27 de junho de 2016

John Bright - O Período da conquista Assíria: De meados do século oitavo à morte de Ezequias

danilo-moraes
De meados do século oitavo à morte de Ezequias

No terceiro quartel do século oito, Israel viu-se diante de
circunstâncias que alteraram decisiva e permanentemente sua
situação política. Até o momento, traçamos a história de duas
nações independentes. Embora elas tenham guerreado continuamente com seus vizinhos, tendo sido algumas vezes humilhadas, nunca tinham perdido a sua autonomia; e tampouco
a sua sorte, embora não afetada pela corrente dos acontecimentos mundiais de maiores repercussões, tinha ficado em tempo algum dependente de outros impérios, a não ser indiretamente.

A verdade é que toda a história de Israel, através dos
quinhentos anos de sua existência como povo, fora desenvolvida
num grande vazio de poder; não existira nenhum império capaz
de perturbá-lo profunda e permanentemente. Como resultado
de tudo isto, Israel nunca se encontrara diante de uma emergência que, de uma maneira ou de outra, não tivesse sido capaz de vencer, e de sobreviver a ela.

Depois da metade do século oitavo isto não mais iria acontecer. A Assíria resolveu com toda a seriedade transformar-se num grande império, e as nuvens que por muito tempo haviam
permanecido baixas no horizonte, transformaram-se numa tempestade, que desabou sobre os pequenos povos. O norte do Estado foi atingido pelas trovoadas transformou-se em ruínas.
Embora Judá tenha conseguido sobreviver ainda por um século
e meio à própria Assíria, nunca mais, a não ser por um breve
período de tempo, iria conhecer novamente a independência
política. É da história destes anos trágicos que nos ocupamos
no presente capítulo.

A nossa maior fonte de informação é mais uma vez o
Livro dos Reis, com dados suplementares fornecidos pelo Cronista. As informações sobre os reis assírios são extraordinariamente profusas em relação ao período que discutimos, ilustrando a narrativa bíblica em muitos pontos — e a elas recorreremos
de vez em quando. Luzes adicionais inestimáveis nos serão
dadas, naturalmente, pelo Livro de Isaías, pelos Livros de
Miquéias e — com referência ao começo do período — por Oséias.

A. AVANÇO ASSÍRIO: A QUEDA DE ISRAEL E A SUBJUGAÇÃO DE JUDÁ

1. O começo da queda de Israel

Com a morte de Jeroboão (746), a história do Estado do
norte torna-se uma história de desastre consumado. Com sua
enfermidade interna irrompendo para fora, Israel viu-se a braços com a anarquia no próprio momento em que era chamado a enfrentar, na Assíria rompante, a mais grave ameaça de toda
a sua história. Dentro de apenas vinte e cinco anos, Israel
tinha sido apagado do mapa.

a. O ressurgimento da Assíria: Teglatfalasar III. — A
Assíria ambicionava as terras além do Eufrates, tanto por
causa de sua valiosa madeira e seus recursos minerais como
porque elas eram a porta do Egito, para o sudeste da Ásia
Menor e para o comércio do Mediterrâneo. Por isso é que os
exércitos assírios fizeram por mais de um século campanhas
periódicas voltadas para o oeste.

Até agora, contudo, o poder assírio existira em bases pouco
firmes e fora ameaçado seriamente por rivais, o que não lhe
permitiu consolidar suas conquistas, razão pela qual sua história se tornara uma sucessão de avanços e recuos. Foi um dos seus avanços que permitiu a Israel dar seu último suspiro. O
dia de graça havia passado; a Assíria chegara para conquistar,
ocupar, dominar.

O inaugurador deste período da história assíria, o verdadeiro fundador do seu império foi Teglatfalasar III (745-727), um governante excessivamente enérgico e capaz. Ao se apoderar do trono, ele viu-se diante da tarefa de reafirmar o poder assírio contra os povos arameus (caldeus) de Babilônia,
para o sul, e contra o reino de Urartu, para o norte, assim
como de realizar as potencialidades assírias no oeste.

