25 de outubro de 2015

Norman Geisler - VISÕES SOBRE OS “DIAS” DE GÊNESIS

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VISÕES SOBRE OS “DIAS” DE GÊNESIS 


H á duas visões principais acerca do tempo envolvido na criação: a visão da terra velha e a visão da terra jovem. O último crê que o universo não tem mais que uns 15.000 anos, ao passo que o primeiro afirma que tem provavelmente uns 15.000.000 anos. 

Os proponentes da terra jovem entendem que os “dias” da criação são seis dias sucessivos, literais e solares de vinte e quatro horas cada, totalizando cento e quarenta e quatro horas de criação. Eles também rejeitam todo intervalo de tempo significativo entre as narrativas em Gênesis 1 ou dentro das genealogias em Gênesis 5 e 11.' 

A VISÃO DE SEIS DIAS DE VINTE E QUATRO HORAS DA CRIAÇÃO 

Nem todos os estudiosos que entendem que os dias de Gênesis são dias de vinte e quatro horas são proponentes da terra j ovem (alguns advogam uma teoria de intervalos). Todavia todos que sustentam uma terra jovem também sustentam a visão de dias de vinte e quatro horas. 

Argumentos Oferecidos para a Visão de Dias de Vinte e Quatro Horas 

Há muitos argumentos bíblicos apresentados a favor da posição de dias de vinte e quatro horas. Entre eles se incluem os seguintes. 

O Significado Normal da Palavra Hebraica Yom (“Dia") 

Argumenta-se que o significado habitual da palavra hebraica yom (“dia”) é vinte e quatro horas, amenos que o contexto indique o contrário. Em Gênesis 1, o contexto não indica nada mais que um dia de vinte e quatro horas. Por conseguinte, os dias devem ser considerados como dias solares. 

O Uso da Série Numerada 

Além disso, é digno de nota que quando se usa números em série (1,2,3, etc.) em relação à palavra hebraica_yom (“dia”) no Antigo Testamento, sempre se refere a dias de vinte e quatro horas. A ausência de exceção para esta condição no Antigo Testamento é determinada como evidência do fato de que Gênesis 1 está se referindo a dias de vinte e quatro horas. 

O Uso de "Tarde e Manha' 

Outra linha de evidência é o uso da frase “tarde e manhã” com relação a cada dia em Gênesis 1 (ARA). Considerando que o dia literal de vinte e quatro horas no calendário judaico começava à “tarde” (pelo pôr-do-sol) e terminava na “manhã” (antes do pôr-do- sol) do dia seguinte, conclui-se que estes são dias de vinte e quatro horas literais. 

A Comparação com a Semana de Trabalho de Seis Dias 

De acordo com a lei de Moisés (Ex 20.11), a semana de trabalho judaica (domingo a sexta-feira) tinha de ser seguido por um dia de descanso no sábado, da mesma maneira que Deus fizera na “semana de seis dias” da criação. A semana de trabalho judaica se refere a seis dias sucessivos de vinte e quatro horas. Neste caso, a semana da criação, como a semana de trabalho, tinha somente cento e quarenta e quatro horas. 

A Vida não pode Existir por Milhares de Anos sem Luz 

Os proponentes da terra jovem afirmam que, de acordo com Gênesis 1, a luz foi feita somente no quarto dia (Gn 1.14), mas havia vida no terceiro dia (Gn 1.11-13). Contudo a vida na terra não pode existir por milhares (ou até mesmo milhões) de anos sem luz. Portanto, os “dias” não devem ter sido longos períodos de tempo. 

As Plantas não Podem viver sem os Animais 

As plantas foram criadas no terceiro dia (Gn 1.11-13), e os animais foram criados mais tarde (Gn 1.20-23). Há uma relação simbiótica entre plantas e animais, um dependendo do outro para viver. Por exemplo, as plantas emitem oxigênio e tomam gás carbônico, e os animais fazem o contrário. Portanto, plantas e animais devem ter sido criados proximamente juntos e não separados por longos períodos de tempo.[1]

A Visão da Terra Velha Implica Morte antes de Adão 

De acordo com a posição dos proponentes da terra velha, houve morte antes de Adão. Não obstante, a Bíblia declara que a morte só veio depois de Adão, em consequência do seu pecado: “Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5.12; cf. Rm 8.20-22). 

