12 de julho de 2016

DEREK KIDNER - O homem sob o pecado e a morte (4.1-6.8)

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III. O HOMEM SOB O PECADO E A MORTE (4:1-6:8)

4:1-15. O assassinato de Abel.

Se, por trás da serpente, era perceptível o diabo no capítulo 3, a carne e o mundo entram em consideração no presente capítulo (ver adiante coment. dos vs. 16-24). O pecado é revelado com os seus ciclos de evolução como em Tg 1:15, e no v. 7 é personificado quase que à ma­neira paulina (c/. Rm 7:8). Muitos pormenores acentuam a gravidade do crime de Caim e, portanto, da queda. O contexto é culto, a vítima, um irmão. E enquanto que Eva fora persuadida a pecar, Caim não acei­ta ser dissuadido de seu pecado nem sequer por Deus; também não irá confessá-lo, nem aceitar o castigo.

1. A palavra conheceu (AV), neste sentido especial, mostra muito bem o nível plenamente pessoal da verdadeira união sexual, embora possa perder completamente este elevado conteúdo (cf. 19:5, AV).

Caim tem algo do som de qãnâ, “adquirir”. Tais comentários so­bre nomes são geralmente jogos de palavras, e não etimologias, reves­tindo um nome padrão de um sentido particular. Assim, por ex., em 17:17,19 um nome existente, Isaque (“ria-se [Deus]”) foi escolhido pa­ra rememorar certo riso e a promessa que o provocou.

A expressão com o auxílio do (RV, RSV, AA) é literalmente “com”, apenas. E embora esta palavra hebraica permita outras inter­pretações, a de RV, RSV, AA é a mais simples. Cf. 1 Sm 14:45 (outra palavra para “com”).

A exclamação de fé, expressa por Eva neste versículo como no v. 25, levanta a situação acima do puramente natural, para o seu verdadei­ro nível (como a fé sempre faz: 1 Tm 4:45), quer esteja dando um toque no oráculo de 3:15 ou não.

2. O nome Abel é, quanto à forma, idêntico ao termo hebraico pa­ra vaidade ou simples sopro (por ex., Ec '1:2, etc.). Mas a conexão é provavelmente fortuita, desde que nada se faz com ela. Pode ser que o nome seja cognato do sumério ibil(a), do acádio ab/plu, “filho”.

Os especialistas tendem a ver nesta narrativa as rivalidades de dois modos de viver, o pastoril e o agrícola. Vê-se tal tema no Velho Testa­mento (ex., Jr 35:6), mas aqui o contraste de culturas desempenha pa­pel inteiramente subordinado. Deus tem lugar para as duas modalida­des (cf. Dt 8), e há os passos estruturadores de um rico modelo nestas aptidões complementares e no procurado entrelaçamento do trabalho e do culto. O esquema é feito em pedaços unicamente mediante o mate­rial humano, e é a exposição à verdade de Deus que o rompê; pondo a descoberto pela primeira vez a moral antipatia da religião carnal para com a espiritual.

3-5 A oferta é um minhâ, que nas atividades humanas era uma dádiva feita para homenagem ou para aliança e, como termo ritual, po­dia descrever ofertas de animais e, mais frequentemente, de cereais (por ex., 1 Sm 2:17, Lv 2:1). É argumento precário afirmar que a ausência de sangue desqualificou a oferta de Caim (cf. Dt. 26:1-11); tudo que é explícito aqui é que Abel ofereceu a fina flor do seu rebanho e que o espírito de Caim era arrogante (5; cf. Pv 21:27). O Novo Testamento infere as implicações adicionais e importantes de que a vida de Caim, diversamente da de Abel, desmentia sua oferenda (1 Jo 3:12) e de que para a aceitação de Abel, sua fé foi decisiva (Hb 11:4).

6. Nos repetidos Por que...? e Se... de Deus, Seu apelo para a ra­zão e Seu interesse pelo pecador são assinalados tão vigorosamente co­mo Seu interesse pela verdade (5) e pela justiça (10).

