25 de junho de 2016

John Bright - Israel e Judá dos meados do século nono aos meados do século oitavo

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ISRAEL E JUDÁ DOS MEADOS DO SÉCULO NONO
AOS MEADOS DO SÉCULO OITAVO

1. Meio século de fraqueza

Embora Jeú tenha livrado o seu país do culto de Baal
de Tiro e tenha sido capaz de fundar uma dinastia que
governou aproximadamente por um século (a mais longa dinastia que teve Israel), seu reinado (842-815) não foi um reinado feliz. Pelo contrário, ele inaugurou um período de calamitosa debilidade, durante o qual o Estado do norte quase
perdeu a sua existência independente. Isso deveu-se não somente à confusão interna, mas a circunstâncias que se originavam além das fronteiras de Israel e sobre as quais ele não
tinha controle.

a. O que aconteceu depois do expurgo de Jeú. — O expurgo, embora tenha sido um fato extremamente lamentável e provavelmente tenha salvo Israel de uma perigosa mistura com um ambiente pagão, deixou a nação inteiramente paralisada. A estrutura das alianças sobre as quais se fundamentava a política da Casa de Omri — uma política que, por todos
os seus resultados nocivos, fez voltar Israel a uma posição
de relativa força — foi destruída de golpe. E o foi necessariamente. O assassinato de Jezabel e de seus seguidores tírios, e
o conseqüente insulto a Baal Melcart acabaram abruptamente
com as relações com a Fenícia, enquanto que a aliança com
Judá não pôde sobreviver ao assassinato do rei Acazias e de
muitos de sua família e sua corte. Com o colapso dessas duas
alianças, Israel perdeu, de um lado, a principal fonte de sua prosperidade material e, de outro, o seu único aliado militar de confiança.

Além disso, Israel foi minado internamente. O extermínio de toda a corte, e certamente da maior parte de seus oficiais (2Rs 10,11), tinha desfalcado a nação da nata dos
seus líderes. Ademais, um derramamento de sangue tão indiscriminado teria inevitavelmente de provocar um mal-estar e um descontentamento capazes de paralisar a nação durante anos;
um século mais tarde (Os 1,4), ainda havia um sentimento
geral de que Jeú tinha cometido excessos desnecessários e
atraído a condenação por crime de derramamento de sangue
sobre si e sobre sua Casa. Tampouco está claro se o próprio
Jeú possuía a habilidade e a visão necessárias para restaurar a riqueza nacional. Ele provavelmente não tomou nenhuma
medida eficaz para corrigir os abusos sociais e econômicos,
já que estes continuaram sem repressão (Amós!). Embora
tenha acabado com o culto de Baal Melcart, Jeú não era
um javista fervoroso. Permaneceram sem ser molestadas muitas variedades nativas de paganismo (2Rs 13,6), e as práticas
pagãs continuaram a se adaptar livremente ao culto de Iahweh como a leitura de Oséias deixa ver bem claro.

b. A ascensão de Damasco. — Jeú logo viu que era incapaz até mesmo de defender as fronteiras de Israel. Infelizmente, a fraqueza de Israel e sua confusão coincidiam com a
agressividade altiva de Damasco. Não muito antes do expurgo
de Jeú, Benadad I, inimigo de Acab e às vezes seu aliado,
fora assassinado no próprio palácio por um oficial chamado
Hazael, que se havia apoderado do trono. Hazael (aproximadamente 842-806), teve primeiro que enfrentar os assírios. Salmanasar III, que não aceitara a derrota de Carcar em
853 como definitiva, nos anos seguintes fez repetidas campanhas contra a coalisão síria, ainda encabeçada por Damasco e
Hamat. A mais séria destas campanhas foi a de 841, logo
depois que Hazael apossou-se do poder. Os exércitos assírios
devastaram o sul, derrotaram as forças araméias, lançaram o
cerco a Damasco e destruíram todos os seus jardins e bosques.
Em seguida, incapaz de fazer Hazael capitular, Salmanasar fez
uma incursão para o sul até Hauran, e para o oeste até
o mar, ao longo do litoral fenício, extorquindo tributo de
Tiro e Sidon, bem como de Jeú, rei de Israel, durante a
passagem [1].

Mas os assírios ainda não tinham vindo para ficar. Pelo
contrário, seus exércitos se retiraram e, exceto uma incursão
muito menos séria em 837, não molestaram o oeste durante
uma geração. Nos seus últimos dias, Salmanasar esteve ocupado
com campanhas em toda parte, e em seguida com uma rebelião
realizada por um de seus filhos, que durante seis anos dividiu
o reino.

Seu filho e sucessor Shamsi-adad V (824-812) foi o
primeiro a estabelecer a ordem e depois a consolidar sua po-
sição diante dos vizinhos — particularmente diante do rei de
Urartu, nas montanhas armênias, que se havia tornado um
rival perigoso. Nos anais de Salmanasar III e Shamsi-adad V, incidentalmente encontramos a primeira menção a medos e
persas, povos indo-arianos que se estabeleceram ao noroeste do
Irã. Depois da morte de Shamsi-adad, a rainha Semíramis reinou como regente por quatro anos, durante a menoridade do
herdeiro legal, Adad-ninari III. Até o final do século nono, a
Assíria foi incapaz de ameaçar novamente os estados arameus.

Isto permitiu a Hazael combater livremente Israel. Jeú
não pôde fazer-lhe resistência, e logo perdeu todo o sul da
Transjordânia, até a fronteira moabita, sobre o Arnom (2Rs
10,32ss; Am 1,3). Seu filho Joacás (815-801) não teve melhor
sorte; batido e vencido[2], recebeu de Hazael uma guarda pessoal
de apenas dez carros e cinqüenta cavaleiros, mais uma força
policial de dez mil soldados de infantaria (2Rs 13,7). E isto
quando só Acab reunira dois mil carros em Carcar!