A Visão da Terra Velha E uma Acomodação à Evolução 

Sabemos muito bem que a teoria da evolução (ou ascendência comum) depende de períodos de tempo muito longos para a vida desenvolver-se de um animal unicelular até chegar a seres humanos. Sem estes longos períodos de tempo, a evolução não seria possível. Portanto, os proponentes da terra jovem argumentam que conceder longos períodos de tempo é uma acomodação à evolução. 

Marcos 10.6 Afirma que Adão e Eva Foram Criados no Princípio 

De acordo com este texto: “Desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea”, se Deus criou a humanidade no princípio da criação, então eles não foram criados ao término de milhões de anos, como defendem os proponentes da visão da terra velha. 

Uma Resposta aos Argumentos Oferecidos à Visão de Dias de Vinte e Quatro Horas 

Apesar de muitos considerarem que estes argumentos são provas convincentes de seis dias da criação consecutivos de vinte e quatro horas, o assunto, por certas razões, está longe de ser resolvido. Os que rejeitam a visão de seis dias solares sucessivos respondem do seguinte modo. 

O Significado Normal da Palavra Hebraica Yom (“Dia") 

Everdade que a palavra hebraica jiom (“dia”) significa “vinte e quatro horas”. Contudo, isto não é definitivo para o significado em Gênesis 1 por estas razões. 

Primeiro, o significado de um termo não é determinado por voto da maioria, mas pelo contexto no qual é usado. Não é importante quantas vezes yom é usado em outros lugares, mas como é usado aqui. 

Segundo, até na história da criação em Gênesis 1 e 2, a palavra hebraica yom (“dia”) é usada para referir-se a mais que um período de vinte e quatro horas. Falando sobre os seis “dias” inteiros da criação, Gênesis 2.4 diz que é o “dia” (yom) em que todas as coisas foram criadas. 

Terceiro e último, yom é usado em outros lugares acerca de longos períodos de tempo, como no Salmo 90.4 que é citado em 2 Pedro 3.8: “Um dia para o Senhor é como mil anos”. 

O Uso da Série Numerada 

Os críticos da visão de dias de vinte e quatro horas destacam que na língua hebraica não há regra que exige que todos os dias numerados em série se refiram a dias de vinte e quatro horas. Além disso, mesmo que não houvesse exceção no Antigo Testamento, não significaria que “dia” em Gênesis 1 não se refira a mais do que um período de tempo de vinte e quatro horas. Gênesis 1 pode ser exceção! Por fim, contrário à visão do dia solar, há outro exemplo no Antigo Testamento de uma série numerada de dias que não são dias de vinte e quatro horas. Oséias 6.1,2 diz: “Vinde, e tornemos para o Senhor, porque ele despedaçou e nos sarará, fez a ferida e a ligará. Depois de dois dias, nos dará a vida; ao terceiro dia, nos ressuscitará, e viveremos diante dele”. Está claro que o profeta não está falando de “dias” de vinte e quatro horas, mas de períodos mais longos de tempo no futuro. Mesmo assim, ele usa dias numerados em uma série. 

O Uso de “Tarde e Manhã" 

Primeiro, o fato de a frase “tarde e manhã” ser frequentemente usada com relação a dias de vinte e quatro horas não significa que sempre deva ser usada deste modo. 

Segundo, se tivermos de tomar tudo de modo estritamente literal em Gênesis 1, então a frase “tarde e manhã” não abrange um dia inteiro de vinte e quatro horas, mas apenas o fim da tarde de um dia e o começo da manhã do outro. Isto é consideravelmente menos de vinte e quatro horas. 

