12 de outubro de 2015

Norman Geisler - A origem da criação material

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A ORIGEM DA CRIAÇÃO MATERIAL 

A criação é uma doutrina importante da Bíblia: É a primeira coisa declarada (Gn 

1.1) e uma das últimas que foram ressaltadas (Ap 4.11; 10.6; 21.5; 22.13). Na Bíblia, há centenas de referências à Criação e ao Criador, cobrindo a vasta maioria dos livros de Gênesis ao Apocalipse (ver Apêndice 2). A criação física não só inclui os objetos inanimados, mas também todos os seres vivos. 

A BASE BÍBLICA PARA A CRIAÇÃO 

A palavra criar (bara)' é usada com relação a três grandes acontecimentos em Gênesis 1: A criação da matéria (Gn 1.1), os seres vivos (Gn 1.21) e os seres humanos (Gn 1.27). Estes serão o foco de nossa discussão. 

A CRIAÇÃO DA MATÉRIA (O UNIVERSO) 

“No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Com estas palavras majestosas, as Escrituras começam a descrever a origem de todas as coisas, e a criação é a fundação de tudo o mais que vem a seguir. Esta grande declaração do ato divino inicial é exclusivamente monoteísta. Esta é referência à criação do nada (ex mhilo) como é confirmado por recentes descobertas feitas na antiga Ebla (Síria). As tabuinhas de argila encontradas em Ebla declaram: 

Senhor do céu e da terra: a terra não era, tu a criaste, a luz do dia não era, tu a criaste, a manhã não era, tu a criaste, a luz matutina tu [ainda] não a tiveste feito existir. 

(Pettinato, AE, p. 259, em Merrill, BS) 

A Origem da Matéria 

“Deus é Espírito” (Jo4.24). Como tal, Ele é o Deus “invisível” (1 Tm 1.17). Na verdade, “Deus nunca foi visto por alguém” (Jo 1.18). Deus é invisível e imaterial (1 Tm 6.16), e, [1] como Espírito, Ele não tem “carne nem ossos” (Lc 24.39). Ele é incorpóreo e puramente espiritual. Porém o universo que Deus criou é visível e material (Hb 11.3; pode ser visto e controlado, sendo físico e tangível. Tem espaço (qualidade espacial) e tempo (qualidade temporal); possui “aqui” e “agora”. Além disso, tem matéria que está estendida por todo o espaço e o tempo. Tem “partes” ou partículas com espaços entre elas. 

A ciência moderna descreve o “material” ou a matéria do universo em termos de átomos de energia física com partículas e cargas constituintes. Conforme experimentam os seres humanos, a matéria é sensível, tangível e visível. E o dado duro e objetivo que inclui o nosso ambiente. Está lá; temos de contorná-la de modo próprio ou então nos chocaremos contra ela. Os corpos são reais, e a terra é tangível, como são as estrelas e os planetas. Portanto, confirma a revelação de Deus. 

Tudo isso foi criado por Deus “no princípio”. E “todas as coisas foram feitas por ele” (Jo 1.3). Deus criou “todas as coisas [...] visíveis e invisíveis” (Cl 1.16). Ele criou “os céus e a terra”. A criação que Ele fez inclui a “Terra”, os “Mares” (Gn 1.10) e todas as plantas e animais (Gn 1.6-26). Também inclui o corpo humano que foi feito “do pó da terra” (Gn 

2.7) . Há um real universo material, e foi criado por Deus. 

A Matéria Foi criada do Nada 

Deus trouxe toda matéria à existência do absolutamente nada (ver capítulo 18). A Bíblia diz que Deus apenas falou (cf. Gênesis 1.1,3,6, etc.), e as coisas vieram à existência pelo seu poder e palavra (Hb 1.2; cf. 2 Co 4.6). “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus. [...] Porque falou, e tudo se fez” (SI 33.6, 9). “Ele é antes de todas as coisas” e “nele foram criadas todas as coisas” (Cl 1.16,17). Foi por Ele que “todas as coisas foram feitas” e “sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). O escritor aos Hebreus declarou que, “pela fé, entendemos que os mundos, pela palavra de Deus, foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hb 11.3). O universo foi criado do nada. O apóstolo João proclamou acerca de Deus: “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder, porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Ap 4.11). Em suma, todo o cosmo veio à existência pela vontade de Deus sob suas ordens. Quando Ele falou, apareceu do absolutamente nada. 

A Matéria Foi criada por Deus e não de Deus 

O universo material foi criado por Deus do nada (ex nihilo), mas não de Deus (ex Deo). O cosmo não é feito de material-Deus. E por isso que é pecado doloroso adorar e servir a “mais a criatura do que o Criador” (Rm 1.25). E por isso que a idolatria é tão fortemente condenada na Bíblia. Deus ordenou: “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra” (Ex 20.4). Se, por outro lado, o universo fosse o “corpo” de Deus ou parte da sua substância,[2] não haveria razão para não ter de adorá-lo. Contudo, a Bíblia deixa muito claro que Deus não deve ser identificado com o universo físico. O universo vem de Deus, mas não é feito de Deus. Deus é tão diferente do mundo como o oleiro é diferente do barro (Rm 9.20,21), ou como o artesão é diferente do seu trabalho artesanal (SI 19.1). 

O universo material não foi feito de Deus, mas é um reflexo de Deus. O universo “declara” a glória divina, pois “as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade, se entendem e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.20). Quer dizer, Deus está presente na criação como a Causa que a sustenta (Hb 1.3; Cl 1.16,17) e como ela reflete os atributos divinos (Rm 1.20). Da mesma maneira que vemos a energia de Shakespeare nas suas composições literárias, assim o Criador se revela no seu trabalho manual. Da mesma maneira que a mente criativa de Picasso está retratada nas suas pinturas, de certa forma podemos ver o Criador do universo na sua grande obra-prima. 

Deus é o Criador invisível do mundo visível, o Fazedor imaterial de toda matéria e o Produtor incorpóreo de todas as coisas corpóreas (físicas) (ver capítulo 6). Mas como pode ser? Como Deus pode criar a matéria quando Ele não é material? Com relação a esta pergunta, várias observações são pertinentes. 

Primeiro, certamente não é um mistério maior para os teístas acreditarem que a Mente produziu a matéria do que é para os ateus acreditarem que a matéria produziu a mente. Na realidade, é mais fácil acreditar que a Mente infinita faça a matéria do que acreditar que a matéria finita produza uma mente que contemple o infinito. 

Segundo, não é mais difícil entender como um Espírito (Deus) imaterial se manifeste nas coisas materiais do que é compreender como a nossa mente pode se revelar nas coisas materiais, como literatura, arte e tecnologia. Da mesma forma que a página escrita é uma manifestação material dos pensamentos imateriais do autor, até o universo é uma criação material do Criador imaterial. 

Terceiro e último, apesar da semelhança com o Criador (Rm 1.19,20), a criação por sua natureza também tem de ser diferente do Criador. Deus é infinito e a criação é finita. Ele é necessário e a criação é contingente. Deus é incriado, mas o mundo é criado. Não é estranho, pois, que Deus seja imaterial e o universo seja material. Afinal de contas, uma pintura é visível, mas a mente do artista que a criou não. Considerando que Deus não pode criar outro Espírito absoluto, e visto tudo o que Ele cria tem de ter limitações e potência, como a matéria tem, é compreensível que Ele faça a matéria. 

A Natureza da Matéria 

Toda a criação, seja de corpos seja espíritos (anjos), visível ou invisível, por natureza participa de certas características. Considerando que o universo material é parte da criação, ele também participa dessas propriedades. 

A Criação Material E Contingente 

O mundo criado, inclusive a matéria, é contingente. Quer dizer, embora o mundo exista, poderia não existir; é, mas poderia não ser. Deus está sustentando-o em existência “pela palavra do seu poder” (Hb 1.3), pois por Ele “e todas as coisas subsistem” (Cl 1.17). Sem a ininterrupta e sustentadora causalidade de Deus, toda criação deixaria de ser (existir) — imediatamente (ver capítulo 21). 

A contingência de toda a criação é outro modo de expressar a verdade bíblica de que Deus não só é a causa originadora do universo, mas também é a sua causa conservadora. Ele a causou para vir a ser (existir), e Ele também a causa para continuar sendo (existindo). O quadro a seguir expressa esta idéia mais completamente (ver também capítulo 3): 



A CAUSALIDADE DE DEUS 

A criação é contingente em todos os tempos—sempre é dependente do Criador. Uma vez criatura, sempre criatura; o criado nunca pode se tornar o Incriado. A dependência radical em Deus para a existência de momento a momento é uma característica essencial de todas as coisas criadas, inclusive o universo material como um todo. 

A Criação Material E Finita (Limitada) 

Outra propriedade essencial da criação é a fmitude. Todas as coisas criadas são finitas ou limitadas; só Deus é infinito ou ilimitado. E impossível haver dois Seres infinitos, pois o infinito inclui tudo e não pode haver dois Tudos. Como Paulo declarou: “Nele [no Deus infinito] vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.28). Deus é infinito, e tudo existe nEle. Quando Ele criou os seres finitos não havia mais Ser; havia simplesmente mais que o tinha. Por exemplo, quando uma professora ensina uma classe, não há mais conhecimento; há mais que o possui. 

Só pode haver um Ser infinito (ver capítulo 5), e visto que há só um Ser infinito (Deus), então todas as outras coisas — toda a criação — têm de ser finitas. Só Deus é ilimitado; tudo o mais é limitado. Deus é o Limitador ilimitado de todas as coisas limitadas; Ele é a Causa não-causada de tudo que é causado. 

O próprio fato que todas as coisas criadas são causadas para existir revela que elas têm de ser limitadas, pois se elas vieram a ser (existem), então elas nem sempre existiram. Por conseguinte, a sua existência não é ilimitada; teve um começo. Além disso, tudo que é criado sofre mudanças; só o Deus incriado é imutável. “Eu, o Senhor, não mudo” (Ml 3.6). A respeito dos céus, a Bíblia declara: “Como uma veste, se mudarão; mas tu [Deus] és o mesmo, e os teus anos não acabarão. E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés?” (Elb 1.11,12). 

Qualquer mudança é limitada, pois se muda, então não permanece exatamente o que era. Portanto, está limitada pelo que se torna; não pode ser precisamente o que era antes, pois nesse caso não mudou. Assim, todas as coisas mutáveis estão limitadas. 

