12 de outubro de 2015

R. K. HARRISON - O Exílio

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O Exílio 

CRONOLOGIA DESTE CAPÍTULO 

O Novo Império Babilónico........ 612/539 a.C. 

A CALAMIDADE QUE JEREMIAS PROFETIZOU HÁ TANTO TEMPO HAVIA finalmente alcançado o reino de Judá. A inexpugnável fortaleza de Jerusalém havia capitulado, o templo havia sido destruído, e a nação levada a um cativeiro vergo­nhoso. Este deveria ser em sua história longa e significativa, o teste mais severo a que os israelitas foram submetidos e de seu resultado dependeria o destino do Povo Escolhido. Mas o cumprimento da profecia hebraica era um assunto de pouca im­portância para os conquistadores babilônicos, pois ao conduzir Judá ao cativeiro, eles tinham outras importantes considerações em mente. Em primeiro lugar, estavam ansiosos para assegurar a redução da oposição militar palestina ao regime babil­onico, de maneira que o império pudesse fortalecer suas possessões ocidentais em preparação para um futuro ataque ao Egito. Em segundo lugar, os prisioneiros pro­veram Nabucodonosor com os serviços gratuitos de especialistas e artesãos para os seus ambiciosos projetos de construção na Babilônia. Ao deportar líderes potenciais, e também trabalhadores qualificados, os babilônios alcançaram, de uma só vez, os dois principais objetivos de suas conquistas na Palestina. 

O registro em 2 Reis 24.14, estima em dez mil o número de prisioneiros transpor­tados em 597 a,C„ descrevendo-os como príncipes, homens valorosos, carpinteiros e ferreiros. Uma estimativa mais precisa do número de pessoas removidas da Palestina nas três deportações foi descrita em Jeremias 52.28 e versículos seguintes, que registra o total de judeus deportados como “três mil e vinte e três" “oitocentos e trinta e dois", e “setecentos e quarenta e cinco” respectivamente para os três cativeiros. A discrepância entre essas duas fontes pode se dever ao fato dos registros em Reis registrarem apenas uma estimativa aproximada do número daqueles que foram levados ao cativeiro, ou como Albrigbt sugeriu, os números fornecidos em Jeremias podem equivaler ao nú­mero real daqueles que sobreviveram à longa viagem para a Babilônia. E difícil estimar o tamanho da população deixada para trás na nação, mas é provável que cento e vinte mil tenham sido abandonados à própria sorte para que se mantivessem em um país desolado. Embora os assentamentos israelitas no Neguebe e na Transjordânía tenham aparentemente escapado da destruição, recentes escavações arqueológicas na Palestina mostraram com que eficácia a terra foi arrasada pelos caldeus. 

A Reação ao Cativeiro 

Para os prisioneiros transportados para a Babilônia, a experiência foi tão de­vastadora quanto repentina. Durante anos eles haviam sido encorajados em suas práticas de idolatria pela voz animadora e tranquilizante da falsa profecia. Embora homens, como Jeremias, tivessem arriscado predizer o fracasso das alianças polí­ticas com potências estrangeiras, havia outros que tinham uma mensagem muito mais animadora e tranquilizadora para as necessidades do momento, A desilusão que se seguiu, quando se comprovou que os falsos profetas e oportunistas políticos estavam errados, desferiu um golpe esmagador para o moral dos judeus sitiados, embora o próprio Jeremias estivesse presente para compartilhar as tribulações de seus concidadãos. Anteriormente havia poucos entre os habitantes de Judá que esta­vam convencidos de que o mesmo destino que havia surpreendido Israel quase um século e meio antes também engoliria o reino do sul, mesmo a despeito dos avisos contidos em passagens como Is 6.7 e versículos seguintes; 39.6; Mq 4.10; e Jr 25.9 e versículos seguintes. Agora que a predição dos profetas de Deus havia se cumprido, os orgulhosos judeus estavam desnorteados por sua súbita humilhação, e enraive­cidos devido ao prazer óbvio que seus inimigos tradicionais, tais como os Edomitas, manifestaram em sua derrocada (Ob 11 e versículos seguintes.). 

