16 de julho de 2016

DEREK KIDNER - O mundo sob julgamento (6.9-8.14)


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III. O MUNDO SOB JULGAMENTO (6:9-8:14)

A frase Estas são as gerações (AV, trad. literal), abre uma nova seção do livro (c/. 2:4;5:l), pela qual o apetite do leitor foi aguçado pela súbita virada da narrativa no v. 8. Aí está a transição do antigo para o novo mundo, num esquema que o Novo Testamento acha significativo para todos os tempos, tanto “agora” (1 Pe 3:20,21) como no fim (Lc 17:26; 2 Pe 3:6,7). O pecado, agora em plena propagação, só tem de produzir morte, e o primeiro exercício de julgamento em escala total demonstra que com Deus a verdade de uma situação prevalece, quer com maiorias, quer com minorias. Se “poucos” foram salvos — ape­nas oito almas (1 Pe 3:20), sete deles o deveram a unicamente um (Hb 11:7), e esta minoria herda a nova terra.

6:9-12. Um homem na companhia de Deus.

9. Num mundo corrompido, Noé emerge como o melhor elemento de uma geração má, e não apenas isto, mas também como um homem de Deus notavelmente completo. Dos dois adjetivos, reto (RV, RSV) é primariamente para com o homem, perfeito (AV, RV; isto é, sincero, íntegro, ver AA)' é para com Deus. A frase em suas gerações (AV) não se relaciona com a sua árvore genealógica (é uma palavra diferente da usada na expressão inicial); poder-se-ia traduzir (“o único” entre os seus contemporâneos”) (ver AA), pertencendo possivelmente às pala­vras que se seguem, apesar da pontuação.

A frase final é comparável somente ao elogio a Enoque (5:24), que a ecoa com uma ênfase a mais: “Era com Deus que Noé andava”.

10-12. Muito do que se diz aqui surgiu na genealogia e no registro de encerramento do velho mundo; sua repetição aumenta a sua soleni­dade. Mas as palavras corrompida e violência permitem nova com­preensão da anarquia prevalecente (e da feia faceta dos fortes e famo­sos de que fala o versículo 4). A forma hebraica para corrompida (ou “destruída”) também esclarece que o que Deus decidiu “destruir” (13, AV), virtualmente já se havia autodestruído.

6:13-22. A arca comissionada.

O íntimo andar de Noé com Deus é apropriado para que entre na confiança do seu Senhor, como seria com Abraão quanto a Sodoma (18:17). Este relacionamento, e o veredito calculado, estão em forte contraste com a atmosfera de rivalidades e caprichos que domina as narrativas babilónicas do dilúvio.

A participação da terra como alvo da destruição (13) seria somente em certa medida. 2 Pe 3:5-13 mostra quão diferente será a aniquilação final. De fato, todo o ato de julgamento foi parcial: os sobreviventes passaram por um simples toque de julgamento, somente para introdu­zir no mundo novo o pecado do antigo, como que para demonstrar que nada menos que a morte total e o renascimento resolverão a nossa si­tuação.

14. Os traços gerais e o nome da arca — pois é chamada “baú”, e não navio — acentuam seu propósito único: providenciar existência se­gura e bem ordenada para grande variedade de criaturas. Daí os três conveses do v. 16, e, no “texto recebido”, os quartos ou camarotes, aqui porém chamados encantadoramente “ninhos”. Mas talvez qinntm, “ninhos", deva ser revocalizada como qãnim:[1] [2] “de junco farás a arca”, que é uma setença mais natural em hebraico. Alguns de­fensores desta redação consideram-na apenas uma relíquia verbal do épico de Gilgamés, no qual o santuário de junco é proeminente. É mais significativa a idéia do junco entrando como fator funcional, tanto pa­ra cobrir como para unir a estrutura de madeira, como se faz com os barcos de papiro do Nilo e do Eufrates até hoje. Esse material era abun­dante e de fácil manejo.[3] Casualmente, a única outra arca (têbâ) men­cionada na Escritura, a de Êxodo 2, foi feita de junco e piche.