Além disso, o fato de as coisas criadas mudarem revela que elas têm a potencialidade para essa mudança. O fato da mudança prova a possibilidade da mudança, e a realidade da mudança mostra a potencialidade para a mudança. Portanto, todas as coisas criadas têm potencialidade. Entretanto, todas as coisas criadas também têm realidade, visto que elas realmente existem. Então, todas as coisas criadas têm realidade e potencialidade. Quanto à potencialidade, a criatura tem o potencial para ser o que não é. Portanto, as criaturas estão limitadas pelos seus potenciais. Elas não podem fazer mais do que as suas capacidades lhes permitem fazer. Da mesma maneira que uma garrafa de um litro só tem a capacidade de conter um litro de líquido, assim todo ser finito está limitado pela sua capacidade criada. Por outro lado, Deus é Pura Realidade. Deus é o “EU SOU” (Êx 3.14); não há “pode ser” na essência de Deus, porque Ele é o que é. Não há nada que Ele possa ser que Ele sempre tenha sido e sempre será. 

A Criação Material E Espacial e Temporal 

Além de ser contingente e limitada, a criação material também está restrita ao espaço e ao tempo. Tempo é uma medida baseada em mudança; mede de acordo com o “antes” e o “depois” da mudança. Por ser um Ser imutável, Deus não está sujeito a tais medidas. Considerando que Ele sempre é o mesmo, Ele não pode ser o objeto de cálculos baseados no que Ele era antes. Por não ter mudado, Ele ainda é o que Ele sempre era. Entretanto, em um ser mutável, como são as coisas materiais, podemos tomar medidas de acordo com o antes e o depois da mudança. O tempo é uma dessas medidas. 

Tempo é uma medida limitada; quer dizer, mede certos segmentos limitados (Agostinho, C, capítulo 11). Considerando que os seres materiais estão no tempo (ou seja, são temporais), eles estão limitados a um “agora” em oposição a um “ontem”. E por isso que hoje não estamos vivendo no passado. Ontem vivemos o passado, mas hoje estamos vivendo o presente. Não podemos viver um hoje e um ontem simultaneamente no mesmo sentido. Podemos viver o passado na memória, mas não na realidade. O tempo é uma medida baseada em uma limitação real que temos como seres materiais (físicos). Vivemos somente no hoje; todo momento futuro se torna um “hoje” quando o experimentamos. 

Semelhantemente, o espaço é limitação. O tempo é uma limitação a um agora, e o espaço é uma limitação a um aqui. Portanto, como seres espaços-temporais, estamos limitados ao aqui e agora. Assim estão todas as coisas materiais — as limitações de espaço impõem sobre nós os termos fronteiriços do “aqui” em lugar do “lá”. Não podemos estar aqui e lá ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Podemos estar lá mentalmente (lembrando ou sonhando), mas só podemos estar aqui fisicamente. Esta é a limitação de espaço para todas as coisas materiais. 

Contudo, Deus pode estar aqui, lá e em todos os lugares ao mesmo tempo, porque Ele não tem corpo que o limite a estar só aqui ao invés de lá. Deus não tem “aqui” que o limite a um lugar por vez — Ele não está no espaço. Deus é onipresente, quer dizer, está presente em todos os lugares no todo da criação ao mesmo tempo (ver capítulo 7). Repetindo, isto é possível, porque Ele é um espírito infinito. Não tendo corpo que o limite, nem capacidade finita que o cerce, a presença de Deus não é barrada de lugar algum. Como proclamou o salmista: “Para onde me irei do teu Espírito ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também” (SI 139.7,8). 

A Criação Material E Boa 

Ao término de quase todos os dias da criação, lemos: “E viu Deus que era bom” (Gn 

1.3,10,12,18,21) . No fim do último dia, diz: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom” (Gn 1.31). De fato, Paulo declarou: “Tudo que Deus criou é bom” (1 Tm 4.4, ARA). Em outro lugar, Ele acrescentou: “Eu sei e estou certo, no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda” (Rm 14.14, grifos meus). 

Como seu Criador, toda a criação era e ainda é boa. Este ensino judaico-cristão que as coisas materiais, físicas e corpóreas são boas é exclusivo, estando em contraste com todas as outras religiões e filosofias. Os gnósticos (de ontem e de hoje) acreditam que a matéria é má, ao passo que Plotino (205-270 d.C.) sustentou que era quase má, a menos boa de todas as coisas. Para Ele, a matéria não era boa, tendo apenas a mera capacidade de ser boa(E, 1.8.7). 

Platão (c. 427-347 a.C.) pensava que a matéria era um caos sem forma, e identificou o “bom” com a “forma”. A crença oriental mais radical (por exemplo, o hinduísmo de Shankara) afirma que a matéria é uma ilusão (maia). A Ciência Cristã[3] também acredita que a matéria, como o mal, é um equívoco da mente mortal (Eddy, SHKS, pp. 480-584). 

Em contrapartida, o Antigo e o Novo Testamento ensinam que o mundo material é bom. A própria conclusão de Deus, ao ver o produto do seu trabalho, foi que “era muito bom” (Gn 1.31). O apóstolo Paulo afirma o mesmo (1 Tm 4.4; Rm 14.14). 

A CRIAÇÃO DOS SERES VIVOS 

Deus não só criou a matéria (Gn 1.1), mas também criou “todas as espécies de seres vivos” (Gn 1.21, NTLH). Muitas destas espécies de vida estão citadas em Gênesis 1.21-25: 

Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies. 

E viu Deus que isso era bom. E Deus os abençoou, dizendo: Sede fecundos, multiplicai- vos e enchei as águas dos mares; e, na terra, se multipliquem as aves. Houve tarde e manhã, o quinto dia. Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie. E assim se fez. E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom. 

A Origem da Vida 

Toda vida existe porque Deus quis que ela existisse, visto que “ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas” (At 17.25). Deus criou “o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus” (Gn 6.7, ARA). Moisés fala que “o Senhor Deus formou da terra todos os animais selvagens e todas as aves” (Gn 2.19, NTLH). E João acrescenta: “Sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Literalmente, todos os seres vivos se originaram da mão de Deus. 

A Natureza da Vida 

A descrição bíblica da vida inclui a sua unidade, diversidade, fecundidade, estabilidade e domínio. Tem uma fonte, muitas manifestações e reproduz-se continuamente segundo a sua espécie. 

A Unidade de toda Vida 

Há muitas indicações na Bíblia sobre a unidade de todos os seres vivos. 

Primeiro, toda vida tem um Criador. O seu selo está em todos os seres vivos. 

Segundo, toda vida é interdependente. As formas mais altas de vida receberam a ordem de comer as formas mais baixas de vida (Gn 1.29; 9.3). 

Terceiro, os seres humanos receberam a ordem de cuidar do meio-ambiente (Gn 1.28), cultivar a flora e tratar da fauna (Gn 2.15). Cuidando dos seres vivos, os seres humanos teriam a provisão de comida e roupa para si (Gn 3.21). 

Quarto e último, a Bíblia se refere muitas vezes aos seres vivos como um grupo ou um todo (Gn 1.21; 6.19; At 17.24). Há, portanto, uma unidade e interdependência de toda vida. Vem de um Deus. Revela uma mão criativa e cada forma individual se ajusta a um todo orgânico. 

A Diversidade de toda Vida 

Deus ama a variedade; Ele criou todos os tipos de coisas. No linguajar bíblico, Deus criou a “erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela” (Gn 1.11). Depois, Ele disse: “Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves sobre a terra” (Gn 1.20). Deus também “criou [...] os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies” (Gn 1.21). Acima destes, Ele fez todos os seres vivos da terra: “Gado, e répteis, e bestas- feras da terra conforme a sua espécie” (Gn 1.24). E por fim, “criou Deus o homem à sua imagem; [...] macho e fêmea os criou” (Gn 1.27). 

Esta grande diversidade de vida encheu a terra e literalmente povoou o mar. A paisagem fervilhou de animais, as águas enxamearam de peixes e pássaros voaram pelos céus. A vida foi criada em grande abundância e diversidade. 

A Fecundidade de toda Vida 

Deus ordenou que a vida se multiplicasse, e é o que acontece naturalmente, pois “a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie e árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie” (Gn 1.12). Isto agradou a Deus, porque “viu Deus que era bom” (Gn 1.12). Considerando que os seres humanos têm livre-arbítrio, Deus lhes deu o forte desejo de multiplicar-se e a ordem, dizendo-lhes: “Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra” (Gn 1.28). 

A Estabilidade de toda Vida 

Deus proveu a subsistência para a continuação da vida que Ele criara. Cada um tinha de produzir “segundo a sua espécie” (Gn 1.11). Assim, as “ervas que davam semente” e as “árvores que davam fruto, cuja semente estava nele”, produziram “segundo a sua espécie” (Gn 1.12). O mesmo aconteceu em relação aos animais do mar e da terra, cada um se reproduzindo “conforme a sua espécie” (Gn 1.21,25). Por fim, a humanidade recebeu a ordem de reproduzir-se de acordo com a sua espécie (Gn 1.28; cf. 5.3). Portanto, Deus proveu as condições para a continuação de cada espécie que Ele fizera. 

A vida é basicamente a mesma de geração em geração, cada espécie reproduzindo­se segundo a sua espécie: peixes produzindo peixes, pássaros chocando pássaros, vacas parindo bezerros e seres humanos dando à luz seres humanos. Este foi o padrão desde o princípio e continua até hoje. A vida em todas as suas muitas espécies é contínua e estável. 

O Domínio da Humanidade sobre toda Vida 

Deus não só criou toda vida, mas Ele a coroou com a vida humana e nos fez reis sobre toda a terra. Falando para Adão e Eva acerca da terra, Deus disse: “Sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre aterra” (Gn 1.28). O salmista acrescentou a respeito do homem: “Pouco menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste” (SI 8.5). E importante observar que o que foi dado foi domínio e não destruição. Deus possui o mundo (SI 124.8), e os seres humanos têm de cuidá-lo para Ele (Gn 2). 

A CRIAÇÃO DA HUMANIDADE 

A humanidade é o pináculo da criação terrena de Deus. Embora os seres humanos tivessem sido feitos “um pouco menor do que os anjos” (Hb 2.9), eles são mais altos que os animais. Eles foram feitos macho e fêmea e “à imagem de Deus” (Gn 1.27). 

A Origem da Humanidade 

Nas palavras da Bíblia, “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2.7). Depois, Deus “tomou uma das suas costelas [de Adão] e cerrou a carne em seu lugar. E da costela que o Senhor Deus tomou do homem formou uma mulher; e trouxe-a a Adão” (Gn 2.21.22). O nosso Senhor mencionou este evento, declarando “que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea” (Mt 19.4). De fato, Jesus disse que a criação do homem e da mulher foi a base para o casamento vitalício entre o marido e a esposa (Mt 19.5,6). 

A criação do homem e da mulher é mencionada como a base para outros ensinos cristãos. Por exemplo, Paulo disse: “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido. [...] Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva” (1 Tm 2.12,13). Em outro lugar, ele proclamou que “o homem [é] o cabeça da mulher”, pois “o homem não foi feito da mulher, e sim a mulher, do homem” (1 Co 11.3,8, ARA). Portanto, a ordem de autoridade no lar e na Igreja está baseada no fato e ordem da criação conforme está registrada em Gênesis 1 e 2. 