Completamente distinto da vergonha que assistiu a destruição de Judá e o cati­veiro do povo, foi o efeito psicológico da deportação para uma terra estranha, cujas características geográficas eram totalmente o inverso daquelas às quais os judeus haviam sido acostumados ao longo de sua vida, Para eles, as montanhas de Judá ha­viam sido a garantia inconteste de segurança e sustento, e ainda que eles, prova­velmente estivessem familiarizados com as áreas do deserto em direção ao sul e a leste, não tinham nenhuma noção da imensidão que caracterizava os espaços aber­tos da Mesopotâmia. Para uma comunidade acostumada a viver em colinas, é um problema muito sério ser violentamente transportada para uma terra de planícies enormes e intermináveis, atraindo os terrores ocultos da agorafobia como a menor das consequências dos traumas psicológicos decorrentes. Quando tais pessoas são conduzidas para um exílio vergonhoso sob a impressão de terem sido traídas por seus governantes e abandonadas por seu Deus, a crise emocional e espiritual que por essa razão se precipita, é incomensurável mente mais aguda, 

A reação de alguns exilados à idéia do cativeiro era indubitavelmente de um amargo ódio e ressentimento contra Deus. De acordo com o conceito popular, Ele era o infalível protetor daqueles que estavam em uma relação de concerto com Ele, O povo de Judá ainda se apegava a essa idéia com uma seriedade tocan­te, mesmo quando os profetas dos séculos VIII e VII a.C, haviam demonstrado, além de qualquer dúvida, que Deus havia rejeitado seu povo por causa de sua idolatria e de sua negligência quanto às cláusulas do concerto. Apesar de terem sido advertidos de que seriam castigados ao serem levados em cativeiro para a Babilônia, eram contrários a crer na seriedade dos pronunciamentos proféticos. Quando finalmente foram colhidos pelo cativeiro, sentiram que Deus os havia abandonado em sua hora de necessidade, e sua débil fé foi completamente des­truída. Tudo o que restava para eles era a memória de um passado triste e a pers­pectiva sombria de um futuro amargo. Daí em diante não alimentaria “ilusões” sobre o poder do seu Deus, pois sua clara derrota nas mãos das forças assírias superiores, falava por si só. 

Mas havia outros exilados que possuíam uma visão menos superficial da situa­ção. Embora fosse tarde demais, haviam se dado conta da urgência das advertências proféticas, e estavam dolorosamente conscientes do fato de que suas próprias falhas haviam repercutido sobre a sua força. Tendo semeado o vento, agora estavam co­lhendo uma tempestade, e a consistência da natureza Divina dificilmente poderia permitir que qualquer outra consequência acontecesse, devido às circunstâncias. Para esse povo, o Exílio constituía o castigo há muito anunciado devido à violação dos deveres do concerto, e como tal deveria ser recebido com um espírito de aceita­ção penitente. Se tal calamidade tinha se abatido sobre a nação depois das devidas advertências dos servos de Deus, será que as mesmas declarações proféticas não po­deriam conter alguma mensagem de conforto e esperança para essa triste ocasião? 

Qualquer que fosse a resposta evocada em nível espiritual, é certo que uma reorientação fundamental do pensamento e de perspectiva foi exigida pela mudança drástica do cativeiro na Babilônia. Realmente existem muitos que afirmam que o Egito forneceu o estímulo necessário para uma imensa reavaliação dos valores espirituais entre os judeus cativos, dando início ao pe­ríodo de transição e desenvolvimento que culminou nos padrões religiosos das gerações subsequentes. 

Estabelecendo-se na Babilônia 

O problema mais imediato que enfrentaram foi o da adaptação ao novo am­biente. Os edifícios magnificentes e as cidades espaçosas da Mesopotâmia faziam, em comparação, ao Templo e a cidade capital de Jerusalém parecerem desprezíveis e insignificantes. As planícies abertas e o solo fértil estavam em contraste mar­cante com os penhascos íngremes e a terra pouco cultivavel de judá, enquanto a prosperidade geral e a opulência da Mesopotâmia contemporânea devem ter despertado, nas mentes dos prisioneiros mais velhos, muitas e saudosas recorda­ções das glórias passadas de Judá. O regime caldeu estava em seu auge, e Nabucodonosor estava ativamente empenhado em desenvolver atividades no sentido de embelezar seu império. Embora fosse reconhecido como um estrategista militar, Nabucodonosor parece ter sido mais interessado em cultura e na busca das artes pacíficas do que em amplas conquistas militares. 