Terceiro, tecnicamente, o texto não diz que o “dia” era composto de “tarde e manhã” (desta forma, formando supostamente um dia judaico de vinte e quatro horas). Mais exatamente, diz apenas: “E foi a tarde e a manhã: o dia primeiro” (Gn 1.5). Além disso, a frase pode ser uma figura de linguagem que indica começo e fim de um período definido de tempo, da mesma maneira que temos em frases como “o amanhecer da história mundial” ou os “anos declinantes da vida de fulano”. 

Quarto, se todo dia nesta série de sete tiver de ser considerado como vinte e quatro horas, por que a frase “tarde e manhã” não é usada com um dos dias (o sétimo)! Na realidade, como veremos mais adiante, o sétimo dia não é de vinte e quatro horas. Portanto, não há necessidade de considerarmos que os outros dias sejam de vinte e quatro horas, visto que todos eles usam igualmente a mesma palavra (yom) e têm uma série de números com eles. 

Quinto e último, em Daniel 8.14 “tardes e manhãs” se referem a um período de 2.300 dias. A verdade é que freqüentemente no Antigo Testamento a frase é usada como figura de linguagem com o significado de “continuamente” (cf. Ex 18.13; 27.21; Lv 24.3; Jó 

4.20) . . 

A Comparação com a Semana de Trabalho de Seis Dias 

E verdade que a semana da criação é comparada com uma semana de trabalho (Ex 

20.11) . Entretanto, não é incomum no Antigo Testamento fazer comparações unidade a unidade em lugar de minuto a minuto. Por exemplo, Deus designou quarenta anos de peregrinação pelos quarenta dias de desobediência (Nm 14.34). E, em Daniel 9, os quatrocentos e noventa dias são iguais a quatrocentos e noventa anos (cf. Dn 9.24-27). Além disso, sabemos que o sétimo dia é mais do que vinte e quatro horas, visto que de acordo com Elebreus 4 o sétimo dia ainda está ocorrendo. Gênesis diz que “descansou [Deus] no sétimo dia” (Gn 2.2), mas Hebreus informa que Deus ainda está nesse descanso sabático no qual Ele entrou depois que Ele criou: “Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” (Hb 4.9,10). 

A Vida não Pode Existir por Milhares de Anos sem Luz 

A luz não foi criada no quarto dia, como argumentam os defensores do dia solar. Mais exatamente, foi feita no primeiro dia, quando Deus disse: “Haja luz” (Gn 1.3). Quanto à razão de haver luz no primeiro dia quando o sol apareceu somente no quarto dia, há várias possibilidades. Certos estudiosos observam um paralelismo entre os três primeiros dias (luz, água e terra — todos vazios) e o segundo três dias (luz, água e terra — todos cheios de corpos). Isto pode indicar um paralelismo no qual o primeiro e o quarto dias abrangem o mesmo período, em cujo caso o sol existiu desde o princípio. 

Outros ressaltam que ainda que o sol fosse criado no primeiro dia, ele apareceu somente no quarto dia. Talvez isto se deva a uma nuvem de vapor que permitia a profusão da luz, mas não a forma distinta dos corpos celestes dos quais a luz emanava. 

As Plantas não Podem Viver sem os Animais 

Certas plantas e animais são interdependentes, mas não todos. Gênesis não menciona todas as plantas e animais, mas só alguns. Se os “dias” forem seis períodos sucessivos, então essas formas de planta e vida animal que precisam umas das outras poderiam ter sido criadas juntas. Na realidade, a ordem básica dos eventos é a ordem da dependência. Por exemplo, muitas plantas e animais podem existir sem os seres humanos (e foram criados primeiro), mas os seres humanos (que foram criados no sexto dia) não podem existir sem certas plantas e animais. Além disso, se os “dias” forem paralelos, então o problema não existe, visto que plantas e animais existiriam ao mesmo tempo. Em todo caso, o argumento da relação simbiótica de plantas e animais não prova que os seis “dias” de Gênesis 1 têm de ter apenas cento e quarenta e quatro horas de duração. 

A Visão da Terra Velha Implica Morte antes de Adão 

Há vários problemas com este argumento. 