Quando fala do pecado original, a Bíblia se refere a “Adão” (Rm 5.12,14) como uma pessoa histórica, da mesma maneira que “Moisés” era (Rm 5.14). Em 1 Coríntios 15, Paulo também se refere ao primeiro homem ao comparar “Adão” com “Cristo” (1 Co 15.22). Lucas coloca Adão como o primeiro nome na ascendência literal de Jesus (Lc 3.38), e acrescenta que Adão é descendente “de Deus”. O mesmo acontece no registro histórico em 1 Crônicas, citando Adão como o primeiro ser humano (1 Cr 1.1). 

Em todos os lugares a Bíblia presume ou declara que a origem da humanidade é a criação de Adão e, depois, Eva, conforme os registros constantes em Gênesis 1 e 2. Deus os “criou” (Gn 1.27), formando “o homem do pó da terra” (Gn 2.7) e modelando a mulher da costela de Adão (Gn 2.21,22). “Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gn 1.27). 



A Natureza da Humanidade 

A natureza dos seres humanos inclui a sua dignidade, unidade de alma e corpo, e comunidade como grupo de indivíduos. Todos vieram de uma fonte comum, e todos possuem uma natureza humana comum. Paulo declarou: “De um só [Deus] fez toda a geração dos homens” (At 17.26). 

A Dignidade Humana 

A humanidade é uma criação especial de Deus. Repetindo, falando sobre o homem, o salmista disse: “Contudo, pouco menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste” (SI 8.5). Deus fez os seres humanos exclusivamente à “imagem” e semelhança de Deus (Gn 1.27), detalhe não dito sobre nenhuma outra criatura. Só os seres humanos são feitos à imagem de Deus, e esta imagem inclui “macho e fêmea”, estendendo-se aos filhos de Adão, pois “no dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez” (Gn 5.1). Mesmo depois da Queda, “Adão [...] gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem” (Gn 5.3). 

A Santidade Humana 

A vida humana é sagrada, porque é divina. Por conseguinte, há a proibição de intencionalmente tirar outra vida humana inocente: “Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem” (Gn 9.6). Até amaldiçoar outro ser humano é proibido, pois com a língua “bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus” (Tg 3.9). A vida é sagrada e divina, e deve ser protegida antes e depois do nascimento, desde o momento da concepção (SI 51.5; 139.13-16; Êx 21.22,23). 

Ao longo da Bíblia encontramos passagens que falam sobre a imagem de Deus. Entre elas citamos as seguintes: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gn 1.27). “No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez” (Gn 5.1). “Contudo, pouco menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste” (SI 8.5). “Deus fez ao homem reto, mas ele buscou muitas invenções” (Ec 7.29). “O varão [...] é a imagem e glória de Deus” (1 Co 11.7). “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10). “[Nós fomos] feitos à semelhança de Deus” (Tg 3.9). Esta imagem de Deus inclui características morais e intelectuais. Enumeraremos vários elementos implícitos no conceito de “imagem e semelhança”. 

Imagem inclui a semelhança intelectual a Deus. Deus é um Ser inteligente. Ele é Todo- conhecedor (SI 139.1-6). Embora os seres humanos sejam finitos, eles são como Deus no que tange a ter inteligência (cf. Jó 35.11). Paulo fala do novo homem “que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10). Judas declara que os seres humanos estão acima dos “animais irracionais” (Jd 10). 

Imagem inclui a semelhança moral a Deus. Deus é santo (Is 6.1-3), é amor (1 Jo 4.16, ARA) e tem muitos outros atributos morais (ver parte 1). Considerando que os seres humanos foram criados à semelhança de Deus, espera-se que eles tomem parte nestas características morais. Deus nos ordena: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5.48). O Senhor disse para Israel: “Portanto, vós sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11.45, ARA). 


Há outros elementos implícitos na semelhança intelectual e moral a Deus. Os seres humanos se assemelham a Deus, e têm de reproduzir-se para Ele (Gn 1.28) e também representá-lo. Os seres humanos são os regentes de Deus na terra. Portanto, como mencionamos, é errado matá-los ou amaldiçoá-los (Gn 9.6; Tg 3.9), porque fazer isso é atacar Deus. Diferente dos anjos (cf. Mt 22.30), os seres humanos podem se reproduzir (Gn 1.28). Os seres humanos têm de reinar para Deus. Ele disse para Adão e Eva: “Enchei a terra” (ibid.). 

Por fim, Deus criou os seres humanos para serem moralmente responsáveis a Ele, pois “ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Todos estes aspectos fazem parte do que significa ser à imagem de Deus. 

Imagem inclui a semelhança volitiva a Deus. Responsabilidade moral implica em capacidade de responder, se não por si mesmo, ao menos pela graça de Deus. A volição é essencial à moralidade. Semelhante a Deus, os seres humanos têm livre-arbítrio (ver Volume 3, capítulo 3). Deus deu a Adão uma opção, quando disse: “Livremente” (Gn 2.16), e depois o considerou responsável por esta liberdade. Semelhantemente, todos que desde Adão pecaram são considerados responsáveis pelos seus pecados (Ez 18.18-20; Rm 14.12). 

Imagem inclui o corpo. E comum os teólogos cristãos limitarem a imagem de Deus à alma. Contudo isto é contrário ao ensino bíblico: 

(1) A mente e o corpo são uma unidade (ver Volume 3, capítulo 2). 

(2) A matéria é boa e reflete a glória de Deus (Gn 1.31; SI 19.1; 1 Tm 4.4). 

(3) O macho e a fêmea (que acarreta em corpos) são à imagem de Deus (Gn 1.27). 

(4) Matar o corpo é errado, porque nele está incluso a imagem de Deus (Gn 9.6). 

(5) Jesus na forma física encarnada se chama “a imagem de Deus” (2 Co 4.4; Cl 1.15; Hb 1.3; 1 Jo 1.1). 

(6) A ressurreição do corpo revela que ele faz parte da pessoa inteira feita à imagem de Deus. 

Ao contrário das opiniões dos críticos, isto não quer dizer que Deus tenha um corpo (Jo 4.24), visto que não procede logicamente que, porque somos semelhantes a Deus, Ele seja sob todos os aspectos semelhantes a nós. Os anjos são puros espíritos (Hb 1.14) e são semelhantes a Deus, mas Deus não é semelhante a eles na totalidade. Por exemplo, eles são finitos e criados, mas Deus não. 

A Unidade Humana 

Cada ser humano é uma unidade de alma e corpo, tendo uma dimensão espiritual e uma dimensão física. Cada um participa do imaterial como também do material, do angelical como também do animal. Como tais, os seres humanos são únicos: cada um é uma unidade psicossomática, uma mistura de mente e matéria. 

Esta unidade de corpo e alma foi evidente desde o princípio, pois “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo] e soprou em seus narizes o fôlego da vida [espírito]; e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2.7). Na morte, “o pó [volta] à terra, como o era, e o espírito [volta] a Deus, que o deu” (Ec 12.7). 

A alma e o corpo estão tão estreitamente unidos nos seres humanos que essa união é usada como figura do que é praticamente indissolvível (Hb 4.12). Paulo fala que “espírito, e alma, e corpo” formam um indivíduo “plenamente” (1 Ts 5.23), quer dizer, estes três aspectos constituem uma pessoa. 

Porém dentro desta unidade básica há uma tri-dimensionalidade, porque um ser humano é consciente de si mesmo, consciente do mundo e consciente de Deus. Ele olha para dentro, para fora e para cima. Mas ele é uma pessoa, com uma natureza humana individual (Berkouwer, MIG, capítulo 7). 

A união não é indissolúvel. Na morte, “[deixamos] este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Co 5.8). “E ainda muito melhor”, diz Paulo, “partir [do corpo] e estar com Cristo” (Fp 1.23). De fato, é a declaração que lemos acerca dos bem-aventurados cujos corpos foram “mortos”, mas cujas “almas” estão conscientes no céu (Ap 6.9). Jesus respondeu a um dos ladrões que morreu na cruz: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.43). 

A separação desses elementos é somente temporária. Eles serão reunidos na ressurreição, quando serão unidos novamente para sempre (1 Tessalonicenses 4.13­17). O estado intermediário entre a morte e a ressurreição é temporal e incompleto. Segundo a descrição de Paulo, este estado é ser despido (2 Co 5.1-4) para esperar a volta à união natural do corpo e da alma. 

A Comunidade Humana 

“Nenhum homem é uma ilha.” Desde o princípio, Deus fez uma comunidade de “macho e fêmea” e lhes disse que multiplicassem a sua espécie em uma comunidade maior (Gn 1.27,28). Antes de Eva ser feita, Adão descobriu que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Adão buscou uma ajudante, mas não a achou entre os animais (Gn 2.20). Por isso, Deus fez uma do “lado” de Adão para ficar ao seu lado. Deus fez a mulher da carne do homem para que os dois fossem “uma carne” (Gn 

2.24) . Deus criou a mulher do homem para ser o seu igual — não da cabeça para mandar nele, ou dos pés para ser uma escrava para ele, mas do lado para ser uma companheira para ele. 

A solidariedade de toda a humanidade é um fato da criação original e também da sua existência continuada. Foi o que Paulo declarou, quando disse: “De um só fez [Deus] toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra” (At 17.26). Há muitos grupos étnicos, mas há só uma raça — a raça humana. Todos os seres humanos foram um na criação de Adão e também foram um na queda de Adão, pois “como por um homem entrou o pecado no mundo, [...] assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram [em Adão]” (Rm 5.12). Quer dizer, a raça humana inteira estava presente em Adão quando ele pecou e, portanto, caiu com ele. Todos os seres humanos herdam este pecado original, de forma que sem salvação somos “por natureza filhos da ira [de Deus]” (Ef 2.3). 

A unidade da raça humana também é evidente no meio da sua propagação. A multiplicação só vem da união de macho e fêmea (Gn 1.28; 2.24), e desta união vêm filhos que são à “semelhança” dos pais (Gn 5.3). A raça inteira está geneticamente conectada. De fato, não há muitos tipos diferentes de seres humanos — todos os seres humanos são da mesma espécie. Eles são essencialmente os mesmos e só acidentalmente diferentes.[4]Todos temos um pai e mãe ancestrais (Adão e Eva) e, por conseguinte, todos fazemos parte de uma grande “família” (Ef 3.15). 

Por fim, não só é verdade que “nenhum de nós vive para si”, mas também que “nenhum [de nós] morre para si” (Rm 14.7). Quer vivamos ou morramos, “somos do Senhor” (Rm 14.8); ninguém é completamente independente. A mulher foi criada do homem, mas “o homem nasce da mulher” (1 Co 11.12, NTLH). Não há homem feito por si mesmo; todo homem tem uma mãe. A raça humana inteira é interdependente. Somos uma comunidade de seres com um Criador comum, uma conexão comum e uma terra comum para glorificar e desfrutar Deus. 

