerusalém está Perdoada".[65] Entretanto, Oswald T. Allis crê que a personalidade dominante e o assunto dos capítulos 40-48 é Ciro e a tarefa que lhe é designada.[66] Neste nosso estudo os capítulos 40-52.12 são considerados uma unidade, apresentando os agentes que Yahwéh chamou e comissionou, e 52.13-53.12 é uma unidade que apresenta as experiências do agente-servo, que é a figura central no programa redentivo de Yahwéh em favor de seu povo. 

Segundo, como deve ser dividido o capítulo 49? Consistiria de duas partes principais, isto é, versos 1-12 e 13-26, como pensa Muilenberg?[67] Estava ele certo ao dividir cada uma dessas passagens em seis estrofes? Ou devemos seguir Young, que põe a linha divisória entre os w. 13 e 14 (cf. RSV) e divide cada parte diferentemente de Muilenberg?[68] (Neste nosso estudo considerare­mos a divisão entre os w. 12 e 13). 

Terceiro, quem é o servo referido na passagem (49.3)? Nos capítulos prece­dentes, o termo servo refere-se a profetas, a Israel ou Judá, e a um servo individual (Ciro não é chamado de servo, mas certamente o poderia ser). Os comentadores, em sua maioria, sentem-se compelidos a identificar o servo. Muilenberg opta pelo "sentido coletivo", isto é, o servo é Israel.[69] Young, seguindo Joseph Alexander e Keil-Delitzsch, refere-se ao servo como o Mes­sias.[70] McKenzie faz algumas alusões, mas evita dizer quem o Servo é, exceto que ele é o meio que Yahwéh irá empregar para adquirir glória para si mesmo "por meio de seus atos salvadores para com Israel".[71]

Quarto, quem está-se dirigindo às terras costeiras? Estamos tratando de um solilóquio (Young) ou de um diálogo (Muilenberg)? Um estudo da passagem dará respostas satisfatórias, porque consistentes com o que a precede, e parti­cularmente com o que a segue (52.13-53.12). 

Verso 1. Um chamado é dirigido às ’iyim (ilhas) e a povos que vivem em lugares distantes.[72] Outros chamados foram feitos antes. As ilhas tinham sido antes chamadas ao silêncio (41.1), quando deviam ouvir o ato de Yahwéh de suscitar um do leste para prestar serviço a Ele. Depois, há um chamado orde­nando-lhes que reconheçam e proclamem que Yahwéh redimiu seu servo Jacó (p. ex., 42.10,12,15). Agora Isaías muda a ênfase do papel de Ciro na libertação e restauração de Jacó, e do destino da Babilônia quando ele (Ciro) cumprisse seu dever para com Israel ou Judá, no papel do Servo que tinha sido referido antes em vários contextos. Isaías faz isso de maneira especial. Quando procla­ma sua mensagem, fala na primeira pessoa do singular: Sim’ã ‘êlay (ouvi-me!). O próprio contexto toma óbvio que Isaías não está-se referindo a si mesmo: ele é o porta-voz de outro. Não é nem Yahwéh nem Ciro, mas uma terceira pessoa quem fala. Essa terceira pessoa faz algumas referências a si mesma. 

Yahwéh mibbeten qè?'ã’ãni (Yahwéh, desde o ventre, chamou-me) (cf. KJV, RSV; NIV antes que eu nascesse), e numa linha paralela, "Yahwéh, desde o ventre de minha mãe, fez menção do meu nome". A pessoa fala de sua origem em termos de um nascimento humano normal. Devemos reconhecer, entretan­to, que isso poderia ser usado metaforicamente da saída de Israel do Egito.[73] Entretanto, ele fala pessoalmente de sua mãe, do ventre do qual ele proveio, e de seu nome. A razão conclusiva pela qual não se pode considerar o Israel coletivo como quem fala é que aquele que fala tem um papel a exercer em favor de Israel (49.5,6). Young, seguindo Hahn e Delitzsch, considera essas referên­cias ao nascimento humano um reflexo de Isaías 7.14.[74] Isto é possõvel, mas a questão da origem de quem fala não deve obscurecer a sua ênfase dominante. Essa ênfase encontra-se nos verbos qêrã’ant (chamou-me) e hizktr (fez meu nome ser lembrado). É o chamar e nomear ou, em outras palavras, a designação e a descrição de quem fala que chama a atenção em primeiro lugar. Essa referida pessoa considera-se sob autoridade, tendo o dever e a responsabilida­de de cumprir a tarefa que lhe foi designada. Jeremias mais tarde falou com a mesma compreensão 0r 1.5). 

Verso 2. A pessoa que fala vai adiante e declara que Yahwéh o preparou e o protege. Falando de sua preparação, e implicitamente de um de seus deveres, diz que sua boca foi feita como uma espada afiada, e ele próprio como uma flecha polida. Ambas as metáforas (espada e flecha)’ falam da luta que o aguarda no seu falar e no cumprimento de seus cruciantes deveres; mas os adjetivos, aguda (isto é, aguçada) e polida indicam que ele está bem preparado para tornar-se ativo no devido tempo. São-lhe asseguradas proteção e defesa; na mão e na aljava de Yahwéh ele está e será guardado. A forma do hiphil dos verbos hãbã’ (esconder) e sãtar (ocultar) sugere que Yahwéh tem seus meios de esconder, ocultar e proteger seu agente até que chegue o momento de agir. 

Verso 3. Isaías apresenta a pessoa que fala como a continuar a identificar-se. Está ainda dirigindo-se a sua vasta audiência; informa-a de que Yahwéh dirigiu-se a ele como 'àbdi (meu servo) eyiérã’êl (Israel). Um indivíduo tinha sido citado antes como Servo por Isaías (42.1-4). O que foi dito do Servo ali certamente correlaciona-se e harmoniza-se bem com o que a pessoa que fala diz aqui de sua origem, chamado, preparação e proteção. Portanto, não deve haver hesitação em identificar a pessoa que fala em 49.1-3, que é referida pessoalmente como ’attâ (tu) e designada como o Servo de Yahwéh já men­cionado antes. Assim, a pessoa que fala como Servo, de nascimento humilde, revestido com o Espírito e, portanto, com poder e capacidade divinos, é um indivíduo que tem um obra a realizar em favor das nações e do povo de Yahwéh; para esse propósito ele foi guardado até chegar o tempo de sua ação. Assim, podemos compreender porque a pessoa que fala é designada por Yahwéh como "meu servo". 

Como, porém, pode a designação do Servo como Israel[75] ser reconciliada com o fato de que esse é o nome de um povo, os descendentes de Abraão e Jacó? Tem sido sugerido que o Servo personificaria Israel, mas Young está certo em notar que o povo de Israel personificado não é a pessoa que fala em Isaías 49.1,2. A resposta deve ser encontrada na estreita relação existente entre a pessoa que fala, denominada Servo, e o povo de Israel. O Servo é chamado Israel porque ele é um de Israel; ele provém do povo, isto é, ele é a Semente que vem da semente dos patriarcas. Ele havería de agir em seu favor, como seu representante e cabeça, de modo que muitos poderíam tomar-se o que ele é. O Servo representa o Israel ideal em sentido real, e sendo um de Israel, trabalhan­do em favor dele, havia de fazer a transformação do Israel pecaminoso no Israel ideal. Assim a pessoa que fala reconhece e proclama aos povos e nações que ela chegou, que está presente e age, não em seu próprio benefício ou para seu próprio proveito pessoal. Ao contrário, veio de Israel, identificou-se com ele, e representa Deus perante as demais nações. Na qualidade de Israel Servo, ele faria o que a nação de Israel deveria fazer: revelar e demonstrar a glória, a majestade e o esplendor de Yahwéh a todos os povos. De fato, o Servo, Israel, reconhece que seria o próprio Yahwéh (note-se o hitpael de pã'ar) quem faria essas coisas por seu intermédio, e devido à sua identidade com os descendentes dos patriarcas, o faria também através deles. 

Verso 4. Isaías continua a proclamar o que o Servo diz; Young corretamente refere-se a isso como o solilóquio do Servo.[76] Tendo repetido como Yahwéh o designou, o Servo responde: wa’ânt ’ãmaril (enfático: mas eu disse); lèriq yãga’ti (em vão tenho trabalhado).[77] O Servo, projetando-se no futuro (perfeito profético de yãga'), declara que seu esforço cansativo em favor de Israel tem sido sem proveito. Ele despendeu suas forças em vão.[78] Assim como Isaías tinha sido aconselhado a não esperar uma resposta positiva a sua obra profética 6.9-10, assim também é com o Servo. Quando considera aqueles em favor de quem está gastando suas forças, expressa desânimo; mas, olhando para Yahwéh, fala com confiança: certamente o meu direito está perante Yahwéh. Não é plausõvel que Isaías tenha em mente a situação de um tribunal, como se Yahwéh tivesse um caso contra ele.[79] Ao contrário, o Servo está satisfeito porque Yahwéh conhece sua obra e seus resultados, e declarará que o seu trabalho é aceitável e está de acordo com a sua vontade. O Servo recebe a garantia de que seu Deus lhe dará a recompensa de acordo com seus esforços e labor (v. 4b). 