As forças araméias também se introduziram pela planície
costeira até a região dos filisteus, cercaram e tomaram Gat[3]
e só foram impedidos de invadir Judá com o pagamento de um
pesado tributo (2Rs 12,17ss). Quanto a Israel, com todo o
seu território na Transjordânia, em Esdrelon e ao longo do
mar — e provavelmente também na Galiléia — sob controle
atameu, ficou reduzido à condição de Estado tributário de
Damasco. Parece (Am 1) que a maior parte de seus vizinhos,
aproveitando-se de sua fraqueza, atacaram-no e exploraram-no
de todas as maneiras possíveis.

c. Negócios internos de Judá: Joás (837-800). — Durante este período, Judá, embora não sofresse as lutas internas que enfraqueceram Israel e fosse menos seriamente afetado
pela agressão dos arameus também encontrava-se fraco. Seu rei
era Joás que, como notamos, tinha sucedido no trono,
ainda em criança, a Atalia, que fôra destronada. Virtualmente,
tudo o que sabemos de seu longo reinado (2Rs 12), além do
fato de ter pago tributo a Hazael, é que ele reformou o templo e o purificou — uma medida sem dúvida nenhuma necessária depois das abominações de Atalia. Uma vez que isto
provavelmente começou logo depois de sua subida ao trono,
certamente tudo foi feito de acordo com a orientação de Joiada, sumo sacerdote que provavelmente governava como regente
durante a minoridade do rei. Embora o Livro dos Reis apresente Joás como um rei divino, não o elogia demasiadamente,
deixando-nos a suspeita de que se poderia dizer mais.

O Cronista (2Cr 24) é mais explícito. Ele declara que
a divindade do rei derivava da influência de Joiada, e só
durou enquanto ele viveu. Diz-nos que, depois da morte de
seu tutor, Joás rebelando-se contra a demasiada dominação
sacerdotal, foi influenciado por um elemento mais tolerante e
permitiu que o paganismo florescesse uma vez mais. Quando
o filho de seu tutor o censurou, mandou-o matar. Embora
alguns estudiosos demonstrem um certo ceticismo sobre este
incidente, não há nada de improvável nele. De qualquer modo, As forças araméias também se introduziram pela planície
costeira até a região dos filisteus, cercaram e tomaram Gat[4]
e só foram impedidos de invadir Judá com o pagamento de um
pesado tributo (2Rs 12,17ss). Quanto a Israel, com todo o
seu território na Transjordânia, em Esdrelon e ao longo do
mar — e provavelmente também na Galiléia — sob controle
atameu, ficou reduzido à condição de Estado tributário de
Damasco. Parece (Am 1) que a maior parte de seus vizinhos,
aproveitando-se de sua fraqueza, atacaram-no e exploraram-no
de todas as maneiras possíveis.

d. Negócios internos de Judá: Joás (837-800). — Du-
rante este período, Judá, embora não sofresse as lutas inter-
nas que enfraqueceram Israel e fosse menos seriamente afetado
pela agressão dos arameus também encontrava-se fraco. Seu rei
era Joásn, que, como notamos, tinha sucedido no trono,
ainda em criança, a Atalia, que fôra destronada. Virtualmente,
tudo o que sabemos de seu longo reinado (2Rs 12), além do
fato de ter pago tributo a Hazael, é que ele reformou o tem-
plo e o purificou — uma medida sem dúvida nenhuma ne-
cessária depois das abominações de Atalia. Uma vez que isto
provavelmente começou logo depois de sua subida ao trono,
certamente tudo foi feito de acordo com a orientação de Jojada,
sumo sacerdote que provavelmente governava ccmo regente
durante a minoridade do rei. Embora o Livro dos Reis apre-
sente Joás como um rei divino, não o elogia demasiadamente,
deixando-nos a suspeita de que se poderia dizer mais.

O Cronista (2Cr 24) é mais explícito. Ele declara que
a divindade do rei derivava da influência de Jojada, e só
durou enquanto ele viveu. Diz-nos que, depois da morte de
seu tutor, Joás rebelando-se contra a demasiada dominação
sacerdotal, foi influenciado por um elemento mais tolerante e
permitiu que o paganismo florescesse uma vez mais. Quando
o filho de seu tutor o censurou, mandou-o matar. Embora
alguns estudiosos demonstrem um certo ceticismo sobre este
incidente, não há nada de improvável nele. De qualquer modo, devido à sua tibieza religiosa, a seus fracassos militares ou a
outras razões, antes de seu reinado chegar ao fim, Joás foi
terrivelmente odiado por alguns de seus súditos. Finalmente,
acabou sendo assassinado. Sucedeu-lhe seu filho Amasias.

2. O ressurgimento de Israel e Judá no século oitavo

O século oitavo trouxe uma reviravolta dramática, projetando Israel e Judá às alturas do poder e da prosperidade desconhecidas desde o tempo de Davi e Salomão. Isto deveu-se
parcialmente ao fato de que ambos os Estados foram abençoados
com hábeis governantes. Mas a principal razão está no resultado
feliz de acontecimentos mundiais dos quais Israel se beneficiou.

a. A situação mundial na primeira metade do século oitavo.

A Ascensão de Damasco cessou abruptamente quando
Adad-nirari III (811-784) assumiu o poder na Assíria. Retomando a política agressiva de Salmanasar III, ele fez várias
campanhas contra os estados arameus, durante as quais (aproximadamente 802) a cidade de Damasco foi esmagada, seu
poder aniquilado e seu rei Benadad II, filho e sucessor de
Hazael, ficou sujeito a onerosos tributos. E Israel também
não escapou, pois Adad-nirari nos diz que ele também recebeu
tributos de Israel, juntamente com tributos de Tiro, Sidon,
Edom e outras regiões[5]. Mas isto representava apenas um
símbolo nominal de submissão, em vez de uma conquista permanente; o golpe que feriu Damasco não atingiu Israel com
tanta violência. Felizmente, Adad-nirari não foi capaz de dar continuidade aos seus triunfos. Seus últimos anos encontraram-no ocupado em outra parte. Seus sucessores, Salmanasar
IV (783-774), Assur-dan III (773-756) e Assur-nirari V (755-746), foram governantes ineficientes que, apesar de repetidas
campanhas, foram incapazes de se manter a oeste do Eufrates.