Por uma série de medidas, em que não nos podemos deter
para descrever em detalhes, todas as suas metas foram alcançadas. A Babilônia foi pacificada. No fim do seu reinado (729), depois de algumas perturbações na Babilônia, Teglatfalasar III
apoderou-se do trono babilónico e governou com o nome de
“Pulu”. Sardur II, rei de Urartu, juntamente com seus aliados, foi totalmente derrotado a oeste do Eufrates e, subseqüentemente, sua capital foi sitiada; Urartu, com seu território diminuído, deixou de ser rival perigoso para a Assíria. Posteriores campanhas contra os medos, no norte do Irã,
levaram as armas assírias até a região do monte Demavend
(Bikni), ao sul do mar Cáspio.

Muito antes destas tarefas serem realizadas, Teglatfalasar
voltou-se para a meta de subjugar o oeste, dando início em
743 e nos anos seguintes a numerosas campanhas contra a Síria.
Inicialmente, ele sofreu a oposição de uma coalizão, em cujo comando estava um certo Azriau de Yaudi [1]. Este, provavelmente, não era outro que Azarias (Osias) de Judá. Muitos estudiosos, com certeza, por causa das dificuldades cronológicas e porque o encontro evidentemente se deu no norte da
Síria, supuseram que este Azarias era governador de um pequeno Estado daquela área. Mas nada sabemos de tal Estado, além de que colocar dois Judás, cada qual com um rei chamado Azarias, é exigir muito de uma coincidência. A probabilidade é que Osias, embora velho e incapacitado pela lepra,
como chefe (depois da morte de Jeroboão) de um dos poucos
Estados estáveis que restaram no oeste, compreendeu o perigo
e tomou a liderança, procurando enfrentar a situação, como
Acab havia feito um século antes [2].

Entretanto, a tentativa de deter o avanço assírio falhou.
Em 738, se não antes, Teglatfalasar extorquiu tributos da maioria dos Estados da Siria e do norte da Palestina, inclusive de
Hamat, Tiro, Byblos, Damasco — e Israel. Osias, provavelmente, morreu (aproximadamente 742) antes que as represálias assírias pudessem alcançá-lo.

As campanhas de Teglatfalasar diferiam das de seus predecessores no seguinte: não eram expedições para extorquir tributos, mas sim para realizar uma conquista permanente.
Para consolidar seus ganhos, Teglatfalasar adotou uma política
que, embora não sendo inteiramente nova, nunca havia sido
aplicada antes com tanta consistência.

Em vez de contentar-se em receber tributos de príncipes
nativos e punir as rebeliões com represálias brutais, Teglatfalasar,
quando rebentava uma rebelião, habitualmente deportava os
culpados e incorporava suas terras às províncias do império,
esperando deste modo debelar qualquer sentimento patriótico
capaz de alimentar a resistência. Esta norma, seguida rigidamente por Teglatfalasar e copiada por seus sucessores, era algo cuja significação Israel, por sua vez, iria ter que aprender.

b. Anarquia política em Israel (2Rs 15,8-28). — Mesmo
uma nação forte e abençoada, com o mais sábio governo, não
poderia ter podido sobreviver àquela ameaça. E Israel não era tal nação. Pelo contrário, debatendo-se nas garras de uma
anarquia sem peias, Israel praticamente tinha deixado de funcionar como nação.

Nos dez anos que se seguiram à morte de Jeroboão, Israel
teve cinco reis, três dos quais se apoderaram do trono pela
violência, e nenhum deles com a mais leve pretensão de legi-
timidade. Zacarias, filho de Jeroboão, foi assassinado depois
de um reinado de apenas seis meses (746-745) por um tal
Salum ben Jabes, que também foi liquidado dentro de um
mês por Menaém ben Gadi, tendo o primeiro a clara proteção
da outrora capital de Tersa.

Não sabemos o que motivava estes golpes — se a ambição pessoal, se a norma política, se rivalidades locais. O certo é que tudo isso mergulhava a nação numa guerra civil
de atrocidade nunca vista (v. 16).

Foi Menaém (745-738) que pagou tributo a Teglatfalasar
quando este avançou para o oeste. O tributo, que era pesado,
foi conseguido por meio de uma alta taxa, imposta a todos os
proprietários de terras em Israel. Embora Menaém provavelmente tivesse pequena margem de escolha no caso, parece (v. 19) que ele empenhou de boa vontade a independência do
país, esperando que os assírios o ajudassem a se manter em
seu trono vacilante. Isso foi certamente muito doloroso para
os israelitas patriotas.

