23 de junho de 2016

John Bright: Israel e Judá da ascensão de Onri até o expurgo de Jeú (876-842)

história de israel
1. A Casa de Omri: recuperação de Israel

Finalmente, Israel tinha conseguido estabilidade, graças
ao rigoroso Omri, cuja posse no trono já assinalamos. Embora
seu reinado tenha sido breve (876-869), ele foi capaz de estabelecer uma dinastia que se manteve no poder até a terceira
geração e de iniciar uma política que restaurou Israel em sua
força e prosperidade.

a. A situação política por ocasião da ascensão de Omri.

Pode-se dizer que Omri subiu ao poder no momento exato,
pois cinqüenta anos de instabilidade tinham deixado Israel
incapaz de defender-se contra seus vizinhos hostis. Especial mente perigoso entre eles era o reino arameu de Damasco, que
havia usurpado progressivamente a antiga posição de Israel
como potência dominante da Palestina e da Síria. Seu governante era o ancião muito capaz Benadad I (aproximadamente
880-842), que, alguns anos antes, havia assaltado Baasa, devastando o norte da Galiléia e provavelmente apoderando-se
da Transjordânia, ao norte do Yarmuk[1]. Um monólito seu, encontrado em Alepo, mostra que em aproximadamente 850,
sua influência dominante (embora provavelmente não seu território real) alcançava a parte externa do norte da Síria. O
fato deste monólito ser dedicado a Baal Melcart, de Tiro, sugere
que Benadad estava então em relações de aliança com aquele
Estado fenício[2]. Parece que Benadad se aproveitara da fraqueza de Israel durante o reinado de Baasa ou durante a
guerra civil que o seguiu (ou seu predecessor já o havia
feito antes) para anexar certas cidades de fronteira (provavelmente a leste do Jordão) e extorquir concessões de mercadores arameus nas cidades israelitas (lRs 20,34) [3]. Omri herdou
um Israel reduzido e ameaçado.

Além deste perigo imediato, no horizonte internacional
começavam a aparecer nuvens — embora talvez no começo muito pequenas, só alarmando uns poucos — como Israel nunca
tinha visto em toda a sua história. O Egito, como era de se
esperar, mergulhou uma vez mais em sua futilidade, tornando-se incapaz de se intrometer na Palestina durante o período
de que nos ocupamos. Porém, lá longe, na Mesopotâmia, esta-
va surgindo uma nova potência imperial — a Assíria. Devemos
recordar que a Assíria, fator importantíssimo na política mundial do segundo milênio, tinha, diante da pressão crescente dos
arameus, ficado cada vez mais restrita, até que se viu sozinha
para se proteger. O ponto mais baixo desse estado de depressão
foi atingido com Assur-rabi II (1012-972) e seus sucessores,
quando Davi e Salomão estavam no trono. Mas, enquanto o
Estado de Davi se desmoronava, sua recuperação começava sob
Assur-dan II (935-913) e seus sucessores.

a. O seu governante agora era Assur-nasir-pal II (884-860),
homem que fez do terror um instrumento do Estado e cuja
brutalidade não tinha tido talvez paralelo na história da
Assíria. Continuando as conquistas de seus predecessores, Assur-
-nasir-pal dominou a alta Mesopotâmia para oeste, até o
Eufrates, obrigando todos os Estados arameus, um a um, a ajoelhar-se a seus pés. Então, durante o breve reinado de Omri,
ele lançou suas forças através do rio, fez devastações a oeste
e ao sul, através da Síria, até o Líbano, e “lavou suas armas”
no Mediterrâneo, extorquindo tributo das cidades fenícias de
Arvad, Byblos, Sidon e Tiro [4]. Uma vez que os assírios se
retiraram, isto não representou uma conquista permanente.
Mas já era um prenúncio de tempos piores. Um a um, os
pequenos Estados da Síria e da Palestina despertaram para o
fato de que surgira um perigo mortal.

b. A política exterior da Casa de Omri. — Embora a
Bíblia só consagre a seu reinado cinco ou seis versículos (lRs
16,23-28), Omri foi evidentemente um homem de grande
habilidade. Os assírios referiam-se a Israel como “a Casa de
Omri” muito depois de ter terminado sua dinastia! A política
de Omri para a recuperação de Israel modelou-se, em suas
características principais, na política de Davi e Salomão; ela
requeria paz interna, relações amigáveis com Judá, íntimos
vínculos com os fenícios e mão forte sobre o leste do Jordão,
particularmente contra os arameus. Esta política foi lançada
por Omri e continuada por seu filho Acab (869-850), numa
série de medidas que, em virtude da natureza de nossas fontes, não podem ser colocadas em ordem cronológica.

O próprio Omri selou uma aliança com Etbaal, rei de Tiro,
pelo casamento de Acab com Jezabel, filha de Etbaal (lRs
16,31). A aliança foi mutuamente vantajosa. Tiro estava
no auge de sua expansão colonial (Cartago foi fundada mais
tarde, nesse mesmo século). Sendo Tiro parcialmente dependente da importação de víveres, a aliança ofereceu a Israel
tanto um escoadouro para seus produtos agrícolas como numerosas oportunidades comerciais. Tiro, por sua vez, desejava
tanto contrabalançar o poder de Damasco quanto reativar o
comércio com Israel e, através dele, com as terras do sul. O
próximo passo foi a aliança com Judá. No começo do reinado
de Acab, se não antes, a aliança foi formalmente arranjada pelo
casamento da irmã (cu filha) de Acab, Atalia, com Jorão, filho de Josafá, rei de Judá[5]. Não há a menor razão para se
supor, como pensam muitos, que não se tratava de um acordo
amigável entre iguais[6]. A aliança era tanto militar quanto
comercial. Com efeito, mais adiante, temos conhecimento de
uma tentativa de restabelecer o comércio ultramarino de Asiongaber (c. 22,48ss) [7]. Embora a tentativa tenha falhado, o fato
de ela ter sido feita indica uma esperança de reaver as fontes
das riquezas de Salomão.