Não se sabe nada com certeza sobre a madeira de gôfer (AV), no­me que só aparece nesta passagem. “Madeira de construção aparelha­da”, como está na LXX, é pura imaginação. Uma conjetura mais plausível é “cipreste” (Moffat, von Rad, AA, etc.). Segundo parece, tanto o verbo (“calafetarás”; AV: “betumarás”) como o substantivo (“betume”), hebraico k-p-r nos dois casos, relacionam-se estreitamente com o termo hebraico que significa expiar, expiação. Talvez haja nisto mais que uma feliz coincidência verbal (bem adequada à narrativa do julgamento e salvação), pois ambas as palavras provavelmente repou­sam num sentido básico que lhes é comum, a saber, “cobrir”.[4]

15. O tamanho é enorme (um côvado ou cúbito (AV) mede cerca de 45 centímetros) mas a forma é simples. Edifícios desse tamanho não eram desconhecidos na antigüidade. Dispensava lançamento. Quanto às suas proporções, Agostinho, tomando-a alegoricamente, disse que eram as de um homem;[5] estaria mais perto do alvo se dissesse que eram as de um caixão fúnebre. Uma raiz egípcia parecida significa cofre ou ataúde, e a única outra tebã registrada no Velho Testamento foi aquela na qual o bebê Moisés, condenado à morte, viajou para a vida.

16. Um teto (RSV), ou janela (AV) ou clarabóia (RV) ou abertura (AA), (trata-se de uma palavra rara), situava-se no alto da estrutura. O sentido da frase: e com um cúbito a terminarás acima (AV) é obscuro, mas talvez queira dizer que uma abertura desse comprimento fosse feita junto ao teto (ver AA), como em alguns edifícios do Oriente Próximo antigo, possivelmente circundando totalmente o barco.

A porta é de importância óbvia, literalmente e como símbolo (c/. 7:16). O Senhor Jesus Cristo produziu grande efeito com essa figura na metáfora do aprisco (Jo 10:1-9). Os três conveses (RSV) têm sido uma tentação para os alegoristas. Mas são suficientemente expressivos assim como são, para expressar o cuidado de Deus para o que pertence à mes­ma categoria e para o que é diferenciado.

Há forte ênfase, omitida em RSV, AA, no pronome incicial: todo o desígnio do julgamento e da aliança pertence ao Senhor. O SI 29:10 reitera a soberania de Deus sobre o dilúvio,[6] e emprega para dilúvios a palavra mabbül, que, aliás, restringe-se a estes capítulos. Po­de ser uma expressão descritiva das “águas sobre o firmamento’’ como uma espécie de oceano celeste.[7] De qualquer forma, este modo de falar é empregado em 7:11, onde acentua vigorosamente a gravidade do jul­gamento como um acontecimento cósmico e, por sinal, uma inversão do processo de criação de 1:7.[8]

17. Esta primeira menção da “aliança” na Bíblia tem como ponto de partida a salvação (como a aliança mosaica, Êx 19:4,5, e a nova ali­ança, Mt 26:28), mas garante a Noé muito mais que o escapar com vi­da. Ele entra na arca não como simples sobrevivente, mas como o por­tador da promessa divina de uma nova era. O conteúdo da aliança será revelado no capítulo 9, e abrangerá todo o agrupamento, mas por en­quanto visa àquele homem por meio do qual muitos serão poupados. A vontade divina de salvar a família com o seu chefe (cf. I Co 7:14) está patente aqui, mas encontra reação favorável; a mesma vontade salva­dora ver-se-á rejeitada em 19:12-14.