As inscrições reais que datam do seu reinado, descrevem o esplendor e a mag­nificência da Babilônia durante o período do Novo Império, e esses relatos foram respaldados pelo historiador grego Heródoto e outros escritores. Foram ordenados esforços especiais no sentido de reconstruir e ampliar a cidade capital da Babilônia, tornando-a a mais esplêndida de todo Oriente Próximo. A cidade foi construída em ambos os lados do rio Eufrates, e circundada por uma parede dupla de forti­ficações defensivas as quais, de acordo com Hetódoto, encerravam uma área de duzentas milhas quadradas. Dela, quase nove décimos consistiam em parques, campos, e jardins, e o restante era ocupado por templos, edifícios públicos, e resi­dências particulares. Os muros eram altos, e defendidos por duzentos e cinquenta torres situadas em intervalos estratégicos. Das numerosas portas que davam aces­so à cidade, uma das mais famosas era a gigantesca porta dupla dedicada a Istar. Esta levava à larga rua processional cujas paredes eram primorosamente adornadas com figuras esmaltadas de touros e dragões. 

Às duas partes da cidade eram cortadas em todas as direções por uma rede de vias fluviais e canais navegáveis. Ao leste de uma grande ponte construída para ligar as duas metades da Babilônia ficava o magnífico palácio de Nabucodonosor que con­tinha os célebres jardins suspensos. Esses terraços de alvenaria foram considerados pelos gregos como sendo uma das sete maravilhas do mundo. Embora se tenha toda certeza de que não possam ser identificados, supunha-se que haviam sido construí­dos na forma de um quadrado cujos lados tinham aproximadamente cento e vinte metros de comprimento, e se elevavam em arcos a uma altitude de setenta e cinco pés, Dos templos que Nabucodonosor restaurou, o mais impressionante era o 

enorme templo de Marduque, cujas escadarias e grandes dimensões requeriam um avançado grau de engenharia e habilidade de construção. 

Era para empreendimentos tais como este que Nabucodonosor requeria tra­balho qualificado em abundância. Embora um grande número de trabalhadores especializados fosse trazido do exterior para os projetos de construção, a maioria dos que ajudou a levá-los a cabo eram escravos que haviam sido trazidos como prisioneiros para a Babilônia. Entre esses estavam os judeus exilados que foram assentados em colônias na Babilônia, uma das quais ficava em Tel Aviv próxima ao rio Quebar (Ez 3.15). Fontes em escrita cuneiforme indicam que a outra era na Babilônia central, no canal de Kabar, que corria entre esta e Nippur. 

Embora os babilônios tivessem levado Joaquim para o cativeiro e estabelecido seu tio Zedequias como regente no devastado reino do sul, está claro que ainda considera­vam o rei exilado como o legítimo soberano de Judá. Escavações na Porta de Ishtar na Babilônia descobriram tabuletas, sobre as quais referencias já foram teitas no capítulo anterior, mostrando que Joaquim (“Yaukiu, rei da terra de Yahud") e sua casa, foram os destinatários da generosidade real, como indicado em 2 Reis 25.27 e versículos seguin­tes. Mas embora os captores babilônios mostrassem deferência para com o governante exilado e sua família, tratavam o restante dos prisioneiros da judéia da mesma forma que aos outros grupos de expatriados na Babilônia. As classes interiores meramente trocaram a servidão em Judá pela escravidão na Mesopotâmia, e embora os babilônios e caldeus fossem em geral bondosos e tolerantes, existe razão para se acreditar que as pessoas comuns sofreram tratamento severo enquanto trabalhavam para embelezar as cidades imperiais, como Isaias (47.6) havia previsto. Mas àqueles dentre os exilados que haviam desfrutado de uma condição social mais elevada em Judá, foram concedi­dos vários privilégios, bem como liberdade limitada na escolha de suas atividades.' A prospera economia do império da Nova Babilônia oferecia oportunidades quase ilimi­tadas para indivíduos empreendedores, e os babilônios não faziam nenhuma tentativa de impedir quaisquer dos exilados judeus de ascender, através do esforço e da capaci­dade pessoal, a cargos de destaque e responsabilidade. Consequentemente, homens como Daniel (2.48) e Neemias (1.11) chegaram a exercer importantes tunçòes nos cír­culos governamentais, ao passo que indivíduos de condição social interior, que viviam próximos aos movimentados centros comerciais tais como Nippur, tiveram todas as oportunidades para acumular riquezas e propriedades. 