A Assíria se enfraqueceu tanto por dissensões internas
quanto por ameaças, principalmente por parte do poderoso
reino de Urartu, que se expandindo para leste e oeste, agora
igualava, senão excedia, em tamanho a própria Assíria. Esten-
dendo os seus interesses ao norte da Síria, Urartu ganhou alia-
dos entre os pequenos Estados da região. Por volta da metade
do século oitavo, a Assíria já parecia ameaçada de desintegração.
Na Síria, entretanto, Damasco, embora um tanto recuperada de
sua opressão às mãos da Assíria, foi durante a maior parte
deste período vítima de uma amarga — e visivelmente mal-
sucedida — rivalidade com Hamat[6], não estando, portanto,
em condições de dominar Israel.

— Ressurgimento: Joás de Israel (802/1-786); Amasias
de ]udá (800-783). — O ressurgimento de Israel começou com
Joás, neto de Jeú, que subiu ao trono logo depois que os
assírios arruinaram Damasco. Embora não tenhamos detalhes
tangíveis, sabemos que ele recuperou todas as cidades perdidas
por seu pai (2Rs 13,25). Presumivelmente, isto significa que
os arameus foram expulsos do território israelita a oeste do
Jordão e talvez do próprio leste do mesmo rio[7]. Joás reduziu Judá à capitulação total (2Rs 14,1-14; 2Cr 25,5-24). A
narrativa do Livro dos Reis deixa a pendência entre os dois Estados inteiramente sem motivação. O Cronista, cuja narração
certamente baseia-se numa tradição fidedigna, no-la apresenta.
E o faz dizendo-nos que Amasias, tendo projetado a reconquista
de Edom, assalariou mercenários israelitas para reforçar suas tropas e depois, resolvendo não usá-las, dispensou-os e mandou-os de
volta. Enfurecidos, os mercenários começaram a exteriorizar sua cólera depredando algumas cidades ao longo do caminho... soube o que havia acontecido até a sua volta; então, num
ímpeto de cólera, declarou guerra a Joás, apesar da tentativa
deste de dissuadi-lo. Numa batalha travada em Bet-Sames, Judá
foi totalmente derrotado e Amasias feito prisioneiro. Então,
Joás marchou contra a indefesa Jerusalém, tomou-a, saqueou-a,
derrubou parte de seus muros e retirou-se, levando reféns.

Sem dúvida, ele poderia ter incorporado Judá a seu reino,
mas não quis agravar a situação com este ato. Amasias foi
conservado em seu trono — podemos imaginar com que humilhação. Logo depois, houve uma conspiração para afastá-lo (2Rs
14,17-21); embora ele tenha tido conhecimento do fato e
fugido para Láquis, foi preso e assassinado. E seu filho Azarias
foi feito rei em seu lugar.

b. Ressurgimento: ]eroboão II (786-746) e Azarias (783-742). — O ressurgimento dos estados-irmãos alcançou seu
zénite na próxima geração sob o domínio de Jeroboão II, mandatário capaz que governou por muito tempo, e de seu contemporâneo Azarias, que era igualmente jovem, capaz e que
também governou por longo tempo.

Jeroboão foi uma das figuras militares marcantes da his-
tória de Israel. Embora não tenhamos conhecimento de nenhu-
ma de suas batalhas (existe uma alusão em Am 6,13 a duas
vitórias suas na Transjordânia), ele conseguiu colocar suas fron-
teiras setentrionais onde tinham sido as fronteiras de Salomão,
na entrada de Hamat (2Rs 14,25; lRs 8,65). Em virtude desta
ação ao norte da Celessíria, um pouco ao sul de Cades, houve
uma restrição tanto no território de Damasco quanto no de
Hamat. Com efeito, 2Rs 14,28, sugere que Jeroboão impôs
sua autoridade a ambos os Estados, o que certamente não é
improvável; mas o texto deste versículo é irremediavelmente
obscuro, deixando incerta a amplitude precisa das conquistas de
Jeroboão. Mas pode-se presumir uma derrota completa de
Damasco, e a anexação, pelo menos, das terras araméias da
Transjordânia, ao norte do Yarmuk.

No sul da Transjordânia, a fronteira de Israel fica num
ponto ao longo do mar Morto (“mar de Arabá”). Como este
ponto (chamado em Am 6,14 de “torrente de Arabá”) é
incerto, não sabemos com certeza, pelo texto, se Jeroboão
apenas impôs certas restrições aos moabitas ou se os conquistou
completamente. Se a “torrente de Arabá” é a mesma “torrente
dos salgueiros” (Is 15,7), ('arãbim), e se esta é, como parece,
o Wadi el-IIesã (Zered), no extremo sul do mar Morto[8],
houve uma conquista total. De qualquer modo, podemos presumir que pelo menos os moabitas e amonitas foram expulsos
do território israelita e controlados severamente.

Azarias, que começou a reinar em Judá com dezesseis anos
de idade (2Rs 15,2), e que provavelmente, no começo, foi obscurecido por seu contemporâneo[9], logo surgiu como um parceiro acabado deste programa agressivo. Em 2Cr 26,9.11-15, são
atribuídas a ele a reforma das defesas de Jerusalém, a reorganização e a nova estrutura do exército e a introdução de
novos dispositivos a serem usados em caso de cerco[10]. Ele também empreendeu operações ofensivas (2Cr 26,6-8). Ademais,
impôs abertamente seu controle sobre as terras edomitas, e depois consolidou sua posição ao longo das rotas de comércio,
com operações contra as tribos árabes do noroeste[11]. O porto
fortificado de Asíongber (Elat) foi reconstruído (2Rs 14,22) e
reaberto como uma estação intermediária para o comércio com
o sul; encontrou-se no local um selo provavelmente do filho
de Azarias e seu co-regente, Jotão [12]. O Negeb e o deserto do
sul estavam igualmente debaixo do firme controle de Azarias,
como se vê pelo sistema de fortificações erguido naquelas regiões para proteger as rotas das caravanas. Azarias também
estendeu suas fronteiras até o interior da planície costeira, tomando Gat, jabneel e Asdod, e erguendo cidades em território filisteu.

Embora no fim de seu reinado, “ferido pela lepra” (2Rs 15,5), Azarias fosse forçado a passar o exercício público do
poder a Jotão, ele parece ter permanecido o governante real
durante toda a sua vida.

Na metade do século oitavo, as dimensões de Israel e
Judá juntos eram quase tão grandes quanto as do império
de Salomão. E como parece ter sido aproveitada plenamente
a posição na qual a região se encontrava, seguiu-se uma prosperidade desconhecida desde Salomão.