Logo depois, Menaém foi substituído por seu filho Fakéia
(738-737), em seguida assassinado por um de seus oficiais,
Faké ben Romolias, que, por sua vez, apoderou-se do trono.
Quaisquer que sejam os motivos que tenham influído nisto,
tratou-se de um golpe que mudou muito a política nacional.
É possível (cf. Is 9,8-12) que Rezin, rei de Damasco, e alguns
dos filisteus, procurando organizar a resistência contra a Assíria
e notando que Menaém não estava com vontade de aliar-se a eles,
tenham atacado Israel e talvez apoiado Faké, na esperança de
levá-lo a seus planos. Não sabemos se os confederados esperavam ou não a ajuda do Egito, que ocorreria mais tarde (2Rs 17,4); mas é possível (Os 7,11; 12,1) que sim. De qualquer
modo, assim que subiu ao trono, Faké transformou-se num
líder da coalizão antiassíria. Isso logo levou à guerra com Judá,
desencadeando a caminhada para o desastre.

c. Desintegração interna de Israel. — Embora a confusão acima não tivesse sido um mero sintoma de desmoronamento interno, foi pelo menos isto: Israel estava de fato nas últimas. O barco do seu Estado, fazendo água por todos os lados, sem bússola nem timoneiro competente e com sua tripulação desmoralizada, estava afundando.
As palavras de Oséias, de quem falamos no capítulo precedente,
revelam a gravidade da situação. As palavras do profeta nos
revelam o quadro patético das conspirações e contraconspirações que dilaceravam o corpo político da nação (cf. Os 7.1-7;8,4;10,3ss) e das acomodações da política nacional, mostrando como, de uma maneira ou de outra, esta ou aquela facção se adonava do poder (capítulos 5,13;7,11;12,1) e indicando o colapso completo das leis e da ordem, que não
ofereciam segurança nem para a vida nem para a propriedade
particular (cf. capítulos 4,1-3;7,1).

É evidente que os crimes sociais denunciados por Amós
vinham dilacerando o corpo da sociedade, lançando irmão
contra irmão, classe contra classe, região contra região, até
que Israel não pôde mais manter-se como nação. A retirada
da mão forte de Jeroboão e a crescente ameaça assíria reve-
lavam claramente a extensão a que tinha chegado a desinte-
gração social. Ao mesmo tempo, o paganismo, que existira e
continuava a existir, sendo o tema principal de Oséias, tinha
dado seus amargos frutos na embriaguez, na luxúria, na licen-
ciosidade sexual sob a égide da religião: tudo isso corroía o
caráter nacicnal (cf. Os 4,ll14.17־ss; cf. Is 28,1-4).

Tendo restado muito pouca coisa da severa moralidade
do javismo, não havia integridade, não havia princípio, não
havia religião comum que pudesse fornecer a base para uma
ação desinteressada de espírito público.

Esta decadência interna expressava-se na crise política, e
com ela se agregava. Tendo sido esquecida a lei da aliança
com o seu poder de coesão e suas sanções, tiveram livre curso
as rivalidades, as opressões e o interesse desenfreado. Os israelitas insurgiram-se contra os israelitas como canibais (cf. Is 9,19ss), mostrando uma barbárie que teria sido chocante
até entre os pagãos (2Rs 15,16; cf. Am 1,13). O Estado,
com base vacilante, perdeu completamente o controle da situação. Embora Israel, que nunca tivera uma tradição dinástica estável, sempre estivesse sujeito a revoluções, tinha pelo menos
preservado com bastante insistência a ficção da liderança por
designação divina e aclamação popular. Agora, porém, tudo isso
acabara, pois qualquer um se apoderava do trono até mesmo
sem nenhuma pretensão de legitimidade — coisa que Oséias considerava como um pecado contra Iahweh e um sinal de sua ira contra a monarquia israelita como tal (cf. Os 8,4;
10,3ss) [3].