7. No Hebraico, aceito (7) é literalmente “um exaltar” (cf. RVmg), expressão que pode indicar um semblante sorridente contraria­mente a um semblante carrancudo (descaído, 6). Cf. Nm 6:26. Pode ser que o sentido seja o de que o simples olhar para o rosto de Caim o traia;[1] [2] mais provavelmente vai além, incluindo a promessa de restau­ração da parte de Deus (cf. 40:13) sobre uma mudança de coração. O quadro do pecado ... recostando-se à porta (RSV; AA: o pecado jaz à porta), desenvolve-se na candente metáfora da domação de um animal selvagem. Assim, RSV: o seu desejo é por você (Moffatt: “ansioso para estar em você”), mas você tem de dominá-lo. A frase é uma adap­tação de 3:16, sobre o qual lança melancólica luz.[3]

8. RV traduz corretamente o hebraico: E Caim contou a Abel, seu irmão (c/. Êx 19:25). Se este é o verdadeiro texto (como parece que é), Caim mostra uma natural vacilação entre aceitar ou desafiar a censura de Deus. Contudo, a LXX diz: ... disse a Abel ... Vamos ao campo (RSV, AA), tornando o assassínio duplamente deliberado, se estas pa­lavras constituem de fato uma parte autêntica do texto original.

9. Onde está Abel, teu irmão? emparelha-se a “Onde estás?” de 3:9, como a perene e completa inquirição que Deus faz ao homem. A desumana réplica, de teor igual às evasivas respostas de 3:10ss, trai, em comparação com estas, certo endurecimento.

10. Costumamos falar de erros que “clamam” por reparação. O Novo Testamento combina com o Velho Testamento nisto, e desenvol­ve a metáfora (por ex., Ap 6:9,10; Lc 18:7,8) que, todavia, deve ser vis­ta como metáfora. Em tocante contraste, o sangue de Jesus Cristo cla­ma pela graça (Hb 12:24).

11,12. O impenitente Caim ouve palavras mais severas do que as dirigidas a Adão, para quem a maldição foi indireta, não tendo ele ou­vido: “És... maldito”.

13,14. O protesto de Caim[4] ecoa o tom ofendido de Dives[5] (Lc 16:24,27,28; cf. Ap 16:11), em contraste com o reconhecimento do la­drão arrependido, de que: “...recebemos o castigo que os nossos atos merecem” (Lc 23:41). A última frase do v. 14: “qualquer que me achar... (RSV), dá idéia de uma população em expansão, presente ou futura. Poderia implicar também em que cada pessoa encontrada seria um parente próximo de Abel — coerentemenje com o contexto. Ver, porém, a Introdução, Origens Humanas, p. 25ss.

15. O interesse de Deus pelo inocente (10) iguala-se somente à Sua preocupação pelo pecador. Mesmo a queixosa oração de Caim conti­nha um germe de súplica; a promessa de Deus, em resposta, juntamente com a sua marca ou sinal (a mesma palavra de 9:13; 17:11) — não um estigma, e, sim, um salvo-conduto — é quase uma aliança, fazendo dele virtualmente o go’el ou protetor de Caim. Cf. 2 Sm 14:14b, AV, RV, AA. É o máximo que a misericórdia pode fazer pelos que não se arre­pendem.





GÊNESIS 4:16-24 4:16-24. 

A família de Caim.

Os começos da vida civilizada mostram característica potencialida­de para o bem e para o mal, com as artes e ofícios que serão bênçãos pa­ra a humanidade, flanqueados por abusos (19,23,24) que serão verda­deira maldição para ela. A cultura, usada ou abusada, não oferece ne­nhuma redenção; a única centelha de esperança está na dádiva de Deus e na tardia resposta do homem, registradas nos dois versículos finais do capítulo.

16. Fora na presença do Senhor que havia surgido a crise (5). A partida de Caim foi ao mesmo tempo sua sentença e sua escolha. Por um lado, temera o exílio, ser banido “da tua presença’’ (14), e o vagar “errante’’, agora expresso no nome Node (“peregrinação’’; Gesenius: “fuga’’, “exílio”); por outro lado, desdenhara a contrição, e agora.se dispõe a conseguir algum sucesso com a sua independência. O relato subseqüente permite provar o primeiro sabor de uma sociedade auto- suficiente, que constitui a essência daquilo que o Novo Testamento denomina “o mundo”.

17. A frase inicial sugere que por esse tempo Caim já era casado, e 14,15 com 5:3 dão a impressão de que a família humana começara a multiplicar-se, a menos que no v. 14 (ver coment.) os temores de Caim fossem apenas quanto ao futuro. Ver a Introdução, Origens Humanas, p. 28s.

