9 de dezembro de 2015

R. K. HARRISON - O Retomo e a Restauração

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O Retomo e a Restauração 


CRONOLOGIA DESTE CAPITULO 

Nabucodonosor II ............................  605-562 a.C

Nabonido .............................................. 556-539 a.C

O Período Persa ................................... 539-331 a.C

A GRANDE RIQUEZA E PROSPERIDADE DO NOVO IMPÉRIO BABILÓNICO continuou durante todo o reinado de Nabucodonosor II. A sua orgulhosa osrentaçao, como registrado em Daniel 4.30, estava certamente em conformidade com seus ambiciosos projetos de construção. Seus interesses também se estenderam para as velhas cidades sumérias, e em Ur, restaurou o vasto complexo do templo de Nanna, remodelando-o e elevando o nível do pátio externo. Essa obra parece ter sido empreendida no espírito da reforma religiosa, que coloca o relato da adoraçào da imagem, registrada em Daniel 3.1 e versículos seguintes, em uma nova perspectiva. Woolíev descobriu que as câmaras que as “hierodules" sagradas e as sacerdotisas haviam ocupado nas proximidades do santuário, foram completa­mente removidas durante a restauração. Um espaço havia sido desocupado em frente ao santuário, e um altar foi ali colocado, proporcionando plena visào aos adoradores, desse modo poderiam observar o sacerdote enquanto ele fazia suas ofertas em público, sobre o altar. 

Este consistia em um nítido abandono dos métodos anteriores, uma vez que os atos rituais do ministrante eram secretos e conhecidos apenas da classe sacer­dotal. Parece claro que Nabucodonosor havia iniciado um programa de reformas religiosas que procurava modificar os antigos rituais marcados pela sensualida­de, e permitir ao publico adorador participar como grupo nas ofertas sacrificiais. Essa reforma do ritual é refletida no terceiro capítulo de Daniel, que registrou um decreto que ordenava que a população adorasse uma imagem do rei. Esse monumento havia sido erigido no campo de Dura, e todos tinham pleno acesso a ele. Como comenta Woolley: 

O que havia de novo no ato do rei? Não era a construção de uma estátua, porque cada rei, um após outro, havia feito o mesmo; a novidade era a or­dem para uma adoração geral por parte do público: o rei estava substituin­do um ritual realizado por sacerdotes por uma forma de adoração congregacional que todos os seus súditos eram obrigados a assistir. 

A Doença de Nabucodonosor 

Como era de se esperar, registros históricos babilônios contemporâneos não fizeram nenhuma menção à doença mental que, de acordo com o livro de Daniel (4.16 e ver­sículos seguintes), acometeu Nabucodonosor perto do final de sua vida. A doença em questão, que era uma forma rara de monomania conhecida como boantropia, deve ter sido uma fonte de perplexidade e embaraço para os círculos oficiais. Somente depois de três séculos um sacerdote babilônio, de nome Berossus, registrou uma tradição que dizia que Nabucodonosor ficou subitamente doente perto do final de seu reinado. Eusébio (no quarto século d.C.) citou uma versão diferente, que relatava que o rei repentinamente desapareceu depois de vaticinar a queda de seu império. Essa tradição parece ser um re­flexo deturpado da narrativa de Daniel (4,31), e pode ter sido preservada dessa forma para ocultar a presença da loucura, que causava temor e espanto universal na antiguidade. 

O Declínio do Poder Babilónico 

Quando Nabucodonosor morreu em 562 a.C, foi sucedido por seu filho Amel- Marduque, chamado Evil-Merodaque em 2 Reis 25.27. Com sua ascensão, o poder do império entrou em declínio, e depois de dois anos, ele foi assassinado por seu cunhado, Neriglisar, que reinou por quatro anos. Em 556 a.C. seu filho ocupou o trono durante alguns meses, mas também foi morto em uma conspiração, e um de seus assassinos, Nabonido, o sucedeu. Ele reinou até 539 a.C., e foi o último monarca do Novo Império Babilónico. Era um homem de cultura considerável, particularmente interessado em atividades arqueológicas. Enviava seus escribas por toda a Mesopotâmia para coletar inscrições antigas das mais diferentes fontes, e ordenou que nomes e datas relativas a reis fossem compilados, Há motivo, de certa forma, para se pensar que sua mãe fora uma sacerdotisa no templo do deus da lua em Harâ, e isto pode ter influenciado Nabo­nido a se tornar um antiquário religioso. 

