26 de junho de 2016

Gerard Van Groningen: Conceito Messiânico nos profetas posteriores - Sumário e Prelúdio

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Sumário e Prelúdio 

Sumário 

O Contexto do Conceito Messiânico 

Yahwéh criou homem e mulher à sua imagem e semelhança; colocou-os em posição de autoridade e responsabilidade sobre o cosmos criado. Assim, desde o próprio início da existência humana, a idéia de realeza tem estado presente. O Rei soberano da criação formou a humanidade para ser real, e colocou homem e mulher em posição de autoridade, honra, poder e responsabilidade régios. 

O caráter, posição e função régios foram suplementados, fortalecidos e enriquecidos com características e responsabilidades proféticas e sacerdotais. Adão foi um rei profético, como também foi um rei sacerdotal. O que alguns eruditos consideram realeza sacra não é um conceito inteiramente estranho ao Velho Testamento. É verdade que a explanação da origem e das funções das pessoas régio-sacras não foi corretamente compreendida nem esclarecida apropriadamente. De maneira semelhante, a relação entre as funções proféticas e sacerdotais foi e ainda é freqüentemente mal interpretada. O fato básico de que Yahwéh estabeleceu essa relação é ignorado ou negado. 

A queda da humanidade em pecado poderia ter obliterado completamente seu caráter real, profético e sacerdotal. Yahwéh, entretanto, o manteve, pro­vendo outra Pessoa real para levar adiante, de modo pleno e perfeito, o papel sacerdotal e profético. Assim fazendo, Ele propiciou o meio pelo qual as próprias características, a autoridade e as responsabilidades reais, sacerdotais e proféticas da humanidade deveriam ser mantidas, renovadas e realizadas. 


A Revelação do Conceito Messiânico por Yahwéh 


Yahwéh revelou o Messias (ou o conceito messiânico) à humanidade. A idéia não se originou com Adão e Eva. Yahwéh, em seu tratamento com a humanidade caída, "descobriu-lhe" o que estava completamente coberto. Mas uma vez conhecido, homens e mulheres falaram a respeito disso e desenvol­veram sua própria interpretação, elaboração e aplicação. 

O conceito foi revelado inicialmente pela palavra falada por Yahwéh ou por seus agentes, que falavam em seu nome. A palavra em muitos casos foi seguida de um ou mais atos divinos que confirmaram a palavra e prepararam o cenário de revelações posteriores por meio de outras palavras faladas. 

Yahwéh falou a Adão quando lhe prometeu que a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Semelhantemente, falou a Noé e a Abraão. Não são registrados os meios pelos quais Deus falou a Noé (Gn 6.13; 7.1; 9.1), mas afirma-se que Noé expressou uma profecia que desenvolveu o conceito messiânico. A Abraão Yahwéh falou por meio de uma visão (Gn 15.1), apari­ções (17.1) e teofanias (18.1-3; 22.15). Yahwéh falou por meio de seu servo Jacó quando o conceito messiânico se desenvolveu ainda mais (Gn 49.8-10). 

A Escritura afirma nos últimos quatro livros do Pentateuco que Yahwéh falou a Moisés "face a face" (Êx 33.11; Dt 34.10; cf Nm 12.8). Moisés, por seu turno, serviu como porta-voz, quando o conceito messiânico foi elaborado por meio de palavra, símbolo e tipo. Yahwéh também falou por meio de Balaão. 

No decorrer do tempo, Yahwéh falou aos profetas Samuel e Natã, e também por meio de Davi, que testificou: "O Espírito inspirou-me", e "Yahwéh pôs palavras na minha língua" (2 Sm 23.2). 

O testemunho escritural referente à revelação do messias diretamente por Yahwéh não tem sido prontamente aceito como verdadeiro por muitos erudi­tos. Eles sugerem vários meios e modos para a aparição do conceito messiânico em Israel. Outros grupos religiosos e seus escritos têm sido respigados (p. ex., egípcios e ugaríticos) no afã de encontrar algumas possíveis origens para as crenças de Israel sobre o Messias. Deve ser reconhecido que a linguagem usada para revelar e elaborar as idéias messiânicas pelos israelitas tem numerosas similaridades com a das nações vizinhas. Mas o conteúdo dado a termos semelhantes foi um dom de Yahwéh para Israel, e por meio de Israel, para pessoas de todas as gentes e nações. 


