31 de julho de 2016

DEREK KIDNER - ABRÃO SOB VOCAÇÃO E PROMESSA (capítulos 12-20)

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B. A FAMÍLIA ESCOLHIDA (capítulos 12-50)

O grande tema destes capítulos é a semente ou posteridade prome­tida e, em menor medida, a terra prometida, à qual o pequeno grupo se apega tenazmente e, no capítulo final, contempla de longe, na certeza do retorno.

A promessa de um filho domina os capitulos 12 a 20 por sua angustiante demora, enquanto Abrão a põe em risco, ora por falta de fibra, ora por falha na esperança (capítulos 12, 16, 20), sustentando-a, porém, pela fé (capítulos 15,17,18). -

Depois do nascimento de Isaque (cap. 21), o interesse se centraliza na tênue linha de sucessão da promessa. Finalmente, a narrativa se mo­ve em direção à fase posterior aos patriarcas, quando Deus conduz a família ao Egito e revela os princípios dos destinos tribais. Ao aproximar-se o fim do livro, o lugar de Israel entre as nações que serão suas vizinhas no transcorrer de todo o Velho Testamento, e sua vocação e perspectiva singular, já foram estabelecidos com clareza, e o palco se abre para os grandes acontecimentos do Êxodo. 



ABRÃO SOB VOCAÇÃO E PROMESSA (capítulos 12-20)

12:1-9. Abrão atende ao chamado

A história da redenção, como a da criação, inicia-se com Deus falando. Isto, em resumo, diferencia a história de Abrão da de seu pais O chamamento para deixar tudo e seguir encontra seus mais próximos paralelos nos evangelhos (que, em alguns aspectos, estão mais perto do padrão patriarcal do que a Lei estava — cf. G1 3), e o primeiro período da história de Abrão é em parte a do seu gradual desembaraçamento do país de origem, dos parentes e da casa do seu pai, processo que não se completou antes do final do capítulo 13.

O chamamento fora ouvido pela primeira vez em Ur (At 7:2-4),[1] e alguns intérpretes censuram Abrão por não ter rompido de uma vez com o pai e o sobrinho. Mas o relato não o tacha de retardatário como a Ló (19:16), e é razoável pensar que ele estava aguardando paciente­mente o tempo de Deus, até que os laços familiares fossem desfeitos de maneira honrosa. Esperar sem renunciar à visão pode ser uma tarefa pesada (exigida de muitos candidatos ao ministério ou à obra mis­sionária). Pelas vias corretas, as instruções se cumpriram, e a ocasião foi celebrada com uma renovação da promessa (13:14).

1-3. A parte de Abrão se expressa numa ordem só, embora penetrantemente completa. Por outro lado, os repetidos futuros verbais re­velam quanto maior é a parte do Senhor. Ao mesmo tempo, a sua futuridade salienta a fé singela requerida: Abrão deve permutar o conheci­do pelo desconhecido (Hb 11:8), e ver sua recompensa naquilo que ele não viveria para ver (uma grande nação), em algo intangível (o nome) e em algo que ele teria de dar (bênção). Gramaticalmente, a última frase do versículo 3 (cf. 18:18; 28:14) pode ser tomada como passiva (AV, RV, RSVmg, “serão benditas”) ou reflexiva (RSV, “bendir-se-ão” ou “abençoar-se-ão”; isto é, “oxalá sejamos eu/vós abençoados co­mo Abrão...”; mas o Novo Testamento, seguindo a LXX, subentende- a como passiva (At 3:25; G1 3:8); na verdade, a LXX faz também a mesma coisa em 22:18 e 26:4, onde o verbo está numa forma que é qua­se sempre[2] [3] reflexiva.

Ser uma bênção para o mundo era uma visão tida sem regularidade no início (ela desaparece no período entre os patriarcas e os reis, fora um lembrete do papel sacerdotal de Israel em Êx 19:5,6). Mais tarde reapareceu nos salmos e profetas, e talvez mesmo em seu período de maior fraqueza sempre infundiu algum senso de missão a Israel. Contu­do, jamais se tornou um programa de ação combinada até à ascensão.

4,5. Sobre a idade de Abrão, ver coment. de 11:32. Sobre a relação entre as migrações de Terá e as de Abrão, ver o parágrafo final do cap. Íleo inicial do cap. 12.

6,7. Siquém, situada no passo que atravessa os montes Ebal e Gerizim, no entroncamento de estradas da Palestina central, ficou marcada como um lugar de tomadas de decisão. Ali os israelitas deveriam reunir- se para fazer escolha de bênção ou de maldição (Dt 11:29,30); ali Josué pronunciaria a sua última exortação (Js 24); e ali o reino de Salomão um dia se dividiria em dois (1 Rs 12) — coisa que deixou traços na co­munidade samaritana ainda sobrevivente nesse local (a moderna Na­blus). O carvalho (não a planície, AV) “de Moré” (“Mestre”) talvez te­nha recebido esse nome da prática de adivinhação {cf. Jz 9:37), e a expressão “o lugar” (AV, “até o lugar de Siquém”) talvez indique a presença de um santuário cananeu, como a setença final dá a entender. Se for este o caso, uma antecipação do gozo de coisas por vir foi que nessa fortaleza de outros deuses o Senhor revelou Sua presença, demar­cou a terra que deu ao Seu servo, e recebeu homenagem formal.

8. Sobre a frase, e invocou o nome do Senhor, ver coment. de 4:26. O feito de Abrão fixou a bandeira, por assim dizer, no coração da terra prometida, e pôs às claras que o mando do Senhor impera em toda par­te. Ele renovava a homenagem quando viajava (8; cf. 13:4,18), e há ên­fase no contraste existente entre armou e edificou (8), no primeiro caso, para si próprio; no segundo, para Deus. As únicas estruturas que deixa­va atrás de si eram altares; nada que lembrasse as suas riquezas.

O nome Ai (sempre com o artigo em hebraico) significa “a ruína”. Parece provável que este (como Betel, cf. 28:19) é nome adquirido (Js 8:28), sendo que o seu nome cananeu original não foi preservado.[4]

9. O sul (AV, RV) é o Neguebe (RSV. AA), atual área árida a su­doeste do Mar Morto, descrita por Nelson Glueck como “uma parte- chave da faixa de terra imensamente estratégica ... que une a Ásia e a África”.[5] Glueck trouxe à luz ampla evidência de que o Neguebe teve boa densidade populacional na época de Abraão. Ele comenta a confir­mação arqueológica da “validade geral das reminiscências históricas da época de Abraão preservadas nos capítulos 12,13 e 14 do Livro de Gê­nesis”.[6]

12:10-20. Abrão no Egito.

É irreal considerar o Egito como necessariamente território vedado ao povo de Deus neste estágio,[7] pois logo deveria ser-lhe cedido como refúgio, e sua presença ali não invalidaria seu direito a Canaã. Abrão tinha de aperceber-se do caminho que devia seguir em seu avanço (8,9) sem contar com revelações especiais a cada passo, como nós guiado em grande parte pelas circunstâncias (cf. Rt 1:1; Mt 12:14, 15). Num período de fome, poderia bem parecer providencial a proximidade do Egito, banhado pelas torrentes do Nilo.

Entretanto, tudo indica que Abrão não parou para perguntar, mas prosseguiu por sua própria iniciativa, levando tudo em conta, me­nos Deus. Seus cálculos covardes e tortuosos são duplamente revelado­res, tanto do caráter aturai deste gigante espiritual (cf. Tg 5:17), como da súbita transição que pode ser feita do plano da fé para o do medo. Emaranhado em sua fraude, viu-se incapaz de recusar seus ganhos dis­cutíveis (16), se é que pretendeu fazê-lo, e incapaz de responder à con­tundente repreensão de Faraó. Contudo, se esta experiência deixa mar­ca em sua nobre resposta ao rei de Sodoma em 14:22, alguma coisa se salvou dela.

Todavia, a maior importância da narrativa está em sua manu­tenção da promessa de terra e povo. É este o verdadeiro tema destes capítulos, com a visão de Abrão constantemente desafiada. Aqui, ao primeiro toque da fome, do medo e das riquezas, perdeu-se a visão, e a empresa toda correu perigo: foram necessárias pragas para reencaminhar Sarai e seu destino (17), e deportação (20) para levar Abrão de vol­ta a Canaã.

10. És minha irmã era tecnicamente verdadeiro (20:12), e E. A. Speiser deu atenção[8] à consideração em que os hurrianos ou horeus (influentes em Harã) tinham a relação esposa-irmã: o marido devia até adotar legalmente sua esposa como irmã para aumentár a própria auto­ridade e a posição do casamento. Mas empregar meia verdade para eli­minar a outra metade é mentira tão patente, que nesta ocasião Abrão nem sequer tentou defender-se.

