30 de junho de 2016

Gerard Van Groningen - O Conceito Messiânico nos Profetas Não-Canônicos

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O Conceito Messiânico nos Profetas Não-Canônicos 

No período entre Moisés e os profetas canônicos, a terceira era da ativi­dade profética,[1] houve revelação messiânica em variados graus. A atividade profética em si própria não atingiu um ponto muito elevado durante esse tempo. Embora os registros bíblicos não mencionem muitos profetas indivi­dualmente, o terceiro e quarto níveis de profecia estavam presentes.[2] Uma das principais indicações disso é que os poucos profetas mencionados são tidos como parte de um fenômeno bem conhecido.[3] Por exemplo, quando se faz referência a Débora[4] como profetisa (Jz 4.4) e a um profeta anônimo que falou antes que Gideão fosse chamado (6.11-23), não se dá nenhuma explicação sobre o que era um profeta, nem se diz que alguma coisa singular e especial estava presente.[5] A atividade profética, além disso, deveria ser considerada uma conseqüência natural da obra profética especial que Moisés, o profeta incom­parável, cumpriu (Dt 34.10-12). É também um elo entre a atividade profética de Moisés e a dos profetas canônicos; de fato, durante o período que vai de Josué aos profetas escritores, a cena estava sendo preparada para os últimos exercerem sua tarefa profética. 

O principal aspecto do contexto desenvolvido durante essa terceira fase foi a formação da monarquia: o estabelecimento da dinastia davídica, a escolha de Jerusalém para ser a cidade real, a centralização do culto por meio da constru­ção do templo de Salomão, e a expansão do reino de Israel sob Davi e Salomão. Esses fatos têm significação messiânica; desses, alguns dão expressão direta ao conceito messiânico. E é importante compreender também que o ministério dos profetas estava estreitamente relacionado com alguns desses aspectos. 

Neste capítulo explicaremos o papel de vários profetas durante a terceira era da atividade profética na revelação e no desdobramento do conceito messiânico. Devemos destacar novamente que muito desse conceito tinha-se tomado conhecido por meio de Moisés.[6] Davi e Salomão foram também figuras messiânicas.[7] Daremos agora atenção a alguns profetas menos conhecidos, bem como a Elias e Eliseu. 



Os Profetas Menos Conhecidos, 

Antes do Estabelecimento da Monarquia 

Tem sido dito que os profetas se consideravam basicamente reformadores religiosos, tentando uma reforma por meio de um retomo à lei de Deus.[8] Embora isso seja verdadeiro a respeito dos profetas que vieram depois de Moisés,[9] isto não era o ponto central de sua mensagem. Os profetas anuncia­vam uma distintiva mensagem mais ampla, mais destacada e mais pervasiva. Proclamavam o soberano Senhor que tinha pactuado com seu povo e que guardara o pacto cumprindo suas promessas para com ele. Através de seus anúncios cumprira-se a obra messiânica do Senhor. O Senhor não trouxera ainda o Messias, mas por meio de tipos, símbolos, prefigurações, precursores e ancestrais, a idéia de um Messias real pessoal (o ponto de vista mais estrito) fora continuamente revelada. A par disso, livrando Israel do cativeiro, proven­do para seu povo, protegendo-o no deserto e trazendo-o para a Terra Prome­tida de bênçãos, segurança e paz, o Senhor revelara com amplitude maior o real conceito messiânico, em seu sentido mais amplo.[10] Os profetas lembravam ao povo de Israel a fidelidade do Senhor às promessas do seu pacto e sua revelação messiânica e sua obra redentiva. Quando traziam as bênçãos de Deus à mente do povo, repetidas vezes eles o admoestavam por haver-se esquecido das promessas pactuais do Senhor, de sua revelação messiânica e de sua obra messiânica em seu favor. Uma prova de que Israel as esquecia era a sua recusa em viver de acordo com a vontade revelada do Senhor, isto é, de acordo com as estipulações do pacto que Ele propusera. Assim, os profetas não concitavam o povo, antes de mais nada, a guardar a lei, mas a reconhecer, a amar e a servir ao soberano Senhor do pacto, que tinha sido fiel à sua "revelação messiânica" mediante sua obra messiânico-redentiva. 



A tividade Profética Antes da Monarquia 

No tempo dos juízes, Israel sofreu nas mãos das nações vizinhas, que foram usadas pelo Senhor para testar a lealdade, a devoção, o amor e o serviço de Israel ao seu Senhor (Jz 3.1-6). Quando a pesada opressão e o sofrimento intenso continuavam por alguns anos, os israelitas clamaram ao Senhor por libertação e pela renovação de sua misericórdia para com eles. Um desses exemplos de opressão e do clamor por socorro é registrado em Juízes 6. A aflição causada pelos midianitas e a invasão dos amalequitas e de outras hordas de povos trouxe tal opressão que os israelitas fugiram para abrigos "nas covas das montanhas, nas cavernas e fortificações" (6.2b NIV), enquanto a terra era despojada do gado e das colheitas (6.4-6). Em resposta ao seu apelo por socorro, o Senhor enviou dois mensageiros, um sem nome e outro com nome. 

O primeiro mensageiro foi um profeta desconhecido, cuja mensagem foi uma recordação da obra messiânica do Senhor em favor de seu povo. Segundo as promessas pactuais feitas a Abraão (Gn 15.13,14) e a Moisés (Êx 3.8), Ele libertara Israel da escravidão física, social e espiritual do Egito. O Senhor tinha também, nos dias de Josué, quebrado o poder das nações na terra prometida a Israel. Ele tinha derrotado essas nações e guiado Israel para a herança que lhe fora prometida. O profeta, em outras palavras, relembrou incisivamente a Israel que o Senhor realizara uma grande obra messiânica ao livrá-lo da opressão estrangeira e levá-lo para a sua própria terra. Além disso, o profeta recordou aos israelitas que o Senhor se lhes revelara a si próprio como o único Libertador e Soberano; Ele, e somente Ele, devia ser adorado e servido. Assim, o profeta proclamou o Senhor e a obra messiânica do Senhor do pacto. Ele também acusou-os de desobediência (Jz 6.7-10 NIV). Essa desobediência, entretanto, não fez que o Senhor deixasse de levar adiante seus propósitos messiânicos. Seu julgamento sobre Israel fizera-o clamar por socorro. Este viría. O profeta não proferiu a mensagem de socorro, mas o segundo mensa­geiro o fez. O anjo do Senhor apareceu a Gideão e ordenou-lhe que guiasse Israel na libertação que o Senhor proveria.[11]

A mensagem que veio no tempo de Gideão pelo profeta e pelo anjo do Senhor continha os principais aspectos de todas as mensagens proféticas posteriores. Esses aspectos são, em resumo: (1) o Senhor tinha operado uma grande obra redentiva em favor de Israel, e, ao fazê-lo, foi fiel às promessas do pacto e à revelação messiânica anteriormente feita; (2) Israel, como povo privilegiado e redimido, não obedecera ao Senhor nem o servira; por isso as maldições do pacto lhe haviam sido impostas através de vários julgamentos; e (3) o Senhor continuaria a manter seu pacto e a prover a redenção e o bem-estar por meio de um libertador messiânico, e, por meio dele, também eventualmen­te estabeleceria o reino universal perfeito. 