Verso 5. O Servo continua o seu solilóquio. Isaías proclama que o Servo, tendo expressado tanto seu desânimo quanto sua confiança, repete o que Yahwéh tem dito.[80] O Servo recorda alguns fatos. Ele referiu-se a seu nasci­mento e chamado (49.1) e a sua vocação para ser Servo de Yahwéh (49.3). Então, breve e diretamente, resume sua tarefa: lèSôbeb Ya'ãqõb ’êlãyiu (fazer voltar Jacó para ele). O verbo, no polel, significa trazer de volta; a idéia de ação intensiva está presente. O termo voltar é usado tanto para o retomo físico quanto o moral ou espiritual: regeneração (Is 10.21) e conversão (p. ex., Am 4.6) são referidos como retorno ao Senhor (cf. Os 6.1; 7.10). Apostatar, isto é, afastar-se de Deus, pode ser também expresso por esse termo. Os comentado­res têm interpretado essa frase de diversos modos. Muilenberg não faz nenhum comentário sobre ela e a maioria dos demais fala apenas em termos gerais.[81] Young nega que ele se refira a um retomo do cativeiro; ao contrário, significa um retomo espiritual. O verbo hebraico não pode ter mais do que um signifi­cado específico. Isso, entretanto, não impede de dizermos — enfaticamente — que a obra designada para o Servo era capacitar Israel ou Judá a retornar para Yahwéh (espiritualmente), e para o caminho de vida de Yahwéh (moralmente), bem como realizar as promessas pactuais relativas à terra, à prosperidade e à fama. No contexto pactual essas coisas são inseparáveis. Abraão e sua semente foram chamados a viver a vida inteira numa relação vital e vibrante com Yahwéh. O chamado a esses laços pactuais sempre inclui as promessas e as garantias de bênçãos. O povo de Yahwéh não haveria de viver vidas divididas. Vida sob e com Yahwéh é vida unificada e integrada. Assim, um retomo ’êlãyu) (a ele, Yahwéh) incluía um retomo à cidade onde Ele tinha o templo, à terra da promessa, às bênçãos de uma vida estabelecida. A frase paralela deve ser tomada no mesmo sentido. 

Weyiárã’êl lõ’ yê’ãsêp (e Israel ele reunirá a si). Jacó e Israel são sinônimos. Retomar e ser reunido (niphal de ’ãsap entendido como passivo, não como reflexivo [cf. RSV]), indica uma progressão no pensamento; aqueles que retor­narão serão reunidos e unificados como um corpo com Yahwéh na cidade de Yahwéh e na terra da promessa. O problema é com a conjunção hebraica lõ’, cujo sentido é "não". Calvino toma o termo literalmente — mas Israel não será reunido (cf. KJV).[82] [83] Nove manuscritos lêem "a ele" (lô)P Essa leitura está de acordo com o texto (cf. NIV, RSV). 

A tarefa atribuída ao Servo, então, é a libertação dos descendentes de Jacó e sua completa restauração a Yahwéh, ao seu modo de vida, e às suas bênçãos. O Servo, tendo expressado desânimo e falta de resultados (v. 4), apesar disto mantém diante de seus próprios olhos o propósito de sua aparição e a tarefa a ser cumprida (cf. v. 6, abaixo). O Servo recebe a garantia de que não será abandonado. 

We’ekkabêd bè'ênê yhwh (e serei glorificado aos olhos de Yahwéh) (cf. KJV). O verbo deve ser entendido passivamente, pode significar ser honrado (cf. NIV, RSV), ou considerado de grande importância. O verbo glorificar é preferido porque inclui o duplo conceito de reconhecimento e de honra, e os situa no contexto de um recebimento de proeminência e louvor resultantes. É na presença de Yahwéh que o Servo receberá sua recompensa de glória pelo esforço em cumprir sua tarefa. 

We‘ lõhay hãyâ 'uzzi (e meu Deus tem sido minha força). O Servo distin­gue-se nitidamente de Yahwéh, mas também exprime uma clara e definida relação com Ele. Isso é uma expressão de confiança; e mais do que isso, o Servo honra a Deus por tê-lo suprido com 'õz (força ou poder). Por isso, recebendo força de Deus, o Servo tem a atitude, o poder, a fortaleza e a firmeza necessários para cumprir completamente sua missão. 

Tendo refletido sobre o que Yahwéh fez por ele, o Servo repete a frase introdutória do verso 5: "Ele diz". 

Verso 6. Isaías continua a proclamar o que o Servo denota em seu solilóquio: nãqêl mihyôtèkã Webed (parece-te pouco ser um Servo para mim?) O niphal de qãlal pode expressar a idéia reflexiva de alguém considerar-se a si mesmo como demasiado insignificante. A frase, entretanto, não deve ser considerada uma pergunta retórica (cf. NIV, RSV, KJV): Consideras-te a ti mesmo...? Ao contrário, o pensamento expresso é que o Servo não vai limitar-se, como Servo de Yahwéh, à tarefa de reunir as tribos de Jacó e o remanescente de Israel preservado por Yahwéh. A tarefa, em si mesma, não é insignificante; contudo, o Servo terá de compreender que há ainda uma dimensão maior em sua obra. Como foi ordenado a Abraão que fosse uma fonte de bênção para todos os povos e nações (Gn 12.1 -3), assim também é ordenado ao Servo. Os descen­dentes de Jacó não serão restaurados e reunidos para si próprios. Seu retomo e a reconstrução têm por propósito o serviço a Yahwéh, a ser realizado através do ministério às gentes e nações. Portanto, a obra do Servo não será limitada ao pequeno Israel, que é insignificante se comparado a outras nações do mundo. Sua obra é de significação e proporções muito maiores. 

Úiètattikã lè’ôr gôytm (e te dei para luz das nações). O verbo, que pode ser traduzido "dei", ou "fiz", traz o pensamento específico da ação de Yahwéh em favor das nações do mundo. Esses povos estão em trevas, tal como Israel ou Judá é descrito como estando em trevas, em outro contexto anterior (9.2-4 [TM 9.1-3]), uma condição lúgubre que afeta os aspectos todos da vida. Como a Criança ou Filho era a luz para o povo do pacto, assim o Servo (que deve ser identificado com a Criança ou Filho), há de trazer luz para os povos do mundo (cf. 42.6). Essa luz há de ser ou servir como ayè5ü'â (salvação) de Yahwéh. O termo salvação no Velho Testamento não se restringe à idéia do perdão divino e da aceitação sincera, pelo crente, da vida espiritual. Inclui especialmente: libertação do pecado e de seu cativeiro; entrada numa relação viva com Yahwéh; e envolvimento numa vida de liberdade, bênção e serviço.[84] Os povos do mundo devem ser salvos, radical e totalmente, assim como o fora o povo apóstata do pacto. A universalidade dessa salvação é expressa pelo Servo, como proclamado por Isaías na frase hebraica 'ctd-qèsêh hã’ãres (até a extremidade da terra). O termo extremidade (RSV, KJV: fim) coloca forte ênfase no aspecto extensivo: até as fronteiras, até os extremos dos lugares mais distantes. O conceito de pessoas de todas as gentes ou nações, mesmo aquelas em regiões remotas, recebendo salvação e tornando-se identificadas com o povo de Yahwéh, é um tema que Isaías repete (cf. 42.6; 45.6,14). Essa idéia de Yahwéh prover luz para os povos e nações por meio de seu Servo foi afirmada por Jesus a respeito de si mesmo ("luz do mundo", Jo 9.5) e foi uma grande motivação para Paulo levar o evangelho aos gentios (gr.tetheika se eis phõs ethriõn, At 13.47). 

Neste ponto termina o solilóquio do Servo. Isaías, entretanto, continua seu relato, proclamando a resposta de Yahwéh às referidas palavras do Servo.[85] Como McKenzie observou, muito pouco se diz aqui que não tivesse sido dito antes. Alguma coisa do que Yahwéh dissera a respeito de Israel ou Judá (o servo coletivo), do Servo individual e de Ciro, é aqui repetido em relação ao Servo de Yahwéh encarregado de levar luz e salvação ao povo do pacto e a todos os povos da terra. 

Verso 7. Yahwéh, que responde ao Servo, é referido por Isaías como o gô’ël (redentor). Anteriormente, ele fora citado como dizendo a Jacó "eu te remi"! (43.1; 44.22) ou "Eu sou teu Redentor" (41.14); Isaías refere-se a Yahwéh como o Redentor (44.23,24; 47.4; 48.17,20). Yahwéh tinha pago um preço por Jacó ou Israel ou Jerusalém; ele quebrara o poder do Egito e livrara Israel do cativeiro. A referência a Yahwéh como qêdôSô (o teu Santo), isto é, o único, puro e majestoso Deus de Jacó, acresce ao desejo de Isaías de expressar a magnificên­cia e o caráter glorioso de Yahwéh. Ele dirige-se ao Servo, descrito agora em termos surpreendentes, contrastantes, que serão elaborados mais tarde (52.13-53.12. O Servo é referido como libzõh-nepeS (a uma alma desprezada; bãzâ, desprezar) e como limtâ'ëb gôy (ao que faz ser aborrecido pela nação; piei de tã'ab;cf. SI 22.6-16 [TM 22.7-17]). A profunda e completa humilhação do Servo é, pelo menos em parte, devida às próprias pessoas a quem e por quem ele veio. Devemos notar que, embora o Servo e Israel tenham sido estreitamente iden­tificados antes (49.3), agora são distinguidos. O Servo é citado também como servo de governantes, o que provavelmente deve ser entendido como "escravo de tiranos". A idéia, nesse especial contexto, é como ele é considerado, e não o que ele realmente é ou faz. Esses governantes, porém, serão surpreendidos: vendo-o, eles se levantarão em reconhecimento, e príncipes o reconhecerão e lhe prestarão homenagem. Assim, o caráter exaltado do Servo e o caráter e ação de Yahwéh são reconhecidos. Ne’ëman (niphal de ’ãman, quando é usado para falar de uma pessoa, é traduzido como firme, fiel, digno de confiança) é o termo que Isaías emprega, como o fizera Moisés antes dele. Moisés assegurou a Israel que Yahwéh era absolutamente digno de confiança, pois, segundo sua palavra, ele manteria o pacto de amor que fizera com seu povo (Dt 9.6,7). Como Israel tinha sido escolhido (Is 43.10; 44.1,2; 45.4) e como Ciro tinha sido convocado (45.1-4), assim o caráter imutável e elevado do Servo é devido à eleição dele por Yahwéh (cf. 42.1). 