Sem coesão interna e sem apoio teológico, o Estado viu-se incapaz de uma ação inteligente e ordenada: cada virada do leme leva o barco do Estado contra os rochedos. Não é,
pois, de admirar que Oséias — e com uma fúria que desafia
qualquer descrição (cf. capítulos 9,11-17; 13,9-16) — tenha
pronunciado a sentença contra Israel, que já estava condenado.
O que maravilha é que ele pôde antecipar para além daquela
condenação uma nova e imerecida ação da graça divina,
que traria novamente Israel de volta da catástrofe que se
abatera sobre ele (cf. capítulos 2,14ss; 12,9), curaria sua infidelidade e restauraria uma vez mais os laços de aliança entre o povo e seu Deus (2,16-23;14,l-7). É aqui que se encontram
as sementes da noção da nova aliança e do novo êxodo, que
dominou completamente os últimos profetas, tornando-se visível
no Novo Testamento.

2. Os últimos dias do Reino de Israel (737-721)

Somente uma sabedoria incomum poderia talvez ter salvo
Israel de seu estado desesperador. Entretanto, em vez de mos-
trar sabedoria, seus líderes manifestavam uma incapacidade ab-
soluta de se dar conta da realidade da situação. Sob Faké
(737-732) [4], Israel deu um passo em falso fatal e atraiu sobre
si a cólera da Assíria.

a. A coalizão araméia-israelita e seus resultados. — Faké,
como indicamos acima, representava os setores de Israel que
desejavam resistência contra a Assíria. Por isso, ele tornou-se
logo, juntamente com Rezin, rei de Damasco, o líder de uma coalizão formada para esta finalidade. Os confederados, naturalmente, desejavam que Judá, agora governado por Osias, filho de Jotão (742-735) [5], se unisse a eles. Mas Judá, preferindo adotar uma política independente, recusou-se. Faké e Rezin, assim, não querendo ter um poder neutro e potencialmente hostil atrás de si, tomaram medidas para forçá-lo a entrar na linha (2Rs 15,37). A esta altura dos acontecimentos,
entretanto, Jotão morreu e foi sucedido por seu filho Acaz,
sobre quem caiu toda a força do golpe. A coalizão invadiu
Judá pelo norte[6] e cercou Jerusalém (2Rs 16,5), com a intenção de depor Acaz e colocar no trono, em seu lugar, um certo Ben Tabeel (Is 7,6)[7]. Nesse ínterim, os edomitas, que tinham estado sob o domínio de Judá durante a maior parte do
século oitavo, reconquistaram sua independência e expulsaram as
tropas de Acaz de Elat (Asiongaber), as quais, como indica a
arqueologia, foram por eles destruídas. Se esta libertação foi realizada com a ajuda dos arameus, como indica 2Rs 16,6 (MT), ou
pelos próprios edomitas, como pensam alguns estudiosos (cf.
RSV), não se pode afirmar (“Aram” e “Edom” parecem ser
quase o mesmo em hebraico). De qualquer modo, parece que
então os edomitas (2Cr 28,17) uniram-se aos confederados e
atacaram Judá. Ao mesmo tempo, os filisteus, possivelmente
agindo de comum acordo, fizeram incursões contra o Negeb
e Shephelah, tomando e ocupando certas cidades da fronteira (vv.
17ss). Se esta reconstrução é verdadeira, Judá foi invadido de
três lados.

Acaz, vendo seu trono em perigo, e incapaz de se defender, não viu nenhuma saída a não ser apelar para Teglatfalasar, pedindo socorro. Um pouco da consternação que reinava
em Jerusalém pode ser sentida lendo-se Isaías (c. 7,1 a 8,18), que se refere a esta crise. Sabemos que Isaías enfrentou o rei
e, admoestando-o pelas terríveis conseqüências do que ele estava
prestes a fazer, pediu-lhe que não tomasse tal decisão, mas
confiasse nas promessas de Iahweh a Davi. Acaz, contudo,
incapaz da religiosidade que o profeta dele exigia, não aceitou
a solicitação, enviou um generoso presente a Teglatfalasar e
pediu-lhe insistentemente seu auxílio (2Rs 16,7ss).

Teglatfalasar agiu prontamente. Isaías, porém, provavelmente estava certo. Não era nem necessária a solicitação de Acaz para que Teglatfalasar viesse em seu auxílio. Embora
a seqüência dos acontecimentos não esteja inteiramente certa,
Teglatfalasar caiu sobre a coalizão e destruiu-a completamente,
como indicam a Bíblia e suas próprias inscrições [8]. Movimentando-se inicialmente (734) para o sul, litoral a dentro, através do território israelita, ele subjugou as cidades filistéias que
se lhe opunham — especialmente Gaza, que fora a cabeça da
rebelião — e, em seguida, continuou atacando até o rio do
Egito (Wâdl el-‘Arísh), onde estabeleceu uma base, bloqueando assim eficientemente toda a possível ajuda do Egito para a coalizão [9].