O MAL DO RACISMO 

Umaconseqüênciaimportante da discussão feitaacimasobreadignidade, comunidade e solidariedade da raça humana é que é um argumento forte contra o racismo. A idéia que há uma raça superior, seja de qual for a cor, é contrária ao ensino mais fundamental da Bíblia. Como previamente estabelecido, há somente uma raça — a raça humana —, e todos nós somos parte dela. Há muitos grupos étnicos, mas uma única raça — a raça adâmica que inclui todos nós. 

Os Argumentos Infundados a favor do Racismo 

Muitos argumentos propostos a favor do racismo servem-se impropriamente da Bíblia para apoiá-los. Entre estes os apresentados a seguir requerem comentário. 

A Marca em Cam 

Certos estudiosos propõem que a marca em Caim foi o que o designou como raça, com a qual as pessoas não deviam se casar (Gn 4.15). Todavia não há tal razão dada em nenhuma parte da Bíblia para isto. Na verdade, era uma marca de proteção para ele, pois o texto diz: “E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse” (Gn 4.15). Não tinha nada a ver com cor ou grupos étnicos, os quais nem ainda tinham se desenvolvido (cf. Gn 11). 

0 Mandamento de não Casar-se com Membros de outras Nações 

Várias vezes no Antigo Testamento, Deus proibiu o casamento com pessoas de outra nacionalidade ou condenou o seu povo por casar com membros de outras nações. Por exemplo, as esposas estrangeiras fizeram parte do fim de Salomão (1 Rs 11.1-3), e Esdras exigiu que os israelitas se divorciassem das mulheres com quem eles tinham se casado dentre as nações gentias (Ed 10.10,11,17-19). Contudo, em cada caso a razão era moral e não racial. Esdras chamou as esposas estrangeiras de “gentias” (Ed 10.17,18, NKJV), e quando Salomão foi condenado por ter esposas estrangeiras, a razão foi declarada claramente: “Não entrareis a elas, e elas não entrarão a vós; de outra maneira, perverterão o vosso coração para seguirdes os seus deuses” (1 Rs 11.2). Por fim, está claro que Deus sancionou o casamento com pessoas de grupos étnicos diferentes. Constatamos este fato pela bênção que o Senhor deu a Raabe e Rute, colocando-as na linhagem do Messias por se casarem com judeus, e por ambas serem mulheres de fé (cf. Js 2.9-11; Rt 1.16,17; Hb 11.31). 

O Desejo de Deus E que as Nações sejam Separadas 

Há quem argumente que Deus desejou que as nações fossem diferenciadas, pois Atos 17.26 declara que Deus “[determinou] os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação”. Se Deus determinou a identidade das nações, então se supõe que cruzar essas fronteiras pelo casamento seja errado. Entretanto, este tipo de argumento é enganoso por certas razões. 

Primeiro, a declaração é descritiva e não prescritiva. Não é proibição contra a migração. 

Segundo, a declaração é geral e não específica, sendo sobre nações e não indivíduos. Se fosse sobre indivíduos, então teríamos de excluir Rute e Raabe, pois elas foram incluídas na linhagem do Messias (cf. Mt 1). 

Terceiro, o próprio texto fala contra o racismo, declarando que “de um só [Deus] fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra” (At 17.26). Repetindo, não há muitas raças, há apenas uma — a raça humana. 

A Maldição sobre Canaã 

Talvez a passagem bíblica mais impropriamente usada seja Gênesis 9, onde Deus denunciou os descendentes de Noé através de Canaã, o filho de Cão, dizendo: “Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos” (Gn 9.25). Contudo, este tipo de interpretação negligencia muitos fatos importantes, além dos listados a seguir, a favor de casamento interétnico. 

Primeiro, não há nada neste texto sobre maldição sobre a raça negra ou o povo africano. 

Segundo, a maldição não tem nada a ver com a cor da pele. 

Terceiro, os descendentes de Canaã foram os cananeus da Terra Prometida, os quais foram amaldiçoados por Deus e aniquilados pelos israelitas conforme registra o livro de Josué. Não tem nada a ver com os que são da África ou vivem ali. 

A Base para o Casamento Interétnico 

Há muitos argumentos fortes da Bíblia que mostram que Deus aprova o casamento interétnico. 

Primeiro, como comentado acima, todos os grupos étnicos são da mesma raça — a raça humana. 

Segundo, o Novo Testamento repete especificamente que todos nós somos “de um sangue” (At 17.26, NKJV). 

Terceiro, há casos biblicamente aprovados de casamento entre etnias (como Rute e Raabe). 

Quarto, quando Moisés se casou com uma etíope e foi criticado por isso, Deus interveio e julgou os que desaprovaram (Nm 12.1-15). 

Quinto e último, os mandamentos bíblicos aplicáveis ao casamento são para casarmos “no Senhor” (1 Co 7.39), alguém com quem não estejamos “em jugo desigual” (significando, não com um incrédulo; 2 Co 6.14). 

O PROPÓSITO DA HUMANIDADE 

O propósito da criação é duplo: honrar o Criador e desfrutar da sua criação. Este desígnio é evidente desde o princípio da criação e da própria natureza da criatura. Paulo exortou os crentes coríntios: “Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1 Co 6.20). E disse: “Quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31). Ele exortou os crentes colossenses: “E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (Cl 3.23). 

Na realidade, todas as criaturas, angelicais e humanas, se unem no louvor eterno em volta do trono de Deus, cantando: “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder, porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Ap 4.11). “E no seu templo cada um diz: Glória!” (SI 29.9). Só “néscios” (SI 14.1) trocam “a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis” (Rm 1.22,23). Eles “honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente” (Rm 1.25). 

Glorificar Deus, o Criador 

O primeiro propósito da criatura é glorificar o Criador. Deus disse: “[Eu] criei para minha glória” (Is 43.7). Este propósito emana da natureza do Criador como também da criatura. 

0 Criador não Teve de nos Criar 

A criação não ocorreu por compulsão. Deus não foi forçado a criar-nos. A Bíblia diz claramente: “Por tua vontade [de Deus] são e foram criadas” (Ap 4.11). Deus não precisava criar — um Ser infinito eperfieito não precisa de nada. Deus não estava só, pois como uma trindade de pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo —, Deus tinha companheirismo absolutamente perfeito em si mesmo. Ele não teve de buscar companhia em outro lugar. Por que, então, Deus criou? Não porque Ele teve, mas porque Ele quis. De fato, todas as coisas foram feitas “segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo” (Ef 1.9, ARA), que “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). 

Se Deus não tinha de criar-nos, então a nossa existência não é necessária. De fato, poderíamos não ter sido (existido), e só existimos porque Ele quer que sejamos (existamos). Portanto, devemos a nossa existência a Ele. A nossa natureza como seres livremente criados demanda a nossa submissão ao Criador. 

A Nossa Vida E Dependente de Deus 

Viemos à existência por causa da vontade de Deus, e também continuamos existindo por sua vontade. Ele literalmente “[sustenta] todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 

1.3) , porque “todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1.17). Se Deus decidisse que não existíssemos mais, cairíamos em esquecimento neste exato momento. 

Deus sustenta todas as coisas em existência, inclusive a humanidade (ver capítulo 21). “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.28). Deus deu plenas evidências de estar sustentando toda a criação; como disse Paulo aos pagãos em Listra: “[Deus] não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria o vosso coração” (At 14.17). Tiago reconheceu: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto” (Tg 1.17). Entramos nus no mundo e saímos nus dele (Jó 1.21), e se Deus não nos fornecesse roupas, também viveríamos nus (1 Tm 6.7,8). Entretanto, Deus não só alimenta as aves do céu e veste os lírios, mas Ele também toma providências acerca de todas as nossas necessidades (Mt 6.28-34). 

Sem o ar e os alimentos que Ele nos dá, não viveríamos. Portanto, cabe a nós não cuspir no prato em que comemos. Como criaturas gratas, confessemos como o salmista: “Exultarei nas obras das tuas mãos” (SI 92.4). Como criaturas gratas, glorifiquemos “o Criador, que é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1.25). Esta é a própria razão para a nossa existência. 



Desfrutar a Criação de Deus 

O segundo propósito da criatura é desfrutar a criação. Deus não é um desmancha- prazeres cósmico; Ele não é um pão-duro divino. Deus deseja que as criaturas sejam felizes. O salmista disse que o Senhor “farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” (SI 103.5, ARA). Como há pouco comentado, Paulo falou para os incrédulos que Deus “[enche] de mantimento e de alegria o vosso coração” (At 14.17). Na realidade, Paulo fala de “Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos” (1 Tm 6.17). "Não negará bem algum aos que andam na retidão” (SI 84.11). Esta é uma promessa para esta vida.. E para a outra vida? O salmista disse melhor: “Na tua presença há abundância de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (SI 16.11). 

Deus deseja que as suas criaturas sejam felizes e santas. Ele quer lhes proporcionar satisfação como também santificação. O seu propósito para nós é que desfrutemos de todos os bens que Ele graciosamente dá, pois “nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?” (Ec 2.24,25, ARA). Em suma, Deus deseja que sejamos felizes agora e sempre. Ele deseja que (1) o exaltemos como Criador, e que (2) desfrutamos a sua criação. 

RESUMO DA BASE BÍBLICA PARA A CRIAÇÃO 

A criação é o primeiríssimo dos ensinos mais básicos da Bíblia. Deus criou o universo material (Gn 1.1), todos os seres vivos (Gn 1.20-25) e os seres humanos à sua imagem e semelhança (Gn 1.27). A criação original foi feita do nada (ex nihilo). A criação material é por natureza contingente, finita, limitada no espaço e no tempo, e boa. 

Deus criou a vida em toda a sua diversidade e a deu em unidade duradoura e estabilidade para reproduzir segundo a sua espécie. Os seres humanos são uma criação distinta. A raça humana possui dignidade, unidade e comunidade. Deus também criou espíritos chamados anjos (ver capítulo 20), cujo propósito é servir Deus e os seus filhos. (Alguns anjos se rebelaram contra Deus e são conhecidos por demônios. O líder desta rebelião se chama Diabo ou Satanás.) O propósito de todas as criaturas racionais é glorificar a Deus e desfrutar a sua criação. 

A BASE HISTÓRICA DA CRIAÇÃO MATERIAL 

A doutrina da criação está firmemente arraigada na teologia da igreja cristã histórica. Isto é verdade desde os tempos bem antigos. 