Versos 8, 9a. Isaías repete o que Yahwéh dissera que faria por meio do Servo. Isso será feito num tempo específico, designado como bë'ët rõsôn (no tempo de boa vontade),[86] isto é, quando aprouver a Yahwéh, ou quando o tempo tiver chegado de acordo com seu plano e propósito. Esse tempo aceitável (KJV) ou favorável (RSV, NIV) será yôm yëSû'â (o dia da salvação). Então o Servo realmente cumprirá a obra de libertação do cativeiro (cf. 61.2). 

São feitas quatro promessas por Yahwéh a seu Servo. 

Primeira, ’ãnítíkâ (eu te responderei). Yahwéh promete uma resposta plena e completa às declarações do Servo a respeito da falta de resultados de seus esforços (49.4). Essa resposta será plenamente realizada na "salvação" (alguns lêem "assistência"; ver BHK) que o Servo trará ao povo de Yahwéh. 

Segunda, 'azartíka (eu te socorrerei, perfeito profético de ’azar). O termo pode ser traduzido como ajudar, mas seria um significado pobre nesse especial contexto. Socorrer sugere o real suprimento do que é requerido para tomar realidade para o povo a salvação plena. Assim, Yahwéh promete não somente pôr sua forte mão para sustentar o Servo, mas também que essa mesma sua mão suprirá todas as necessidades que o Servo tiver no cumprimento de sua tarefa. 

Terceira, wè’e§§ãrkã (e te guardarei, qal de nãsar). A declaração freqüente- mente feita por Yahwéh, "eu serei contigo", não é repetida exatamente nessas palavras, mas a idéia está aqui. Ele estará presente, vigiando, guardando, protegendo. O Servo cumprirá sua tarefa; Yahwéh não a fará por ele. Mas o Servo recebe a garantia da proteção e preservação divina. Seja o que for que ele vier a experimentar, ele o suportará; não será sobrepujado ou esmagado. 

Quarta, wè’ettenekã (e te darei, qal de nãtan, dar). O pensamento de dar o Servo deveria aqui significar a dádiva para um propósito específico; daí, tradutores e comentadores usarem os termos: eu te darei (RSV, K]V), ou eu te farei (NIV). O Servo há de tomar-se um pacto (bèrit) para o povo. Isaías proclamara anteriormente esse tema a respeito do Servo (cf. 42.6; ver nossa exegese desse versõculo acima). Pacto, em 42.6, é um termo paralelo ou sinônimo de luz. O Servo, então, será feito um seguro laço de amor e de vida entre Yahwéh e seu povo; para ser essa ligação vital ele trará o que Yahwéh prometera aos patriarcas como aspectos integrais dessa relação. Como pacto e luz, o Servo há de restaurar a Terra Prometida, reabilitar as áreas devastadas, e chamar os exilados a virem e serem livres de seu cativeiro. Mais uma vez Isaías não está proclamando idéias novas ou dando garantias inauditas Ele profetizara assim ao rei Acaz (cf. 9.2-7 [TM 9.1-6] e nossas considerações sobre a passagem). 

Versos 9b-12. Isaías passa a profetizar o que o povo libertado por Deus pode esperar. Ele terá suas necessidades básicas supridas, haverá plenitude de alimento disponível (w. 9b-10a); ele será protegido (10b). Será guiado e levado às fontes de água (10c). O caminho será preparado para ele (cf. Is 40.4). Os judeus dispersos virão de lugares distantes, do norte, do leste, do oeste e do sul (cf. At 2.9-11). Isaías proclama a plena salvação do povo de Yahwéh em termos do retorno do exílio e de uma dispersão quase universal. Assim, em termos de uma ocorrência histórica limitada — o retomo de Israel em 536 a.C. — Isaías proclama uma libertação real que (1) é maior em escopo do que o êxodo de Israel do Egito; (2) é de magnitude superior à do retomo de Babilônia; (3) é de muito maior significação do que um retomo do povo judeu da dispersão; e (4) é de muito maior alcance do que um retorno político-nacional a uma área geográfica. A salvação que o Servo preparará para o povo de Yahwéh incluirá todas as dimensões da vida: espiritual, moral, social, indus­trial, política e econômica —na realidade, cada aspecto da existência humana. 

Verso 13. Isaías convida toda a criação a expressões de júbilo em resposta ao que Yahwéh faz para confortar o seu povo (cf. 40.1) e revelar sua compaixão, por meio de seu Servo. Em Isaías 49.14-50.3, Isaías continua a falar a respeito da restauração do povo de Yahwéh, destacando vários aspectos. Depois que Sião se queixa de que Yahwéh se esqueceu de seu povo, Yahwéh garante a Israel sua constante preocupação, como a da mãe para com seu filho (49.15,20), demonstrada pelo cuidado que os filhos recebem (49.16-21) e pela maneira em que outros povos serão utilizados para servir à sua causa (w. 22-26). Mas o povo de Yahwéh deve lembrar-se também de que sua miséria e sofrimento são devidos ao pecado, ao afastamento de Israel, a noiva de Yahwéh, de seu Noivo-Senhor (50.1-3). Isso é seguido pela repetição em 50.4-9 do que o Servo disse ao contemplar a tarefa que lhe foi atribuída.[87] Young concorda que a passagem está localizada no lugar próprio, porque o solilóquio do Servo sobre seu sofrimento segue-se à garantia de Yahwéh em relação à fruição de sua obra em favor de um povo necessitado e rebelde.[88] (Outro problema literário formal é a questão sobre se 50.4-10 é, de fato, um Cântico do Servo. Bernhard Duhm definiu-o assim, mas outros hesitam em fazê-lo).[89]

50.4-9. Christopher R. North escreveu corretamente que a passagem "nós testemunhamos, por assim dizer, o Getsêmani do Servo".[90] O Servo, sem introdução, é citado novamente como o tinha sido antes (49.1-6). Ele reflete, pode ser justificadamente dito, sobre o que fora encarregado de fazer (42.2; 49.6; ver também 9.2-7 [TM 1-6]; 11.1-11), e sobre as promessas da presença sustentadora de Yahwéh. Ele então descreve o que vai experimentar, seme­lhante ao que Davi escreveu no SI 22.1-22 (TM 22.1-23); 69.1-8 (TM 69.1-9). 

Versos 4,5. O Servo fala de Deus como ’âdõriãy yhwh (o Senhor ou Mestre; cf. NIV, RSV), que não é outro senão Yahwéh; ele supriu o Servo com lèSôn límmüdlm (a língua dos que aprendem). O termo hebraico poderia ser tradu­zido como "discípulos" (cf. Is 8.16); o Servo recebeu instrução e tinha a capaci­dade de expressar o que tinha adquirido. Assim, o majestoso Yahwéh, de novo mencionado como ’âdõnãy nos versos 5,7,9, não permanecia afastado, indife­rente, em seu grande poder, soberania e glória. Ao contrário, ele tinha prepa­rado e equipado o Servo de conhecimento e compreensão para usar essas virtudes. O Servo menciona um desses benefícios: sustento para os fracos. Isto é, manhã após manhã ele é despertado e recebe uma palavra de sustento. De fato, com a mensagem de apoio ele não é somente despertado pelo soberano Senhor, mas também o Senhor o faz ouvir, compreender, aplicar e prosseguir em seu ministério. (É interessante notar que o Servo fala de si mesmo como um discípulo de Yahwéh; séculos mais tarde, o Cristo encarnado trataria com doze homens de maneira semelhante, ao fazê-los seus discípulos). O Servo repete que seus ouvidos foram abertos pelo soberano Senhor, Yahwéh (v. 5), e que ele é um ouvinte pronto para aprender. Em contraste com o servo coletivo, que tinha sido obstinado (48.4; 1.20; cf. Nm 20.10; SI 78.8), o Servo emprega uma única palavra hebraica, marttt (qal de mãrâ). Esse verbo é traduzido de várias maneiras, como contencioso, contrário, rebelde (cf. RSV, NIV, KJV). Refere-se a uma disposição interior da qual os atos de contenda e rebelião surgem. O Servo admite ter uma boa disposição: ele permanece aberto e pronto a aceitar o que Yahwéh, o majestoso Soberano, lhe atribuir. Não há nenhuma expressão exteriorizada de hesitação ou qualquer esforço para evitar o que o espera. Ele diz ’ãhôr tõ’ nèsâgõti (para trás não me movi; niphal de süg, retirar-se, recuar). O lugar do advérbio para trás na passagem denota ênfase. O Servo permanece respeitosamente e resolutamente de pé quando é confrontado com uma tarefa que faz com que ele tenha de enfrentar homens rebeldes e hostis, e, como um homem solitário, suportar violência física. 