Ele foi o último governante babilónico a empreender reparos no zigurate da deidade lunar em Ur, e quando sua restauração estava concluída, estabeleceu a sua filha como sumo-sacerdotisa. Ela aparentemente recolheu um certo número de artefatos de um período anterior, e manteve um pequeno museu de antiguidades locais, parte das quais foi descoberta por Woolley. 





Durante a maior parte de seu reinado Nabonido dividiu o governo do império com seu filho mais velho Belsazar, a quem, em 553 a.C, entregou a maior parte de sua auto­ridade real antes de iniciar uma campanha contra Teima, na Arábia. Após conquistar a cidade, construiu sua residência ali e, de acordo com a Crônica de Nabonido, erigiu edifícios suntuosos, comparáveis aos existentes na Babilônia. Nabonido viveu na Arábia por alguns anos, tempo durante o qual Belsazar foi o único governante da Babilônia. Por esse motivo, o segundo foi retratado no livro de Daniel (5.30) como o último rei da Babilônia. A referência a Belsazar, em Daniel 5.18, como filho de Nabucodonosor, tam­bém está correta, de acordo com a prática semita, a qual, especialmente no que se referia à realeza, estava mais interessada na sucessão do que na verdadeira descendência direta dos indivíduos. Nitocris, a mãe de Belsazar, era, ao que parece, filha de Nabucodonosor, e como os semitas em geral utilizavam os termos '“filho” e ‘‘neto” de forma intercambivel, seria correto falar de Belsazar como “filho” de Nabucodonosor. 

A Ascensão de Ciro 

O poder declinante do Novo império Babilónico incentivou a ascensão de um enérgico governante persa, Ciro II, que sucedeu o seu pai Cambises I por volta de 559 a.C., como governante de Anshan. Ele rapidamente uniu o povo de seu estado vassalo da Média, e em 549 a.C. revoltou-se contra Astyages, seu suserano. Após um curto período, ele o derrotou em batalha, e dessa maneira, Ciro tornou-se herdeiro do império medo-persa. Seu poder potencial era tão grande, que uma aliança contra ele foi rapidamente formada. 

Os que tomaram parte foram Creso, rei da Lídia (Ásia Menor), um rei incrivel­mente rico a quem é creditada a invenção da cunhagem; Nabonido da Babilônia, e Amasís, o faraó do Egito (de aproximadamente 569-525 a.C.). 

Em 546 a.C., Ciro atacou as forças de Creso, derrotando-as, ganhando dessa forma o controle de toda a Ásia Menor. Sua próxima investida foi contra a própria Babilônia, e o cilindro de Ciro registrou o modo pelo qual Marduque, a divindade protetora, o ajudou na vitória subsequente: 

Marduque... fez com que ele seguisse para a sua cidade, Babilônia... fez com que tomasse a estrada para a Babilônia, indo como amigo e companheiro ao seu lado... sem luta e sem conflito, permitiu que ele entrasse na Babilônia. 

Ele poupou a sua cidade, Babilônia, de sofrer algum tipo de calamidade... 

Foi dito que Ciro alterou o curso do rio Eufrates em seu ataque à cidade princi­pal, de torma que seus soldados entraram na Babilónia avançando pelo leito do rio. Em todo caso, a Babilônia caiu sob as forças persas em 538 a.C. e o exército caldeu, sob o comando de Belsazar, foi derrotado. Com a conquista da Babilônia, Ciro tornou-se o governante do maior império que o mundo já conhecera, e durante o reinado de seu filho, a influência da Pérsia estendeu-se para oeste até o Egito, Ciro considerava a queda da Babilônia como uma repreensão a Nabonido por seu desprezo e negligên­cia em relação a Marduque, e a sua ação injustificável ao levar para a Babilônia todas as estátuas dos deuses, quarido as torças persas estavam invadindo o reino. Porém, para os judeus exilados, a queda da orgulhosa Babilónia era o princípio de sua pró­pria reabilitação, e eles consideraram Ciro como o libertador designado por Deus, que os libertaria e permitiria que retornassem à terra de seus pais. 



O Édito de Ciro e o Retorno 

Tal expectativa não era infundada, pois imediatamente após a conquista da Babilô­nia, Ciro ordenou que todas as estátuas que Nabonido havia trazido para a capital, fos­sem devolvidas às suas cidades de origem. Isto foi seguido por um ato de clemência para com todos os prisioneiros na Babilônia que, embora fosse por natureza, humanitário, era também um astuto movimento político. O cilindro de Ciro registrou o édito que o novo governante proclamou em 538 a.C, assegurando a liberdade aos povos escravizados, per­mitindo que retornassem à sua terra para retomarem o fio de sua antiga existência: 

De... até Assur e Susa, Agade, Ashnunnak, Zarnban, Metumu, Deri, com o território do povo de Gutium, as cidades do outro lado do Tigre... os deu­ses, que nelas habitavam, eu os devolvi às suas regiões... todos os seus habi­tantes, os reuni e os devolvi a seus locais de habitação... 

