16 de setembro de 2015

Gerard Van Groningen: A Revelação Messiânica no Reinado de Davi e Salomão

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A Revelação Messiânica no Reinado de Davi e Salomão 

O período de tempo que cobre o reinado de Davi e Salomão é essencial por várias razões. Os descendentes de Abraão como povo adquiriram o status de nação entre nações. Davi, tendo derrotado os filisteus definitivamente e feito de Jerusalém sua própria cidade e centro administrativo do país, organi­zou as estruturas políticas de maneira que a nação pudesse funcionar bem politicamente. Internacionalmente, durante o mesmo período político, Israel foi reconhecido como um grande poder — política, militar e comercialmente. Assim, a promessa de que a semente de Abraão se tomaria uma grande e famosa nação foi cumprida (cf. Gn 12.2; 15.5,14). Profecias dos tempos primi­tivos foram cumpridas nesse tempo, tais como: um rei veio da tribo de Judá; o povo desfrutou prosperidade e paz nesse período. Assim considerado retros­pectivamente, foi um tempo de cumprimento profético.[1] Foi também um tempo de antecipação profética. Não somente foram repetidas profecias dadas no passado, explicadas e amplificadas, mas foram enunciadas profecias adicio­nais. Revelações recebidas no passado foram cumpridas em certa extensão, enquanto que nova revelação a respeito do Messias foi dada por meio de agentes escolhidos por Deus.[2] Além disso, durante esse período, poetas crentes foram inspirados a escrever muitos dos salmos. Esses autores, emitindo res­postas de fé à revelação prévia, trabalharam minuciosamente sobre essa reve­lação.[3]

Os peritos em Velho Testamento concordam unanimemente que o período que compreende os reinados de Davi e Salomão é da máxima importância. Não há, entretanto, nenhum consenso sobre por que esse período é tão importante. As opiniões são particularmente divergentes sobre: (1) a extensão dos aspectos messiâncios presentes; (2) se tais elementos messiânicos eram revelados; e (3) se eles surgiram de pensamentos, aspirações humanas ou teologia. Alguns eruditos negam que haja qualquer significação especificamente messiânica nesse período.[4]

A passagem central e crucial que cobre esse período é o pacto de Deus com Davi (2 Sm 7.1-17; 1 Cr 17.1-15). O reinado de Davi (2 Sm 8.1-24.25 par.) e o reinado de Salomão (1 Rs 1.1-11.43 par.) provêem o que se constitui contexto histórico mais amplo. A discussão e os debates que surgem da consideração dessas passagens são extensos.[5] Um sumário de todos os materiais é impossível e desnecessário para este nosso estudo. Alguns dos pontos de vista divergentes serão discutidos ou referidos nas considerações sobre o próprio conteúdo dessa importante passagem. 

Davi, o Recipiente do Pacto de Deus (2 Sm 7.1-17, par. 1 Cr 17.1-15) 

Considerações Textuais 

O texto bíblico apresenta alguns problemas específicos e desafios a qualquer que considere seriamente o estado do texto e aspectos do seu conteúdo. Nesta mesma passagem, como em numerosas outras no livro de Samuel, há algumas variantes textuais que têm ocasionado muita discussão.[6] Não há acordo quanto à autoria, à composição e à unidade da porção. De fato, os críticos não têm sido capazes de prover soluções aceitáveis. George B. Caird tentou resumir a discussão sobre se é pré ou pós-exílica, e sobre em que extensão é ela deuteronomística.[7] Os diferentes assuntos incluídos nessa passagem — (1) A idéia de Davi de construir um templo, (2) o papel de Natã, (3) o estabelecimento da dinastia davídica, e (4) a construção do templo pelo filho de Davi — são considerados elementos díspares que não poderiam ser partes integrais do relato histórico inicial. Na verdade, a maioria dos críticos não encontra qual­quer justificativa histórica ou literária para considerar isso um relato acurado do que aconteceu realmente na primeira parte do reinado de Davi. Eles não podem harmonizar os elementos quando considerados como produtos somen­te da experiência e pensamento humanos e das formulações dos escribas.[8] Um estudo da passagem da perspectiva de que a revelação divina é um fator integral, leva-nos a ver a unidade da passagem,[9] e sua data de composição, pouco depois da ocorrência dos eventos referidos.[10]

Antes de entrarmos num estudo exegético desse texto (2 Sm 7.1-17), é apropriado que façamos cinco comentários gerais. 

Primeiro, há a questão a respeito da seqüência cronológica da passagem no contexto do pacto de Deus com Davi. Foi sugerido que o capítulo 7 foi inserido aqui porque o capítulo 5 fala da construção do palácio ("casa") de Davi (5.11) e do crescimento de sua família (w. 13-16). O capítulo 6 fala da arca trazida a Jerusalém e colocada numa tenda (6.17). Assim, tematicamente, é justificado completar a narrativa de casa, família, palácio e lugar para a arca. O capítulo 8, entretanto, apresenta um problema porque se acredita que o relato das guerras de Davi se refere à ação que ocorreu antes de Davi pensar em construir o templo.[11]

Segundo, a profecia contida na passagem é dirigida por Natã, o profeta, a Davi (2 Sm 7.17), que é também o principal assunto da profecia. Assim, à medida que a profecia messiânica se encaminha para um clímax, é apresentada direta e pessoalmente. 

Terceiro, há um vívido senso de ação na passagem. Davi, que se diz estar em repouso (7.1), está inquieto. Há ainda trabalho a ser feito. Ele propõe-se a construir; o profeta concorda (w. 2,3); Yahwéh interpõe-se. Natã fala ao rei, negando o seu conselho e informando Davi da mensagem divina. O leitor, trazido à cena pelo estilo vívido, toma-se consciente da coerência interna da passagem. 