Estando os dois Estados em paz um com o outro, as
duas principais vias de comércio — para o norte e para o sul
da Transjordânia; para o norte da Arábia, ao longo da planície
costeira, para o interior, vindo dos portos fenícios — uma vez
mais passando inteiramente através de território dominado pelos
israelitas, despejavam verdadeiros rios de riqueza em ambos os
países. Houve, provavelmente, uma revitalização do comércio do
Mar Vermelho, como houve um ressurgimento da indústria do
cobre de Arabá. É quase certo que Tiro — ainda no fim do
seu segundo período de expansão comercial — tenha sido novamente atraída para o programa por meio de um tratado, como
nos dias de Salomão e da Casa de Omri.

Tudo isso resultava numa prosperidade tal que nenhum
israelita podia lembrar-se de ter visto algo assim em toda a
sua vida. Os esplêndidos edifícios e as caras incrustações de
marfim de origem fenícia ou damascena, provenientes da Samaria, mostram que Amós não exagerava ao falar do luxo de que
vivia cercada a classe A de Israel. Judá gozava de igual
riqueza, de igual prosperidade. Em ambos cs países, a população
alcança o máximo crescimento no século oitavo, com muitas cidades passando além de suas muralhas. A descrição que o Cronista (2Cr 26,10) faz dos esforços de Azarias para aperfeiçoar e desenvolver os recursos económicos e agrícolas de
seu país, especialmente no Negeb, é corroborada pelo fato de
que este deserto era mais intensamente colonizado nesta época
do que em qualquer outra, desde o início da história de Israel [13]. A arqueologia também revela que industrias de vários
tipos (por exemplo, a industria da fiação e do tingimento
em Dabir) [14] se achavam no auge. Numa palavra, quando os
reinos de Israel e Judá alcançaram a metade do segundo século
de sua existencia, encontravam-se numa época de prosperidade
como nunca tinham vivido antes. Era, pelo menos superficialmente, uma época de grande otimismo e de grande confiança nas promessas de Deus para o futuro.

3. A enfermidade interna de Israel: o primeiro dos profetas clássicos

O quadro mais ou menos brilhante pintado acima deve,
contudo, ser confrontado com outro, muito menos luminoso.
Este quadro no-lo fornecem o Livro de Amos e o Livro de
Oséias. Com efeito, estes livros nos põem diante dos olhos
uma visão profunda da sociedade israelita da época e deixam
ver bem claro que pelo menos o norte do Estado, apesar de
sua aparência de riqueza, encontrava-se num estado avançado de
decadência social, moral e religiosa. A prosperidade do século
oito foi, de fato, um acesso héctico de sua enfermidade mortal.

a. Desintegração social do norte de Israel. — Infelizmente,
quase nada sabemos da administração do Estado por Jeroboão.
O óstraco de Samaría (um grupo de sessenta e três listas de
partidas de óleo e vinho recebidas na corte, provavelmente
como pagamento de impostos) [15] parece indicar um sistema administrativo modelado sobre o de Salomão. Porém, não podemos dizer que encargos, fiscais ou de outra espécie, o Estado
impunha a seus cidadãos. É certo, contudo, que a condição do
cidadão humilde era desnecessariamente pesada, e que o Estado
pouco ou nada fazia para o aliviar.

A sociedade israelita, como Amós no-lo revela, era marcada por flagrantes injustiças e um contraste chocante entre
os extremos de riqueza e pobreza. O pequeno lavrador, cujo
estado econômico era, quando muito, marginal, achava-se muitas vezes nas garras de usurários e, à menor calamidade —
uma seca, a perda de uma colheita (cf. Am 4,6-9) — ficava
sujeito à execução da hipoteca e à evicção, quando não ao trabalho escravo.

O sistema, que já era por si mesmo severo, tornava-se
cada vez mais cruel em virtude da ganância dos ricos, que se
aproveitavam sem a menor consciência do estado de miséria dos
pobres para ampliar suas posses, muitas vezes recorrendo
às práticas mais ilícitas como falsificação de peso e medidas
e a vários subterfúgios legais para conseguir os seus fins (cf.
Am 2,6ss;5,l 1 ;8,4-6). E, embora as práticas ilícitas campeassem em toda parte, uma vez que os juizes eram venais
(Am 5,10-12), os pobres não tinham a quem recorrer: eram
cada vez mais roubados e desapropriados.

A verdade é que, por esta época, a estrutura social de
Israel tinha passado por uma mudança radical. Ela tinha
sido originalmente uma federação tribal, formada em aliança
com Iahweh. Embora tivesse conhecido nos seus primeiros dias
muita injustiça e violência, sua estrutura social tinha sido uma
estrutura unificada, sem distinções de classe, na qual a base
de toda a obrigação social era a aliança com Iahweh e na
qual todas as controvérsias eram julgadas pela lei da aliança.

Agora, tudo havia mudado. A monarquia, com toda a
organização exigida pela coroa, tinha transferido a base efetiva da obrigação social para o Estado e, juntamente com o começo
da atividade comercial e seu franco progresso, criou uma classe
privilegiada, enfraqueceu os laços tribais e destruiu a solidariedade característica da sociedade tribal. Além disto, a absorção
de numerosos canaanitas que não estavam integrados no sistema
tribal e cujo background era feudal, dera a Israel uma massa
de cidadãos que pouco compreendiam a aliança ou a lei da
aliança.