Verso 6.0 Servo é capaz de descrever, em termos realistas, o que ele espera suportar. Ele será espancado e sua barba será arrancada. De fato, ele oferece isso à turba irada e maldosa, de modo que seus participantes possam expressar o ódio e a rejeição. Ele está preparado para sofrer e suportar humilhação pessoal e sofrimento físico, como se fosse um escravo rebelde ou um criminoso. Serão aceitas as profundezas da ignomínia porque ele não se esconderá dos que zombam dele e lhe cospem na face. O Servo dá um relato correto e pormenorizado do que veio a tomar-se a experiência de Cristo, particularmen­te depois de sua prisão e durante o julgamento. A humilhação e o sofrimento do Servo são mais plenamente descritos por Isaías (52.13-53.12).[91]

Versos 7-9.0 Servo continua a falar a respeito de seus sofrimentos, a serem suportados enquanto ele cumpre sua missão e realiza os serviços esperados dele. Mas não se detém nessas experiências, ao contrário, fala da razão por que pode tolerá-las. Por duas vezes diz: ’ádõnãy yhwh yafãzãr li\ o soberano Senhor Yahwéh me socorre ou me ajuda (50.7,9; cf. 49.8). Esta presença sustentadora de Yahwéh é a chave da capacidade do Servo de suportar sua humilha­ção e sofrimento. O Servo sabe que não será posto em desgraça (niklamti, niphal de kalam, que tem sido traduzido, de acordo com vários contextos, como confundido [KJV, RSV], desgraçado [NIV], desonrado, humilhado ou envergonhado). Nem será ele envergonhado (’êòôS, qal de òôS, sentir vergo­nha). Ao contrário, ele "fez" o seu rosto como uma rocha e suportará tudo sem retroceder, por causa da força sustentadora de Yahwéh. O Servo, preparado para enfrentar qualquer acusador, saberá que nenhuma de suas acusações é válida ou verdadeira. Yahwéh novamente estará junto dele, sustentá-lo-á, e será seu vindicador {masdiqi, isto é, aquele que me declara justo). O Servo lança um desafio a todos os que o acusam; ninguém terá um crime de que acusá-lo. Eles finalmente desaparecerão como uma peça de roupa usada, rasgada e completamente destruída pelas traças. 

Quando se estuda esta notável passagem (Is 50.4-9), fica-se estupefato com a clareza com que o Servo apreendeu a humilhação, a flagelação e o sofrimento que o esperavam. Estava plenamente cônscio do intento ignóbil de seus acu­sadores e das falsas acusações que terá de enfrentar, e a que não subsistirá, antes submissamente se oferecerá e suportará os esforços de desgraçá-lo e envergonhá-lo. Esta qualidade de maturidade espiritual faz sentir profunda admiração por ele. Sua confiança completa em Yahwéh, que o preparou, que está com ele, e que o ajudará até a vitória completa estimula-nos a honrá-lo e adorá-lo. 

Pouco admira, portanto, que, após proclamar o solilóquio do Servo, Isaías, como profeta, conclame sua audiência a obedecer e temer a Yahwéh (50.10). Isaías está convencido de que, proclamando a mensagem a respeito do Servo, apresentou a luz do evangelho. Por isso, ninguém precisa estar nas trevas e sofrer tormento, se confia em o nome de Yahwéh, apóia-se nele e submete-se ao curso de livramento, restauração e liberdade. 

Aspectos Messiânicos 

Isaías repete muitos aspectos da mensagem messiânica do Velho Testamen­to e desenvolve alguns aspectos específicos.[92] Ele não dá pormenores do que já havia proclamado na qualidade de mensageiro messiânico de Yahwéh a Acaz (7-11); entretanto, assume tudo o que já profetizara, faz numerosas alusões a partes dessas profecias e explica certas partes (como indicamos repetidas vezes no decorrer do estudo exegético). 

Quem tenta resumir, breve e precisamente, os aspectos messiânicos desses doze capítulos do livro de Isaías, deve estar cônscio de alguns importantes fatores. (1) Esta parte da profecia de Isaías é muito rica em conteúdo teológico; a mensagem messiânica e escatológica, particularmente, desafia quem pretenda obter dela uma compreensão plena. (2) O volume de material produzido no estudo e discussão da passagem é tão extenso que toma virtualmente impossível trabalhar com grande parte dele. Qualquer escritor deve ser seletivo na escolha dos temas e conceitos a serem tratados.[93] (3) A interpretação de vários segmentos desta parte da profecia de Isaías é muito divergente. Alguns eruditos têm buscado conceitos mitológicos em escritos do Oriente Médio como fontes do material subjacente à mensagem de Isaías.[94] Também as tentativas de iden­tificar o servo individual têm levantado grande número de conjecturas diver­gentes. (4) Neste nosso estudo não se tem feito nenhuma tentativa de tratar de pontos de vista alternativos, ao contrário, as afirmações refletem aquelas con­clusões obtidas pelo estudo exegético do próprio material isaiânico. (5) Final­mente, deve ser útil notar que as várias passagens nesta parte da mensagem de Isaías são distinguíveis, mas inter-relacionadas e progressivas. Por este último termo queremos significar o desenvolvimento na apresentação de Isaías. Na verdade, muitos eruditos têm afirmado que Isaías se repete, mas revela progres­so quando o faz. O Servo é apresentado (cap. 42); sua relação com Yahwéh e com Israel é estabelecida; sua preparação é descrita (cap. 49); sua missão para os povos não hebreus é explicada (42.3-9; 49.6,7); seu sofrimento é implícito (cap. 42), mencionado (cap. 50) e descrito em pormenores (cap. 53). 



Importância do Termo Servo 

Os termos servo e meu servo são básicos. Onde se poderia esperar que o termo niãSiah fosse usado mais freqüentemente, encontramo-lo usado somen­te uma vez, ao referir-se a Ciro (45.1). Não há referências a Davi ou ao filho de Davi;[95] podem ser localizadas umas poucas referências a Abraão e seu papel na vida de Israel ou Judá (41.8; 51.2), mas se a semente do pacto é citada, isto se dá principalmente em alusão a Israel (trinta e nove vezes) ou a Jacó (vinte e duas vezes). Isaías usa o termo servo, com várias referências, nos caps. 1-39 (nove vezes); 40-53.12 (vinte vezes); e 54-66 (onze vezes). 

O termo servo sugere que há um superior; o servo representa outrem, ou age em favor de outro que tem responsabilidade pelo que é feito e autoridade sobre o servo e seu serviço. Em muitas situações o termo servo tem o sentido de agir como agente intermediário, por exemplo: um hoteleiro emprega um servo de modo que os hóspedes do hotel sejam atendidos adequadamente. Não surpreende, portanto, que o termo hebraico servo seja usado por Isaías, porque, em sentido muito real, o cerne da mensagem de Isaías é o que Yahwéh fará em favor do povo do pacto. Como indicado anteriormente, Isaías proclama Yah­wéh como Criador, Governador e Redentor; Yahwéh — o santo, glorioso e compassivo — é apresentado aos descendentes de Jacó como seu Deus reinan­te, que guarda o pacto e cumpre suas promessas pactuais. E ele o faz por meio de agentes designados, especialmente por meio de servos especialmente designados. Portanto, a realeza e o reino de Yahwéh são temas dominantes na mensagem de Isaías. De fato, esses temas fornecem a ambiência e contexto para o termo servo.[96] Isso também significará que a idéia de servo deve ser qualificada: Isaías fala de um servo régio. Esse especial conceito de realeza, como foi demonstrado nos estudos anteriores, é de grande importância para a compreensão do conceito hebraico de niãSiah e daquilo a que ele se refere em circunstâncias específicas. Na passagem de Isaías em consideração o termo 'ebed poderia ser substituído por niãSiah sem mudar a mensagem. 



Os Usos mais Estrito e mais Amplo do Conceito Messiânico 

O sentido mais estrito do conceito messiânico refere-se a uma pessoa ou, mais precisamente, a uma pessoa régia. Poucos negariam que o servo é visto como uma pessoa individual. Há os que falam do Servo como uma personifi­cação, em um exemplo com alguma legitimidade (49.3). Não há referências diretas ao servo como um mãsiafy ou uma figura real definida. Ele não é representado por Isaías como um governante que ocupa o trono ou que exerce domínio sobre um reino. Mas há indicações de que o servo, em vários exemplos pelo menos, deve ser visto como alguém com prerrogativas ou características régias. Um fato notável é que Yahwéh repetidamente fala de "meu servo", afirmando, pois, uma relação estreita com a realeza divina, se não, de algum modo, participando dela. Mesmo que o termo servo se refira somente ao Israel coletivo, em nossa interpretação, por exemplo, da Torá, explicamos o caráter real de Israel (cf. esp. Êx 19.6). Além disso, quando Isaías fala de reis que se levantam e príncipes que se curvam diante do servo (Is 49.7b), o caráter real do servo não pode ser subestimado; realeza reconhece realeza e curva-se somente à realeza. 

O conceito messiânico em sentido mais amplo pode ser visto de muitos modos. O sentido mais amplo aponta especialmente para traços de caráter e para obras realizadas. O servo, seja a quem for que esta palavra se refira, tem e revela certas características admiráveis, tais como compaixão, humildade, boa vontade e firmeza, que noutros contextos são as do próprio Yahwéh ou de seu representante nomeado, isto é, que é o Ungido escolhido, nomeado, designado. Os deveres que lhe são atribuídos são de natureza profética, sacer­dotal e real. Há obra de revelação e instrução; há o serviço que implica sofrimento vicário, bem como os deveres e responsabilidades de pastorear, livrar, restaurar e governar. 

Concluímos que o conceito messiânico, tanto no sentido mais estrito quanto no mais amplo, é proclamado por Isaías. Isto quer dizer que ele fala a respeito do Messias e de sua obra. E como Isaías o faz? Se ele tivesse usado freqüentemente o termo hebraico mãSiah em suas várias formas possõveis, talvez houvesse maior acordo na resposta à questão.[97]

Em nossos comentários introdutórios à exegese das passagens selecionadas acima referimo-nos a cinco agentes messiânicos. Devemos agora esclarecer sua identidade. Primeiro, o próprio Isaías é um agente messiânico,[98] que fala em nome de Yahwéh. Como profeta, ele responde ao chamado da voz (cf. Is 40.3-6a). Isaías representa a linhagem e instituição profética a estender-se de Moisés a Cristo. De interesse específico no contexto é que o profeta Isaías é chamado 'ebed (servo), como também o foram os outros profetas. Assim como foram Moisés, o profeta (Nm 12.7), e Davi, o profeta-músico (SI 78.70) chama­dos de servos, assim o é Isaías aqui (50.10). 

