12 de outubro de 2015

Norman Geisler - Visões alternativas sobre a crição

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VISÕES ALTERNATIVAS SOBRE A CRIAÇÃO 


O cenário teológico para a doutrina cristada criação é teísta. Podemos entender melhor o teísmo em contraste com as outras duas principais visões (o panteísmo e o ateísmo; ver Volume 1, capítulo 2). Cada uma postula um ponto de vista fundamentalmente diferente sobre a origem. 

Há três alternativas primárias sobre a natureza da criação (ver Geisler, KTC, capítulo 4). Os materialistas (muitos dos quais são ateus) crêem na criação a partir da matéria (ex matéria), ao passo que os panteístas reivindicam que a criação sai de Deus (ex Deo), e os teístas afirmam que a criação foi feita por Deus do nada (ex nihiló). 

MATERIALISMO: CRIAÇÃO A PARTIR DA MATÉRIA 

A visão materialista da criação defende que a matéria (ou energia física) é eterna. A matéria sempre é e sempre será. Como reivindicam os físicos: “A energia não pode ser criada nem destruída”. Isto é conhecido como a primeira lei da termodinâmica.[1]

Há duas subdivisões básicas na visão da “criação a partir da matéria”: A que envolve um Deus (por exemplo, o platonismo), e a que não o envolve (por exemplo, o ateísmo). 

Platonismo: Deus Criou a partir da Matéria Preexistente 

Muitos gregos antigos criam que Deus criou a partir de um “torrão de barro” previamente existente e eterno. Quer dizer, Deus e o “material” do universo material (o cosmo) sempre existiram. A “criação” é o processo eterno pelo qual Deus molda matéria continuamente, dando forma ao conteúdo do universo. 

Platão (c. 427-347 a.C.) propôs esta visão da criação a partir da matéria (T, p. 27ss.). Ele chamou a matéria “o informe” (ou “caos”), ao passo que Deus era o Formador (ou Demiurgo). Usando um mundo eterno de formas (idéias), Deus modelou ou organizou a massa informe de materiais chamada matéria. Em suma, o Formador (Deus), por meio das formas (idéias que fluíram da Forma), formou o informe (a matéria) em um lormato (o cosmo). Ou, usando as palavras gregas, o Demiurgos, por meio do eidos (idéias) que fluiu do agathos (o Bom), modelou o chãos (o informe) em um hosmos (o universo material). 


Daremos explicações sucintas de vários elementos deste ponto de vista platônico da criação. 

A Matéria E Eterna 

O material básico do universo físico sempre existiu. Nunca houve um tempo em que todos os elementos do cosmo não existissem. Tudo sempre é. 

“Criação” significa Formação e não Origem 

De acordo com esta visão, “criação” não significa trazer à existência algo que previamente não existia. Mais exatamente, significa formação do que sempre existiu. Deus não origina a matéria; Ele organiza a matéria que sempre existiu. 

O "Criador" E um Formador e não um Produtor 

Nesta visão platônica, a palavra Criador não quer dizer “Originador de tudo que existe”, mas o “Construtor”. Os blocos construtivos já existiam; Deus apenas os reuniu. Por conseguinte, Deus é o Arquiteto do universo material e não a Fonte. 

Deus não Eo Soberano sobre todas as Coisas 

Uma consequência da cosmovisão platônica é que Deus não está no controle último de todas as coisas, pois há algo eterno fora dEle: Há um dado, algo com o qual até Deus tem de tratar. A matéria sempre existiu, e Deus não pode fazer nada sobre isto. Ele pode modelar a matéria, mas isso lhe coloca certas limitações. Da mesma maneira que há limites sobre o que podemos fazer com papel (é bom para fazer pipas, mas não para fazer naves espaciais), assim a própria natureza da matéria é um impedimento à capacidade do Criador. Em suma, a existência e natureza da matéria impõem limites a Deus. 

Ateísmo: A Matéria É Eterna 

Uma segunda cosmovisão no materialismo é geralmente chamada ateísmo, embora muitos agnósticos também a defendam. Os ateus dizem que não há Deus; os agnósticos afirmam não saber se há Deus. Contudo, nem um dos dois acredita que seja necessário postular Deus para explicar o universo. A matéria sempre existiu em uma forma ou outra. Na realidade, para os ateus, o universo é tudo que existe, sendo que até a mente veio da matéria. Os ateus que acreditam que os seres humanos têm alma também insistem que a alma é dependente do corpo assim como a sombra depende da árvore (ver Volume 3, capítulo 2). 

Se interrogados sobre de “onde veio o universo”, os materialistas rígidos respondem com uma pergunta: De onde Deus veio: Eles afirmam que não faz sentido indagar sobre quem fez o universo assim como é sem sentido perguntar quem fez Deus. 

Muitos pensadores ao longo dos séculos têm sustentado que a criação saiu da matéria (ex matéria), pensamento postulado desde os atomistas antigos (que reduziram todas as coisas a átomos) até aos materialistas modernos, como Karl Marx [1818-1883] (ver MER, p. 298). 

Um porta-voz contemporâneo desta visão foi o famoso astrônomo Cari Sagan (1934-1996), que acreditava que “o cosmo é tudo que é, ou sempre foi, ou sempre será” (C, p. 4). Os seres humanos são poeira estelar que refletem estrelas. Em vez de Deus criar as pessoas, as pessoas criaram Deus. Como disse Karl Marx, a mente não criou a matéria; a matéria criou a mente (op. cit., p. 231). 

Supondo a existência eterna da matéria e do movimento (uma suposição incrível), podemos explicar tudo pela evolução puramente natural. Matéria mais tempo, acaso e leis naturais (como a seleção natural) podem explicar tudo. Até as complexidades da vida humana podem ser racionalizadas pelas leis puramente naturais do universo físico. Como vimos, dando bastante tempo, macacos com uma máquina de escrever podem supostamente produzir as obras de Shakespeare. Não é necessário haver um Criador inteligente. 