O registro bíblico da proclamação de Ciro (2 Cr 36.23; Ed 1.2 e versículos se­guintes) indicam que os exilados receberam todo incentivo do monarca persa para retornarem a Judá e reconstruírem o Templo em Jerusalém. Ciro devolveu até os vasos de ouro e prata que Nabucodonosor havia levado para a Babilônia, quando Jerusalém sucumbiu aos caldeus, e designou Sesbazar, um membro da família real, como governador de Judá. Essas narrativas refletem o quadro exato da política que Ciro adotava com respeito a todos aqueles que haviam sido expa­triados sob o Novo Regime Babilónico, Ao exortar os povos cativos a retornarem para suas terras nativas e reconstruírem seus santuários religiosos, Ciro estava de uma só vez liberando a si mesmo da responsabilidade de mantê-los na servidão e promovendo a boa vontade para com seu próprio regime em todas as partes do seu recém-conquistado império. 

Porém, mesmo com esta forma de incentivo, muitos dos exilados hebreus estavam relutantes em retornar para a sua desolada terra natal e trabalhar pela reconstrução da vida da nação. Como já foi dito, por este tempo, os judeus de na­tureza mais materialista haviam adquirido consideráveis interesses patrimoniais na Babilônia, e não tinham a menor vontade de abandonar os confortos da vida estabelecida em troca das incertezas e dificuldades da vida de pioneiros em uma região desolada. 

Por volta de 536 a.C. alguns dos primeiros cativos começaram a longa e perigosa jornada de volta para Judá, sob a liderança de Sesbazar e Zorobabel. Eles levaram seus rebanhos e manadas para sua empobrecida terra natal, e ao chegarem em Jerusalém, visitaram o local do Templo, avaliando a situação desoladora. Alguns dos mais proeminentes chefes de famílias contribuíram com quantias em dinheiro para o fun­do de restauração do Templo, e Esdras descreveu a doação de ouro em ter­mos de moeda, usando a palavra dracma (que a versão KJV em inglês traz como “dram”). Costumava-se argumentar que a dracma não foi utilizada na Pa­lestina até depois das conquistas de Alexandre o Grande (em aproximada­mente 330 a.C.), mas sabe-se agora que a crescente influência do império grego contribuiu para a utilização da dracma ateniense como moeda padrão na Pa­lestina, a partir da metade do quinto século a.C. No primeiro ano após o re­torno, o altar das ofertas queimadas foi reconstruído, e algumas das antigas cerimônias para a devoção pública foram res­tabelecidas. Fundos para a reconstrução do Templo aumentavam de forma cons­tante, e carpinteiros, pedreiros e outros operários eram empregados para limpar o local e dar início ao trabalho de reconstrução. Assim como nos dias de Salomão, árvores de cedro da região do Líbano foram levadas para Jerusalém, e no segundo ano após o retorno, as fundações do novo Templo foram assentadas, em meio a notáveis cenas de emoção (Ed 3.8 e versículos seguintes). 



A Oposição à Reconstrução na Judéia 

Mas justamente agora, quando tudo parecia favorecer o rápido término da re­construção, iniciou-se um espírito de contrariedade por parte do povo que viveu na região durante o exílio, Esses colonos eram descendentes dos mesopotâmios que haviam sido deportados para a Palestina por Sargão, Esar-Hadom e Assurbani-pal, mas abrangia majoritariamente aqueles que haviam povoado Samaria quando o reino do norte se desfez. Quando os samaritanos se ofereceram para ajudar no trabalho da construção do Templo, sua oferta foi rejeitada, provavelmente porque os judeus estavam temerosos de serem mais uma vez corrompidos pela idolatria. Irritados com essa recusa, os samaritanos se afundaram na intriga política com o objetivo de impedir a reconstrução do Templo, e conseguiram uma proibição de Cambises II (530-522 a.C.), filho de Ciro, impedindo que maiores progressos fossem realizados. 