11. O problema da grande formosura de Sarai é mormente o da sua visível tensão com o restante da narrativa. A esta altura, parece que ela é uma excepcional jovem aos sessenta e cinco anos de idade,[9] ao passo que, quando Isaque nasceu, ela era inquestionavelmente velha aos no­venta. Para tornar as coisas mais difíceis, a história se repete no capítu­lo 20, aparentemente pouco antes do nascimento de Isaque.

A chavé do problema todo está na questão da duração da vida patriarcal, que ainda era aproximadamente o dobro da nossa (isto parece que se devia a uma providência especial Dt 34:7]; não há indicação de que fosse geral). Abraão morreu com 175 anos, e Sara com 127. Jacó viria a achar “poucos e maus” 130 anos de idade. O vigor constante de­les mostra que isso não foi mera posposição da morte, mas uma exten­são de todo o processo da vida. Por exemplo, Abraão, digamos, aos 110 anos no cap. 22, tem a vitalidade de um homem de 70, no máximo. Portanto, é de se presumir que os 60 e tantos de Sarai corresponderiam aos nossos 40 ou 50 anos, e seus 90 anos, ao nascer Isaque, equivale­riam talvez a pouco menos que 60. Aos 90 ela já não podia ter filhos, sem todavia deixar totalmente de lado a idéia de matrimônio. É signifi­cativo também que no cap. 20, diversamente do que se vê no cap. 12, não se faz menção da sua beleza. Para Abimeleque, ela era boa candi­data ao casamento, por sua fortuna e pela aliança que seria solidificada com seu “irmão”, como a posterior tentativa de Abimeleque de conse­guir um tratado com Abraão, quando a idéia de casamento falhou, o sugere em 21:22.

13:1-18. A separação de Ló.

A prova de toda a existência de Abrão, de sua obediência à visão, toma nova forma neste capítulo, na tentação de auto-afirmação contra Ló, e nos atrativos das cidades da planície. Com a terra prometida falhando-lhe novamente (6), desta vez com aquilo que deve ter parecido uma insuficiência permanente, a orientação do senso comum era a de abandoná-la por algo mais produtivo. O fato de que Abrão se elevou na fé nessa ocasião é discernível nos versículos 1-4, que retratam a sua via­gem a Betel como uma peregrinação (notem-se as frases que vão além da pura geografia nos versículos 3,4, e o clímax no vers. 4); uma reno­vação de sua obediência que falhara, e não uma tentativa de retomada da magnificência de uma visão — ele não se dirigiu a Siquém (c/. 12:6,7).

A prova surgiu depois da renovação (como em 12:10; cf. Mc 1:12). O modo pelo qual Abrão agiu face à prova é um modelo de discerni­mento, bom senso e generosidade. O seu lembrete, somos parentes che­gados (AV: “somos irmãos”), isolou o aspecto que importava em face de um mundo estranho (cf. 7), e a sua proposta, sendo altruísta bem co­mo prática, solucionou a tensão imediata, sem criar nenhuma outra fu­tura. Esta sabedoria brotou da sua fé. Pela fé ele já tinha renunciado a tudo; pôde prover a renovação da escolha. Pela fé tinha optado pelo que não se vê; não tinha necessidade de julgar “baseado na visão dos seus olhos”, como o fez Ló (10).

As consequências, quanto aos dois homens, são instrutivas. Ló, es­colhendo as coisas que se vêem, achou-as corrutas (13) e inseguras; es­colhendo egoisticamente, teve de tornar-se cada vez mais isolado e des­prezado. Abrão, por outro lado, achou a liberdade. Com o chama­mento de 12:1 finalmente cumprido, a promessa de “terra” e “semen­te” (AV) foi agora ampliada (14), reiterada (note-se a tríplice expres­são, “tua semente” em 15,16) e, como penhor, tornada palpável (17). Tanto a visão como a ação seguiram-se à fé: sua escolha cega (9) foi re­compensada por estas palavras de Deus: “Ergue os olhos” (14); e o que os seus olhos abrangeram no panorama, os seus passos haveriam de ex­plorar minuciosamente (17). Talvez possamos comparar a seqüência dos versículos 14 e l7 com a de Efésios 3:18 e 4:l.

18. Os “carvalhais de Manre” (cf. coment. de 12:6), uns trinta quilômetros ao sul de Belém, vieram a ser o principal centro dos movimen­tos de Abrão, perto do qual ele ia comprar sua única propriedade, a caverna-cemitério de Macpela. No ínterim, tenda e altar sintetizam o seu modo de viver.

14:1-24. A guerra dos reis, e o encontro com Melquisedeque.

Pela primeira vez, os fatos bíblicos se coordenam expressamente com a história externa. Mas o centro de gravidade continua o mesmo, e se vê Abrão “no” mundo mas não ”do” mundo; pronto para lutar por uma causa justa como bom parente (v. 14) e bom aliado (13, 24), mas vigilante quanto à sua vocação (20-24). É uma instrutiva seqüência ao cap. 13, com a vantajosa parte de Ló rapidamente perdida, mas os escassos recursos de Abrão são eficientes e sua estrutura moral se eleva ainda mais.

O capítulo tem características próprias e marcas de grande antigüidade,[10] sendo que algumas de suas palavras e de seus pormenores to­pográficos “levam-nos de volta diretamente a meados da Idade do Bronze”,[11] [12] isto é, ao princípio do segundo milênio a.C. E. A. Speiser" dá-nos base para considerá-lo um extrato ou adaptação de um docu­mento alheio; se for este o caso, trata-se de um testemunho independen­te em favor da historicidade de Abrão.



1-12. A derrota de Sodoma e a captura de Ló.

O curso dos acontecimentos segue o padrão, muitas vezes repetido no Velho Testamento, de um grupo de diminutos estados desafiando o seu soberano e incorrendo logo em punição.

1. Os nomes soam com tom de veracidade com relação aos seus vários países, mas todas as tentativas feitas para identificá-los com maior precisão têm fracassado. Anrafel, nome semite, não é claro equi­valente verbal de Hamurabi, como se pensava outrora. O nome Arioque é hurriano, ou horeu, Quedorlaomer segue o paradigma dos nomes elamitas, e “Tidal” é mui certamente Tudhalia, nome adotado por vários reis heteus; mas quatro contemporâneos que tinham estes nomes não puderam ser identificados ainda.

2. Das cinco cidades rebeldes, somente a última escaparia da catástrofe do capítulo 19. Os dois primeiros nomes reais são, e com muita propriedade (talvez mudando a sua ordem),[13] compostos de “mal” e “mau”.

3. Preservando o nome e a descrição (10) de um vale daí por diante submerso (como parece)[14] no Mar Morto, o registro dá fascinante evidência de sua antigüidade.

5-7. A minuciosa digressão feita para narrar a ação movida contra estas tribos fronteiriças (cf. Dt 2:10-12,20) sugere enfaticamente que estamos lendo um extrato do registro da campanha dos vencedores, que tinham outras questões para resolver além das de Sodoma.

10. Quanto à descrição do vale, ver coment. do v. 3. Speiser capta a força do hebraico: “Ora o vale de Sidim era um poço de betume atrás do outro”. A região do Mar Morto é rica de minérios, e nos tempos ro­manos o mar era conhecido como Asphaltites, devido aos blocos de be­tume com freqüência vistos flutuando em sua superfície, principalmen­te na área sul. Esses blocos podem ser objetos deveras volumosos.

13-16. Abrão resgata a Ló.

No v. 13, o designativo Abrão, o hebreu, como se estivesse sendo apresentado ao leitor, é outro sinal de que o capítulo era um documento independente. Sobre o termo hebreu, ver coment. de 10:24.

Manre, Escol e Aner somente neste capítulo são revelados como nomes próprios ou, mais provavelmente, como nomes de clãs. Tinham feito uma “aliança”[15] (AV, RV: confederados; RSV, AA: “aliados”) com Abrão mediante juramento, isto é, aliança de lealdade mútua. O v. 24 mostra que eles honraram o seu compromisso.

14. A palavra traduzida por homens dos mais capazes (AV: “his trained servants”, “seus servos treinados”), hamkãw, que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia, veio à luz nos textos execratórios egípcios do período em foco, indicando os membros das forças dos ofi­ciais de comando, exatamente como nesta passagem.[16] Sobre “Dã”, ver a Introdução, p. 16.