O Papel dos Agentes Messiânicos 


O próprio Yahwéh realizou vários aspectos da obra relacionada com a revelação do conceito messiânico. Ele apareceu em várias formas; Ele veio e interagiu com seu povo como o anjo de Yahwéh; Ele veio como uma coluna de fogo e de nuvem. Ele feriu o Egito e realizou o grande evento redentivo do êxodo de Israel do Egito. Além de sua presença e atividade direta, Yahwéh operava também em e por meio de agentes humanos. 

Grande parte da revelação relativa ao conceito messiânico foi comunicada verbalmente por porta-vozes, isto é, profetas. Noé e Jacó serviram como porta-vozes proféticos; Moisés foi o mais proeminente profeta do Velho Testamento; Samuel e Davi, e os salmistas, funcionaram como agentes revelado­res, desenvolvendo, explanando e aplicando o conceito. 

Os sacerdotes da ordem eterna de Melquisedeque e os da inaugurada ordem temporal aaronica agiram como agentes de Deus em sua obra media­dora. Eles expõem o conceito em sua vida e obra. Quando o ofício sacerdotal não funcionava adequadamente, um profeta ou rei realizava algumas das funções messiânicas do sacerdócio. 

O ofício real era um meio magnífico para a revelação do conceito messiâni­co. Adão como figura régia foi o primeiro a dar-lhe expressão. Depois da queda, o ofício real e o conceito messiânico não foram nem eliminados nem separados. Com o primeiro Adão, Yahwéh começou a preparar a vinda do segundo Adão. Davi serviu como o destacado agente messiânico real em o Novo Testamento. Em sua eleição, unção, sofrimento, vitórias, e muitos outros aspectos de sua vida real, ele proclamou e exibiu o conceito messiânico. Antes dele, homens que não estavam em posição régia oficial também deram expressão e exibiram a dimensão real do conceito messiânico. Exemplos disso incluem Abraão, José, Moisés, Josué, Gideão e Samuel. 

Yahwéh não somente selecionou pessoas para dar expressão ao conceito messiânico, mas também empregou objetos, experiências, eventos. Esses, bem como algumas das pessoas, eram analogias, símbolos e tipos. 

Todos esses meios foram empregados no transcorrer da história da salvação para proclamar e explicar o real conceito messiânico. Eram meios históricos; não foram meios especificamente criados, nem alguma espécie de tertium quid. 


A Compreensão do Conceito Messiânico 


A pergunta a respeito da compreensão do conceito messiânico por aqueles que Yahwéh convocou e por aqueles a quem foi revelado é difícil de responder com precisão e definitude. Diversos fatores devem ser tomados em considera­ção. 

A limitada capacidade do agente humano é um fator. O pecado é particularmente limitador. Yahwéh revelou progressivamente o conceito messiânico, dentro do contexto histórico dos agentes pessoais. A revelação, embora dada por um Deus infinito a pessoas pecadoras e finitas, não estava inteiramente fora da compreensão humana. Mas outros fatores estavam envolvidos. O esforço humano para compreender, bem como o desejo de fazê-lo, e as próprias polaridades contrastantes entre crença e descrença, obediência e desobediên­cia, também devem ser consideradas. 

A compreensão, aceitação e aplicação humana do conceito não limitam a extensão do que Yahwéh se propôs revelar em determinado tempo. Esta é a falácia dos eruditos que dão uma importância exagerada à dimensão histórica da revelação, particularmente em relação à dimensão teológica. Especificamen­te, a extensão da revelação não é limitada pela compreensão humana. Deve também ser afirmado enfaticamente que o que foi revelado em dado tempo destinava-se primeiro do que tudo a ser conhecido, compreendido, crido, obedecido e vivido no momento histórico em que foi dado. 

Adão deu evidência de que ele compreendeu até certo ponto; ele deu nome à sua mulher "mãe de vida" (Gn 3.20). Abraão, José e Jacó também deram evidência, mesmo que possa parecer apenas vislumbres. O fato de Abraão "haver crido" (Gn 15.6), entretanto, é mais do que um vislumbre, pois Cristo mesmo disse que Abraão o viu (Jo 8.56)! Moisés compreendeu muito do que foi revelado a ele e a Israel no seu tempo; esse fato põe sua desobediência ao ferir a rocha em clara perspectiva. Há constatação de que Josué compreendeu até certo ponto, como também o fez Samuel. Davi e os salmistas como Etã (SI 89) e os filhos de Coré (SI 42) evidenciaram sua compreensão, crença e reações em ampla variedade de circunstâncias. 