A autêntica natureza da correspondência aramai ca em Esdras 4.7 e versículos seguintes foi amplamente demonstrada através dos famosos papiros de Elefantina. Esses documentos foram descobertos em 1903, e consistiam de cartas escritas em aramaico por judeus que viviam em uma colônia militar localizada na ilha de Ele­fantina, próximo a Assuã, no Alto Egito. Como nos registros bíblicos, os papiros mostram que os reis persas estavam interessados no bem-estar religioso e social de seus súditos. Durante o período persa (539-331 a.C,), o aramaico tornou-se o idio­ma do comércio e da diplomacia por todo o império e, gradualmente substituiu o hebraico como a língua falada entre os judeus. Em particular, os papiros mostram que as formas literárias utilizadas por Esdras eram características do quinto sé­culo a.C., e que a carta contida no quarto capítulo de seu livro não deve ser data­da antes desse período. A ortografia dos nomes da realeza, em Esdras, exibe uma variação com relação ao costume vigente no século quinto a.C, e posteriores, e é provável que as formas bíblicas fossem derivadas de traduções persas anteriores, que foram modificadas a seguir. 

Aproximadamente treze anos haviam se passado desde o assentamento das fundações do segundo Templo, quando um período de confusão iniciou-se no império persa. Cambises, que havia incluído o Egito nos imensos domínios da Pér­sia ao derrotar Psamético III em Pelusio por volta de 525 a.C., ficou mentalmente doente logo depois, e cometeu suicídio em 522 a.C. Algumas das províncias que haviam sido subjugadas por Ciro, revoltaram-se e tentaram libertar-se do impé­rio, porém a ordem foi finalmente restabelecida por um príncipe acadiano, Dario o Grande (522-486 a.C.). Enquanto ele estava reconquistando o controle militar, os habitantes de Judá experimentaram alguma independência, e quando Dario res­tabeleceu o domínio imperial, manteve uma política de tolerância e benevolência para com eles. Incentivou os judeus a completarem o trabalho de reconstrução do Templo em Jerusalém, porém se depararam com mais oposição, em consequên­cia da qual Dario ordenou que se realizasse uma busca pelo decreto original, que autorizava a obra (Ed 6.1 c versículos seguintes). Quando foi encontrado, Dario proibiu interferência adicional contra a reconstrução e providenciou um volumo­so subsídio para a conclusão do empreendimento. 

Ageu e Zacarias 

Foi neste ponto que os profetas Ageu e Zacarias supriram o ímpeto moral necessário para o auge de uma tarefa que havia começado aproximadamente quinze anos antes. No verão de 520 a.C, Ageu censurou os judeus por sua in­diferença, e os repreendeu por construírem as suas próprias casas enquanto a casa de Deus era negligenciada. Ele assegurou aos habitantes de Jerusalém que as adversidades que vinham sofrendo eram castigos por sua apatia. Zorobabel toi estimulado a dar a supervisão apropriada à obra que tinham em mãos, e quando parecia que as revoltas na Babilônia podiam ainda ser bem sucedidas, ele parece ter sido considerado como o homem divinamente ungido, que deveria conduzir judá à independência. 

Zacarias, que profetizou perto do fim do outono de 520 a.C., também aguar­dava ansiosamente pela libertação da nação do domínio estrangeiro, e com con­fiança esperava que um povo renovado fosse governado por um descendente da casa de Davi. Ele deu continuidade ao trabalho de Ageu ao apressar a conclusão do segundo Templo; e em 515 a.C., cerca de setenta anos após a destruição da primeira construção, o seu sucessor foi consagrado. Embora os persas tivessem designado Tatenai como o governador militar de Judá (Ed 6.13), incentivaram o estado a fun­cionar como uma comunidade religiosa em vez de política, com o sumo-sacerdote josias em seu comando. Quanto a Zorobabel, não se sabe se morreu ou se foi des­tituído do cargo pelos persas, como uma medida preventiva. Em todo caso, a si­tuação política em judá parece ter sido estabilizada pelo estabelecimento de um sistema teocrático apoiado pelo governo persa. 

O livro de Esdras passa em silêncio pelo período de cinquenta e sete anos que se seguiram à conclusão do segundo Templo. No império persa, a morte de Dario I, em 486 a.C., foi seguida pela ascensão de seu filho Xerxes (486—465 a.C.). Este gover­nante — que é provavelmente o Assuero de Esdras 4.6 — manteve o escopo e o esplendor do império, e sujeitou alguns de seus súditos revoltosos a um rígido controle militar. Um registro de seu reino, encontrado em Persépolis em 1939, atesta o vigor de seu governo, mostrando seu entusiasmo pela adoração da di­vindade persa Ahuramazda. Em 465 a.C., foi sucedido por seu segundo filho, Artaxerxes I Longímano, que é evidentemente o Artaxerxes mencionado por Esdras e Neemias. 