Subseqüentemente (é provável que em 733), Teglatfala-
sar atacou novamente Israel, desta vez com toda a sua força.
Todas as terras israelitas da Galiléia e da Transjordânia foram
assoladas, parte da população foi deportada (2Rs 15,29) e
numerosas cidades (por exemplo, Megiddo e Hazor) foram
destruídas [10]. O território então ocupado foi dividido em três
províncias: Galaad, Megiddo (incluindo a Galiléia) e Dor (na
planície litorânea) [11].

Teglatfalasar teria sem dúvida destruído completamente
Israel se Faké não fosse assassinado por um tal Oséias, filho
de Ela (2Rs 15,30), que se rendeu imediatamente e pagou
tributo[12]. Só sobrou Damasco. Em 732 (cf. c. 16,9), Teglatfalasar tomou essa cidade e assolou-a, executando Rezin, deportando grande parte da população e transformando seu território em quatro províncias assírias.

b. A queda de Samaría (2Rs 17,1-6). — A política de
Faké custou caro a Israel. De todo o seu território, somente
uma área mais ou menos equivalente às antigas possessões tribais de Efraim, a oeste de Manassés, ficou para seu último rei,
Oséias (732-724), governar como vassalo assírio. Mesmo assim, a louca corrida para a ruína não parou. Oséias se submeteu
à Assíria apenas para salvar o que restara de seu país, e sem
dúvida planejava a capitulação, assim que a julgasse oportuna.
Pouco antes de Teglatfalasar ser sucedido por seu filho Salmanasar V, Oséias, pensando que sua chance havia chegado,
fez propostas ao Egito e deixou de pagar tributo.

Isto foi o suicídio de Israel. Na época, o Egito encontrava-se dividido em numerosos Estados rivais inexpressivos, não estando em condições de ajudar ninguém. O “rei do Egito”
a quem Oséias recorreu (2Rs 17,4) era com toda a probabilidade Tefnakhte, da fraca Vigésima Quarta Dinastia, cuja residência era em Sais, a oeste do Delta. Não se podia esperar
nenhuma ajuda dele, e realmente nada veio. Em 724, Salmanasar atacou. Oséias, que certamente apareceu diante de seu senhor esperando fazer as pazes, foi feito prisioneiro. Os
assírios ocuparam então o território, à exceção da cidade de
Samaría, que ainda continuaria a manter-se por mais de dois
anos. Embora o sucessor de Salmanasar, Sargão II — que
se apoderou do trono assírio depois da morte de Salmanasar, em 722 — se vanglorie repetidamente de ter tomado Samaría, a Biblia está certa em atribuir a tomada daquela cidade a
Salmanasar [13]. A cidade caiu, com certeza, no final do verão ou
no outono de 722/721. Milhares de cidadãos — 27.290, de
acordo com Sargão — foram subseqüentemente deportados
para a Alta Mesopotámia e a Média para, por último, desaparecerem do cenário da historia.

O último territorio restante da nação foi organizado como
provincia de Samaría, sob a direção de um governador assírio.
Uma vez que Salmanasar morreu pouco depois da redução da
Samaría, coube a Sargão (721-725) regularizar sua situação.
A subida deste governante ao trono foi recebida com apreensão em várias partes do reino. Suas inscrições nos confirmam que, no oeste, eclodiram rebeliões em Hamat, na cidade filistéia de Gaza e em várias províncias, inclusive Damasco e Samaria; coube a Sargão (721-705), regularizar sua situação.
Hamat e, em seguida marchou para a fronteira do sul da
Palestina, onde, em Ráfia, rechaçou uma força egípcia que viera em socorro de Gaza. É possível que tenha sido nessa época que ele realizou a deportação em massa de Samaría, da
qual se gaba, e organizou a província em bases permanentes.
Durante os anos seguintes (2Rs 17,24), as populações deportadas da Babilónia, de Hamat e de outras partes foram restabelecidas na região [14]. Esses estrangeiros trouxeram consigo seus costumes nativos e religiões (vv. 29 a 31) e, juntamente com outros, introduzidos mais tarde ainda, misturaram-se ao restante da população israelita sobrevivente. Encontraremos seus descendentes, mais tarde, como samaritanos.