19,20. Um par de cada espécie foi a regra; não se permite a interferência do pormenor posterior, de que os animais próprios para o sa­crifício entraram de sete em sete pares (7:2), dos quais um par era para preservar a espécie (7:8,9). A preocupação é com a regra, não com a exceção.[9]

22. A inteira obediência de Noé expressou inteireza de fé; é isto que Hb 11:7 acha importante. Também é expressivo o fato de que Deus atribuiu tão crucial encargo, não a um anjo, mas a um homem, e por si­nal um só homem. Isto concorda com aquele maior ato libertador reali­zado por Deus “por meio da obediência de um só” (Rm 5:19, RV, AA). A iniciativa é toda de Deus; daí a reiterada afirmação, Deus lhe ordenara (cf. 7:5,9,16), e o eventual “Lembrou-se Deus” (8:1).

7:1-5. A ordem de embarque.

O efeito da ampliação das instruções de 6:18, somente para repeti-las pela terceira vez em seu cumprimento (8,9), é salientar a cuidadosa povisão feita por Deus e a segura aproximação da crise. As reiterações são deliberadas e altamente eficazes.

I. Não se deve exagerar a aparente nota de boas-vindas no “Vem” (AV, RV). A palavra é tão neutra como “entra” (c/. RSV, AA), como no versículo 7. Mais significativa é a frase tu e toda a tua casa com a explicação: porque reconheço que tens (não “tendes”) sido justo. Cf. co- ment. de 6:18).

1. Há urgência, não porém pressa, nos sete dias; tempo suficiente para a tarefa completa, mas não para protelações. Nas visões do fim (por exemplo, Dn 9:27) o símbolo dos sete dias ou anos finais, e de sua abreviação, talvez intente evocar este primeiro encerramento de um dia de graça.

2. Ver comentário de 6:22.

7:6-24. O dilúvio esperado.

9. “De dois em dois”: ver comentário de 6:19,20.

II. A data precisa, com sua falta de simbolismo óbvio, traz as marcas de um fato real bem lembrado. E isso é confirmado pelas cuidadosas anotações sobre a época, mais adiante na narrativa, as quais são características da contextura da Bíblia, unindo o local e o cósmico. Cf. o preciso cuidado na fixação de datas na era do Evangelho em Lc 3:1,2. Da afirmação sobre grande abismo e sobre as comportas dos céus (ou “janelas”, AV), podemos inferir um enorme levantamento do leito do mar, e chuvas torrenciais. Mas as expressões evocam deliberadamente o capítulo 1: as águas sobre e sob o firmamento, por sinal, voltam a misturar-se, como que para inverter a própria obra da criação e trazer de volta a informe desolação de águas.

12. Sobre os quarenta dias..., ver a nota adicional sobre o dilúvio, seção c, pp. 92s.

13. A despeito do primitivo exemplo de Lameque (4:19) e a decadência moral generalizada, Noé e seus filhos eram monógamos: a família totalizava oito pessoas(l Pe 3:20). Entre os piedosos, a primei­ra menção de poligamia é feita na história de Abraão.

15. E o Senhor fechou a porta após ele. A expressão mostra lindamente o toque paternal de Deus no limiar mesmo do juízo. O mesmo cuidado aqui demonstrado encaminha a nossa salvação à sua conclu­são.

19-24. Estes versículos não bastam para decidir a favor ou contra a idéia de um dilúvio localizado (ver a nota adicional sobre o dilúvio, seção a, pp 88 ss. Mesmo a expressão debaixo do céu (AV, “de todo o céu”), v. 19, é provável que seja linguagem baseada na aparência, con­forme a analogia destes capítulos (Paulo usa hiperbolicamente um lin­guajar parecido em Cl 1:23). O que interessa à história é registrar o julgamento que o homem fez vir sobre todo o seu mundo, e não se es­tender sobre geografia. O próprio fato de que uma só palavra hebraica normalmente serve para designar “país” e “terra” reflete um interesse prático, e não teórico.