O nome Enoque (hanôk) tem parentesco com o verbo “iniciar”.[6] Talvez haja a idéia de um novo princípio no fato de se dar esse nome ao primeiro filho e à primeira cidade de Caim independente. No hebraico, cidade é um termo que se pode aplicar a qualquer povoação, pequena ou grande. As respectivas pretensões à fama dos dois Enoques (cf. 5:22­.24) estabelecem nada bela comparação entre os dois ramos da humani­dade, cujas linhagens vão até às famílias do belicoso Lameque (4:24) e do piedoso Noé (5:32).

18. Dois dos nomes aqui, Enoque e Lameque, são usados nas duas familias (cf. 5:18,25); as semelhanças entre outros são mais notórias no inglês do que no hebraico.

19-24. Um relato tendencioso não atribuiria nada de bom a Caim. A verdade é mais complexa: Deus iria fazer muito uso das técnicas cai­nhas em favor do Seu povo, desde a própria disciplina semi-nômade (20; cf. Hb 11:9) até às artes e ofícios civilizados (porex., Êx 35:35).[7] A frase este foi o pai de todos os que ou dos que reconhece o débito aos empreendimentos seculares, e nos prepara para aceitarmos o mesmo débito; pois a Bíblia não ensina em parte nenhuma que os piedosos fica­riam com todos os dons. Ao mesmo tempo, a informação bíblica nos li­vra de exagerarmos a avaliação dessas habilidades: a família de Lameque podia impor sua direção ao meio ambiente, mas não a si própria. A tentativa de melhorar a ordenança divina sobre o casamento (19; cf. 2:24) abriu um precedente desastroso, do qual o restante de Gênesis é suficiente comentário. E a mudança do trabalho em metais para a fa­bricação de armas, mudança que se seguiu logo, é igualmente nefasta. A família de Caim é um microcosmo: seu padrão de proezas técnicas e de fracasso moral é o da humanidade.

A canção de sarcástico desafio de Lameque revela o rápido pro­gresso do pecado. Enquanto Caim havia sucumbido a ele (7), Lameque exulta nele; enquanto Caim tinha procurado proteção (14,15), Lame­que olha à sua volta em atitude de provocação: a selvagem despropor­ção entre matar um simples rapaz (hebraico, yeled, “criança”) e uma simples ferida, constitui o ponto determinante da sua jactância (cf. 24). Com esta nota de bravata, a família desaparece da narrativa.[8] Em con­traste, bem pode ser que Jesus tivesse em mente essa expressão, “seten­ta vezes sete”, quando falou que devemos perdoar o irmão “até setenta vezes sete”.



4:25,26. Sete substitui a Abel.

A fé revelada por Eva ao salientar a vontade de Deus pelo nome Sete (“designado”) fica ainda mais evidente aqui do que no v. 1. A menção de outro descendente (AV, RV: “outra semente”) também pa­rece ligar-se a 3:15.

26. Enos significa “homem” (cf. SI 8:4,5), talvez com um matiz de ênfase em sua fragilidade.

A nota final, daí se começou... tem duplo interesse, registrando o primeiro brotar do desenvolvimento espiritual desde Abel e desde a primeira revelação do nome Yahweh (o Senhor). Em Gênesis, este é um dos vários nomes divinos pronunciados pelo povo,[9] mas ainda mero no­me, não revelando ainda quaisquer características de Deus como o fa­ziam os outros nomes (por exemplo, El ‘Elyon, “Deus Altíssimo”). Neste sentido, Deus só se tornou “conhecido” pelo nome Yahweh de­pois de lhe dar conteúdo na mensagem comunicada por ocasião da sarça ardente (Êx 3:13, 14; 6:3).[10]



Nota Adicional sobre os Descendentes de Caim

Elaborou-se uma argumentação no sentido de identificar os cainitas com os quenitas. Os termos hebraicos são idênticos (cf. Nm 24:21,22, RV, RSV), e o equivalente árabe significa “ferreiro”. Há evidência da existência, em tempos remotos, de grupos viageiros como a família descrita em Gn 4, principalmente habitantes em tendas que se mudavam de um lugar a outro como artesões e músicos. Uma famosa pintura tumular da era patriarcal em Beni Hasan mostra um grupo des­ses equipado de armas, instrumentos musicais e foles. Daí se sugere comumente que os fatos deste capítulo foram extraídos de memórias tri­bais, juntamente com uma narrativa escrita para explicar as origens dessa existência errante, e foram postos em novo uso pelo compilador de Gênesis.