Durante este período, a comunidade judaica lutou, com coragem, para so­brepujar a pobreza com que a terra fora assaltada, e esforçou-se duramente para arrancar alguma prosperidade do solo inóspito. Em outro tempo, porém, a or­gulhosa capital ainda carregava os sinais de sua humilhação, e embora o Templo estivesse concluído, a cidade ainda permanecia sem muros. Em consequência, os samaritanos e outros povos que haviam se estabelecido nas vizinhanças, tinham fácil acesso a Jerusalém e podiam pilhar, roubar e destruir à vontade. Uma vez que um estado de prosperidade não conseguiu se materializar em um curto espaço de tempo após o regresso do exílio, o entusiasmo do povo diminuiu. Embora as entusiasmadas palavras proféticas os impulsionassem à ação para a construção do Templo, não levou muito tempo para que os habitantes de Judá, ou Judéia, como o novo estado veio a se tornar conhecido, sucumbissem ao antagonismo de seus inimigos locais. Por várias décadas, os judeus levaram uma vida precária nas cer­canias de Jerusalém, e ficaram à mercê de qualquer um que objetivasse frustrar seus humildes intentos. 

A Obra de Esdras e Neemias 

Mas auxílio inesperado estava a ponto de chegar, vindo dos judeus no império persa, que, embora fossem leais ao regime acadiano, estavam também interessa­dos no bem-estar religioso da teocracia na Palestina, que enfrentava constantes conflitos. Eles exerceram pressão sobre o governo persa e, em 458 a.C., Artaxerxes I que era simpático às suas demandas, designou Esdras, um membro da família sacerdotal judaica, para ir até Jerusalém, como um delegado da realeza, para ali estabelecer a lei judaica. Ele foi acompanhado por alguns judeus babilônios, além de alguns levitas (Ed 8.1 e versículos seguintes), e levou consigo um decreto real que ordenava aos judeus que obedecessem a suas orientações relativas à regula­mentação da vida religiosa na Judéia. 

Quando chegou a Jerusalém, Esdras ficou angustiado ao ver o modo como os judeus haviam realizado casamentos mistos com seus vizinhos pagãos. Sendo um conhecedor da história antiga da nação, percebeu que esse caminho bem podia acabar em um desastre, uma vez que isso, provavelmente, produziria a renova­ção das práticas idólatras, e este foi o motivo pelo qual a nação fora punida com o exílio. Assim sendo, orou a Deus, pedindo perdão pelo povo e este por sua vez, reconheceu o seu pecado com penitência e pesar. Apoiando-se em sua autoridade como representante real, Esdras propôs, então, medidas drásticas, que envolviam a dissolução dos casamentos mistos que já haviam sido contraídos. Esta providên­cia era particularmente ofensiva aos samaritanos, que afirmavam ser descenden­tes da linhagem judaica e se ofendiam com qualquer sugestão em contrário. 

Esdras percebeu que a posição dos habitantes de Jerusalém continuaria sendo insegura até que o muro da cidade fosse reconstruído. Mas quando se preparava para levar à efeito esse empreendimento, seus inimigos se aliaram a Reum, go­vernador de Samaria, e persuadiram Artaxerxes para que, uma vez que os muros de Jerusalém estivessem reconstruídos, a Judéia se revoltasse contra os governos persas, e se tornasse um estado autónomo. Por volta dessa época, Esdras retornou à Pérsia, provavelmente para relatar sobre a sua missão à administração central, e os judeus foram, mais uma vez, deixados à mercê dos seus inimigos. 

Doze anos mais tarde Neemias, um oficial judeu de alta patente na corte per­sa, foi informado das privações que haviam atingido os exilados que tinham retor­nado. Quando soube da desolação e desesperança da Judéia, ele ficou grandemente angustiado, e buscou a permissão de Artaxerxes para ir a Jerusalém e reconstruir as partes destruídas da cidade. Fiel à tolerância para com outras religiões, que ca­racterizava os governantes persas como um todo, Artaxerxes designou Neemias como governador da Judéia, e lhe forneceu a documentação necessária para con­firmar a sua autoridade. Enquanto Esdras havia mostrado mais entusiasmo do que discrição na condução de seu trabalho, Neemias percebeu que o máximo de tato e diplomacia seria necessário para que o estado judaico sobrevivesse. Ele já havia demonstrado suas habilidades administrativas na corte persa, e agora trazia esses talentos para aplicá-los à desanimadora situação que o confrontava em Jerusalém em 445 a,C. 