20. Quinze cúbitos de profundidade (AV) refere-se às águas livres aci­ma dos montes, não à profundidade total. Possivelmente, como suge­rem muitos, pôde-se saber a medida pelo calado da arca depois de car­regada (isto é, a metade de sua altura de trinta cúbitos ou côvados), que tinha ficado livre de todos os obstáculos. Talvez se deva acrescentar que alguns dos escritores que acham que o dilúvio foi global, fazem a conje­tura de que no mundo antediluviano as principais cadeias de monta­nhas não se tinham erguido ainda (ver, por ex., Whitcomb e Morris, The Genesis Flood, p. 267).

22. Sobre o sentido de fôlego (AV, “sopro”), ver a nota de rodapé relativa a 2:7.

8:1-14. O dilúvio diminui e se finda.

1. Quando o Velho Testamento diz lembrou-se Deus, combina as idéias de amor fiel (c/. Jr 2:2; 31:20) e intervenção oportuna. “Lembrar-se Deus, sempre inclui o Seu movimento rumo ao objeto da Sua lembrança.” Cf. 19:29; Êx 2:24; Lc 1:54,55.

4. O monte Ararate propriamente dito tem 5695 metros de altura. Mas o relato não diz mais que sobre as montanhas (ou colinas) de Ara­rate, isto é, em algum ponto da região desse nome. Tem-se imaginado que se trata de Urartu, uma terra montanhosa ao norte da Mesopotâmia, perto do Lago Van.

3. O termo aqui usado para janela não é o vocábulo raro de 6:16 (trad. por “janela” em AV). Ém 8:6 o sentido não dá lugar a dúvidas.

7-12. O corvo e a pomba quase pedem que sejam considerados co­mo parábola. De fato, o Espírito Santo, ao assumir a forma de uma pomba, provavelmente apontou para este episódio com a sua sugestão daquilo que é sensível e discriminador, o mensageiro da nova criação (esta, e não a paz, é a promessa da folha de oliveira recém-arrancada, 11, RSV) e o guia daqueles que a aguardam. O corvo, em contraste, contente com a carniça, não foi mensageiro de coisa nenhuma. O fato de deixar de voltar foi tão nulo em dar informação como teria sido o re­latório de um Demas (2 Tm 4:10) sobre as condições da sociedade. [10]

A breve seqüência, como von Rad expõe, “sutilmente nos leva a testemunhar a espera e a esperança daqueles que estavam encerrados na arca”. A engenhosidade de Noé vem à luz e, acima de tudo, em 13,14, a sua auto-disciplina enquanto aguarda pacientemente o tempo e a pala­vra de Deus.






[1] Empregada com referência à atitude de alguém, tamim (todo) tem este sentido; empregado em sentido restrito, como termo sacrificial, significa “sem defeito” (por ex., Êx 12:5). 


[2] Cf. E. Ullendorff em VT, IV, 1954, p. 95s. 


[3] Ver T. C. Mitchell, “Archaeology and Genesis I-XI”, em Faith and Thought, XCI, N? 1, 1959, p. 43. 


[4] Entretanto, “expiar” pode vir de uma palavra acádia que significa “apagar”; se for este o caso, as duas raízes k-p-r não são relacionadas com aquela. 


[5] The City of God, XV.xxvi. 


[6] A. Weiser traduz o SI 29:10 deste modo: “Como o Senhor assentou-se entronizado sobre o dilúvio, assim o Senhor se assenta entronizado como rei para sempre” (The Psalms(S.C.M. Press, 1962), in loc.). 


[7] W. F. Albright argumenta em favor deste sentido em JBL, LVIII, 1939, p. 98. 


[8] Cf. von Rad, p. 124. 


[9] É gratuito tratar esta exceção (7:2) como contradição, como se faz às vezes. A pro­visão de animais excedentes para o sacrifício não pode ser posta em conflito com a exigên­cia de um par para reprodução. Ver a nota adicional sobre o dilúvio, seção c, p. 78s. 


[10] B. S. Childs, Memory and Tradition in Israel (S.C.M. Studies in Biblical Theolo­gy, N? 37, 1962), p. 34.