Resumo da Criação Ex Matéria 

Há aspectos importantes nesta visão ateísta, os quais resumiremos brevemente nestes quatro pontos apresentados a seguir. 

A Matéria E Eterna 

Repetindo, a matéria sempre existiu — ou, pelo menos, como disse certo ateu: “Se a matéria veio à existência, veio à existência do nada e por meio do nada” (Kenny, FW, p. 147). O universo material é auto-sustentável e autogerador. E provavelmente eterno, mas se veio a ser (à existência), então veio a ser sozinho sem ajuda externa. Como especulou Isaac Asimov, há igualmente boas chances de ou nada vir do nada ou algo sair do nada. Por pura sorte, algo emergiu (BE, p. 148). Portanto, ou a matéria é eterna, ou então ela veio do nada, espontaneamente, sem causa. 

Os materialistas tradicionais (chamados atomistas) acreditavam que havia bolas de realidade, pequenas, duras, inumeráveis e indestrutíveis, chamadas átomos. Com a divisão do átomo e o surgimento do e=mc2 (energia = massa x a velocidade da luz ao quadrado) de Einstein, hoje os materialistas falam da indestrutibilidade da energia. Eles apelam para a primeira lei da termodinâmica, afirmando, como vimos, que “a energia não pode ser criada nem destruída”. A energia não deixa de existir; ela apenas assume novas formas. Até mesmo na morte, todos os elementos de nosso ser são reabsorvidos pelo ambiente e usados de novo por outras coisas. O processo continua para sempre. 

Não E Necessário um Criador 

Outra premissa do materialismo rígido é o ateísmo ou não-teísmo; quer dizer, ou não há Deus ou, no mínimo, não há necessidade de um Deus. O Manifesto Humanista II diz: “Como não-teístas, começamos com seres humanos e não Deus, a natureza e não a deidade” (Kurtz, HM II, p. 16). 

De acordo com a visão não-teísta da “criação a partir da matéria”, não é necessária uma causa para trazer a matéria à existência ou formar a matéria já em existência. Não há nem Criador nem Fazedor (Formador) do mundo. O mundo se explica a si mesmo. 

Os Seres Humanos não São Imortais 

Outra implicação habitual desta perspectiva é que não há “alma” imortal ou aspecto espiritual dos seres humanos. O Manifesto Humanista I observa: “O dualismo tradicional da mente e corpo tem de ser rejeitado”. Pois, os seus escritores crêem que “a ciência moderna desacredita de conceitos históricos como o ‘fantasma da máquina’ e a ‘alma separável’” (ibid., p. 8,16,17). Os materialistas rígidos não creem no espírito ou na mente: Não há mente, só cérebro. O pensamento é apenas uma reação química do cérebro. Thomas Hobbes (1588-1679) definiu a matéria da seguinte forma: 

O mundo (quero dizer apenas a terra, que denomina os seus amantes “os homens mundanos”, mas também o universo, isto é, toda a massa de todas as coisas que são) é corpóreo, isto é, corpo; e tem as dimensões de grandeza, a saber, comprimento, largura e profundidade. Também qualquer parte do corpo é igualmente corpo e tem as mesmas dimensões, e conseqüentemente qualquer parte do universo é corpo e aquilo que não é corpo não é parte do universo. E porque o universo é tudo, aquilo que é não parte dele, não é nada, e conseqüentemente está em lugar nenhum. (L, p. 269) 

Os materialistas menos rígidos admitem a existência de uma alma, mas negam que ela exista independentemente da matéria. Para eles, a alma é para o corpo o que a imagem no espelho é para quem está olhando. Quando o corpo morre, a alma morre; quando a matéria desintegra, a mente também acaba. 

Os Seres Humanos não São Únicos 

Entre os que defendem a criação da matéria, há diferenças relativas à natureza dos seres humanos. A maioria concorda em dar um status especial aos seres humanos como o ponto mais alto no processo evolutivo. Entretanto, praticamente todos concordam que os seres humanos não são qualitativamente diferentes dos animais. Os seres humanos só diferem em grau, não em espécie das formas mais baixas de vida. Os seres humanos são a forma animal mais alta e mais recente na escala evolutiva, mas eles não são exclusivamente diferentes. Eles apenas têm habilidades mais altamente desenvolvidas que os primatas. Certamente, dizem, os seres humanos não são únicos acima do resto do reino animal, mesmo que estejam no ponto mais alto desse reino. 

Panteísmo: Criação a partir de Deus 

Na outra ponta do espectro do materialismo está o panteísmo. Os materialistas afirmam que tudo é matéria; os panteístas acreditam que tudo é mente ou espírito. No assunto da criação, o materialismo acredita na criação a partir da matéria (ex matéria), mas o panteísmo acredita na criação a partir de Deus (ex Deo'). Há duas categorias básicas nas quais os panteístas se dividem: panteísmo absoluto e panteísmo não-absoluto. 

Panteísmo Absoluto 

Os panteístas absolutos afirmam que só a mente (ou espírito) existe e não a matéria. O que chamamos matéria não passa de uma ilusão, como um sonho ou miragem. Parece existir, mas realmente não existe. Há dois representantes clássicos desta visão, Parmênides (nascido c. 515 a.C.) do Ocidente (um grego) e Shankara (c. século VIII) do Oriente (um hindu). 

Repetindo (ver Volume 1, capítulo 2), Parmênides argumentou que tudo é um, porque presumir que mais de uma coisa existe é absurdo (P, em Kirk, PP, p. 266-283). Se houvesse duas ou mais coisas, elas teriam de diferir, mas os únicos modos de diferir são por algo (ser) ou por nada (não-ser). Entretanto, é impossível não diferir por nada, visto que não diferir por nada (ou não-ser) é apenas outro modo de dizer não há diferença nenhuma. 