Segundo, a voz referida em 40.3-6 serve de mensageiro messiânico. A voz age como um predecessor de João Batista, que apresentou Cristo ao público do seu tempo. A voz, na profecia de Isaías, também tem uma definida mensagem messiânica, mensagem que não se refere diretamente a uma pessoa régia, mas à sua obra e a seus benditos resultados para o povo de Yahwéh. 

Terceiro, Israel, as doze tribos, os descendentes de Abraão e jacó, freqüentemente citado pelo nome do patriarca Jacó, é muitas vezes referido como servo e, portanto, agente messiânico. Isaías deixa bem claro que as prerrogativas e características reais de Israel não são evidentes. Nem Israel se mostra um servo fiel. Isaías destaca especialmente um aspecto da responsabilidade e do dever de Israel, isto é, ser uma testemunha e uma luz para as gentes e nações e ser o meio pactual para trazer as bênçãos que deveriam vir através de Abraão para todos os povos e nações (p. ex., 41.8-10; 43.8-13; 44.1-5)." Israel falhou tragicamente como servo. Isaías chama Israel de servo cego e surdo (42.18; 43.8), alvo da ira de Yahwéh (42.2). Israel está cansado de Yahwéh (43.22), desobediente, pecador e rebelde contra o Deus do pacto, a quem desonra (43.27,28). Portanto, será leva­do cativo, exilado, sujeito a cruel humilhação e perderá por um tempo sua condi­ção de servo. Mas esse servo, Israel, será perdoado e redimido (43.1-3; 44.22). 

A esta altura é importante reafirmar a relação entre os três agentes messiâ­nicos apresentados até agora. Israel, coletivamente, como o ’ammim (povo especial) e servo de Yahwéh. Isaías, o profeta servo, é parte deste servo coletivo, ao qual é chamado a servir e ser seu representante. A mensagem de Isaías é essencialmente a mensagem de Israel a si mesmo e aos povos e nações do mundo, a saber, Yahwéh reina: seu reino vai expandir-se e perdurar; ele proverá o gõ’êl como o agente de restauração e redenção. De modo semelhante, a voz não identificada é parte do Israel coletivo, a quem se dirige. Sua mensagem para Israel é também a mensagem de Yahwéh para todas as gentes e nações; o Israel coletivo é chamado para servir as gentes e nações, dirigindo-lhes sua voz. O Israel coletivo é a voz de Yahwéh para as gentes e nações do mundo. 

O Israel coletivo falha como servo de Yahwéh, mas este permanece fiel às suas promessas (49.7b). Israel será exilado e submetido ao cativeiro. Porém, será libertado, redimido e restaurado, como povo físico e como comunidade moral, para uma relação viva com Yahwéh. Esta restauração física, nacional, com implicações morais e espirituais, será cumprida por um agente especifi­camente escolhido e totalmente inesperado: Ciro. [99]

Quarto, Ciro, o imperador medo-persa, é um agente messiânico. Para entender corretamente o papel de Ciro, é muito importante lembrar que, quando Israel estava no cativeiro egípcio, Yahwéh chamou e comissionou um agente redentor — Moisés, que viveu no Egito e lá se familiarizou com os costumes, especialmente com a casa real dos faraós.[100] Depois que Israel tomou posse da Terra Prometida sob a liderança de Josué, agente de Yahwéh, e transcorrido o período dos juízes, foram dados a Israel o rei Davi e sua dinastia. Os descendentes de Davi, subpastores de Yahwéh, foram instados a serem fiéis a Yahwéh e a servi-lo como agentes confiáveis e obedientes. As tarefas e responsabilidades dos reis davídicos já foram citadas em nosso estudo.[101] Os reis davídicos, com poucas exceções (por exemplo, Josafá, Ezequias e Josias), não foram fiéis; antes, tornaram-se líderes da apostasia; e reis como Acaz e Manassés deram razões para que Yahwéh, em seu julgamento de ira, punisse seu povo com o exílio. Isaías profetiza a respeito dessa deportação futura e dos setenta longos anos de cativeiro. E ele não dá, nem à dinastia de Davi nem ao povo, qualquer razão para esperar da liderança dinástica ou de qualquer outra pessoa em Israel ou Judá, aquele que deveria servir como agente de Yahwéh para a libertação e restauração. Israel/Judá tinha de compreender que perdeu todos os direitos e privilégios de prover tal agente. Mas eles são claramente informados de que Yahwéh tem em mente esse agente. Embora desconhecido para eles, no devido tempo ele se levantará como o instrumento de Yahwéh para libertar e restaurar o povo do pacto. 

Isaías indica em sua profecia quem será essa pessoa; ele informa seu nome pelo menos 150 anos antes que essa pessoa apareça no cenário da história. Como antes mencionamos, essa predição do Velho Testamento tem levado críticos a procurar um segundo profeta chamado Isaías que teria vivido no tempo da ascensão de Ciro ao poder e à fama reais. Eruditos críticos têm dificuldade de aceitar o ensino bíblico a respeito da predição profética. Se, entretanto, forem consultados os dados bíblicos, podemos ver que freqüentemente são feitas predições dando-se nomes às pessoas. Abraão foi informado a respeito de Isaque (Cf. Gn 18.10-15); Jacó nomeia Judá líder entre os demais (Gn 49.8-12); Oséias dá a seus três filhos nomes que falam de circunstâncias futuras (Os 1.4,6,8); Isaías dá o nome do Filho a nascer, Imanuel (Is 7.14), bem como outros nomes (Is 9.6 [TM 9:5]), antes que ocorresse a concepção. A mais extraordinária de todas as predições proféticas do Velho Testamento é a vinda de Jesus Cristo; o Novo Testamento repetidamente refere-se à sua vinda, presença e obra como cumprimento de profecias preditivas. No contexto deste testemunho esmagador quanto à predição precisa, pela qual várias pessoas são referidas pelo nome, não há dúvidas a respeito da referência de Isaías ao agente de Yahwéh — Ciro. 

Isaías fala de Ciro como se fosse um representante da dinastia davídica. Consideremos, resumidamente, o que ele diz.[102]

Primeiro, ele será o ungido de Yahwéh. Esse termo denota eleição, desig­nação, consagração e preparação para um papel específico, sob a direção de Yahwéh (Is 45.1). 

Em seguida, ele será o pastor que Yahwéh levantará em favor de seu povo. Como pastor ele juntará, reunirá, guiará, suprirá e fará retornar o rebanho a seu lugar de repouso e segurança (o aprisco) (Is 44.28). 

Ele será, além disso, o reconstrutor do "aprisco"; especificamente, ele reconstruirá Jerusalém, o lugar central de habitação para o povo, e restaurará o templo, o lugar de habitação de Yahwéh e centro do culto (Is 44.28). 

Ele será também um líder vitorioso. Derrotará e subjugará toda oposição, de modo que será capaz de cumprir efetivamente seus deveres como pastor (45.1). 

Ele experimentará a obra maravilhosa de Yahwéh em preparar o caminho para o pastor e seu rebanho e receber tudo o que é necessário para cumprir sua missão. Consideremos novamente, por exemplo, as promessas de "tesouros" e fortaleza (45.3,5). 

Além disso, ele recebe a promessa pactual de um grande nome, fama e honra (45.4). 

Ele é quem, cumprindo sua missão de pastor, construtor e líder, revelará a retidão de Yahwéh, segundo a qual ele foi chamado (45.13). 

A profecia de Isaías relativa a Ciro deve ser considerada retrospectiva e prospectivamente. Retrospectivamente, vê-se que as promessas pactuais feitas aos patriarcas, a Moisés, Josué e Davi, foram feitas também a Ciro. Portanto, Ciro deve ser considerado um representante e agente do pacto. Num sentido real, ele foi um mediador do pacto. Isto, naturalmente, não quer dizer que ele pessoalmente fosse um crente do pacto e um recipiente das suas bênçãos eternas; não há nenhuma evidência de que ele pessoalmente era submisso a Yahwéh e um recipiente da graça de Deus requerida para a vida eterna. No sentido prospectivo, Ciro deve ser visto como um tipo de Cristo. Como serviu Moisés como libertador na era do Velho Testamento, e como tal representa Cristo, o único Libertador, assim também Ciro foi um libertador predito e um fato real no curso do tempo. 

Ciro seria o libertador espiritual. Isaías não profetiza que ele seria uma luz para Israel e para as demais nações. Ciro seria um libertador no sentido político, social, econômico e militar. Assim, ele serviria a Yahwéh e a seu povo de modo que a liberdade espiritual se tomasse realidade através do plano de Yahwéh de ter "plena salvação vinda de Sião" (cf. 62.11). A obra libertadora de Ciro teria tremendas implicações para a dimensão espiritual de completa libertação e restauração do povo do pacto. Realmente, Ciro teria um papel muito impor­tante a cumprir. O Libertador viria da semente de Abraão e da casa de Davi. 

Quinto, devemos agora enfocar o Servo como um indivíduo.[103] Antes de mais nada, é fora de dúvida que Isaías fala de um indivíduo. Eruditos críticos, neo-evangélicos e conservadores concordam que Isaías faz claras e definidas referências a um indivíduo. É verdade que alguns críticos, bem como vários eruditos judeus, pretendem que o indivíduo aí mencionado seja uma personificação do Israel coletivo. Quando, porém, Isaías profetizou a respeito do Israel coletivo, fê-lo clara e objetivamente, como vimos acima. 

Deve ser lembrado que Isaías focaliza um relacionamento muito estreito entre os servos coletivo e individual. Ele o faz ao destacar que o Servo indivi­dual é um dentre o coletivo, que ele representa a comunidade e cumpre seu papel individual e também, ao menos, em certa medida, o papel do servo coletivo (cf. 49.3). 

Diversos fatos específicos a respeito do Servo individual são preditos por Isaías. 