15,16. O sucesso de Abrão, obtido com tão pequeno contingente, é visto com ceticismo por von Rad, por exemplo, que parece passar por alto não só os aliados de Abrão (13) mas também a surpresa e a confu­são que, num nível puramente natural, reforçariam um ataque noturno bem planejado (repartidos), possivelmente apenas contra um grupo de escolta na retaguarda (c/. 16) das forças principais. E os recuros in­visíveis de Abrão teriam sido inferiores aos de Gideão?

17-24. Abrão, Melquisedeque e o rei de Sodoma.

Começa para Abrão a batalha mais dura, pois há profundo con­traste entre os dois reis que vieram encontrar-se com ele. Melquisede­que, rei e sacerdote, nome e título expressando a esfera do direito e do bem (ver Hb 7:2), oferece-lhe, para celebração, algo singelo da parte de Deus para satisfazê-lo, pronuncia uma bênção em termos gerais (frisan­do o Doador, não a dádiva), e aceita custoso tributo. Isso tudo só tem sentido para a fé. Por outro lado, o rei de Sodoma faz uma bela oferta em termos comerciais. Sua única desvantagem também só é perceptível à fé. A esses benfeitores rivais, Abrão expressa o seu Sim e o seu Não, negando-se a comprometer a sua vocação.

Tal clímax mostra o que de fato estava em jogo neste capítulo de acontecimentos internacionais. A luta dos reis, as longas fileiras dos exércitos e os despojos de uma cidade constituem a pequena guinada no rumo da narrativa; o ponto crucial é a fé ou a falácia de um homem.

Da distância em que nos encontramos, podemos ver que este julgamento nada tem de artificial. Maior é a dependência disto do que da mais retumbante vitória ou do destino de qualquer reino.

17. Derrota (RSV) é tradução mais precisa do que massacre (AV, RV). Literalmente é “o ferimento” (ver AA: ‘‘ferir”). O vale de Savé (c/. 2 Sm 18:18), evidentemente bem próximo de Jerusalém, foi o cenário, não da batalha, mas do encontro que está para ser descrito.

18,19. Salém é Jerusalém;[17] sobre esse nome, ‘‘paz”, e o de Mel- quisedeque,[18] rei de justiça, ver Hb 7:2. A união do rei e o sacerdote em Jerusalém haveria de levar Davi (o primeiro israelita a sentar-se no tro­no de Melquisedeque) a entoar cânticos sobre um Melquisedeque mais grandioso que havia de vir (SI 110:4).

Deus Altíssimo ‘èl ‘elyôn). O que quer que esse título significasse para os predecessores e sucessores de Melquisedeque,[19] para ele signifi­cava o verdadeiro Deus, em certa medida auto-revelado, como suas pa­lavras subseqüentes mostram. Em todo caso, o dizimo de Abrão (c/. Hb 7:4-10) e a junção que fez o nome Yahweh (Senhor, 22) com a ex­pressão usada por Melquisedeque, Deus Altíssimo, decidem a questão. Este título é empregado freqüentemente nos Salmos.

Possuidor (AV; AA: ‘‘que possui”; RSV: “criador”) deriva do verbo de 4:1 (“adquiri”), e se o sentido básico é “obter”, varia de acor­do com o modo pelo qual se dá a obtenção, significando, por ex., “dar à luz” (4:1), “comprar”, “aprender” e, aqui, “fazer”.[20]



15:1-21. A fé que animava Abrão, e a aliança ratificada.

Até aqui Abrão foi provado principalmente no terreno da seguran­ça (ardente questão para um homem sem abrigo) mediante tensões de ansiedade e ambição. Agora a pressão vai-se formando ao redor de um novo centro, a promessa de um filho, esperança adiada através de mais seis capítulos e uns vinte cinco anos. Mesmo então o nascimento preci­pitará uma crise peculiar no cap. 21, e a prova suprema no cap. 22.

O Novo Testamento acha momentoso este capítulo em dois aspec­tos: primeiro, em sua declaração de que Abrão foi justificado pela fé (6), frase presente no âmago do Evangelho de Paulo em Rm 4 e G1 3; e segundo, em seu registro da aliança — pois esta, antes que a do Sinai, é a aliança fundamental, e fala da graça, não da lei (G1 3:17-22). Para honrar esta promessa Deus tiraria do Egito Seu povo (Êx 2:24), e envia­ria Seu Filho ao mundo (Lc 1:72,73).

1-6 . Esclarecida a fé que movia a Abrão.

Na maioria, os comentadores não admitem nenhuma referência ao cap. 14 (por sua evidente origem separada) nas palavras: Depois destes acontecimentos (1). Mas os acontecimentos desse capítulo seguiram-se convincentemente aos do cap. 13, e a nobre renúncia de Abrão em 14:20-24 dá dupla validade à promessa deste versículo. As intervenções de Deus para reanimar um servo deprimido não são incomuns na Escri­tura e na experiência cristã (cf. 32:1; Jr 45; Jo 9:35; At 23:11).

A linha seguida pela sentença hebraica, e a resposta de Abrão em 2 (que discorda da nota chave de AV, RV), mostram que RSV, AA estão certas nesta tradução da promessa: Eu sou o teu escudo,[21] e teu galar­dão será sobremodo grande. Portanto, a confiança deve ser posta em Deus; a esperança, na promessa. É digno de nota que o objetivo primário da visão não era promover impacto visual, mas comunicar a palavra.

2,3. O hebraico do v. 2 é obscuro,[22] mas o v. 3 explica o sentido de­le, e bem se sabe que entre os horeus[23] um homem sem filho podia ado­tar um herdeiro para garantir um enterro apropriado, ou um devedor podia tomar posse de um empréstimo adotando aquele que lho fez. Os pormenores de nome e lugar dão muita vida à situação de Abrão, e ainda que se deva identificar Eliezer com o excelente servo do cap. 24, não era um filho, nem semente que devesse herdar a promessa. É im­portante ver que, embora não plenamente formada ainda, é a fé, e não a incredulidade de Abrão, que refulge nesta resposta. Um homem de menor estatura teria ficado satisfeito com o calor das palavras de alento do v. 1; Abrão sente-se espicaçado a queixar-se, pois seu coração está posto na visão e vocação original que incluía a promessa de descenden­tes (12:1). Assim, o v. 1 (RSV, AA) é entendido como sendo uma pro­va, e sua impetuosa réplica abre passo para a explícita garantia dos vs. 4 e 5 e a fé esclarecida do v. 6.

4. O Velho Testamento pode falar de um herdeiro legal como “fi­lho” (ex., Rt 4:17), de modo que a enfática expressão: das tuas entra­nhas (AV, RV) resolve agora uma legítima dúvida de Abrão. Outra questão mais, se este filho teria possibilidade de ser obtido por meio de Sarai, seria o próximo desafio à sua fé, consumado no desenrolar das questões íntimas dos capítulos 16 e 17.

5. Somente agora se percebe que a visão foi de noite. Os feitos dos versículos 9-11 deram-se no dia seguinte.

O sinal de Deus, o céu estrelado, não provou nada; não havia essa espécie de sinal. Mas serviu como “palavra visível”, como ponto focal da promessa, algo parecido com o efeito dos sacramentos, pois a expe­riência foi inesquecível. As estrelas não estão em contraste com o pó da terra de 13:16 (alguns fizeram de ambos um paralelo com os filhos espirituais e físicos de Abrão, respectivamente), mas são outra ilustração da mesma coisa. Cf. o paralelismo de 22:17. O Novo Testamento revela que a promessa se cumpriu tanto antes como depois de Cristo, na multi­dão de crentes (ex., Rm4:ll,12; 9:7,8).

6. Esta grandiosa declaração é citada duas vezes por Paulo (Rm 4:3; G1 3:6) e uma vez por Tiago (2:23) para confirmar que a justifi­cação sempre foi pela fé (Tiago acrescenta que a fé deve mostrar-se ge­nuína, 2:18). Esta narrativa e a argumentação de Romanos 4 apresen­tam a fé, não como um mérito culminante, mas, sim, como a dispo­sição para aceitar o que Deus promete. Note-se que a confiança de Abrão era tanto pessoal (no Senhor, AV, RV, AA) como relativa à proposição (o contexto é a específica palavra do Senhor, AV, nos versículos 4,5).

7-21. Esclarecida a promessa fixada numa aliança.