Os Primeiros Pais da Igreja Falaram sobre a Criação 

Justino Mártir (c. 100-c. 165) 

Homero também, tendo descoberto da história antiga e divina, que diz: “Porquanto és pó e em pó te tornarás” [Gn 3.19], diz que o corpo inanimado de Hector é puro barro. 

[...] E novamente, em outro lugar, ele apresenta Menelau, dirigindo-se aos que não estavam aceitando o desafio de Hector de terem combates em duplas com vivacidade conveniente: “Para a terra e água vós vos retornareis”, revolvendo-os na sua raiva violenta na formação original e primitiva que tiveram proveniente da terra. Estas coisas Homero e Platão, tendo aprendido no Egito das histórias antigas, escreveram com palavras próprias. 

(JHAG, p. 286) 


Irineu (c. 125-c. 202) 

É próprio, portanto, que eu comece com o ser primeiro e mais importante, isto é, Deus Criador, que fez os céus, a terra e todas as coisas que neles há (a quem estes homens nomeiam blasfematoriamente o fruto de um defeito), e demonstre que não há nada acima dEle ou depois dEle, nem que, influenciado por quem quer que seja, senão por livre vontade, Ele criou todas as coisas, visto que Ele é o único Deus, o único Senhor, o único Criador, o único Pai, o único que contém todas as coisas e que Ele mesmo comanda todas as coisas à existência. (AH, 2.1.1, em Roberts and Donaldson, ANF, I) 

E acrescentou: 

Pois tem de ser ou que há um Ser, que contém todas as coisas e formou no seu próprio território todas as coisas que foram criadas, de acordo com a sua vontade; ou, repetindo, que há numerosos e ilimitados criadores e deuses, que começam uns dos outros e terminam uns nos outros de todos os lados. Será, então, necessário permitir que todos os demais sejam contidos de fora por alguém que seja maior. (AH, 2.1.5, em ibid., I) 

Além disso: 

Ele [Deus] criou e fez todas as coisas pela sua Palavra, ao mesmo tempo em que não exigiu que os anjos o ajudassem na produção dessas coisas que foram feitas, nem de outro poder muito inferior a Ele. [...] Mas Ele próprio em si mesmo, de um modo que não podemos descrever nem conceber, predestinando todas as coisas, formou-as como lhe agradou, dando harmonia em todas as coisas e designando-lhes o lugar apropriado e o começo da sua criação. (AH, 2.1.4, em ibid., I) 

Irineu continuou: 

Ele formou todas as coisas que foram feitas pela sua Palavra, que nunca se cansa. [Pois] a sua própria Palavra é adequada e suficiente para a formação de todas as coisas, mesmo como João, o discípulo do Senhor, declara em relação a Ele: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” [Jo 1.3], Agora, entre esse “todas as coisas” o nosso mundo tem de estar incluído. (AH, 2.1.4-5, em ibid., I) 

E prosseguiu: 

Portanto, que afirmem que o mundo foi feito por qualquer outro. Pois assim que Deus formou uma concepção na mente, isso também foi o que Ele fez conforme concebera mentalmente. (AH, 2.3.2, em ibid.) 

Concluindo: 

Não é conveniente dizer dEle, que é Deus sobre todos, visto que Ele é livre e independente, que Ele era um escravo da necessidade, ou que qualquer coisa acontece com a sua permissão, contudo contra o seu desejo. Caso contrário, eles tornarão a necessidade maior e mais real que Deus, visto que aquEle que tem o poder maior é superior a todos os [outros]. (AH, 2.5.4, em ibid.) . 

Tertuliano (c. 155-c. 225) 

Embora Hermógenes ache entre as suas pretensões plausíveis (pois não estava no seu poder descobrir isto nas Escrituras de Deus), basta para nós que é certo que todas as coisas foram feitas por Deus e que não há certeza que foram feitas pela matéria. E mesmo que a matéria previamente existisse, temos de acreditar que fora feita por Deus, visto que sustentamos (nada menos) quando afirmamos a regra da fé para ser, que nada exceto Deus foi inchado. Mesmo neste ponto não há lugar para controvérsia, até que a matéria seja levada à prova das Escrituras e fracasse em sua defesa. A conclusão de tudo isso é: Descubro que não havia nada feito, exceto do nada, porque aquilo que descubro foi da relva, dos frutos, do gado e da forma do próprio homem. Assim das águas foram produzidos os animais que nadam e voam. As estruturas originais das quais foram produzidas tais criaturas posso chamar que são seus materiais, mas então estes foram criados por Deus. (AH, 2.3.33, em ibid., III) 

Vós tendes, sem dúvida, entre os vossos filósofos homens que sustentam que este mundo é sem começo ou criador. Contudo, é muito mais verdade que quase todas as heresias permitem uma origem e um criador, e atribuem a sua criação ao nosso Deus. Entretanto, acreditam firmemente que Ele a produziu completamente do nada, e então vós achastes o conhecimento de Deus, crendo que Ele possui tal poder grandioso. (RF, 2.6.11, em ibid.) 

Os Pais da Igreja Medieval Falaram sobre a Criação 

Prosseguindo ao longo da Idade Média, todos os mestres ortodoxos continuaram crendo no que o primeiro Credo Apostólico declarou, isto é, que Deus é “o Criador dos céus e da terra”. Muitos entraram em muitos detalhes sobre o que isto significava e como aconteceu. 

Agostinho (354-430) 

A respeito da criação, como vimos, Agostinho disse que podemos fazer três perguntas: “Quem fez a criação? Como? e Por quê? As respostas são: ‘Deus’; 'pela Palavra’; e ‘porque é bom”’ (CG, 11.23). E desenvolveu a idéia da seguinte forma: 

Quem criou? Claro que Deus é a “Causa Primeira” (LCG, p. 23). Ele é o “Começo”, fora do qual não há começo. Ele é eterno e não-causado. Ele é indivisível e imutável (CG, 

11.10) . Ele é infinitamente sábio e poderoso. Além disso, Deus criou voluntariamente. Deus criou “os céus e a terra” e todos os seres vivos (Gn 1.1,21). Isto “insinua que antes da criação dos céus e da terra Deus não tinha feito nada” (ibid., 11.9). Portanto, “não pode ter existido matéria de qualquer tipo a menos que viesse de Deus, o Autor e Criador de tudo que foi formado ou será formado” (LCG, p. 35). 

Todas as coisas são provenientes de Deus, elas não são feitas de Deus (ONG, p. 27). A criação “não é feita dEle, porque não é imutável, como Ele é”. Mas visto que “não foi feita de outra coisa, foi feita indubitavelmente do nada — exceto por Ele mesmo” (OSIO, 

1.4) . Portanto, “é tolice imaginar espaço infinito, visto que não há tal coisa como espaço fora do cosmo” (CG, 11.5). 

Como Deus Criou? Quanto ao tempo que criou Deus, Agostinho perguntou: “O autor do tempo precisava da ajuda do tempo?” (LCG, p. 195). Não há tempo antes de o tempo começar, só a eternidade, pois “se eles imaginassem períodos infinitos de tempo antes do mundo, [...] eles conceberiam âmbitos infinitos de espaço além do universo visível” (CG, 

11.5) . Não havia tempo antes de Deus criar. Ele criou o tempo da eternidade. O tempo teve um começo, mas o decreto de Deus para criar não; era eterno. 

Fazendo um comentário sobre o comprimento dos “dias” de Gênesis 1, Agostinho escreveu: 

Vemos que os nossos dias comuns não têm noite, exceto pelo pôr-do-sol, e nem manhã, exceto pelo nascer do sol. Mas os primeiros três dias foram passados sem sol, visto que somos informados que o sol foi feito no quarto dia. De fato, em primeiro lugar a luz foi feita pela palavra de Deus, e Deus, lemos, a separou das trevas, e chamamos o Dia luz, e a Noite trevas. Mas que tipo de luz era e por qual movimento periódico fez noite e manhã são questões que estão além do alcance de nosso entendimento, (ibid., p. 208) 

Além disso: 

Quando se diz que Deus descansou no sétimo dia de todas as suas obras, e o consagrou, não devemos imaginar isso de forma infantil, como se o trabalho fosse uma labuta para Deus, que “falou, e tudo se fez” [SI 33.9], falou pela palavra espiritual e eterna, não pela palavra audível e transitória. Mas o descanso de Deus significa o descanso daqueles que descansam em Deus, como a alegria de uma casa significa a alegria daqueles na casa que se alegram, embora não a casa, mas alguma coisa a mais é que causa a alegria, (ibid., p. 

209) 

Por que Deus criou? Se Deus criou livremente, então podemos perguntar por que Ele criou em vez de não criar. Uma vez mais, a resposta de Agostinho foi “porque é bom” (ibid., 11.23). Fazendo um comentário sobre o fato de Deus declarar que tudo que Ele criou era “muito bom” (Gn 1.31), Agostinho concluiu: “Não há dúvida de que isto só pode significar que não havia outra razão para criar o mundo a não ser que criaturas boas fossem feitas por um Deus bom” (CG, 11.3). 

Anselmo (1033-1109) 

Quem criou? Em resposta a esta pergunta, Anselmo escreveu: 

Quem és tu, então, Senhor Deus, sobre quem nada maior pode ser concebido! Mas quem és tu, a não ser aquele que, como o mais alto de todos os seres, só existe por si mesmo e cria todas as coisas do nada? Pois, tudo que não for isso é menos do que uma coisa da qual podemos conceber. Mas isto não pode ser concebido de ti? (P, 5) 

Por conseguinte, vendo que tudo que é existe pelo Ser supremo, nem nada mais pode existir por este Ser, exceto por sua criação ou por sua existência como material, conclui- se, necessariamente, que nada além disso existe, exceto por sua criação. E, visto que nada mais é ou foi, exceto esse Ser supremo e os seres criados por Ele, não poderia criar nada por qualquer outro instrumento ou ajuda do que Ele próprio. (M, 7) 

Do que Deus criou? Anselmo respondeu: 

Tudo que foi criado foi criado indubitavelmente ou de algo, como da matéria, ou do nada. [...] Considerando que é muito evidente que a essência de todos os seres, exceto a Essência suprema, foi criada por essa Essência suprema, e não deriva a existência da matéria, indubitavelmente nada pode ser mais claro do que esta Essência suprema produziu do nada, só e por si mesma, o mundo das coisas materiais, tão numerosa multidão, formada em tal beleza, variada em tal ordem, tão adequadamente diversificada, (ibid.) 