Ccm sua rixa interna terminada, Israel e Judá podiam
mostrar força contra seus vizinhos. De todo o Estado transjordaniano, somente Amon não foi reconquistado. Pelo que
sabemos da pedra moabíta (cf. 2Rs 3,4)[8], Omri derrotou
Moab e o fez um estado tributário, limitando suas fronteiras
e estabelecendo israelitas no território ao norte do Árnon.
Edom, qualquer que tenha sido o seu status nesse ínterim,
foi uma vez mais província de Judá, administrada por um
governador (lRs 22,47). Enquanto controlava as retas comerciais para o norte da Arábia a leste, Josafá também alongava
suas fronteiras para o oeste, dentro do território filisteu (2Cr
17,11; cf. 2Rs 8,22).

c. Hostilidade e aliança com Damasco. — Israel também
conseguiu vencer o seu mais perigoso rival, Benadad, de Damasco. Embora não tenhamos conhecimento de nenhuma ação
de Omri contra os arameus, o fato de ter tentado a conquista
de Moab é sinal de que ele era capaz de expulsá-los de suas fronteiras. E Acab teve de combatê-los mais uma vez. Embora
a natureza de nossas fontes não nos permita reconstruir o
desenrolar dos acontecimentos com segurança [9], é evidente
que, no fim das contas, a vantagem ficou com Israel. Tem-se
a impressão (lRs 20) de que, no começo do remado de Acab,
forças araméias penetraram profundamente em Israel, esperan-
do sem dúvida deter o seu scerguimento. Ameaçado, parece que
Acab foi forçado a dirigir-se a Benadad, virtualmente como a seu
Senhor. Mas então, depois de um golpe audacioso ter repelido
os invasores, houve uma segunda investida a leste do Jordão,
que terminou com a vitória esmagadora de Israel e a captura do
próprio Benadad. Diz-se que Acab tratou seu inimigo com
notável brandura; exigindo somente a restituição de certas
conceções anteriormente extorquidas de Israel, ele fez um tra-
tado com ele e o deixou partir — para descontentamento de
certos profetas, que não tinham a preocupação com a violação
das regras da Guerra Santa que Samuel tivera anteriormente
(lSm 15).

De qualquer modo, Acab e Benadad tornaram-se aliados e a razão está na ameaça representada pela Assíria. A Assur-nasir-pal II, cujas campanhas não haviam sido esquecidas,
tinha sucedido Salmanasar III (859-852). No seu primeiro
ano, este rei, tendo marchado para o oeste até o Eufrates,
atravessou o rio e adentrou-se pelo norte da Síria, até as mon-
tanhas de Amanos e o Mediterrâneo. Os vários reis do oeste,
sabendo muito bem que nenhum deles poderia detê-lo, formaram
rapidamente uma coalizão. Os líderes desta coalizão, que
recrutaram membros da Cilicia até Amon, foram Adadezer (Benadad) de Damasco[10], Irhulni de Hamat e (embora a Bíblia
não o mencione)[11] Acab de Israel — que contribuiu com
duzentos carros de combate e dez mil soldados de infantaria.
Foi uma medida tomada no tempo exato! Em 853, Salmanasar
atravessou novamente o rio e lançou-se para o sul, através
da Síria; e em Carcar, sobre o Orontes, a coalizão o encontrou.
Embora Salmanasar, como assírio que era, se vangloriasse
de uma vitória esmagadora, parece que ele foi temporariamente vencido. Só depois de quatro ou cinco anos é que ele encontrou-se em condições de fazer nova tentativa. A coalizão tinha, no momento, alcançado sua finalidade.

2. A Casa de Omri: a situação interna

A política vigorosa da Casa de Omri salvou Israel do
desastre, tornando-o uma vez mais uma nação de certa força.
Internamente, contudo, provocou tensões que cancelaram seus
resultados benéficos, criando uma situação prenhe de perigos.

a. A situação sócio-econômica. — Todas as evidências sugerem que, sob a Casa de Omri, Israel gozou de uma considerável prosperidade material. O maior testemunho disso é a
nova capital, em Samaria. A localidade — uma alta colina
idealmente defensável — foi comprada por Omri (lRs 16,24),
sendo, como Jerusalém, uma propriedade da coroa. A arqueologia demonstrou que a cidade, começada por Omri e completada por Acab, tinha fortificações sem paralelo na Palestina
antiga, em virtude da excelência de sua estrutura e acabamento. Incrustrações de marfim encontradas em um dos edifícios (as obras de marfim mais antigas da Samaria datam deste
período) podem ilustrar a “casa de marfim” construída por Acab (c. 22,39) [12], de que nos fala a Bíblia.

A Casa de Omri também se empenhou em construções por
toda parte. Eles mantinham uma segunda residência em Jezrael (c. 21 etc.)[13] , e também fortificaram as defesas de certas cidades-chaves, sem dúvida para proteção contra as armas
de cerco aperfeiçoadas que estavam começando a ser usadas
então. Muralhas maciças com saliências e recessos, que substituíam as paredes de casamata de Salomão em Megiddo e Hazor,
assim como túneis trabalhados através da rocha para as fontes
embaixo destas cidades, com a finalidade de lhes assegurar
água suficiente em caso de cerco, são exemplos disto (o famoso aqueduto de Megiddo que, por muito tempo, foi considerado
pré-israelita agora sabe-se com certeza datar-se da Casa de
Omri, assim como o enorme aqueduto recentemente descoberto
em Hazor)[14].

Armas ofensivas também foram aperfeiçoadas, como deixam ver as evidências do grande número de carros de combate que Acab conseguiu pôr em campo em Carear, bem como
dos famosos estábulos de Megiddo, com estrebarias para uns
450 cavalos, que por muito tempo se pensou que fossem salomónicos mas que agora, ninguém o duvida, são tidos como do
século nono.

Porém, apesar destas evidências de riqueza e força, tem-se
a impressão, por certas narrativas do Livro dos Reis — que
certamente refletem com precisão as condições — que a
sorte dos camponeses não era das melhores. Não temos meios
para dizer se as exações regulares do Estado eram onerosas
ou não. Mas existem sinais de uma progressiva desintegração da
estrutura da sociedade israelita e de um sistema grosseiro e
cruel que tendia a colocar o pobre à mercê do rico.