Embora o cativeiro babilónico não possa ser comparado — quanto à severidade — com a opressão no Egito, existiam certas características de natureza sombria, que ficaram fortemente gravadas na mente dos exilados da Judeia — os judeus pro­priamente ditos - como se tornaram conhecidas por volta dessa época. 

A carreira de Daniel ilustra até que ponto os babilônios estavam preparados para estimular estrangeiros talentosos a servirem aos interesses do Novo Império. E a des­peito de nada se saber acerca de sua vida além da informação contida em seu livro, ele parece ter sido levado para a Babilônia como refém juntamente com outros prisionei­ros judeus por Nabucodonosor no terceiro ano de Joaquim de Judá, lá, toi treinado juntamente com alguns outros compatriotas para o serviço na corte real (Dn 1.1-6), e recebeu um nome babilónico comum, BeItessazar. Daniel logo conquistou uma boa reputação por ser capaz, de interpretar visões e recordar sonhos esquecidos, e como outrora José, ele trabalhou como conselheiro para o soberano reinante. 

A medida que a sua reputação aumentava, Daniel ocupava cargos importan­tes no governo sob uma sucessão de imperadores, que incluiu Nabucodonosor, Dario, o medo, e Ciro. Durante sua vida teve várias visões sobre o futuro triunfo do reino messiânico. Sua última experiência registrada desse tipo aconteceu em uma idade avançada, às margens do rio Tigre, no terceiro ano de Ciro, o Grande. As atividades de Daniel como estadista hebreu em uma corte estrangeira, englobaram, desse modo, completamente o período do exílio babilónico, e representaram um extraordinário testemunho da fidelidade à crença no concerto hebraico nos mais altos círculos da Babilônia pagã. 



A Carta de Jeremias 



Embora a vida pomposa do Novo Império babilónico tivesse suas atrações do ponto de vista material, ainda permanecia o fato inevitável de que aqueles que outrora foram os orgulhosos habitantes da Terra Prometida eram agora exilados entre um povo estranho. Por mais bem tratados que fossem pelos babilônios, os judeus jamais poderiam se esquecer de que tinham sofrido um severo golpe atra­vés do cativeiro. Mas do mesmo modo que a mensagem profética havia anunciado perigos terríveis nos tempos antigos, agora proporcionava um lembrete da posição que os prisioneiros deveriam ocupar, e as perspectivas que enfrentariam nas pró­ximas décadas. O profeta Jeremias havia escrito aos exilados de Jerusalém (Jr 25), declarando que Deus havia entregado seu povo ao domínio dos babilônios como punição por sua iniquidade. A estada na Babilônia duraria cerca de setenta anos, depois dos quais, Deus traria os judeus fiéis de volta à sua terra nativa. Por causa dessas circunstâncias, Jeremias aconselhou os cativos a aceitarem o castigo Divi­no com a melhor boa vontade com que pudessem se imbuir, e a tentar aprender as lições espirituais que o Senhor pretendia transmitir. 

Com essa finalidade, ele os aconselhou a se estabelecerem em ambientes com os quais não estivessem familiarizados, a se casarem, e a cultivarem a terra que lhes havia sido destinada. Deveriam também conviver pacificamente com seus vizinhos pagãos, trabalhando pelo dia em que Deus ouviria as suas orações e os levaria de volta à sua terra. Se ali surgisse, entre seus vários homens, alguns que alegassem ser profetas do Senhor, mas que proferissem palavras de discórdia e descontentamento, deveriam ser considerados falsos profetas, e deveriam ser re­pudiados pelos exilados. Qualquer resistência à idéia do cativeiro seria interpreta­da como rebelião contra a vontade revelada de Deus, e atrairia mais punição. 

A Perspectiva dos Cativos 



Para aqueles judeus que interpretavam a queda de Jerusalém e a destruição do Templo em termos de um fracasso ou incapacidade do Deus de Israel em proteger o seu povo, essa carta deve ter tido um tom amargo e irônico. Em um momento de terrível emergência eles sentiram, testaram e constataram que o seu Deus estava ausente. A sua declaração servia meramente para acrescentar um insulto à injúria. Para eles, o futuro podia ser apenas o de um agnosticismo religioso. E nenhuma declaração de sacerdote ou profeta, não importando quão devotada ou energicamente apresentada, poderia ter novamente qualquer significado real para a existência deles. A prosperidade material só poderia abrandar o desespero que estavam experimentando, e proporcionar algum consolo para suas mentes desiludidas e desnorteadas. 