3. Judá como satélite da Assíria: Acaz (735-715) [15]

Graças à recusa de Acaz a participar da coalizão contra
a Assíria, Judá escapou da calamidade que se abateu sobre Israel. Mas não como nação livre! Recorrendo a Teglatfalasar, solicitando auxílio, Acaz renunciou à sua liberdade (2Rs 16,
7ss), tornando Judá um Estado vassalo do império assírio.
Humanamente falando, é difícil, apesar das severas críticas
de Isaías, ver como Judá poderia ter evitado este destino fatal
e sobrevivido; o dia do pequenino estado independente da
Ásia havia passado. Mas as conseqüências do passo foram
desastrosas, como Isaías dissera que seriam.

a. Judá sob Acaz: tendências sincréticas. — As conseqüências mais sérias da política de Acaz encontram-se no domínio da religião. No antigo Oriente, a sobrevivência política
envolvia o reconhecimento dos deuses do soberano — naturalmente, não em lugar das religiões nativas, mas juntamente com elas. Isto, como é natural, explica as inovações (2Rs 16, 10-18)
que Acaz introduziu no Templo de Jerusalém. Sabemos que ele
foi obrigado a aparecer diante de Teglatfalasar. na nova cidade
provincial de Damasco, para prestar-lhe fidelidade e, parece,
prestar homenagem aos deuses assírios, num altar de bronze
lá existente.

Uma cópia desse altar foi erguida no templo em Judá,
para uso do rei. O altar de bronze já tinha sido reservado. Naturalmente, o grande altar do templo, uma vez que o rei não ousou retirá-lo e nem lhe pediram para fazê-lo, continuava
em uso ritual, como antes (v. 15). O texto obscuro do
versículo 18 pode significar que Acaz também foi obrigado pelo
rei assírio a fechar sua entrada particular no templo, reconhecendo assim simbolicamente que não possuía mais nenhuma autoridade lá. Embora as mãos de Acaz estivessem atadas, é
certo que tais medidas eram por todos consideradas como humilhantes, um insulto ao deus nacional, Iahweh já não dispunha plenamente de sua casa!

Todavia, isso ainda não era o fim. Porque Acaz, ao que
tudo indica, não tinha uma fé viva nem qualquer zelo pela
religião nacional, não fez nenhum esforço para constituir defesas contra o paganismo, aliás intacto. Como a passagem de 2Rs 16,3ss alega e como as passagens proféticas da época
(por exemplo, Is 2,6-8.20;8,19ss; Mq 5,12-14) indicam, floresciam as práticas pagãs negativas, juntamente com toda sorte de costumes estrangeiros, cultos e superstições. Acaz é mesmo
acusado, em que ocasião não o sabemos, de oferecer seu próprio
filho em sacrifício como cumprimento de um voto ou promessa,
de acordo com a prática pagã da época[16]. O reino de Acaz foi
lembrado pelas gerações vindouras como um dos piores períodos
de apostasia que Judá conheceu.

b. Condições econômicas e sociais em ]udá. — Sob outros
aspectos, a situação em Judá também era menos que ideal. A
nação havia sido levada à derrocada econômica. O território estrangeiro ganho por Osias, incluindo Edom e o porto de Asiongaber, foi perdido durante a guerra arameu-israelita, e a maior
parte dele nunca mais foi recuperado. Isto incluía uma perda
enorme de rendas. Ao mesmo tempo, o tributo exigido pela
Assíria era tão pesado, que Acaz via-se obrigado a esvaziar o
tesouro e tirar todos os recursos do templo para satisfazê-lo
(2Rs 16,8.17), naturalmente sobrecarregando ao máximo seus
súditos. O pior é que havia sinais de que a decadência social e
moral que tinha destruído Israel também começara em Judá.

Naturalmente, não devemos pintar um quadro demasiado
carregado, porque nem a decadência religiosa nem a deterioração social tinham chegado em Judá ao ponto a que chegaram em Israel. Lá não se encontra aquela apostasia generalizada que
Oséias nos mostrou no norte. Além do mais, julgando pelas evidências arqueológicas, a economia nacional, que tinha sido colocada em firmes bases por Osias, continuava sólida, apesar das extorsões assírias.