Podemos entender, sem inconsistência, a declaração de que o Ser criativo criou todas as coisas do nada, ou que tudo foi criado por meio disso do nada; quer dizer, essas coisas que antes eram nada e agora é algo. Pois, realmente, da própria palavra que usamos, dizendo que as criou ou que elas foram criadas, entendemos que quando este Ser as criou, criou algo, e que quando elas foram criadas, elas foram criadas só como de algo. (ibid., 8) 

Todavia: 

Está claro que os seres que foram criados não eram nada antes de serem criados, a esta medida, que eles não eram o que são agora, nem havia algo de onde eles seriam criados, contudo eles não eram nada, no que diz respeito ao pensamento do Criador, e de acordo com isso, eles foram criados, (ibid., 9) 

Da mesma maneira que um artesão primeiro concebe na mente o que depois ele executa conforme o seu conceito mental, contudo vejo que esta analogia é muito incompleta. Pois a Substância suprema não tomou absolutamente nada de qualquer outra fonte, de onde modelasse um modelo em si mesmo ou fizesse para as suas criaturas o que elas são. (ibid., 11) Considerando que não pode ser aquilo que essas coisas que foram criadas vivas por outro, e que pelo qual elas foram criadas vive por si mesma, necessariamente, da mesma maneira que nada foi criado exceto pelo Ser criativo e presente, assim nada vive exceto por sua presença preservadora, (ibid., 13) 

Por que Deus criou? 

Portanto, é mais óbvio que a criatura racional foi criada para este propósito, que poderia amar o Ser supremo acima de todos os outros bens, como este Ser é por si mesmo o bem supremo. Não somente isso, mas também que não poderia amar nada exceto isso, a menos que por causa disto, visto que esse Ser é bom por si mesmo, e nada mais é bom exceto por Ele. Mas os seres racionais não podem amar este Ser, a menos que se dedicassem a lembrar-se e concebê-lo. Está claro, então, que a criatura racional deve dedicar sua total capacidade e vontade para lembrar-se, conceber e amar o bem supremo, por cujo fim reconhece que tem a própria existência, (ibid., p. 68) 

Tomás de Aquino (1225-1274) 

Como previamente estabelecido, a visão de Aquino sobre a criação pode ser declarada em termos das respostas que ele deu às perguntas básicas. 

Quem criou? Deus criou, mas Ele o fez livremente, pois, repetindo: “Não é necessário que Deus desejasse qualquer coisa exceto Ele mesmo” (ST, la.46.1). 

Ao Pai é atribuído o poder que é especialmente mostrado na criação. [...] Ao Filho é atribuído a sabedoria através da qual um agente intelectual age. [...] Ao Espírito Santo é atribuído a bondade, à qual pertence o governo [...] e a doação de vida. (ibid., la.46.6) 

Não só Deus criou, mas só Deus pode criar, pois “criar é, propriamente dito, causar ou produzir o ser (existência) das coisas” (ibid., la.45.6). Só Deus pode causar algo para vir a ser (à existência): “O homem individual não pode ser absolutamente a causa da natureza humana, porque Ele seria então a causa de si mesmo” (ibid., la.45.5). Na realidade, “nenhum ser criado pode produzir um ser absolutamente” (ibid.). Isto é assim, visto que só Deus é a causa primária, e “nenhuma causa secundária pode produzir qualquer coisa. [...] Por conseguinte, conclui-se que nada pode criar a não ser somente Deus” (ibid., la.65.3). 

As causas secundárias não criam; elas só reduplicam (ibid., la.45.6). Uma “causa instrumental secundária não toma parte na ação da causa superior. [...] Portanto, é impossível a criatura criar” (ibid. la.45.5). 

Como Deus criou? Pela sua Palavra. Como já declarado, não há causa instrumental da criação, porque entre o nada e o algo não há o meio-termo. Portanto, “Deus produz o ser no ato do nada [...] de acordo com a grandeza do seu poder” (ibid., la.61.1). Por conseguinte, “temos de defender com plena convicção que Deus traz as criaturas à existência por livre vontade, e não como preso por necessidade natural” (OPG, 3.15). 

Do que criou Deus? Aquino respondeu: 

Respondo que devemos dizer que todo ser de qualquer forma existente é de Deus. Porque o que quer que se ache em qualquer coisa por participação, deve ser causado nisto pelo qual pertence essencialmente, como o ferro se acende pelo fogo. Portanto, todos os seres à parte de Deus não são o próprio ser, mas são os seres por participação. Então, tem de ser que todas as coisas que são diversificadas pela participação diversa do ser, para serem mais ou menos perfeitas, são causadas por um Ser Primeiro, que possui o ser mais perfeitamente. (ST, la.44.1) 

Para resumir de novo, Deus criou do nada, mas “nada” não é algum tipo de material invisível do qual Deus fez o mundo. Por “do nada” o significado é “aquilo que foi feito do nada” (ibid., la.46.2). A preposição “de” não insinua que veio de algo, mas que veio conforme o nada (ibid. la.45.1). Portanto, a criação do nada é realmente a criação conforme o nada, pois “nada é igual a não ser” (ibid.). 

Quando Deus criou? Como vimos repetidamente, Deus criou “no princípio”. Deus é eterno, mas o mundo não. O universo veio a ser, mas Deus sempre era (na verdade, é). 

Repetindo, Aquino acreditava que a criação eterna era teoricamente possível (ST, la.46.2), embora não realmente possível. E assim, argumentou ele, porque visto “de acima”, Deus é eterno, e um efeito é simultâneo à sua causa de existência. Como mencionado antes, Boaventura e outros discutiram “de abaixo” que um universo eterno é impossível, porque uma série infinita de momentos é inacessível (Bonaventure, S, 1.1.1.2.1-6). Ambas as visões concordam que o universo não é eterno. 

Não é necessário Deus desejar que o mundo sempre exista. Mas o mundo existe tanto mais que Deus o deseja que exista, visto que o ser (existência) do mundo depende da vontade de Deus, como em sua causa. Não é então necessário que o mundo sempre seja. 

E, por conseguinte, não pode ser provado por demonstração. (Aquino, ST, la.46.1) 

Além disso: 

As palavras de Gênesis: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” [Gn 1.1], são expostas em um sentido triplo a fim de excluir três erros. Pois alguns dizem que o mundo sempre era, e que o tempo não teve começo. E para excluir este as palavras “no princípio” estão expostas, ou seja, “de tempo”. E alguns disseram que há dois princípios da criação, um das coisas boas e o outro das coisas ruins, contra o qual “no princípio” é exposto, saber, “no Filho”. Pois como o princípio eficiente é destinado ao Pai por causa do poder, assim o princípio exemplar é atribuído ao Filho por causa da sabedoria, para que, como está escrito: “Todas as coisas fizeste com sabedoria” (SI 104.24), pode ser entendido que Deus fez todas as coisas no princípio, ou seja, no Filho; de acordo com a palavra do apóstolo: “Nele” (Cl 1.16), ou seja, no Filho “foram criadas todas as coisas”. Mas outros disseram que as coisas corpóreas foram criadas por Deus por meio da criação espiritual. E excluir isto se expõe assim: “No princípio”, ou seja, antes de todas as coisas, “criou Deus os céus e aterra”. Pois [estas] coisas são declaradas terem sido criadas juntas, a saber, o céu empíreo, a matéria corpórea, pelo que se entende que é a terra, o tempo e a natureza angelical, (ibid., la.46.3) 

Por que Deus criou? “Deus traz as coisas à existência para que a sua bondade seja comunicada e manifestada” (ibid., 1.47.1). Não que Deus tenha de compartilhar a sua bondade, mas que Ele quer fazer assim. Portanto, Deus criou para manifestar a sua bondade e compartilhá- la com as suas criaturas. 

Por qual padrão Deus criou.'' 

Respondo que Deus é a causa primeira exemplar de todas as coisas. Em prova disso, temos de considerar que se para a produção de qualquer coisa um exemplar é necessário, é para que o efeito receba uma forma determinada. Pois um artífice produz uma forma determinada na matéria por causa do exemplar antes dele, quer seja o exemplar visto externamente, ou o exemplar concebido interiormente na mente, (ibid., la.44.3) 

Os Líderes da Reforma Falaram sobre a Criação 

Martmho Lutero (1483-1546) 

No princípio, Deus fez Adão de um torrão de barro, e Eva, da costela de Adão: Ele os abençoou e disse: “Frutificai, e multiplicai-vos” [Gn 1.27], palavras que ficarão e permanecerão poderosas até ao fim do mundo. [...] Estas e outras coisas que Ele cria diariamente, o mundo cego descrente não vê, nem reconhece as maravilhas de Deus, mas pensa que tudo é feito por casualidade e por acaso, ao passo que, os religiosos, aonde quer que lancem os olhos, vendo o céu, a terra, o ar e a água vêem e reconhecem tudo pelas maravilhas de Deus; e, cheios de surpresa e encanto, louvam o Criador, sabendo que Deus se agrada muito com isso. (TT, p. 64) 

João Calvino (1509-1564) 

Deus se agrada que a história da criação exista — uma história na qual a fé da igreja pode confiar sem buscar qualquer outro Deus do que aquele que Moisés apresenta como o Criador e Arquiteto do mundo. [...] Este conhecimento é do uso mais alto não só como 

antídoto para as fábulas monstruosas que antigamente predominavam no Egito e nas outras regiões do mundo, mas também como meio de dar uma manifestação mais clara da eternidade de Deus como contrastado com o nascimento da criação, e inspirando-nos assim com a mais alta admiração. (ICR, 1.14.1) 

Os Teólogos da Pós-Reforma Falaram sobre a Criação 

Jacó Armínio (1560-1609) 

“Criação é um ato externo de Deus pelo qual Ele produziu todas as coisas do nada, para si mesmo, pela sua Palavra e Espírito” ( WJA, 11.54). “A causa eficiente primária é Deus Pai, pela sua Palavra e Espírito. A causa motivadora que indicamos na definição pela partícula ‘para’, é a bondade de Deus” (ibid.). 

Além disso, “tempo e lugar não são criaturas separadas, mas são criadas com as próprias coisas, ou, antes, que eles existem junto na criação das coisas” (ibid., p. 57). E: 

O homem é uma criatura de Deus. Consiste de um corpo e uma alma, racional, boa e criada segundo a imagem divina “de acordo com o seu corpo”, criado de matéria preexistente, que é, terra misturada e borrifada com umidade aquosa e etérea, [como também] "de acordo com a sua alma”, criado do nada, pela respiração da respiração nas suas narinas, (ibid., p. 62) 

Jonathan Edwards (1703-1758) 

A diferença principal entre as partes inteligentes e morais e o restante do mundo está nisto: que os primeiros podem conhecer o Criador e o fim para o que Ele os fez, podendo articular que obedecem ao seu desígnio na criação e promovê-lo, ao passo que as outras criaturas não podem promover o desígnio da sua criação, só passiva e eventualmente. 

('WJE, 2.2.8) 

Charles Hodge (1797-1878) 

Charles Hodge, ex-reitor da Universidade de Princeton, foi grande defensor da fé ortodoxa, inclusive da doutrina da criação. No livro 0 que é Darwinismo?, ele responde sem rodeios: “Darwinismo é ateísmo”. Explica que nem Darwin nem todos os seus seguidores eram ateus, mas que a teoria darwinista é equivalente ao ateísmo, porque ao excluir o desígnio da natureza excluiu a necessidade de um Designer. 