Os pobres, forçados, em tempos de penúria, a tomar emprestado aos ricos à taxas de usura, hipotecavam suas terras quando não as suas pessoas ou as de seus filhos — como
garantia. Assim, enfrentava-se — e, pode-se conjeturar, não
raramente (2Rs 4,1) — a perspectiva da evicção, quando não
da escravidão. Podemos suspeitar, se não podemos provar, que
a grande seca do reinado de Acab (lRs 17ss) — trata-se provavelmente de uma das que, de acordo com Josephus (Ant.,
VIII, 13,2), Menandro de Éfeso narra[15] — fez com que
muitos pequênos agricultores perdessem todas as suas terras.
Apesar de não podermos dizer quantos grandes latifundiários
aumentaram as suas propriedades pela violência e a injustiça,
podemos supor que o caso de Acab e Nabot (lRs 21), embora talvez atípico, não foi com certeza um exemplo isolado.
As práticas que Amós conheceu um século mais tarde certamente não foram aperfeiçoadas do dia para a noite! Israel
estava cheio de gente que, como Jezabel, não tinha idéia de
lei da aliança ou, como Acab, tinha pouco interesse por ela.


b. A crise religiosa: Jezabel. — Muito mais séria, contu-
do, foi a crise precipitada pela política religiosa da Casa de
Omri. Como vimos, a aliança com Tiro foi selada com o casamento de Acab com Jezabel. Seguidora das divindades tíreas,
Baal Melcart e Asera, Jezabel tinha naturalmente permissão para, juntamente com seus súditos e os mercadores que a acompanhavam com interesses comerciais, continuar a prática de
sua religião nativa em solo israelita.

Para tanto, foi construído um templo a Baal Melcart em
Samaria (lRs 16,32ss) [16]. Isto não foi mais do que Salomão
havia feito para suas mulheres estrangeiras (c. 11,1-8) e algo
que o mundo antigo aceitaria com a maior naturalidade; é
provável que somente os de mentalidade éstreita se opusessem.
Mas Jezabel, que era uma mulher de mentalidade forte, ardente de um zelo quase missionário por seu deus e sem dúvida
desprezando as tradições culturais e a religião de sua pátria
adotiva, com certeza procurava tomar o culto de Baal a religião
oficial da corte.

Havia a ameaça de uma apostasia geral de Iahweh. De
certo modo, naturalmente, a ameaça não era nova. Como já
indicamos mais de uma vez, rondava uma tentação de adotar
a adoração dos deuses da fertilidade juntamente com a adoração de Iahweh e de trazer para o culto de Iahweh práticas
próprias dos deuses da fertilidade. Este perigo se intensificara
com a absorção em massa de canaanítas sob Davi e Salomão,
muitos dos quais com certeza só praticavam a religião nacional de Israel superficialmente. Uma vez que a maioria desses
canaanitas encontrava-se agora dentro das fronteiras setentrionais do Estado, grandes porções de sua população eram apenas
semijavistas, quando muito. Uma política estatal que favorecesse o culto de Baal, teria sido aceita sem choque e até com
alegria por parte de muitos. Possivelmente Acab permitiu essa
política porque sabia disso e sentia que não pedia contar somente com o Javísmo como base de seu governo.

Embora não haja estatísticas que nos digam quão profundamente o paganismo penetrou, tem-se a impressão de que
a estrutura nacional estava minada e completamente envenenada. Embora Acab permanecesse nominalmente como javista,
como o indicam os nomes de seus filhos, Acazias e Jorão, a
corte e a classe dominante estavam completamente paganizadas;
os profetas de Baal e Asera gozavam de status oficial (lRs
18,19). Quanto à massa de israelitas nativos, podemos supor
que, embora alguns resistissem (c. 19,18) e outros se tornassem francamente pagãos, a maioria — como as maiorias estão
habituadas a fazer — oscilava entre as duas correntes (c. 18,
21).

Os javistas leais foram logo perseguidos. Não é provável
que Jezabel, por mais que desprezasse o Javistno tenha encabeçado o movimento para suprimi-lo logo no começo. Mas,
como sua política encontrou resistência, ela irritou-se e recorreu a medidas cada vez mais severas, chegando até a executar
os que ousavam se opor a ela (c. 18,4). Os profetas de
Iahweh, que se tornaram o alvo especial de sua cólera, tiveram
que enfrentar uma situação sem precedentes: embora nunca
houvesse acontecido isto em Israel, eles recebiam agora represálias pelo fato de pregarem a palavra de Iahweh. E isto
tinha sérias conseqüências. Alguns profetas, sendo simples humanos, cederam à pressão e se contentaram, a partir de então,
a dizer somente o que o rei gostava de ouvir (c. 22,1-28).
Outros, como Miquéias ben Imlah, recusando-se a comprometer-se com a situação e acreditando que Iahweh havia decretado a destruição da casa de Omri, foram afastados não somente do Estado, mas até do convívio de seus companheiros profetas. Começou, dentro das ordens proféticas, um cisma
que não mais seria sanado.

c. Elias. — Embora a mão de ferro da rainha conseguis-
se reprimir a resistência (c. 18,4), um ódio amargo estava
sendo armazenado nos corações de muitos israelitas. Sobressaindo sobre todos os inimigos de Jezabel, cristalizando e simbolizando a oposição deles todos, encontrava-se o profeta Elias —
uma figura tão misteriosa e imponente que seus feitos tornaram-se lendários em Israel. Embora não possamos reconstruir
os detalhes da carreira de Elias, a não ser pelas histórias contadas a respeito dele e de seu sucessor Eliseu, podemos saber
algo dos feitos relacionados com Acab e Jezabel.

Sendo galaadita, das proximidades da fronteira do deserto
(c. 17,1), Elias estava impregnado da tradição mais rigorosa
do Javismo. A Bíblia o pinta como uma figura solitária,
austera, de pêlo espesso, com cinto de couro cingido aos rins
(2Rs 1,8), possivelmente um Nazireato numa preparação ritual
perpétua para a guerra, que freqüentava lugares desertos para
aparecer, como por um passe de mágica, onde quer que
houvesse uma batalha de 'Iahweh a ser combatida: no monte
Carmelo (lRs 18), mostrando que Baal não era nenhum deus,
incentivando para fazer novamente a escolha de Iahweh, passando todos os profetas de Baal ao fio da espada [17], enfrentando Acab em sua vinha adquirida injustamente e amaldiçoando-o pelo crime que ele cometera contra Nabot (c. 21).