Naturalmente a teoria é incompativel com a narrativa do dilúvio, que revela uma clara ruptura com as primitivas famílias mencionadas aqui, exceto mediante Noé. Tem valor, todavia, em chamar a atenção para um conhecido padrão de vida que incorpora todos os traços de Gn 4:16. O termo qayin, “ferreiro”, seria motivo bastante para dar aos quenitas o seu nome, e, por sua vez, poderia ter-se originado do nome de Caim, exatamente como nos tempos modernos um pioneiro (por ex., Watt, Ohm, Volt) podem deixar marca permanente na terminologia do seu ofício. Podemos concluir que a sucessão cainita-quenita foi de­veras real, mas em termos profissionais, não hereditários.



5:1-32. A família de Sete.

Este capítulo presta-se a pelo menos três finalidades do esquema de Gênesis. Primeiro, dá testemunho do valor do homem para Deus, men­cionando indivíduos e estágios dessa primitiva fase humana: conhece-se e se recorda cada um deles. Segundo, mostra como a linhagem de Sete, o “designado” (4:25) levou a Noé, o libertador. Terceiro, tanto de­monstra o reinado da morte, por seu insistente refrão (5, etc.), como também visivelmente quebra o ritmo para falar de Enoque — marco permanente indicando a derrota da morte.

1. O início, Este é o livro ..., parece indicar que originalmente o capítulo era uma unidade completa (“livro” significa “narração escri­ta” de qualquer extensão), e a impressão é fortalecida pelo fato de co­meçar com um sumário da criação, e pelo padrão seriado dos seus parágrafos.

2. As palavras e lhes chamou pelo nome de Adão (AV, RV, AA), ou “Homem” (RSV), acentuam o fato de que, embora o elemento mas­culino, como chefe, tenha o nome da raça, leva juntos os dois sexos pa­ra expressar o que Deus quer dizer por “humano” {cf. 1 Co 11:11).

3. Quanto aos cento e trinta anos, e outros algarismos desta passa­gem, ver a nota adicional sobre o capítulo. Não se deve insistir demais no contraste entre à sua semelhança neste versículo, e a semelhança de Deus no v. 1. Ver a discussão disto no comentário de 1:26.

É notável que dos filhos de Adão só se menciona Sete aqui. Sem dúvida o capítulo serviu primeiro de árvore genealógica dessa família, mas, introduzido aqui no contexto dos descendentes de Caim e suas realizações, o silêncio quanto a estes é marcante. Na história da sal­vação, a família de Caim é uma insignificância.

9. Sobre Enos (’enôs), ver 4:26 e nota.

12. O nome “Cainã” (qênãtf) é muito parecido com Caim, como na transliteração feita por AV, Cainan, e AA. (Não confundir com o fi­lho de Cão, Canaã (k?na‘ari) em 10:6). Não é impossível que o nome fosse dado a esse homem em sua qualidade de introdutor das aptidões cainitas entre os seus companheiros setitas (cf. 4:20-22).

15. "Maalaleel”(mahalal-’êl) significa “louvor de Deus”.

18. “Jerede” (yereg) pode significar “descida”, se é de origem hebraica:[11] [12] não tem nenhuma semelhança real com Irade firãd), de 4:18.

21-24. Este espantoso parágrafo “brilha”, nas palavras de W. R. Bowie, “como uma fulgurante estrela solitária acima do registro terres­tre deste capítulo”.[13] A simplicidade da repetida expressão, andou Enoque com Deus, rompendo repentinamente a fórmula que tinha começa­do o resumo sobre ele, como com os demais, retrata a intimidade, que é a essência da piedade veterotestamentária. Isto, e não o austero moralismo popularmente atribuído ao Velho Testamento, constitui terreno comum a Enoque, Noé (somente a respeito de quem esta frase particu­lar reaparece, 6:9), a Abraão, o amigo de Deus; a Moisés, que falou com Ele “face a face”; e a homens como Jacó, Jó e Jeremias, que luta­ram com Ele.