As cidades da Judéia, no fim do século oitavo, tinham uma
homogeneidade notável de população e não apresentavam extremos de riqueza ou pobreza. Parece ter existido concentrações de artesãos, e cidades inteiras dedicavam-se quase exclusivamente
ao trabalho de uma única indústria, como a tecelagem e a indústria de tingimento de Dabir, já mencionadas; pode-se observar também algumas provas de prosperidade comum.

A desintegração dos padrões sociais e a concentração da
riqueza nas mãos de alguns não tinham chegado aos. extremos
que atingiram em Israel. Tais tensões, quando existiam, eram
provavelmente mais entre pequenos proprietários e aldeões, de
um lado, e a aristocracia de Jerusalém, de outro, do que dentro
da própria estrutura da sociedade local[17].

Todavia, como Isaías e Miquéias nos deixam entrever, a
sociedade de Judá não estava livre do vírus que destruiu Israel.
E a situação deve ter certamente piorado durante a reação pagã
sob Acaz. Como implicava necessariamente uma brecha na aliança de Iahweh, o paganismo levava inevitavelmente à desconsideração para com a lei da aliança, ameaçando assim a sociedade
de Israel nos seus fundamentos. A classe rica de Judá não era
claramente melhor do que a sua correspondente de Israel.
Tanto Amós (6,1) como Miquéias (1,5) chegaram a igualar
as duas. Os grandes proprietários de terra expropriavam constantemente os pobres, muitas vezes por meios desonestos (por exemplo, Is 3,13-15;5,l-7.8; Mq 2,lss.9). Além disso, sendo os juizes corruptos, os pobres não tinham a quem recorrer (Is l,21.23;5,23;10,l-4; Mq 3,1-4.9-11).

Entretanto, os ricos viviam no luxo, sem senso de justiça
ou preocupação pelo estado de seus irmãos menos afortunados (por exemplo, Is 3,16 a 4,l;5,llss;20-23). Além disso, novamente como em Israel, a religião oficial parece que não
ofereceu nenhuma censura eficaz à situação. Apoiada pelo Estado e dedicada aos interesses oficiais, ela não podia, pela situação em que se encontrava, criticar a política do Estado
e tampouco a conduta dos nobres que o dirigiam. Pelo contrário, seu culto sofisticado e muito bem mantido alimentava a noção (Is 1,10-17) de que as exigências de Iahweh só
poderiam ser satisfeitas com rituais de sacrifícios. O clero, pelo
menos como Miquéias o pinta, era corrupto: os sacerdotes, oportunistas, preocupavam-se somente com sua vida material; os profetas modelavam os seus oráculos pelo volume dos seus
rendimentos (Mq 3,5-8.9-11). Até aqui, a luxúria havia pe-
netrado (Mq 2,11; Is 28,7ss). Numa palavra, se a situação
não era tão má como tinha sido em Israel, a diferença era
apenas de grau.


[1] Pritchard, in ANET, pp. 282ss, para o texto. 

[2] Cf. especialmente H. Tadmor, Âzriyau of Yaudi, in Scripta
Hierosolymitana, VIII (1961), pp. 232-271; v. também E. R. Thiele,
The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings, ed. rev., Wm. B.
Eardmans Publishing Company, 1965, Cap. V; Albright, in BASOR, 100
(1945), p. 18; M. F. Unger, Israel and the Arameans of Damascus,
James Clarke & Company, Ltd. Londres, 1957, pp. 95-98. Judá pode
também ter tomado o controle de partes da Transjordânia depois da
morte de Jeroboão (cf. 2Cr 27,5). 

[3] Ê possível (por exemplo, cc. 9,15;13,10ss) que Oséias consi-
derasse a realeza em si como uma instituição pecaminosa. Neste ca-
so, isto estaria de acordo com um antigo sentimento (por exemplo,
Jz 8,22ss;9,7-15; lSm, cc. 8; 12). Cf. T. H. Robinson, Die Zwölf
Kleinen Profheten, in HAT, 2? ed. (1954), pp. 38ss, 51; H. W. Wolff,
Dodekapropheton 1, Hosea, in BKAT (1961), pp. 216ss; 295ss. 