E duas coisas não podem diferir por ser (ou existir), porque o ser (ou existência) é a única coisa que eles têm em comum — é impossível diferir pelo mesmo aspecto no qual eles são os mesmos. Por conseguinte, Parmênides concluiu que é impossível ter duas ou mais coisas. Só pode haver um ser: Tudo é um e um é tudo. Portanto, tudo que parece ser realmente não existe. 

Colocado no contexto da criação, isto significa que Deus existe e o mundo não. Há um Criador, mas realmente nenhuma criação. Ou, pelo menos, o único sentido no qual podemos dizer que é uma criação é que vem de Deus do modo em que o sonho vem da mente. O universo é só o nada sobre o qual Deus pensa. Deus é a totalidade de toda a realidade, e o não-real sobre o qual Ele pensa e que nos aparece, como o zero, não existe. E literalmente nada. 

O famoso filósofo hindu Shankara (em Prabhavananda, SHI, p. 55) descreve a relação do mundo com Deus, a ilusão à realidade, pela analogia do que parece que é uma cobra, mas, visto de perto, é uma corda. Quando olhamos para o mundo, o que existe não é a realidade (brama); mais exatamente, é somente uma ilusão (maia). 

Semelhantemente, quando uma pessoa olha para si mesma, o que parece que existe (o corpo) é só uma manifestação ilusória do que realmente é (a alma). E quando a pessoa olha para a alma, ela descobre que a profundidade da alma (atmã) é, na verdade, a profundidade do universo (brama). O atmã (homem) e o brama (Deus). Pensar que não somos Deus faz parte da ilusão ou sonho do qual temos de acordar. Cedo ou tarde temos de descobrir que tudo vem de Deus, e tudo é Deus. E o que diz o argumento dos panteístas absolutos. 

Panteísmo Não-Absoluto[2]

Outros panteístas defendem uma visão mais flexível e elástica da realidade. Ainda que acreditem que tudo é um com Deus, eles não negam que haja certa multiplicidade que flui (ex Deo) da unidade de Deus. Eles acreditam que tudo está no um assim como todos os raios estão no centro do círculo, ou como todas as gotas se fundem em uma lagoa infinita. Entre os representantes desta visão citamos o neoplatônico Plotino (205-270 d.C.), o filósofo moderno Baruch de Espinosa (1632-1677) e o pensador hindu contemporâneo Radhakrishna. 

De acordo com este pensamento, há muitas coisas no mundo, mas todas emanam da essência do Um (Deus). Os muitos estão no Um, mas o Um não está nos muitos, quer dizer, todas as criaturas fazem parte do Criador. Elas vêm dEle da mesma forma que a flor se desenvolve da semente ou as faíscas vêm do fogo. Repetindo, as criaturas são muitas gotas que espirram da lagoa infinita, mas acabam caindo de volta e misturando-se com o Todo. Todas as coisas vêm de Deus, fazem parte de Deus e fundem-se de volta em Deus. Falando tecnicamente, para os panteístas, não há Criação, mas só uma emanação de todas as coisas de Deus. O universo não foi feito do nada (ex nihilo), nem de algo preexistente (ex matéria), mas foi feito de Deus (ex Deo). 


Resumo da Visão Panteísta da Origem 

Esta visão panteísta da origem contém elementos significativos. Faremos um esboço breve dividido em quatro pontos. 

Não há Distinção Absoluta entre o Criador e a Criação 

No final das contas, o Criador e a criação são um. Eles diferem em perspectiva, como os dois lados de um pires. Ou, eles diferem relacionalmente, como a Fonte ao seqüente, como a Causa ao efeito. O criador e a criação podem não ser mais diferentes do que o reflexo no lago é para o cisne que nada nele. Um é a imagem invertida do outro que é a coisa real. Mesmo para os que acreditam que o mundo é real, o Criador e a criação são dois lados da mesma moeda. Não há real diferença entre eles. 

Há uma Relação Eterna entre o Criador e a Criação 

Os panteístas acreditam que Deus causou o mundo, mas eles insistem que Ele tem causado isto sempre. Da mesma maneira que os raios solares brilhariam para sempre de um sol eterno, ou os raios sempre emergem do centro de um círculo eterno, assim Deus tem criado para sempre: O universo é tão velho quanto Deus. Da mesma maneira que em um mundo eterno uma pedra estaria sobre outra para sempre, assim o mundo seria dependente de Deus para sempre. De acordo com o panteísmo, a Causa tem criado desde a eternidade. 

0 Mundo E do mesmo “Material” que Deus 

Os panteístas acreditam que Deus e o mundo são da mesma substância. Ambos consistem de Deus-material. A criação faz parte do Criador; é um em natureza com Deus. Deus é água. Deus é as árvores. Como disse Marilyn Ferguson, adepto do movimento Nova Era, quando observamos o leite ser derramado nos cereais, vemos Deus sendo derramado em Deus! (AC). No final das contas, há só uma substância, um “material” no universo, e é divino. Todos nós somos feitos disso — todos nós somos Deus. 

Os Seres Humanos São Deus 

Se toda criação é a emanação de Deus, então assim é a humanidade. A teóloga popular de panteísmo da Nova Era, Shirley MacLaine, acredita que “você pode usar Eu sou Deus, ou Eu sou Cristo, ou Eu sou o que eu sou, como Cristo usou” (DL, p. 112). Na minissérie especial de televisão “Out on a Limb” (janeiro de 1987), ela fez ondulações no mar e proclamou: “Eu sou Deus. Eu sou Deus!” O Senhor Maitreya, que muitos crêem ser o “Cristo” da Nova Era, declarou por intermédio de Benjamim Creme, o seu agente de imprensa: “O meu propósito é mostrar para os homens que eles não precisam mais ter medo, que toda Luz e Verdade está no seu coração, que quando este fato simples for conhecido os homens se tornarão Deus” (Creme, MMC, p. 204). 