O Deus da Bíblia é um Deus extramundano, existindo fora e antes do mundo, absolutamente independente dele; seu criador, preservador e governador. Assim a doutrina da criação é uma conseqüência necessária do teísmo. Se negarmos que o mundo deve sua existência à vontade de Deus, então o ateísmo, o hilozoísmo ou o panteísmo seria a conseqüência lógica (ST, 1.561, 562). 

 parte da doutrina panteísta que faz o universo a forma da existência, ou, como chama Goethe [...] (a roupa viva) de Deus, as visões mais prevalecentes neste assunto são: Em primeiro lugar, as teorias que excluem a mente da origem causativa do mundo; em segundo lugar, as opiniões que admitem pela mente, mas só no que esteja relacionado à matéria; e em terceiro lugar, a doutrina bíblica que aceita a existência de uma mente extramundana infinita a cujo poder e vontade a existência de todas as coisas têm de ser atribuídas que vêm de Deus. (ibid., 1.550) 

Hodge Fala sobre a Criação ex mhilo 

A doutrina da igreja sempre tem sido que Deus criou o universo do nada pela palavra do seu poder, que a criação foi instantânea e imediata, ou seja, sem a intervenção de causas segundas. Contudo, aceita-se em geral que devemos entender isto em relação à chamada original da matéria à existência. Portanto, os teólogos distinguem entre um primeiro e um segundo, ou criação imediata e mediata. Uma foi instantânea, a outra gradual; uma impede a idéia de qualquer substância preexistente e de cooperação, a outra admite e insinua ambos. [...] Conclui-se, então, que formar de material preexistente vem da idéia bíblica da criação. Todos reconhecemos Deus como o autor de nosso ser, como nosso Criador, como também nosso Preservador. [...] E a Bíblia constantemente fala que Deus causa a relva crescer, e que Ele é o verdadeiro autor ou criador de tudo que a terra, o ar ou a água produz. Portanto, há, de acordo com as Escrituras, não só uma criação imediata e instantânea ex mhilo pela palavra simples de Deus, mas uma criação mediata e progressiva. 

O poder de Deus que trabalha em união com as causas segundas, (ibid., 1.556, 557) 

Karl Barth (1886-1968) 

A criação divina em si mesma e como tal não ocorreu e não ocorre por causa própria. 

A criação é a postulação livremente desejada e executada de uma realidade distinta de Deus. Surge a pergunta: Qual era e é a vontade de Deus para fazer isto? Respondemos que Ele não quer ficar sozinho na sua glória; que Ele deseja alguma outra coisa ao seu lado. (CD, 3.1.95) 

Não é por capricho nem por necessidade que Ele deseja e coloca a criatura, mas porque Ele a amou desde a eternidade, porque Ele deseja demonstrar o seu amor por ela, e porque Ele quer, não limitar a sua glória por sua existência e ser, mas revelar e manifestá- la na sua própria coexistência com ela. Como Criador, Ele quer existir para a sua criatura, (ibid.) 

A criatura não existe casualmente. Não existe meramente, existe significativamente. 

Em sua existência, ela realiza um propósito e ordem. Não entrou em ser (existência) por casualidade, mas por necessidade, portanto não como um acidente, mas como um sinal e testemunha desta necessidade. Já está implícito no fato de que é uma criatura e, portanto, a obra do Criador, de Deus. (ibid., 3.1.229) 

A DISCUSSÃO SOBRE A CRIAÇÃO E A EVOLUÇÃO 

Desde o tempo de Charles Darwin (1809-1882), um debate vem assolando dentro do cristianismo. Diz respeito se a evolução total é ou não compatível com o ensino histórico bíblico e teológico das origens. Dois grupos básicos emergiram: a evolução teísta e o criacionismo. Dentro da segunda facção (os criacionistas), há dois grupos principais: os criacionistas da terra velha e os criacionistas da terra jovem. (O primeiro grupo se rotula de criacionistas progressivos, e o segundo, de criacionistas da ordem.) Atualmente, nos Estados Unidos, os criacionistas da terra jovem são liderados pelo Institute for Creation Research (ICR, sigla em inglês para Instituto de Pesquisas sobre a Criação), baseado no trabalho de Henry Morris. O criacionismo progressivo (da terra antiga) é defendido por Hugh Ross e sua organização “Reasons for Believe” (Razões para Crer); outro proponente desta visão é Robert Newman do Seminário Bíblico em Hatfield, Pensilvânia. 


Criacionismo da Terra Jovem 

A diferença primária entre os criacionistas da terra jovem e os criacionistas da terra velha é a quantidade especulada de tempo entre os atos criativos de Deus (ver apêndice 4). Os criacionistas da terra jovem (os da ordem) insistem que tudo foi realizado em cento e quarenta e quatro horas, ou seja, seis dias sucessivos de vinte e quatro horas, ao passo que os criacionistas da terra velha (os progressivos) admitem milhões (ou até bilhões) de anos. Em geral, eles chegam a esses números da seguinte forma: 

(1) Colocando os longos períodos de tempo antes de Gênesis 1.1 (tornando-o uma criação recente e local). 

(2) Colocando os longos períodos de tempo entre Gênesis 1.1 e 1.2 (conhecido por visões dos “intervalos”). 

(3) Tornando os “dias” de Gênesis 1 longos períodos de tempo. 

(4) Concedendo longos períodos de tempo entre os dias de vinte e quatro horas literais de Gênesis 1 (conhecido por visões das “eras dos dias alternados”). Ou: 

(5) Tornando os “dias” de Gênesis dias de revelação de Deus para o escritor e não dias da criação (conhecido por visões dos “dias revelatórios”). 

Há muitas variações dentro destas perspectivas, perfazendo um total de mais de uma dezena de visões diferentes defendidas pelos teólogos evangélicos sobre o assunto (ver apêndice 4). 

Criacionismo da Terra Velha 

Não confundamos os criacionistas da terra velha (os progressivos) com os evolucionistas teístas. Os criacionistas da terra velha não aceitam a macroevolução (ver mais adiante a terceira área de acordo) como um método pelo qual Deus produziu as espécies originalmente criadas de Gênesis 1. O criacionismo da terra velha era forte entre criacionistas do século XIX, embora a visão date de, pelo menos, o século IV (em Agostinho). Repetindo, entre os defensores contemporâneos proeminentes estão Hugh Ross e Robert Newman (ver bibliografia). 

Evolução Teísta 

Falando em termos gerais, a evolução teísta é a crença de que Deus usou a evolução como meio de produzir as formas de vida física neste planeta, inclusive a vida humana. Todos os evolucionistas teístas acreditam que Deus executou pelo menos um ato sobrenatural — o ato de criar o universo físico do nada. Entretanto, podemos rotular mais corretamente esta visão de evolução deísta, visto que não há milagre envolvido depois do primeiro ato da criação (ver Volume 1, capítulos 2 e 3). 

A maioria dos evolucionistas teístas defende pelo menos dois atos da criação: 

(1) A criação da matéria do nada, e (2) a criação da primeira vida. Depois disso, supostamente, todos os outros seres vivos, inclusive os seres humanos, surgiram por processos naturais que Deus ordenara desde o princípio. Certos evolucionistas teístas insistem que Deus criou a primeira alma diretamente no primata há muito tempo evoluído para torná-lo verdadeiramente humano e segundo a imagem divina. 

O catolicismo romano adota a evolução teísta. Pierre Teilhard de Chardin (1881­1955) é um exemplo notável, embora o seu conceito de Deus seja mais panenteísta (ver Volume 1, capítulo 2). Entre os cientistas evangélicos, Howard Van Til (ver PC e FD) é defensor da evolução teísta, como são muitos membros da American Scientific Association (Associação Científica Americana; ver JASA). Há um movimento entre alguns cientistas contemporâneos para combinar a evolução teísta com o princípio antrópico, postulando que o Criador regulou minuciosamente todo o universo desde o momento do Big Bang, de forma que tudo, inclusive todas as formas de vida, acabaram emergindo por processos naturais desde esse ponto (ver Barrow and Tipler, AP). 

Áreas de Acordo entre os Criacionistas da Terra Velha e da Terra Jovem 

Os criacionistas da terra velha e os criacionistas da terra jovem têm muito em comum, pelo menos entre os que são evangélicos. Há várias coisas básicas. 

A Criação Sobrenatural Direta de todas as Formas de Vida 

Os criacionistas da terra velha e os criacionistas da terra jovem acreditam que Deus de modo sobrenatural, direto e imediato produziu todos os tipos de animais e os seres humanos como formas de vida geneticamente separadas e distintas (Ross, FG). Ambos sustentam que toda espécie produzida por Deus foi diretamente criada de nova (novo em folha) e não ocorreu por Deus estar usando processos naturais durante um longo período de tempo ou refazendo espécies prévias de vida para fazer formas de vida mais altas (evolução). 

A Oposição ao Naturalismo 

Os dois grupos também estão de acordo na oposição que fazem ao naturalismo, o qual eles vêem como a pressuposição filosófica da evolução. Eles observam corretamente que sem uma polarização naturalista, a evolução perde credibilidade. Rejeitar a possibilidade de intervenção sobrenatural no mundo já estabelece a questão a favor da evolução antes mesmo de começar. 

A Oposição à Macroevolução 

Semelhantemente, ambos os grupos estão unidos na oposição que fazem à macroevolução quer teísta ou não-teísta, ou seja, eles rejeitam a teoria da ascendência comum. Os dois grupos negam que todas as formas de vida descendem por processos totalmente naturais sem intervenção sobrenatural de fora. Eles negam que todos os seres vivos sejam como uma árvore ligada a um tronco e raiz comum. Mais exatamente, eles afirmam a ascendência separada de todas as formas básicas de vida, um quadro mais semelhante a uma floresta de árvores diferentes. Admitem a microevolução, na qual pequenas mudanças ocorrem nas espécies básicas dos seres criados, mas nenhuma macro (ampla) evolução ocorre entre as espécies diferentes. Por exemplo, os criacionistas da terra velha e os da terra jovem concordam que todos os cachorros estão relacionados com um casal canino original — fazem parte da mesma árvore genealógica. Entretanto, eles negam que cachorros, gatos, vacas e outras espécies criadas estejam relacionadas como os ramos de uma árvore genealógica original. 

A Historicidade da Narrativa de Gênesis 

Os criacionistas da terra velha e os da terra jovem que são evangélicos defendem a historicidade da narrativa do Gênesis. Eles acreditam que Adão e Eva eram pessoas literais, os progenitores de toda a raça humana. Ainda que alguns defendam que aja forma poética e figura de linguagem na narrativa, todos concordam que ela transmite a verdade histórica e literal sobre a origem da vida. Isto é confirmado pelas referências literais neotestamentárias feitas a Adão, Eva, a criação e a Queda (cf. Lc 3.38; Rm 5.12; 1 Tm 2.13,14). 