Mais tarde, durante o período dos juízes, um homem de Deus veio a Eli, sacerdote e juiz (1 Sm 1.9). A profecia desse indivíduo anônimo foi dirigida especificamente ao sacerdócio, um ofício messiânico em Israel (2.27-29).[12] Eli falhara em manter o pacto do sacerdócio que Deus concluíra com Finéias (Nm 25.12,13). Ele e seus filhos violaram o ofício pelo abuso de seus privilégios como sacerdotes, especialmente em relação aos sacrifícios (1 Sm 2.12-17). O homem de Deus lembrou a Eli que o Senhor escolhera seus ancestrais para servir como sacerdotes, o que era uma grande honra, bem como uma responsabilidade. A família de Eli, tendo falhado, seria excluída, mas o bem seria feito a Israel, porque o Senhor continuaria o ofício messiânico, e tudo o que ele representava, pela indicação de um "sacerdote fiel" (1 Sm 2.35). Mais uma vez pode ser visto aqui o padrão da mensagem profética. Faz-se referência à palavra e à obra do Senhor; então vem uma profecia de julgamento sobre a desobediência, que é seguida pela garantia de que o Senhor continuará sua obra, levando adiante seu propósito messiânico; nesse caso, Ele o faria suscitando sacerdotes fiéis que serviriam como tipos messiânicos do grande Sumo Sacerdote que havia de vir. 

As atividades proféticas de Samuel foram mencionadas na introdução a este capítulo (cf. 9). Será útil a esta altura reafirmar que a obra do profeta incluía a missão de relembrar Israel de seu privilégio (1 Sm 12.7,8), advertindo-o das conseqüências de sua desobediência (8.6-20; 13.13,14) e assegurando-lhe o favor contínuo de Deus. Este último benefício Ele lhe concedeu principalmente ao ungir Davi como rei (16.1,12,13). 



A tividade Profética Durante a Monarquia 

As atividades proféticas de Samuel e Natã já foram estudadas anteriormen­te (caps. 9 e 10). O papel de Davi e Salomão, ambos os quais estiveram profundamente envolvidos na revelação do conceito messiânico, também já foi estudado.[13]

É conveniente relembrar que Natã acentuou dois aspectos da mensagem profética messiânica. Quando enviado pelo Senhor para revelar seu propósito em relação à casa de Davi, Natã referiu-se primeiro aos grandes privilégios que Israel recebera ao ser tirado do Egito (2 Sm 7.10) e o privilégio que Davi recebera ao ser escolhido e ungido rei sobre Israel (v. 11; cf. w. 8,9). Segundo, Natã revelou como o Senhor continuaria a cumprir seu plano messiânico pelo estabelecimento permanente da casa de Davi como portadora da semente real e como dinastia reinante (w. 15,16). 

Gade. A importância do profeta Gade é vista no contexto delineado no parágrafo precedente. A casa real de Davi seria a dinastia messiânica e devia servir de acordo com isso. Gade foi indicado para servir como conselheiro de Davi ("vidente", cf. 2 Sm 24.11). Ele estava com Davi quando este fugia de Saul (1 Sm 225) e servia como "guardião do rei".[14] Ele também recebeu uma direta mensagem do Senhor para Davi quando o rei tinha pecado ao contar suas forças militares. O papel de Gade não era prever, mas instruir Davi sobre como se conduzir quando o reino estava sofrendo por causa dos pecados do rei (2 Sm 24.11-18 par. 1 Cr 21.11-18). Assim, Gade falou a respeito de julgamento da desobediência, mas também a respeito da continuação da casa real e do reino sobre o qual estava Davi, o rei messiânico. 

Aías. Aías, o profeta que vivia em Siló, teve uma tarefa específica a respeito da monarquia. Ele informou a Jeroboão que o Senhor ia tomar dez tribos do reino davídico (1 Rs 11.29-31) por causa da infidelidade de Salomão e do povo de Israel, que adorou os deuses de Sidom, Moabe e Amom (1 Rs 12.15 par. 2 Cr 10.15 sobre a divisão efetiva do reino). Ele declarou também que duas tribos continuariam como o reino do sul, governado pela casa de Davi, por causa da promessa que o Senhor fizera a Davi (2 Sm 7.11-16). Aías, portanto, falou de julgamento sobre a casa de Davi, e também de bênção, principalmente quanto ao seu papel messiânico. Também para a casa de Jeroboão Aías teve uma palavra de julgamento (1 Rs 14.1-16), não de continuidade ou de restauração final, pois Jeroboão aceitara o privilégio de ser rei, mas recusou as responsabi­lidades que acompanhavam essa honra. Aías, em idade avançada, declarou que o rei Jeroboão fizera mais mal do que todos antes dele (1 Rs 14.9); portanto, o desastre viria sobre sua casa (14.10); outro rei seria suscitado e removeria completamente a família de Jeroboão (14.14). A última palavra profética de Aías referia-se ao exílio das dez tribos do norte, que perpetuariam o pecado de Jeroboão (14.15,16). 

Devemos concluir do relato bíblico que Aías profetizou julgamento sobre as duas casas reais, e o julgamento foi executado. Ele falou também uma palavra de garantia de que o papel e a tarefa messiânica da casa de Davi e da tribo de Judá continuariam. 



Atividade Profética Durante o Reino Dividido 

Devemos afirmar, de início, que, durante a monarquia dividida (ca. 931-722 a.C.), alguns dos profetas canônicos[15] profetizaram a respeito do caráter e do papel do Messias, a serem estudados nos capítulos seguintes. Trataremos aqui apenas dos profetas menos conhecidos. 

Semaías. Semaías foi enviado pelo Senhor ao rei Roboão, filho de Salomão, com a mensagem de que as tribos de Judá e Benjamim não deveriam lutar contra Jeroboão e as dez tribos do norte, num esforço para reunir novamente o reino. Semaías informou Roboão que fora o Senhor quem removera dele a maior parte do reino de seu pai (1 Rs 12.22-24). 