Perseguido pela ira de Jezabel, ele fugiu para Horeb (c. 19),
a montanha das origens primitivas de Israel, a fim de refugiar-se
lá e receber de novo a palavra do Deus da Aliança. Finalmente,
ele desapareceu no deserto (2Rs 2), e foi arrebatado num
carro de fogo para o céu.

Elias era o exemplo típico da tradição mosaica primitiva,
ainda viva em Israel. Não sabemos o que ele pensava da
monarquia ou dos cultos oficiais de Jerusalém e Betel. Mas
ele considerava Acab e Jezabel como verdadeiros anátemas. Seu
deus era o Deus do Sinai, que não admitia nenhum rival e não
tiraria vingança sangrenta por crimes cometidos contra a lei
da Aliança, como os de Acab.

Por isso, Elias declarou uma guerra santa contra o estado
pagão e seus deuses pagãos. Embora ele próprio não fizesse
parte deles, parecia que por vezes ele havia participado dos
grupos proféticos (2Rs 2), como Samuel havia feito muito antes dele, sem dúvida incitando-os a se manterem unidos e
firmes.

Como o Estado era odioso aos olhos de seu Deus, ele
forjou planos para derrubá-lo (lRs 19,15-17) e os transmitiu a seus seguidores. Jezabel fez muito bem em reconhecer
Elias como seu mortal inimigo. Enquanto houvesse alguém que
o seguisse, não poderia haver reconciliação entre o Estado e
grande número de seus cidadãos.

3. A destruição da Casa de Omri

O fato da reação ter sido adiada até que Acab e Elias
saíssem de cena não diminuiu em nada a sua violência. Finalmente, a cólera reprimida explodiu com tal violência que
exterminou a Casa de Omri e por pouco não destruiu todo
Israel.

a. Os sucessores de Acab: Acazias (850-849) e Jorão
(849-842). — Temos conhecimento de que Acab encontrou
a morte quando lutava contra os arameus (lRs 22,1-40) [18].

Podemos supor que o sucesso temporário obtido em Calcar
tenha levado Acab a pensar que a coalizão tinha servido a seus
fins ou que a demora de Benadad em cumprir suas promessas
(cc. 20,34;22,3) o haviam provocado a recomeçar as hostilidades. De qualquer modo, ele lançou-se à conquista da cidade
fronteiriça de Ramot de Galaad, com Josafá de Judá, tomando
a região ao seu lado; foi durante essa aventura que Acab perdeu
a vida. Foi seguido por dois de seus filhos, em sucessão, nenhum dos quais provou ser capaz de realizar um bom reinado.
O primeiro deles, Acazias, depois de reinar por apenas alguns
meses, adoeceu e não mais se recuperou (2Rs 1). Seu irmão
Jorão, que o sucedeu, parece ter percebido o ressentimento
sentido por muitos de seus súditos, porque, aparentemente
(c. 3,1-3), tentou diminuir os problemas, removendo alguns
dos mais repreensíveis objetos de culto pagão. Mas uma reforma verdadeira era impossível, mesmo que Jorão a tivesse
desejado, porque a sombra sinistra da rainha-mãe caía sobre a
terra.

Enquanto isso, a situação externa piorava. Jorão enfrentou uma rebelião protagonizada por Mesa, rei de Moab, que
tinha sido um vassalo de seu avô e de seu pai (2Rs 3,4-27).
Apesar de Jorão, com a ajuda de Judá, ter marchado até Moab,
perto da extremidade sul do Mar Morto, e aparentemente ter
sido vitorioso, foi incapaz de acabar com a rebelião. Posteriormente, como a pedra moabita nos revela, Mesa atacou o norte
de Arnon, massacrou a população israelita lá existente e estabeleceu moabitas em seu lugar[19]. A guerra com Damasco também teve uma longa duração; oito anos depois de Acab ter encontrado a morte em sua vã tentativa de tomar Ramot de
Galaad, o exército israelita ainda estava combatendo neste
local. Apesar da linguagem do c. 9,14 sugerir que a cidade
tenha passado para o domínio israelita, os detalhes da batalha não podem ser reconstituídos [20]. Judá também estava encontrando sérias dificuldades. Josafá, que morreu um ano depois de Acab, tinha sido sucedido por seu filho Jorão (849-
-842), cujo reinado coincidiu com o rei de mesmo nome em
Israel. Esse Jorão também não era uma grande figura militar.
Durante seu reinado, Edom, que tinha sido uma província do
reino de seu pai e possivelmente um território dependente de
Judá desde Davi, revoltou-se e conseguiu sua independência
(2Rs 8,20-22). Apesar de seus esforços, Jorão foi incapaz de
evitá-lo. Isto significou a perda do porto marítimo e da fortaleza de Asiongaber (cf. 14,22), e possivelmente das minas de
Arabah, com sérias conseqüências econômicas, como podemos
supor. Ao mesmo tempo, Lobna, na fronteira filistéia, também
se tornou livre. Apesar de não representar uma grande perda
em si, isto demonstra que o controle de Judá nas cidades fronteiriçás, ao longo da extremidade das planícies costeiras, não
era muito seguro (cf. 2Cr 17,11).

b. Oposição contínua aos familiares de Omri: Eliseu e o
Nebiím. — Em Israel, entretanto, a oposição à casa de Omri
continuou a crescer. Seu líder foi o sucessor de Elias, Eliseu,
que deu continuidade aos desígnios de seu senhor. Como tinha
acontecido a Samuel muito antes, Eliseu trabalhou em estreita
cooperação com aquelas ordens proféticas (benê hannebi’im) que
continuavam a resistir à política do Estado. Esses profetas nos
permitem ver claramente a natureza da reação que estava sendo
preparada solapadamente[21]. Encontramos grupos deles vivendo uma vida comunitária (2Rs 2,3-5;4,38-44), sustentados pelos
donativos dos devotos (c. 4,42), freqüentemente possuindo
um chefe no comando (c. 6,1-7). Eram reconhecidos por seu
espesso pêlo, que representava o seu culto (2Rs 1,8; cf. Zc 13,4) e aparentemente também por uma cicatriz característica
(lRs 20,41).