TEÍSMO: CRIAÇÃO A PARTIR DO NADA 

Em contraste com o materialismo e o panteísmo, há a visão judaico-cristã da criação: do nada. De acordo com esta posição, Deus está acima e além do mundo, não meramente nele e certamente não dele. O Criador está relacionado com a criação mais semelhantemente a um pintor que está relacionado com sua pintura. O pintor não é a pintura; mais exatamente, ele criou a pintura e está manifesto nela. Semelhantemente, Deus não é o mundo; ao invés disso, Ele criou o mundo e se manifesta nele (SI 19.1). 

Esta posição é representada pelo judaísmo ortodoxo, islamismo e cristianismo. Entre os seus proponentes estão grandes pensadores cristãos como Agostinho, Anselmo e Aquino, como também Reformadores como Lutero, Zwínglio e Calvino. Semelhantemente, um dos representantes do século XX mais bem conhecidos desta visão foi C. S. Lewis. 

A Contribuição de Agostinho para o Teísmo 

Agostinho (354-430), o monge medieval, avançou com muita luta através das posições precedentes. Primeiro, ele foi pego nas garras do ceticismo, que afirmava a criação da matéria sem um Deus. Depois, aceitou uma forma de dualismo maniqueísta, que acreditava que havia um reino eterno mau oposto a Deus. Antes de converter-se ao cristianismo, Agostinho foi influenciado por Plotino que, como já mencionado, cria na criação a partir de Deus (ex Deo). Mas, conseqüentemente, Agostinho aceitou a posição bíblica da criação do nada. Ele concluiu que a criação veio de Deus, mas não saiu de Deus. ‘“Vir dEle’ não significa o mesmo que ‘sair dEle’. [...] Pois dEle são os céus e a terra, porque Ele os fez; mas não saiu dEle, porque elas não são da substância dEle” (ONG, p. 27). Só Cristo, o Filho de Deus, é da mesma substância de Deus. Toda criação veio de Deus. Peter Kreeft observou que para os cristãos, “o mundo é não Deus e não uma ilusão. Nas religiões orientais, o mundo é ou Deus ou uma ilusão, ou parte da mente ou corpo de Deus, ou mata, um embuste” (UHH, p. 92). 

Só Deus E Eterno 

Para Agostinho, “o Deus eterno” criou o mundo temporal (CG, 11.4). Só Deus é eterno, porque Ele não criou desde a eternidade. Agostinho rejeitou a visão dos que negavam “um começo ‘temporal’, mas admitiam um começo ‘criacionista’, como se, de algum modo dificilmente compreensível, o mundo foi feito, mas feito desde toda a eternidade” (ibid.). 

Quando alguém perguntava o que Deus estava fazendo antes de criar o mundo, Agostinho respondia: “Deus estava desocupado, pela razão simples de que não havia tal coisa como tempo antes que o universo fosse feito” (ibid., 11.5), pois “se eles imaginassem períodos infinitos de tempo antes do mundo, no qual eles não vissem como Deus poderia ter tido nada que fazer, eles conceberiam âmbitos infinitos de espaço além do universo visível” (ibid.). Mas isto é absurdo, porque não há espaço além do cosmo finito. 

O Mundo Teve um Começo 

Agostinho declarou: “As Escrituras Sagradas e infalíveis falam que no princípio Deus criou os céus e a terra em ordem. [...] Indubitavelmente, o mundo não foi feito no tempo, mas junto com o tempo”. Portanto, não havia tempo antes do tempo, só a eternidade. Deus não muda, mas o universo muda. O tempo é a medida dessa mudança, pois “a marca distintiva entre tempo e eternidade é que o tempo não existe sem um pouco de movimento e mudança, ao passo que na eternidade não há nenhuma mudança”. Obviamente, “não poderia ter havido tempo que não tivesse uma criatura sido feita cujo movimento efetuasse alguma mudança”. Mas “na eternidade [de Deus] não há mudança nenhuma”. Por conseguinte, não podemos “dizer que Ele criou o mundo depois de um espaço de tempo” (ibid., 11.6). 

0 Mundo Foi Criado do Nada (ex nihilo) 

“No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Agostinho cria que “a menos que isso signifique que nada tivesse sido feito antes, teria sido declarado que tudo o mais que Deus fizera antes foi criado no princípio” (ibid.). E não só nada foi feito antes disto, mas o que foi feito foi criado do nada. 

A criação não pode ser da substância de Deus, porque Ele é eterno na sua essência e a criação é temporal. Ele não tem começo, ao passo que o mundo teve um começo. Além disso, a criação “não sai dEle, porque não é imutável, como Ele é”. Considerando que o universo “não foi feito de qualquer outra coisa; foi feito indubitavelmente do nada — mas por Ele mesmo” (OSIO, 1.4). 

Até mesmo Adão — corpo e alma — foi criado do nada, pois “embora Deus formasse o homem do pó da terra, a própria terra e todo material terrestre foi criado absolutamente do nada”. Até mesmo “a alma do homem Deus também criou do nada, e uniu ao corpo quando Ele fez o homem” (CG, 14.11). 