O Cronista (2 Cr 12.1-15) acrescenta o seguinte episódio ao relato da obra profética de Semaías: quando Sisaque, rei do Egito, capturou muitas cidades de Judá, com seu exército constituído de soldados de vários países vassalos, e Roboão teve medo, Semaías proclamou-lhe que o Senhor o estava abandonan­do porque ele se afastara dele. O rei e seus auxiliares humilharam-se, e então foram informados de que o Senhor puniria Roboão e Jerusalém fazendo-os submissos ao Egito, mas não ao ponto de destruição. Isso era para ensinar aos habitantes de Jerusalém quão melhor é servir ao Senhor do que depender dos reis de outras terras, que os pilhavam e oprimiam. A profecia de Semaías foi uma mensagem de julgamento, mas nela estava incluída a afirmação de que o Senhor havería de manter a casa real de Davi e parte do seu reino. O programa messiânico do Senhor, embora aparentemente ameaçado e à beira do desastre, continuaria. Mas as palavras de advertência do profeta Semaías provar-se-iam efetivas no devido tempo. 

O Profeta Anônimo. O relato sobre o "homem de Deus" que profetizou contra o altar de Jeroboão em Betel tem dois pontos específicos de interesse (1 Rs 13.1-6). Primeiro, o homem profetizou a destruição do altar e, portanto, pronunciou julgamento contra Jeroboão, seu autor: a remoção de um rei maquinador, de seu governo ímpio e de seu culto pagão. Segundo, o profeta proclamou que alguém da casa de Davi haveria de dessacralizar o altar, desmontá-lo e tomá-lo inútil como normativo meio de sacrifício. O descen­dente de Davi aí mencionado é Josias, que destruiria o altar trezentos anos mais tarde (cf. 2 Rs 23.15).[16] Assim, pois, foi feita uma profecia concernente à continuação da casa de Davi, bem como seu serviço de remover uma das sérias ofensas contra o Senhor que Jeroboão introduzira em Israel. 

Azarias. Durante o longo reinado de Asa,[17] neto de Roboão, dois profetas dirigiram-se a ele: Azarias e Hanani. O profeta Azarias proferiu palavras encorajadoras ao rei Asa e ao povo de Judá e Benjamim. A garantia pactual da presença do Senhor com os que o buscam e andam com Ele foi repetida (2 Cr 15.1,2). Azarias fez também uma breve recapitulação do que fora experimen­tado quando o Senhor castigou a terra por causa da infidelidade a Ele (15.3-7). A palavra profética encorajou Asa a remover os ídolos da terra e a reparar a casa do Senhor (w. 8-15). Assim, o profeta e o rei davídico cooperaram para levar adiante a obra do Senhor. 

Hanani. O reino pacífico de Asa, de trinta e cinco anos de duração, mostrou de várias maneiras que ele era um servo e um representante messiânico. Quando, entretanto, Baasa, rei de Israel, que "removera" totalmente a casa de Jeroboão, ameaçou Asa e o reino de Judá, Asa fez aliança com o rei da Síria, o qual atacou Baasa desde o norte e assim trouxe alívio a Asa. Então o profeta Hanani dirigiu-se a Asa, censurando-o pelo fato de confiar na Síria em vez de confiar no Senhor, que havia livrado e preservado o seu povo no passado (2 Cr 16.7-9). Asa assim veio a compreender que os profetas eram realmente "guar­diães do trono" e servos do Senhor para ministrar à casa messiânica de Davi. 

Jeú. Durante o reino de Asa sobre Judá, Baasa reinava sobre Israel. O profeta Jeú, filho de Hanani, proferiu julgamento contra Baasa por causa de sua extrema impiedade (1 Rs 16.1-7). Jeú fez referência explícita ao fato de que o Senhor dera o trono a Baasa, mas o governante recusou-se a reconhecer o Senhor e a "remover" os caminhos de Jeroboão como ele tinha "removido" o próprio Jeroboão. Assim, o rei que ameaçava a casa de Davi e seu reino ouviu uma profecia de julgamento contra ele próprio e sua casa, que foi executado dois anos depois de sua morte (w. 9-11). 

Miquéias (Micaías) Durante o reino de Josafá, filho de Asa, quatro profe­tas ministraram: Micaías, Eliézer, Elias e Eliseu; os dois últimos serão estuda­dos separadamente.[18] [19] Micaías foi apresentado a Josafá quando o rei de Judá perguntou ao rei Acabe de Israel se não havia um profeta do Senhor disponível (1 Rs 22.7 par. 2 Cr 18.6). A mensagem do profeta foi contra Acabe; ele proclamou julgamento contra o rei de Israel (v. 17), o que deveria ter alertado Josafá no sentido de desfazer a aliança com Acabe. Acabe foi morto (w. 34-38) e Josafá por pouco escapou da morte no campo de batalha (w. 32,33). Dessa forma, o rei davídico foi poupado, mesmo não tendo ouvido a advertência do profeta. 

Eliézer. Perto do fim de seu longo reinado, Josafá fez uma aliança com o filho de Acabe, Acazias, aliança essa denunciada por Eliézer, que profetizou que a aventura naval e comercial dos dois reis iria falhar. Josafá não deu ouvidos ao segundo aviso, como já havia feito com o primeiro, e o desastre veio (2 Cr 20.37). Um aspecto a ser especialmente considerado em relação a Josafá é este: quando ele fez aliança com reis que rejeitavam o Senhor, este provia profetas que falassem palavras de advertência para poder assistir e proteger o rei davídico, de modo que ele pudesse funcionar como um servo messiânico. 

O resumo acima destaca, entre outros, este fato: o Senhor suscitou profetas para ministrar aos reis que reinavam sobre seu povo. Com efeito, os profetas foram enviados como agentes de Deus para proteger e dirigir particularmente a casa real de Davi, mas também para a sua contraparte em Israel. Na verdade, o ministério profético tinha um papel messiânico bem específico. 


Elias 

O profeta Elias tem sempre despertado um alto grau de interesse por parte dos estudiosos da Bíblia. E considerado por alguns como o primeiro profeta do movimento profético desenvolvido de Israel.[20] É uma pessoa in comum: aparece subitamente da obscuridade; intervém dramaticamente na história nacional de Israel; faz milagres; e parte desta vida de maneira incomum: um carro de fogo o leva para o céu num redemoinho.Todos esses eventos, e muitos outros, são cativantes.[21] Além disso, o profeta Malaquias, um dos últimos profetas do Velho Testamento, proclama que Elias precederia o terrível dia do Senhor (Ml 4.5,6). E os Evangelistas do Novo Testamento afirmam que ele era o precursor do Messias, possivelmente o próprio Messias.[22]

Alfred Edersheim citou, mas sem endossá-la, uma tradição judaica segundo a qual Elias, desde o reinado de Acabe até seu retomo como precursor do Messias, conversava com "algum Rabi" ou estava ocupado com algum aspecto do bem-estar de Israel.[23] Mas a Bíblia não o representa desta maneira. Ao contrário, o Novo Testamento fala a respeito de sua vinda (Mc 9.12), identifi­ca-o com João Batista (Mt 11.10-14 par. Lc 7.26-28), e refere-se à "oração fervente" de Elias pedindo chuva (Tg 5.18) e sua preocupação de, como o último dos profetas de Deus, ele também poderia ser morto (Rm 11.2-4). 