Eles podiam dar seus oráculos em grupos (lRs 22,1-28) ou
individualmente (2Rs 3,15), elevados em êxtase pela música e
pela dança, e por isso geralmente esperavam uma contribuição
(2Rs 5,20-27; cf. lSm 9,7s). Seu comportamento fez com
que muitos pensassem que eram loucos (2Rs 9,11); de vez
em quando, eram alvo de zombarias (2,23-25). Entretanto,
eram patriotas entusiastas, seguiam os exércitos de Israel nos
campos de batalha (3,11-19), encorajavam o rei a lutar nas
guerras da nação (lRs 20,13s) e desejavam que elas fossem
travadas de acordo com as regras da Guerra Santa (vv. 35 a
43). O próprio Eliseu era chamado “os carros de Israel e seus
cavaleiros” (2Rs 13,14): pode-se dizer que o homem valia
por divisões inteiras!

Os profetas já tinham, por esse tempo, uma história
de mais ou menos uns duzentos anos em Israel. Eles representavam um esforço para o êxtase no judaísmo, psicologicamente
semelhante a manifestações similares em quase todas as religiões existentes, inclusive no cristianismo. Nos dias da crise
dos filisteus, observamos grupos deles profetizando em delírio selvagem, ao acompanhamento de música (lSm 10,5-13;19,
18-24). Intensamente patriotas, eram representantes da tradição carismática da aliança tribal. Possuídos de fúria divina,
conseguiram homens para levar a efeito a Guerra Santa contra
os filisteus. Quando a monarquia foi estabelecida, os profetas,
patriotas como eram, pareceram, na maioria das vezes, ser
favoráveis a ela.

Entretanto, enraizados nas tradições de um governo ainda
mais antigo, reservavam-se o direito de criticar livremente o rei
e o Estado, de acordo com a aliança e a lei de Iahweh.
Só assim podemos compreender, por exemplo, a censura de
Natan a Davi no caso de Betsabéia (2Sm 12,1-15) ou o oráculo
profético, caracterizando o censo como um pecado contra
Iahweh (2Sm 24). Observamos inúmeras vezes a disposição
dos profetas de participarem de uma ação política direta (e
na tradição anfictiônica), designando líderes em nome de Iahweh,
resistindo ao princípio de sucessão dinástica e designando ou tros líderes para derrubá-los. Apesar de patriotas, sempre tinham
considerado as tradições e instituições do governo antigo de
Israel como normativas, e por elas tinham procurado corrigir
o Estado.

Não constitui surpresa que as guerras araméias tenham
provocado o renascimento das atividades proféticas; Israel estava outra vez ameaçado por uma força estrangeira, e havia
uma Guerra Santa a combater. Os profetas estimularam esta
guerra de todas as maneiras, como vimos. Mas, ao mesmo
tempo, não poderia haver nenhuma paz verdadeira entre uma
tradição tão fortemente nacionalista, tão fervorosamente apegada às antigas tradições do Javismo, e a Casa de Omri.
Tudo o que a política da Casa de Omri tinha de vínculos estrangeiros, de normas alheias às tradições nacionais, de desrespeito à lei da Aliança e de adoração de deuses estrangeiros
era diametralmente oposto a tudo o que eles defendiam.
Apesar de alguns terem se rendido diante da perseguição, o
resto nutria o seu ressentimento, e esperava o momento para
o combate.

c. Outros fatores de oposição. — Os profetas não estavam
de modo algum sozinhos no seu ódio à Casa de Omri. O fato
da revolução, quando estourou, ter sido dirigida por um general do exército (2Rs 9 e 10) e ter sido apoiada pelo exército, indica insatisfação nesta arma, provavelmente por causa
da maneira ineficaz pela qual a guerra com Aram estava sendo
conduzida e, também, com as qualidades de Jorão como chefe.
Sem dúvida, envolvido em tudo isto, como ocorre tão freqüentemente nos círculos militares, estava o descontentamento com
o que era considerado como debilidade da frente interna, o que,
por sua vez, se associava à prevalência da luxúria e dos costumes estrangeiros decadentes entre as classes privilegiadas.

O descontentamento do exército provavelmente refletia
o descontentamento popular. Só podemos, entretanto, suspeitar
isso. Porém, se a situação social e econômica interna era efetivamente como a descrevemos acima, não podemos deixar de
duvidar que havia descontentamento. O incidente de Nabot
possivelmente não podia passar despercebido ou sem despertar irritação. Afinal de contas, isso não era tratamento
ao qual os israelitas livres se tivessem jamais submetido! Embora não tenhamos notícias de revolta popular, Jeú e seus soldados quase certamente agiram de acordo com o que eles
sabiam ser o sentimento do povo.

Outros elementos conservadores também estavam dispostos a uma rebelião. Entre eles, estavam os recabitas, certamente de um clã quenita (lCr 2,55), cujo líder Jonadab participou diretamente da revolução que estava fermentando (2Rs
10,15-17). Século e meio mais tarde (Jr 35), os recabitas estavam ainda comprometidos com um voto de nazireato: nem
beberem vinho, nem serem proprietários de vinha, nem cultivarem o solo, nem construírem casas, mas morarem em tendas
como seus antepassados.

Eles aparecem, portanto, como um grupo que, por prin-
cípio, nunca tinha consentido na transição para a vida se-
dentária. Apegando-se nostalgicamente às tradições simples e
democráticas de um passado remotíssimo, eles não somente
rejeitavam totalmente a nova ordem de Israel, como também
a vida agrária com tudo o que ela implicava de simplicidade e,
ao mesmo tempo, a desintegração dos padrões antigos[22]. Para
eles׳, Jezabel e sua corte mereciam uma destruição sacrifical
completa (herem), que eles estavam prontos a ajudar. Eram
extremistas. Mas os sentimentos dos israelitas conservadores
em geral eram provavelmente só um pouco menos rancorosos.

d. O expurgo sangrento de Jeú (2Rs 9;10). — a revolução eclodiu em 842. Superficialmente, ela tomou a forma de um golpe de estado, dado por um general, Jeú. Realmente,
como sua violência indica, foi uma explosão da até então contida cólera popular e de tudo o que era conservador em Israel,
contra a Casa de Omri e toda a sua política.

b. De acordo com a narrativa, foi Eliseu quem acendeu o
estopim. Aproveitando-se da ausência de Jorão, que estava em
Jezrael recuperando-se de seus ferimentos, ele despachou um
dos “filhos dos profetas” para os quartéis-generais do exército
em Ramot de Galaad, com ordens de ungir Jeú rei. Quando
os oficiais de Jeú tomaram conhecimento do que estava acon-
tecendo, imediatamente o aclamaram. Observava-se uma vez
mais o modelo de realeza tradicional por designação profética e aclamação popular — embora a aclamação, neste caso, fosse
realmente feita só pelo exército.