A ênfase é transferida para a outra faceta da promessa: a terra a ser herdada. A pergunta de Abrão: “como vou saber...?” (8, RSV) re­vela a pressão sob a qual estava, pois sua fé não era nada fácil; seu espírito era o de, “Eu creio, ajuda-me na minha falta de fé”; não o da réplica negativa de Zacarias em Lc 1:18, pois Abrão não recebeu ne­nhuma reprimenda, mas somente confirmação. A provisão normal fei­ta por Deus para tal necessidade consiste de “sinais” e “selos” (cf. Rm 4:3,11) para confirmar a palavra falada. Aqui Sua resposta completa é uma aliança formal (v. 18), executada em dois estágios. O primeiro está neste capítulo, uma inauguração de natureza particularmente vivida. O segundo estágio, no cap. 17, foi a dádiva do sinal da aliança, a circun­cisão. Como boa medida, como o indica Hb 6:13,17, para reforçá-la houve no final um juramento, em 22:16.

9,10. O ritual da aliança é semelhante ao de Jr 34:18. Em sua for­ma completa, provavelmente as duas partes interessadas deveriam pas­sar entre os animais partidos para chamar a si o mesmo destino, caso rompessem o seu compromisso. Aqui, porém, a participação de Abrão consiste apenas em compor o cenário e impedir que o violassem (11); ver coment. do v. 17.

11,12. A montagem é sombria em todos os seus pormenores, em, parte, sem dúvida, para salientar que a aliança teria de ser levada a cumprimento em meio às tensões da oposição (11) e mediante grandes atos de julgamento (cf. 13,14). Mas a escuridão, a fumaça e o fogo (12,17), como os do Sinai, proclamam mormente o “terror do Se­nhor”, o impacto da santidade sobre o pecado; cf. Is 6:3-5. Mesmo a Nova Aliança seria inaugurada em meio a trevas e terremoto (Mt 27:45,51).

13-16. Este prenúncio de escravidão tem duplo significado: mostra que se trata de uma disciplina deliberada com o êxito final planejado (notem-se estas palavras memoráveis do v. 14: e depois sairão com grandes riquezas; cf. Hb 12:11); e manisfesta a paciência de Deus para com os habitantes de Canaã. A expressão porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus (16) lança significativa luz sobre a invasão de Josué (e, por inferência, sobre outras guerras veterotestamentárias), como sendo um ato de justiça, não de agressão. Enquanto não fosse “justo” invadir, o povo de Deus teria de esperar, ainda que lhe custasse séculos de oneroso afã. Este é um dos dizeres essenciais do Velho Testamento.

Não há conflito entre o número redondo, quatrocentos anos (13) e a quarta geração (16), visto que geração (heb., dôr) poderia significar “duração da vida”.[24] No contexto patriarcal, um século é-lhe um equivalente conservador. Êx 12:40 dá 430 anos ao período.

17. A fumaça e o fogo (ver coment. de 11,12), como a “coluna de nuvem e de fogo” do Êxodo, constituíram evidentemente uma teofania, ou seja, manifestação de Deus. Simbolicamente, só Ele faz a ali­ança. Salientam-se a Sua iniciativa e a Sua dádiva, como esclarece o v. 18, em contraste com a aliança tipo contrato de, digamos, 31:44. Esta ênfase persiste através da Escritura inteira; ver especialmente Hebreus 9:15, onde o sentido oscila entre o de “aliança” e o de “testamento”.[25]

17-21. Somente no reinado de Davi os limites do v. 18 foram atin­gidos, e neste caso como império, não como pátria. A lista de povos, desde os queneus e quenezeus, logo absorvidos pela família de Israel, até os jebuseus, subjugados por Davi, juntamente com a cidadela de Je­rusalém que lhes pertencia, indica a diversidade de grupos que habita­vam na terra nesse tempo, diversidade atestada por fontes contemporâ­neas. Para mais pormenores, ver O Novo Dicionário da Bíblia; quanto ao cumprimento da promessa, ver 2 Cr 8:7,8.

16:1-6. O nascimento de Ismael.

Este capítulo marca outro estágio no processo de eliminação de to­dos os meios, exceto o milagre, com vistas ao nascimento prometido. É uma ironia que, depois das alturas atingidas nos dois últimos capítulos, Abrão houyesse de capitular ante a pressão doméstica, mostrando-se maleável sob o plano e a censura de sua mulher, e rápido em lavar as mãos quanto ao resultado. Entrementes, o Senhor, “em quem não po­de existir variação”, vela pela pessoa e classe desprezada, e “põe em ação a Sua vontade soberana”.

1-3. Os costumes sancionaram este modo de obter filhos[26] (embora a presente narrativa e cap. 30 dêem prova da sua insensatez), e se deve ter em mente o fato de que tais filhos foram incluídos na família de Jacó, aceitos como membros com plenos direitos e chefes de tribos. Abrão talvez tenha raciocinado que a promessa poderia cumprir-se daquela maneira, e o fato de que já se haviam passado dez anos em Canaã (3) pode ter aumentado a pressão sobre ele, a fim de que agisse.

Por isso tudo, deslizou na fé para deixar-se guiar pela razão e pelo conselho de Sarai (2), e não do Senhor (cf. Mt 16:22). O Novo Testa­mento assemelha o filho de Hagar, nascido “segundo a carne”, aos produtos dos esforços próprios do homem quanto à religião (G1 4:22), sempre incompatíveis com os do espírito (G14:29).

2. Obter filhos (AV) é literalmente, “ser edificada” (c/. Pv 24:3; AA: “me edificarei”).

4-6. Cada uma das três personagens exibe a inverdade, que faz par­te do pecado, com falso orgulho (4), acusação falsa (5), e falsa neutrali­dade (6). Mas logo caiu a máscara de Sarai (6), mostrando o ódio atrás do palavrório sobre justiça.

16:7-16. Hagar e o anjo.

7-9. Hagar ia indo para o Egito, sua terra natal (o deserto de Sur fi­cava junto da sua fronteira do nordeste), e possivelmente viajara alguns dias, para ter chegado nas vizinhanças de Cades (14). Mas a sua sorte agora estava lançada com Abrão, e a exigente bondade de Deus a manteve assim (9,15).

10-12. Semelhantemente, a palavra de Deus para consolá-la em sua aflição (11) foi de efeito estimulante, e não calmante, dirigindo sua mente para as coisas futuras, afastando-a das ofensas passadas. O no­me Ismael (“Deus ouça” ou “Deus ouve”; ver coment. de 17:19) evo­caria sempre este encontro e este oráculo. Para a mente de Hagar, fal­tando a perquiridora fé característica de Abrão, a promessa bem po­deria oferecer-lhe tudo o que ela podia desejar, conquanto não dissesse nada sobre bênção para o mundo ou sobre terra prometida. Bastava-lhe que Ismael se multiplicasse, e que não estivesse sob as ordens de nin­guém. Em certa medida, este filho de Abrão seria uma sombra, quase uma caricatura de seu pai, sendo os seus doze príncipes notáveis em seu tempo (17:20; 25:13), não porém na história da salvação; sua existência inquieta não sendo peregrinação, mas, sim, um fim em si mesma; seu inconformismo sendo um hábito mental, e não uma luz para as nações.

Na última frase do v. 12 há um double entendre çaracterístico de tais oráculos sobre destino (ver nota de rodapé do coment. de 3:15), pois tanto pode significar localização como hostilidade (literalmente, “à, ou contra a, face de”), e ambos os sentidos deviam aplicar-se bem a esses primos de Israel dos quais pretendem descender os árabes atuais. A expressão se repete em 25:18.

13,14. Agora se torna manifesto que o anjo do Senhor é o próprio Senhor[27] (c/. 18:1; Êx 3:2,4; Jz 6:12,14; etc.), e as palavras de Hagar refletem o temor que sentiu por esse fato. Deus como visto, mais do que como vendo, é que constitui o tema dos dois versículos, que jogam com a raiz rã’â, “ver”. As palavras de Hagar dizem literalmente: “Tu és Deus de vista” (r°’í', “aparência”; isto é, “um Deus visível”; cf. 1 Sm 16:12, sobre a “aparência” de Davi), seguidas de “Não olhei eu neste lugar para aquele (ou para as costas daquele)[28] que me vê?” (rõ’í', isto é, “o que me vê”, como AA; cf. Jó 7:8).

Na tradução dada por RSV, Vi de fato a Deus e continuei viva de­pois de vê-lo?, cada palavra depois de “de fato” representa uma alte­ração ou uma inserção no hebraico, embora expresse emoções seme­lhantes às do texto recebido. A reação de Jacó em Peniel foi igual (32:30); a santidade já era um fato bem compreendido.

Beer-Laai-Roi significa literalmente, “o poço do vivente, meu observador”. Assim, o nome celebrava o elemento permanente, e não o fator transitório da experiência.

