2 de setembro de 2015

John Bright - A unidade monárquica de Israel: Salomão

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A UNIDADE MONÁRQUICA DE ISRAEL: SALOMÃO
(aproximadamente 961-922) [1]

1. Salomão como homem de Estado: a política nacional

Há poucas figuras mais difíceis de serem avaliadas do que
Salomão, e isto porque os dados sobre ele não são tão completos como deviam ser, nem em ordem cronológica. Ele era
naturalmente um homem de grande astúcia, capaz de realizar
plenamente as potencialidades econômicas criadas por Davi.
Ao mesmo tempo, ele manifestou em outras áreas uma cegueira tal, para não dizer uma estupidez, que apressou a desintegra-
ção deste império. Salomão, até certo ponto, por causa da
situação que enfrentou, mostrou-se muito diferente de seu pai.
Não era guerreiro, e tinha pouca necessidade de o ser, pois
nenhum inimigo externo ameaçava seu reino. Politicamente,
seu dever também não era o de defender o estado ou ampliá-lo,
mas de conservá-lo unido. E nisto, na maioria das vezes, foi
bem sucedido.

Consolidação do poder sob Salomão. — Tendo subido
ao trono como co-regente de seu pai, Salomão teve poucos pro-
blemas em estabelecer-se. Desde que Adonias e seus adeptos
se submeteram a ele servilmente, foi desnecessário derramamento
de sangue, Mas, quando o idoso Davi morreu (lRs 2,10ss),
Salomão pronta e cruelmente removeu tudo o que pudesse
desafiar sua autoridade (vv. 13-46). Adonias que, pelo fato de
pretender a mão da concubina de Davi, Abisag, tinha indicado
que ainda não desistira de reivindicar o trono (cf. v. 22; 2Sm
16,21ss), foi sumariamente executado. Abiatar, tendo sua
vida poupada em virtude da lealdade passada para com Davi,
foi exonerado de seu cargo e mandado para sua casa em Anatot. Joab, sabendo que poderia ser o próximo, refugiou-se
no Tabernáculo do Senhor. Mas seu rival, o inescrupuloso
Banaías, por ordem de Salomão, entrou logo após e o massa-
crou, herdando sua posição. Quanto a Semei, o familiar de
Saul que amaldiçoou Davi quando este fugiu de Absalão
(2Sm 16,5-8), recebeu ordem de ficar recluso na cidade, de-
vendo ser executado ao primeiro sinal de desobediência.

Está escrito (lRs 2,1-9) que Joab e Semei foram eli-
minados por ordem expressa de Davi, dada em seu leito de
morte. Embora, do nosso ponto de vista, isto não represente
nenhum crédito a favor do velho rei, não há nenhuma razão
para duvidarmos. Segundo a mentalidade antiga, a maldição
tinha eficácia real, enquanto que o crime de morte, tal como
Joab tinha repetidamente tentado contra Davi, não era figura
de retórica; ambos poderiam ameaçar a casa de Davi se não
fossem eliminados, e isto Davi procurou fazer. Mas deve ser
dito que Salomão obedeceu com um sentimento que só pode
ser chamado de alegria. Lemos (v. 46) que “o reino estava es-
tabelecido nas mãos de Salomão׳’. E assim foi! Assim foi!

A política externa de Salomão. — Embora seu reino
não fosse completamente pacífico, sabemos que Salomão não
chegou a comandar sérias operações militares. Sua tarefa não era
mais expandir o reino, que havia chegado à dimensão máxima no
reinado de Davi, mas manter relações amigáveis, externamente
e com seus próprios vassalos, de modo que Israel pudesse de-
senvolver suas potencialidades em paz. E ele procurou fa-
zê-lo, através de um judicioso programa de alianças. Uma vez
que muitas delas foram seladas por casamentos, numerosas
nobres estrangeiras foram trazidas para o harém de Salomão
(lRs 11,1-3); o próprio príncipe da coroa foi descendente
de tal união, (c. 14,21). A mais notável das esposas de Salo-
mão foi a filha do faraó do Egito (provavelmente Siamun, ante-
penúltima da fraca Vigésima Primeira Dinastia), que, como con-
vinha à sua classe, recebeu tratamento privilegiado (c. 3,1 ;7,8).
Está escrito (c. 9,16) que o faraó tomou e destruiu a cidade
canaanita de Gazer e a entregou à sua filha como dote, dando
conseqüentemente a Salomão um modesto acréscimo a seu
território. Provavelmente, há mais fatos nesta breve notícia do
que encontram nossos olhos. É difícil imaginar o faraó em-
preendendo tão longa e árdua campanha somente para con-
quistar uma cidade para o rei israelita. Pode ser que, após a morte de Davi, o faraó tivesse a esperança de restabelecer
o domínio egípcio na Palestina e, para este fim, tivesse lançado
uma campanha contra as cidades dos filisteus (sobre as quais
pretendia suserania), durante a qual a cidade fronteiriça de
Gazer foi tomada[2], mas tendo-se defrontado com tropas mais
fortes do que imaginara, nos moldes do exército de Salomão,
considerou mais sábio (ou a isto foi impelido) a entregar a
concessão territorial e proclamar a paz[3]. Não sabemos. Em
todo caso, o incidente ilustra não só a importância relativa
de Israel, mas também o baixo nível ao qual o Egito havia
chegado. Os faraós do Império não davam suas filhas nem
mesmo aos reis da Babilônia ou Mitanni!

A mais importante das alianças de Salomão, entretanto,
foi a estabelecida com Tiro (c. 5,1-12) — uma aliança já
efetivada por Davi e agora renovada. Tiro, reconstruída pelos
fenícios sidônios no século décimo, foi a capital de um Estado
que, naquele tempo, controlava todo o litoral sul da Fenícia,
desde a Baía de Acre para o norte. Sob o regime de Hiram I
(aproximadamente 969 — 936), a expansão marítima dos fe-
nícios para o oeste estava em pleno apogeu; pelo final do século,
havia colônias em Chipre e na Sardenha ·— onde eles explora-
vam minas de cobre (a tarshlsh é uma refinaria) — e prova-
velmente na Espanha e no Norte da África[4]. A aliança resultou
em uma troca de benefícios mútuos: exportação de trigo e óleo
de oliva da Palestina para o Tiro, e madeira-de-lei do Líbano
para a construção dos projetos de Salomão. E também abriu
para Salomão novos caminhos de comércio e indústria, como
veremos.

a. A defesa nacional. — Apesar de não ser guerreiro,
Salomão estava longe de ser um inexperiente em matéria de
conhecimento militar. Ao contrário, ele manteve a segurança 
e desencorajou a agressão, mandando construir um exército
ativo, que poucos ousariam desafiar. As principais cidades fo-
ram fortificadas e transformadas em bases militares (lRs 9,15-
-19). Estas incluíam, além da própria Jerusalém, uma cadeia
de cidades ao longo do perímetro do centro das terras israelitas:
Hazor, na Galiléia, diante das possessões dos arameus; Megiddo,
perto da passagem principal através da cordilheira do Carmelo;
Gazer, Bet-Horon e Balat, guardando as vizinhanças ocidentais
da planície[5]; e Tamar, ao sul do Mar Morto, diante de
Edom[6]. Disposto nesses pontos, o exército de Salomão podia
ser rapidamente reunido para defender-se contra invasões, do-
minar pequenas revoluções internas ou agir contra vassalos
rebeldes.