Em seguida, Jeú subiu em seu carro e foi à toda velocidade para Jezrael. Jorão, acompanhado de seu parente Acazias, que tinha naquele ano subido ao trono de Judá e que havia
participado da ação em Ramot de Galaad (2Rs 8,28), saiu para
encontrá-lo. Jeú, sem dizer palavra, esticou seu arco e prostrou
Jorão por terra, morto. Acazias pôs-se em fuga, mas foi igualmente morto. Jeú, então, entrou em Jezrael e, mandando lançar Jezabel de uma janela, começou a exterminar não só
toda a família de Acab, mas tudo o que tinha de algum modo
relação com sua corte. O golpe de estado logo se transformou
num banho de sangue.

Dirigindo-se para a Samaria, Jeú encontrou uma delegação
da corte de Jerusalém e, com uma brutalidade louca e sem
nenhuma causa aparente, exterminou-os a todos. Finalmente,
tendo chegado à capital, atraiu os adoradores de Baal para dentro de seu templo com o pretexto de oferecer sacrifício e
assassinou-os a todos, até o último. O próprio templo, com
todo o seu aparato, foi completamente arrasado. Foi um expurgo de indizível brutalidade, que, além de carecer de qualquer justificativa do ponto de vista moral, teve, como veremos,
conseqüências desastrosas. Mas o culto de Baal Melcart foi
extirpado. Iahweh ficou, pelo menos oficialmente, o deus de
Israel.

4. Negócios internos de Judá — aproximadamente 873- -837

Os acontecimentos acima tiveram seus paralelos no reino
do sul. Mas, uma vez que Judá era caracteristicamente mais
estável, as tendências paganizantes lá penetraram menos profundamente, com o resultado de que a reação não teve a violência do expurgo sangrento de Jeú.

a. O reinado de Josafá (873-849). — Já vimos como
Josafá tornou-se aliado da Casa de Omri em sua política agressiva e como essa aliança trouxe uma força renovada e grande
prosperidade a Judá. Josafá, como Asa antes dele, tem a seu
favor o fato de ter sido um javista sincero, que procurou
eliminar todas as tendências pagãs dentro do seu reino (lRs
22,43). Por esta razão, apesar dos estreitos vínculos com Israel, o culto de Baal não conseguiu firmar-se em Judá enquanto ele viveu.

Parece que Josafá foi um rei justo e capaz. De acordo
com a passagem de 2Cr 19,4-11, ele empreendeu uma reforma
judiciária, sobrepondo a uma administração de longa data ba-
seada no direito consuetudinário, dirigida pelos anciãos das al-
deias, um sistema de juizes designados pelo rei nas cidades-
-chaves — sendo estes juizes provavelmente escolhidos, no co-
meço, dentre os próprios anciãos lccais. Ao mesmo tempo, esta-
beleceu-se em Jerusalém o que podia ser denominado de cortes
de apelação, sob a presidência do sumo sacerdote, para assun-
tos religiosos, e do nãgid de Judá[23], para assuntos civis (em
Israel os dois freqüentemente se sobrepunham).

Como a transição da administração da justiça pelos an-
ciãos locais, primeiro para magistrados escolhidos dentre eles,
depois para os juizes designados pelo rei, certamente se con-
sumou muito antes do exílio, não há razão para se duvidar da
historicidade desta medida[24]. Sua finalidade, sem dúvida, era
a de normalizar o processo judicial, erradicar a injustiça e for-
necer — o que estava faltando anteriormente — uma máqui-
na adequada para apelação de causas [25]. Se as listas de Js 15,
21-62; 18,21-28 refletem as condições deste período, como acreditam muitos estudiosos, então Josafá teria regularizado também
os assuntos fiscais, com uma reorganização dos distritos administrativos, nos quais a terra teria sido com certeza dividida [26].

a. Os sucessores de Josafá: usurpação de Atalia. — Apesar de sua lealdade ao Javismo, a aliança de Josafá com Israel produziu frutos amargos. A Josafá sucedeu, como já dissemos,
seu filho Jorão (849-842), cuja rainha foi Atalia, da Casa de
Omri (2Rs 8,16-24). Mulher de grande força de vontade,
Atalia ganhou grande ascendência sobre seu marido, “não
muito capaz”, e introduziu o culto de Baal em Jerusalém.
De acordo com o Cronista (2Cr 21,2-4), Jorão, subindo ao
trono, mandou matar todos os seus irmãos e seus partidários,
possivelmente para eliminar futuros rivais[27]. Embora não haja
nenhuma prova disto, é muito provável que este ato tenha tido
o mando de Atalia (ela era certamente capaz disto!), pois ela
sentia que sua posição não estava muito segura,

Quando Jorão morreu prematuramente, depois de um
curto e ineficiente reinado (de acordo com 2Cr 21,18-20, de
uma infecção intestinal), sucedeu-lhe seu filho Acazias (2Rs 8,
25-29), que, como notamos acima, foi, em menos de um ano,
eliminado pelo expurgo de Jeú. Atalia, logo após, apossou-se
do trono, executando, presumivelmente com a ajuda de seus
assistentes, todos os descendentes reais que poderiam opor-se
a ela (2Rs 11,1-3). Uma vez que ela era adepta de Baal Melcart, o culto deste deus foi promovido em Jerusalém paralela-
mente ao de Iahweh.