O relato bíblico inegavelmente apóia o ponto de vista de que Elias tem significação messiânica. Um escritor colocou-o assim: "a reaparição de Elias era uma parte integral da esperança messiânica".[24] Alguns o têm negado,[25] fazendo injustiça à Escritura. Por estar estreitamente associado a Elias e pro­fundamente envolvido em sua obra profética, e por ter sido seu sucessor e continuador, Eliseu será discutido imediatamente após Elias.[26]


O Caráter de Elias 

Elias é apresentado como "o tesbita" (1 Rs 17.1). Se era natural de Gileade, no lado oriental do Jordão, ou um colono, ou uma pessoa deslocada da banda ocidental do Jordão, não se pode determinar com certeza. Parece mais plau­sível considerá-lo um nativo do reino do norte e da área a oeste do Jordão, quando se considera que sua obra foi realizada predominantemente nessa área. 

Elias apresenta-se ao rei Acabe como alguém que está perante a face de Deus, o Senhor vivo de Israel. "Estar diante", 'ãmadti lèpãnãyw (NIV "a quem eu sirvo") traz à mente a cena do servo em pé diante do seu senhor, pronto a receber suas ordens. Assim, Elias faz claro a Acabe que era o servo do Senhor, antes de tudo, e que como tal está diante do rei. 

As referências bíblicas ao caráter de Elias têm sido interpretadas de várias maneiras. Parece seguro considerar Elias como homem obediente, humilde diante do Senhor, dependente dele (confiou nas provisões incomuns do Senhor para ele [1 Rs 17.3-6,9]); foi corajoso quando enfrentou Acabe, foi destemido quando confrontado com os profetas de Baal (18.19-21); foi inflexível quando teve de pronunciar julgamento contra Acabe (21.17-24); mostrou compaixão quando teve de ministrar a uma viúva (17.13-24); foi claro quando chamou Eliseu (19.19-21). Sua fuga para Horebe quando temeu a ira de Jezabel, e seu pedido a Deus no sentido de tirar a sua vida (19.1-6) levaram vários escritores a atacá-lo como "um covarde descrente", "preocupado consigo mesmo, pro­fundamente desencorajado..." Robert B. Allen, entretanto, escreveu em tom compassivo sobre "Elias o Profeta Quebrantado", que estava "não terrificado por Jezabel mas quebrantado por seu paganismo impenitente e por seu poder continuado sobre a nação e seu destino. Na verdade, Elias era humano, mas também um notável e zeloso profeta do Senhor, desejando ardentemente o bem-estar espiritual do povo do seu pacto e preparado para servir como profeta em circunstâncias muito difíceis. 

O Ministério de Elias 

O ministério de Elias pode ser dividido convenientemente sob três títulos: (1) milagres, (2) antibaalismo, e (3) confrontação com a realeza. 

Primeiro, Elias foi, segundo a expressão popular, um milagreiro. Registra- se que ele realizou uma série de milagres, o que tem levado alguns eruditos a questionar a veracidade histórica dos relatos bíblicos e, mesmo, em alguns casos, da maior parte do que foi escrito sobre ele.[27]

O profeta não iniciou de si suas atividades de operação de milagres. Depois de confrontasse com Acabe pela primeira vez (1 Rs 17.1,2), quando informou o rei que Deus não enviaria mais chuva nem orvalho até quando ele, o profeta, o pedisse, o Senhor conduziu-o a uma ravina na Transjordânia, onde o alimen­tou por meio de corvos que lhe traziam alimento (w. 3-6). Foi o Senhor quem o encaminhou à viúva de Sarepta (v. 8). E foi o Senhor quem ouviu o clamor de Elias pelo ressuscitamento do filho da viúva (w. 19-24). 

Os milagres não foram praticados por meio de mágica profética ou por qualquer outra espécie de mágica. Os milagres envolviam uma série de fenô­menos naturais que eram experimentados no curso da vida cotidiana, isto é, em relação ao alimento, ao fogo, à água, à morte, à vida, ao vento, também em relação a demonstrações não usuais de poderes físicos. O Senhor praticou-os diretamente, algumas vezes em favor de Elias, mas principalmente através do profeta. E foram praticados por quatro razões: (1) Deram segurança, encoraja­mento e orientação a Elias, que fora chamado a trabalhar em situação muito hostil. (2) Demonstraram que só o Senhor é Deus e Senhor soberano sobre todos os aspectos da própria natureza, da vida humana e do culto divino. (3) Eles convenceriam os israelitas, que vacilavam entre a lealdade ao seu Senhor pactual e os rituais dos "não-deuses", de que o Senhor exigia sua lealdade integral. (4) Eram sinais e provas de que Elias era, na verdade, o profeta-servo do Senhor, que sua palavra devia ser aceita como a própria palavra do Senhor, e que ele, Elias, estava preparando o caminho para Israel retomar ao Senhor, em amor, obediência e serviço devotado. A viúva de Sarepta deu eloqüente expressão a isso quando seu filho foi trazido de volta à vida: "Nisso conheço agora que tu és homem de Deus" (1 Rs 17.24). 

Segundo, o ministério miraculoso de Elias está especificamente relacionado com sua atividade religiosa ou cúltica.[28] Foi afirmado corretamente que Elias tinha uma direta missão antibaal. O culto a Baal, embora praticado anterior­mente, recebera forte apoio da rainha fenícia Jezabel, que Acabe desposara e trouxera para seu palácio em Samaria. Aos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, acrescentaram-se os pecados de Jezabel e de seus profetas de Baal (1 Rs 16.30-33). Baal, o deus que cananeus e fenícios adoravam, era considerado o grande senhor de forças naturais como o sol, o fogo, a água, e especialmente dos poderes para produzir vida. O baalismo era um ataque direto ao Senhor, o Criador, Sustentador e Controlador da vida. Era um desafio direto à relação pactual que o Senhor tinha estabelecido com os patriarcas, Moisés e Israel como nação. Daí Elias ter apelado em oração ao Senhor, o Deus de Abraão, Isaque e Israel, quando enfrentou os profetas de Baal no Monte Carmelo (18.36,37). Seu pedido de fogo deixava claro que ele reconhecia que o Senhor era soberano sobre todo o cosmos e podia trazer julgamento sobre todos os que se lhe opunham. A soberania do Deus de Israel foi convincentemente demonstrada no ministério de Elias como o evidencia a confissão do povo: "O Senhor — ele é Deus! O Senhor — ele é Deus!" (18.39). Assim, o pacto foi confirmado pelo ato antibaal de Elias, e a soberania do Senhor e seu governo como rei de todas as coisas foram proclamados. 