Estas tendências, iniciadas com Davi e Salomão, continuavam livres de todo controle, apesar dos protestos e revoluções. Por volta do século oitavo, embora o javismo permanecesse a religião nacional, com seu culto superficial à aliança com
Iahweh, a lei da aliança chegara na prática a significar muito
pouco. A sociedade de Israel havia perdido o seu padrão ancestral, mas não tinha feito as pazes com nenhum novo padrão.

b. Decadência religiosa no norte de Israel. — Como se
pode suspeitar do que ficou dito acima, a desintegração social
acompanhou passo a passo a decadência religiosa. Embora os
grandes templos de Israel estivessem cheios de adoradores ê
fossem generosamente mantidos por eles (cf. Am 4,4 ss: 5,21-
-24), é evidente que o Javismo em sua forma pura já não
era mais praticado. Muitos dos santuários locais eram abertamente pagãos; o culto da fertilidade, com seus ritos degradantes,
era praticado em toda parte (Os 1 a 3;4,11-14). É significativo que o óstraco de Samaría traga quase tantos nomes compostos com “Ba‘al” quanto com “Iahweh”[16]. Embora em muitos destes casos Ba‘al (Senhor) possa ter sido apenas uma
invocação de Iahweh (cf. Os 2,16) é clara a conclusão de
que muitos israelitas eram adoradores de Ba‘al (o Judá da
época tinha dito “não” a tais nomes!)[17]. Devemos nos lembrar que o expurgo de Jeú se dirigira contra o Ba‘al de Tiro,
não tendo erradicado os cultos pagãos nativos, pois nem mesmo tentara fazê-lo. Embora não tenhamos meios de medir até que ponto, parece que até a religião oficial do Estado tinha
absorvido ritos de origem pagã (Am 2,7ss;5,26; Os passim)
e, o que era pior, dado ao culto toda a função pagã de aplacar a divindade com rituais e sacrifícios para assegurar a paz do status quo.

Um Javismo tão diluído não poderia com certeza ter nenhum sentimento profundo da lei da aliança, e tampouco poderia insurgir-se contra a violação desta lei. Os sacerdotes dos
santuários locais, também pagãos ou meio-pagãos, certamente
pouco se preocupavam com as leis e com sua violação. Quanto
ao clero do culto do Estado, era composto de oficiais e grandes
homens de estado, que não poderiam nem reprovar ou censurar
a situação (Am 7,10-13). Mais surpreendente ainda parece o
fato de não ter havido nenhuma reprovação enérgica por parte
das ordens proféticas, que nunca hesitaram no passado em resistir ׳?.o Estado em nome de Iahweh. A maior parte delas parece ter capitulado completamente diante da ordem existente. Podemos apenas supor que, tendo resistido a Jezabel até a morte e tendo visto seus fins imediatos alcançados pelo expurgo de Jeú, elas se satisfizeram muito facilmente e, cegas
para o fato de que o paganismo ainda permanecia e alegrando-se com o ressurgimento de Israel, tinham colocado seu fervor patriótico a serviço do Estado e dado a este serviço
a bênção de Iahweh; incapazes de criticar os seus oráculos nacionalísticos, contribuíam para a complacência geral. Parece até que, como um grupo, os profetas tinham mergulhado numa
corrupção geral e se tornado oportunistas, profissionais interessados principalmente nas suas retribuições (Am 7,12; Mq 3,5.11), sendo olhados por todos com desprezo.

Entretanto, sente-se que o estado geral de Israel, apesar
de estar profundamente contaminado, era de otimismo. Isto
devia-se em parte ao orgulho pela força da nação e pelo horizonte internacional desanuviado momentaneamente, mas devia-se
também à confiança nas promessas de Iahweh.

A verdade é que tinha havido uma perversão íntima na
religião de Iahweh. Os atos generosos de Iahweh em benefício
de Israel eram sem dúvida lembrados freqüentemente no culto
e a aliança de Iahweh com seu povo era periodicamente reafirmada; mas parece (Am 3,3ss;9,7) que isto era considerado como a proteção incondicional de Iahweh a favor da nação
durante todos os anos futuros, enquanto que as obrigações
impostas pelo favor de Iahweh (cf. Am 2,9-12) e pelas estipulações da aliança tinham sido totalmente esquecidas. Com efeito, parece que se tinha estabelecido um conceito geral de
que a aliança entre Deus e seu povo era algo que existia na natureza das coisas, assegurando incondicionalmente à nação
o favor divino. A obrigação da aliança, enquanto não tinha
perdido totalmente sua significação, era concebida como uma
questão puramente de culto, cujas exigências poderiam ser satisfeitas — e, conforme o ponto de vista de Israel, o estavam sendo — por um ritual sofisticado e pela generosa manutenção
dos santuários nacionais.

Quanto ao futuro, Israel confiava na vinda do Dia de
Iahweh. A origem deste conceito, mencionado pela primeira
vez em Am 5,18-20, mas já uma esperança popular enraizada
no século oitavo, é obscura e discutida É provável que, à medida em que eram lembradas as tradições dos grandes dias
da intervenção de Iahweh no passado — no Êxodo, na conquista, nas Guerras Santas dos juizes — crescia a expectativa
do dia em que Iahweh viesse intervir decisivamente em favor
de Israel, esmagar seus inimigos e assegurar-lhe a posse da
terra prometida a seus antepassados.

Embora Israel ainda estivesse apegado às características
de sua religião normativa — eleição, aliança, promessa —,
existia uma profunda perversão no seio da própria religião.
O Javismo corria o perigo de tornar-se uma religião pagã.

c. O protesto profético: Amós e Oséias. — Nesta conjuntura, subiram ao palco da história de Israel os dois primeiros daquela sucessão de profetas cujas palavras nos foram
preservadas na Bíblia: Amós e Oséias. Embora não fossem
de modo algum homens de personalidades idênticas, embora
suas mensagens sobre algumas questões fossem muito diferentes, ambos atacavam os abusos do momento de uma maneira que se tornou clássica.

Da carreira de Amós, que começou a falar por volta
de meados do século oitavo, conhecemos somente os seguintes fatos: que veio de Técoa, nas fronteiras do deserto da Judéia
(Am 1); que era membro das ordens proféticas, sendo porém
um pastor de ovelhas cuja única credencial era um tremendo
senso de vocação para falar a palavra de Iahweh (c. 7,14ss; 3,3-8); que seu ministerio, pelo menos em sua maior parte,
foi desempenhado dentro das fronteiras setentrionais do Estado; e que, tendo uma vez (c. 7,10-17) desabafado no santuário régio de Betel, fora proibido de continuar a falar.

A mensagem de Amos era um ataque violento contra os
males sociais de seu tempo, particularmente contra as injustiças
e a desonestidade com que os ricos tratavam os pobres, esmagando-os (c. 2,6ss;5,10-12:8,4-6), mas também sobre a imoralidade e o luxo que tinham minado o caráter nacional (c. 2,
7ss;4,l6;3־,l-6) — tudo isto ele considerava como pecado,
que Iahweh iria castigar severamente. Embora Amos nunca
use a palavra “aliança”, é claro que ele avaliava o pecado
nacional de acordo com o critério da lei da aliança, achando-o
duplamente odioso à luz do favor de Iahweh para com Israel
no Êxodo e na doação da térra (c. 2,9-12 )[18].