O hebraico permite, mas não necessariamente requer a idéia de que a piedade de Enoque começou com o nascimento de Metusalém. Antes, andou com Deus é a réplica de “viveu” (continuou vivendo) dos versículos 19, 26, etc. Isto era a vida, para ele.

Na LXX, “andou com” é substituído pela paráfrase: “agradou”, e “não era” torna-se “não foi achado”. É a versão usada em Hb 11:5.

A frase Deus o tomou para si deixou sua marca no Velho Testamento, ao que parece, em dois lugares: SI 49:15 (TM 16); 73:24 (onde “receber” equivale a “tomar”), sendo ambas notáveis afirmações. Co­mo Enoques e Elias são raros, esta esperança não se tornou facilmente geral; mas pelo menos duas vezes as portas do Sheol não prevaleceram.

24. Metusalém é de significado incerto; possivelmente significa “homem da azagaia”. Não se dá nenhuma atenção especial à extensão da sua vida, que sobrepuja a de Jerede em apenas sete anos (20,27).

28,29. Não temos pista que nos leve ao sentido do nome Lameque (lemek), mas os dois que tiveram esse nome são lembrados por suas palavras, o cainita por sua arrogância (4:23), o setita por seu anelo. Seu oráculo sobre o nascimento do seu filho è um jogo de palavras (ver coment. de 4:1), passando da óbvia etimologia do nome “Noé” (“repouso”)[14] para o verbo algo parecido naljêm, “consolar”. A alusão a 3:17 pode ser um sinal de que ele retivera a promessa de 3:15. Como sucede muitas vezes em Gênesis, e em plano ainda mais alto em Isaías, um nas­cimento é ocasião para profecia; nenhum outro assunto concentra em si tantas esperanças. A Bíblia, em sua orientação rumo ao nascimento de um salvador numa ou noutra capacidade, é coerentemente pessoal em sua expectação. Entretanto, a missão de Noé ia ser mais radical do que qualquer coisa que Lameque poderia imaginar, e o oráculo desta passa­gem assumiria nová forma em 6:6 (ver coment. in loco).



Nota Adicional sobre os Longevos Antediluvianos

Dois problemas de interpretação jazem à superfície deste capítulo: em termos simples, o período como um todo parece demasiado curto, e a duração da vida dos indivíduos demasiado longa, para harmonizar- se com outros dados. O senso comum e os conhecimentos atuais mere­cem cuidadosa atenção sobre tal matéria: às vezes eles apontam para a verdadeira intenção de uma passagem, contra uma interpretação ingê­nua ou fantasiosa. Mas é a passagem mesma que, no contexto global da Escritura, deve dar a última palavra.

a. Extensão total do período.

Nosso atual conhecimento da civilização, digamos de Jericó, abrange pelo menos até 7000 a. C., e do homem, até uma data muito anterior a essa. Quando Ussher estabeleceu para Adão a data de 4004 a.C., supôs que as gerações deste capítulo formavam uma corrente sem solução de continuidade. Mas o capítulo nem faz a soma dos seus alga­rismos, nem dá a impressão de que os homens que menciona se sobre­puseram uns aos outros, quanto à duração de suas vidas, numa exten­são incomum (por ex., que Adão tenha vivido até quase o nascimento de Noé). Se apresenta uma seleção de dez nomes (e em 11:10, de outros dez nomes, de Noé a Abraão) como marcos isolados antes que elos con­tinuados, conta com os costumes genealógicos bíblicos e extra-bíblicos para dar-lhe apoio. Na Escritura, observe-se o estilizado esquema de três grupos de quatorze em Mt 1 (envolvendo a omissão de três reis su­cessivos em Mt 1:8). Fora da Bíblia, antropólogos e outros chamam a atenção para métodos genealógicos semelhantes, empregados no Su­dão, na Arábia e noutros lugares.[15] Segundo este modo de entender o esquema, Sete, por exemplo, gerou ou um antepassado de Enos ou ao próprio Enos[16] (cf. Mt 1:8, onde se vê que Jorão “gerou” a seu trine­to); e assim por diante. Isso torna impossível determinar a extensão to­tal do período.



b. Períodos de duração da vida.