Terceiro, o ministério antibaal de Elias levou-o a uma confrontação direta com os poderes reais em Israel. Acabe, o rei, cooperando com sua esposa estrangeira, adoradora de Baal, incentivou o baalismo no reino setentrional de Israel. Contrariar o baalismo era desafiar seus patrocinadores. Assim, Elias tinha de estar diante do rei, a serviço do Senhor, não a serviço de Acabe. Ele tinha de confrontar Acabe com o pecado de sua esposa, de sua casa, de sua nação, e proclamar o vindouro julgamento de Deus. 

A primeira confrontação ocorreu quando Elias desafiou Acabe com a mensagem, "nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo minha palavra" ("exceto por minha palavra", 1 Rs 17.1 NIV). No terceiro ano de seca, Elias declarou que, por ter-se a casa de Acabe apartado do Senhor e seguido a Baal, Acabe mesmo trouxe o julgamento sobre Israel. Uma conseqüência desta segunda confrontação foi que Acabe, por ordem de Elias, convocou 450 profe­tas de Baal para encontrar-se com Elias no Monte Carmelo. O próprio Acabe estava ali quando Elias pediu fogo do Senhor e, desta maneira, desafiou os profetas de Baal. O rei testemunhou a destruição subseqüente de seus desalen­tados profetas. Na última confrontação de Elias com Acabe o profeta pronun­ciou a morte de Acabe e Jezabel e a total aniquilação de sua casa. Isso veio depois que Acabe tinha ilicitamente matado Nabote para apoderar-se de sua herança, encorajado pela rainha Jezabel (21.7-16). 

O ofício real, exercido por Acabe, tinha sido instituído pelo Senhor para proteger seu povo, assisti-lo na guarda de sua herança e manter justiça e paz em seu benefício. Acabe, entretanto, abusou do ofício real para servir a seus propósitos políticos, sociais, econômicos e religiosos. O grande privilégio de ser rei trazia consigo grandes responsabilidades. Ele recusou-se a assumir essas obrigações. Portanto, Elias tinha de adverti-lo e, por fim, pronunciar o julga­mento de Deus devastador sobre ele e sua família (1 Rs 21.21-24). A palavra de Elias ao rei foi — num sentido real — o clímax de seu ministério. Os milagres que fez, embora fossem um meio de ministrar ao povo, e seu desafio ao baalismo, que era um ministério profundo em benefício do povo, eram, não obstante, o ambiente, o pano de fundo do clímax de sua tarefa — a de confrontar Acabe e a casa real e, em nome do Senhor, pronunciar o julgamento sobre eles. 


A Significação Escatológica e Messiânica de Elias 

O ministério profético de Elias não pode ser desconsiderado porque tanto o profeta Malaquias quanto o Novo Testamento falam dele. Não se pode achar, entretanto, uma única referência direta a seu papel messiânico nos próprios relatos do seu ministério. No contexto de 1 Reis ele não é referido como uma pessoa messiânica, nem há qualquer referência à sua obra messiânica. O relato de sua dramática e incomum partida desta vida também não inclui qualquer referência direta desse tipo. Para compreender a significação escatológica e messiânica de Elias devemos considerar o imediato e mais amplo contexto de seu serviço. 

No contexto imediato de Elias, como vimos na seção precedente, ele foi servido de maneira miraculosa e serviu também dessa maneira. Esse ministério foi suscitado particularmente por causa do pecado e da apostasia de Israel. A palavra do Senhor tinha de ser proclamada, seu poder tinha de ser demonstra­do, seu desprazer e sua ira por causa da apostasia tinham de ser trazidos à atenção da casa real e também de todo Israel. O ministério que Elias devia cumprir tinha ao mesmo tempo uma relevância direta para os tempos em que ele viveu e muita significação para o futuro, isto é, seu contexto mais amplo. 

Como antes mencionamos, Elias tem sido caracterizado, bastante corretamente, como alguém que levou adiante o que Moisés tinha dito e feito. Moisés tinha ministrado a Israel operando milagres e opondo-se à idolatria (cf., p. ex., Êx 32-34). Moisés advertira Israel de que a segura execução das maldições do pacto seguir-se-ia à apostasia. É em vista da apostasia do povo que uma relação estreita entre Moisés e Elias pode ser estabelecida. Elias repete as advertências de Moisés (cf. Dt 28.1-30.10) e serve como um agente de julgamento sobre um povo impenitente e sua casa real. 

Elias, entretanto, não permanece sozinho na era pós-mosaica. De fato, em relação ao desafio real da apostasia do povo do pacto e do pronunciamento do julgamento do Senhor na implementação das maldições do pacto, ele foi um elo entre Moisés antes dele e os profetas que o sucederam, bem como João Batista e o próprio Jesus Cristo. E quando o Cristo encarnado cumpriu o julgamento de Deus contra o pecado, levando-o sobre si em favor de seu povo escolhido, os dois porta-vozes desse julgamento no Velho Testamento, que tinham experimentado pessoalmente a amargura sofrida por serem agentes de julgamento, vieram para confortar e fortalecer Cristo no Monte da Transfigu­ração (Mt 17.1-13 par. Mc 9.1-12; Lc 9.28-36). 

Neste contexto escatológico podemos situar a significação messiânica de Elias. Ele não foi um ancestral messiânico, nem uma pessoa régia. Por isso, o ponto de vista mais estrito do conceito messiânico não se aplica a ele. Contudo, quanto a seu caráter e obra, o ponto de vista mais amplo certamente se aplica, tendo significação messiânica em relação a João Batista e a Jesus Cristo. 