Ele é escolhido ou eleito para ser o Servo (Is 42.1); ele é a escolha de Yahwéh, comissionado para cumprir suas tarefas. Será equipado por Yahwéh por meio do Espírito; como o foram Moisés, Josué e Davi, assim será o Servo (42.1). 

Ele será brando, compassivo, paciente e firme, demonstrando, assim, as virtudes de Yahwéh reveladas a Israel (Êx 34.6,7a). Ele será o Servo reto (42.6) e promulgará justiça entre os povos e nações (42.6). Será o pacto de Yahwéh para o povo de Deus, uma luz para os gentios (42.6). Ele cumprirá o dever pactual de ser um meio de bênçãos para todas as gentes e nações (cf. Gn 12.1-3). 

O Servo é identificado com Deus (Is 50.1-3), porém deve ser distinto dele (50.14-17); ele estará em comunicação e comunhão com Yahwéh (42.1-6). Ele será humilhado como um sofredor voluntário e submisso, em favor do servo coletivo infiel (50.4-9). Ele será um Redentor redimido — no meio de uma dolorosa provação do povo de Yahwéh. (Este ponto será explicado quando chegarmos a 52.13-53.12). 

O Servo não é considerado o mãstah, mas tem todas as características e responsabilidades atribuídas ao Messias através do Velho Testamento. Além disso, ele é chamado de Servo e meu Servo. 

Um estudo do texto de Isaías só pode levar a uma conclusão. O Servo individual na profecia de Isaías deve ser identificado com a vitoriosa Semente da mulher (cf. Gn 3.15), a Semente de Abraão (Gn 15.1-6; 17.1-11), o Leão da tribo de Judá (Gn 49.8-12), o filho de Davi (2 Sm 7.11-16), o filho a ser nascido da virgem (Is 7.14), e a Criança ou Filho encarregado de exercer o pleno reinado da dinastia de Davi (Is 9.2-7 [9.1-6]; 11.1-16). 



Aspectos Escatológicos 

Alguns trechos da profecia de Isaías, tais como o capítulo 11, têm sua orientação mais escatológica do que esses doze capítulos.[104] Neste trecho são registrados os cinco seguintes eventos futuros: 

1. O povo do pacto vai ser exilado. Embora as dez tribos do norte já tivessem sido deportadas e dispersas, Isaías as inclui como envolvidas na devastação de Jerusalém e na remoção da dinastia davídica.[105]

2. Isaías põe mais ênfase no retomo futuro do exílio do que em qualquer outro acontecimento futuro. Nesse especial contexto ele profetiza a respeito do papel de Ciro. 

3. O ministério de Israel às gentes e nações, que deve acontecer no futuro, é citado várias vezes. Os israelitas receberão a luz e o ministério tanto do servo coletivo quanto do individual. A era do Novo Testamento está aqui colocada em perspectiva. 

4. A consumação, sempre tratada por Isaías como a meta dos propósitos de Yahwéh, deve ser entendida, embora seja difícil discernir alguma referência direta. 

5. O acontecimento escatológico central e que abrange tudo, isto é, o acontecimento futuro distante que Isaías põe diante de seus leitores e ouvintes, é o ministério de Jesus Cristo. O serviço do Filho é o foco. Esse serviço é para o benefício do povo do pacto, das nações do mundo, e para a honra e glória de Yahwéh. 

Resposta à Mensagem Messiânica de Isaías 

Isaías fora advertido de que iria profetizar para um povo de olhos cegos, ouvidos surdos, mente fechada e coração endurecido (Is 6.9,10). Ele refere-se às vezes explicitamente, às vezes implicitamente, à verdade dessa advertência. Sua advertência, "acaso não sabeis? porventura não ouvis?" (40.21,28) implica esquecimento ou ignorância voluntária. Isaías reprova o povo porque ele não responde em serviço a seu Deus (43.22). Isaías aponta para Israel como quere­lando com seu Criador (45.9) e sendo obstinadamente rebelde. 

Isaías, entretanto, responde pessoalmente à revelação que Yahwéh lhe confia para proclamar. Refere-se a si mesmo como trazendo a palavra de Yahwéh (50.10). Está plenamente cônscio da importância e urgência da men­sagem que está a proclamar. Também expressa sua incompreensão do que Yahwéh tem para ele profetizar. Num tom de admiração, ele se dirige a Yahwéh como o Deus oculto (45.15). O profeta fala de Ciro como o ungido, dos serviços que ele prestará, e da sorte de outras nações, quando ele interpõe sua resposta. Assim como Isaías dá uma resposta doxológica (cap. 12) depois de uma prévia mensagem messiânica e escatológica (7-10), assim também agora ele dá expressão a seu louvor a Yahwéh, a quem aclama como Salvador. Ele invocará e adotará meios para ter o serviço de seu Servo executado. 







[1] John McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20:xv 


[2] Bernhard Duhm, Das Buch Jesaja (Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1922/68). 


[3] Charles C. Torrey, The Second Isaiah: A New Interpretation (New York: Scribner, 1928). 


[4] Paul Volz, Jesaja //(Leipzig: Deichert, 1932). 


[5] James Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5:381-773. 


[6] James D. Smart, History and Theology in Second Isaiah (Filadélfia: Westminster, 1965), Outros comentários semelhantes sobre o "Dêutero Isaías" podem ser mencionados, por exemplo: Joachim Begrich, Studien zu Deuterojesaja (Munique: Kaiser, 1963); Pieter A.H.de Boer, Second Isaiah's Message (Leiden: Brill, 1956); Claus Westermann, Isaiah 40-66, trad, Davj G, M, Stalker, em OTL (Filadélfia: Westminster, 1969); e R, Norman Whybray, Isaiah 40-66, em NCBC(1981). 

Sobre um trabalho especializado em crítica da forma ver A.Schoors, I Ain God YourSa rá>r(Leiden: Brill,1973), que tenta acrescentar uma compreensão teológica à abordagem da crítica da forma aos gêneros literários em Is 40-55. 


[7] Smart, HLstoryand Theology in SecondIsaiah, pp. 14,15. 


[8] Ibid., p. 15. Deve ser enfaticamente afirmado que Smart formula incorretamente a posição tradicional. Não é que Isaías tenha projetado sua mente para o futuro; ao contrário, ele proclamou o que Yahwéh lhe revelou e falou por seu intermédio. E é verdade que a mensagem de Isaías era para o povo que viveu dois séculos depois dele, mas era também para as pessoas dos dias de Acaz e Ezequias, para servir-lhes de advertência, e de conforto para os crentes na comunidade do pacto. David. F. Payne, entretanto, não se refere a essa explicação (cf. seu "Isaiah", em The International Bible Commentary, ed. F. F. Bruce (Grand Rapids: Zondervan, 1986), pp. 716-718). 


[9] Ver cap. 16 acima, subtítulo: "A Proclamação Profética de Isaías para o Judá Urbano. 


[10] Edward J. Young, The Book of Isaiah, 3 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1972), 3.17,18. O comentário de Young foi desnecessária e incorretamente descrito como "dogmaticamente controlado“, por William S. Lasor, David Allan Hubbard e Frederic W. Bush, Old Testament Survey (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), p. 395. Os três autores estão certos, entretanto, ao referir-se à obra de Young como "conservadora" e que exige "cuidadosa exegese". 


[11] Cf. o subtítulo da History and Theology in Second Isaiah, de Smart: A Commentary on Isaiah 35,40-66;Jo\\n McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.vii. 


[12] Outros fatores poderiam ser mencionados. A. S. Kapelrud, escrevendo sobre "O Assunto Principal do Segundo Isaías", VT32/1 (1982):50-58, refere-se a: (1) consolação (que é, realmente, um interesse dominante na pregação posterior de Isaías); (2) salvação e redenção (que também são proeminentes nos capítulos 1-35); e (3) Yahwéh não falha (teodicéia) (de que Isaías fala tanto para o tempo de Acaz quanto para o futuro). 


[13] Ver William S. basor, David Allan Hubbard e Frederic W. Bush, sobre um sumário dos argumentos em favor da existência e atividade dessa suposta escola (op. cit., pp. 372-378). 


[14] Cf. a proposta de Smart a respeito do lugar, ambiente e audiência do presumido Segundo Isaías (History and Theologyin Second Isaías, pp. 20-33). 


[15] Ibid.,p.7. 


[16] Os precisos comentários de Christopher R. North são certamente corretos: "É geralmente reconhecido que o texto de Isaías XL-LV foi bem preservado... confirmado por ambos os Rolos de Qumram, o segundo dos quais... concorda quase palavra por palavra com o Texto Massorético", em The Second Isaiah (Oxford: Clarendon, 1964), 

p. 28. 


[17] John Skinner, Isaiah XLI-LXVI(Cambridge: Cambridge University Press, 1910), p. xlv. A diferença que ele sentiu é que o Segundo Isaías é "profuso e fluente, com uma tendência marcada para a amplificação e repetição". 


[18] Duhm (Das Buch Jesajà) tem o crédito de sua seleção inicial. 


[19] McKenzie adota a posição de que "os Cânticos não se relacíonain com o contexto, exceto com a resposta que os segue" (Second Isaiah, em AB [1968], 20.xxxix). F, Duane Lindsey, The Servant Songs: A Study in Isaiah (Chicago: Moody, 1985), faz fortes afirmações em apoio dos cânticos tomo integrantes da mensagem de Isaías. Esta obra, entretanto, é enfraquecida por uma feição cristológica sistemática e uma estrutura escatológica dispensacionalista em que os cânticos são interpretados. Cf. Daniel Schibler, que examina o livro de Lindsey em JETS29 (Dezembro 1986):472-474. Henri Blocker, em The Songs of the Servant (Downers Grove: Inter-Varsity, 1975), deixa claro que ele considera os cânticos como parte integrante da mensagem de Isaías; apela particular­mente para a interpretação que Jesus faz dos cânticos no contexto de Isaías (cf. cap. 1, pp. 10-21). 