Ele atacava o conceito geral de que a eleição de Israel
por Iahweh garantia-lhe proteção (cc. l;2;3,lss;9,7) ou de
que as obrigações da aliança podiam ser cumpridas apenas com
atividades de culto (c. 5,21-24), declarando que o culto de
Israel havia se tornado um lugar de pecado, no qual Iahweh
não estava presente (cc. 4,4ss;5,4-6).

Amós não tinha nenhuma esperança quanto ao reino do
norte. Ou melhor, oferecia alguma esperança somente sob a
condição de que praticasse a justiça (c. 5,14ss), mas não via
nem sinal disto. Sendo assim, declarava que o único futuro
de Israel era a ruína total (cc. 5,2;7,7-9;9,l-4.8a); o Dia de
Iahweh, esperado pelos israelitas, deveria ser o terrível dia do
juízo divino (c. 5,18-20).

Deve-se notar que, apesar disso tudo, Amós não promovia nenhuma revolução contra o Estado, como fizeram seus predecessores. Embora tivesse sido acusado disso (c. 7,10-13),
sua furiosa negativa (v. 14ss) era corroborada pelos fatos.
Amós não pregava a revolução porque acreditava que Israel
não tinha mais cura, nem mesmo com uma revolução: Iahweh,
e somente Iahweh é que deveria vingar-se.

Quanto a Oséias, embora a totalidade dos seus oráculos
diga respeito ao caótico período que deverá ser descrito no
próximo capítulo, sua carreira começou igualmente (Os 1,4)
durante o reinado de Jeroboão, somente um pouco depois ou
um pouco antes de Amós. Cidadão do norte, Oséias parece
ter descoberto sua vocação através de uma trágica experiência
doméstica (c. 1 a 3). Embora seja impossível ter certeza[19],
parece que sua mulher, que ele amava ternamente, o atraiçoou
e passou a levar uma vida de imoralidade, se não de prostituição sagrada; alegando que ela tinha prevaricado, ele foi
obrigado a separar-se dela. Essa experiência, sem dúvida, contribuiu para dar à mensagem de Oséias uma forma característica.

Descrevendo o vínculo da aliança como um matrimônio,
ele declarou que Iahweh, sendo “casado” com a nação de Israel,
esperava dela a fidelidade que um marido espera de sua esposa,
mas que a nação de Israel, adorando outros deuses, cometeu
“adultério” e, por isso, estava sujeita à “separação”, à ruína
nacional (c. 2,2-13). Oséias insurgiu-se contra o culto de Baal,
o culto paganizado de Iahweh e toda a corrosão moral que o
paganismo facilitava (cc. 4,1-14;6,8-10;8,5ss), acusando Israel
de ter esquecido os benefícios de Iahweh (cc. 11,1-4;13,4-8)
e afirmando que Israel não era mais o seu povo (c. 1,9). E
uma vez que não via nenhum sinal de verdadeira penitência
(cc. 5,15-6,6;7,14-16), ele acreditava, como Amós, que a nação
estava sob a maldição da aliança, condenada à destruição (cc.
7,13;3,917־). Com certeza, ele alimentava a esperança de que,
como ele, que tinha (naturalmente) perdoado e reabilitado sua
própria mulher (c. 3), Iahweh, no seu infinito amor, um dia
perdoaria Israel depois de tê-lo castigado, o reabilitaria em sua
terra e mais uma vez se “casaria” com a nação (cc. 2,14-23; ll,8.11;14,l-7). Mas isto era algo posterior ao inevitável desastre prestes a desabar sobre a nação.

d. O lugar dos profetas na história da religião de Israel.

— Uma vez que o movimento do qual Amós e Oséias foram
os primeiros representantes devia continuar por mais três séculos,
influenciando todo o curso da história de Israel de maneira
a mais profunda, é necessário, neste ponto, dizer algumas palavras a respeito de sua natureza.

Os profetas clássicos representam, com efeito, um fenômeno novo em Israel. Entretanto, eles não eram certamente
os pioneiros espirituais, especificamente os descobridores do
monoteísmo ético, como têm sido tantas vezes considerado,
Embora não deva ser questionada a originalidade de sua contribuição, eles não eram contudo inovadores, mas homens que,
estando bem inseridos na tradição de Israel, adaptavam esta
tradição a uma nova situação.

Os profetas clássicos, é verdade, não gostavam da venali-
dade dos profetas profissionais e estavam convencidos de que
seus oráculos otimistas não representavam a palavra de Israel,
rompiam totalmente com as ordens proféticas, desmentiam-nas
e denunciavam-nas (Am 7,14; Mq 3,5 e 11; Jr 23,9-32). Além
disso, em certas questões essenciais, eles eram diferentes dos
antigos profetas extáticos. Os profetas clássicos, embora muitas
vezes fazendo suas profecias mimeticamente, como seus predecessores tinham feito (por exemplo, Is 20; Jr 27 e 28; Ez 4 e 5; lRs 22,1-28) e, embora dados a profundas experiências
psíquicas (Am 7,1-9; Is 6; Jr 1; Ez 1 etc.), não profetizavam
em frenesi extático, mas em plena posse de suas faculdades,
transmitindo suas mensagens na forma de oráculos poéticos burilados, geralmente da mais alta qualidade literária.

Eles transmitiam publicamente tais mensagens; e, sem dúvida, enquanto eles eram lembrados, elas eram transmitidas e
coligidas através de um complexo processo de transmissão oral
e escrita, que deu origem aos livros proféticos como os conhecemos. Além disso, embora saibamos que certos profetas
atraíam grupos de discípulos (por exemplo, Is 8,16), eles não
profetizavam em grupos, mas sozinhos. Ademais, apesar de
transmitirem freqüentemente suas mensagens nos santuários,
empregando muitas vezes terminologia litúrgica, e de muitos deles terem vindo das fileiras do clero, eles não atuavam como
funcionários do culto [20].