Muitos dos agentes de Yahwéh funcionaram como profetas. Em outras palavras, eles eram porta-vozes de Deus. Compreenderam o que a mensagem significava para seus contemporâneos. A suposição de que eles compreendiam o significado pleno da mensagem para o seu tempo e para o futuro não é, entretanto, defensável. Yahwéh sabia que, à medida que o tempo avançava, que a história progredia, o que fora dito no passado se tomaria cada vez mais significativo. Isso não quer dizer que haja significados múltiplos escondidos na mensagem messiânica. Ao contrário, tempo é necessário para que se chegue à plena compreensão do que foi revelado no passado. 

Davi sabia que estava em posição singular: estava colocado sobre o trono físico, terreno, de uma nação que habitava a terra de Canaã. Neste aspecto, ele estava consciente de que era um rei como outros reis das nações vizinhas. Mas Davi sabia também que seu trono era muito especial: era o próprio Yahwéh que o estabelecera sobre o povo escolhido do pacto, os descendentes de Abraão. Ele reconhecia que era um rei teocrático. É verdade que ele nem sempre viveu e agiu de acordo com esse conhecimento e essa elevada compreensão, mas ao chegar a uma compreensão de seus pecados, seu arrependimento foi profundo, pelo seu conhecimento da sua posição e do grau de sua ofensa contra Yahwéh. Davi compreendeu seu papel como recipiente do pacto de Deus (2 Sm 7.1-17) em grande medida. Suas respostas, que se tomaram elaborações, explanações e aplicações, são prova disso. E a interpretação histórica dos salmos não pode e não deve pôr limitações ao intento, significado e aplicação dos salmos messiânicos para o tempo em que foram escritos, nem para o futuro para o qual foram também destinados. 


A Execução da Revelação Messiânica 


Desde o tempo em que proferiu sua palavra inicial sobre o conceito messiâ­nico (Gn 3.15), Yahwéh começou a cumprir sua palavra a respeito de um plano, um programa, uma pessoa, um propósito e uma precisa meta final. Progressi­vamente, no curso da história da salvação, e sempre de um modo que fosse significativo e adaptável a um dado tempo, o Senhor aplicou a sua palavra. Alguns dos exemplos já estudados neste livro devem ser recapitulados aqui. 

Yahwéh falou a respeito da semente em sua palavra inicial ao Adão caído. Essa semente foi mantida e protegida através dos tempos: de Sete a Sem, de Abraão a Jacó, e de Judá a Davi. Yahwéh falou a respeito de libertação: a Noé e sua família no meio do julgamento pela água; a Abraão, do culto dos ídolos de Ur dos Caldeus; a Isaque, da morte no altar; a José, da cova e da prisão; e a Israel, do Egito e do deserto. A libertação foi seguida de repouso, prosperidade e crescimento. Yahwéh falou a respeito de uma terra na qual a semente se estabeleceria e onde os reis que procederíam de Abraão reinariam sobre Israel. Yahwéh falou a respeito de ser uma bênção na terra; e, por meio da semente de Abraão, especialmente por meio de Davi e Salomão, isso foi realizado até certo ponto. Yahwéh falou de uma grande nação e, durante os reinados de Davi e Salomão, ancestrais e tipos do Messias, isto se tomou realidade. Yahwéh dissera por meio de Jacó que o cetro dado à tribo de Judá nunca se apartaria dela. Judá, uma tribo que recebeu a liderança, e a dinastia de Davi, estabelecida pela palavra de Yahwéh por meio de Natã, foram o cumprimento da promessa. 

Até o tempo de Davi e Salomão muitos aspectos da revelação do conceito messiânico foram implementados —mas nenhum plenamente. Cada aspecto realizado foi um cumprimento parcial e um estágio na continuação da execu­ção da palavra de Yahwéh em relação ao conceito messiânico. 


O Escopo do Conceito Messiânico 


A distinção entre os significados mais estrito e mais amplo do conceito messiânico é muito útil. Os que insistem num ponto de vista muito restrito desse conceito perdem muito do que foi revelado em relação ao Messias. 