Quarto, o termo baytí ocorre sete vezes e há mais quatro referências a "habitar" e a "tenda". Os termos mamlãkâ (reino) e kissê (trono) ocorrem cinco vezes. Esses termos não têm exatamente o mesmo referencial cada vez, mas os conceitos de casa (do rei, Deus, uma família ou uma dinastia) e de reino (de um rei, trono, domínio) são obviamente chaves para a compreensão da passa­gem. O uso desses termos também indica a unidade estrutural básica da passagem. 

Quinto, as referências à oração de Salomão (1 Rs 8.14-19, par. 1 Cr 17.1-15) têm o mesmo conteúdo, embora não as mesmas palavras de 2 Sm 7.1-17. As referências de Reis e Crônicas registram ocasiões diferentes quando as promes­sas de Yahwéh a Davi foram repetidas. As diferenças realçam o caráter histó­rico e a ambiênda de cada passagem, mas não prejudicam a mensagem teológica nas passagens. 

Exegese 

Versos 1-3. O tempo dos eventos narrados na passagem é referido mediante frases não específicas. Foi depois que Davi se mudou para a casa real que construíra com a ajuda do pessoal da construção de Tiro, e com cedro que lhe veio de Hirã, rei de Tiro (2 Sm 5.11). Esse palácio, na cidade que Davi pessoal­mente tinha adquirido (5.7-9), evidenciou clara e finalmente que Davi era rei, bem estabelecido em seu trono e seguro em sua posição em Israel (5.9-12). O texto acrescenta que Davi estava consciente de que seu reino fora estabelecido e niááê’ (exaltado),[12] ba'übür (por causa de) 'am (o povo especial de) Yahwéh, Israel (5.12). Uma vez que Davi viveu nesse palácio por cerca de trinta anos, o evento pode ter ocorrido em qualquer tempo durante esses anos.


A frase tendo-lhe o Senhor dado descanso de todos os seus inimigos em redor (7.1b) tem causado muita discussão, mas é de pequeno auxílio para determinar o tempo preciso do evento registrado. Levantam-se duas questões: Quando Davi teve esse descanso?[13] Deve essa discutida passagem ser conside­rada fora da seqüência cronológica? 

Quanto à primeira questão, o hiphil de nüah, fazer estar em repouso, tem o sentido de inatividade. O verbo é comumente usado para estar estabelecido, estar quieto, jazer. Uma vez que se acrescenta "de todos os seus inimigos ao redor", só um significado pode haver: Davi não estava em guerra com qualquer nação ou grupo de pessoas. Havia paz em seu reino. Todavia, que período de paz? Emst Hengstenberg contende que foi o tempo imediatamente depois da primeira derrota dos filisteus (5.17-25) e de completasse a construção do palácio de Davi; assim, foi antes das guerras subseqüentes (8.1-14) e da guerra civil contra seu filho Absalão, dentro do seu próprio reino (15.10-19.7).[14]

Delitzsch, entretanto, levanta a segunda questão, referente à seqüência não-cronológica dos relatos em 2 Sm 6-10 e opta pela idéia de que foi na última parte do reinado de Davi, quando, na verdade, ele não mais teve quaisquer guerras e a era de paz que Salomão desfrutou tinha começado sob Davi.[15]

A proposta de Hengstenberg parece ter mais apoio. O fluxo dos aconteci­mentos históricos, isto é, a captura de Jerusalém por Davi, a construção do palácio, sua vitória sobre os filisteus (2 Sm 5), a arca trazida para Jerusalém, sua rejeição de Mical, filha mais nova de Saul (6.16,20-23), tudo serve como uma quase perfeita série de eventos para introduzir o que Yahwéh prometerá a Davi em relação a sua família como dinastia e reino. Em adição à razão temática mencionada, Salomão esclarece que Davi, seu pai, não teve um período prolongado de paz (1 Rs 5.3). As lutas contra nações vizinhas começa­ram logo após suas duas vitórias sobre os filisteus (2 Sm 5.25; 8.1). Assim, o descanso e paz que Davi teve não era um período definitivo, mas foi longo o bastante para que ele ficasse inquieto pelo fato de ter construído seu próprio lugar de habitação permanente, enquanto Yahwéh não tinha tal lugar. Final­mente, a omissão da referência ao repouso de Davi na passagem paralela (1 Cr 17) também apóia a idéia de um período curto de repouso. A referência ao fato de Davi ter "derramado muito sangue" e ter lutado "grandes guerras" (1 Cr 22.8) pareceria apoiar a posição de Delitzsch. Mas naquele contexto Davi fala de um filho ainda por nascer; daí, a recusa do Senhor de que Davi lhe construísse o templo veio na primeira parte de seu reinado. As guerras e o derramamento de sangue citados referem-se aos atos de guerra de Davi antes de se tomar rei e às batalhas em que se envolveu para assegurar e estabelecer o seu reino. 

A conclusão, então, é que Davi desejou construir o templo e recebeu a promessa de Yahwéh para sua família e seu reino pouco depois de estabelecer Jerusalém, sua cidade, como centro administrativo, ter construído seu próprio palácio, ter derrotado os filisteus e ter trazido a arca a Jerusalém. Isso aconteceu antes que muitos de seus filhos nascessem, ou pelo menos que Salomão nascesse, pois ele é o referido na profecia. 

A preocupação de Davi refere-se ao contraste entre a sua própria casa e o lugar de habitação de Yahwéh. Sua casa era de cedro, madeira de grande durabilidade. A arca que ele trouxera a Jerusalém dava expressão eloqüente, se não simbólica, ao conceito da presença pessoal de Yahwéh no meio de seu povo, isto é, o princípio de Imanuel. Esse símbolo da presença de Yahwéh, que devia ser permanente e eterna, estava bètôt hayêrfâ (no meio das cortinas).[16] A referência é à estrutura portátil em que a arca tinha estado durante cerca de quatrocentos anos. A preocupação de Davi era louvável, pois seu filho Salo­mão acrescentou esta frase, citando Yahwéh: "fizeste bem em ter isso em teu coração" (1 Rs 8.18, NIV), quando se dirigiu ao povo depois da construção do templo. 