Apesar de Neemias compartilhar com Esdras a convicção de que a tarefa mais urgente era a reconstrução dos muros da cidade, era suficientemente prático em sua visão para perceber que isso só poderia ter sucesso se recebesse o suporte en­tusiasmado de toda a multidão. Por esse motivo, reuniu os líderes da comunidade, e os "incendiou" com o desejo de reconstruir os muros da cidade como um pas­so preliminar rumo à restauração de sua economia. Apesar de Eliasibe, o sumo- sacerdote, e outros, se oporem ao zelo reformador de Esdras, provavelmente por inveja profissional, estavam prontos a seguir a liderança enérgica de um leigo com­petente. 

O entusiasmo que Neemias despertou entre o povo da Judéia foi oportuno. Por alguns anos os judeus repatriados haviam experimentado grandes dificuldades, e a economia da comunidade estava em estado precário. Os habitantes mais ricos estavam despojando os mais pobres de suas propriedades, enquanto negociantes inescrupulosos tiravam proveito das condições econômicas incertas. Casamentos mistos com os povos vizinhos eram predominantes, e o ressurgimento da idolatria dos cananeus, presente em toda parte, era uma ameaça à vida espiritual dos devotados judeus. 

Neemias, porém, estava firme e começou a organizar a população para a ta­refa da reconstrução. Quando as fundações estavam desobstruídas e o projeto da direção das muralhas definido, o novo governador dividiu o povo em grupos e os pôs a trabalhar de tal maneira que toda a reconstrução prosseguia sem percalços e sem interrupção. Os que eram artesãos habilidosos trabalhavam em suas próprias especialidades, enquanto outros contribuíam do modo que podiam para ajudar os pedreiros e construtores. 

Muitos daqueles que tinham propriedades próximas aos muros da cidade, trabalhavam nas vizinhanças de seus próprios lares, e Neemias discretamente re­gistrava a preocupação que eles sentiam por seus próprios pertences e usava isso para criar entusiasmo e um sentimento de responsabilidade entre toda a popula­ção. Quase que imediatamente uma grande onda de patriotismo apossou-se dos judeus em Jerusalém, e se espalhou para as cidades vizinhas, tais como Jericó, Gibeâo e Tecoa, afastando os habitantes desses lugares dos campos de colheita para trabalhar nos muros de Jerusalém, sob o escaldante sol de verão. Neemias anga­riou mais apoio popular ao controlar a especulação com os gêneros alimentícios e regulamentando as taxas de juro nas propriedades hipotecadas (Ne 5,1 e versículos seguintes). Ele estabeleceu um belo exemplo de comportamento e de retidão mo­ral ao se recusar a aceitar uma remuneração por sua própria parte na tarefa da reconstrução, e este gesto magnífico levantou o moral do povo a novas alturas. 



A Oposição Local É Renovada 

Mas o entusiasmo com que os judeus estavam se dedicando à sua, há muito tempo negligenciada, tarefa, inquietou a Sambalate, um dos líderes samaritanos. Desde o início, ele havia ridicularizado o projeto, e demonstrado abertamente o seu completo fracasso. Entretanto, Sambalate não havia contado com a inspirada liderança de Neemias, e agora que o muro estava subindo firmemente em volta de toda a cidade, o opositor percebeu que as suas esperanças de controlar Jerusalém estavam desaparecendo rapidamente. Por essa razão conspirou com Tobias, o amonita, e Gesém, o arábio, para atacar os construtores e demolir os muros, Na expectativa de tal eventualidade, porém, Neemias havia postado guardas em torno de toda a cidade, e armado os trabalhadores de modo que pudessem repelir qualquer ataque em seus arredores. 

Os dois homens que se aliaram com Sambalate, tiveram seus nomes confir­mados por descobertas arqueológicas recentes. Os Papiros Zeno, descobertos em Geraza, no Fayyum egípcio, continham uma carta de “Tobias, governador de Amom”, tratando de assuntos da Palestina. Este documento veio dos arquivos de um oficial egípcio que viveu durante o reino de Ptolomeu II Filadelfo (285—2-46 а,C.), e o autor da carta era sem dúvida, um descendente do homem que se opôs a Neemias.” Ruínas do castelo da família de Tobias ainda podem ser vistas a leste de Amã, na Transjordânia, e seu nome está gravado na face da rocha, nas proximida­des das tumbas ancestrais. Sabe-se agora que Gesém, o arábio, a quem Neemias também chamou de Gusmu (Ne 6.6, versão DO), teria sido o governante persa do noroeste da Arábia. 