Em suma, o mundo deve ter sido feito do nada, porque teve um começo; veio à existência. Nem sempre existiu; Deus o fez. O mundo é finito, temporal e mutável, ao passo que Deus não é nada disso. Por conseguinte, o mundo não pode ser feito da substância ou essência de Deus. Deve, então, ter entrado em existência do nada pelo poder de Deus. Agostinho resumiu sucintamente as três perguntas básicas sobre a criação: 

“Quem fez a criação! Como! e Por quê! As respostas são: ‘Deus’; ‘pela Palavra’; e ‘porque é bom’” (ibid., 11.23). Portanto, “o que Deus criou foi feito somente por causa da sua bondade, não por causa de necessidade nem de necessidade para usar a coisa para si mesmo” (ibid., 11.24). Pelo motivo de cada indivíduo ser criado pela boa vontade de Deus, Ele deve reconhecer a bondade de Deus. “Se ele não adora a Deus, ele é miserável, porque [ele está] privado de Deus.” Por outro lado, “se ele adora a Deus, ele não pode desejar ser adorado no lugar de Deus” (ibid., 10.3). 

A Contribuição de Tomás de Aquino para a Visão Teísta da Criação 

Depois de Agostinho, o maior pensador cristão da Idade Média foi Tomás de Aquino (1224-1274), o monge dominicano. As suas visões sistemáticas de Deus e da criação tornaram-se padrão para o pensamento cristão ortodoxo desde os seus dias. 

Só Deus Pode Criar 

Aquino sustentou que “não só não é impossível que algo seja criado por Deus, mas é necessário dizer que todas as coisas foram criadas por Deus” (ST, la.45.2.), pois “criar só pode ser a ação própria de Deus” e “produzir o ser absolutamente, não meramente como este ou aquele ser, pertence à natureza da criação. Por conseguinte, é óbvio que a criação é o ato próprio exclusivamente de Deus”. Deus não pode usar causa secundária ou instrumental para criar, “porque a causa instrumental ou secundária não toma parte na ação da causa superior”. Por exemplo, uma serra não produz por si só a forma de um banco. Este é o efeito próprio exclusivamente da causa principal, o carpinteiro. “Assim é impossível que a criatura crie, ou por seu próprio poder ou instrumentalmente” (ibid., la.45.5). 

A Criação não Ê Eterna 

Como Agostinho antes dele, Aquino cria que “nada exceto Deus pode ser eterno”. Entretanto, Aquino não defendeu que houvesse argumento válido que provasse que o universo teve um começo, embora ele o aceitasse como ensino bíblico (ibid., la.46.1). Ele afirmou claramente: “Que o mundo nem sempre existiu sustentamos só pela fé; não pode ser provado demonstrativamente” (ibid., la.46.2). 

Porém se o mundo teve um começo, esta é forte indicação do seu Criador. “Pois o mundo leva mais evidentemente para o conhecimento do poder criador divino se nem sempre não fosse, que se tivesse sido sempre. [...] Tudo que não era sempre tem manifestadamente uma causa” (ibid, la.46.1). 

Deus trouxe o mundo à existência por um ato livre da sua vontade: “O primeiro agente é um agente voluntário”. Ainda que Ele tivesse a vontade eterna para produzir algum efeito, Ele não produziu um efeito eterno (ibid., la.46.1, ad 6), pois “de uma ação eterna de Deus não procede um efeito eterno; procede apenas tal efeito como Deus deseja, um efeito, isto é, aquele que tem o ser segundo o não-ser” (ibid., la.46.2, ad 10). 

Aquino não cria que houvesse tempo antes do começo do mundo. O não-ser veio “antes” do ser apenas em sentido lógico e não cronológico. O Criador é “antes de todo o tempo” apenas por uma prioridade da natureza e não do tempo. “Dizemos que as coisas foram criadas no princípio do tempo, não como se o começo do tempo fosse uma medida da criação, mas porque junto com o tempo foram criados os céus e a terra” (ibid., la.46.3, ad 1). Portanto, o tempo começa com a criação. Não foi uma criação no tempo, mas uma criação do tempo. 

A Criação E do Nada 

Aquino argumentou que a criação tem de ser do nada. Por definição, “nada é igual a não-ser”. Entretanto, “quando se diz que algo foi feito do nada, a preposição de não significa uma causa material, mas só uma ordem” (ibid., la.45.2). Semelhantemente, o meio-dia vem da manhã, querendo dizer depois da manhã e não literalmente dela. 

Na verdade, criar do nada é um conceito negativo: “O sentido é [...] foi feito de coisa nenhuma. Da mesma maneira que tivéssemos de dizer: Ele fala de nada, porque ele não fala de coisa alguma” (ibid., la.45.2, ad 3). O famoso provérbio que “nada vem do nada” não deve ser entendido de forma absoluta. Significa que algo não pode ser causado por nada, mas não que algo não possa vir depois do nada. Quer dizer, algo pode ser criado do nada, mas não por nada. 

Elementos Importantes da Visão Teísta da Criação 

A visão teísta de criação contém muitas verdades significativas. Examinaremos quatro delas brevemente. 

Há uma Diferença Absoluta entre o Criador e a Criação 

O teísmo cristão defende que há uma diferença fundamental e real entre o Criador e a criação. Os contrastes apresentados a seguir focalizarão as diferenças. 


Deus e o mundo são radicalmente diferentes. Um é o Fazedor e o outro é o feito. Deus é a Causa e o mundo é o efeito. Deus é Ilimitado e o mundo é limitado. O Criador é Auto-existente, mas a criação é completamente dependente dEle para existir. 

Algumas ilustrações já conhecidas ajudam a esclarecer mais a real distinção entre o Criador e a criação. No panteísmo, Deus é para o mundo o que o mar é para as gotas de água que estão nele, ou o que o fogo é para as faíscas que saem dele. Entretanto, no teísmo, Deus é para o mundo o que o pintor é para a pintura ou o dramaturgo é para a peça teatral. Quer dizer, enquanto o artista está em certo sentido manifesto na sua arte, ele também está fora dela. O pintor não é a pintura. Ele está além, acima e sobre ela. Semelhantemente, Deus é o Criador do mundo que o causa para existir e que é revelado nele. Deus não é o mundo. 