A motivação de Davi era religiosa, embora não seja incorreto acrescentar que podia haver também motivação política. No contexto teocrático da realeza de Davi não podia ser de outra maneira. Davi, como rei, representava Yahwéh, o Redentor e Senhor de Israel. Era tarefa de Davi como rei unir, consolidar e reinar sobre o "reino de sacerdotes" e a "nação santa" de Yahwéh, no meio das nações. Como poderia Davi expressar melhor a permanência da presença de Yahwéh, sob quem ele era rei, do que ter aquela presença permanente em Jerusalém? Assim, a integração do caráter religioso e político do seu reino receberia uma expressão concreta. Como leis eram feitas e executadas pelo rei, a lei mosaica permanente, base da lei da monarquia, estaria permanentemente à mão na casa de Yahwéh. Onde a lei estava presente, ali seriam feitos os sacrifícios por um sacerdócio permanente, ali a residir. Quando alguém consi­dera todos esses fatores, não há dificuldade em compreender a resposta inicial de Natã: "Vai, faze tudo quanto está no teu coração; porque o Senhor é contigo" (2 Sm 7.3b; ky yhwh 'tmmãk). 

A referência a Natã na passagem é a primeira indicação de que ele era o profeta da corte e conselheiro. Ele servia como porta-voz de Yahwéh para Davi (2 Sm 7.17; cf. 12.1). O desejo e intento de Davi em relação à casa para a arca de Yahwéh eram tão congruentes com a revelação prévia e com o desenvolvimen­to dos acontecimentos recentes que o profeta deu consentimento em nome de Yahwéh. Seu conceito era bom, mas o tempo e as circunstâncias não o eram.[17] Naquela noite, na própria noite depois de Natã ter aconselhado Davi a pros­seguir, a palavra de Yahwéh veio a Natã (7.4). A maneira da comunicação é declarada: Yahwéh veio a Natã numa visão (7.17). É consistente com o teste­munho bíblico pensar de Yahwéh aparecendo em visão. Através dela Yahwéh comunicou-se com Natã e deulhe uma direta mensagem para Davi. Essa revelação visionária contém algumas matérias distintas, porém, inter-relacionadas.18 

Versos 5-7. Davi é referido como 'abdi (meu servo, v. 5). Ele era o servo específico de Yahwéh; o agente por meio de quem Yahwéh estava realizando o seu conselho e seus planos particulares para aquele período na história da salvação. Essa referência à relação estreita deixa claro que Yahwéh não estava irado contra Davi, embora não aprovasse a intenção de Davi. Assim, o servo profeta foi enviado para informar ao servo rei que a agenda de Yahwéh diferia da de Davi. A força da frase kõh ’ãmar (assim falou, v. 5) é que o profeta devia falar as exatas palavras que Yahwéh falou, de modo que Davi compreendesse claramente que Yahwéh tinha, realmente, falado a respeito dele e tinha uma direta mensagem para ele. 

Devem ser notados dois pontos: (1) a pergunta retórica e (2) o uso enfático de dois pronomes. A pergunta tem a intenção específica de requerer uma séria reconsideração da proposta que Davi fizera. De fato, o intento era preparar Davi para receber instruções a respeito do plano de Yahwéh. O uso enfático de ’attâ pode ser interpretado assim: Tu? Tu realmente planejas tomar a iniciati­va? O segundo pronome, li (para mim), em si mesmo não seria enfático, mas em contraste com o anterior toma-se tal. Acrescente-se a isso o conteúdo da pergunta: construirás uma casa lesibtî (para eu morar)? É importante notar que Yahwéh não está dizendo que ele não consideraria uma casa permanente ou que isso seria contrário à sua transcendência.[18] O assunto é explicado passo a passo.[19]

O primeiro passo que Yahwéh deu ao explicar seu plano a Davi foi lembrar-lhe que tinha sido da vontade de Yahwéh habitar numa tenda desde o tempo da saída do Egito até aqueles dias (7.6). O Israel redimido tinha sido um povo em trânsito e, uma vez na Terra Prometida, ainda não se tomara um povo seguramente estabelecido. Sem um povo estabelecido em residência perma­nente, Yahwéh seria "Imanuel", "Deus conosco", vivendo numa habitação portátil. 

O segundo passo relembrava a Davi que, enquanto a habitação portátil de Yahwéh se deslocava de lugar para lugar, seguindo o deslocamento de Israel de um centro a outro, Yahwéh jamais falara uma palavra de queixa nem requerera uma habitação permanente (v. 7a).[20] A questão que se levanta do texto (v. 7) é: a quem Yahwéh se refere quando diz que nunca falou a nenhuma das tribos (Sibtê)? Alguns críticos sugerem que o texto seja emendado para Sõptê (juizes). Muda-se assim de tribos para. líderes. Estes seriam sinônimos de juizes na passagem paralela (1 Cr 17.6). Isso também se harmonizaria com o termo juizes em 1 Sm 7.11. Entretanto, não é inconcebível que Yahwéh tenha perguntado abstratamente: "Por acaso eu o pedi a alguém, por exemplo, a alguma tribo ou a algum chefe de tribo?" Não há necessidade de emendar o texto.[21] Adicionalmente, cumpre considerar a frase stwwiti lir'ôt (mandei apascentar) para referir-se a todos os líderes anteriormente nomeados — Moisés, Josué, os juizes e Samuel. Eles eram subpastores a quem Yahwéh chamou de tribos específicas e nomeou para servirem em situações pertinentes, algumas das quais poderiam ser apropriadas por um pouco para a construção de uma casa de cedro. Mas Yahwéh sabia que Israel ainda não se tornara um povo estabilizado vivendo seguramente entre as vizinhas nações. Portanto, nesse segundo passo, é dito a Davi, indireta mas precisamente: o tempo de construir uma casa permanente ainda não chegou [22] Davi não a construirá; o cronista afirma isso claramente (1 Cr 17.4). Yahwéh explicará mais tarde, no devido tempo. Então, com dois passos mais, é que Yahwéh terá levado adiante seu plano messiânico. 