15-16. O epílogo salienta a responsabilidade de Abrão por Ismael, que o regresso de Hagar tornou explícita; responsabilidade ademais re­conhecida no capítulo seguinte.



17:1-27. A aliança reafirmada e selada.

Os dois estágios da elaboração da aliança, nos capítulos 15 e 17, não só provaram a fé que animava Abrão pela longa demora, mas também puseram à mostra os dois lados de uma só transação. O cap. 15 fixou o esquema básico da graça e da fé correspondente; nada se pediu a Abrão, senão isto: crer e “ter confiança”. Agora surgem as impli­cações, em profundidade e em extensão: em profundidade, pois a fé de­ve demonstrar-se em total dedicação (1); em extensão, pois todos os envolvidos devem ser selados, um por um, nas gerações por vir (lOss.). Portanto, os dois capítulos juntos divulgam a participação pessoal e a coletiva; a fé interior e o selo externo (cf. Rm 4:9,11); a justiça imputa­da e a devoção expressa (15:6; 17:1).

1-3. Prelúdio.

Esta abertura não é transação mútua; trata-se das condições pelas quais Deus pode dar, em vez de receber, tudo que deseja (na verdade o v. 2 começa, literalmente: “para que eu dê /ou conceda/ ...”, pois Ele não quer relações distantes ou de corações divididos.[29]

Um nome especial de cada parte interessada (1,5) assinala a oca­sião, como posteriormente um desdobramento do nome de Yahweh co­memoraria o encontro junto à sarça ardente (Êx 3:14; 6:3). “Deus Todo-poderoso” é a tradução de El Shaddai (’êl sadday), como o en­tende a LXX. A análise tradicional do nome é: “Deus (’êl) que (sa-) é suficiente fdayj”. Mais recentemente se identificou Shaddai com “montanha”[30] (c/. o termo “rocha” comumente usado no Velho Tes­tamento com referência a Deus); mas não há acordo universal. Melhor guia é o estudo do seu emprego, e este confirma a ênfase costumeira ao poder, particularmente em contraste com a fragilidade do homem (é título favorito em Jó). Em Gênesis tende a combinar-se a situações em que os servos de Deus estão deprimidos e necessitados de restabeleci­mento da certeza.[31]

O prostrar-se de Abrão diante de Deus (3;cf. v. 17), em contraste com a arrogância de Adão, reconheceu a condição básica senhor-servo da aliança. Isso fez a questão lançar raízes na verdade; em solo tal o relacionamento poderia crescer até atingir sua plena estatura na categoria de amizade (Tg 2:23).

4-8. As promessas (“Quanto a mim...”). .

A RV preserva a estrutura com as expressões Quanto a mim... Cani, 4), E quanto a ti... (w*‘attâ, 9). Materialmente, a promessa de ter­ra continua inalterada, mas nações e reis entram na perspectiva, e Gê­nesis irá falar do seu surgimento, incluindo os midianitas (25:2), os ismaelitas (25:12) e os reis e Edom e de Israel (36:31). Além desses, porém, o Novo Testamento pôde ver a multidão de cristãos nas “mui­tas nações” (Rm 4:16,17). O nome “Abraão” sugere uma fusão dos dois elementos originais, ’Ab (pai) e rãm (alto) com parte de um tercei­ro: hamôn (multidão).

Espiritualmente, a essência da aliança é pessoal, como o “Aceito” de um casamento; assim, a promessa: serei o seu Deus (8; cf. 7) sobre­puja em muito os benefícios particulares. Esta é a aliança.

9-14. As estipulações (“E quanto a ti...”, RV).

O traço notável das estipulações é sua falta de pormenores. Rece­ber a incumbência foi tudo. A circuncisão foi o ferrete de Deus; as im­plicações morais poderiam ser deixadas sem registro escrito (até o Si­nai), pois o compromisso era para com um Senhor, e só secundaria­mente com um modo de vida.

A circunscisão mesma era largamente praticada no Oriente Próximo. Os filisteus do oeste eram considerados estranhos por não praticá-la. A característica nova era seu novo significado — assinalar o limiar, não da virilidade (como entre os árabes modernos), mas da ali­ança; daí sua precoce ministração (12). Implicava em compromisso com o povo de Deus (14) e com Deus (Jr 4:4); também veio a simbolizar a rejeição dos meios pagãos (Js 5:9) e da obstinação natural do homem (Dt 10:16; cf. Cl 2:11,12). Note-se que a aliança foi aberta para os gen­tios (12,13), mas estes tinham de pertencer totalmente à comunidade (cf. Êx 12:45).

15-22. Sara com novo nome por sua participação.

Parece que Sarai e Sara são apenas uma forma antiga e outra mais nova da mesma palavra, “princesa”. Mas o fato de se lhe dar nome de novo constituiu um marco e a introduziu na promessa por seus próprios direitos (vs. 16,19).

17,18. O riso de Abrão, a julgar pela réplica de Deus e por Rm 4:19, foi uma primeira reação incrédula; bastante real, como se vê da sua gentil tentativa de conduzir Deus a um caminho mais razoável (18), mas aberta para a correção. Deus nunca trata com dureza esses legíti­mos conflitos da fé (ver coment. de 15:8) — e a dúvida de Abraão foi esplendidamente temperada pela fé e pelo amor na oração por Ismael.

19,21. O nome Isaque, como Ismael, Jacó, Judá, José, é do tipo comum na época, expressando na maior parte dos casos uma oração como: “Deus ouça” (Ismael), “Ele proteja” (Jacó), etc. Se analoga­mente Isaque significava “Ria-se (dele)”, para aqueles que estavam a par do segredo falava do riso, da promessa e do milagre que fizeram que o se nascimento fosse único e que a aliança fosse entendida como predestinada, sem dúvida nenhuma. Ver também coment. de 21:6.

20. O absoluto direito de escolha que a Deus pertence confronta- nos por toda parte nestes capítulos {cf. Rm 9:9), mas Ele tinha outras bênçãos, além das reservadas para Israel, e outros eventuais herdeiros da aliança, além daqueles que a transmitiram historicamente {cf. Rm 9:24). Havia honra para Ismael adequada à sua capacidade (ver co­ment. de 16:10ss.). Os tempos verbais do v. 20, incidentalmente, podem lançar luz sobre a oração, a resposta e o cumprimento.

22. É Deus que encerra a conversação, como foi quem a iniciara, fato que será particularmente assinalado e significativo na passagem intercessória de 18:16.

23-27. Circuncidados Abraão e os de sua casa.

Os versículos 26,27 expõem a principal enfase do parágrafo, ênfa­se que recai na diversidade dos homens quanto à idade, posição e expe­riência espiritual, sendo que a referência é aos homens reunidos na mes­ma aliança. Para Abraão, ela selou uma antiga transação (Rm 4:9-12); para os demais foi uma repentina introdução (aquele mesmo dia, 26, RSV: cf. AA) numa ligação com Deus e uns com os outros, cujas impli­cações devem ser agora captadas e vividas. No sentido em que o pente­costes é o natalício da igreja, este é o natalicio da igreja do Velho Testa­mento.

18:1-15. A visitação a Abraão.

O encontro ao meio-dia neste capítulo, e a cena noturna em Sodoma no próximo, são, em todos os sentidos, um contraste como de luz e trevas. O primeiro, serenamente íntimo e impregnado de promessa, é coroado pela intercessão em que a fé e o amor de Abraão mostram no­va amplitude de interesse. A segunda cena é toda confusão e ruína, mo­ral e física, terminando numa sordidez detestável ainda mais horrorosa do que a tremenda destruição das cidades.

Nos versículos 1-15 nada se acrescenta a promessa de 17:15ss. O que é novo é o seu cenário, bem como o desafio à fé pessoal de Sara — pois ela devia ser levada à participação confiante. Nos versículos 12-15 se pode ver como era necessário esse desafio; e em Hb 11:11, como Sara foi bem sucedida.

1,2. Comentadores cristãos há que têm sido tentados a discernir aqui as três Pessoas da Trindade. Mas a passagem estabelece nítida dife­rença entre o Senhor e os Seus dois companheiros (ver v. 22, e 19:1). Cf. Coment. de 16:13,14.