Elias foi um precursor de João Batista. Os contemporâneos de João viram estreita similitude entre o caráter e as atitudes de João e os de Elias, como eles os compreendiam. É especialmente a obra de "preparar o caminho" que deve ser considerada (Mt 11.10,11). Elias estabeleeu o curso que os profetas segui­riam em seu ministério, especialmente confrontando a apostasia, desafiando líderes e pronunciando o julgamento vindouro (cf. Mt 3.7-12 par. Mc 1.4-8). João Batista foi o último dos profetas do Velho Testamento a fazer isso; nesse especial contexto ele aponta para Cristo que veio como Cordeiro de Deus para tirar os pecados de seu povo (Jo 1.29), mas também para servir como o agente final do julgamento de Deus sobre a apostasia e o pecado. E como Elias chamou pais e filhos de volta ao conhecimento e serviço do seu Senhor (1 Rs 18.17-40; Ml 4.6), assim também João Batista o fez em sua pregação, quando preparava o caminho para o ministério de Cristo. Assim, Elias tem significação messiânica em função de sua obra de preparar o caminho; ele prefigurava João Batista, cujo serviço messiânico foi reconhecido pelo próprio João (Mc 1.7; Jo 1.26,27) e por Cristo (Mt 11.14; Mc 9.12,13).[29]

A significação messiânica de Elias pertence também à relação de seu minis­tério com o ministério de Jesus Cristo.[30] Em primeiro lugar, Cristo é o profeta preeminente; Elias, um predecessor na linha profética, foi um "preparador do caminho". Ele foi um líder em cuja linha Jesus foi o cumprimento. Segundo, Elias deu também uma demonstração profética do ministério de Jesus Cristo. Aquelas pessoas que viviam no tempo de Cristo reconheceram a semelhança entre os ministérios de Elias e de Cristo: ambos ministraram às reais necessi­dades do povo, por meios miraculosos algumas vezes. Ambos falaram com autoridade quando expunham o caráter enganoso do coração humano. Ambos desafiaram uma liderança que se tomara um meio de auto-engrandecimento, em vez de se constituir uma expressão de serviço, como o Senhor pretendia a liderança que fosse. 

Elias foi um profeta de julgamento. Este fato não deve ser subestimado quando se considera sua significação messiânica. O relato da preparação do altar por Elias e de sua oração para que descesse fogo é bem conhecido (1 Rs 18.16-38). O fogo que desceu e consumiu o altar foi um testemunho direto do serviço de Elias como profeta de Yahwéh. O mesmo fogo levou o povo a dizer "Yahwéh é Deus", porque Elias deixou bem claro que ele clamara a Yahwéh e que não esperava que nenhum outro enviasse o fogo. E o fogo de Yahwéh deu a Elias a certeza de que ele era um profeta de julgamento. O fogo mesmo não destruiu Baal nem seus profetas, mas deu a Elias o sinal para cair sobre eles e destruí-los. Ele próprio tornou-se como que o fogo do julgamento: cabia a ele dar clara expressão da ira de Yahwéh, freqüentemente citada como fogo ou descrita como ardente. 

Quando nos voltamos para o Novo Testamento, podemos encontrar referências explícitas e implícitas ao papel messiânico de Elias como um profeta de julgamento com fogo. João Batista referiu-se a isso quando pregou a respeito de Jesus Cristo, dizendo que Ele tinha na mão a pá para reunir a palha, que seria queimada em fogo inextinguível (Mt 3.11,12 par. Lc 3.16,17). O próprio Cristo falou a respeito do fogo que ele tinha vindo trazer à terra (Lc 12.49), um meio seguro de promover divisão. Sua referência à nuvem erguendo-se no ocidente (12.54; cf. 1 Rs 18.44) é clara evidência de que ele usou a experiência de Elias para deixar em sua audiência a certeza de que Ele levaria até o fim o que Elias havia feito no Monte Carmelo. Cristo testificou que seria o agente final do julgamento, como Elias prefigurara. 

Quando refletimos sobre o papel de Elias como profeta, a significação de sua obra messiânica toma-se crescentemente óbvia. Ele precedeu e prefigurou Jesus Cristo; seu ministério da palavra, seu ministério para prover às reais necessidades do povo, seu ministério perante os líderes e seu papel como agente de julgamento, dão indicações nítidas do que o Messias iria cumprir quando aparecesse como ministro de Yahwéh para misericórdia, salvação e julgamento. 



Eliseu 

A literatura a respeito de Eliseu não é tão volumosa quanto a referente a Elias,[31] se bem que o Velho Testamento contém referências em proporção semelhante a ambos os profetas, talvez mais a Eliseu. Elias é citado em Malaquias; é mencionado várias vezes nos Evangelhos e uma vez em Tiago; Eliseu é referido apenas uma vez fora do Livro dos Reis (Lc 4.27). 


O Caráter de Eliseu 

Eliseu, um jovem de família próspera que vivia do lado oeste do vale do Jordão, foi chamado por Elias para ser seu assistente no ministério profético (1 Rs 19.19-21). Ele respondeu ao chamado e serviu de companheiro e auxiliar de Elias até que o profeta foi tomado. Ele não foi ungido como profeta, entretanto, quando requereu uma porção dobrada do espírito de Elias, foi-lhe garantido que a receberia, se visse Elias partir (2 Rs 2.9,10). De uma leitura do relato da partida podemos concluir que Eliseu viu Elias ser levado (2.11,12) e, portanto, recebeu a porção dobrada. O manto profético de Elias foi deixado e Eliseu o tomou, o que evidencia que ele assumiu a tarefa profética de Elias em relação a Israel (2.13,14). Acredita-se que Eliseu serviu como assistente de Elias e depois como profeta, por mais de cinqüenta anos — cobrindo o tempo dos reinados de Acabe, Acazias, Jorão, Jeú, Joacaz e Joás (cerca de 854-800 a.C.). Pouco se sabe de seu caráter; ele não experimentou a extrema tensão de Elias, em virtude da qual este expressou sua natureza de forma ainda mais evidente. Do relato bíblico pode-se deduzir que ele era firme em sua confiança no Senhor (4.42-44), calmo diante dos desafios (6.15,16), inflexível quando tinha de pronunciar julgamento (2.23,24; 5.26,27), aberto para receber apoio a seu ministério (3.14- 16) e pronto a oferecer ajuda (4.2). 

Quando examinamos a continuação da obra de Elias na tradição profética de Moisés, vemos que Eliseu levou-a adiante de forma até mais efetiva do que Samuel o fizera. Ele tinha sua casa em Samaria (cf. 2 Rs 2.25; 5.3), mas circulava por Israel, estando sempre disponível como fazedor de reis e conselheiro da realeza. 


O Ministério de Eliseu 

O ministério de Eliseu é registrado em dezoito relatos, o que evidencia que havia ampla variedade de episódios em que Eliseu foi o personagem princi­pal.[32] O ministério de Eliseu não envolve a aguda confrontação com o baalismo que encontramos no de Elias. Ao contrário, seu ministério caracterizou-se pelo atendimento às diretas necessidades de seus concidadãos e teve uma variedade de envolvimentos nacionais e internacionais. Em ambos os aspectos de seu ministério foram feitos milagres. 