O ponto de vista mais estrito considera que é válido somente pensar numa pessoa, especificamente uma pessoa régia. Isto quer dizer que, a menos que haja referência definida a um rei, não se poderia pensar no Messias presente ou em perspectiva. Não pode haver dúvida de que a ênfase central do conceito messiânico é uma pessoa com caráter e posição reais; as Escrituras do Velho Testamento, até aqui estudadas tornam isso muito claro. Essa régia pessoa, além de sua posição real, tem características e qualificações essencialmente reais. Além disso, a mesma pessoa tem outras posições oficiais, a de sacerdote e profeta. Portanto, o ponto de vista mais estrito é "ampliado", porque essas duas funções adicionais não podem ser excluídas. Pelo fato de a pessoa régia, o Messias, ter a posição de sacerdote, não se segue que o conceito messiânico tenha sido tomado de nações que tivessem o assim chamado conceito de realeza sacra em seu pensamento e sua vida religiosa e política. O Messias real-profético-sacerdotal de Israel — prometido, prefigurado, simbolizado e tipificado — é um dom específico e único do Senhor do pacto a seu povo. 

O ponto de vista mais amplo refere-se especialmente à variedade dos agentes messiânicos. Toda a gama de atividades atribuídas ao rei em relação à quebra dos laços do cativeiro, libertação do jugo dos opressores e entrada num estado de prosperidade, paz, plenitude e riquezas da vida do pacto deve ser incluída nesse ponto de vista mais amplo. Mais ainda, naqueles exemplos onde o Rei tinha de suportar sofrimento por causa da opressão, do ridículo e da zombaria dos que o odeiam, ele experimenta, de maneira típica, os sofrimentos que prefiguram e tipificam a apresentação que o Messias faz de si mesmo como sacerdote que haveria de oferecer um sacrifício de si próprio — um sacrifício que incluía o sofrimento ao longo da vida e finalmente a morte. De maneira semelhante, a obra profética do rei sacerdotal, notadamente como relacionada à vida régia e sacrificial do Rei e suas tarefas, é incluída no ponto de vista mais amplo do conceito messiânico. A revelação das influências e dos efeitos das experiências e tarefas messiânicas era tal que Israel, o povo do pacto de Yahwéh, recebera uma apresentação até exaustiva do Redentor e Senhor prometido, que havia de servir como rei, sacerdote e profeta messiânico. Ele proveria o sacrifício pelos pecados, redimiria seu povo, e serviria como Media­dor. Continuaria a ser o servo revelador, um profeta como fora Moisés. Haveria de ser rei num reino que incluiria os aspectos políticos e não políticos da vida humana — de fato, a vida toda. 


Transição 


Quando os reinados de Davi e Salomão chegaram ao fim, o povo do pacto de Yahwéh havia recebido uma revelação compreensiva do conceito messiâ­nico. Tinha ouvido e visto o ser real, que tinha também funções sacerdotais e proféticas, tal como esses ofícios haviam sido plenamente estabelecidos sob Moisés, Aarão, Samuel e Natã. Tinha recebido revelação sobre as experiências, tarefas, influências e resultados. E mais, havia respondido a isso de vários modos. Em particular, respondera quando cantara os cânticos que os poetas haviam composto a respeito do Messias prometido. Se os cantavam com um coração crente, aceitavam as promessas e identificavam-se como povo do pacto, para quem o soberano Mediador do pacto havería de funcionar de modo pleno. 

Israel, o povo do pacto, necessitaria de uma nova proclamação do Messias? Realmente, sim. Um estudo das passagens messiânicas nos Profetas Posterio­res (a quarta parte de nosso estudo) confirmará essa afirmação. 


Prelúdio 


Antes de estudarmos aquelas passagens que contêm a mensagem profética relativa ao Messias, seu caráter e sua obra, seria útil discutir alguns aspectos importantes referentes ao fenômeno profético em si mesmo e à relação da mensagem profética sobre o Messias com a mensagem dada anteriormente. 

O estudo precedente, partes 1 a 3 (capítulos 3 a 12) cobriu o espaço de tempo desde a criação até o fim do reinado de Salomão (931 a.C.). Aceitamos a premissa de que muitos dos salmos foram compostos no tempo de Davi e de Salomão e que o Cântico dos Cânticos foi escrito nos dias de Salomão. 