Além disso, Salomão reforçou seu exército, desenvolvendo
a biga de combate a um nível nunca alcançado antes. Até o
reinado de Davi, Israel nunca tinha usado a biga, em parte
porque era de pouca utilidade em seus terrenos irregulares,
e em parte porque seu uso pressupunha uma aristocracia militar
que Israel não possuía. Mas os estados-cidades canaanitas, que
foram por essa época absorvidos por Israel, sempre tinham
usado a biga; evidentemente, Salomão adotou a idéia e explo-
rou-a com entusiasmo. Temos conhecimento (lRs 10,26; 2Cr
9,25) que possuía quatro mil estábulos para seus cavalos, mil
e quatrocentas bigas e doze mil homens para dirigi-las. Dispôs
essa força militar nas bases acima mencionadas (lRs 9,19;
10,26). Apesar do grande conjunto de estábulos descoberto
em Megiddo, e por muito tempo atribuído a Salomão, ser agora
reconhecido como construção do século seguinte, grandes cons-
truções salomônicas, incluindo fortificações e a residência do
governador, estão atestadas lá, assim como em Hazor, Gazer e
outros lugares[7]. Isso, certamente, significava que Salomão mantinha um considerável exército permanente. É possível que
ele nunca recorresse às tribos para fim de recrutamento.

e, Salomão e o Império. — De modo geral, Salomão
conseguiu manter com sucesso o império unido, mas não total-
mente. Apesar da estrutura principal ter permanecido forte,
Salomão deixou-a um pouco menor do que a encontrara. Pri-
meiro, houve problemas em Edom (lRs 11,14-22.25). O prín-
cipe edomita Adad, que fora o único sobrevivente do massacre
de Joab e que encontrara refúgio no Egito, retornou à sua
terra natal quando soube que Davi e Joab estavam mortos; e naturalmente, nomeou-se rei. A história interrompe-se de
repente e o texto é incerto (v. 25). À parte do fato de
Adad causar um problema numa certa época, não temos conhe-
cimento de qual foi o seu sucesso, ou que medidas Salomão
tomou contra ele. Certamente Salomão nunca perdeu seu con-
trole sobre Edom, porque se isso tivesse acontecido, suas
manobras em Asiongaber, sobre as quais falaremos logo,
para não dizer nada de suas atividades relacionadas com o
comércio de caravanas da Arábia (c. 10,1-10.15), teriam
sido impossíveis de se realizar. Contudo, a conclusão que tira-
mos é que Adad foi uma fonte de contínuos desentendimentos,
talvez tirando algumas das partes mais inacessíveis do Edom,
pelo menos temporariamente, do controle israelita.

Os problemas da Síria eram mais complicados. Salomão
tinha herdado o controle das terras dos arameus, que iam do
norte da Transjordânia, através de Sobac, que parecia ter sido
uma ascendência nominal sobre o reinado de Emat, para o
norte. Já que nenhuma potência estava em condições de blo-
queá-lo, ele provavelmente era capaz de exercer um controle
mais ou menos eficiente sobre as rotas de caravanas que se
estendiam de norte para leste, em direção ao Eufrates. A
isto pode servir de referência (2Cr 8,4) sua atividade em
Tadmor (Palmira), e também a afirmação (lRs 4,24) de que
seu reinado se estendia até o Eufrates — nenhuma das quais
pode ser desmentida como uma simples invenção. Entretanto,
qualquer que fosse sua posição, ela foi seriamente abalada quando Razon, um antigo partidário de Adadezer, tomou Da-
masco com um bando de homens e proclamou-se rei (lRs 11,
23-25). Não sabemos qual foi a atitude tomada por Salomão,
nem seu resultado[8], nem em que período de seu reinado isso
ocorreu. Mas se conclui dos textos que nunca houve paz com
Razon. Quais tenham sido as baixas de Salomão na Síria não
se sabe. Embora provavelmente tivesse pelo menos controle
nominal sobre seus domínios arameus, exceto Damasco, sua
influência na Síria estava certamente enfraquecida. Com essas
exceções, contudo (e não podemos ter certeza de quão sérias
elas eram), Salomão manteve o império intacto.


2. A atividade comercial de Salomão

O verdadeiro “gênio” de Salomão, contudo, estava no se-
tor da indústria e comércio. Ele era capaz de compreender a
significação econômica de sua posição estratégica, abarcando as
maiores rotas de comércio norte-sul do Egito e da Arábia
até o norte da Síria, e também de captar as possibilidades
de sua aliança com Tiro. Suas aventuras comerciais foram nu-
merosas e. desde que o comércio estrangeiro era largamente um
monopólio real, isto constituiu uma fonte de grande riqueza
para o Estado.

a) O comércio do Mar Vermelho (lRs 9,26-28;10,llss. 22), — Inspirado pela expansão fenícia para o oeste e com
sua ativa cooperação, Salomão procurou desenvolver possibili-
dades similares pelo Mar Vermelho, para o sul. Certamente com
o auxílio de armadores fenícios, ele construiu uma frota mer-
cante em Asiongaber e, tripulando-a com marinheiros fenícios,
mandou-a em viagens comerciais regulares até Ofir, hoje equi-
valendo aproximadamente à atual Somália. Essas viagens dura-
vam um ano, e pelo menos parte de dois outros, presumivel-
mente para permitir que os navios ancorassem nos portos, dos
dois lados do Mar Vermelho. Trouxeram para Salomão os
produtos ricos e exóticos do sul: ouro e prata, madeiras raras,
jóias, marfim e, para seu divertimento real, macacos!


b) O comércio das caravanas com a Arábia. — Salomão
também estava interessado no comércio terrestre com o sul. A
visita da rainha de Sabá (lRs 10,1-10.13), um acontecimento
que de nenhum modo pode ser considerado como lendário,
tem que ser entendido sob esse prisma. Os habitantes de Sabá,
originalmente nômades, tinham por essa época se fixado e es-
tabelecido um reino, cujo centro estava localizado no que é hoje
o Iêmen oriental[9]. Sua estratégica posição, transversal às
rotas das caravanas do nordesde de Hadramaut, em direção à
Palestina e à Mesopotâmia, permitiu que eles dominassem o
comércio de especiarias e incenso, pelo qual o sudoeste da
Arábia era famoso. Explorando o grande uso do transporte em
camelos, estavam começando uma expansão comercial que,
em séculos subseqüentes, resultariam numa hegemonia comer-
cial que ia muito além da Arábia. É possível que, aproveitan-
do-se do fracasso do monopólio comercial do Egito na Etiópia
e na Somália, eles também tenham estendido seus interesses até
lá. A visita da rainha de Sabá é, por essa razão, compreensível.
Salomão não controlava apenas os terminais do norte das rotas
comerciais; suas transações marítimas tinham-no levado a uma
competição direta com o incipiente comércio das caravanas,
estimulando a rainha de Sabá a incrementá-lo em seu inte-
resse. Portanto, ela visitou Salomão, trazendo amostras de
suas mercadorias: ouro, jóias e especiarias. Pelo fato de Salo-
mão tê-la recebido regiamente, ela provavelmente conseguiu o
acordo que procurava. De qualquer modo (lRs 10,15), as
taxas e impostos do comércio da Arábia jorraram no tesouro de
Salomão[10].


c) A indústria do cobre. Não conhecemos as mercadorias
que Salomão exportava em troca das importações acima men-
cionadas. Certamente artigos de várias espécies, trazidos através
da Fenícia ou das rotas das caravanas da Síria, estavam dispo-
níveis para esse fim. Mas é provável que os carregamentos
dos navios de Salomão consistissem em grande parte de cobre.
Isto pode ser deduzido do fato desses navios serem chamados
(lRs 10,22) de navios tarshish, que eram grandes veleiros
de alto mar, como os construídos pelos fenícios para o trans-
porte de cobre em lingotes das minas e refinarias de Chipre
e da Sardenha.

Apesar da grande instalação descoberta em Asiongaber,
per muito tempo considerada uma refinaria de cobre, parecer
agora ter sido uma fortaleza e um armazém[11], é provável que
uma porção considerável da riqueza de Salomão proviesse de
recursos minerais. O cobre podia ser encontrado no vale do
Jordão e em Arabah, ao sul do mar Morto, onde minas
tinham sido exploradas até certo ponto, desde tempos remotos.
Salomão explorou-as ao máximo, abrindo minas e construindo
fornos por perto, para fundir o minério[12]. Essa indústria for-
neceu-lhe um amplo suprimento de cobre para uso doméstico
(temos conhecimento de que os vasos do Templo eram fundi-
dos numa fundição do vale do Jordão: lRs 7,45ss), e provavel-
mente ainda lhe sobrava para exportar, em troca de produtos
estrangeiros.

d) O comércio de cavalos e bigas. — Temos conhecimen-
tos dessas transações por meio de lRs 10,28ss, que, devido
a imperfeições no texto, foram mal entendidas na maioria das
traduções. Com uma ou duas pequenas modificações, podemos
ler aproximadamente o seguinte: “E a importação de cavalos
feita por Salomão era realizada de Cue (Cilicia); os compradores do rei adquiriam-nos em Cue, mediante pagamento à
vista. Uma quadriga era trazida e entregue do Egito por
seiscentos siclos de prata, e um cavalo da Cilicia por cento
e cinqüenta. E assim, eles eram entregues através de sua
agência (isto é, dos compradores de Salomão) a todos os reis
dos hiíitas e de Aram”[13]. Salomão, sem dúvida alguma, se
entranhou nisso durante a formação de seu exército. Grandes
quantidades de bigas e cavalos eram necessários. Como Israel
não fabricava bigas, nem criava cavalos, importava ambos.