3 Os vinte anos dados a Faké (2Rs 15,27) podem ser admitidos,
supondo-se que ele tenha afirmado que governou muito antes de subir
ao trono. Talvez ele tenha de fato exercido uma autoridade (semi)
autônoma em Galaad (cf. v. 25) desde a morte de Jeroboão; cf. H.
J. Cook, in VT, XIV (1964), pp. 121-135; E. R. Thiele, in VT,
XVI (1966), pp. 83-102. Mas cf. Albright, in BASOR, 100 (1945),
p. 22, nota 26, sobre esta questão. 

[5] Os dezesseis anos atribuídos a Jotão (2Rs 15,33) certamente
incluem sua co-regência com seu pai adoentado; cf, Albright, ibid., p.
21, nota 23. 

[6] A narrativa da derrota de Acaz em 2Cr 28,5-8, a despeito dos
números exagerados, baseia-se numa tradição de confiança; cf. W. Ru-
dolph, Chronikbücher, in HAT (1955), pp. 289ss. 

[7] Tâb’ el (ou melhor, Bêt Tâb’ el) é conhecida, através de um
texto assírio quase contemporâneo, como uma terra araméia, provavel-
mente ao norte da Transjordânia. Ben Tabeel pode ter sido um filho
de Osias ou Jotão com uma princesa araméia; cf. Albright, in BASOR,
140 (1955), pp. 34ss. B. Mazar, in IEJ, 7 (1957), pp. 137-145, 22-238,
alega que a Casa de Tâb’ el (Tôb’ el) é a mesma de Tobias, que
governou a Transjordânia nos tempos do pós-exílio (cf. adiante, pp.
519ss). 

[8] Parece-me provável que o apelo de Acaz tenha precedido a
campanha de 734; cf. Unger, o.c., pp. 99-101; Aharoni, in LOB,
pp. 327-333. Para uma interpretação um pouco diferente, cf. Noth,
in Hl, pp. 258-261; v. também H. Tadmor, in BA, XXIX (1966),
pp. 87-90. 

[9] Sobre esta campanha, cf. A. Alt, in Tiglathpilesers III ersíer
Feldzug nach Valãstina, in KS, II, pp. 150-162; em inglês, v. J. Gray,
in ET, LXIII (1952), pp. 263-265. 

[10] Megiddo III foi destruída e reconstruída como capital provin-
ciana. Foi descoberto o palácio-fortaleza do governador assírio; cf. Wright,
in BAR, pp. 164ss. Sobre Hazor, que foi destruída e novamente recons-
truída como cidade, veja Y. Yadin, in AOTS, pp. 244-263 (pp. 256ss)
bem como a literatura citada no local. Lá foi encontrada uma jarra de
vinho trazendo as palavras “pertencente a Faké”. 

[11] Sobre estas províncias, cf. A. Alt, Das System der assyrischen
Provinzen auf dem Boden des Reiches Israel, in KS, II, pp. 188-205. 

[12] Veja também a inscrição de Teglatfalasar: Pritchard, in ANET,
p. 284. 

[13] Sobre este ponto e sobre as campanhas de Sargão em geral, cf. 

Tadmor, in JCS, XII (1958), pp. 22-40, 77-100; v. igualmente
W. W. Hallo, in BA, XXIII (1960), pp. 51-56. Para as inscrições de
Sargão, cf. Pritchard, in ANET, p. 284ss. 

[14] Para evidência dos colonizadores mesopotâmicos em Siquém,
que foi destruída pelos assírios aproximadamente em 724/3, cf. G. E.
Wright, Shechem, McGraw-Hill Book Company, Inc. 1965, pp. 162ss. 

[15] Estas datas são a de Albright, in BASOR, 100 (1945), p. 22; 

[16] As palavras “fez até passar seu filho pelo fogo” (2Rs 16,3) refe-
rem-se ao sacrifício humano, não a uma espécie de juízo de Deus (cf.
2Rs 17,31; Jr 7,31; etc.). Para discussão e referências, cf. Albright,
in ARI, pp. 156-158; YGC, pp. 203-212. 

[17] Cf. A. Alt, Micha 2,1-5. GÊS ANADASMOS in Juda (cf. in KS,
III, pp. 373-381).

Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.