Versos 8-12. O terceiro passo no desdobramento progressivo da mensagem de Yahwéh está nos versos 8-12. Natã daria a Davi mais instruções, transmiti­das de modo igualmente direto; a frase kõh ’ãmar (v. 8) é repetida. Natã deveria inculcar em sua mente que o que Yahwéh está para fazer será feito porqueYahwéh é sèbã’ôt (Senhor dos Exércitos, v. 8), absolutamente soberano sobre todas as coisas, um fato que Davi deveria lembrar. 

Enquanto a mensagem de Deus começa com um tu enfático (v. 5), usa agora a forma enfática do pronome da primeira pessoa: ’ãni (eu, eu mesmo). Keil afirma corretamente que deve ser dada atenção a Yahwéh, "que desde o princípio me glorifiquei em ti e no meu povo".[23] Hengstenberg observa queYahwéh fez saber a Davi que Ele até esse tempo executara as promessas ciadas aos antigos e continuava fazendo isso com respeito a Davi. Sete benefícios são relacionados[24] neste terceiro passo da mensagem de Yahwéh a Davi. 

1. Leqahtîka (v. 8) (Tomei-te) das pastagens, de detrás das ovelhas — isso claramente relembra as circunstâncias da unção de Davi. Samuel tinha feito conhecer a eleição de Davi por Yahwéh ordenando que ele fosse trazido dos pastos onde tinha estado pastoreando as ovelhas, e então ungiu-o (1 Sm 16.11-13). O texto usa o termo nãgid (preeminente, ou príncipe), não melek (rei), para referir-se ao lugar de Davi sob Yahwéh, o Rei de Israel. A escolha de Davi, um cumprimento das palavras de Jacó de que um governador viria da tribo de Judá (Gn 49.8-10), era básico para os benefícios enumerados em seguida. 

2. Wa’ehyeh 'immeka (e fui contigo, v. 9) bekol (em todas as tuas idas), isto é, por onde quer que andaste. Yahwéh tinha acompanhado Davi, guiando-o e protegendo-o em todas as suas experiências. A promessa do pacto aos pais de ser o Deus de seu povo (Gn 17.7,8; Js 1.4) tomara-se realidade na vida de Davi. 

3. Wa’akrttâ (e cortei) kol (todos) os inimigos diante de ti. As vitórias de Davi tinham sido dadas por Yahwéh. No meio da oposição e de ameaças de morte Davi não fora vencido. Na verdade, tinha sido vitorioso: marchara para o trono de Israel — pelo poder de Yahwéh, em última análise. Assim, a maldição do pacto (Gn 12.3; Êx 23.23; Dt 12.29) foi executada sobre os que tentaram opor-se à vontade de Yahwéh. 

4. ’Asîtî leka sem gadol [25] (e fiz, ou continuarei a fazer, para ti um grande nome, v. 9b). Yahwéh, de acordo com as promessas feitas a Abraão (Gn 12.1-3), tinha realmente feito Davi famoso em Israel e entre as suas nações vizinhas. 

5. Wesamtî maqom lê'ammi (e estabeleci, ou continuarei a estabelecer, um lugar para o meu povo, v. 10a). Yahwéh prometera uma terra, um lugar específico em que Abraão e sua semente viveriam (Gn 15.13-16). Os patriarcas tinham entrado na terra, mas fora um lugar de movimentos e perturbações. 

6. Uneta ‘tîw (e os plantei, ou continuarei a plantá-los). Sob a liderança de Josué, Israel tinha conquistado a Terra Prometida e atribuído uma parte da terra para cada família. Como árvores novas são plantadas em solo fértil, Yahwéh tinha plantado seu povo numa terra que manava leite e mel — um lar para viver (Gn 17.8; Êx 6.8; Dt 26.9,15). 

7. Welo’ yosîpû (e não serão perturbados) por homens violentos como acon­teceu nos dias dos juizes (v. 11). Pelo contrário, wahanihoti (eu te fiz repousar, ou continuarei a fazer-te repousar, v. 11). De fato, Yahwéh assegura a Davi que o repouso que ele lhe proporcionara, dando-lhe uma oportunidade de pensar na construção do templo, era um dom de Yahwéh, uma promessa cumprida (Dt 25.19). 

A repetição das promessas cumpridas por Yahwéh, o soberano Senhor, prepararia Davi para ouvir a promessa que Yahwéh ia fazer a ele e em favor dele. Davi também tinha de compreender que nem todas as promessas de Yahwéh tinham sido cumpridas tão plenamente quanto poderiam ter sido, particularmente a promessa pactual concernente à semente de Abraão e dos reis que proviriam da semente de Abraão (Gn 17.7-9), bem como a promessa da continuidade do trono: "o cetro não se apartará"... (49.10). 

A promessa de Deus foi proferida enfática e claramente: ki-bayit ya'ãseh- leka yhwh (que uma casa fará Yahwéh para ti). A ênfase está sobre o substan­tivo bayit (casa), e em segundo lugar sobre o que Yahwéh fará para Davi em relação a sua casa: ele a fará, ou estabelecerá. 

O substantivo bayit, que ocorre repetidas vezes ao longo dessa passagem, pode ter diversos significados. Pode referir-se a um edifício de madeira, tijolos ou pedra; mas esse edifício — casa — é especificamente o lugar de habitação de pessoas ou o edifício associado com a presença de Deus. (Na primeira parte da passagem o termo refere-se à habitação de Davi e a um tipo diferente de habitação, a de Yahwéh). O mesmo termo bayit é também usado para designar posteridade, descendência, a família por algumas gerações precedendo ou seguindo determinada pessoa. E se a pessoa é um governante ou algum outro indivíduo influente, ele e seus predecessores e sucessores podem ser referidos como uma dinastia.[26] Davi deveria compreender bayit nesse último sentido — uma família de reis por gerações. 