A quarta parte de nosso estudo da revelação messiânica através dos Profe­tas Posteriores cobre um espaço de tempo de aproximadamente quinhentos anos—desde o tempo da divisão do reino, pouco depois da morte de Salomão (cerca de 931 a.C.) até o tempo do profeta Malaquias, que se acredita tenha estado ativo no período pós-exílico de 440-410 a.C. 


A Mudança do Contexto Histórico 


No período de aproximadamente quinhentos anos de atividade profética houve algumas mudanças profundas nos assuntos nacionais e internacionais de Israel. As profecias messiânicas anteriores à morte de Salomão eram orien­tadas para a cena política nacional e internacional, e em alguns casos dirigidas diretamente a ela; assim também acontece no período profético. 

Os Profetas, com diferentes graus de fama, ministraram durante os dois séculos da monarquia dividida (cerca de 931-722 a.C.). Nações vizinhas de Israel e Judá, tais como Síria, Edom, Moabe, Amom, Filístia e Tiro, eram objeto de profecias. A Síria, por exemplo, deu ocasião para a conhecida profecia de Imanuel (Is 7.13,14). Poderes maiores como o Egito e a Assíria tiveram papel importante na criação de contextos para diversas profecias (cf., p. ex., Is 19.23-25). 

Durante os anos finais do reino de Judá — da deportação das dez tribos do norte em 722 a.C. até o próprio exílio de Judá em 586 a.C.—as chamadas nações menores continuam a desempenhar certo papel, mas em extensão menor do que antes. Quatro nações poderosas — Egito, Assíria, Babilônia e Pérsia — criaram um cenário que reclamava uma proclamação profética (cf., p. ex., Is 37.21-35; 44.24-45.7). 

O período exílico, que começa com a primeira deportação de algumas pessoas (606 a.C.) e que foi seguido por duas deportações maiores (cerca de 596, 586 a.C.), terminou com o retomo dos exilados em 536. Durante o exílio de setenta anos de Judá, dois profetas maiores atuaram em Babilônia: Ezequiel, que foi exilado em 596 e trabalhou entre os exilados, tendo proferido algumas de suas maiores mensagens na época da queda de Jerusalém (586 a.C.); e Daniel, levado cativo em 606, que passou todo esse tempo em cortes reais estrangeiras, continuando a profetizar depois que os medos e persas captura­ram Babilônia e que alguns judeus tinham retomado à terra natal. As mensagens desses dois profetas exílicos refletem as circunstâncias políticas em que viveram (especialmente Dn 7.1-14; Ez 21.25-32.15). 

O período de 536 a 410 a.C. foi o tempo em que o império medo-persa estava no zénite. O remanescente judeu, em e ao redor de Jerusalém, viveu, trabalhou e cultuou como um grupo étnico e religioso dentro de um vasto império. Esse particular contexto é refletido na mensagem dos três últimos profetas do Velho Testamento. 

Cumpre fazer três comentários qualificadores e esclarecedores. Primeiro, nem todos os profetas se dirigiram diretamente a nações. Os que o fizeram, entretanto, fizeram-no em seu próprio estilo e em suas próprias circunstâncias. Segundo, nem todos os profetas, embora refletissem seu Sitzim Leben nacional e internacional, proferiram profecias messiânicas no contexto imediato da sua situação política. Eles nem sempre anunciaram uma profecia messiânica espe­cífica enquanto se dirigiam a determinada situação nacional ou internacional. O oposto também é verdade: uma profecia messiânica nem sempre foi a ocasião para uma profecia contra determinada situação nacional ou internacional. Finalmente, embora a cena política fosse importante em várias profecias que podem ser qualificadas como messiânicas, as circunstâncias religiosas, espiri­tuais, morais e éticas ofereciam base mais adequada para a proclamação de profecias que o Senhor revelou a seus servos os profetas. 


Uma Visão de Conjunto da Atividade Profética 


Toda a apresentação bíblica do profetismo pode ser dividida em quatro períodos.[1] No primeiro, o período pré-mosaico, não havia profetas no sentido clássico do termo. Havia homens, porém, que recebiam revelação de Deus e faziam sua mensagem conhecida a outros. Como são estes dois os fatores centrais do profetismo—revelação divina e resposta humana—podemos falar de profetas no período pré-mosaico. Enoque, o sétimo depois de Adão, profe­tizou (Jd 14). Noé profetizou a respeito de seus três filhos (Gn 9.25-27). Abraão foi chamado de profeta.[2] Jacó profetizou a respeito de seus filhos (Gn 49.3-28, esp. w. 8-10). Esses homens, embora não membros do Israel nacional, devem ser vistos como participantes da proclamação profética futura que teria um papel central na vida, obra, culto e destino de Israel como povo. 