A Criação Teve um Começo 

Outro elemento crucial da visão teísta da criação do nada é que o universo (tudo menos Deus) teve um começo. Jesus falou da sua glória com o Pai “antes que o mundo existisse” (Jo 17.5). O tempo não é eterno. O universo tempo-espacial foi trazido à existência. O mundo nem sempre existiu. O mundo não começou no tempo — o mundo foi o começo do tempo. O tempo não existiu antes da criação e, depois, em algum momento no tempo, Deus criou o mundo. Repetindo, não foi uma criação no tempo, mas uma criação do tempo. 

Isto não significa que houve um tempo em que o universo não era, pois não havia tempo antes que o tempo começasse. A única coisa “anterior” ao tempo era a eternidade; quer dizer, Deus sempre existe, ao passo que o universo começou a existir. Por conseguinte, Deus é anterior ao mundo temporal ontologicamente (em realidade), mas não cronologicamente (no tempo). 

Dizer que a criação teve um começo é destacar que entrou em existência do nada. Primeiro não existiu, e depois existiu. Não era, e depois era. Claro que foi Deus a Causa da vinda do mundo à existência. 

O "Nada” do qual Deus Criou era o Nada Absoluto 

Quando o teísta declara que Deus criou “do nada”, ele não quer dizer que “nada” era algum tipo de algo invisível e imaterial que Deus usou para fazer o universo material. Nada significa absolutamente nada, quer dizer, só Deus existia e totalmente nada mais. Deus criou o universo, e depois, e somente depois, houve qualquer outra coisa que existia. 

Se “nada” fosse realmente um algo escondido ou secreto, então a criação seria de qualquer outra coisa (ex matéria). Mas os teístas demonstram que a criação saiu do nada (ex nihilo). Em suma, a criação do nada significa verdadeiramente que Deus não usou qualquer coisa quando Ele criou o universo. Ele o trouxe à existência pelo seu próprio poder. 



A Criação do Nada não Ê Criação pelo Nada 

O teísmo acredita que o universo veio a ser (existir) do nada, mas só por Alguém (Deus); não afirma que nada produziu algo. Na realidade, o teísta poderia cantar com Julie Andrews a canção The Sound of Music: “Nothing comes from nothing; nothing ever could” (Nada vem do nada; porque nada jamais poderia vir do nada). De fato, no cerne da crença teísta no poder causal de Deus está a rejeição da premissa de que nada pode criar algo. Só algo (ou alguém) pode causar algo. Nada não causa nada. 

Assim, para o teísmo, a criação do nada não significa criação peio nada. Significa, antes, que Deus criou o universo sem a ajuda de qualquer matéria ou substância preexistente. Ele a fez pela sua própria onipotência infinita. Alguém que não usou absolutamente mais nada causou a criação inteira para entrar em existência (ser) “pela palavra do seu poder” (Hb 1.3; cf. Gn 1.3,6,9,11,14,20,24,26). 

A FONTE, CONTEÚDO, MÉTODO, TEMPO E PROPÓSITO DA CRIAÇÃO 

Além de ser distinto por criação ex nihilo, a doutrina cristã da criação é caracterizada por várias outras características. Entre elas se incluem a fonte, o conteúdo, o método, o tempo e o propósito da criação. 

A Fonte da Criação 

A fonte da criação é um Deus teísta. Só Ele pode criar algo do nada (Agostinho, CG, 11.23). Deus é a “Causa Primeira” (Agostinho, LCG, p. 23). Ele é o “Começo” além do qual não há começo. Ele é eterno e não-causado. Ele é indivisível e imutável (Agostinho, CG, 

11.10) . Ele é infinitamente sábio e poderoso. Além disso, Deus criou voluntariamente. Como observou Aquino: “Não é necessário que Deus desejasse qualquer coisa exceto Ele mesmo” (ST, la.46.1). 

Visto que o Deus cristão é uma Trindade de Pai, Filho e Espírito (ver capítulo 12), todas as três Pessoas estão envolvidas na criação. De acordo com Agostinho: “Ao Pai é atribuído o poder que é especialmente mostrado na criação. [...] Ao Filho é atribuído a sabedoria através da qual um agente intelectual age. [...] Ao Espírito Santo é atribuído a bondade, à qual pertence o governo [...] e a doação de vida” (ibid. 1.46.6). A criação é designada a todos os três membros da divindade, porque em Deus a sua existência é “idêntica à sua essência e comum a todas as três pessoas, e é, então, uma atividade de toda a Trindade, não peculiar a uma Pessoa” (ibid.). 

Deus não apenas criou, mas só Deus pode criar. “Criar é, propriamente dito, causar ou produzir o ser (existência) das coisas” (Aquino, ST, la.45.6). Só Deus pode causar algo para entrar em existência; os seres humanos não podem criar. “O homem individual não pode ser absolutamente a causa da natureza humana, porque ele seria então a causa de si mesmo” (ibid. la.45.5). Na realidade, “nenhum ser criado pode produzir um ser absolutamente” (ibid.). 

Considerando que os anjos são seres criados, conclui-se que eles não podem criar. Isto é assim, porque só Deus é a causa primária e “nenhuma causa secundária pode produzir qualquer coisa. [...] Por conseguinte, conclui-se que nada pode criar a não ser somente Deus” (ibid., la.65.3). 

Causas secundárias não criam; elas só reduplicam (ibid., la.45.6). Uma “causa instrumental secundária não toma parte na ação da causa superior. [...] Portanto, é impossível a criatura criar” (ibid. la.45.5). 



0 Conteúdo da Criação 

Deus criou tudo o que existe. Ele criou “os céus e a terra” e todos os seres viventes (Gn 1.1,20-27). Deus criou a existência da não-existência; Ele fez algo do nada. Para Agostinho, o fato que Deus criou todas as coisas “implica que antes da criação dos céus e da terra Deus não tinha feito nada” (CG, 11.9). Mas se não havia nada antes de Deus criar, então no final das contas Ele criou tudo do nada: “Não poderia ter existido qualquer matéria de qualquer coisa a menos que viesse de Deus, o Autor e Criador de tudo que foi formado ou será formado” (Agostinho, LCG, p. 35). 