A idéia é óbvia. Quando a promessa de Yahwéh sobre a semente e a ascensão da família reinante provinda da semente fosse cumprida em extensão maior do que tinha sido, o princípio de Imanuel — Deus conosco — receberia expressão concreta, visível e simbólica na forma de um lugar de habitação permanente. Depois que Yahwéh tivesse completado seus preparativos para a presença permanente da família reinante, Ele tornaria sua habitação uma estrutura permanente, um templo. 

Versos 13-16. O quarto passo na explicação de Yahwéh a Davi refere-se ao método de Yahwéh para levar adiante sua promessa em relação à dinastia de Davi. Os usuais conceitos de progénie, reino, trono, e casa para habitação de Yahwéh estão muito bem tecidos juntos e sua inter-relação e interdependência são adequadamente mostradas. 

Yahwéh tinha declarado (v. 11b) que ele faria uma dinastia (casa) para Davi. Como? Quando[27] a vida de Davi terminasse (seus dias se cumprirem, v. 12), então Yahwéh continuaria a família e o reinado da família por haqimioti (fazer levantar, ou fazer continuar) zar'aka (tua semente).[28]

Yahwéh daria continuidade à linha da semente real de Adão, Noé, Abraão, Jacó, Judá e Davi; por meio de descendência biológica, isto é, um filho, que viria do próprio Davi, a dinastia continuaria. Para que essa realeza da progénie fosse assegurada, Yahwéh acrescentou wakakinoti (farei continuar firmemente, ou firmemente estabelecerei) ’et-mamlaktô (seu reino). A dinastia continuaria firmemente estabelecida porque Yahwéh manteria o reino; a família e o reino eram correlativos. 

No verso 13 são afirmados como correlativos dois conceitos: baytt (casa) que um membro da dinastia construirá para Yahwéh, e kisse’ (trono) do construtor da casa de Yahwéh, que Ele wwkonanti (estabelecerá) 'ad-ôlãm (pelas eras por vir, ou eternamente). Por meio da semente real de Davi, firmemente estabele­cida, o princípio de Imanuel receberá expressão permanente através de baytt (casa), que ele (representante da semente) irá construir para habitação perma­nente de Yahwéh. A presença constante de Yahwéh seria assegurada pela semente da casa real no trono do reino permanente. No verso 14 a relação entre Davi e sua progénie é afirmada como biológica. Haverá uma relação direta de "carne e sangue". Yahwéh acrescentou, entretanto, usando o pronome enfático EU, ’anî ’ehyeh-lô lè’ab (eu serei para ele um pai), e que essa seria uma relação mútua: hû’ li lebên (ele será para mim um filho). 

Numerosos escritores têm procurado encontrar fontes não-bíblicas e não israelitas para o assim chamado "tema do rei-filho-divino", que julgam estar presente nessa frase. Ishida cita várias fontes possíveis[29] P. Kyle McCarter rejeita algumas sugestões, por exemplo: "deduzir paralelos do Egito" ou do ponto de vista escandinavo de que o filho era "o fruto divino de uma cerimônia de casamento sagrado".[30] Tanto Ishida quanto McCarter consideram que essas duas frases indicam "linguagem adotiva",[31] para a qual eles buscam antigos paralelos religiosos e políticos, sem sucesso. 

O adjetivo adotivo deve ser corretamente compreendido. Adoção só pode significar uma relação legal; Yahwéh estabelece esse tipo de relação legal com Davi e sua semente, a sucessão de filhos, estabelecendo um pacto com eles. Isso, em primeiro lugar, é linguagem pactual. Além disso, a relação pai-filho refere-se aqui à eleição do filho pelo Pai; o Salmo 2 fala disso. É também uma relação de um amor que tudo abraça e que perdura. A relação pai-filho fala também da unidade de propósito e de ação. 

Os versos 14b e 15 registram duas implicações definidas da relação pai-filho: (1) O Pai castigará o filho da maneira como os pais humanos castigam suas crianças. Essa é a linguagem de Provérbios em relação aos pais que corrigem seus filhos, isto é, o uso de Sêbet (vara) e nega' (açoite) (Pv 13.24; 23.13,14). Esse castigo é aplicado como uma demonstração do amor do pai e sua preocupação com o bem-estar do filho, expressos na frase wehasdi lo’-yasur mimmenû (e minha misericórdia não se apartará dele).[32] O termo hesed refere-se à fidelida­de de Yahwéh de amar, conservando o seu povo do pacto e mostrando-lhe misericórdia e ternura quando esse povo está em sofrimento e tristeza. O duro castigo que o filho receberá quando se afastar do caminho de Yahwéh será sempre temperado pelo amor do Pai, pela sua misericórdia e compaixão. A garantia da presença contínua da hesed de Deus apóia a promessa de que o trono será estabelecido para sempre (w. 12,13). Assim, a continuidade da semente e do trono, no meio de um povo e de um meio pecador está enraizada na promessa de Yahwéh, de sua hesed que nunca falha e está sempre presente. Não aconteceria com a semente de Davi ou com Davi o que aconteceu com Saul. 

Yahwéh concluiu suas promessas a Davi fazendo Natã repetir o que havia sido dito antes: três vezes ele usa o sufixo pronominal ka ao dirigir-se a Davi: tua dinastia, teu reino e teu trono (v. 16). Dois verbos são usados: primeiro, ’aman (confirmar, fazer firme).[33] Isso é dito da dinastia e do reino. Esse fatores reais firmemente estabelecidos serão 'ad-olam (a todas as eras, perpetuamen­te).[34] A combinação do verbo confirmar com o advérbio perpetuamente expres­sa tempo ilimitado no futuro. Assim, a dinastia e o reino de Davi serão estabelecidos para sempre. O segundo verbo empregado para indicar a mesma estabilidade e duração do trono é kun (ser firme ou estabelecido).[35] O preciso conceito para perpetuidade é acrescentado aqui, também. O uso dos dois verbos acentua a importância da mensagem. A forma niphal dos verbos, a passiva, evidencia que essa firme continuação absoluta não é devida a Davi ou à ação de sua progénie. Yahwéh estabeleceu firmemente e continuará a manter o reino, o trono e o governante sobre o trono. O governante reinará sobre o reino inteiro, isto é, seu domínio, seu povo, sua riqueza e todas as suas relações. Tendo ocorrido todos esses fatores, Yahwéh terá sua habitação permanente construída, ocupará essa sua casa e, assim, dará expressão positiva e real ao conceito de Imanuel. 