Quando a carta de Jeremias foi tornada pública, muitos, cuja concepção reli­giosa era mais esclarecida, ainda estavam aterrorizados pelo choque do cativeiro. Eles acharam difícil acreditar que Deus tivesse punido o seu povo da maneira severa há muito tempo vaticinado pelos profetas, e estavam vivendo na esperança de retornar, em breve, à sua terra. Para esses, a carta deve ter se constituído em um acontecimento profundamente deprimente, uma vez que afastou de uma vez por todas qualquer esperança de que os cativos pudessem ter de vislumbrar a terra de Judá em um futuro próximo. 

Para os exilados cuja fé na justiça e na misericórdia de Jeová havia sobrevivido à cruel provação de terem sido deportados para uma nação estrangeira, a carta do profeta veio como uma revelação adicional da vontade Divina, e como um desafio à fé e à esperança. Considerando que outrora Deus havia profetizado punição e mal­dição para o seu povo, Ele agora estava lhes assegurando o perdão e a restauração n0 devido tempo. A amarga experiência do exílio fora planejada para induzir a um espírito de verdadeira penitência pela iniquidade dos dias passados, e para estimular o desenvolvimento de uma perspectiva religiosa que estivesse em harmonia com a natureza de Deus conforme fora revelado no concerto mosaico. 

Mas nem mesmo uma avaliação das implicações morais e espirituais do cativei­ro podia impedir sentimentos de desânimo, tristeza e nostalgia que de tempos em tempos se apossava dos exilados de todas as idades. A profundidade dos sentimentos encontrou sua expressão mais plena, naturalmente, na poesia de uma nação entris­tecida, e alguns dos mais belos Salmos hebreus emergiram desse período. 



A Obra de Ezequiel 

Para esse povo, que estava infeliz e desanimado, uma mensagem de esperança e de libertação foi trazida pelo profeta Ezequiel, De linhagem sacerdotal e contem­porâneo mais jovem de Jeremias e Daniel, havia sido levado ao cativeiro com o rei Joaquim em 597 a.C. Ele viveu entre os judeus da colônia em Tel-Abibe, no canal Kabar (rio Quebar), e começou a profetizar cinco anos depois de seu cativeiro (Ez 1,2), Resgatando uma parte da inspiração de Jeremias, Ezequiel apontou para os exilados as causas fundamentais do desastre que havia se abatido sobre Judá, e condenou ve­ementemente a iniquidade e a idolatria de seus compatriotas. 

A versatilidade de Ezequiel lhe possibilitou agir como profeta, sacerdote e pastor para a comunidade exilada, A consciência que tinha do seu chamado é fortemente similar à tradição protética de Jeremias, por cujos ensinamentos havia sido influen­ciado antes da queda de Jerusalém. Embora sua mensagem raramente atraísse a maioria dos exilados, sua integridade e sinceridade levaram-no a conquistar a admi­ração dos anciãos judeus (Ez 14,1; 20,1), e sua eloquência levava seus discursos muito além da limitada audiência para a qual eram endereçados. Ele avaliou, em retrospec­to, a história da nação com o propósito de compreender as lições que o passado podia ensinar. Como Jeremias, insistiu na soberania e na onipotência do Deus de Israel, que em unia justa indignação havia entregado o seu povo, por algum tempo, ao cati­veiro. Assim como o “profeta chorão”, Ezequiel também ensinava que a renovação nacional só começaria quando a integridade de caráter e de intenção se tornasse a preocupação suprema de toda a atividade religiosa. 

Os interesses sacerdotais de Ezequiel se manifestaram em sua profunda certe­za de que o futuro da nação estava associado à restauração dos ideais teocráticos de antigamente, Havia algo essencial para esta estrutura política: um Templo, cujos cultos seriam cuidadosamente regulamentados por um sacerdócio organizado, cumprindo os ideais de uma lei ritual rigorosa. A vida da comunidade seria regi­da pelo conceito de santidade, e extrairia sua inspiração da presença de Deus no santuário. Sua ênfase no decoro do ritual de adoração era planejada como uma salvaguarda contra a repetição de práticas idólatras, e não deveria ser considerada como um substituto satisfatório para a penitência, a obediência e a fé. 