Todas as coisas são provenientes de Deus, elas não são de Deus (Agostinho, ONG, p. 27). A criação “não é dEle, porque não é imutável, como Ele é”. Entretanto, como vimos, visto que a criação “não foi feita de qualquer outra coisa, foi indubitavelmente feita do nada — senão por Ele mesmo” (Agostinho, OSIO, 1.4). Repetindo, isto não significa que “nada” seja um tipo de material invisível do qual Deus fez o mundo. Por “do nada” o significado é “que não foi feito de alguma coisa” (Aquino, ST, la.46.2). 

Como observou Aquino, a preposição “de” não conota que veio proveniente de algo, mas que veio depois do nada(ibid., 1.45.1). Por conseguinte, a criação proveniente do nada é na verdade a criação depois do nada, pois “nada é igual a não-ser” (ibid. la.45.1). Mas a criação proveniente do nada não é a criação pelo nada. Só o que existe pode causar, e só Deus pode causar existência. Deus é Pura Existência (“EU SOU O QUE SOU”, Êx 3.14), e só Ele produz tudo o mais que existe. 

O Método da Criação 

Deus é a fonte da criação, e sua Palavra é o método. Como previamente mencionado, não há causa instrumental da criação, pois entre o nada (não-ser) e o algo (ser) não há meio-termo. Seja o que for que venha do nada tem de vir imediata e abruptamente. Portanto, “Deus produz o ser no ato do nada [...] de acordo com a grandeza do seu poder” (Aquino, ST, la.61.1). Considerando que Deus tem poder infinito, Ele pode fazer qualquer coisa que seja possível. Não é impossível um Criador infinito produzir uma criatura finita. Portanto, Deus que é Existência trouxe tudo o mais à existência. Tudo veio do nada, senão por Alguém. E necessário haver poder para produzir algo, e o que tem todo o poder pode produzir qualquer coisa. Um Ser infinito tem poder ilimitado (ver capítulo 5), e o poder ilimitado não está limitado na sua capacidade de criar poderes limitados (ver capítulo 7). Deus pode criar pela “sua palavra poderosa” (Elb 1.3). 

Deus criou pelo seu poder e também pela sua vontade. Deus não está preso por qualquer obrigação quando Ele cria. Por conseguinte, “temos de defender com plena convicção que Deus traz as criaturas à existência pelo seu livre-arbítrio, e não como preso por necessidade natural” (Aquino, OPG, 3.15). 

O Tempo da Criação 

Deus criou “no princípio” (Gn 1.1). Deus é eterno, mas o mundo não. O universo veio a ser (à existência), mas Deus sempre foi (de fato, é). Repetindo, de acordo com Aquino, “que o mundo nem sempre existiu sustentamos só pela fé; não pode ser provado demonstrativamente” (ST, la.46.2). Outros, como Boaventura (c. 1217-1274), sustentaram que pode ser provado pela razão que o universo teve um começo. Todavia todos os cristãos ortodoxos reconhecem que o universo teve um ponto inicial — que é temporal e não eterno. 


O tempo e o espaço foram criados com o universo. Não havia tempo antes de o mundo começar, só a eternidade. Deus é antes do universo na ordem, mas não no tempo. “As coisas foram criadas no princípio do tempo, não como se o começo do tempo fosse uma medida da criação, mas porque junto com o tempo foram criados os céus e a terra”. Semelhantemente, o espaço foi criado com o mundo, pois “defendemos que não havia lugar ou espaço antes de o mundo existir” (ibid., la.46.3). Além disso, como citado antes, Agostinho disse que “é tolice imaginar espaço infinito, visto que não há tal coisa como espaço fora do cosmo” (CG, 11.5). Nem havia movimento físico antes de haver um universo físico: “O movimento sempre existiu no instante que seres móveis começaram a existir” (Aquino, ST, la.46.1). Deus não precisou de movimento para criar o movimento, nem precisou de tempo para criar o tempo. Agostinho perguntou: “O autor do tempo precisou da ajuda do tempo?” (LCG, p. 195).

O que Deus estava fazendo Deus antes de criar? Agostinho tinha duas respostas, uma humorista e outra séria. Em primeiro lugar, ele zombava dizendo que Deus estava preparando o inferno para os que fazem essa pergunta! Em segundo lugar, ele observava que não havia tempo antes de Deus criar, pois falar em “fazer” e “antes” insinua tempo. Portanto, a pergunta é tão sem sentido quanto perguntar a um Ser infinito: Que horas são? Não havia tempo antes de o tempo começar, só havia a eternidade. Portanto, é insensato perguntar como o Eterno ocupava o seu tempo antes de criar o tempo. Por esta mesma razão, não faz sentido perguntar por que Deus não criou o universo antes de ter realmente criado. “Antes” insinua que havia momentos antes de os momentos começarem. Isto é tão absurdo quanto perguntar por que Deus não criou o mundo lá em vez de aqui, visto que não havia aqui ou lá (espaço) antes de o espaço ser criado. Como ressalta Agostinho: “Se eles imaginassem períodos infinitos de tempo antes do mundo, [...] conceberiam âmbitos infinitos de espaço além do universo visível” (CG,11.5) . Entretanto, visto que Deus criou o tempo e o espaço com o universo, não há nem tempo nem espaço fora do universo. Deus não criou nem no tempo nem no espaço; mais exatamente, Ele criou o universo com ambos.