Áreas de Diferença entre os Criacionistas da Terra Velha e os Criacionistas da Terra Jovem 

Lógico que há diferenças entre as duas visões evangélicas básicas sobre a criação. As diferenças primárias são as seguintes. 

A Idade da Terra 

Uma discrepância crucial entre as duas visões é, naturalmente, a idade da terra (ver Newman and Eckelmann, GOOE). Os criacionistas da terra jovem insistem que a Bíblia e a ciência apoiam um universo que só tenha milhares de anos, ao passo que os criacionistas dá terra velha admitem até bilhões de anos. Os criacionistas da terra jovem ligam sua visãtTáúma interpretação[5] literaf dê Gênesis (e Ex-20.il 1), mas os criacionistas da terra velha reivindicamla m'esmá%érftiênêiitidá básica,^m-as-eles crêem que os textos abranjam milhões e até bilhões de anos desde a criação. Citam também evidências científicas a seu favor (ver apêndice 4). 

No mínimo, seria sábio se ambos os lados concordassem com os seguintes pontos: 

(1) A idade da terra não é um teste para a ortodoxia. 

(2) Nenhuma das visões é comprovada com finalidades científicas, visto que há pressuposições não-comprovadas (se é que são comprováveis) associadas com cada posição. 

(3) O fato da criação (versus evolução) é mais importante que o tempo da criação. 

(4) O inimigo comum (a evolução naturalista) é um foco mais significativo do que as diferenças intramuros. 

A Natureza do Dilúvio 

Os criacionistas da terra jovem, em sua maioria, também são geólogos do dilúvio, quer dizer, eles acreditam que a idade aparente da terra representada nas formações geológicas sedimentares não representa milhões de anos, mas só um ano de atividade pelo dilúvio universal. E apropriado fazermos alguns comentários sobre este quesito: 


(2) Não devemos explorar a geologia do dilúvio como teoria científica em seu próprio direito, como também por seu possível valor explicativo dos dados bíblicos. 

(3) Pode-se ser criacionista da terra jovem e ainda assim rejeitar a geologia do dilúvio, como alguns fazem. Por conseguinte, os dois não estão inseparavelmente ligados. 

(4) Os que rejeitam o dilúvio universal (junto com a geologia do dilúvio) têm mais dificuldades para explicar todos os dados bíblicos. Se o dilúvio foi apenas local, então: 

(a) Por que foram tomados dois animais de cada espécie para a arca? 

(b) Por que a linguagem de Gênesis é tão específica e intensamente universal (cf. Gn 7.19-23)? 

(c) Por que há depósitos diluvianos universais? 

(d) Por que há histórias universais sobre o dilúvio? 

(e) Por que Pedro diz que toda a terra ficou debaixo da água (2 Pe 3.5-7)? 

(f) Por que a Bíblia diz que só oito pessoas foram salvas (2 Pe 2.5), se havia outras que também escaparam? 

(g) Por que todas as montanhas foram cobertas pela água? (Gn 7.19). 

0 Movimento do Desígnio Inteligente 

Um terceiro grupo criacionista emergiu. Os seus partidários procuram evitar o debate interno entre os criacionistas de ordem e os criacionistas progressivos. O movimento do desígnio inteligente foi fundado e promovido por Phillip Johnson, professor da Universidade de Berkeley (ver DT e RB). Outros líderes importantes são William Dembski, professor da Universidade de Baylor (ver MC), e Michael Behe, professor da Universidade de Lehigh (ver DBB). Concentrando-se no assunto do desígnio inteligente versus evolução puramente naturalista (e em vez de focalizar questões como a idade da terra e a extensão do dilúvio), o movimento do desígnio inteligente espera alcançar o seguinte: 

(1) Formar uma “cunha” unificada que quebre o baluarte da evolução naturalista em torno da comunidade acadêmica. 

(2) Tocar o calcanhar de Aquiles da evolução, expondo o comprometimento filosófico naturalista e, assim, destruindo a sua plausibilidade e posição privilegiada na comunidade acadêmica. 

(3) Proporcionar uma alternativa científica à macroevolução naturalista que seja livre dos ornamentos da linguagem bíblica e religiosa. 

(4) Fornecer um abrigo no qual os criacionistas da terra velha e os criacionistas da terra jovem possam trabalhar unidos contra a evolução naturalista. 

CONCLUSÃO 

A doutrina da criação é uma pedra fundamental da fé cristã. Os pontos essenciais deste ensino desfrutam de consentimento universal entre os teólogos ortodoxos. Entre esses pontos citamos os seguintes: [6] [7]


(3) Todos os seres vivos foram criados por Deus. 

(4) Adão e Eva foram uma criação direta e especial de Deus. 

(5) A narrativa da criação registrada em Gênesis é histórica e não mitológica. 

Ainda que haja enérgico debate sobre o tempo da criação, todos os evangélicos concordam com o fato da criação. Também há acordo sobre a fonte da criação (um Deus teísta) e o propósito da criação (glorificar a Deus). O método exato da criação ainda é uma questão discutível. Entretanto, cada vez mais, as evidências científicas apoiam a criação sobrenatural do universo, a criação direta da primeira vida (verThaxton, MLO) e a criação especial de toda forma de vida básica. Por conseguinte, a macroevolução, quer teísta ou naturalista, é bíblica e cientificamente infundada. 

FONTES 

Anselm. Monologiom. 

____________ . Proslogiom. 

Aquinas, Thomas. On the Power of God. 

_________ . Summa Theologica. [Edição brasileira: Tomás de Aquino. Suma Teológica: o 

Mistério da Encarnação (São Paulo: Loyola, 2001).] 

Arminius, Jacob. The Writings of James Arminius. 

Augustine. The City of God. [Edição brasileira: Agostinho. A Cidade de Deus (Petrópolis: Vozes, 2000).] 

_________ . Confessions. [Edição brasileira: Agostinho. Confissões (São Paulo: Paulus, 

1997).] 



.. “Literal Commentary on Genesis”, in: Schaff, The Nicene and Post-Nicene 



Fathers. 

_________ . “On the Nature of the Good”, in: Schaff, The Nicene and Post-Nicene Fathers. 

_________ . “On the Soul and Its Origin”, in: Schaff, The Nicene and Post-Nicene Fathers. 

Barrow, John, and Frank Tipler. The Anthropic Cosmological Principle. 

Barth, Karl. Church Dogmatics. 

Behe, Michael. Darwin’s Black Box. [Edição brasileira: A Caixa Preta de Darwin: o Desafio da Bioquímica à Teoria da Evolução (Rio de Janeiro: J. Zahar, 1997).] 

Berkouwer, G. C. Man: The Image of God. 

Bonaventure. Sententiarium II. 

Calvin, John. Institutes of the Christian Religion. [Edição brasileira: João Calvino. As Instituías da Religião Cristã (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1995).] 

Dembski, William. Mere Creation. 

Eddy, Mary Baker. Science and Health With Key to the Scriptures. [Edição em inglês com tradução paralela em português: Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras (Boston, Estados Unidos: The First Church of Christ, 1995).] 

Edwards, Jonathan. The Works of Jonathan Edwards. 

Hodge, Charles. Systematic Theology. [Edição brasileira: Teologia Sistemática (São Paulo: Hagnos, 2001).] 

____________ . What’s Is Darwinism? 

Irenaeus. “Against Heresies”, in: Roberts and Donaldson, The Ante-Nicene Fathers. Johnson, Phillip. Darwin on Trial. 

____________ . Reason in the Balance. 

Journal of the American Scientific Association.


Justin Martyr. Justin s Hortatory Address to the Greeks. 

Luther, Martin. Table Talks. 

Merrill, Eugene. Bibliotheca Sacra. 

Morris, Henry. Scientific Creationism. 

Morris, Henry, and John Whitcomb. The Genesis Flood. 

Newman, Robert, and Herman J. Eckelmann. Genesis One and the Origin oj the Earth. Pettinato, Giovanni. “The Archives of Ebla”, cited by Eugene Merrill in: Bibliotheca Sacra. Plotinus. The Enneads. [Edição brasileira: Plotino. Tratados das Enéadas (São Paulo: Polar, 2002).] 

Roberts, Alexander, and James Donaldson. The Ante-Nicene Fathers. 

Ross, Hugh. Creation and Time. 

. The Fingerprints of God. 

Schaff, Philip. The Nicene and Post-Nicene Fathers. 

Stoner, Peter. A New Look at the Old Earth. 

Teilhard de Chardin, Pierre. The Phenomenon of Man. [Edição brasileira: O Fenômeno Humano (São Paulo: Cultrix, 1988).] 

Tertullian. “Against Hermogenes”, in: Roberts and Donaldson, The Ante-Nicene Fathers. 

____________ . “On the Resurrection of the Flesh”, in: Roberts and Donaldson, The Ante- 

Nicene Fathers. 

Thaxton, Charles. The Mystery of Life s Origin. 

Van Till, Howard. The Fourth Day. 

____________ . Portraits of Creation. 







[1] A palavra hebraica bara nem sempre significa “fazer algo do nada” (ver Gn 2.3; SI 104.30; Is 41.20). Entretanto, usada no contexto dos eventos originais da criação, descritos em Gênesis 1, traz este significado (cf. Cl 1.16; 2 Co 4.6). 


[2] É o que panteístas afirmam (ver Volume 1, capítulo 2). 


[3]N do E.: “Ciência Cristã: [Do lat. scientia, conhecimento] Conhecido também como a Igreja de Cristo Cientista, este sistema filosófico-doutrinário foi fundado por Mary Baker Eddy em 1879. Baseando suas doutrinas na Ciência e Saúde com Base nas Escrituras, a Ciência Cristã nega as verdades básicas da Palavra de Deus. Afirma, por exemplo, não serem reais a morte e o pecado. Todo o mal, portanto, encontra-se nas doenças físicas; evitando-as, pode-se viver em harmonia com o 

Universo (Dicionário Teológico, CPAD, 1998, p.81). 


[4] “Essência” significa “natureza” ou “substância”, ou seja, o que algo é por natureza, o que é necessário ao tipo de coisa que é. “Essência” é o que algo é, ao passo que “acidente” é o que algo meramente tem, mas não possui por natureza. 


[5] Repetindo, não devemos usar a geologia do dilúvio como prova de ortodoxia, visto que há outras maneiras de explicar os dados que são consistentes com a interpretação evangélica da Bíblia. 


[6] Há um Deus teísta. 


[7] A criação do universo foi ex nihilo (do nada).


GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. CPAD, 2010.