Desde o período do império, o Egito tinha produzido as
melhores bigas, enquanto que a Cilicia era famosa, desde tem-
pos remotos, como a terra dos melhores cavalos. Por isso,
Salomão enviou seus agentes para estas terras, a fim de suprir
suas próprias necessidades. Mas então, percebendo que con-
trolava todas as rotas de comércio entre o Egito e a Síria, tor-
nou-se o intermediário de um lucrativo comércio, cujas condi-
ções eram: cavalos cilícios e bigas egípcias só poderiam ser
obtidos através de sua agência. Visto que este comércio era
um monopólio real, podemos ter certeza de que trouxe a Salo-
mão um lucro considerável.

3. A Idade de Ouro de Israel

A Bíblia, com justiça, descreve o reinado de Salomão como
sendo de prosperidade ímpar. Israel gozou de uma segurança
e de uma prosperidade material como nunca sonhara antes e
que nunca mais iria conhecer. Esta prosperidade, por sua vez,
permitiu um florescimento extraordinário das artes da paz.

a. A prosperidade econômica de Israel. — Salomão trouxe
prosperidade econômica para o país. Ele mesmo, enriquecido
pelo lucro de seu monopólio comercial e industrial e pelos
bens da coroa, tornou-se um homem extremamente rico. O nível
de vida do país como um todo também elevou-se consideravel-
mente. Os projetos de Salomão, apesar de monopólios estatais,
devem ter dado emprego a milhares e milhares e estimulado
outros de empresas privadas, elevando assim a capacidade
aquisitiva da nação inteira e propiciando uma prosperidade geral.
É difícil duvidar de que muitas pessoas tenham ficado ricas, ou a serviço de Salomão ou por esforço próprio. As cidades
cresceram (Jerusalém, por exemplo, que se expandiu além de
suas antigas muralhas), e muitas outras novas foram construí-
das. O fortalecimento da segurança pública é ilustrado pelo
abandono da prática de armazenar cereais em cavidades dentro
das muralhas da cidade. A introdução do uso geral de arados
com pontas de ferro (o monopólio filisteu, naturalmente, havia
acabado) aumentou a produtividade do solo, permitindo que
ele tolerasse um aumento de densidade demográfica. De acordo
com uma estimativa, a população deve ter duplicado desde os
dias de Sau[14].

b. As construções de Salomão: o templo. — A riqueza
de Salomão foi empregada em numerosos projetos de construção.
Já mencionamos anteriormente a cadeia de cidades no perímetro
interior de Israel, que eram fortificadas e guarnecidas como ba-
ses militares. Mas, além disto, explorações revelaram uma in-
teira rede de fortes, grandes e pequenos, que protegiam as rotas
de caravanas para o sul, através do Negeb, até Asiongaber,
onde uma construção que foi considerada como uma refinaria,
servia claramente de fortaleza para proteção do porto, assim
como um armazém, onde eram depositados os gêneros para os navios e caravanas comerciais.[15]

Mas o mais notável dos projetos de Salomão estava situado
na própria Jerusalém. Além de instalações militares e outras
obras, ele consistia de um exuberante complexo de estruturas,
erguidas ao norte da velha muralha da cidade de Jebus, das
quais a maís importante era o templo[16].

O templo foi construído por um arquiteto da cidade de
Tiro (lRs 7,13ss) que se baseou num modelo então em voga na Palestina e na Síria[17]. De forma retangular, voltava-se para
leste, com duas colunas independentes (v. 21), que apresentavam
na frente oráculos dinásticos[18]. A própria construção consistia de
um vestíbulo; a seguir, a entrada principal do santuário, o
“Lugar Sagrado” (hekhal), uma grande peça retangular, ilu-
minada por pequenas janelas abaixo do telhado; e, finalmente,
na parte traseira do templo, o “Santo dos Santos” (debir), um
cubículo sem janelas onde ficava a Arca. Lá, em sua casa terre-
na, o invisível Iahweh era imaginado como se estivesse em
seu trono, guardado por dois querubins gigantes. O templo
começou a ser construído no quarto ano do reinado de Salomão
(aproximadamente 959), sendo concluído sete anos depois (c. 6.37ss) e consagrado numa grande cerimônia, presidida pelo
próprio Salomão (c. 8).

O templo serviu para uma dupla finalidade. (Era um san-
tuário dinástico, ou capela real, e seu principal sacerdote era
um escolhido do rei e membro de seu gabinete; era também,
como a Arca indicava, considerado como o santuário nacional
do povo de Israel.) Seu ritual de sacrificio deve ter sido, em
essência, o que nos foi preservado no Código Sacerdotal. Uma
vez que a construção seguiu modelos fenícios, muito de seu
simbolismo inevitavelmente refletia uma base pagã. O mar de
Bronze (lRs 7,23-26), por exemplo, provavelmente simbolizava
a água doce do fundo do oceano, a fonte de vida e fertilidade,
enquanto que o Altar dos Holocaustos (cf. Ez 43,13-17),
parece sugerir originalmente a montanha dos deuses[19]. Isso
indiscutivelmente apresentava o perigo de conceitos pagaos in-
sinuarem-se na religião oficial de Israel. Contudo, podemos ter
como certo que, pelo menos em círculos oficiais, essas caracte-
rísticas recebiam uma base racional javista, servindo como símbolos do domínio cósmico de Iahweh. O culto do templo,
embora contivesse características estrangeiras, permaneceu intei-
ramente de natureza israelita. O templo e seu sacerdócio pro-
varam ter, em geral, uma profunda influência conservadora na
vida de Judá, como veremos.

Adjacentes ao templo, estavam as outras construções do
complexo palacial (lRs 7,1-8). Elas incluíam o próprio palácio que deve ter sido admirável, uma vez que levou treze anos
para ser construído; a “Casa do Bosque do Líbano”, assim
chamada devido às maciças colunas de cedro que a sustentavam,
as quais serviam como arsenal (lRs 10,16ss; Is 22,8) e como
tesouro (lRs 10,21); um salão de julgamentos, onde os negó-
cios de estado eram discutidos e onde se encontrava o grande
trono de marfim do rei (vv. 18-20), e um palácio para a filha
do faraó, todo decorado com o esplendor que lhe era devido.
Sem dúvida alguma, uma grande diferença da rústica corte de
Saul!

O florescimento da cultura. — A glória de Salomão
não se constituía só de coisas materiais, porque fez-se acom-
panhar por um extraordinário florescimento cultural. Apesar de
não termos nenhuma inscrição contemporânea do século décimo
israelense, salvo o calendário Gazer[20] a escrita foi sem dúvida
alguma praticada largamente. A maior parte desta escritura
não era, naturalmente, de cunho literário. Todos os Estados
antigos mantinham uma equipe de escribas para lidar com
correspondência diplomática, manter arquivos oficiais e atender
à administração rotineira. Salomão, certamente, precisava de
um grande número deles, e suas produções devem ter sido
numerosas. Apesar de nenhum dos arquivos oficiais de Salomão
terem sobrevivido, é a uma condensação deles (lRs 11,41) que
devemos todos os nossos conhecimentos sobre seu reinado. Mas
também havia atividade genuinamente literária, em Israel e
em outros lugares, provavelmente centrada no templo. Israel
encontrava-se exatamente no fim de sua era heróica, num
ponto em que os homens naturalmente não impelidos a relatar
os acontecimentos do passado. E os israelitas — certamente porque sua fé se radicava em eventos históricos — tinham um
pendor marcante pela história. Começaram, portanto, a produ-
zir, e na mais clara das prosas, uma literatura de caráter histó-
rico, sem par no Velho Mundo. Salienta-se nessa categoria
a incomparável História da Corte de Davi (2Sm 9-20; lRs
1-2) da qual já falamos, certamente escrita durante o reinado
de Salomão. As heróicas narrativas de Davi, Saul e Samuel
foram do mesmo modo coletadas e postas em forma literária.
As tradições épicas dos primordios de Israel — dos patriarcas,
do êxodo e da conquista, já tinham assumido forma literária na
época dos juizes. Foi, contudo, aproximadamente no reinado
de Salomão que o Javista (o chamamos assim à falta de outro
nome), selecionando material dessas tradições e adicionando ou-
tros, moldou sua grande história teológica do relacionamento
de Iahweh com seu povo, suas grandes promessas e seus
grandes feitos. Esse documento, que forma a base da narrativa
do Hexateuco, é uma das obras-primas da Bíblia.