Se Deus não criou no tempo, então Ele não criou desde a eternidade? E se Ele criou desde a eternidade, então o mundo não é eterno? Todos os Pais ortodoxos rejeitaram esta conclusão, mas por razões diferentes. Aquino acreditava que a criação eterna era teoricamente possível, embora não fosse realmente assim (ST, la.46.2.). É porque, argumentou ele, visto “de acima”, Deus é eterno, e um efeito é simultâneo à sua causa de existência. Boaventura e outros argumentaram “de abaixo”, dizendo que um universo eterno é impossível, porque uma série infinita de momentos é inatingível. Ambas as visões concordam que o universo não é eterno. O problema, então, é este: Como Deus pode ser uma Causa eterna, quando o universo que Ele causou não é eterno?

Em resposta, notemos que o universo não tem de ser eterno porque Deus é eterno, da mesma forma que tem de ser infinito, visto que Ele é infinito. Nem tem de ser necessário, porque Deus é um Ser necessário. A única coisa que um Ser necessário tem de necessariamente desejar é a necessidade do seu Ser. Não há necessidade imposta em Deus para desejar a existência dos seres contingentes. Semelhantemente, não há razão de um Ser eterno ter de desejar seja o que for para ser eterno. Ainda que todas as coisas materiais fluam da vontade eterna de Deus, Ele deseja que todas estas coisas existam temporariamente.

Tudo preexiste em Deus conforme a sua vontade. Mas Deus desejou eternamente que todas as coisas criadas tivessem um começo. Portanto, embora Ele as desejasse desde a eternidade, elas tiveram um começo temporal. Por exemplo, o médico estipula o início para o paciente tomar determinado remédio mais tarde a intervalos diferentes que no começo do tratamento. Semelhantemente, Deus pode desejar que os acontecimentos desde toda a eternidade ocorreram em tempos sucessivos mais tarde.

O Propósito da Criação

Se Deus criou livremente, então podemos perguntar: Por que Ele criou em vez não criar? Repetindo, a resposta de Agostinho era “porque é bom” (CG, 11.23). Aquino concordou, dizendo: “Deus traz as coisas à existência para que a sua bondade seja comunicada e manifestada” (ST, la.47.1). Não que Deus tenha de compartilhar a sua bondade, mas porque Ele quer assim. Fazendo um comentário sobre o fato de Deus ter declarado que a criação era “muito boa” (Gn 1.31), Agostinho concluiu: “Seguramente, isto só pode significar que não havia outra razão para criar o mundo a não ser que criaturas boas pudessem ser feitas por um Deus bom” (CG, 11.3).

Deus é infinitamente bom. Como tal, Ele deseja compartilhar a sua bondade. As criaturas têm de reconhecer a bondade que Deus derramou sobre elas e agradecer-lhe por isso. Reconhecendo o valor de Deus, elas deveriam lhe atribuir valor. Portanto, a valoração (adoração) é o resultado natural da criação: Toda criatura racional tem de adorar o Criador. O propósito para criar é para que a criatura adore a Deus: “Se ela não adorar Deus, ela é miserável” (Agostinho, CG, 10.3). Em outro lugar, Agostinho confessou: “Tu nos formaste para ti mesmo, e o nosso coração fica inquieto até que encontre descanso em ti” (C, 1.1).

Em suma, visto que um Deus racional criou as criaturas racionais, é nada mais que racional que elas o adorem, pois reconhecendo o seu bem como o mais alto bem, elas encontram o mais alto bem delas.

CONCLUSÃO

A doutrina cristã da criação é mais compreendida quando a comparamos com as outras duas principais opções. A comparação apresentada a seguir resume e focaliza as diferenças.

Falando apropriadamente, o materialismo acredita na geração natural, o panteísmo acredita na emanação eterna e só o teísmo acredita na criação sobrenatural. Estas são perspectivas fundamentalmente diferentes. Todas as outras cosmovisões (ver Volume 1, capítulo 2) mantêm posições sobre a origem que se ajustam em uma ou mais destas três categorias principais.

O cristianismo defende que a criação foi do nada: Deus trouxe o universo à existência (Gn 1.1; Jo 1.2,3), e Ele o sustenta em existência (Cl 1.16,17; Hb 1.3). Portanto, Ele está no controle soberano do universo. Deus é infinito, necessário e eterno; a criação é finita, contingente e temporal. Por conseguinte, há uma real e radical diferença entre o Criador incriado e a criação criada.

Para os teístas, a criação de Deus é uma contradição em termos, pois uma criatura seria um ser temporal eterno, um ser infinito finito e um ser incriado criado. Portanto, a criação do nada torna tolice o ser humano dizer: “Eu sou Deus”.*E impossível ter um ser contingente que seja necessário, ou um ser finito que seja infinito.

Além disso, é no contexto da criação que entendemos melhor o conceito cristão de serviço a Deus e adoração a Ele. Por natureza, como criaturas, devemos tudo que somos e temos às boas mãos de nosso Criador. Não reconhecer isso é o extremo da ingratidão. De fato, o epíteto divino sobre o mundo pagão diz: “Tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (Rm 1.21). Em contrapartida, os benditos ao redor do trono de Deus cantam louvores a Ele, que por sua vontade criou todas as coisas (Ap 4.11).

FONTES

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Sagan, Carl. Cosmos. [Edição brasileira: Cosmos (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989).] Swami Prabhavananda. The Spiritual Heritage of India. 




[1] Na verdade, trata-se de declaração inexata da primeira lei, que mais corretamente diz: “A quantidade de energia atual no universo [pouco importando como chegou aqui] permanece constante”. 


[2] Os outros tipos de panteísmo são; (1) panteísmo de emanação (Plotino); (2) panteísmo de desenvolvimento (Hegel); (3) panteísmo de modalidade (Espinosa); (4) panteísmo de muitos níveis (Radhakrishna); e (5) panteísmo de permeação (zen budismo).


GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. CPAD, 2010.