Implicações Teológicas 

Yahwéh falou em visão a Natã, que, por sua vez, proclamou pessoalmente a revelação de Deus a Davi. Essa proclamação profética deixava claro que profecias do passado estavam sendo cumpridas e que o antítipo de vários tipos se tomara realidade histórica. A mensagem profética, a transmitir uma gloriosa mensagem vital para Davi naquele tempo e maravilhosas promessas para o futuro, propiciou um grande avanço. A profecia de Natã serviu como um forte elo unificador entre passado, presente e futuro. 

Alguns temas bíblicos são centrais nessa proclamação profética: o caráter real de Davi e de seus filhos, o reino em todos os seus aspectos (militar, político, social, econômico), o trono em Jerusalém, a dinastia davídica e seu papel, e o princípio de Imanuel. 

O princípio de Imanuel teve um papel crucial e unificante nessa proclama­ção. Foi ocasionado pelo desejo e intento de Davi de construir uma habitação permanente e, assim, dar concreta expressão histórica a esse princípio. O intento de Davi não foi aprovado, mas ele ficou sabendo qual era o desejo de Yahwéh por meio da proclamação a respeito da presença de Yahwéh na "casa" de Davi (relação pai-filho) e no templo a ser construído pela progénie de Davi. Essa proclamação da presença de Yahwéh tornou-se a pedra de toque dos pronunciamentos proféticos posteriores sobre sua presença com seu povo e sua habitação no meio dele. 

O soberano controle de Yahwéh para levar adiante suas promessas, passa­das, presentes e futuras, foi proclamado direta e enfaticamente. Aquele que fez as promessas e as revelou as executará de acordo com seu programa e seu próprio método. As pessoas serão ativamente envolvidas: serão servos e agentes. Os eventos ocorrerão quando Ele quiser. O "Senhor dos Exércitos" estava e sempre estará no comando. 

A eleição, unção e ascensão de Davi ao trono sobre todo Israel foram divinamente sancionadas dentro do processo histórico. Yahwéh, de acordo com a proclamação de Natã, seu profeta, haveria de levar adiante e desenvolver esses elementos na progénie de Davi. O próprio conceito da semente apresen­tado a todos os santos do Velho Testamento que viveram antes, por exemplo, Adão, Noé, Abraão, Isaque e Jacó, recebeu proeminência e uma designação cada vez mais clara. 

O caráter real da semente tomou-se mais definido do que antes. Isso se fez pela indicação de que a semente, a posteridade de Davi, assim como o próprio Davi, haviam de ocupar o trono e reinar para sempre. É importante notar que, tanto o termo de sentido mais amplo, semente, significando progénie, quanto o termo singular, filho, foram empregados. Não houve referência a ninguém por nome ou título. 

Finalmente, a proclamação profética encerrava alguns elementos distinta­mente de natureza pactual.[36] A forte afirmação da presença e da soberania de Yahwéh, a recapitulação histórica do que Yahwéh tinha feito, a afirmação defi­nida sobre o que Yahwéh ia fazer por Davi, a continuidade por meio da semente, as estipulações e as bênçãos ou castigos implícitos, são todos elementos de um pacto. O termo berit (pacto) não aparece no texto. Diversas passagens na Es­critura, entretanto, falam do pacto de Yahwéh com Davi. É manifestamente claro que, quando isso ocorre, a referência é ao que foi proclamado a Davi por Natã. 

Respostas Pactuais 

Muitas passagens do Velho Testamento citam ou aludem à profecia de Natã a Davi acerca de Davi e de sua dinastia [37] Os críticos não evitam esse fato; entre­tanto, eles têm uma tarefa muito difícil em estabelecer relações precisas. Isso é particularmente difícil quando o pacto de Deus com Davi (2 Sm 7.1-17) é con­siderado um texto escrito tardiamente —no fim da monarquia ou após exílio. 

A Oração de Davi (2 Sm 7.18-29). Davi foi ao tabernáculo depois de ouvir a mensagem de Yahwéh transmitida por Natã acerca do pacto de Yahwéh com ele. A arca da presença divina estava no tabernáculo e Davi "sentou-se"[38] lipnê (diante da face de) Yahwéh. Como uma criança senta-se diante de um pai ou mestre, assim Davi sentou-se diante do Senhor. Em sua oração Davi não faz nenhuma referência ao templo; antes, concentra-se sobre a relação entre Yah­wéh para consigo e sua casa. Davi dirige-se repetidamente a Yahwéh, não menos do que dez vezes, usando o nome Yahwéh combinado com Adonai, Elohim e Seba’ ôt (Senhor dos Exércitos). Davi refere-se a si mesmo como servo de Yahwéh dez vezes, e sete vezes refere-se a sua casa.[39] Isso evidencia que Davi tinha compreendido qual era o centro da mensagem; seu intento de construir uma casa permanente para Yahwéh não era de importância imediata. Em sua oração, Davi expressa submissão à vontade e ao programa de Yahwéh. 

A oração de Davi tem duas partes principais. Primeiro, Davi reconhece o que Yahwéh tem feito e dito (7.18-24). Segundo, Davi implora a Yahwéh que leve adiante seu plano para ele e sua casa (w. 25-29). 