A música e a salmodia também floresceram, principal-
mente quando Salomão investiu largamente os recursos do
Estado no novo templo, enriquecendo seu culto de várias ma-
neiras (cf. lRs 10,12). Apesar de sabermos muito pouco
sobre as técnicas musicais que prevaleciam na época para
fazer uma afirmação definitiva, a música israelita, sob a in-
fluência fenícia, provavelmente alcançou logo níveis de exce-
lência, iguais aos de nossos dias. Salmos de origem canaanita
foram adaptados para uso israelita (SI 29;45;18 etc., são
exemplos), e outros novos, sem dúvida alguma, foram compos-
tos. Não podemos dizer exatamente quantos Salmos do Saltério
já existiam nesse tempo; mas uma grande quantidade deles cer-
tamente já existia, apesar de muitos outros, que antes eram
usuais, terem sido esquecidos desde então. A sabedoria também
se desenvolveu. A Bíblia descreve Salomão como um homem ex-
tremamente sábio (lRs 3,4-28;10,7.23ss), que também gozava
de fama internacional como autor de provérbios (c. 4,29-34). A
afirmação é difícil de se avaliar, uma vez que não conhecemos
as sábias palavras atribuídas a Salomão. Mas é razoável afir-
mar que a tradição da sabedoria de Israel, da qual o Livro
dos Provérbios é a essência, começou a florescer nesta época[21].

Apesar de “Os Provérbios” serem um livro pós-exílico, não há
nenhuma razão para considerar a sabedoria hebraica como um
desenvolvimento pós-exílico, e menos ainda para supor que
representa uma aquisição tardia de supostas fontes edomitas ou
norte-arábicas. Uma literatura gnômica existira já no segundo
milênio, e muito antes em todo o mundo antigo, particularmente
no Egito, mas também em Canaã (como os provérbios nas
Cartas de Amarna, os textos de Ras Shamra etc., como o
indicam os canaanismos do “Livro dos Provérbios”). Sabe-se que
parte de “Os Provérbios” (cf. cc. 22 a 24) baseia-se nas
Máximas Egípcias de Amenemope (que datam do fim do
segundo milênio). Não há razão para duvidar que a sabedoria
tenha florescido em Israel no século décimo, provavelmente atra-
vés de mediação canaanita [22], e cultivada na corte de Salomão.



4. Â sobrecarga da Monarquia

Descrevemos até aqui o reinado de Salomão sob um
aspecto bastante favorável. Mas há mais a ser dito. A Bíblia nos
permite ver o outro lado do quadro, muito menos brilhante,
que mostra claramente que na Idade de Ouro nem tudo era
ouro. Para alguns, trouxe riqueza; para outros, escravidão. O
Estado crescia em poder e Israel gemia numa opressão sem
precedentes.

a) Os problemas fiscais de Salomão. — O Estado de-
frontava-se com um dilema financeiro crônico. Apesar de toda
a genialidade de Salomão, os recursos de que dispunha eram
muito parcos para dar uma base sólida à prosperidade nacio-
nal. Ou, em outras palavras, a despesa superava a receita.
Quando pensamos sobre os projetos de construção de Salomão,
em seu exército, em seu pródigo auxílio ao culto e no sun-
tuoso luxo que o cercava, isso é compreensível. Para completar,
a administração do Estado e seus numerosos empreendimentos
requeriam uma burocracia ainda maior, cuja manutenção era
certamente considerável. Salomão parece ter criado mais dois
postos, além dos que já existiam (lRs 4,1-6): um oficial supe-
rior (al hannissabin), certamente o comandante da administração provincial e distrital, e um primeiro ministro ou vizir (al
habbayit), que também era prefeito do palácio (cf. 2Rs 15,5;
Is 22,21ss). Mas oficiais subalternos devem ter existido em
grande número. O lRs 9,23 menciona 550 homens somente para
supervisionar as obras. As fontes de renda de Salomão, apesar
de numerosas, eram insuficientes. Aparentemente, Davi manti-
nha uma corte muito mais modesta, com suas próprias rendas
e os tributos recebidos de seus súditos estrangeiros, sem, ao
que sabemos, oprimir seu povo com pesados encargos. Com
Salomão, contudo, as conquistas tinham terminado; embora as
despesas aumentassem, a receita conseguida com os tributos
não aumentava proporcionalmente. O comércio era extremamen-
te lucrativo, mas, uma vez que para cada produto da terra
exportado tinha que ser importado algum outro artigo, não
era suficientemente lucrativo para diminuir o déficit e norma-
lizar o insuficiente orçamento nacional. Salomão, portanto, foi
obrigado a tomar medidas drásticas.

b) Os distritos administrativos de Salomão. — Salomão
sobrecarregou seus súditos de impostos. Para que a arrecadação
fosse eficiente, ele reorganizou os seus domínios, dividindo-os
em doze distritos administrativos, cada qual com um governador
responsável (lRs 4,7-19)[23]. Embora em alguns casos esses
distritos coincidissem mais ou menos com as áreas tribais,
freqüentemente as fronteiras dessas áreas não eram respeitadas.
Além disso, o território das antigas cidades-estados canaani-
tas foi incluído na divisão. A finalidade dessa medida foi, prin-
cipalmente, obter maiores fontes de renda. Cada distrito era
obrigado a fornecer à corte provisões para um mês do ano
(v. 20); julgado pelos versículos 22ss, isto deve ter provo-
cado uma terrível pressão sobre os distritos, calculando-se su-
perficialmente cem mil pessoas como parte de cada distrito.
Contudo, além das fontes de renda envolvidas, Salomão sem
dúvida alguma, procurou ainda, enfraquecendo os vínculos tri-
bais, integrar a população canaanita mais profundamente dentro
do Estado, para consolidar o poder mais firmemente em suas
próprias mãos. Os governadores eram pessoas nomeadas por Salomão, responsáveis diante de um oficial de seu gabinete;
dois deles eram seus próprios genros.

A posição de Judá nessa reorganização é objeto de diver-
gência. Alguns estudiosos acreditam que o texto corrompido do
v. 19 menciona um governador de Judá (cf. RSV). Uma su-
gestão ainda mais plausível é a de que Judá foi igualmente
dividida em doze distritos e que a relação em que eles aparecem
está preservada em Js 15,21 a 62. Apesar desta relação datar
provavelmente do século seguinte[24], o sistema quase certamente
remonta pelo menos acs dias de Salomão[25]. De qualquer
modo, tratou-se de um passo radical e decisivo, e não apenas
porque impunha ao povo um fardo sem precedentes. Significava
que o antigo sistema tribal, já em grande parte declinando,
tinha sido, no que concernia a suas funções políticas, virtual-
mente abolido. No lugar de doze tribos, uma de cada vez,
ter a responsabilidade do santuário central, havia doze distritos
tributados para manter a corte de Salomão!

Outras medidas fiscais e administrativas. — Eucurrala-
do entre sua crônica situação financeira e a necessidade de pro-
videnciar mão-de-obra para seus numerosos projetos, Salomão
recorreu à odiada corvéia. Escravidão estatal e trabalho forçado
para o Estado eram práticas comuns no mundo antigo. Quando
Davi sujeitou os povos conquistados ao trabalho obrigatório
(2Sm 12,31), os israelitas provavelmente o aceitaram como
fato consumado. Salomão deu continuidade a esta política e a
ampliou, exigindo que a população canaanita da Palestina for-
necesse levas de escravos (lRs 9,20-22; cf. Jz 1,28.30.33).
Subseqüentemente, contudo, quando até mesmo essa fonte de
trabalho mostrou-se inadequada, Salomão foi mais longe, inau-
gurando a corvéia em Israel: equipes de trabalho foram recruta-
das e forçadas a trabalhar por turnos em derrubadas de madeira
no Líbano, para os projetos de construção de Salomão (lRs.5,13ss)[26]. Isto representou, ao mesmo tempo, uma exploração
do trabalho humano[27] e uma amarga dose para os israelitas,
que nasceram livres, engolir. Onde estaria agora a orgulhosa
união dos clãs? Salomão usou amplamente o trabalho escravo.
Escravos, sem dúvida alguma, eram usados nos trabalhos das
minas e fundições de Arabah (os trabalhadores livres certa-
mente se rebelariam contra essa miserável condição de vi-
da) [28]; o índice de mortalidade deve ter sido aterrador. Esses
escravos, com certeza, eram tirados da população não-israelita,
uma vez que é improvável que Salomão tivesse ousado sujeitar
seu povo a uma escravidão estatal declarada. Entretanto, a cor-
véia causou bastante ressentimento, como veremos.