A segunda era é a mosaica. Moisés sozinho representa esse período. Por meio dele o Senhor revelou-se e revelou seu plano, sua vontade, seu propósito para Israel como nação. Moisés foi o maior dos profetas do Velho Testamento (Dt 18.14-16). A revelação atingiu um ponto alto e todos os profetas subseqüentes falaram dentro do contexto da mensagem que Moisés esboçara e desenvol­vera. Ele é por excelência o tipo profético e o precursor profético de Cristo, o Revelador último da vontade, do plano e dos propósitos de Deus. 

A terceira época da atividade profética cobre o tempo dos Profetas Anterio­res — de Josué até os profetas literários. Samuel é um notável profeta desse período; pode ser considerado um "profeta mosaico", porque suas várias posições e funções seguiam as de Moisés. Elias também pode ser designado um tipo "mosaico" de profeta. Dois outros profetas desse período também foram notáveis. Natã, o conselheiro de Davi, recebeu uma fundamental men­sagem para o rei. A casa de Davi seria a dinastia real por meio da qual o Messias havia de vir. Essa profecia foi mencionada de vários modos pelos profetas subseqüentes. Eliseu, o profeta ministrante, é também um representante de grande importância do profetismo da terceira era. Outros profetas que falaram dentro da tradição estabelecida por Moisés tinham como tarefa primária julgar e governar Israel (Josué, Débora, Davi e Salomão). Outros dirigiram-se à realeza. Assim foi com Gade, que se dirigiu a Davi (1 Sm 22.5; 2 Sm 24.11); Aías, que falou a Jeroboão (1 Rs 11.29,30; 12.15); Semaías, que falou a Roboão (1 Rs 12.22-24); o profeta anônimo de Judá que falou a Jeroboão (1 Rs 13.1); Azarias, que falou a Asa (2 Cr 15.1); bem como Hanani, que também falou a Asa (2 Cr 16.7); Jeú, filho de Hanani, que falou a Baasa (1 Rs 16.1,7; cf. v. 12); Eliézer, que falou a Josafá (2 Cr 20.37); e Miquéias, que profetizou contra Acabe e Josafá (1 Rs 22.9-28 par. 2 Cr 18.7-27). Poucos desses tiveram uma direta mensagem messiânica a proclamar, porém tiveram uma tarefa muito relevante a cumprir em relação ao ofício messiânico real. 

A quarta era da atividade profética é a dos profetas escritores. Durante um período de aproximadamente quatrocentos anos a promessa feita aos patriar­cas, a revelação dada por meio de Moisés, e a mensagem profética comunicada a Davi (2 Sm 7.1-17) formam o fundo para a atividade profética e são referidas como a revelação do Senhor por meio da qual Israel e Judá fiéis haviam de viver, servir, e enfrentar o futuro com esperança. Apela-se também para essa revelação quando Israel e Judá infiéis são advertidos do julgamento que viria. 

A essa altura, pode ser útil apontar que as quatro eras da profecia bíblica (que não se desenvolvem das formas mais simples para as mais elevadas e desenvolvidas, porque Moisés, na segunda era, representa o clímax) funcio­nam em seis níveis: 

1. O mais elevado é por meio de Moisés (segunda era). 

2. Os profetas escritores representam o segundo nível mais elevado (quarta era) 

3. Indivíduos com uma vibrante mensagem profética profunda para pes­soas específicas, ou para um tempo ou evento específico, como, por exemplo, Jacó, Samuel, Natã e Elias representam a primeira e a terceira eras. 

4. Profetas envolvidos na administração, que serviram como fazedores de reis e conselheiros de reis, por exemplo: Josué, Débora, Gade, Aías, etc., representam a terceira era. 

5. Filhos, corporações ou grupos de profetas representam a terceira e a quarta eras. Em uma ou duas ocasiões um desses transmitiu mensagem do Senhor. 