Os acontecimentos em Judá, depois disso, sucederam-se
como em Israel, mas de uma maneira mais suave. Não é provável que Baal, deus de Tiro, tivesse muitos seguidores entre
a população conservadora de Judá. Seu culto era mais uma
moda de corte, e até entre os cortesãos não deveria ser bem
aceito: Além disso, devido talvez parcialmente às reformas
de Josafá, parece que as tensões sócio-econômicas observáveis em Israel não eram quase tão marcantes em Judá, resultando no fato de não existir apreciável descontentamento popular.

Além do mais, Atalia, quase certamente, não tinha segui-
dores reais. Ela era uma intrusa, uma mulher que se tinha
apoderado do trono mediante uma violência criminosa — e
não era da Casa de Davi! O seu governo não tinha a menor
legitimidade aos olhos do povo. Por isso é que não durou
muito (842-837). Joás, filho de Acazias, foi salvo de Atalia
por sua tia, a mulher de Joiada, sumo sacerdote (2Cr 22,11),
que o escondeu no recinto do templo. Quando a criança tinha sete anos (2Rs 11,4-21), Joiada, que havia feito planos mi-
nuciosos com os oficiais da guarda real, levou-o ao templo e
o coroou rei. Atalia, ouvindo o alvoroço, saiu correndo, gri-
tando que havia sido traída, sendo então conduzida para fora
do recinto e sumariamente executada. O templo de Baal tam-
bém foi demolido e seu sacerdote morto, mas não temos mais
conhecimento de derramamento de sangue, e provavelmente
não houve mais nenhum. O povo, alegre por ter-se livrado
de Atalia, saudou Joás como seu rei com a maior alegria.



[1] Com senso comum, pode-se dizer que o inimigo de Baasa era Benadad I, enquanto que o inimigo (e aliado) de Acab era Benadad II. Sobre a opinião de serem esses dois uma mesma pessoa, cf. Albright, in BASOR, 87 (1942), pp. 23-29. 
[2] Sobre este monólito, cf. Albright, ibid.; v. também idem, e G. Della Vida, in BASOR, 90 (1943), pp. 30-34; cf. Pritchard, in
ANE, Suppl. p. 655, sobre o texto. 

33 Se estas concessões foram extorquidas do próprio Omri (cf. B.
Mazar, in BA, XXV [1962], p. 106, que é desta opinião), isto deve
ter sido antes de ele se estabelecer firmemente no poder. Mas a lin-
guagem é de caráter impreciso: “pai” pode significar simplesmente pre-
decessor. 

[4] Para o texto, cf. Pritchard, in ANET, pp. 275ss. 
[5] 2Rs 8,18; e 2Cr 21,6, consideram Atalia como filha de Acab;
2Rs 8,26; e 2Cr 22,2, filha de Omri. (RSV traz “neta”). Uma vez que
seu filho nasceu aproximadamente em 864 (cf. 2Rs 8,26), ela não podia
ter sido filha de Acab e Jezabel, que não poderiam estar casados há mais
de dez anos na época. Ela pode ter sido filha de Acab, de um antigo
casamento, ou (cf. H. J. Katzenstein, in IEJ, 5 [1955], pp. 194-197)
filha de Omri, criada por Acab e Jezabel depois da morte de sua mãe. 
[6] A suposição de que Josafá era vassalo (por exemplo, Oesterley
e Robinson, o.c., I, p. 288; Kjttel, in GVI, II, p. 240) baseia-se so-
bretudo em lRs 22,29-36. Mas este incidente não precisa ser interpre-
tado, e os versículos 44.48ss sugerem o contrário. Tampouco o testemunho
de 2Cr 17,2 pode ser desprezado como uma fantasia do Cronista. 

[7] Diz-se que Josafá se recusou nessa ocasião a ajudar Acazias, filho
de Acab; 2Cr 20,35-37 afirma o contrário. Será que falhou uma tenta-
tiva? Ou Josafá recusou a sugestão de Acazias de se fazer uma outra
tentativa? (cf. Kittel, in GVI, II, p. 263). 

[8] Para o texto, cf. Prttchard, in ANET, pp. 320ss. Veja tam-
bém R. E. Murphy, in CGQ, XV (1953), pp. 409-417. 

[9] A maior parte do que sabemos a respeito da Casa de Omri vem
de um ciclo de narrativas proféticas contidas em Reis. Argumenta-se
freqüentemente (por exemplo, C. F. Whitley, in VT, II [1952], pp.
137-152; J. M. Miller, in JBL, LXXXV [1966], pp. 441-454) que,
uma vez que os nomes de certos reis — quando mencionados —
possivelmente não são originais nestas narrativas (lRs cc. 20;22 etc.),
na verdade se referem aos acontecimentos da dinastia de Jeú. Não estou
convencido disto. Mas qualquer reconstrução permanece hipotética; a
de J. Morgenstern mostra um quadro inteligente; cf. Amos Studies I,
Hebrew Union College, 1941. 

[10] Adadezer (Adad-idri) parece ter sido o nome pessoal do rei,
Benadad seu nome de trono (Albright, in BASOR, 87 [1942], p, 28). 

43 Sabemos disto somente pelas inscrições do próprio Salmanasar:
cf. Pritchard, in ANET, pp. 278ss. Sobre as relações entre a Assíria e
Israel a partir deste período, cf. W. W. Hallo, in BA, XXIII (1960),
pp. 34-61. 

45 Cf. J. W. Crowfoot e outros, Early Ivories from Samaria, Pales-
tine Exploration Fund, Londres, 1938; The Buildings at Samaria (l942);
Objects from Samaria (1957). Para um excelente resumo, cf. A. Parrot, 

[13] A Alt (Der Stadtstaat Samaria [1954; cf. KS, III, pp. 258- -302]) afirma que duas “capitais” refletem uma dupla função da Casa de Omri: eram reis da população canaanita e israelita, e isto implicava num dualismo de culto: Iahweh, deus de Israel, Baal Melcart, deus de Samaria. O argumento, embora brilhantemente desenvolvido, é em grande parte deduzível: cf. G. E. Wright, in JNS, VX (1956) pp. 124ss. 
[14] Sobre Hazor, veja convenientemente Y. Yadin, in AOTS, pp. 244-263, e a literatura aí citada; mais recentemente, idem, in BA, XXXII (1969), pp. 50-71; IEJ, 19 (1969), pp. 1-19. Sobre recentes descobertas em Megiddo, cf. Yadin, in BA, XXXIII (1970), pp. 66-96. Mas cf. também o artigo de J. B. Pritchard, in Near Eastern Arcbaeology in the Twentieth Century, J. A. Saunders, ed., pp. 267-276 

[15] Menandro coloca esta seca no reino de Etbaal de Tiro e diz
que durou um ano inteiro. Os três anos de lRs 18,1 provavelmente
abrangem as chuvas da primavera de um ano até as chuvas de outono
do ano seguinte (isto é, um ano e partes de dojs outros); cf. Noth, in
Hl, p. 241. 