Os problemas financeiros de Salomão levaram-no ainda
a mais uma medida drástica, da qual temos conhecimento.
Trata-se da cessão de algumas cidades ao longo da fronteira,
perto da baía de Acre (lRs 9,10-14), ao rei de Tiro. Apesar
de se poder supor (v. 11) que Salomão tenha tomado essa
medida para poder pagar a Hiram o fornecimento de material
de construção, é evidente que isto não é verdade; as cidades
(v. 14) eram simplesmente vendidas, ou então apresentadas
como garantia de um empréstimo em dinheiro e sem resgate
futuro [29]. Duvida-se que isto pudesse ter sido uma transação
costumeira em Israel. De qualquer modo, quando uma nação
começa a vender seu território, é evidente que sua situação
financeira é de fato caótica. 

c. A transformação interna de Israel. — Bem mais
significativa que qualquer medida tomada por Salomão foi a
gradual mas implacável transformação interna que ocorreu em Israel, e que foi realmente completada nos dias de Salomão.
Pouco restou da antiga ordem de coisas. A confederação tribal,
com suas instituições sagradas e sua liderança carismática, deu
lugar ao estado dinástico, sob o qual todos os aspectos da vida
nacional foram progressivamente organizados. No processo, toda
a estrutura da sociedade israelita foi profundamente afetada.

As etapas pelas quais essa transformação aconteceu já
foram descritas. A reorganização administrativa do território,
feita por Salomão, e que assinalou o fim efetivo da organi-
zação tribal, pode ser considerada como tendo alcançado seu
clímax. Apesar de persistirem alguns vínculos tribais e o sis-
tema das doze tribos continuar como uma tradição sagrada,
em escala nacional, as tribos não eram mais consideradas como
tais. A independência tribal terminara. Os homens das tribos,
que não tinham conhecido anteriormente uma autoridade cen-
tral e qualquer obrigação política, salvo quando eram recruta-
dos em tempos de perigo (o que poderia conseguir-se, quando
muito, apenas por sanções religiosas), eram agora reorganiza-
dos em distritos governamentais, sujeitos a pesados impostos
e ao recrutamento para serviço militar — o qual, no reinado
de Salomão, havia se tornado recrutamento para serviço manual.
O sistema tribal estava acabado; a base efetiva de obrigação
serial não era mais a aliança com Iahweh, mas o Estado. E
isto significava inevitavelmente que a lei da aliança perdera
muito de sua importância na vida rotineira.

Mais do que isso, a estrutura da sociedade tribal fora des-
truída. Uma forte superestrutura comercial e industrial tinha
sido inserida na sociedade tradicionalmente agrária e pastoril.
Israel não era mais uma simples nação de pequenos lavradores.
Os projetos de Salomão trouxeram centenas de pessoas do
campo para as cidades, assim erradicando-os de vínculos e pa-
drões tribais. A medida que as cidades cresciam, o desenvolvi-
mento econômico elevava o nível de vida da nação e a influên-
cia estrangeira fazia-se sentir, uma cultura urbana até então
desconhecida surgia e tomava vulto em Israel. Além disso, a
absorção da população canaanita tinha trazido a Israel milhares
de pessoas de origem feudal e sem nenhuma noção de leis
convencionais, para quem as distinções de classes eram uma
coisa natural. Enquanto isto, o crescimento de uma classe mais
abastada fazia aumentar a diferença entre ricos e pobres. Em
resumo, a democracia tribal se enfraquecera, e anunciava-se o
começo — apenas o começo — de um cisma na sociedade israelita. Havia proprietários, trabalhadores assalariados e es-
cravos; e havia os que se imaginavam aristocratas. Na corte,
onde, nos dias de Salomão, se havia criado toda uma geração
nascida para a riqueza, ninguém considerava o povo como
outra coisa que não pessoas que podiam ser dominadas de
corpo e alma (lRs 12,1-15).

A religião também não escapou da centralização da vida
sob a coroa. Trazendo a Arca para Jerusalém, Davi tinha a
esperança de unir o Estado com as tradições da liga da aliança,
dando portanto ao Estado uma base teológica. Salomão favo-
receu essa política com a construção do templo: a Arca da
Aliança estava guardada no santuário oficial da dinastia. Isto
quer dizer que o ponto central da antiga forma de governo foi
assumido pela nova e por ela organizado. Davi e Salomão
realizaram o que Saul não conseguira: uniram a comunidade
secular e a religiosa sob a coroa. Samuel renegou Saul e o
arruinou; mas foi Salomão quem arruinou Abiatar!

5. O problema teológico da Monarquia

Do nosso ponto de vista atual, pelo menos, a nova forma
de governo trouxe simultaneamente a Israel tantos aspectos
positivos e negativos, que é difícil fazer uma simples avaliação.
Não é, portanto, de admirar que o próprio Israel nunca tivesse
uma opinião única sobre o assunto. A monarquia era uma
instituição problemática, que alguns acreditavam ser uma dá-
diva divina e que outros achavam intolerável. Tratando-se da
noção que Israel tinha de reino e estado, nunca devemos ge-
neralizar.

Aliança com Davi. — Em vista do que foi dito, é fácil
descobrir por que muitos israelitas odiavam e temiam as mu-
danças que a monarquia trouxera, e viviam cheios de amargo
ressentimento contra a casa de Davi. Outros israelitas, certa-
mente, tinham uma opinião diferente. Os que se tinham be-
neficiado pessoalmente com a nova ordem, naturalmente tinham
que ser seus partidários, e não eram poucos. Além disso, as
realizações de Davi e Salomão tinham sido tão brilhantes e
tinham feito tanto pelo país, que muitos devem tê-las consi-
derado como uma obra da divina providência e a justificação de
tudo aquilo que a religião os havia ensinado a acreditar. Israel
estava finalmente em plena posse da terra prometida a seus pais, e se havia tornado uma nação forte e próspera (cf. Gn 12.1-3; c. 15). Muitos devem ter sentido, assim como os
jávistas parecem ter sentido, que a aliança com Abraão se rea-
lizara — mas em Davi.

Davi e Salomão tiveram sucesso, de qualquer modo, dan-
do a seu governo uma legitimação teológica, que satisfazia >a
muitos de seus súditos. A transferência da Arca para Jerusalém
e a edificação do templo nesta cidade serviam para predispor
os sentimentos nacionais em favor da nova capital e para
fortalecer a convicção de que a Casa de Davi era a legítima
herdeira da antiga forma de governo de Israel. Antigas narra-
tivas (por exemplo, lSm 25,30; 2Sm 5,2) e poemas (por exem-
plo, SI 78:67-72) dão ênfase ao fato de que Davi havia subido
ao trono por designação divina. E embora Salomão tenha suce-
dido ao trono de um modo inteiramente novo, e não livre de
suspeitas, estes poemas e narrativas encontram-se em dificuldade
par׳a esclarecer se tal sucessão foi legítima (2Sm cc. 9 a 20;
lRs cc. 1-2). Logo se firmou o dogma de que Iahweh tinha
escolhido Sião como sua eterna morada, fazendo um pacto com
Davi, para que sua descendência reinasse para sempre. Este
dogma já estava provavelmente bem estabelecido nos reinos de
Davi e Salomão, e ajuda a explicar a lealdade de Judá à
Casa de Davi. O carisma e a designação divina tinham, teorica-
mente, sido transferidos perpetuamente do indivíduo para a
dinastia