Tratava-se de homens de todas as condições sociais, que
tinham sentido o impulso da palavra de Iahweh e que tinham
descoberto — freqüentemente, provavelmente sempre — sua
vocação através de alguma experiência pessoal. Finalmente,
como seus predecessores, eles discordavam livremente do Estado e tentavam influenciar continuamente sua política, mas
nunca, ao que sabemos, tomaram parte em atividades revolucionárias.

Ao mesmo tempo, é evidente que os profetas clássicos
continuavam a tradição de seus predecessores. Eles eram tratados com o mesmo título (nãbi), desempenhavam a mesma
função de pregar a palavra de Iahweh e lançavam seus oráculos
com as mesmas formas de tratamento. Cem efeito, as semelhanças eram tão grandes que seria difícil distinguir um profeta
“verdadeiro” dos profissionais por qualquer teste externo (Jr
27;28; Dt 18,20-22); Amós enganou-se realmente com um
deles (Am 7,12). Ademais, os profetas clássicos tinham muito
dos pontos de vista de seus predecessores: por exemplo, não
gostavam de compromissos estrangeiros, mas gostavam de conservar as tradições do passado e de nelas buscar as formas à
luz das quais deveria ser julgada a ordem existente (Am 2,
9-12; Os 11,1; 12,9ss; 13,4ss; Jr 2,2ss). E, o que é mais importante, os pontos principais da crítica profética clássica —
a adoração dos deuses estrangeiros e a violação da lei da
aliança — foram precisamente os pontos do ataque da ordem
profética.

Basta-nos apenas recordar a censura de Natan a Davi, a
denúncia de Elias do crime de Acab contra Nabot ou a guerra
santa de Elias contra Ba‘al de Tiro, para vermos que os pro-
fetas clássicos não foram os primeiros a descobrir que Iahweh
exige um comportamento correto, nem os primeiros a insistir
em que somente Iahweh deve ser adorado. Em ambos os pon-
tos, eles eram herdeiros de uma tradição que remontava, numa
linha ininterrupta — através de homens como Miquéias bem Imlsh, Elias e Aias de Silo —, até Samuel e à ordem da
aliança dos primórdios de Israel.

Os profetas clássicos eram representantes, em uma nova
ordem, de uma missão que já existia em Israel desde o começo
ou pouco antes da monarquia. Era uma missão que estava em
continuidade com a liderança carismática dos juizes, através da
qual se concebia Iahweh como exercendo o governo direto de seu povo .

Tratava-se, no verdadeiro sentido da palavra, de uma missão política, porque os profetas falavam como mensageiros
da corte celeste de Iahweh, como agentes designados do seu
império no mundo, sendo seu dever lembrar aos reis e aos
grandes do Estado que o governador real de Israel era Iahweh,
criticando e corrigindo o Estado à luz da vontade declarada de
Iahweh. E os profetas fizeram repetidas vezes tal crítica, como
vimos. Mas agora, nos meados do século oitavo, quando se
tornou evidente que a nação como um todo, por sua má conduta, se havia rebelado completamente contra o domínio de
Iahweh e quando as próprias ordens proféticas pareciam
em geral ter perdido a força e a vontade de fazer qualquer
crítica eficiente, é claro que se fazia mister uma palavra mais
severa.

Esta palavra, foi trazida pelos profetas clássicos. Todo o
seu ataque aos pecados da sociedade estava fundamentado no
sentimento cada vez mais arraigado da soberania de Iahweh
sobre Israel e da obrigação incondicional de Israel de obedecer
às normas de sua aliança. Eles rejeitavam a noção de que
o status de Israel como povo de Iahweh se baseava, à maneira
dos pagãos, no sangue, no solo e no culto, de que a aliança
com Iahweh o obrigava incondicionalmente para o futuro ou
de que a obrigação da aliança poderia ser atendida por uma
religiosidade material.

Consultando as tradições normativas, eles acharam a base
da existência de Israel nos favores de Iahweh para com a
nação e no pacto solene de aceitar sua liderança, independentemente de qualquer outro deus e obedecendo rigorosamente à sua justa lei em todas as suas injunções, quer na vida particular,
quer na vida pública. Toda a sua mensagem girava em torno
de um profundo conhecimento da aliança com Iahweh e de
suas exigências. Mas, uma vez que estava claro para eles que
Israel tinha violado claramente os termos da aliança — estando realmente em rebelião declarada contra o soberano Senhor
da aliança —, a única mensagem que eles podiam ouvir na corte
celeste era uma mensagem de julgamento: Iahweh, como
acusador e juiz, está julgando seus vassalos rebeldes e proferirá
uma sentença contra eles; ele voltou sua ira contra seu povo,
desencadeará as maldições da aliança sobre ele e o destruirá.

Mas, paradoxalmente, à medida que os profetas anunciavam a sentença divina, a nota de promessa inerente à religião
de Israel — diante da qual eles não podiam capitular e a qual
tampouco podiam aceitar em sua forma popular ·— começou
a ser desligada da nação, sendo arremessada para o futuro com
novas dimensões.

Em Israel, o século oitavo chegou a seus meados com uma
nota terrivelmente dissonante: o Estado de Israel, externa-
mente forte, próspero e confiante no futuro, estava internamente
corroído, vítima de uma doença incurável. Este sentimento de
insatisfação, apregoado por Amós e Oséias, mas certamente
sentido por outros, expressava-se na idéia de que Israel tinha
chegado ao fim, de que a religião de Israel não podia mais
fazer as pazes com Israel, de que Iahweh tinha sido comple-
tamente alienado do seu povo, no que se refere ao norte do
Estado. Como veremos, o “verão indiano” não havia durado
muito. Israel tinha de fato começado a morrer. Quando o
norte do Estado baixou ao túmulo, devendo ser seguido mais
tarde por seu irmão do sul, foi sobretudo graças aos profetas
que a religião de Israel recebeu uma nova injeção de vida.

Albright, in JBL, LXXI (1952), p. 251. 


[2] Alguns acreditam que 2Rs 6,24 a 7,20 (em que o rei israelita não
é nomeado) reflete a humilhação de Joaçás: cf. Kittel, in GVI, II,
p. 270; cf. nota 45, acima. 