As reinterpretações da longevidade desses homens são menos feli­zes. À primeira vista, o fato de que um nome pode referir-se tanto a um indivíduo como à sua tribo (cf. capítulo 10) poderia explicar alguns dos casos de longevidade, se o primeiro dado numérico do registro (3,6, etc.) fosse tomado como indicando a duração da vida pessoal de um homem, enquanto que o segundo (4,7, etc.) fosse tomado como dando a duração da existência da família por ele fundada.[17] Mas Enoque e Noé são exceções fatais para a teoria, pois os dois são claramente retratados como indivíduos até o fim. É igualmente infrutífera a idéia de que as unidades de tempo podem ter mudado de sentido. Além de produzir novas dificuldades nos versículos 12, 15, 21, falha completamente na cronologia pormenorizada que se acha entre 7:6 e 8:13.

Portanto, só podemos dizer que os períodos de duração da vida devem ser entendidos literalmente. Talvez valha a pena pensar que o nos­so índice comum de crescimento não é o único que se pode conceber; e também que várias raças têm tradições de longevidade primitiva[18] que poderiam provir de reminiscências autênticas. Ver também comentário de 12:14. Entretanto, maiores estudos das convenções dos escritos genealógicos antigos podem lançar novas luzes sobre a intenção do capítulo.

6:1-8. A crise iminente.

1- 4. Filhos de Deus e filhas dos homens. O ponto em questão nesta passagem crítica, seja qual for o modo como a abordemos, é que se alcançou novo estágio no progresso do mal, com os limites impostos por Deus ultrapassados em mais outra esfera.

2. Os filhos de Deus são identificados por alguns como sendo os filhos de Sete, em oposição aos de Caim.[19] Outros, inclusos os primitivos escritores judeus,[20] entendem que se trata de anjos. Se a segunda opi­nião desafia as normas da experiência, a primeira desafia as da língua (e nossa tarefa consiste em achar o que o autor pretende dizer); pois, con­quanto o Velho Testamento possa declarar que os que pertencem ao po­vo de Deus são Seus filhos,[21] o sentido normal da expressão “filhos de Deus’’ propriamente dita é “anjos’’,[22] e não houve preparo algum do leitor para supor que “homens” agora significa apenas cainitas.[23]

Possível apoio neotestamentário para “anjos” pode-se ver em I Pedro 3:19,20;[24] também em 2 Pedro 2:4-6, onde os anjos caídos, o dilúvio, e a ruína de Sodoma formam uma série que poderia estar baseada em Gênesis, e em Jd 6, onde a transgressão dos anjos foi a de “abandona­rem o seu próprio domicílio”. O desejo de ter corpo, manifestado pelos demônios nos evangelhos, oferece ao menos algum paralelo a este an­seio por experiência sexual. Mas onde a Escritura é tão reticente como o é aqui, Pedro e Judas nos aconselham retirada. Coloquemo-nos em nosso próprio lugar! Mais importante do que as minúcias desse episódio é sua indicação de que o homem não pode socorrer-se a si mes­mo, seja que os setitas tenham traído à sua vocação, seja que os poderes demoníacos tenham conseguido um tento.

3. Neste versículo muito controvertido, sigamos a RSV: Meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, pois ele é carne, mas...”. A palavra permanecer (yadôn), usada pela Tradução Brasilei­ra, recebe apoio das principais versões antigas, embora sua etimologia seja incerta.[25] [26] A tradução de AV, RV (“lutar por”; Almeida, Edição Revista e Corrigida, “contender”) parece exigir a forma yãdin ou pos­sivelmente yãdün. Mesmo a palavra “pois” (fcsaggam, “porquanto, como também”) não fica livre de objeção (ver RVmg), mas os melhores MSS a apoiam.

Os cento e vinte anos poderiam ser o período de espera antes do dilúvio (cf. 1 Pe 3:20), ou a média menor da duração da vida humana, que doravante se deveria esperar. Qualquer destes significados harmoniza-se com o que se segue em Gênesis

Parece, então, que nesta altura Deus está preocupado, não com a depravação, que o versículo 5 introduzirá, mas com a presunção. Este foi o tema de 3:5 (“como Deus”; ou “como deuses”) e de 3:22 (“e viva eternamente”); reaparece em 11:4 (“chegue até aos céus”), e o presente episódio bem poderia pertencer à série como uma tentativa, desta vez de inciativa angélica, de trazer para a terra, ilicitamente, um poder sobrenatural, ou mesmo a imortalidade. Dai o contraste entre espírito e carne, no comentário que Deus fez. O homem é ainda um simples mortal, sustentado pelo espírito alentador de Deus (como no SI 104:29,30), unicamente segundo o Seu beneplácito.