Vê-se melhor a teologia da realeza de Davi nos salmos
reais[30], os quais, apesar de não poderem ser datados com
precisão, são todos anteriores ao exílio e, em sua maior parte,
relativamente antigos. Sua expressão clássica está, entretanto,
no oráculo de Natan (2Sm 7,4-17), que indubitavelmente
apresenta um núcleo antigo[31]. Também é encontrado no velho
poema de 2Sm 23,1-7, atribuído ao próprio Davi[32]. A essência dessa teologia é que a escolha da cidade de Sião por
Iahweh e a Casa de Davi são eternas (SI 89,3ss; 132,11-14):
apesar dos reis poderem ser punidos por seus pecados, a dinas-
tia nunca poderia ser extinta (2Sm 7,14-16; SI 89,19-37).
O rei reinava como o “filho de Iahweh” (SI 2,7; 2Sm 7,14),
seu “primogênito” (SI 89,27) e seu “ungido” (SI 2,2; 18,50;
20,6). Na medida em que o rei tinha sido estabelecido em
Sião por Iahweh, nenhum inimigo poderia prevalecer contra
ele (SI 2,l-6;18,31-45;21,7-12;132,17ss; 144,10ss); ao contrá-
rio, as nações estrangeiras se submeteriam ao seu governo (SI
2,7-12;18,44ss;72,8־ll). A aliança de Davi seguiu o padrão
da aliança patriarcal, porque baseava-se nas promessas de
Iahweh para o futuro e possuía caráter incondicional.[33] Uma
certa tensão com a aliança do Sinai e suas estipulações talvez
fosse inevitável.

a. O Rei e o culto. — Todavia, isto significava que a
instituição da realeza, originalmente estranha a Israel e aceita
de má vontade por muitos, tinha conseguido um lugar na teo-
logia javista. A realeza, em Israel como em qualquer outra
parte, era uma instituição sagrada, isto é, não secular: tinha
bases teológicas e litúrgicas. Uma noção oficial de realeza era
reafirmada regularmente durante o culto, no qual, em ocasiões
festivas — provavelmente, em especial na grande festa outonal
do ano novo — o rei desempenhava um papel importante.
A natureza do culto real e da ideologia da realeza em Israel
provocou infindáveis debates. Nada mais podemos fazer além
de simplesmente expressar uma opinião a respeito. Somos
impedidos de fazê-lo pelo fato da Bíblia não fornecer nenhu-
ma informação direta sobre o assunto, deixando-nos fazer de-
duções por nós mesmos, baseados em passagens isoladas, particularmente dos Salmos, a respeito de uma interpretação sobre
a qual não há nenhuma unanimidade.

Alguns estudiosos afirmam que, adotando a instituição
da realeza, Israel também adotou uma teoria pagã da realeza
e um padrão ritual, para expressá-la de modo supostamente co-
mum a todos os seus vizinhos[34]. O rei era considerado como
um ser divino ou semidivino, o qual, por ocasião das festivi-
dades do Áno-novo, no papel do deus da fertilidade, que
morria e ressuscitava, reatava ritualmente a luta da criação
e a vitória sobre as forças do caos, o sagrado matrimônio e a
reassunção do deus a seu trono; dessa maneira, pensava-se
que se efetuava o renascimento anual da natureza, o bem-estar
da terra e o lugar do rei no trono, garantidos para o ano que
começava. Esse ponto de vista tem que ser totalmente rejei-
tado [35]. Não há nenhuma prova concreta da existência de
qualquer padrão ritual ou teoria da realeza dessa espécie em
todo o mundo antigo, muito pelo contrário [36]. Nem é crível que
uma estrutura tão essencialmente pagã e tão incompatível com
o Javismo normativo pudesse ser aceita em Israel sem vio-
lentos protestos; por mais que procuremos qualquer coisa a
respeito nas palavras proféticas, não acharemos nada.

O rei de Israel era chamado o “filho de Iahweh”, mas
apenas num sentido adotivo (cf. SI 2,7) [37]; ele era o substituto
de Iahweh, reinando por escolha e sob permissão divina,
com a tarefa de promover justiça sob pena de punição (SI 72,1-4.12-14;89,30-32). Ele estava sujeito à censura dos profe-
tas de Iahweh, censura que freqüentemente recebia.

É realmente provável que certos aspectos da idéia de
Israel sobre a realeza fossem recebidos de fora. A monarquia
israelita foi, afinal de contas, uma inovação que não mostrava
nenhum precedente israelita. Uma nação que absorvera milhares
de canaanitas, que formara a maior parte da burocracia inspi-
rada em modelos estrangeiros e cujo santuário nacional fora
construído conforme um modelo canaanita, sem dúvida alguma
assimilou de fora certos aspectos de seu culto — e do seu
ideal de realeza. Mas o que quer que tenha vindo de fora foi
harmonizado, pelo menos nos círculos oficiais, com o Javismo
normativo. Alguns estudiosos acreditam que Israel celebrava a
festa da entronização de Iahweh no Ano-ncvo, sendo ela
comparável à da Babilônia, com a diferença de que a luta
ritualmente representada não era com poderes míticos do caos,
mas com cs inimigos históricos de Israel e de Iahweh [38]. Em-
bora não seja inteiramente fora de propósito, essa teoria está
longe de ser provada; baseia-se somente na interpretação de
certos salmos e outros textos de natureza litúrgica, os quais
podem ser todos interpretados de outro modo[39]. É bem mais
provável que a representação ritual da festa do Ano-novo não
fosse a entronização de Iahweh, mas sua vinda a Sião para
assumir sua residência terrena e cumprir sua promessa a Davi
de um reinado eterno [40].

De qualquer modo, a escolha de Sião e de Davi por Iahweh
certamente recebeu ênfase no culto; e disso resultaram conseqüências teológicas de profunda significação. Por outro lado,
o processo que levava a unir toda a esperança de Israel em
Jerusalém, a Cidade Santa, e dar uma forma de expressão nova
e normativa à característica de promessa da religião de Israel,
tinha sido posto em prática. As glórias de Davi e Salomão, que
a muitos pareceram a realização dessa promessa, logo se des-
vaneceram. Mas como as promessas a Davi e o ideal de
realeza foram reafirmados no culto através dos anos, quando
eles eram apenas e nada menos que realidades, firmou-se a
esperança de um filho de Davi ideal, que deveria vir, sob cujo
reinado, justo e triunfante, as promessas deveriam tornar-se
realidade. O culto foi a fonte da qual brotou a expectativa
de Israel em torno de um messias. O que esta expectativa
fez para modelar a fé e a história de Israel através dos séculos
que viriam é incalculável.

Por outro lado, a integração do Estado com o culto, e
também com sanções divinas, teve conseqüências de modo
algum satisfatórias. Era a inevitável tentação de santificar o
Estado em nome de Deus e supor que as finalidades do Estado
e da religião deveriam necessariamente coincidir. A opinião
geral era de que o culto baseava-se na função inteiramente pa-
gã de garantir a segurança do Estado e manter um equilíbrio
harmonioso entre a ordem terrena e a divina, a qual deveria
proteger o Estado contra infortúnios internos e externos. Na
grande festa de outono, a aliança com Davi, inevitavelmente,
tendia a colocar em segundo plano a aliança do Sinai e suas
exigências, provocando deste modo uma tensão entre ambas.
Segundo o conceito geral, as promessas a Davi e a presença de
Iahweh no templo garantiam a perpetuação do Estado. Sugerir
que o Estado pudesse cair, seria o mesmo que acusar Deus
de violação da aliança.

b. Tensão com a Monarquia. — Para melhor ou para
pior, Israel tinha sido submetido à monarquia. Apesar de
alguns, pensando na antiga ordem, rejeitarem a nova como
uma rebelião contra Deus (cf. ISm 8;12), não havia real-
mente nenhuma possibilidade de retorno às condições pré-
-monárquicas, e provavelmente poucos em Israel pensassem
seriamente nisto. Contudo, a monarquia não era algo que os
israelitas estivessem prontos a aceitar como um fato consumado. Ainda viviam alguns que podiam lembrar-se do tempo em que
ela não existia, e que tinham testemunhado de que maneira
ela se tornou realidade. Ela permaneceu, por essa razão, como
instituição problemática, sobre a qual Israel pronunciou um
duplo veredicto. Alguns, inquestionavelmente, aceitaram o es-
tado davídico como uma instituição divinamente ordenada e
estavam mesmo prontos a considerar a realeza sob um aspecto
completamente pagão. Outros, não menos leais à Casa de
Davi, nunca se esqueceram de que ela governava com a tole-
rância de um Deus que tinha feito aliança com Israel, estando
sujeita à crítica, à luz de uma tradição mais antiga. 