Primeiro, Romanos 5.12 não diz que todos os animais morrem por causa do pecado de Adão, mas só que “todos os homens” morrem como conseqüência. 

Segundo, Romanos 8 não diz que a morte animal é o resultado do pecado de Adão, mas só que “a criação ficou sujeita à vaidade” em conseqüência do pecado (Rm 8.20). 

Terceiro, se Adão comesse algo — e ele tinha de comer para viver —, então pelo menos as plantas tiveram de morrer antes de ele pecar. 

Quarto e último, as evidências fósseis indicam haver morte animal antes da morte humana, visto que só se acham pessoas nos estratos mais altos (mais recentes), ao passo que os animais são achados nos estratos mais baixos (mais antigos). 

A Visão da Terra Velha E uma Acomodação à Evolução 

Com respeito a esta objeção, devemos observar que permitir longos períodos de tempo para o desenvolvimento da vida surgiu muito tempo antes da idéia da evolução. Agostinho (354-430), para citar um, sustentou longos períodos de tempo para o desenvolvimento da vida (CG, 11.6). 

Também, nos tempos atuais, os cientistas têm chegado à conclusão de que longos períodos de tempo estavam envolvidos antes que Darwin escrevesse em 1859. 

Além disso, longos períodos de tempo não ajudam a evolução, visto que sem intervenção inteligente, mais tempo não produz a complexidade especificada envolvida na vida. As leis naturais escolhem a esmo, não especificam. Por exemplo, espalhar confetes vermelhos, brancos e azuis de um avião voando a mil pés de altura nunca produz uma bandeira americana no solo. Dar mais tempo para os confetes caírem, derrubando-os a dez mil pés, por exemplo, os espalham ainda mais. 

Marcos 10.6 Afirma que Adão e Eva Foram Criados no Principio 

Primeiro, Adão não foi criado no princípio, mas ao término do período da criação (no sexto dia), pouco importando a extensão dos dias. 

Segundo, a palavra grega ktisis (“criar”) pode e às vezes significa “instituição” ou “ordenação” (cf. 1 Pe 2.13). Considerando que em Marcos 10.6 Jesus está falando sobre a instituição do casamento, pode significar “desde o princípio da instituição do casamento”. 

Terceiro e último, mesmo que Marcos 10.6 esteja falando dos eventos originais da criação, não significa que não pode ter havido um longo período de tempo envolvido nesses eventos criativos. 



OS “DIAS” DE GÊNESIS PODEM ENVOLVER LONGOS PERÍODOS DE TEMPO 

Outros cristãos ortodoxos acreditam que os “dias” de Gênesis 1 podem envolver períodos significativos de tempo. Eles oferecem duas linhas de evidência em defesa desta visão: bíblica e científica. 

As Evidências Bíblicas para os Dias Longos em Gênesis 

Há muitas indicações no texto bíblico que apoiam a crença de que os “dias” da criação eram mais longos que vinte e quatro horas. Os pontos a seguir são os mais frequentemente dados em defesa desta posição. 

A Palavra Hebraica Yom ("Dia”) Frequentemente significa um Longo Período de Tempo 

O fato é que a mesma palavra que significa vinte e quatro horas também significa um período mais longo de tempo. Em primeiro lugar, “dia” às vezes significa um dia profético, quer dizer, um período de tempo futuro de comprimentos discrepantes, como em “dia do Senhor” (J1 2.31; cf. 2 Pe 3.10). Além disso, como vimos, 2 Pedro 3.8 (“Um dia para o Senhor é como mil anos”) está baseado no Salmo 90.4: “Mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou”. Como com qualquer outra palavra, o significado da palavra dia tem de ser determinado pelo contexto no qual é usada. Em muitos contextos, “dia” significa muito mais que vinte e quatro horas. Pode significar milhares de horas ou até mais. 