4. A famosa frase de AV, AA, havia gigantes deriva da LXX mediante a Vulgata, mas RV, RSV confessam a obscuridade da palavra- chave transliterando-a, “the Nephilim” (os nefilins). Contudo, a ex­pressão homens poderosos, juntamente com Nm 13:33, tende a fortale­cer o uso da tradução costumeira. Vale a pena observar que não se diz que os gigantes provieram exdusivamente dessa origem. Se alguns sur­giram desse modo (e também depois), outros já existiam (naquele tem­po).

5-8. O pecado plenamente desenvolvido. No v. 5, a expressão Viu o Senhor convida a amarga comparação com a narrativa da criação, 1:31. Nas duas metades do versículo a maldade do homem é apresenta­da extensiva e intensivamente, a última com força devastadora nas pa­lavras “continuamente... todo” (AV: toda... somente... continuamen­te). “Dificilmente se pode conceber mais enfática declaração da impie­dade do coração humano. ’ ’[27]

O termo imaginação (AV), hebr. yêser, está mais perto da ação do que o inglês sugere (como também o português). Deriva do verbo do oleiro, “formar” (c/. 2:7), e inclui a idéia de desígnio (ver AA) ou propósito. O judaísmo mais recente fez dele um termo técnico para ca­da um dos impulsos gêmeos, para o bem e para o mal, que considera coexistentes no homem. Mas o Novo Testamento é o fiel expositor da passagem, não encontrando “bem nenhum” em nossa natureza de­caída (Rm 7:18).

6. Esta descrição deveras humana transmite a força intensa da si­tuação, deixando a palavra se arrependeu (RSV, lamentou) salvaguar­dada noutra ocasião contra a implicação de capricho (1 Sm 15:29,35). Esta é a maneira de falar do Velho Testamento, em que emprega as ex­pressões mais ousadas, contrabalançadas em outros lugares, se ne­cessário, mas não enfraquecidas. A palavra pesou tem afinidade com as palavras aflição (“dor”, RSV) e fadiga (AA: sofrimentos, dores, fadi­gas) de 3:16,17. Agora Deus sofre por causa do homem. Acrescente-se que U. Cassuto expõe[28] que os três verbos aqui empregados, “se arre­pendeu... ter feito... lhe pesou”, reproduzem as três raízes hebraicas de “consolará... trabalhos... fadigas”, em 5:29, ampliando imensuravelmente o escopo das palavras de Lameque. O homem anseia por alívio temporal; Deus tem de fazer direito as coisas. “As esperanças deposita­das por Lameque em seu filho vieram a realizar-se de maneira muito di­versa da que ele imaginara.’ ’[29]

7,8. A singela brevidade do v. 8 é extremamente eloqüente depois dos demolidores termos do v. 7. Juntos, os dois versículos mostram a maneira característica como Deus trata o mal: enfrenta-o não com meias medidas, mas com os extremos simultâneos de juízo de salvação. A graça (8) é ainda simples bondade, quer seu beneficiário seja um Noé ou (c/. 19:19) um Ló. O fato adicional de que toda a vida é interligada fica igualmente claro, com as criaturas companheiras do homem com­partilhando a sua ruína e, conforme se desenrola a narrativa, partilhan­do também da sua libertação — tema retomado ulteriormente em Rm 8:19-21.






[1] Cf., por ex., o conto-competição sumério de Dumuzi e Enkimdu, deus pastor e deus lavrador: ANET, p. 41. 


[2] Cf. Moffatt. 


[3] Uma possível alternativa:é: “uma oferta pelo pecado recosta-se...’’ (cf. 22:13?), caso cm que a frase final (“o seu desejo...”) se referiria a Abel, e o versículo todo estaria assegurando a Caim que, nem o desprazer de Deus, nem a ascendência de Abel teriam de ser permanentes. Contudo, seria um modo muito critico de dizê-lo. 