Outros, principalmente no norte, apesar de não terem
nenhuma noção de uma volta consistente à antiga ordem, re-
cusaram-se a aceitar o princípio da sucessão dinástica e rejei-
taram as aspirações da Casa de Davi a reinar perpetuamente.
Muitos deles rebelaram-se contra a tirania de Salomão, que eles
consideravam como a personificação de tudo o que um rei não
deveria ser (Dt 17,14-20)[41] e, longe de considerar o Estado
como uma instituição divina, consideravam-no intolerável.

A monarquia, portanto, nunca se livrou da tensão. Nem
Davi, nem Salomão, com todo o seu brilhantismo, conseguiram
resolver seus problemas fundamentais — principalmente o de
diminuir a diferença entre a independência tribal e as exigências
da autoridade central, bem como entre a tradição anfictiônica e
as exigências da nova ordem. Pelo contrário, a política opressiva
de Salomão aumentou irremediavelmente a diferença. Apesar
de Salomão não se defrontar com nenhuma rebelião séria, os
problemas que tinham assediado Davi em sua velhice haviam
sido apenas afastados, mas não solucionados. Perto do fim de
seu reinado (lRs 11,26-40)[42], quase houve uma rebelião, quan-
do um homem de nome Jeroboão, que era certamente chefe
de corvéia das tribos de José (v. 28)[43], tramou uma rebelião
com a ajuda do profeta Aias. A conspiração foi abafada, e Jeroboão forçado a procurar refúgio no Egito[44]. Mas as causas
mais profundas do descontentamento não foram removidas, e
tampouco, ao que sabemos, qualquer tentativa foi feita para
tanto. Antes da morte de Salomão, as tribos do norte já
tinham sido completamente afastadas da Casa de Davi. 



[1] Veja nota 28 acima. A data para o fim do reinado de Salomão, sobre a qual a estimativa está baseada, é a de Albright, in BASOR, 100 (1945), pp. 16-22; cf. também M.B. Rowton, in BASOR 119 (1950), pp. 20-22. Outros sistemas de cronologia diferem um pouco; cf. c. ó, nota 1, abaixo, para referências. 

[2] Gazer foi destruída na metade do século décimo e reconstruída por Salomão. Sobre as escavações no local, cf. H. B. Lance, in BA, XXX (1967), pp. 34-47; W. G. Dever, ibid.., pp. 47-62. Outras cidades foram destruídas mais ou menos na mesma época (Tell Mor, o porto de “Asdod” e talvez Bet-Sames), possivelmente no decorrer da mesma campanha. 

[3] Cf. especialmente A. Malamat, in JNES, XXII (1963), pp.
10-17; v. também G. E. Wright, in BA, XXIX (1966), pp. 70-86.
Sobre Gazer, veja acima, p. 259 e nota 35, no mesmo local. 

[4] Veja especialmente Albright, The Role of the Canaanites in the History of Civilization, (ed. rev. in BANE, pp. 328-368); idem, in CAH, II: 33 (1966), pp. 33-43. 

[5] Cf. Alt, o.c., pp. 231ss. Havia também uma Baalat (Baalath) em
Dan (Js 19,44), e outra no Negeb (Js 15,29) — e Cariat-jearim também
era chamada Baala (cf. Js 15,9ss; 2Sm 6,2). As duas primeiras são de
localização incerta; mas uma e outra são possíveis. 

[6] Qere e 2Cr 8,4, lêem “Tadmor”, isto é, Palmira, um centro de
caravanas no deserto da Síria, a leste de Sobac. Sobre a atividade de
Salomão na Síria, veja adiante. Mas, neste contexto, Tamar está certo,
uma vez que as cidades relacionadas formam um círculo de defesa em
torno da terra de Israel. Sobre as fortificações salomônicas no Negeb,
veja mais adiante. 

[7] Sobre a evidência de Megiddo, cf. Y. Yadin, in BA, XXXIII (1970), pp. 66-96; sobre Hazor, idem, in AOTS, pp. 244-263, e as refe rências ibid.; mais recentemente in BA, XXXII (1969), pp. 50-71. Sobre Gazer, veja os artigos relacionados na nota 66, acima. J. B. PRIT-chard, entretanto, pôs em dúvida se as edificações de Megiddo eram realmente estábulos; cf. J. A. Sanders, ed., Near Eastern Archaeology in the Tiventyeth Century, Doubleday & Company, Inc. 1970, pp. 267-276. 

[8] A não ser que a referência críptica a uma campanha em “Hamat
Soba” (2Cr 8,3) diga respeito a esta passagem; cf. Aharoni, in LOB,
p. 275, que lê “Bet-soba”, com LXX, e sugere que Salomão pode ter
fortalecido sua posição em Celessíria e em Tadmor, em reação à perda
de Damasco. 

[9] Sobre o começo da expansão dos sabeus, cf. Albright, in ARI,
pp. 129-131; idem, in BASOR, 128 (1952), p. 45; idem, in JBL,
LXXI (1952), pp. 248ss; G. van Beek, in BA, XV (1952), pp. 5ss.
Sobre o comércio de especiarias e incenso, cf. idem, in JAOS, 78 (1958),
pp. 141-152; v. também BA, XXIII (l960), pp. 70-95. Sobre uma
relação popular de explorações na Arábia do Sul, cf. W. Phillips, Qata-
ban, and Sheba, Harcourt, Brace & Company, 1955. 

[10] Uma efígie de argila da Arábia do Sul datando aproximadamente
do século nono, encontrada em Betel, indica relações comerciais entre
os dois países pouco depois da época de Salomão; cf. G. W. van Beek
e A. Jamme, in BASOR, 151 (1958), pp. 9-16. Esta efígie, espan-
tosamente semelhante a uma encontrada na Arábia do Sul por T. Bent
e divulgada em 1900, tendo desaparecido logo depois, deve provavel-
mente ter sido “plantada” em Betel; cf. Y. Yadin, in BASOR, 196
(1969), pp. 37-45. Mas, à luz das observações de Van Beek e Jamme, bem como de J. L. Kelse, ibid., 199 (1970), pp. 59-65, isto
parece impossível. 

[11] Cf. o artigo de B. Rothenberg citado na nota seguinte, pp.
44-56. Esta é reconhecida pelo próprio escavador; cf. N. Glueck, in
BA, XXVII (1965), pp. 70-87; BASOR, 179 (1965), pp. 16-18. 

[12] Cf. B. Rothenberg, Ancient Copper Industries in the Western
Arabah, in PEQ, 94 (1962), pp. 5-71. As relações das explorações de
N. Glueck estão espalhadas pelos arquivos de BASOR (cf. n° 179 , p. 6, nota 1, para uma listagem parcial); veja idem, Rivers
in the Desert, 2· ed., W. W. Norton & Company, Inc., 1968, especial-
mente pp. 153-157. 

[13] Assim, aproximadamente RSV. Para discussão, cf. Albright, in 

[14] Albright, (in BP, p. 56) calcula que a população era possivelmente de oitocentos mil, contando somente os nativos israelitas. 

[15] Cf. Y. Aharoni, in IEJ, 17 (1967), pp. 1-17; idem, in AOTS, pp. 389-394. 

[16] Entre outras fontes, cf. Albright, in ARI, pp. 138-150; A.
Parrot, The Temple of Jerusalem, Trad, ingl.: SCM Press, Ltd., Londres,
1957; G. Wright, Salomon’s Temple Resurrected, in BA, IV (1941),
pp. 17-31; idem, in BA, VII (1944), pp. 65-77; BA, XVIII (1955),
pp. 41-44; P. L. Garber, in BA, XIV (1951), pp. 2-24; v. também
Garber, Albright e Wright, in JBL, LXXVII (1958), pp. 123-133 

[17] Um templo um pouco posterior em Teltainat, na Siria, foi por
muito tempo o mais perfeito paralelo conhecido; mas atualmente há
outros, notavelmente um do último período da Idade do Bronze, em
Hazor; cf. Y. Yadin, in BA XXII (1959), pp. 3ss. O mais interessante
de todos é um templo israelita em Arad, que foi construido no sé-
culo décimo e continuou em uso pelo menos através do século oitavo. Cf.
Y. Aharoni, in BA, XXXI (1968), pp. 2-32; idem, The Israelite
Sanctuary at Arad, in New Directions in Biblical Archeology, D. N.
Freedman and J. C. Greenfiel, eds., Doubleday & Company, Inc., 1969,
pp. 25-39. 