1- 8. As honras quase reais dadas a um visitante casual — as calorosas boas-vindas, conquanto numa hora tão inconveniente (era a sesta do meio-dia, 1), a certeza de que sua chegada é uma honra (3), até mes­mo um ato providencial[32] (5, AV), e a lauta refeição, oferecida em ter­mos autodeprecistivos como um bocado de pão (5) — caracterizam ain­da a hospitalidade dos beduínos, incluindo até, em alguns casos, a insis­tência do hospedeiro em ficar de pé (8) até os seus hóspedes terem ter­minado.[33] O leitor pode ver quão apropriada foi, além de toda a imaginação, esta deferência. O Novo Testamento prossegue, mostrando que aqui há mais do que mera coincidência (cf. Hb 13:2; Mt 25:35).

9-15. Sara o estava escutando; RSV e AA acertadamente preser­vam o particípio, um toque vivido. Sua zombaria sugere, ou que Abraão não lhe tinha falado ainda da promessa (17:16,19), ou que não tinha conseguido convencê-la. A repreensão que Deus lhe passou, quando, na mesma situação, fora gentil com Abraão (17:17,19), aponta mais para a última, isto é, que Sara estava persistindo na descrença, e não apenas reagindo com espanto. Seu comentário puramente sensual (12) fortalece a impressão de que o seu interesse pela aliança e pela pro­messa ainda era superficial. Não obstante, provocou um dos grandes pronunciamentos da Escritura (14), pronunciamento que mais tarde veio a ser o ponto de partida de um penetrante colóquio sobre a onipo­tência (Jr 32:17,27), e foi retomado em Zacarias 8:6 (hebraico).

18:16-33. Abraão intercede por Sodoma.

A iniciativa desta grande intercessão foi de Deus, no sentido de que Ele levantou o assunto (17), esperou a defesa de Abraão (22, ver comentário), e escolheu o ponto em que a questão terminaria (33). Sob a superfície, também o espírito de amor e justiça de Abraão derivara de Deus, tão certo como contendeu com Ele. Mas era dele mesmo. Seu expediente e sua tenacidade mostram que o dom se arraigara e crescera; ele não era homem de dizer amém a tudo, mas um verdadeiro parceiro.

17-19. A pergunta: Ocultarei...! prova que Abraão é “amigo” de Deus (Is 41:8), pelo próprio critério do nosso Senhor (Jo 15:15), e a ex­pressão: eu o conheci (19, RV) torna a salientá-lo; virtualmente signifi­ca: eu o fiz meu amigo.

O v. 19 mostra com particular clareza como a graça e a lei traba­lham juntas, pois começa com a graça (eu o conheci; AA: eu o escolhi) dirigida para a firme disciplina da lei (ordene ... caminho ... a justiça e o juízo) pela qual a graça pode eventualmente atingir a sua meta (para que o Senhor faça vir ... o que prometeu, RVS). É também um revela­dor comentário da responsabilidade paterna, em harmonia com 17:11; cf. 1 Timóteo 3:4,5.

20,21. O clamor de Sodoma (AV, RV, AA) pode significar o brado contra ela (RSV), ou simplesmente o mal gritante do lugar. A expressão reaparece em 19:13. Despido do seu colorido arrojado, este pronunciamento do Senhor declara o Seu julgamento bem ponderado e perfeita­mente informado. Ele dá sólido fundamento para a exclamação de Abraão em 25.

22. Há boa razão para inverter os papéis na última sentença, lendo-se: “porém o Senhor permaneceu ainda na presença de Abraão”,

pois o texto usual é catalogado pelos massoretas como correção feita por algum escriba (para evitar a imaginária irreverência do original). Num ou noutro caso, se Deus espera pela palavra de Abraão, ou se es­pera enquanto este fala, a passagem toda exibe a Sua acessibilidade a tal servo. Ver também coment. de 18:1.

23-33. Seria fácil dizer que esta oração se aproxima de um rega­teio, mas a palavra certa é “exploratória”: Abraão apalpa o caminho a percorrer com espírito de fé (sôberbamente expresso em 25, onde capta ao alcance e a retidão do governo de Deus), de humildade, em toda a sua maneira de dirigir-se, e de amor, demonstrado em seu interesse pela cidade inteira, não somente por seus parentes.

Esta é a segunda interferência de Abraão em favor de Sodoma (cf. 14:14). Antecipa a bênção que o mundo inteiro haveria de usufruir por meio dele (12:3), e algo da dávida de si mesmo que constitui necessariamente o meio dessa bênção. Moisés leva esta auto-entrega ainda mais longe, em testamento (Êx 32:32), e o Servo divino, de fato (Is 53:12).

19:1-29. A visitação a Sodoma.

No desenvolvimento da narrativa, dois temas em contraponto com Abraão e a Promessa — o tema de Ló, o justo sem espírito de peregri­no, e o de Sodoma, o imorredouro exemplo de promessa, insegurança (cap. 14) e decadência terrenas — são agora examinados até à sua con­clusão. Por um golpe de mestre a narrativa mostra Abraão, que sobre­viverá aos servidores ocasionais, a postos em seu local de intercessão (27), testemunha silenciosa da catástrofe que lutara para impedir. É um soberbo estudo dos dois aspectos do julgamento: o aspecto cataclísmi­co, quando as cidades desaparecem na chuva de fogo e enxofre, e o gra­dual, quando Ló e sua família chegam aos últimos estágios da desinte­gração, acabando nas próprias mãos dos seus libertadores.

1. Os dois anjos se distinguem claramente do Senhor; ver o v. 13, e o coment. de 18:1. Quanto a Ló, seu lugar à entrada da cidade (cf. 34:20) anunciava-o como homem de posição em Sodoma, embora pou­co apreciasse os seus costumes (2 Pe 2:7,8). Seu fracasso público deve ser contrastado com a carreira influente de José e Daniel, cujo alto car­go foi uma vocação; aí está a diferença.

2,3. A alarmante insistência de Ló em 3 revela que ele conhecia a sua Sodoma; os acontecimentos daquela noite foram uma boa amostra. Os pães asmos, que são feitos rapidamente, mostram que essa não foi uma festa repousante como a do cap. 18 (cf. Êx 12:39); já há uma idéia de pressa, que vai crescendo rumo ao clímax.

4,5. Neste ponto inicial da Escritura, o pecado de sodomia é estigmatizado como particularmente odioso. A lei haveria de fazer dele um crime capital, incluído ao lado do incesto e da bestialidade (Lv 18:22; 20:13), e o Novo Testamento se mostra igualmente espantado quanto a isso (Rm 1:26,27; 1 Co 6:9; 1 Tm 1:10).

Sobre uma tentativa de reinterpretar a narração, ver a nota adicio­nal, p. .

6-8. Que uma virtude pode envaidecer-se virando vício fica bem patente aqui, pois a coragem de Ló, saindo para enfrentar a turba, pro­va a sua sinceridade, e a proposta parecida em Jz 19:24 revela a mesma escala de valores. Isto nos dá a noção de que em qualquer era as con­venções humanas serão sempre um guia por demais falível.

9-11. Fazendo o melhor que pôde, Ló arriscou suas filhas, enfure­ceu os seus conterrâneos, e finalmente precisou ser libertado por aque­les que estava tentanto proteger. A visita dos anjos destroçou a penosa paz em que vivera durante tanto tempo. A palavra rara empregada com o sentido de “cegueira” provavelmente indica um estado de ofuscação,[34] como o de Saulo no caminho de Damasco. A mesma pala­vra reaparece em 2 Rs 6:18, também num contexto de anjos.

12-14. A solidariedade da família (cf. 7:1; 9:1; 17:9; 18:19) e a liberdade dos membros para desafiá-la são ambas vividas realidades aqui. Sem dúvida, o fracasso de Ló, não conseguindo impressionar os seus futuros genros,[35] reflete a sua personalidade; mas igualmente refle­te a deles. A turbamulta de Sodoma não tivera ouvidos para qualquer apelo (9); os mais íntimos companheiros de Ló não os tiveram para qualquer advertência. Esta era a índole da cidade; nem mesmo a te­merária visita noturna pôde ser levada a sério.

Sobre o clamor deles (13, RV), ver coment. de 18:20.

15-23. As dores do “presente mundo mau”, mesmo com relação àqueles que o amam com má consciência, mostram-se vigorosamente nesta luta dos minutos finais. A exortação: “Lembrai-vos da mulher de Ló” (Lc 17:32), dá-nos razão para ver-nos a nós mesmos no moroso e arguto Ló, maneirosamente conseguindo uma derradeira concessão en­quanto é arrastado para lugar seguro. Nem mesmo o enxofre fará dele um peregrino; para que a vida lhe seja suportável, terá de ter sua peque­na Sodoma (20).