6. Todo o obediente povo do pacto. Moisés orou por isso (Nm 11.29) e Joel profetizou a respeito dele (J1 2.28,29 [TM 3.1,2]). Vários exemplos no Velho Testamento indicam que havia por parte do povo uma consciência da mensagem do Senhor, de sua vontade e de seu povo.[3]

Os profetas que funcionaram nos primeiros três níveis eram pessoas que receberam revelação de Deus e a proclamaram por palavras e por atos. Em alguns poucos exemplos especiais isso foi também verdade com os que funcio­naram no quarto e no quinto níveis. A profecia messiânica foi dada unicamente por meio de profetas que funcionaram nos três primeiros níveis. Josué, no quarto nível, foi um tipo significativo de Cristo, mas não proferiu profecia messiânica verbalmente. 

No capítulo 13 discutiremos o ministério de Elias e Eliseu, profetas da terceira era, e avaliaremos sua significação messiânica. Os escritos dos profetas posteriores serão a maior fonte para o remanescente de nosso estudo da revelação do conceito messiânico. Esses profetas escritores serão estudados na ordem cronológica em que aparecem em cena na história da salvação. É difícil determinar o tempo preciso do ministério de alguns deles. Serão dadas as razões para o tempo em que consideraremos que determinado profeta viveu ao ser estudada a mensagem de cada um deles. 


Desenvolvimento Profético do Conceito Messiânico 


Os profetas escritores não foram os primeiros a falar de um Messias pro­metido, de seu caráter e de sua obra. Ao contrário, de maneira orgânica, dentro do cadinho de seu meio histórico, eles desdobraram progressivamente o conceito messiânico, desenvolveram-no e aplicaram-no,[4] um conceito já reve­lado e desenvolvido em considerável extensão nos escritos de Moisés, nas obras históricas—de Josué até 1 Reis — e na Literatura de Sabedoria, especial­mente nos Salmos.[5] Os profetas tinham esses escritos inspirados. Eles sabiam o que o Senhor tinha revelado e como Ele levara adiante sua palavra no curso do tempo, antes que eles tivessem sido chamados para serem seus porta-vozes. 

Os profetas compreenderam que a idéia básica e fundamental trazida pelo conceito messiânico fora revelada no tempo da criação e da queda de Adão e Eva. Compreenderam também que a idéia de um messias foi revelada no contexto do pacto do Senhor com seu povo, particularmente com Israel. E como o pacto foi estabelecido dentro da moldura do reino de Deus, com Israel especialmente dentro da moldura teocrático-monárquica, os profetas procla­maram e expandiram o conceito do Messias, como fator integral do pacto do Senhor com seu povo, sob seu governo soberano, em seu reino.[6]

Os profetas não somente assumiram a idéia pactual do Messias, mas tam­bém adotaram a estrutura pactual ou alguns de seus elementos centrais, ou desenvolveram sua mensagem sobre a base do pacto do Senhor com seu povo. Isso foi assinalado por vários autores.[7] Um aspecto específico que põe a estrutura pactual no primeiro plano é o substantivo hebraico ríb (processo judicial; NIV, a "acusação" formal que os profetas dizem que o Senhor tem contra seu povo; por exemplo, Os 4.1; 12.2; Mq 6.2; Jr 25.31). Outro é a referência aos laços do matrimônio, ou o uso deles, como uma analogia do casamento do Senhor com seu povo (Os 1-3; Is 54.1; 62.1-5; Jr 31.32; Ez 16.1-14). Embora a frase "o Messias, mediador do pacto" não seja usada, a idéia é apresentada na frase mensageiro do pacto (Ml 3.1). Em termos gerais, isso é discutido e desenvolvi­do pelos profetas. Fala-se do Messias como o Regente, o Servidor, o Ensinador, o Sofredor, o Julgador e o Consumador. Esses vários epítetos do mediador do pacto foram proclamados, refletidos e recitados em Israel e Judá antes do ministério dos profetas, e durante o mesmo. Os profetas repetiram, expandi­ram, desdobraram, desenvolveram e aplicaram esses aspectos no curso de seu ministério. 