[18] Cf. R. B. Y. Scott, in JBL, LVII (1939), pp. 143-149; Albright,
in BASOR, 85 (1942), pp. 18-27; H. G. May, in BASOR, 88 (1942),
pp. 19-27. 

[19] Para discussão posterior, veja Albright, in ARI, pp. 144-150. 

[20] Cf. Pritchard, in ANET, p. 320, para o texto. O mais antigo
e notável “óstraco” de Arad (mais de 200 ao todo) é da última parte
do décimo século, mas trata-se de um fragmento com apenas algumas
letras; cf. Ahroni, The Israelite Sanctuary at Arad, Freedman & Green-
field, eds., o.c. (na nota 82), p. 27. 

[21] Excelentes abordagens do assunto sob vários pontos de vista podem ser encontradas em Wisdom in Israel and in the Ancient Near East, M. Motj e D. Winton Thomas, eds. in VT, Suppl., Vol. III (1955); cf. também W. Baumgartner, The Wisdom Liierature, in OTMS, pp. 210-237; A. Alt, Die Weisheit Salomos, in KS, II, pp. 90-99. 

[22] Os sábios Etan, Eman, Calcol e Darda (lRs 4,31) têm todos nomes canaanitas: cf. Albright, in ARI, pp. 122ss; idem, in YGC, pp. 217-219. 
[23] Veja A. Alt, Israels Gaue under Salome in KS, II, pp. 76-89; W. F. Albright, The Administrative Divisions of Israel and Judah, in JPOS, V (1925), pp. 17-54; Aharoni, in LOB, (1967), pp. 58-68, onde há mais literatura a respeito. 
[24] Cf. F. M. Cross e G. E. Wright, in JBL, LXXV (1956), pp. 202-226. Veja mais adiante p. 248. 

[25] Cross e Wright (ibid.), argumentam que a reorganização de Judá já tinha sido feita por Davi. Certamente, o censo de Davi foi o prelúdio de alguma medida fiscal ou administrativa — e foi sentido como tal. Pode ser que Davi tenha planejado um sistema provincial para toda a região, mas encontrou tanta resistência que nunca o levou a efeito no norte de Israel. 

[26] Não há nenhuma razão para colocar isto em dúvida, como o faz
Noth, in Hl, pp. 209ss. A principal queixa de Israel contra Salomão
foi especialmente a corvéia. Note-se como lincharam Adoniram, o supervisor chefe das levas de trabalho forçado (lRs 12,18;4,6;5,14). 

[27] Albright, in BP, p. 55, avalia que trinta mil israelitas equivaleriam por alto a seis milhões de americanos em 1960. 
[28] N. Glueck, o.c. (na nota 76), p. 156, acredita que uma área
fortemente murada em torno das fornalhas, na mina de Khirbet Najas,
servia para impedir que os escravos condenados a trabalhos forçados
conseguissem escapar. Sobre a escravidão estatal em Israel, cf. I.
Mendelsohn, in BASOR, 85 (1942), pp. 14-17. Sobre a corvéia, idem,
in BASOR, 167 (1962), pp. 31-35. 

[29] Mas cf. F. C. Fensham, in VT, Suppl., Vol. XVII (1969), pp.
78ss, que acredita que a cessão destas cidades foi parte das estipulações
do tratado entre os dois reis. 
[30] Os salmos reais incluem: SI 2; 18 (2Sm 22); 20;21;45;72;89;101;
110;132;144,1-11. 

[31] Sua forma original era provavelmente do tempo de Davi; cf.
M. Noth, David and Israel em II Samuel VII, in The Lavjs in the
Pentateuch and Other Studies (Trad. ingl.: Oliver & Boyd, Ltd., Edim-
burgo e Londres, 1966; Fortress Press, Philadelphia, 1967, pp. 250-259). 
[32] Não é de modo algum impossível de se acreditar na tradição.
Cf. O. Precksch, Die letzten Werte Davids, in BWANT, 13 (1913),
pp. 112-125; A. R. Johnson, Sacral Kingship in Ancient Israel, Uni- 

[33] Veja G. E. Mendenhall, Law and Covenant in Israel and the Ancient Near Bast, The Biblical Colloquium (1955). Importantes discussões recentes incluem: R. de Vaux, Le roi d'Israël, vassal de Yahve, in Bible et Orient (na nota 52), pp. 287-301; H. J. Kraus, Worship in Israel (Trad. ingl.: Basil Blackwell & Mott, Ltd., Oxford; John Knox Press, Richmond, 1966), pp. 179-200; R. E. Clements, Abraham and David, SCM Press Ltd., Londres, 1967; D. R. Hillers, Covenant■. The History of a Biblical Idea, The John Hopkins Press, 1969, c. V; M. Weinfeld, The Covenant of Grant in the Old Testament and in the Ancient Near East, in JAOS, 90 (1970), pp. 184-203. 

[34] Sobre diversas versões desse ponto de vista, cf. I. Engnell,
Studies in Divine Kingship in the Ancient Near Éast, Almqvist and
Wiksells, Uppsala, 1943; G. Widengren, Sakralles Königtum im Alten
Testament und im Judentum, W. Kohlhammer, Stuttgart, 1955; v. também
várics artigos nos volumes editados por S. H. Hooke: Myth and Ritual,
Oxford University Press, Londres, 1933; The Labyrinth, S.P.C.K., Lon-
dres; Myth, Ritual and Kingship, Oxford University Press, Londres,
1958. 

[35] Cf. especialmente M. Noth, God, King and Nation in the
Old Testament, in The Laws in the Pentateuch, (na nota 98), pp.
145-178, com o qual eu concordo plenamente. 

[36] Cf. especialmente H. Frankfort, Kingship and the Gods, The
University of Chicago Press (1948); idem, The Problem of Similarity
in Ancieni Near Eastern Religions, Claredon Press, Oxford, 1951. 

[37] Em S1 45,6, o rei parece ser chamado de “Deus”. Mas esta
passagem é notoriamente difícil, devendo provavelmente ser assim tra-
duzida: “Teu trono é [semelhante ao de] Deus para todo o sempre’׳;
cf. Johnson, o.e., (veja nota 99), p. 27. 

[38] Cf. S. Mowinckel, Psalmenstudien II (1922) — reedição,
Verlag P. Schippers, Amsterdã, 1961; idem, Zum israelitischen Neujahr
und zur Deutung der Thronbsteigungspsalmen, J. Dybwad, Oslo, 1952;
idem, He Thal Commenth, Trad. ingl.: Abingdon Press, 1956; idem, The
Psalms in Israel’s Worship, Trad. ingl.: Basil Blackwell & Mott, Ltd.,
Oxford, 1962, Vol. I. 

[39] Especialmente para os salmos da coroação: SI 47;93;96;97;99 etc.
A expressão Yhtvh malak, freqüente nestes salmos e usada para apoiar a
teoria da coroação anual de Iahweh, deve provavelmente ser assim tra-
duzida: “É Iahweh que reina”, ou expressão semelhante, ao invés de
“Iahweh tornou-se rei”; cf. L. Köhler, in VT, III (1953), pp. 188ss;
D. Michel, in VT, VI (1956), pp. 40-68; Johnson, o.e., p. 57,
et passim. 

[40] Cf. H. J. Krauss, Die Königsherrschaft Gotes im Altem Tes- 

41] Esta passagem parece refletir algum ressentimento contra Salomão: cf. G. E. Wright, in IB, II (1953), p. 441. 

[42] Depois de 935, uma vez que na cronologia aqui seguida, Susac (v. 40) subiu ao trono do Egito somente neste ano (veja abaixo). 


[43] Como Noth (in Hl, p. 205) salienta, a palavra usada aqui não é a palavra comum empregada para corvéia (mas), mas sêbel (transporte forçado?); entretanto, (cf. Gn 49,15) parece estar envolvida uma forma de trabalho compulsório; cf. M. Held, in JAOS, 88 (1968), pp. 90-96. 

[44] Sobre o suplemento de LXX para a história de Jeroboão, bem
como lRs 12,24, cf. J. A. Montgomery, The Book of Kings, in ICC 

(1951) , pp. 251-254; v. também D. W. Gooding, in VT, XVII (1967),
pp. 173-189. Para outros pontos de vista, cf. J. Gray, I e II Reis, in
OTL (1963), pp. 268ss, 285-288; M. Aberbach e L. Smolar, in JBL,
LXXXVIII (1969), pp. 69-72. 

Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.