Como pastor, era seu dever confortar os exilados desamparados e aflitos, e en­corajá-los a olhar com esperança para o momento em que Deus os restituiria à terra natal. Por isso trabalhou conscienciosamente para incutir em seu povo um senti­mento de arrependimento, humildade e fé na misericórdia de Deus, utilizando vi­sões, experiências pessoais, e atos simbólicos para transmitir as verdades implícitas em seus ensinamentos. Sua preocupação especial era impressionar sua audiência com um senso de responsabilidade moral individual, e ele interpretou um dito po­pular para mostrar que todos seriam punidos por sua própria iniquidade. 

Ezequiel nào demorou a perceber que as diferentes condições do Exílio necessita­riam de consideráveis modificações naquelas formas de adoração que existiam em Judá antes do cativeiro. Por terem sido deportados para uma terra estrangeira contra a sua vontade, os judeus continuaram a considerar, de uma maneira quase desafiadora, a sua devastada capital como o verdadeiro centro da vida nacional. De qualquer forma, com o transcorrer das décadas, Jerusalém foi investida com uma qualidade espiritual através da qual incorporou as melhores tradições e sentimentos da nação exilada, Para os judeus fiéis que esperavam o retorno para a Palestina, ela foi venerada em toda a sua glória destruída como um símbolo de esperança e promessa para o futuro, e os adorado­res devotos se posicionavam em sua direção quando oravam a Deus (Dn 6.10). 

Mudanças na Adoração Hebraica Tradicional 

As restrições impostas pelos captores babilónicos tornaram impossível que os judeus ofertassem sacrifícios como antigamente, e isso pavimentou o caminho para o desenvolvimento daquele tipo de adoração não-sacrificial que os profetas antigos haviam desejado há muito tempo. Estava claro para Ezequiel que se a unidade da nação deveria ser preservada ao longo de todo o período do cativeiro, isto poderia ser conseguido de um modo melhor, atra­vés da observância de deveres e ritos religiosos que poderiam ser desempenhados sem ofen­der os captores. Como Ezequiel desejava provocar sentimentos de arrependimento entre os exilados, estimulou períodos de jejum e oração em datas anuais que celebrassem a queda de Jerusalém. Os banquetes que haviam sido uma parte tão importante da adoração hebraica, anteriormente, foram substituídos por celebrações comemorativas de um caráter mais som­brio. Com o abandono dos banquetes veio a degradante influência politeísta dos cananeus que muito fizera para corromper a vida da nação em gerações anteriores. 

Desde o princípio do exílio, reuniões ao ar livre haviam sido realizadas junto aos locais baixos e lamacentos do canal Kabar (rio Quebar), nas quais a lei era lida e oportu­nidades para as confissões e orações eram propiciadas. Como a ausência de um Templo privou a população de um ponto de encontro central, tornou-se necessário improvisar a esse respeito. Como resultado, reuniões domiciliares para o ensinamento da lei (cf. Ez 20.1) passaram a ser feitas, e o sábado assumiu uma posição de especial importância como o dia semanal de adoração. Em uma declaração profética Ezequiel aconselhou os anciãos da comunidade a obrigarem a observância adequada do sábado (Ez 20.20), e como era impos­sível permitir o sacrifício de animais como parte da adoração do dia, ele enfatizou o lugar da adoração, confissão e do ensinamento da lei. Esse se tornou o padrão básico para o tipo de adoração que se realizaria nas sinagogas do período posterior ao exílio. 

Vários sacerdotes do Templo haviam acompanhado o povo de Judá ao cativeiro (Jr 29.1), e durante esse período, dedicaram uma considerável energia para interpretar a lei e impor suas exigências. Se a nação precisava permanecer unida no exílio, teria de ser despertada para uma conscientização de sua natureza única e distinta em contraste com os povos mesopotâmicos. Em consequência, muito da atividade dos líderes reli­giosos era direcionada a enfatizar as características distintivas das tradições religiosas e nacionais judaicas. A circuncisão adquiriu um significado novo, uma vez que propor­cionava ao prisioneiro judeu um sentimento de superioridade moral sobre seus vizinhos babilônios que não guardavam o rito. Uma ênfase nas antigas leis mosaicas de pu­reza conduziu as devoções dos exilados a direções novas e incomuns, e a várias exercícios característicos de piedade tais como atos formais de purificação e de rejeição a certos tipos de alimentos, que entraram em vigor. Uma consciência crescente da magni­tude espiritual implícita na tradição hebraica levou os sacerdotes a enfatizarem a literatura religiosa da nação, e é possível que certo montante da coleção de material canônico também tenha surgido nesse período. 