[20] H.H. Rowley, The Servant of the Lord and Other Essays on the OktTestament{Lor\dres\ Lutterworth, 1952), p. 3, refere-se a um escritor que escreveu em 1908 que a literatura "cresceu em tal extensão que ninguém pode vangloriar-se de ter sondado todos os recessos desse mar" (p.3, n. 2). 


[21] Christopher R. North, The Suffering Servant in Deutero-Isaiah, 1* sd. (Londres: Geoffrey Cumberlege, 1956). North divide seu estudo em períodos históricos: judeu; cristão até o século XVIII; cristão, de Dóderlein a Duhm; cristão, de Duhm a Mowinckel; cristão, de Mowinckel ao presente (1956). Na segunda parte do livro, North oferece sua posição crítica, inquirindo se outras passagens também lidam com o tema do servo (p.117-127). 


[22] Entre os indivíduos que têm sido sugeridos estão Jeremias, Josi&s, Ezequias, Jó, Isaías, Uzias, Zorobabel, Dêutero-Isaías, Eleazar, Joaquim, Moisés, Ezequiel, Ciro, Meshullam. Referências coletivas incluem Israel, o Israel ideal, o Remanescente, os Profetas, e os Sacerdotes. As interpretações têm variado, do mitológico ao ideal, das histórico-messiânicas às messiânicas gerais, ao Messias davídico. Rowley divide seu adendo à obra de North em três partes: (1) teorias individuais, (2) teorias coletivas e fluidas, e (3) um ensaio escrito antes dos dois primeiros mencionados: 'The Suffering Servant and the Davidic Messiah" (ibidv pp. 3-88). 


[23] Vários escritores tentaram fazê-lo, por exemplo, Muilenberg, Isaizih, Chapters 40-66,5.384-393; ver também A.Schoors, IAm God Your Saviour (Leiden: Brill, 1973); o esforço de John Goldingay,emseu 'The Arrangement of Isaiah 41-55", KT29/3 (1979):289-299, de discernir quatro seqüências em Is 41-45; as duas primeiras, lidando com Yahwéh e o destino de seu Servo, estariam em 41.1-42.17; a terceira e a quarta estariam em 43,8-45.7 e tratam da restauração de Israel, o servo de Yahwéh cego e aprisionado. Goldmgay consegue sua análise com um forte uso dos métodos da crítica da forma, mas não chega a nenhuma interpretação teológica conclusiva desses quatro capítulos. 


[24] O termo inglês sovségn (soberano) traduz tanto ’âdõnt quznioyhwh çèbã’6t. 


[25] O termo bèrtt não aparece aplicado à relação de Yahwéh com seu povo, mas frases e conceitos pactuais encontram-se: p. ex., eu sou contigo, segurarei a tua mão; descendência de Abraão; marido. 


[26] Robert I. Vasholz correta e sucintamente estabeleceu uma questão em favor da unidade de Isaías: "Isaiah Versus the Gods: A Case for Unity", WlJXLWl/2 (1984):389-394. Seu ponto principal é: Isaías proclama que Yahwéh prova sua divindade declarando o que vai acontecer; os deuses são desafiados a fazer o mesmo, mas falham completamente. 


[27] Daniel Schibler, num estudo sobre The Servant Songs: A Studyin Isaiah, de F. Duane Lindsey em JETS 29 (1986):472-474, refere-se à preferida ilustração da pirâmide como uma explicação melhor do que as quatro categorias progressivas de Lindsey. Ver novamente seu Servant Songs, ou Bibliotheca Sacra 139 (1900):12-31,128- 145,212-245 e 312-329, em que o material de seu livro primeiro apareceu. 


[28] Para uma exegese pormenorizada dessas passagens e um estudo dos termos-chave, frases e pontos gramaticais, os comentários referidos nas notas anteriores servirão bem. Young é, sem dúvida, uma boa fonte {Book of Isaiah, 3.18-32). McKenzie, que corretamente intitula a passagem "O Chamado do Profeta" (40.1-11), oferece pouco em matéria de exegese e provê somente uma exposição resumida (SecondIsaiah, em AB [1968], 20.15-19. Smart oferece mais exegese, porém, é geral e dificilmente trata de temas específicos como, p. ex,, meu povo, a voz, e sua obra {History and Theology in Second Isaiah, pp. 40-51). 


[29] Traduzi literalmente o que se encontra no inglês, mas penso que houve um engano do autor. O texto hebraico dá a entender que a última alternativa é correta (a voz clama pela preparação do caminho no deserto). Os Evangelhos e a LXX têm a primeira alternativa: ("voz do que clama no deserto"). O hebraico seria adequadamente traduzido assim: "Voz do que clama: / No deserto preparai o caminho do Senhor / Endireitai no ermo estrada a nosso Deus(n .t.). 


[30] Ver TWOT, 2.639-640, para 'õòofi, 'eòed e'obõdâ. 


[31] Para um exame desses pontos de vista, ver nn. 1^5,19,20. 


[32] A referenda é sem dúvida a Gro (cf. comentários ais 44.2845.13, abaixo). 


[33] Cf. Robert I. Vasholz, "Isaiah Versus the Gods", pp.389-394. 


[34] Cf. F. Duane Lindsey/ em seus comentários valiosos sobre o termo hebraico miSpãf {Servant Songs, pp. 43-45). 


[35] É difícil crer no que McKenzie escreveu: "O espírito é o impulso carismático que move os homens a ações de força, coragem e sabedoria" (SecondIsaiah; em AB [1968], 2036). 


[36] Ver nosso estudo sobre o termo justiça em Isaías 9.7, acima. 


[37] Cf., p. ex., McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 2039. Christopher R. North, em seu Second Isaiah, p. 110, examina brevemente as opções sobre a relação entre os vv.5-9 e 14. Ele aceita o que considera ser o ponto de vista da maioria: são unidades separadas. 


[38] Skinner, Isaiah XLI-LXVI, p. 28. 


[39] Young, BookofIsaiah,3.116-117. 


[40] Cf. a proclamação prévia de Isaías a respeito de Yahwéh. 


[41] O ponto de vista de Norman Snaith de que a luz deve ser vista como guia dos israelitas dispersos para ajudá-los em seu regresso é totalmente inaceitável; o próprio contexto de Isaías acentua o serviço de Israel aos gentios. Cf. N. H. Snaith, "Isaiah 40-66: A Study of the Teaching of Second Isaiah and Its Consequences" VT14 (1967):157. 


[42] É difícil aceitar a preferência de Young por uma antítese entre as demais nações e Israel e ainda ter tanto a luz quanto o pacto para Israel e as demais nações (Book of Isaiah, 3.119-120). 


[43] D. W. Van Winkle, 'The Relationship of the Nations to Yahwéh and to Israel in Isaiah 40^55”, VT35 (1985):452. 


[44] Skinner, Isaiah XLI-LXVI,pp. 28,29. Ver também Van Winkle, op. cit, pp. 454-457, 


[45] Young, Book of Isaiah, 3.120,121. 


[46] Ver nosso estudo de Isaías 9.2,3 acima e de 61.1-3, abaixo. 


[47] Alguns tradutores têm repetido a frase a quem eu envio ao traduzir o difícil termo hebraico kimmèsüllô, que bem indica Young, é um particípio pual, mas a raiz verbal não é reconhecida (Young, Book of Isaiah, 3.133, n. 51). McKenzie, numa nota, refere-se a essa parte do verso como uma glosa — um meio fácil mas inaceitável de sair de uma dificuldade (SecondIsaiah, em AS [1963] 20.45). 


[48] Cf. D. W. Van Winkle, "Relationship of the Nations to Yahwéh and to Israel in Isaiah 40-55''. 


[49] Skinner, Isaiah XU-LXVI, p. 37. Skinner segue a Vulgata, como fazem outros comentadores (cf. John McKenzie, SecondIsaiah, em AB [1968], 2053). 


[50] Cf. Joseph A. Alexander, Commentary on the Prophecies of Isaiah, 2 vols. reimpressão. (Grand Rapids: Zondervan, 1953), 2:151. Young, Book of Isaiah, 3.147. 


[51] O derramamento do Espírito é um ato especial de unção (cf. cap. 1; ver também a unção nos casos de Josué, Saul e Davi). 


[52] McKenzie, SecondIsaiah, em >15(1968), 20.63, considera esta referência ao Espírito igual à de 42.1 (cf. nosso comentário acima). 


[53] Cf. McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.64, Skinner, Isaiah XLI-LXVI, p. 45; Young, Book of Isaiah, 3.168, que concorda que Isaías traça o escopo universal das bênçãos de Yahwéh sobre o seu povo. 


[54] A criação é também chamada a testemunhar em favor de Yahwéh contra o povo do pacto quando os profetas declararam que Yahwéh tinha um processo judicial {rib) contra seu povo (cf. Is. 1.2; ver também Mq. 6.1,2; Dt. 4.26; 32.1). 


[55] O nome em persa era Kurush; em babilônio, Kurash, e em grego, Kyros. 


[56] Skinner, Isaiah XLI-LXVl p. xix 


[57] O texto inglês tem "nonhistorical" (não histórico), mas creio que se trata de um equívoco. Esses relatos são históricos no sentido amplo. São fontes históricas, (n.t). 


[58] Vercap.17. 


[59] Cf. cap. 1, subtítulo "O termo Afàsla}}", para um estudo pormenorizado do termo hebraico. 


[60] O texto hebraico lê úmotnê mèlãktm ’âpãtZaJ} (lit. os lombos dos reis eu abrirei). O piei usualmente temo sentido de "soltar", "deixar livre" (cf. camelos que têm suas cargas retiradas, [Gn 24:32], e soldados que têm suas armas sacadas [1 Rs 20:11]). Os lombos eram a região do corpo onde os soldados atavam as vestes e prendiam os cintos, nos quais dependuravam suas armas. 