Versos 18-24. Davi começa sua oração com uma confissão de humildade: mi ’anoki (quem sou eu) e mi bêti (que é a minha casa) (v. 18). Ele coloca-se em contraste com Adonai Yahwéh, nome que significa o poderoso Senhor.[40] Davi acrescenta que o que ele é foi Yahwéh quem fez; foi Ele a causa de Davi ter ido tão longe.[41] Sem Yahwéh, ele, Davi, ainda seria um pastor. Mais ainda, Davi considera-se indigno da grande honra que Yahwéh lhe concedeu. No verso 19 Davi continua a maravilhar-se do que Yahwéh disse quando contrasta o que watiqtan (parecia pouco) diante de Yahwéh, e que era objeto da mais alta significação para Davi e sua família durante muito tempo.[42] Davi vai adiante e fala da condescendência de Yahwéh em vir até ele, um indigno ser humano.[43] Novamente ele se dirige a Yahwéh, o glorioso e poderoso Senhor, como Rei: "Que mais há para dizer a Yahwéh?" Ele sabe que Yahwéh o conhece. Davi refere-se a si mesmo como 'abdeka (teu servo). Coloca-se a si mesmo a serviço de Yahwéh e aceita o papel que Yahwéh lhe atribui (v. 20). Novamente Davi re­conhece que o que viesse a acontecer seria somente porque Yahwéh o disse; a palavra de Yahwéh é a causa suficiente. Mais ainda, Yahwéh fez kol-haggedullâ hazzo’t (todos esses grandes feitos), isto é, planejar a ascensão de Davi ao trono, colocá-lo nele e assegurar que sua família seria uma dinastia reinante. Acima de tudo, essa revelação a Davi é um fato da maior e mais alta importância (v. 21). 

Nos versos 22-24 Davi exalta a grandeza de Yahwéh. Ele diz: ki ’ên kamôka (pois ninguém se compara contigo) we’ên ’êlohim zûlateka (e não há Deus além de ti, v. 22). A supremacia absoluta e o caráter único de Yahwéh são afirmados. (Nenhuma outra nação tem um Deus como o de Israel!) Yahwéh redimiu seu povo e engrandeceu o seu nome perante as demais nações. Aqui Davi se refere ao êxodo e ao pacto do Sinai[44] Davi prossegue lembrando a conquista de Canaã e a remoção das nações e seus deuses da terra; Israel tomou-se um povo especial. E esse povo Yahwéh "estabeleceu firmemente para si mesmo" (tekônên leka)} para seu povo (’et-ammêka); para a perpetui­dade —- para sempre ('ad-'ôlam) (v.24).[45] Como Yahwéh tomou Israel nessa relação estreita consigo mesmo, Ele deu-se a si mesmo a esse povo, por meio de um laço, um pacto, entre Ele e seu povo. Davi emprega aqui a linguagem do pacto de Yahwéh com Abraão, we’attâ yhwh hayita lahem tê’lohim (e Yahwéh era Deus para eles) (Gn 17.2-11) e da renovação do pacto sob Moisés nas margens do Jordão (Dt 29.9-12). Em outras palavras, Davi compreende que o pacto de Yahwéh com ele está intimamente relacionado com o pacto que Yahwéh fizera com Abraão e, por meio de Moisés, com Israel. Ele realmente percebe que os grande feitos de Yahwéh no passado estavam sendo mantidos e desenvolvidos. Yahwéh estava continuando a realizar seus propósitos em relação a seu povo quando fez um pacto com Davi e sua "casa". Essas ações de Yahwéh, envolvendo-o juntamente com sua casa, eram o meio de Yahwéh continuar a ser, cada vez mais, o Redentor e Senhor do povo escolhido. Davi compreendeu o que Yahwéh tinha feito no passado, o que estava fazendo com ele e por ele, bem como o que revelou que faria em relação a sua família e a seu povo. Depois desse reconhecimento, Davi, em súplica, implora a Yahwéh que mantenha e execute sua palavra. 

Muitos estudiosos da Bíblia perguntam: por que Davi pede que Yahwéh mantenha sua palavra? Não era bastante Yahwéh ter falado? A seguir exami­naremos suas duas petições e daremos uma resposta. 

Versos 25-29. We’ attâ (e agora, v. 25) marca a transição na oração de Davi. Ele faz duas petições específicas. O ponto central da primeira é expresso por dois verbos, haqem (confirma) e 'asêh (faze). O objeto desses verbos é haddabar (a palavra) que Yahwéh falara a respeito de seu servo Davi e de sua família. Davi inclui a frase ’ad-ôlam (para a perpetuidade). Ele compreende que Yahwéh, que falou, é o único que pode executar essas promessas. Davi não pode; ele olha para Yahwéh e ora em submissão, esperança e confiança. Por meio do cumprimento de sua palavra, o nome de Yahwéh será engrandecido para sempre, Israel será estabelecido com Yahwéh como seu eterno Deus e a dinastia de Davi estará firmemente estabelecida. Davi tem a coragem de orar confiantemente porque sua oração está baseada na revelação de Yahwéh (galitâ)[46] relativa à dinastia de Davi. 

A segunda petição, introduzida pela repetição da afirmação de que Yahwéh é verdadeiramente Deus, que sua palavra é verdade e sua promessa a Davi é real (v. 28), requer a bênção de Yahwéh, segundo lhe aprouver. Essa bênção é indispensável para a continuação perpétua da dinastia de Davi. 

Por que Davi fez essa oração?[47] Ele reconheceu a promessa de Yahwéh e declarou tê-la compreendido. Expressou sua certeza de que, porque Yahwéh é Deus, essas promessas serão plenamente cumpridas. Expressou sua submis­são, cônscio de que, se Yahwéh não mantivesse o pacto e não o executasse plenamente, esse pacto não perduraria. Davi expressou sua gratidão e louvor repetindo esses conceitos centrais das promessas que ele agora proclamava como realidades. 