Eliseu fez milagres quando tomou saudáveis as águas na área de Jericó (2 Rs 2.19-22); possibilitou a uma viúva receber um aumento em seu suprimento de óleo, de modo que ela pode vender seu óleo, pagar suas dívidas e livrar seus filhos da escravidão (4.1-7); restaurar à vida o filho da sunamita (4.8-37) e mais tarde fez com que as terras dela lhe fossem devolvidas (8.1-6); tomou sadia a comida venenosa ("morte na panela") para um grupo de profetas (4.38-41); alimentou cem homens com pequena quantidade de pão (4.42-44); curou Naamã, o leproso sírio (5.1-14); e recuperou um machado emprestado por um membro pobre de um grupo de profetas (6.1-7). 

O ministério de Eliseu em assuntos nacionais e internacionais relaciona-se especialmente com figuras reais como Jeú, cuja unção providenciou (2 Rs 9.1-4), Jezabel, cuja morte anunciou (9.10), e o rei da Síria, Ben-Hadade, cujo assassi­nato ele predisse (87-15). Eliseu também tomou parte em assuntos militares internacionais (cf., p. ex., 2 Rs 3.11-19; 6.32-7.2; 13.14-21). 

Uma última referência a Eliseu relata que, ao tocar os seus ossos na tumba, um morto voltou à vida. Assim, em sua morte, ele foi um agente de vida (2 Rs 13.20,21). 


A Significação Messiânica de Eliseu 

Raramente tem sido levantada a questão do significado messiânico de Eliseu ou da extensão (se alguma há) em que o conceito messiânico é retratado ou revelado por ele. Arthur Pink refere-se brevemente a seus milagres.[33] Outros têm tentado mostrar uma relação literária entre alguns dos relatos dos milagres de Eliseu e os de Jesus.[34]

Eliseu nunca foi considerado uma figura escatológica ou messiânica. O puro conceito messiânico em seu ponto de vista mais estrito, isto é, referência a uma figura régia, não se aplica a ele. Num sentido real, entretanto, o ministério de Eliseu revela o verdadeiro conceito messiânico em seu sentido mais amplo. Como profeta, Eliseu está na linha de Moisés, que teve sua culminância em Jesus Cristo e seu ministério profético. Como operador de milagres e conse­lheiro de líderes de nações, Eliseu precedeu e prefigurou Jesus Cristo. Eliseu representou a obra de seu Senhor; serviu como agente do Senhor do pacto. Como profeta, precedeu Cristo, fazendo a obra ministerial que Cristo mais tarde cumpriria plenamente. Eliseu mostrou que um ministério por meio de milagres era realmente obra de Deus. Cristo também foi prefigurado em Eliseu quando este, um homem santo, viajou por Israel atendendo as grandes neces­sidades do povo e demonstrou que o Senhor é soberano sobre a vida, a morte, a propriedade, os suprimentos, os reis, os exércitos e as nações. 

A significação messiânica de Eliseu deve também ser vista em seu ministé­rio ao ofício real, particularmente aos governantes que exerciam tal ofício. O ofício real em Israel era o ofício messiânico por excelência. Eliseu também serviu como "guardião" deste ofício:[35] deu conselhos, enunciou diretivas e pronunciou julgamentos; assim, serviu para manter o ofício que demonstra especialmente o senhorio de Jesus, o Messias. 


[1] As quatro eras são: (1) pré-mosaica, (2) mosaica, (3) não-canônica, e (4) canônica, 


[2] Ver "Sumário e Prelúdio" para um exame dos vários níveis de profecia. 


[3] Cf. Johannes Lindblom, Prophecy in Andent Israel (Filadélfia: Muhlenberg, 1962), p, 202, que chama a atenção para o fato de apenas uma pequena minoria de profetas ser conhecida entre nós, 


[4] Gn 20.7. 


[5] Cf. Leon J. Wood, The Prophets of Israel (Grand Rapids: Baker, 1979), p. 121, para posterior estudo deste fato. A maioria dos estudos sobre os profetas faz pouca referência, se é que faz alguma, à atividade profética em Israel nesse tempo, mas vários eruditos apontam os "antecedentes" e as assim chamadas raízes e manifestações primitivas de profetismo nas nações vizinhas (p. ex., R. B. Y. Scott, The Relevance ofthe Prophets [New York: Macmillan, 1969], pp. 40-51; Alfred Haldar, Assodations of CultProphets among the AndentSemites [Upsala: Almquist & Boktrycheri, 1945], p. 80). 


[6] Cf. caps. 8 e 9. 


[7] Cf, cap. 10. 


[8] O ponto de vista segundo o qual os profetas introduziram o monoteísmo ético e, correlacionado a isto, a formação dos padrões éticos e da lei (p.ex., Scott, Relevance oftheProphets, pp. 107-113) já não é tão facilmente aceito quanto antes. John Bright indica isso (HístoryofIsrael, p.246). A maioria dos estudiosos recentes do Velho Testamento concorda que a lei foi apresentada antes do começo da atividade dos profetas. 


[9] Wood, Prophets of Israel, p. 75. 


[10] Para uma explicação dos pontos de vista mais estrito e mais amplo do conceito messiânico, ver caps. 1 e 2. 


[11] Cf, cap.5 para uma compreensão do significado messiânico do anjo do Senhor, 


[12] Cf. cap. 4 sobre o sacerdócio como ofício messiânico. 


[13] Cf. caps. 9 e 10. 


[14] Cf. Edward J. Young, My Servants the Prophets (Grand Rapids; Eerdmans,1952), que fala dos profetas como "guardiães" da teocracia (p. 82). 


[15] Referir-se aos profetas canônicos como profetas escritores pode dar a impressão de que os demais profetas não escreveram. Segundo o Cronista, Natã, Aías, o silonita, e Ido, que teve visões (2 Cr 9.29), bem como Semaías (12.15) e Jeú, filho de Hanani (20,34), também escreveram. Eles deixaram crônicas de sua época, mas essas crônicas não foram incluídas quando, sob a orientação do Espírito de Deus, os escritos inspirados do Velho Testamento foram reunidos e preservados. 


[16] Jeroboão reinou aproximadamente de 930 a 910 a.C. e Josias de 641 a 609 a.C. 


[17] Asa reinou de cerca de 911 a cerca de 870 a.C. 


[18] “Micaías" e "Miquéias" são transcrições diferentes do mesmo nome hebraico. O profeta aqui referido é Miquéias ben*Imlá. Adotei a grafia "Micaías", seguindo Almeida, ed, revista e atualizada no Brasil, para melhor distingui-lo do profeta homônimo, Miquéias o morastita (Mq 1.1) (n.t). 


[19] Ambos no cap. 13, subtítulos "Elias" e "Eliseu". 