A Palavra Dia E mais que Vinte e Quatro Horas mesmo em Gênesis 1 e 2 

Até na passagem da criação, a palavra hebraica yom é usada acerca de um período de tempo mais longo que vinte e quatro horas. Resumindo os seis “dias” inteiros, o texto declara: “Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados; no dia \yom\ em que o Senhor Deus fez a terra e os céus” (Gn 2.4, grifos meus). “O dia” aqui significa seis “dias”, o que indica um significado amplo da palavra dia na Bíblia, da mesma maneira que temos em nosso idioma. 

O Sétimo “Dia” tem Milhares de Anos de Comprimento 

Todos concordam que tem havido pelo menos milhares de anos desde o tempo da criação. Contudo, a Bíblia declara que Deus descansou no sétimo dia depois dos seis dias da criação (Gn 2.2,3). De acordo com o livro de Hebreus, Deus ainda está no descanso sabático da criação (Gn 4.3-5). Por conseguinte, o sétimo dia teve pelo menos seis mil anos de duração, mesmo na mais curta de todas as cronologias da humanidade. 

0 Terceiro “Dia” Ê mais Longo que Vinte e Quatro Horas 

No terceiro “dia”, Deus criou não só a vegetação, mas ela amadureceu. O texto diz que no terceiro dia “a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie e árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom” (Gn 1.12, grifos meus). Crescer de sementes até chegar à planta madura e produzir mais sementes é um processo que leva mais tempo que um dia, uma semana ou um mês para a maioria das plantas. Não há indicação no texto de que o crescimento foi algo não natural; foi a sua origem que foi sobrenatural. 

0 Sexto “Dia" É mais Longo que Vinte e Quatro Horas 

Pelo visto, o sexto “dia” da criação também foi consideravelmente mais longo que um dia solar. Consideremos tudo que aconteceu nesse “dia”. 

Primeiro, Deus criou todas as muitas centenas (ou milhares) de animais da terra (Gênesis 1.24,25). 

Segundo, Deus “formou” o homem do pó da terra (Gn 2.7). Esta palavra hebraica yatsar significa “moldar” ou “formar”, o que indica tempo. A palavra yatsar é usada para referir-se ao trabalho do oleiro (cf. Jr 18.2,3). 

Terceiro, Deus disse: “Far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele” (Gn 2.18, grifos meus). Isto indica um tempo subseqüente ao tempo do anúncio. 

Quarto, Adão observou e deu nome a esta multidão de animais (Gn 2.19). Como comentou Robert Newman: “Se cada uma das aproximadamente quinze mil espécies vivas de tais animais (sem mencionar os atualmente extintos) fosse levada a Adão para receber um nome, teria levado dez horas se ele gastasse apenas dois segundos com cada uma”.[2] Não é tempo suficiente para Adão estudar cada animal e determinar um nome apropriado para cada um. Supondo um mínimo de dois minutos para cada espécie, o processo teria levado seiscentas horas (ou vinte e cinco dias). 

Quinto, Adão procurou uma companheira para ele, aparentemente entre todas as criaturas que Deus fizera. “Mas para o homem não se achava adjutora que estivesse como diante dele” (denotando um tempo de busca) (Gn 2.20, grifos meus). 

Sexto, Deus fez Adão dormir e o operou, tirando uma das costelas e curando a carne (Gn 2.21). Este procedimento também envolveu mais tempo. 

Sétimo, Eva foi levada a Adão que a observou, aceitou-a e se uniu a ela (Gênesis 2.22-25). 

Em conclusão, é altamente improvável que todos estes eventos, sobretudo o quarto, foram comprimidos em um período de vinte e quatro horas ou, mais precisamente, em cerca de doze horas de luz que cada dia proporciona. 

As Evidências Científicas para os Dias Longos em Gênesis 

Além das evidências bíblicas para os longos períodos de tempo, há argumentos científicos que o mundo existiu por bilhões de anos. A idade do universo se baseia: 

(1) Na velocidade da luz e na distância das estrelas. 

(2) Na taxa de expansão do universo. 

(3) No fato de que as pedras antigas foram radioativamente datadas em termos de bilhões de anos. 

(4) Na taxa de sal que se escoa ao mar e na quantidade de sal depositada ali, o que indica multimilhões de anos. 