Contrariamente a isto levanta-se a paciente misericórdia de Deus, guiando como pastor mesmo os extraviados para a segurança (note-se o vers. 22; cf. 2 Pe 2:7-9; 1 Co 3:15). Ver também outro fator expresso no v. 29.

23-26. Os ingredientes naturais da destruição (ver coment. de 14:3,10) eram abundantes nessa região de petróleo, betume, sal e enxo­fre; mas sua natureza foi a de um julgamento, não de uma desgraça ca­sual. O fato de a mulher de Ló ficar soterrada quando os materiais der­retidos choveram sobre ela, não é fisicamente espantoso. Mas no con­texto do julgamento, capta num só quadro o destino daqueles que dão as costas (c/. Hb 10:38,39; Lc 17:31-33).

27-29. A cena, quando Abraão vai de madrugada para o seu van­tajoso posto de observação para defrontar-se com a terrível resposta, não somente mostra os contornos panorâmicos da narrativa, após sua concentração numa só casa de família, mas também mostra o julga­mento contra o seu verdadeiro pano de fundo da longanimidade de Deus e da intercessão do homem. Firma-se o mesmo fundo de cenário quanto à salvação de Ló neste conciso resumo: ‘‘lembrou-se Deus de Abraão, e tirou a Ló...” (29).

19:30-38. Epílogo: Ló e suas filhas.

A intranquilidade do medo tem exemplo clássico na atitude de Ló para com Zoar. O medo o levara para lá (19); o medo cego o tira de lá. Pusera de lado o chamamento, e agora a garantia dada por Deus (17,21).

A caverna de Ló (30) é amarga sequela da casa (3) que empequenecera a tenda do seu tio, e o pequeno trio é patético, depois da prolifera multidão de 13:5. O fim da decisão de esculpir a sua própria carreira foi perder até mesmo a proteção do seu corpo. Seu legado, Moabe e Amom (37s.), estava destinado a contribuir com a pior sedução carnal ocorrida na história de Israel (a de Baal-Peor, Nm 25) e com a mais brutal per­versão religiosa (a de Moloque, Lv 18:21). Tal foi o fruto de uma esco­lha feita por autoconsideração (13:10), e da persistência nela.

NOTA ADICIONAL: O PECADO DE SODOMA

Num livro influente, Homossexuality and the Western Christian Tradition (Longmans, 1955), D. Sherwin Bailey nega que o verbo “co­nhecer” em Gn 19:5 e em Jz 19:22 tenha conotação sexual (ver o texto hebraico; cf. AV, Tradução Brasileira e SBB, Edição Revista e Corrigi­da). Baseia a sua negação em: (a) estatística (achando apenas quinze exemplos de “conhecer” no sentido sexual no Velho Testamento, con­tra mais de novecentos em seu sentido primário); (b) psicologia (obser­vando que o intercâmbio, como caminho para o conhecimento pessoal, “depende da diferenciação e da complementação dos sexos, e não meramente da experiência sexual física, como tal”);[36] (c) conjetura (desde que, tanto Ló como o hospedeiro de Jz 19 eram gêrím, moradores tem­porários, “não é possível que Ló ... tenha-se excedido quanto aos direi­tos de um gSr ... recebendo dois ‘forasteiros’ ... cujas credenciais, ao que parece, não tinham sido examinadas?”).[37]

Segundo esse modo de ver, o protesto de Ló foi contra a descorte­sia de exigir aquelas credenciais. A iniqüidade geral de Sodoma (descri­ta em Ez 16:49, RV, como “soberba, fartura de pão e próspera tranqui­lidade”[38] ficou suficientemente provada para os anjos por esse “motim desordenado ... e ... grosseira demonstração de falta de hospitalida­de”.[39]

A isto podemos responder: (a) A estatística não substitui a evidên­cia contextual (doutro modo, o sentido mais “raro” de uma palavra nunca pareceria provável), e em ambas as passagens a exigência de “co­nhecer” os hóspedes é refutada com um oferecimento no qual a mesma palavra “conhecer” é empregada em seu sentido sexual (Gn 19:8; Jz 19:25). Mesmo deixando de lado esta conjunção verbal, seria grotesca­mente inconseqüente que Ló respondesse a uma solicitação de creden­ciais com o oferecimento das filhas, (b) A psicologia pode sugerir como “conhecer” adquiriu seu sentido secundário; mas em realidade o uso da palavra é completamente flexível. Não há quem opine que em Jz 19:25 os homens de Gibeá estiveram obtendo “conhecimento” de sua vítima no sentido de relação interpessoal, apesar de que a palavra em­pregada com referência a eles é “conhecer”, (c) A conjetura aqui tem as características de uma argumentação singular, pois substitui uma ra­zão grave por uma razão trivial (“motim ... falta de hospitalidade”) para a decisão dos anjos. Isto à parte, o argumento é silenciado por Jd 7, pronunciamento que o dr. Bailey tem de enfraquecer como perten­cente a um tardio estágio da interpretação.

Foi preciso discutir o ponto de modo assim tão completo porque a dúvida produzida pelo Dr. Bailey tem percorrido muito mais vasto es­paço do que as razões criadas por ele para essa dúvida. Pode-se sugerir que nenhuma dessas razões resiste a qualquer exame sério.

20:1-18. Abraão engana a Abimeleque.

Depois dos seus esforços espirituais, a reincidência de Abraão no planejamento sem fé, como noutros momentos de anticlímax (ver coment. de 12:10 e do cap. 16), leva consigo a sua própria admoestação. Mas o episódio é principalmente de intensa expectativa. À beira da história do nascimento de Isaque, aqui está a própria promessa posta em perigo, dada em troca de segurança pessoal. Se há de cumprir-se al­gum dia, muito pouco se deverá ao homem. Moralmente, bem como fi­sicamente, é evidente que terá de ser realizada pela graça de Deus.

Especialistas em crítica consideram esta narrativa uma duplicata de 12:10ss., sobre a base última de que um homem não pode repetir uma falta desta espécie. Mas é mais fácil ser coerente em teoria do que sob o temor da morte. De qualquer forma, o v. 13 mostra que Abraão tinha feito dessa precaução a sua política. Ver a Introdução, II, b. 3; p. 20s., e o coment. de 26:11. 

1. A expressão usada para o sul (ÃVJé o Neguebe (RSV, AA); ver coment. de 12:9. A primeira metade do versículo fala da área geral das migrações de Abraão; a última sentença leva-nos para o corpo da história subseqüente, dada num lugar um pouco ao norte, na direção de Gaza.

2. “Abimeleque” (“o rei [Deus] é meu pai”) era provavelmente um título real. Há um Abimeleque posterior no cap. 26, e o rei Aquis tem esse nome no título do SI 34. Sobre o fato de tomar Sara, em sua idade, ver coment. de 12:14.

3- 6. Os vocábulos, morais (AV), reta, integridade, pecar, etc., são evidentemente empregados aqui em sentido estrito, o que lança al­guma luz incidental sobre as enfáticas alegações de inocência em certos Salmos.

7. Numa religião pagã, a santidade de um profeta acercava-se mais da magia do que da moralidade (c/. Nm 22:6). Assim o leitor pode ver melhor do que Abimeleque quão abaixo de suas prerrogativas Abraão tinha caído ao falar enganosamente, e pode comparar o vexa­me desta intercessão forçada com a glória da oração por Sodoma. Pode notar também como Deus luta pelos Seus servos, recobrando Abraão de sua loucura pouco depois de haver recuperado Ló.

8-13. As três perguntas de Abimeleque nos vs. 9,10 esclarecem que Abraão só se tinha indagado a si próprio: “O que isto fará por mim?”, omitindo as reflexões: “o que isto lhes fará?”, “O que merecem eles?” e “Quais são os fatos?” (O que viste?, 10, AV, RV). O final de ? pode­ria ser simplesmente traduzido: “... coisas que não se fazem”; ele ti­nha afrontado as mais elementares leis da hospitalidade.

A resposta de Abraão confessa um padrão de decisão que, na essência, é o de todo homem com sua falibilidade nas esferas dos fatos

(11), dos valores (a casuística do v. 12) e dos motivos (a covardia do v. 13). A confissão é manchada por uma tentativa de empurrar para ou­trem a culpa, como Adão, no v. 13, que diz literalmente: quando /os/ deuses me fizeram vagar ...”[40] É a linguagem e a tortuosa atitude do pagão; podia ser um homem do mundo falando com outro.

Sobre a relação “irmã ... mulher”, ver o coment. de 12:13. Quan­to ao sentido de em todo lugar (13), com referência à primeira queda de Abraão, ver as notas introdutórias deste capítulo.