[1] A história do profetismo tem sido estudada e registrada por eruditos que representam várias escolas de pensamento. Andrew B. Davidson, Old Testament Prophecy (Edimburgo: T. & T. Clark, 1903), foi influenciado até certo ponto pelas escolas críticas; Abraham J. Heschel, The Prophets (New York: Harper and Row, 1962), reflete várias tendências conservadoras, como representante do Judaísmo contemporâneo; Johannes Lindblom, Prophecy in Ancient Israel (Filadélfia: Fortress, 1963), pode ser encarado como um representante da escola escandinava do mito e ritual; Robert B. Y. Scott, The Relevance of the Prophets (New York: Macmillan, 1953), representa a abordagem crítica propriamente canadense; Leon J. Wood, The Prophets of Israel (Grand Rapids: Baker, 1979) é considerado um porta-voz do pensamento evangélico nos círculos batistas americanos. Edward J. Young, My Servants the Prophets (G rand Rapids: Eerdmans, 1952/1961), é considerado um forte representante da erudição conservadora presbiteriana e reformada. Esses autores não dão uma apresentação unificada da origem e da natureza do profetismo. 

Escritos recentes continuam a revelar diferenças profundas e fundamentais, por exemplo, concernentes à relação da profecia israelita com a das nações vizinhas (p. ex., Brevard S. Childs, 'The Canonical Shape of the Prophetic Literature", Interpretation 321 (Janeiro 1978):46-55;Menahem Haran, "From Early to Classic Prophecy: Continuity and Change", VT, 272.25-37; Moshe Weinfeld "Ancient Near Eastern Patterns in Prophetic Literatu­re", VT272.178-195. 


[2] Cf. Heschel, que reconhece que Abraão foi chamado de profeta, "embora ele não profetizasse, contudo, conhecia o sonho de Abimeleque" (Prophets, p. 406). Leon Wood expressou suas reservas a respeito de Abraão 


[3] Cf. Gerard Van Groningen/ 'The Sons of the Prophets" Vox Reformats 33 (1979):22-36. 


[4] Geerhardus Vos insiste em que, de fato, quando a revelação verbal do Senhor veio à humanidade, foi por meio de um processo progressivo, orgânico, histórico e adaptável (Biblical Theology [Grand Rapids: Eerdmans, 1948] pp. 5-9; ed. 1959, pp. 13-17). 


[5] Cf. caps. 9-11. 


[6] Cf. K. M. Campbell, 'The Messianic Covenants", JETS 15 (1900):181T85. Ver também Gordon D. Fee e Douglas Stuart, How toRead the Bible for All Its Worth (Grand Rapids: Zondervan (1982), que afirmam que os profetas desenvolveram a idéia messiânica, revelada anteriormente, p. ex,, nos materiais mcsaicos, nas profecias anteriores e nos Salmos (cf, cap. 10, pp. 149-167; "Deus não trouxe a noção de um Messias a seu povo pela primeira vez por meio dos profetas. De fato, ela se origina dentro da Lei [pacto]" [p. 155]). 


[7] Herbert B. Huffman, 'The Covenant Lawsuit in the Prophets", JBL 78 (Dezembro 1959):285~295; Wayne Kobes, "The Covenantal Structure of the Prophecy of Micah", Pro Rege (1974); J. Carl Laney, "The Role of the Prophets in God's Case Against Israel", &SST38 (Outubro 1981):313-325; James Limburg, "The Root (ryb) and the Prophetic Lawsuit Speeches", JBL 88 (Setembro 1969):29-395; e G. Herbert Livingston, "Structural Aspects in the Old Testament Prophets Work and Message", ASS 32 (Janeiro 1977):15-3Q. 

Livingston escreveu corretamente que a pesquisa na análise dos profetas maiores e menores "resultou em confusão e explanações mai orientadas da obra e da mensagem dos profetas, porque tem sido fragmentária e influenciada por um conceito de crescimento de tipos literários envolvido por um modo de pensar humanista evolucionista". Cf. também Ted S. Rendall, 'Tracing the Pattern of Prophecy", Prairie Overcomer (1981):426-433. Geerhardus Vos, em Biblical Theology, também deu ênfase à estrutura pactuai, particularmente em sua discussão do laço entre Jeová e Israel (cf.pp. 256-263; ed. 1959, pp.276-284); e Ronald E. Clements, que, em seu Prophecy and Covenant (Londres: SCM, 1965), escreve que é discernível uma tendência uníficante nos pronunciamentos proféticos, isto é, a preocupação com o pacto como base e explicação da existência de Israel (ibid., pp. 8,41,45,78-80,119-129). 

Ao seu próprio modo, Eric C. Rust, "The Theology of the Prophets", REX743 337, considera a eleição e a promessa como dois dos conceitos centrais da religião de Israel, com o pacto — um componente crucial da fé israelita — devendo ser compreendido em termos desses dois conceitos (ibid., p, 337).