Todos estes argumentos têm certas pressuposições improváveis. Todavia podem ser verdadeiros e, por conseguinte, indicam um universo que tem bilhões em vez de milhares de anos (ver Ross, CT). 

OUTRAS VISÕES DOS “DIAS” DE GÊNESIS 

Se, claro, os “dias” de Gênesis são longos períodos de tempo, então não há conflito com a ciência moderna quanto à idade da terra. Não obstante, mesmo que os “dias” de Gênesis sejam de vinte e quatro horas, ainda há muitos modos de reconciliar os longos períodos de tempo com Gênesis 1 e 2. 

A Visão de Dias de Revelação 

Certos estudiosos conservadores propõem que os “dias” de Gênesis sejam dias de vinte e quatro horas de revelação e não dias de criação (ver Wiseman, CRSD, tudo). Quer dizer, eles sugerem que Deus levou uma semana solar literal (de cento e quarenta e quatro horas) para revelar a Adão (ou Moisés) o que Ele fizera nas longas eras anteriores à criação dos seres humanos. Até mesmo na passagem de Êxodo 20.11, que fala que o Senhor “fez” (asah) os céus e a terra em seis dias, a palavra hebraica pode significar “revelou”. Da mesma maneira que um profeta pode obter revelação de Deus olhando antecipadamente uma série futura de acontecimentos (cf. Dn 2, 7 e 9; Ap 6 a 19), assim Deus pode revelar a um dos seus servos uma série passada de acontecimentos. De fato, Moisés ficou no monte Sinai por quarenta dias (Êx 24.18), e Deus poderia ter passado seis destes dias para revelar-lhe os acontecimentos da criação passada. Ou, depois que Deus criou Adão, Ele pode ter levado seis dias literais para revelar-lhe o que Ele fizera antes que Adão fosse criado. Certos estudiosos acreditam que este material pode ter sido memorizado e passado adiante como a primeira “história das origens dos céus e da terra” (Gn 2.4, NVI), exatamente como as outras “histórias” (ou “genealogias”, ou “gerações”) foram possivelmente registradas e passadas adiante (cf. Gn 5.1; 6.9; 10.1; etc.). 

A Visão da Era dos Dias Alternados 

Outros estudiosos evangélicos propõem que os “dias” de Gênesis sejam períodos de tempo de vinte e quatro horas no qual Deus criou as coisas mencionadas, mas que elas estão separadas entre si por longos períodos de tempo. Isto explicaria as indicações em Gênesis 1 de que estes são dias de vinte e quatro horas (como dias numerados e “tarde e manhã”), ao mesmo tempo deixando espaço para as eras geológicas exigidas pela ciência moderna. 

Teorias do Intervalo 

C. I. Scofield (1843-1921) tornou popular a visão que poderia haver um grande intervalo de tempo entre os primeiros dois versículos da Bíblia, no qual se ajustam todas as eras geológicas. Deste modo, os “dias” poderiam ser de vinte e quatro horas cada, e o mundo poderia ter muitos milhões de anos ou mais. 

Outros acreditam que pode ter havido um “intervalo” ou, melhor, um lapso de tempo antes do início dos seis dias de vinte e quatro horas de Gênesis. Neste caso, o primeiro versículo não indicaria necessariamente Deus criando ex nihilo, mas Deus agindo mais recentemente para formar um mundo que Ele anteriormente criou (ver Waltke, CAG, tudo). 