14-18. Os pródigos presentes dados por Abimeleque demonstra­ram o seu respeito pelo poder manipulado por Abraão, de cuja interces­são ele precisava ainda (ver 17,18), e devem determinar o sentido do difícil v. 16. Portanto, o desprezo expresso em AV é errôneo. Deve-se ler como em RV: isto é ... uma cobertura para os olhos...', quer dizer: “isto impedirá toda a crítica” (RSV: é a sua vindicação...). O verbo fi­nal, segundo seu uso comum, significaria reprovada (AV), pode signifi­car provada, como em Jó 13:15, e mesmo aprovada (Gn 24:14). Daí RV, RSV, AA: justificada. Ao oferecer a compensação (c/. AA), Abi­meleque reconheceu o seu erro (conquanto a expressão teu irmão sa­lientasse de novo a sua inocência), e ao aceitá-la, Abraão deu a coisa por liquidada.






[1] Daí o mais-que-perfeito de AV na passagem em foco (“ dissera” ). Normalmente 

esta construção hebraica significa simplesmente “ dizia” — que pode indicar um cham am 

ento repetido. Mas pode estar “ am pliando a narrativa precedente tom ada como um todo, 

não pretendendo ser apenas a continuação, cronologicamente falando, do seu estágio 

de conclusão” (S. R. Driver, H ebrew Tenses 3 [Oxford, 1892], p. 82). Cf. o sentido do 

mais-que-perfeito de Is 37:5; Zc 7:2, por exemplo. 


[2] Daí o mais-que-perfeito de AV na passagem em foco (“dissera”). Normalmehte esta construção hebraica significa simplesmente “dizia” — que pode indicar um chama­mento repetido. Mas pode estar “ampliando a narrativa precedente tomada como um to­do, não pretendendo ser apenas a continuação, cronologicamente falando, do seu estágio de conclusão” (S. R. Driver, Hebrew Tenses 3 [Oxford, 1892], p. 82). Cf. o sentido do mais-que-perfeito de Is 37:5; Zc 7:2, por exemplo. 


[3] Ver, porém, o hebraico de Pv 31:30; Ec 8:10 (G-K, 54g). 


[4] Cf. E. F. Campbell, BA, XXVIII, 1965, p. 27. 


[5] BA, XXII, 1959, p. 84. 


[6] Art. cit., p. 88. Ver também BA, XVIII, 1955, p. 2-9. 


[7] Até as palavras topográficas “abaixo” e “acima” (12:10; 13:1; AV; AA: “des­ceu”, “saiu”) são tratadas como termos morais por alguns expositores! Talvez se deva esse habilidoso arranjo a passagens como 19:30; 1 Rs 22:20; etc. 


[8] Genesis, p. 91. 


[9] Isto ê, dez anos mais nova do que Abraão (17:17); cf. 12:4. Talvez mais que dez anos. Ou sua idade em 17:17, ou a de Isaque em 25:20, é dada em números redondos. 


[10] Uma geração mais antiga de criticos considerava-o como um documento recente, opinião hoje raramente defendida, à luz dos crescentes conhecimentos arqueológicos. 


[11] W. F. Albright, The Archaeology of Palestine (Pelican, 1949), p. 236. 


[12] Genesis, p. 108. 


[13] Cf. a comum mudança de —baal para —bosheth “vergonha” em nomes; exem­plos: 2 Sm 2:8; 1 Cr 8:33. 


[14] Isso carece de prova. Nos tempos do Velho Testamento, provavelmente só o cam­po de batalha da baixada estava submerso ainda, pois há sinais de que a rasa extensão sul do Mar Morto (localização mais provável) ampliou-se, mormente a partir da época dos romanos. Ver, resumidamente, NDB, p. 1288s., 1522, mais completamente, J. P. Har- land, BA, V, 1942, p. 17-32; VI, 1943, p. 41-54; IBD, IV, p. 395-397. Contra esta identifi­cação, ver J. Simons, The Geographical and Topographical Textes of the Old Testament (E. J. Brill, 1959), p. 222-229. 


[15] Quanto a outras alianças humanas, cf. 21:22; 26:23; 31:43. 


[16] Cf. W. F. Albright, op. cit., p. 36. 


[17] A emenda feita por Albright (BASOR, CLXIII, 1961, p. 52) tornando sãlêm, #“ló- mõh (“um rei aliado a ele”) não é requerida, uma vez que Salém é uma conhecida abre­viatura de Jerusalem (SI 76:2). 


[18] O nome parecido com este, de um sucessor chamado Adoni-Zedeque (Js 10:1), dá a idéia de que os reis de Jerusalém cultuavam oficialmente a Zedeque, deus conhecido noutros lugares da Palestina. É de se presumir que os nomes reais significavam, em pri­meiro lugar, “Zedeque é meu rei, meu senhor”, etc. Mas no caso de Melquisedeque o sentido alternativo, “Rei de justiça”, tornou-se o sentido apropriado. 


[19] Os fenícios e os cananeus usavam este vocábulo para designar o seu Deus supre­mo. 


[20] Ver W. A. Irwin, JBL, LXXX, 1961, p. 133. 


[21] Ou, possivelmente, “benfeitor”; cf. M. Dahood, em Bib., XLV, 1964, p. 282; também M. Kessler, em VT, XIV, 1964, p. 494-497. 


[22] M. F. Unger, em JBL, LXXII, 1953, p. 49s., sugerindo que houve a supressão de ben (“filho de”), faz esta reconstrução: “E o filho da minha casa é o filho de Meseq”. Entende que “Damasco” e “Eliezer” são notas explicativas para identificação do lugar (Meseq, abreviatura de Dammeseq [Damasco]; cf. Salém, abreviatura de Jerusalém, 14:18) e da pessoa envolvida. Contudo, O. Eissfeldt, em JSS, V, 1960, p. 48, argumenta que m — ?— q quer dizer copo, e Eliezer é “dono da taça (isto é, da ‘essência da vida’) da minha casa”. Em outras palavras, é o herdeiro. Mas esta expressão esquisita não tem apoio adequado. 


[23] Cf. cornent, de 12:13. 


[24] Cf. W. F. Albright, The Biblical Period from Abraham to Ezra, p. 9; também BASOR, CLXIII, 1961, p. 50s. 


[25] Ver ainda: John Murray, The Covenant of Grace (Tyndale Press, 1954); J. A. Thompson, The Ancient Near Eastern Treaties and the Old Testament (Tyndale Press, 1964). 


[26] Sobre um equivalente, ver E. A. Speiser, em AASOR, X, 1930, p. 31, e em seu co­mentário, p. 130. Há confirmação dessa prática também em lugares distantes como Ur e Capadócia. Sobre esta, ver J. Lewy, HUCA, XXVII, 1956, p. 6. 


[27] Ver a Introdução, p. 3ls. 


[28] Cf. “tu me verás pelas costas” (Êx 33:23); a expressão é quase idêntica. Aqui tal­vez pudesse ser traduzida livremente por: “Tive um vislumbre de ...?” 


[29] Sobre o sentido de “perfeito”, AV, AA (RSV, “inculpável”) ver cornent, de 6:9. 


[30] W.F. Albright, em JBL, LIV, 1935, p. 180-193, e em FSAC2, p. 244; mas Speiser, p. 124, mostra fraquezas nessa identificação. E. C. B. MacLaurin, em AN, III, 1961-2, p. 99-118, defende a derivação de uma raiz dd, com o causativo que daria o sentido de: “que evoca amor” ou “que firma domínio”. 


[31] Ver Gn 17:1; 28:3; 35:11; 43:14; 48:3; 49:25. Cf., mais completamente, J. A. Motyer, The Revelation of the Divine Name, p. 29-31. 


[32] Embora esteja assim na letra, a expressão de AV: “pois por isso viestes” é menos provável, dada a ocorrência da mesma frase em 19:8 onde só pode significar simplesmen­te pois ou visto que. 


[33] Ver, por ex., W. Thesiger, Arabian Sands (Longmans, 1959), passim: The Marsh Arabs (Longmans, 1964), p. 8. 


[34] Cf. Speiser, in loc.; também em JCS, VI, 1952, p. 81. 


[35] Certamente, RSV e AA traduzem bem o particípio do v. 14 por: “que estavam pa­ra casar” (AV: “que casaram”). 


[36] Op. cit., p. 3. 


[37] Ibid., p. 4. 


[38] Note-se, porém, o clímax no versículo seguinte: “e fizeram abominações diante de mim”. 


[39] Ibid., p. 5. 


[40] O verbo nunca ocorre em bom sentido. Cf. Is 3:12; Jr 23:13,32.