[4] O hebraico “poderia” ser construído como se fe/ na LXX: “meu pecado é grande demais para ser perdoado”, mas o contexto não lhe dá apoio. 


[5] Dives, itis, “rico”, adjetivo latino que ocorre na Vulgata. N. do Tradutor. 


[6] W. F. Albright, contudo, defende o sentido de “seguidor” (isto é, “sucessor”), em JBL, 1939, p. 96. 


[7] No v. 22, a tradução “forjador” (RV, RSV) inclui mais do que o hebraico Ifftês, “malhador” ou “afiador”. O ferro meteórico e o cobre de minas a céu aberto eram bati­dos e polidos muito antes de se ouvir falar de fundição e forja. Perecíveis como esses me­tais são, sobreviveram alguns exemplares de ferro do terceiro milênio a.C., e de cobre do quinto milênio, ou até antes; cf. JSA, SVIII, 1966, p. 31. Ver também a Introdução, Ori­gens Humanas, p. 26s. 


[8] Ver a nota sobre os descendentes de Caim, adiante. 


[9] Na análise crítica comum, o seu uso em Gênesis acha-se mormente, por definição, nas passagens atribuídas ao Jeovista (J); contudo, mesmo assim, não exclusivamente. Ver a Introdução, pp. 16ss. 


[10] Cf. J. A. Motyer, The Revelation of the Divine Name. Ver também a Intro­dução, p. 31 


[11] Sobre a teoria de P. J. Wiseman de que o versículo 1 conclui uma seção, em vez de abri-la, ver a Introdução, II c. p. 22s. 


[12] Skinner chama a atenção para, por ex., o Livro de Enoque 6:6 que coloca a “des­cida” dos anjos caídos (ver Gn 6:2) nos dias de Jerede. 


[13] IB, I, p. 530. Uma alterada reminiscência de Enoque parece ter-se preservado no sétimo antediluviano sumério, rei que tinha intimidade com os deuses e que era versado na sabedoria oculta. 


[14] Mas a LXX diz: “dar-nos-á repouso”, traduzindo o suposto verbo hebraico. 


[15] Ver W. F. Albright, The Biblical Period from Abraham to Ezra (Harper, 1963), 

p.9. 


[16] Ver o artigo “Chronology” no Westminster Dictionary of the Bible (Collins, 1944), p. 103, baseado em J. D. Davis, “Antediluvian Patriarchs”, em ISBE, I, pp. 139­143. 


[17] Assim A. Winchell, Pre-adamites, p. 449, citado por G.F. Wright, artigo “Ante­diluvians”, p. 143. 


[18]A lista suméria de reis menciona oito ou dez antediluvianos, reinando em média uns trinta mil anos cada um. Uma partícula de verdade poderia jazer por trás desses números enormes, como a verdade jaz, evidentemente, por trás dos nomes dos reis (cf. M.E.L. Mallowan, em Iraq, 1964, p. 68s). 


[19] Por ex., J. Murray, Principles of Conduct (Tyndale Press, 1957), p. 243-249. 


[20] Ver Enoque 6:2; também o “Qumran Genesis Apocryphon”, col. II. 


[21] Dt 14:1; Is 1:2; Os 1:10 (Mt 2:1). 


[22] Jo 1:6; 2:1; 38:7; Dn 3:25. 


[23] Uma terceira hipótese, a de M G. Kline, em WTJ, XXIV, 1962, p. 187-204, faz de 

“filhos de Deus” uma expressão designativa de reis, e de 2 uma referência à poligamia da realeza. Mas é difícil ver por que matérias tão conhecidas como realeza e poligamia deves­sem ser expressas tão indiretamente. Para verificar outro elo sugerido com a realeza, cf. E. G. Kraeling, em JNES, VI, 1947, p. 193-208. 


[24] Cf. A. M. Stibbs, IPeler (Tyndale Press, 1959), p. 142. 


[25] A vocalização indica a raiz d-n-n, para a qual há alguma evidência do sentido de “ficar”. Cf. Cassuto, I, p. 295. 


[26] Mas o acádio danãnü, “tornar-se forte”, “reforçar”, “falar severamente a”, po­de apontar para um d-n-n de significado parecido. 


[27] Th. C. Wriezen, An Outline of Old Testament Theology (Blackwell, I960), p. 


2>< Genesis, I, P. 303. 


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