A Visão do Tempo Ideal 

Há também a posição variegadamente conhecida por procronismo, visão da idade aparente ou do tempo ideal. De acordo com esta perspectiva, a terra e todos os seres vivos foram criados com a aparência de idade (ver Gosse, 0, capítulos 6 e 7), ou seja, eles foram criados já desenvolvidos ou adultos. Por exemplo, Adão pode ter tido a aparência de vinte e um anos de idade um minuto depois de ter sido criado, mas na verdade ele só tinha um minuto de idade. Semelhantemente, argumenta-se que Adão pode ter tido um umbigo, como todos seus descendentes têm, embora ele nunca tivesse sido ligado por um cordão umbilical a uma mãe. Também teorizam que as primeiras árvores podem ter sido criadas com anéis em vez de as terem recebendo pelo crescimento anual. Se for assim, então o mundo pode ser realmente jovem e só aparentemente velho.[3]

A Visão dos Quadros Literários

Outros estudiosos, como Herman Ridderbos (n. 1900), propõem que o uso de “dias” e “tarde e manhã” são meros dispositivos literários antigos para enquadrar certos períodos de tempo, a fim de encapsulá-los em forma literária semelhante ao uso que fazemos de “capítulos” para o mesmo fim. Argumentam que visto que tarde e manhã eram modos naturais de indicar um período de tempo com um começo e um fim, este foi um modo apropriado para Deus revelar a Adão (ou Moisés) o que Ele tinha feito em certos períodos de tempo antes que os seres humanos entrassem em cena.

Em suma, há numerosos modos de explicar os longos períodos de tempo e, ao mesmo tempo, aceitar uma interpretação literal de Gênesis 1 e 2. Quer dizer, não temos de abandonar o modo histórico-gramatical normal de interpretar a Bíblia para adotar estas visões. Contudo, não há conflito necessário entre Gênesis e a crença de que o universo tem milhões ou até bilhões de anos. Na verdade, entre todos os modos de interpretar Gênesis 1 e 2, só a visão “religiosa apenas” ou “mítica” é categoricamente incompatível com uma interpretação evangélica da Bíblia, visto que rejeita que Gênesis

0 esteja fornecendo informação literal sobre a origem do universo espaço-tempo e de todos os seres vivos.


FONTES

Augustine. The City of God. [Edição brasileira: Agostinho. A Cidade de Deus (Petrópolis: Vozes, 2000).]

Geisler, Norman L. Knowing the Truth About Creation.

Geisler, Norman L. “Genealogies, Open or Closed”, in: Baker Encyclopedia of Christian Apologetics. [Edição brasileira: Enciclopédia de Apologética: Respostas aos Críticos da Fé Cristã (São Paulo: Vida, 2002).]

Gosse, Philip Elenry. Omphalos: An Attempt to Untie the Geological Knot.

Morris, Elenry. Biblical Cosmology and Modern Science.

____________ , The Genesis Record.

Newman, Robert C., and Elerman Eckelmann, Jr. Genesis One and the Origin of the Earth. Ramm, Bernard. The Christian View of Science and Scripture.

Ridderbos, Herman. Is There a Conflict Between Genesis 1 and Natural Science?

Ross, Hugh. Creation and Time.

Stoner, Don. A New Look at an Old Earth.

Waltke, Bruce. “The Creation Account in Genesis 1:1-3; Part I: Introduction to Biblical Cosmogony”, in: Bibliotheca Sacra.

_________ . “The Creation Account in Genesis 1:1-3; Part II: The Restitution Theory”,

in: Bibliotheca Sacra.

_________ . “The Creation Account in Genesis 1:1-3; Part III: The Initial Chaos Theory

and the Precreation Chaos Theory”, in: Bibliotheca Sacra.

_________ . “The Creation Account in Genesis 1:1-3; Part IV: The Theology of Genesis

1 ”, in: Bibliotheca Sacra.

_________ . “The Creation Account in Genesis 1:1-3; Part V: The Theology of Genesis

1 Continued”, in: Bibliotheca Sacra.

Wiseman, Donald. Creation Revealed in Six Days.

Young, Davis. Christianity and the Age of the Earth.

Young, Edward ). Studies in Genesis One.




[1] Veja Robert C. Newman and Herman Eckelmann Jr., Genesis One and the Origin of the Earth, p. 128, 129.


' ibid.


[3] Pelo visto, esta visão acusa Deus de enganador, visto que alega que Ele faz o mundo parecer velho, quando na realidade não é. Além disso, é contrária ao bom senso e aos argumentos científicos a favor de um universo velho.

GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. CPAD, 2010.