26 de julho de 2016

DEREK KIDNER - Fim e principio: Babel e Canaã (11.1-32)

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FIM E PRINCÍPIO: BABEL E CANAÃ (11:1-32)

11:1-9. Babel.

A história primeva atinge seu clímax infrutífero quando o homem, cônscio das suas novas capacidades, prepara-se para glorificar-se e fortalecer-se mediante um esforço coletivo. Os elementos componentes dò relato, foram sempre uma característica do espírito do mundo. O projeto é tipicamente grandioso. Os homens o descrevem excitadamen­te uns aos outros como se fosse a realização última — o que lembra muito bem as glórias do homem moderno em seus projetos espaciais. Ao mesmo tempo, deixam entrever sua insegurança ao reunir-se em multidão para preservar a sua identidade e gerir os seus bens (4).

A narrativa capta o absurdo e a gravidade simultâneos do fato. Mesmo os materiais são provisórios, como o assinala o versículo 3, mas os construtores são mais fracos ainda. Há ironia no eco do alarido dos homens, “Vinde ... Vinde ...” que encontramos nas palavras de Deus, “Vinde, desçamos...”, e o fim é um anticlímax: “cessaram de ”. A ci­dade semi-construída é um monumento mais que suficiente deste aspec­to do homem.

Contudo, isso também é levado a sério. Aos ouvidos modernos, 6 é totalmente adequado: “Isto é só o começo...; agora, nada do que eles se propuserem ... ser-lhes-á impossível” (RSV). A nota de prognóstico assinala o interesse de um Criador e de um Pai, não de um rival; é como o que disse o nosso Senhor: “Se em lenho verde fazem isto...” (Lc 23:31). Isto deixa claro que a unidade e a paz não são os bens últimos: é melhor a divisão do que a apostasia coletiva (cf. Lc 12:51).

O fim revela a decisiva mão de Deus nos quefazeres humanos. É questão reconhecida que a incompreensão mútua tem suas causas natu­rais, tais como as próprias atitudes de orgulho e temor expressas no v. 4 (que poderia ser o modo do nacionalismo moderno); mas, em última instância, é a justa disciplina aplicada por Deus a uma raça insubordi­nada.

O pentecostes iniciou um novo capítulo da história, na articulação de um Evangelho em muitas línguas. A inversão final é prometida em Sf 3:9: “Sim, naquele tempo mudarei a linguagem dos povos para uma linguagem pura, para que todos invoquem o nome do Senhor e o sir­vam de comum acordo” (RSV).

1. Uma linguagem (AV, RV, AA. Literalmente, “uma [série de] palavras”) é preferível a RSV: poucas palavras, embora uma e outra se­jam possíveis (ver o hebraico de Ez 37:17; Gn 27:44 respectivamente). O episódio deu-se logo depois dó dilúvio {cf. 10:5, etc.) ou, de outro modo, limitou-se a um povo particular, se a terra aqui significar “ter­ritório”. (A impressão de que este é um grupo de colonizadores com medo de sofrer ataque (2,4) empresta algum apoio à segunda interpre­tação.)

9. Babel (Babilônia) dava-se a si própria o nome de Bab-ili, “por­tal de Deus” (que pode ter sido uma lisonjeira reinterpretação do seu sentido original). Mas. mediante um jogo de palavras, a Escritura sobrepõe o rótulo mais verdadeiro, bãlal (“ele confundiu”). Na Bíblia, esta cidade veio a simbolizar crescentemente a sociedade ateísta, com suas pretensões (Gn 11), perseguições (Dn 3), prazeres, pecados e su­perstições (Is 47:8-13), suas riquezas e sua eventual ruína (Ap 17,18). Uma de suas glórias foi seu enorme ziggurat, montanha artificial enci­mada por um templo cujo nome, Etemenanki, sugeria a ligação de céu e terra. Mas foram os seus pecados que “se acumularam até ao céu” (Ap 18:5). No Apocalipse ela é contrastada com a santa cidade que des­ce “do céu”, cujas portas abertas unem as nações (Ap 21:10, 24-27).



11:10-26. Rumo ao povo escolhido.

A linhagem escolhida dirige-se agora do velho mundo para o dos patriarcas. Dos nomes presentes em 10:22, somente os antepassados de Héber reaparecem. Daí por diante, a abordagem do desenvolvimento parte de Pelegue, não de Joctã como em 10:25. Contam-se dez ge­rações, talvez para combinar com as outras dez enumeradas de Adão a Noé. Mas no capítulo 10, o crescimento das nações, deixando de lado quaisquer outras considerações, deixa claro que há grandes intervalos entre elas.[1]

A duração da vida vai-se restringindo constantemente[2] do nível antediluviano para os 175 anos de Abraão e os 110 de José. É mais signifi­cativo ainda o fato de que, em vista do nascimento de Isaque, a idade própria para a paternidade e a maternidade vai até um ponto que não está muito acima do nível atual.

11:27-32. Rumo à terra prometida.

Js 24:2 mostra que Terá e seus ascendentes, aos quais deixou, “ser­viram a outros deuses”. O seu nome próprio e os de Labão, Sarai e Milca apontam para o deus-lua como talvez o mais proeminente desses deuses. Sem dúvida Ur e Harã eram centros do culto à lua, o que pode sugerir a razão por que a migração se deteve onde o fez (31). O motivo pelo qual Terá saiu de Ur talvez não seja nada mais do que a prudência (os elamitas destruíram a cidade por volta de 1950 a.C.);[3] Abrão porém, já tinha ouvido o chamamento de Deus (At 7:2-4).

Uma comparação de 31 com 12:5 mostra que Terá, carecendo da visão, desistiu de prosseguir. De Hebreus 11:9,10 se extrai a lição de que somente a fé mantém o curso. Assim, o capítulo leva a história pri­mitiva a um final duplamente adequado, com os esforços próprios do homem resultando em confusão em Babel, e comprometedora transi­gência em Harã. Contando somente consigo, o homem não irá além disto.

32. A idade de Terá ao morrer apresenta uma dificuldade, desde que dá a seu filho mais velho 135 anos de idade (26), enquanto que Abrão era o filho mais novo, nascido sessenta anos depois do mais ve­lho, mas colocado em primeiro lugar na relação de 11:26,27 em razão da sua proeminência (como Efraim, anteposto a Manassés). Outra so­lução é seguir o texto samaritano, que atribui a Terá a idade de 145 anos, por ocasião de sua morte. Esta parece preferível, quando menos porque dificilmente Abraão teria feito a exclamação de 17:17, se o seu pai o tivesse gerado aos 130 anos de idade.






[1] Ver a nota adicional sobre o cap. 5, p. 


[2] Ver coment. de 6:3, e a nota adicional sobre o cap. 5. 


[3] Albright, FSAC2, 1957, p. 236.