Com o crescente progresso da operação de construção, o moral dos habitan­tes de Jerusalém atingiu novas alturas, e todos aqueles que estavam envolvidos trabalhavam continuamente para levar à conclusão aquilo que haviam começado com tanta desconfiança. Quando Sambalate percebeu que agora era impossível obter sucesso em um ataque frontal contra as fortificações que aumentavam rapi­damente, empenhou-se em atrair Neemias para fora da cidade, para matá-lo (Ne 6,1 e versículos seguintes). Porém este plano estava condenado a falhar desde o seu princípio, e quando Neemias recusou-se a realizar qualquer negociação com ele, Sambalate lhe enviou uma carta que de fato o acusava de deslealdade para com o regime persa (Ne 6.5 e versículos seguintes), Mas nem mesmo esta ameaça foi suficiente para deter Neemias de consumar a sua tarefa, e tal era sua determinação e firmeza que os muros de Jerusalém foram erguidos no período extraordinaria­mente curto de cinquenta e dois dias, após o qual, foram consagrados em meio a cenas de grande esplendor e regozijo (Ne 12.27 e versículos seguintes). 



As Reformas de Esdras 

Depois que a cidade estava a salvo de ataques, os habitantes também se sen­tiram livres para construírem suas próprias casas e cultivarem suas terras sem medo de interferência externa. Neemias notou que havia chegado o tempo apro­priado para a reorganização da vida da comunidade de acordo com os limites es­pirituais, e em 444 a.C., Esdras foi chamado para proclamar a lei para o povo, Este escriba instruído reativou a antiga Festa das Cabanas, ou dos Tabernáculos (Ne 8.14 e versículos seguintes), e quando estava seguro de que a comunidade perma­neceria leal aos preceitos da Lei, mais uma vez, enfocou a incômoda questão do casamento misto de judeus com estrangeiros. Após um período de oração e jejum, no vigésimo quarto dia do mês de Nisã, no ano 444 a.C., o povo fez um concerto no qual prometia renunciar ao casamento com povos não-judeus, e observar as obrigações da Lei na vida pública. Além disto, prometeram guardar o sábado consistentemente como um dia sagrado, reintroduzir o ano sabático com a remissão dos débitos (Dt 15.1 e versículos seguintes), e reativar o princípio da entrega do dízimo. Os inimigos tradicionais de Israel também foram expulsos da comunhão com a congregação (Ne 13.1 e versículos seguintes), e um registro da pura linha­gem israelita foi compilado. 

Uma vez que as bases religiosas do judaísmo haviam sido estabelecidas desta forma, Neemias colocou seu irmão, Hanani, juntamente com Hananias, o maioral da fortaleza, como encarregados da cidade. Alguns peritos acreditam que Nee­mias foi chamado de volta a Pérsia por causa de certo descontentamento com a sua administração dos negócios de estado, porém em todo caso, ele retornou a Je­rusalém no trigésimo segundo ano do rei Artaxerxes I (433-432 a.C.). Ao chegar, descobriu que o sumo-sacerdote Eliasibe havia permitido que Tobias, o amonita que havia sido aliado de Sambalate, morasse em uma das câmaras do Templo (Ne 13.4 e versículos seguintes). Neemias prontamente desalojou Tobias, e deu início a um programa de reformas que resultou no estabelecimento de uma máquina administrativa melhor para o Templo, e também a garantia de um rendimento para os sacerdotes e levitas. Adicionalmente, impôs os regulamentos relativos à observância do sábado e ao casamento misto com pagãos, que haviam sido pro­mulgadas por Esdras, o escriba. 

Talvez o resultado mais significativo dessas reformas tenha sido a deterioração das relações entre judeus e samaritanos, que ocorreu quando Neemias descobriu que um dos netos de Eliasibe havia se casado com a filha de Sambalate, O indiví­duo transgressor foi expulso da comunidade rapidamente, e de acordo com uma tradição preservada pelo historiador judeu Flávio Josefo, ele se tornou o primei­ro sumo-sacerdote dos samaritanos em Siquém, Este acontecimento precipitou a ruptura que ocorreu durante esse período entre judeus e samaritanos. 

Problemas Cronológicos do Período 

Por volta de 432 a.C., as bases do judaísmo tradicional haviam sido definidas e a comunidade sacerdotal firmemente estabelecida, O zelo reformulador de Esdras era apoiado pela administração realista do dinâmico líder Neemias, sem cuja assis­tência Esdras quase que certamente teria fracassado em sua missão. As atividades desses dois homens estão tão estreitamente entrelaçadas, que alguns estudiosos inverteram a sequência escriturai dos acontecimentos, fazendo Neemias prece­der Esdras, e colocando a ambos no reinado de Artaxerxes II (404—359 a.C.). Isto foi feito na crença de que as reformas de Esdras só seriam possíveis mediante um ambiente de forte apoio de Neemias. Essa visão meramente confirma a impressão generalizada deixada pelos livros de Esdras e Neemias, como se encontram atual­mente, e que por si só, não necessita de qualquer mudança na ordem tradicional dos acontecimentos. 