[2] Cf. 2Rs 8,7-15. Um texto de Salmanasar III refere-se a Hazael 


[3] Gat provavelmente ainda pertencia a Judá (cf. 2Cr 11,8). Ha-
zael possivelmente agiu aqui como aliado dos filisteus, como o LXXL
de 2Rs 13,22 virtualmente afirma (cf. Noth, in Hl, pp. 237ss), Mas
cf. Montgomery, o.c., p. 438. 

[4] Gat provavelmente ainda pertencia a Judá (cf. 2Cr 11,8). Ha-
zael possivelmente agiu aqui como aliado dos filisteus, como o LXXL
de 2Rs 13,22 virtualmente afirma (cf. Noth, in Hl, pp. 237ss), Mas
cf. Montgomery, o.c., p. 438. 


[5] Cf. Pritchard, in ANET, pp. 281ss. A esteia recentemente pu-
blicada (cf. Stephanie Page, Iraq, XXX [1968], pp. 139-153; VT,
XIX [1969], pp. 483ss) conta-nos que Adad-nirari recebeu tributo de Joás
(Jehoash) de Samaria. Esta é a menção mais antiga de Samaria co-
nhecida (por este nome, em vez de Bet-Omri) num texto assírio. A
estela indica tanto que Adad-nirari fez mais uma campanha para o oeste
depois que Joás tomou o trono, como também que o reino deste
último começou por volta de 802 (cf. A. Jepsen, in VT, XX [1970],
pp. 359-361; J. A. Soggin, ibid., pp. 366-368), e que ele era co־regente
com seu pai (A. Cody, in CBQ, XXXII [1970], pp. 325-340). 


[6] Conhecida da esteia contemporânea de Zakir, rei de Hamat; cf.
Pritchard, in ANE Suppl., pp. 655ss, onde F. Rosenthal preferiu
uma data antiga do século oitavo; (cf. a bibliografia aí existente, especial-
mente Noth, in ZDPV, Lil [1929], pp. 124-141). 


[7] M. Haran (in VT, XVII U%7], pp. 266-297) argumenta com
base em 2Rs 13,25 que Joás não recuperou a Transjordânia, uma vez
que aquela área foi perdida por Jeú (2Rs 10,32ss), não por Joaçás.
Isto é possivelmente correto, mas nós sabemos muito pouco dos detalhes
deste combate para que possamos ter certeza. Não estou convencido
de que Am 1,1 a 2,6 indique que a Transjordânia não estava sob o
controle israelita quando Jeroboão II se apossou do trono. 


[8] Cf. Ahroni, in LOB, p. 313. 


[9] Alguns suspeitam (por exemplo, Albright, in BP, p. 70) que o
texto obscuro de 2Rs 14,28 alude à expansão israelita às custas de
Judá. Mas não podemos estar certos. 


73 Não máquinas balísticas, mas estruturas de madeira erguidas em
torres e ameias, dentro das quais se podia adaptar escudos, oferecendo
assim maior proteção para os fundeiros e arqueiros que defendiam as
muralhas; cf. Yadin, The Art of Warfare in Biblical Lands,
McGraw-Hill Book Company, Inc., 1963, Vol II, pp. 326ss. 


[11] Os LXX são mais claros, lendo Minaioi (M.e‘unim) por “amo-
nitas” (dificilmente correto neste contexto). Cf. Rudolph, o.c., pp.
282-285. 


«o Cf. N. Glueck, in BASOR, 79 (1940), pp. 13-15; ibid. 72
(1938), pp. 2-13. 


[13] Sobre as explorações no Negeb, veja os vários artigos de N.
Glueck, in BASOR; mais recentemente, 179 (1965), pp. 6-29 (p. 6,
nota 1, para referências a relações mais antigas). Para uma relação po-
pular, idern, Rivers in the Desert, 2? ed., W. W. Norton & Company,
Inc. (1968), especialmente cap. VI. 


[14] Cf. Albright, in AASOR, XXI-XXII (1943) — veja o índice. 


[15] Procedem de uma área que corresponde mais ou menos a um
dos distritos de Salomão, e provavelmente representam impostos e não
receitas de propriedades da coroa. O fato de que grande quantidade
delas é datada do décimo quinto ano (e uma do décimo sétimo?)
de um rei não nomeado, levou durante muito tempo os estudiosos ao reino de Jeroboão. Mais recentemente, Y. Yadin (Scripta Hierosolymitana,
VIII [1961], pp. 1-17) apresentou fortes documentos para uma data
no reinado de Menaém, e sua opinião recebeu acolhida geral. Mas o
reino de Jeroboão, uma vez mais, parece preferível; cf. Aharoni, in
LOB, pp. 315-327 (onde existe mais literatura), que divide a ostraca
entre os reinos de Jeroboão e de seu pai, Joás. Cf. também Aharoni,
in BASOR, 184 (1966), pp. 13-19. 


[16] A proporção é aproximadamente de 7 para 11 em favor dos
nomes formados com Iahweh; cf. Albright, in ARI, p. 155. 


[17] A afirmação continua verdadeira, mesmo com a adição do óstraco 


[18] Pode ser que a fonte imediata das normas de avaliação de Amós
esteja no “etos de clã” de seu próprio passado rural (assim, por
exemplo, H. W. Wolf, Amos’geistige Heimat, in WMANT, 18 [1964]),
mas somente se este for compreendido como um dos canais importantes
através do qual foi transmitido o conhecimento da lei da aliança.
Parece claro que Amós conheceu material legal como o que encontra-
mos no Livro da Aliança; cf. J. L. Mays, Amos, in OTL (1969),
pp. 47-49. 


[19] Não podemos discutir aqui esta questão controversa; veja os
últimos comentários de J. L. Mays (Hosea, in OTL, 1969), pp. 21-60.
Para melhor discussão sumária, veja H. H. RowaEY, The Marriage
of Hosea (1956) reeditado, in Men of God, Thomas Nelson & Sons,
1963, pp. 66-97. 


[20] Freqüentemente se expressa a opinião de que os profetas falavam
como funcionários do culto. Porém, apesar de não ser impossível que
alguns deles (Naum, por exemplo?) eram tais, os profetas, clássicos, como um grupo, em minha opinião não podem ser entendidos como
tais. Para discussão deste assunto, veja a bibliografia, cf. H. H. Rowley,
Worship in Ancient Israel S. P. C. K., Londres, 1967, cap. 5.

Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.