[16] Baal de Tiro não era nenhuma divindade local, mas rei do
submundo; como mencionado acima (p. 319), seu culto tinha pene-
trado nos territórios arameus: cf. Albright, in ARI, pp. 151ss, 233;
BASOR, 87 (1942), pp. 28ss. Outros afirmam que o deus de Jezabel era
Baal-schamem: O. Eissfeldt, in ZAW, 57 (1939), pp. 1-31 (cf. Kleine
Scbriften, II J. C. B. Mohr, Tubinga, 1963, pp. 171-198). Cf. também
Albright, in YGC, pp. 197-202. 

[16] Note como Samuel, Natan, Aias de Silo e outros, todos denunciaram
seus respectivos reis sem sofrer qualquer represália. O sentimento de
que a pessoa do profeta era inviolável persistiu até o fim da história de
Israel, (Jr 26,16-19). 

[17] O Baal do Carmelo era com toda probabilidade Baal Melcart: cf.
Albright, in ARI, pp. 151ss e 233, e a referência aí existente a R. de
Vaux (Bulletin du Musée de Beyrouth, 5, pp. 7-20). O. Eissfeldt (Der
Gott Karmel, Akademie-Verlag, Berlim, 1954) prefere Baal-shamem.
Alt (Das Gottesurteil auf dem Karmel, in KS, II, pp. 135-149) argu-
menta que a relação reflete a tomada de um santuário local de Baal
para o Javismo: cf. também K. Galling, Geschichte und Altes Tes-
tament, J. C. B. Mohr, Tubinga 1953, pp. 105-125. 


[18] Eu não vejo nenhuma razão para supor, como fazem alguns (Noth, in Hl, p. 242; e também os artigos de Whitley e Miller, na nota 45), que esta relação foi deslocada de outro contexto. A nota do versículo 40 não é suficiente para provar que Acab morreu pacificamente. É bastante provável que Israel e Damasco não estivessem
novamente em guerra, e esta opinião é corroborada pelo silêncio dos
escritos assírios, que já não mencionam Israel como membro da
coalisão. Para uma discussão mais aprofundada, cf. Unger, o.c., pp.
69-74, 154ss. 

[19] Para o texto, cf. Pritchard, in ANET, pp. 320ss. Embora Mesa diga que ele se rebelou contra o filho de Omri, em vista da passugem de 2Rs 3,4ss, a palavra “filho” deve ser tomada por “neto”, como acontece freqüentemente na Bíblia. Mas a revolta deve ter rebentado antes da morte de Acab; (cf. Aharoni, in LOB, pp. 305-309; van Zyl, o.c., pp. 139-144); então, quando Jorão não conseguiu dominá-la, começou a expansão moabita. Porém, possivelmente, alguns dos acontecimentos descritos pela pedra moabita deram-se depois da queda da Casa de Omri, em 842. 


[20] Se as narrativas de 2Rs cc. 6 e 7 referem-se a este contexto,
a guerra durante algum tempo esteve mal para Israel. Mas (note-se que
o nome do rei não é mencionado) elas podem refletir acontecimentos
do reino de Jeú ou de Joaçás. 

ej Para uma orientação a propósito da discussão corrente sobre
o movimento profético, cf. H. H. Rowley, The Nature of Old Tes-
tament Prophecy in the Light of Recent Study, in The Servant of the
Lord and Other Essays, ed. rev., Basil Blackwell !& Mott, Ltd., 1965,
pp. 95-134; antes, O. Eissfeldt, in OTMS, pp. 115-160 (especial-
mente pp. 119-126). Sobre o movimento profético em geral, cf.
especialmente J. Lindblom, Prophecy in Ancient Israel, Basil Black-
well & Mott, Ltd., Oxford, 1962. 

[22] Sobre as tendências primitivistas em Israel, cf. Albright,
Primitivism in . Ancient Western Asia, in A Documentary History of
Primitivism and Related Ideas, A. O. Lovejoy e G. Boas, eds., Vol I,
The Johns Hopkins Press, 1935, pp. 421-342. 

[23] Dificilmente um oficial real (em RSV, “governador”), mas
um ancião tribal designado. 

[24] Veja especialmente W. F. Albright, The Judicial Reform
of Jehoshaphat, in Alex, Marx Jubilee ־Volume, na nota 3, pp. 61-82);
v. também Rudolph, o.c., pp. 256-258. 

<4 algu="" apelar="" davi="" div="" embora="" israelitas="" m="" os="" para="" pudessem="" sempre="">
pelo menos (2Sm 15,1-6), não tinha nenhuma máquina judicial para
tratar destes casos. Não sabemos que medidas seus sucessores tomaram
a este respeito, se é que tomaram alguma.. 

[26] Cf. F. M. Cross e G. E. Wright, The Boundary and Vrovince
Lists of the Kingdom of Judah, in JBL, LXXV (1956), pp. 202-226;
cf. também Aharoni, in LOB, pp. 297-304. O sistema pode ser do
tempo de Davi; cf. acima, pp. 268ss, 290. Também foram apresen-
tados os argumentos para datar estas listas dos reinos de Osias (por
exemplo, Ahroni, in VT, IX [1959], pp. 225-246), de Ezequias (cf.
Z. Kallai-Kleinmann, in VT, VIII [1958], pp. 134-160) e de
Josias (A. Alt, Judas Gaue unter Josia, in KS, II, pp. 276-288). 

[27] A relação baseia-se numa antiga tradição: cf. Rudolph, o.c.,p. 265.


Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.