Todas essas medidas ajudaram a despertar nos exilados o sentimento de que es­tavam acima de seus captores por causa de sua religião, de sua identidade nacional, pois, no final das contas, suas vidas diárias eram inspiradas por conceitos éticos e espirituais mais elevados do que os que eram encontrados no culto de adoração a Marduque, Quando finalmente os judeus se conscientizaram da extensão em que o pecado da nação havia atraído a ira Divina, um profundo sentimento de arrependi­mento e remorso surgiu entre eles e se expressou em um sério desejo de perdão. 

O Remanescente 

A promessa de que os remanescentes justos retornariam à terra de seus pais havia se constituído em uma parte importante do ensinamento de Ezequiel (cf. 20.41 e versículos seguintes), e refletia as declarações proféticas de Isaías (10,20 e versículos seguintes) e de Jeremias (32.37). Esse remanescente que sobreviveria à calamitosa experiência da deportação seria acrescido de indivíduos justos de outras nações (Is 11,11), e como resultado da obediência às leis Divinas se torna­ria um povo santo. Isaías havia profetizado que Deus trataria seu remanescente com benevolência, e o nome simbólico que ele deu a seu filho Sear-Jasube pro­clamava sua convicção de que os remanescentes retornariam à terra de Judá. 

Enquanto Ezequiel continuava exigindo arrependimento pelo pecado nacional da comunidade exilada, também estava atento ao fato de que muitos daqueles que haviam sido tragados pela calamidade do exílio haviam tido uma participação muito pequena naquilo que ocasionou aquela ruptura da vida nacional. Para eles, o profe­ta pregava uma mensagem de confiança e de esperança, proclamando que Deus era capaz de animá-los através de seu Espírito, e uni-los como testemunhas vivas de seu poder de redenção e restauração. Em uma visão dramática, Ezequiel viu a nação como uma pilha de ossos secos espalhados por toda parte em um vale afastado, desprovidos de toda e qualquer forma de vida, Mas quando os ossos ressecados ouviram as men­sagens proféticas divinamente inspiradas, se juntaram de forma ordenada, recebendo carne e nervos. Ressuscitados pelo sopro da vida, eles se levantaram e se assemelharam a um exército em magnitude (Ez 37.1 e versículos seguintes). 

O significado dessa visão era perfeitamente claro. Os ossos representavam os remanescentes abandonados e sem esperança dos filhos divididos de Israel. A úni­ca esperança para sua renovação espiritual e nacional residia em uma obediência incondicional às determinações Divinas, e uma submissão ao novo concerto do Espírito há muito tempo prometido por Jeremias (31.31 e versículos seguintes) e enfatizado novamente por Ezequiel (37.26). Uma vez cumpridas essas condições, a nação reviveria e retornaria para seu lar ancestral, para lá viver como um povo santo sob a generosidade e a proteção do Todo-Poderoso. 

A medida que as décadas passavam, esse ideal se tornava realidade em um grau crescente, e quando a perspectiva de um retorno à Palestina se tornou uma nítida possibilidade, o moral dos fiéis remanescentes se elevou a novas alturas. A expec­tativa de libertação coincidiu com desenvolvimentos políticos significativos no im­pério babilónico com a ascensão ao poder dos medos e dos persas na Mesopotamia. Para aqueles judeus que haviam ficado fascinados com os esplendores da Babilônia cosmopolita, e haviam ascendido a cargos de importância política e social, a pers­pectiva de um retorno para a desolação e a pobreza estava longe de ser atrativa. Por­tanto, comparativamente, poucos deles compartilhavam dos ideais espirituais dos remanescentes justos, e estando satisfeitos com seu presente estado de prosperidade material, mostravam poucos sinais de pretenderem abandoná-lo pelo privilégio du­vidoso de reconstruir uma nação empobrecida na terra ancestral. 

O sucesso material que alguns dos exilados judeus haviam conseguido alcan­çar no império babilónico estimulou um grau de assimilação com os povos da Mesopotamia, e o abandono dos ideais que estavam implícitos no concerto mosai­co. Como consequência, esses judeus preferiram permanecer na Babilônia quando a oportunidade para um retorno à Palestina foi concedida à comunidade judaica cativa. Eles se constituíram em um elemento significativo da população da Me­sopotamia, e a seguir se tornaram conhecidos como a Diaspora Oriental. A sua literatura posterior incluiu o Talmude Babilónico.

Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.