[61] O verbo hebraico *ür é traduzido como um perfeito profético, portanto, seu sentido é futuro. 


[62] Ver adiante, neste cap,, subtítulo "Aspectos Messiânicos". 


[63] Cf. vários comentários para estudo complementar. 


[64] Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66,5.422,564. 


[65] Young, Book of Isaiah, 3.42,266, 


[66] Allis, Unity ofIsaiah, pp.51-61 ("As profecias a respeito de Ciro"). 


[67] Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5.505,506, explicou brevemente as opções e as dificuldades que cada uma das partes apresenta. 


[68] Uma apreciação do que McKenzie (Second Isaiah, em AB [1968], 20.103-106), North (Second Isaiah, pp. 184-190) e outros têm feito em relação a esta questão literaria leva-nos a concluir que não se chegará facilmente a um consenso. 


[69] Muilenberg, Isaiah, Chapters 40-66, em 75(1964), 5 365.0 autor, entretanto, afirma que qualquer ponto de vista deve ser considerado como uma tentativa. 


[70] Young, Book of Isaiah, 3,267. 


[71] McKenzie, Second Isaiah, em AB (1968), 20.105. 


[72] O termo derivado de ‘wh, ir a um lugar para viver (em árabe), pode ser também traduzido como região, área costeira, ou fronteira de um país. 


[73] Cf. Ez. 16:1-7. Mas na literatura bíblica o sentido literal ê mais comum (cf. Jr 15-10; G11.15). 


[74] Young, Bookoflsaiah, 3.268. 


[75] Embora a maioria dos críticos seja compelida a afirmar que o texto massorético é confiável, McKenzie escreve: "Atestado pelo texto crítico, mas duvidoso pelo sentido" (Second Isaiah, em AB [1968], 20.103). 


[76] Young, Book of Isaiah, 3 272. 


[77] O termo hebraico tem a idéia de vaidade, vazio. 


[78] O termo hebraico tõhâ, desolação, uma idéia que Isaías expressa repetidamente (cf. Young, Book of Isaiah 3.271). 


[79] O profeta fala do caso legal de Yahwéh (rtb) contra seu povo, que foi desobediente e rebelde (cf. Os 4.11; ver também n. 53). 


[80] Pode causar confusão, quando não se presta a devida atenção a quem fala. Isaías estava profetizando: ele apresentou oServo envolvidonumsolilóquio.Nessesolilóquzo,oServo repete um diálogo que teve com Yahwéh. 


[81] Ver os comentários sobre a passagem. Note-se que Muilenberg recorre à transposição, suprimindo as últimas linhas do v. 5 (em Isaiah, Chapter40-66, em IB [1964] 5:103; cf. p. 105). 


[82] Calvino rejeita a tentativa de eruditos judeus de traduzi-lo como uma pergunta: "Porventura Israel não será reunido?" Ele toma a frase hebraica como referente à desgraça nacional de Israel experimentada no exílio (Commentary on the Book oílsaiah, trad. William Pringle, 4 vols. [reimpressão. Grand Rapids: Baker, 1981], 4.15). 


[83] Cf. a LXX, o rolo de Isaías de São Marcos, e Áquila, sobre esse ponto. Ver também nosso estudo sobre Is 93 (TM 9 2), onde tõ*, "não", é substituído por 16, "lhe". 


[84] Dirk Odendaal, em seu The Eschatological Expectation oflsaiah 40-66 with Special Reference to Israel and the Nations (Nutley, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1970), apresenta uma discussão sucinta do conceito de salvação (ibid.,pp. 125-128). 


[85] Literalmente, podemos falar de uma divisão definida. Mas o conteúdo de 49.1-6 não pode ser isolado do que se segue nos vv. 7-13. Dividir esses versos numa série de estrofes, como Muilenberg e outros têm feitor parece-me impor um método moderno de composição literária ao profeta Isaías. Além disso, o método moderno de análise literária de mensagens proféticas tem resultado em muito debate, conclusões variadas e, freqüente- mente, obscurecimento da mensagem. 


[86] Vários comentadores têm chamado a atenção para o Ano do Jubileu como a origem do conceito de "ano de favor" (Lv 25.8-13). Ver Young, Book of Isaiah, 3.278. Joseph A. Alexander, em Commentary on the Prophecies of Isaiah, 2.218, escreve: 'Tempo adequado e designado para mostrar graça ou favor." 


[87] Young, Book of baiah, 3.298, escreve: "É difícil estabelecer uma conexão lógica com o que precede." Muilenberg refere-se às muitas excisões propostas quando se estuda a estrutura literária do cap. 50: "O texto tem sido rearranjado e muitas emendas têm sido sugeridas" {Isaiah, Chapters 40-66, em IB (1964), 5578). 


[88] Young, Book of Isaiah, 3.298, 


[89] Cf. as procedentes considerações de Christopher R. North sobre isso em seu Sufferíng Servant, pp. 127,128. Ele o aceita como um dos Cânticos (individuais) do Servo. 


[90] Ibid., p. 146. North escreveu um estudo conciso da humilhação e sofrimento que o Servo havia de experimentar. 


[91] Is 52.13-53.12 é estudado separadamente neste livro (ver cap. 20) por causa de seu enfoque específico sobre as experiências do servo como exaltado-sofredor. Esses quinze versõculos, entretanto, não devem ser conside­rados como um segmento inteiramente à parte, porque neles Isaías expande o que já tinha dito antes em 50.4-9 acerca de sua humilhação. 


[92] Essa é uma das passagens messiânicas dominantes no Velho Testamento. 


[93] Ver acima a n. 20. 


[94] Ver esp. Mowinckel, He That Cometir, Helmer Rir.ggren, The Messiah In the Old Testament e Gecrge Riggan, Messianic Theology and Omstian Faith. Ver cap. 1, subtítulo *0 Conceito Messiânico ra lutcratun» Extrabíblica*. 


[95] Isafas refere-se a Davi pelo nome: caps. 1-39 (nove vezes) e no cap. 55 (uma vez). 


[96] Muitos eruditos reconhecem esses fatos, p. ex., Hrnst Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, 2.167,168; Odendaal, Eschatological Expectation of Isaiah 40-66, esp. pp. 73-95, Eduard Riehm, Aíessiarúc Prophecy, pp. 88-100, esp. pp. 95, 96; J. Ridderbos, Het Gods Woord der Profeten, pp. 270-314; e Martin Wyngaarden, The Future ofthe Kingdom (Grand Rapids: Baker, 1955), pp. 47-50. 

É desapontador notar que escritores capazes como Christopher North, George Riggan, H. H. Rowley e James Smart raramente dediquem alguma atenção a esse tema. Sigmund Mowinckel registra-o, mas coloca-o em contexto mitológico (He That Cometh, caps. 3,7). 


[97] Não haveria total acordo, mesmo que o termo mãStafi tivesse sido usado, porque: (1) há mais de uma referência; (2) eruditos de pontos de vista críticos radicais procuram fontes extrabíblicas para a idéia afim no conceito; (3) eruditos como North não aceitariam conclusões de estudiosos que se consideram controlados pelo ensino bíblico de inspiração da Escritura; e (4) muitos eruditos não aceitariam um fato que a Escritura direta e daramente apresenta, ou seja, a profecia preditiva. 


[98] Ver cap. 16, subtítulo "A Prodamação Profética de Isaías para o Judá Urbano". 


[99] Alguns eruditos não concordam quanto à relação "Israel às demais nações". Ver D. W, Van Winkle para um exame das opções sugeridas; seguindo Oehler, ele corretamente afirma que Israel foi chamado para ser o agente de salvação (cf. seu "Relationship of the Nations to Yahwéh and Israel" p. 447). 


[100] Ver cap. 7, subtítulo "Moisés". 


[101] Ver cap. 10. 


[102] Cf. os prévios comentários introdutórios e o estudo exegético de 44.28-45.13. 


[103] O volumoso material disponível a respeito da identidade do Servo já foi parcialmente referido antes. Poderemos citar estudos adicionais. Cf. os quatro ensaios de Duane Lindsey em Bibliotheca Sacra (cf. n. 27, acima). Sobre uma bibliografia representativa do ministério do Servo ver D. W. Van Winkle, "Relationship of the Nations to Yahweh and Israel", pp. 457,458. Os leitores devem lembrar-se de que Christopher North, Suffering Servant, e H. H. Rowley, Servant of the Lord, examinaram os principais estudos a respeito da identidade e obra do Servo. Cf. especialmente a extensa embora um tanto desatualizada bibliografia de North em Suffering Servant, pp. 240-253. 

James Smart, em seu History and Theology in Second Isaiah, pp. 11,12, relaciona somente onze comentários e quatro artigos. 


[104] Isaías 11; 24-27; e 61-66 contêm as reconhecidas passagens escatológicas centrais de Isaías. 


[105] D. W. Van Winkle, "The Relationship of the Nations to Yahwéh and to Israel in Isaiah 40-55“, refere-se a este aspecto do ministério de Isaías. Ver também Odendaal, Eschatological Expectation of Isaiah 40-66, pp. 73-95. 

Louis A. de Caro, em seu Israel Today: Fulfillment of Prophecy (Nutley, N JPresbyterian and Reformed, 1976), esp. pp. 147-174, apresenta uma definida moldura útil para a compreensão da profecia de Isaías a respeito de Israel; como também Hans La Rondelle, The Israel of God in Prophecy (Berrien Springs, Mich.: Andrews University Press, 1983), pp. 81-97, 147-169; e Martin Wyngaarden, Future of the Kingdom (cf. seu índice de referências bíblicas, muitas das quais incluem passagens de Is 40.1-52.12).