Outros estudiosos encontraram dificuldades na interpretação da cronologia do quarto capítulo do livro de Esdras, e muitos adotaram a tese de que o Arta­xerxes mencionado nas narrativas seja Artaxerxes II. A arqueologia é incapaz, no momento, de elucidar este intrincado assunto, e muitos dos argumentos pro­venientes de outros pontos de vistas estão longe de serem conclusivos." Tem sido alegado que existe um conflito entre as referências em Esdras 9.9 e Neemias 12.23 e versículos seguintes, nas quais na primeira Esdras está agradecendo pela restau­ração dos muros da cidade. Esta interpretação se origina de um entendimento incorreto do texto, que fala das esperanças de restauração e não de sua efetiva consumação. 

Parece-me que os argumentos para inverter a ordem tradicional dos aconteci­mentos são inconclusivos e que os atuais problemas de cronologia se tornam ainda mais complexos com a adoção desse procedimento. Como destacado por Gordon, é importante notar que a presença de um administrador capaz, como Neemias, seria uma necessidade prática se os enganos e fracassos de um escriba excessiva­mente zeloso e carente de espírito prático como Esdras, precisassem ser corrigi­dos, e que a situação inversa dificilmente se adequaria aos tatos da situação. 

Declínio do Império Persa 

Muito pouco se sabe sobre o que acontecia na Judéia entre 432 a 411 a.C,, quando um oficial persa, chamado Bagoas, estava atuando como governante militar. Naque­le tempo, Joanã o sumo-sacerdote, neto de Eliasibe, ocupava uma posição política importante na comunidade. Ele caiu no desagrado de Bagoas ao matar seu próprio irmão no Templo em 408 a.C., e logo depois foi sucedido por seu filho Jedaías. 

A extensão do império persa estabelecida por Ciro, Cambises e Dario, “desde a índia até à Etiópia” (Et 1.1) permaneceu constante ao longo dos reinados de seus su­cessores, Os acadianos tratavam seus súditos com bondade e tolerância, e muitas pro­víncias, tal como a Judéia, desfrutavam de um considerável grau de autonomia. Isto ocasionalmente incitava descontentes no império a se revoltarem, particularmente se os sátrapas ou governadores de província estivessem se comportando de uma maneira cruel ou despótica. Porém, embora o império estivesse aparentemente prosperando, as sementes de sua própria ruína estavam sendo semeadas de uma forma absolutamente não-intencional pelo emprego de soldados mercenários estrangeiros—particularmente os da Grécia—nos exércitos acadianos, Muitas das vitórias persas eram conquistadas por forças gregas, comandadas por generais gregos, e somente a suspeita e a desunião existente entre estes, como um todo, permitia que os persas utilizassem os seus servi­ços com sucesso. Durante o reinado de Dario I (522—486 a.C.) e Xerxes I (486—465 a.C.), a influência grega se propagou rapidamente por todo o império, devido em grande medida às relações comerciais existentes entre a Pérsia e os territórios do Egeu. Dario adotou a idéia de câmbio de dinheiro em uso na Asia Menor e na Fenícia, e cunhou moedas de ouro para o império. Aos seus sátrapas, em todo o domínio persa, foi dado o privilégio da cunhagem em prata. 

Os primeiros sinais do declínio do poder persa apareceram no reinado de Artaxerxes II (404-359 a.C.), quando revoltas em diferentes partes do império ameaça­ram levar o regime ao término. Por quase quarenta anos (378-340 a.C.) o Egito des­frutou de independência do governo persa, enquanto Artaxerxes III (358-338 a.C.) estava lutando para recuperar o território que seu antecessor havia perdido. Dario III, o último rei persa, que ascendeu ao trono em 336 a.C,, fortaleceu seu controle sobre as cidades gregas e reconquistou o Egito em 334 a.C. De acordo com as apa­rências, a estabilidade do regime acadiano estava restaurada, e os persas olhavam com confiança a continuidade de seu poder imperial. Mas esta situação não iria durar, pois em 334 a.C. Alexandre, o Grande, iniciou a libertação das cidades gregas do controle persa, e lançou uma campanha militar contra a Pérsia, atendendo a ambição de seu temível pai, Felipe da Macedônia. 


Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.