[20] Cf., p. ex., J. Ridderbos, Het Godswoord derProfeten (Kampen: Kok, 1930), p, 7, 


[21] Arthur W. Pink, The Life of Elijah (Londres: Banner of Truth Trust, 1956), p. 7. 


[22] Cf. o ensaio de Thomas L. Wilkinson, "The Role of Elijah in the New Testament", Vox Reformata 10 (Maio de 1968)1-10. 


[23] Alfred Edersheim, Jesus The Messiah,2 vols. (New York: Randolph, 1893),2.707 (cf.seu "propositadamente ignorar", e "nenhum propósito útil", pp. 707,708). 


[24] William Milligan, Elijah: His Life and Times (New York: Revell, 1890), p. 192. Em seu último sermão sobre Elias, Milligan afirmou que o profeta não faria ele próprio uma segunda aparição, mas João Batista era o segundo Elias (ibid., p. 205), Thomas Wilkinson afirma que seu interesse no estudo de Elias em o Novo Testamento era saber como, particularmente, Elias se relaciona com Jesus Cristo ("Role of Elijah", p. 1). Ver também Walter Kaiser, 'The Promise of the Arrival of Elijah in Malachi and the Gospels", Grace Theological Journal 2 (1982):221-233; A. Wiener, The Prophet Elijah in the Development of Judaism (Londres: Routledge, 1978), cap. 9, 'The Elijah-Figure in Christianity". 


[25] Cf. p. ex., Morris M. Faierstein, "Why Do the Scribes Say Elijah Must First Come?" JBL 100 (Março 1981):75-86. Ele conclui que "não foi preservada nenhuma evidência... de que o conceito de Elias como o precursor do Messias era amplamente conhecido ou aceito no primeiro século" (ibid., p. 86). Mas a Cristandade, desde o início, viu uma forte relação entre Elias e o Messias (cf., p. ex., Book of Elijah, partes 1 e 2, coletado e traduzido por Michael E. Stone e John Strugnell, 'Texts and Translations of Pseudepigrapha Series", SBL, Missoula: Scholars, 1979). 


[26] Arthur W. Pink escreveu: "O ministério de Elias e Eliseu forma duas partes de um todo, um suplementando o outro, embora haja um forte contraste entre eles... especialmente em relação aos milagres" (Gleanings from 


[27] John Gray, I&IIKings: A Commentary, em OTL (Filadélfia: Westminster, 1970), explica os milagres de modo que eles realmente falam de acontecimentos naturais, sociais; por exemplo, pastores locais alimentaram Elias; vizinhos mantiveram suprida a viúva (ibid., pp,338-342). Robert P. Carroll, 'The Elijah-ElishaSagas: Some Remarks on Prophetic Succession in Ancient Israel", VT19 (1969):400-415, fala de "milagres nas sagas como extensão de elementos nas lendas agrupadas em tomo de Moisés" (ibid., p. 412), O ponto principal de seu ensaio é que o suposto editor deuteronômico inclui as sagas para demonstrar que Elias era um profeta da ordem e do calibre de Moisés. Brevard Childs, "On Reading the Elijah Narratives", Int. 34 (1980), parece ter mais respeito pelos relatos históricos sobre Elias, mas sua referência às histórias de Elias, numa das quais se levanta uma contestação (1 Rs 18.20,21) suscita sérias dúvidas a respeito da aceitação, por parte de Childs, da veracidade dos relatos bíblicos sobre os milagres de Elias. 


[28] Que o ministério de Elias tivesse um propósito cúltico específico não é necessariamente evidência de uma tensão entre sacerdotes e profetas. Elias desafiou também os profetas e os devotos régios de Baal. 


[29] Leon Morris, The Gospel According to John, NICNT{Gvaná Rapids: Eerdmans, 1971/1981), pp. 134,135. 


[30] Neste ponto é bom prestar atenção à advertência que Thomas Wilkinson fez: os estudiosos devem ser cuidadosos quando entrarem no "terreno escorregadio" de fazer Jesus admitir o papel de João Batista como o Elias que havia de vir (cf. seu "Role of Elijah in the New Testament", p. 7), 


[31] Os bons comentários sobre 1 e 2 Reis oferecem boa quantidade de material para estudo sobre Eliseu. Mas os estudos específicos são comparativamente poucos. Entre eles estão: A. Edersheim, Elisha the Prophet (Londres: Religious Trust Society, 1882); Frederick Krummacher, Elijah the Tishbite (Londres: Routledge, 1849); Fleming James, Personalities ofthe Old Testament (New York: Scribners, 1939), cap. 10; Arthur Pink, Gíeanings írom Elisha (Chicago: Moody, 1972); Ronald S. Wallace, Elijah and Elisha (Grand Rapíds: Eerdmans, 1957). Os livros sobre a história do Velho Testamento diferem bastante quanto ao volume de atenção dada a Eliseu. A cada ano aparecem de um a três artigos em várias revistas; serão feitas referências a alguns desses trabalhos. 


[32] Escritores recentes não são de grande ajuda em dar-nos a compreensão da mensagem real dos episódios de Eliseu. Seus exercícios crítico-literários removem ou encobrem a mensagem original. Robert LaBarbera, "The Man of War and theMan of God: Social Satirein II Kings 6.8-7.20'', C5(246/4 (Outubro 1984):637-651, empregou um modelo sociológico para indicar que o relato é uma sátira habilmente construída contra a elite reinante naqueles dias. T. Raymond Hobbs, 'II Kings 1 and 2: Their Unity and Purpose", Studies in Religion 13/3 (1984):327-334, usou a "crítica retórica" (que é uma tentativa de determinar o "efeito das escolhas léxicas feitas pelo escritor, bem como a maneira de modelar a narrativa") para provar que o autor de 2 Rs 1 e 2 queria retratar a continuação da sucessão profética, enquanto o próprio Israel estava em declínio. Robert L, Cohn, "Form and Perspective in II Kings 5", VT33 (Abril 1983):171-184, tentando demonstrar que a arte e a teologia estão simbolicamente relacionadas e que o aspecto moral transcende o miraculoso, apresenta Naamã convertido. Ver também Alexander Rofe, "The Classification of the Prophetical Stories", em JBL 89 (Dezembro 1970):427-440. 


[33] Pink, Gleanings from Elisha, pp.11,17. 


[34] Cf. Raymond E. Brown, "Jesus and Elisha" Perspective 12 (1971):85-104; D. Gerald Bostock, "Jesus as the New Elisha", ExT92/2 (Novembro 1980):39-41; e Thomas L. Brodie, 'Jesus as the New Elisha: Cracking the Code", ExT93/2 (Novembro 1981):39-42. O ultimo imagina o autor de João 9 reescrevendo a história de 2 Rs 5. 


[35] Cf. Young, My Servants the Prophets,, p. 82.