As Últimas Palavras de Davi (2 Sm 23.1-7). O texto hebraico da passagem é de difícil compreensão. Algumas frases obscuras permitem uma variedade de interpretações,[48] algumas das quais discutiremos nesta seção. Questões referentes à data da composição do último cântico de Davi têm ensejado ardorosa discussão.[49] O texto e o próprio contexto histórico não deixam dúvida de que Davi proferiu essas palavras pouco antes de sua morte. Há algumas semelhanças entre o último oráculo de Balaão e este último cântico de Davi (cf. Nm 24.3,15 e 2 Sm 23.1). Tentou-se, sem sucesso, encontrar fontes egípcias para a referida passagem.[50] Há vários pontos de vista sobre a unidade e estrutura da passagem.[51]

Um estudo da passagem revela que há três partes específicas: (1) Declara-se que Davi é seu autor inspirado (2 Sm 23.1,2); (2) O pacto de Yahwéh é relembrado com referência a suas bênçãos (w. 3-5); e a maldição do pacto é repetida (w. 6,7). O tema central da passagem é, entretanto, o verso 5a, sobre a permanência da dinastia de Davi. 

Versos 1,2. Essas são as dibrê david ha’ ahâronim (palavras de Davi, as últimas). A referência é ao que se segue, ao nome do compositor do cântico. Ou essas palavras são verdadeiras ou devem ser consideradas mentira. As frases paralelas que se seguem dão ênfase à veracidade da primeira frase. A despeito desse forte testemunho, muitos críticos não aceitam os fatos afirmados aqui. C. Goslinga revê a discussão sobre a confiabilidade dessas palavras e conclui que todos os argumentos foram avaliados e refutados por M. Segai e G. Ch. Aalders, refutações de modo algum obsoletas.[52]

Deve o adjetivo ’aharôn (último) ser tomado no sentido absoluto? É prefe­rível entender a frase como sendo as últimas palavras de Davi como um poeta inspirado. Da mesma forma que Jacó se despediu em seu leito de morte, (Gn 49.1), assim também o fez Davi. O termo ne’um, usado duas vezes nas frases seguintes, deixa claro que essas palavras eram de Yahwéh, isto é, um "oráculo" (NIV), como tinham sido as profecias de Balaão.[53] Dizer que essas palavras eram as últimas de cânticos inspirados é reconhecer que Davi tinha feito cânticos anteriormente; o livro dos Salmos o atesta, do mesmo jeito que o comprova o lamento de Davi sobre Saul e Jônatas (2 Sm 1.19-27)[54] Dizer "cânticos inspira­dos" é também dizer que Davi falou como porta-voz de Yahwéh. Alguns podem preferir falar desses cânticos, e em particular deste cântico, como proféticos. Isso pode ser feito se "profético" significa baseado em revelação—não se for tomado para estritamente significar predição. Davi, refletindo sobre o que Yahwéh revelara previamente, está aqui confirmando, como porta-voz de Yahwéh, essa revelação. No sentido real, Davi está dando uma resposta inspirada.[55]

Davi, que proferiu o oráculo (NIV), fala de si mesmo por meio de quatro atribuições: (1) ben-yissay (filho de Jessé), indica sua consciência de sua genealogia (Rt 4.17-22; 1.2 menciona os efratitas em Judá [cf. Mq 5.2]). Davi reconhece que pertence à linha da semente prometida. (2) ûne’um haggeber huqam (o herói que foi suscitado)[56] indubitavelmente refere-se ao fato de Davi ter sido tomado das pastagens para tornar-se um herói no campo de batalha e um guerreiro invencível, que finalmente veio a ter sua própria cidade, Jerusalém, o centro administrativo do reino. (3) mesiah ’èlohê ya'âqob (o ungido do Deus de Jacó) identifica Davi como a pessoa que Samuel ungiu por ordem de Deus, que o havia eleito para ser o "ungido" em Israel. (4) ûne'im zêmirôt yisra’êl pode ser traduzido de mais de um modo. A tradução de McCarter, "predileto dos baluartes de Israel", não é aceitável por falta de apoio textual e lexicográfico.[57] A tradução correta, muitos têm dito, pode ser "o predileto dos cânticos de Israel" (cf. RSV, mg.), isto é, alguém a respeito de quem se canta, ou "o suave cantor de Israel (cf. KJV, RSV).[58] Não significa na’îm (predileto) como Goslinga prefere; nem tem esse significado em parte alguma do Antigo Testamento. Na linguagem de cada dia, a frase significa "o muito apreciado cantor de Israel1'.[59]

Davi, plenamente cônscio dos atos de Yahwéh em seu favor, resume o que lhe tem acontecido.[60] Então acrescenta outro fato importante: ele reivindica o dom da profecia. O exercício dessa importante capacidade profética e o fun­cionamento dessa tarefa profética aplica-se ao que ele vai dizer, isto é, o "oráculo" (ne’um) do v. 1. Ele é também referido como um escritor de cânticos e cantor apreciado. Seus salmos são inspirados como a mensagem que ele está prestes a pronunciar. Note-se que como os profetas recebiam a palavra de Yahwéh, assim Davi afirma que a palavra de Yahwéh está na sua língua (v. 2b).[61] E está ali porque Yahwéh lhe deu esse privilégio, e a inspiração do Espírito capacitou-o a dizer essa palavra.[62]

Versos 3-5. A primeira parte do verso 3 repete em essência o que foi dito no verso 2.[63] Há um aspecto acrescentado: Yahwéh, que põe palavras em sua língua, é o Deus de Jacó; como o Deus dos patriarcas tinha falado em tempos passados, assim Ele continua a falar no presente. Davi identifica-se assim com os patriarcas e considera o que vai dizer como uma repetição e elaboração das revelações de Yahwéh a seus ancestrais. Tendo Davi muitas vezes encontrado abrigo, segurança, estabilidade e uma guarda fiel provida por Deus, quando estava nas montanhas e cavernas, usa o termo hebraico sûr (rocha) de Israel (v. 3). As promessas de Yahwéh são tão firmes e inabaláveis quanto as rochas entre as quais Davi e seu bando se haviam outrora ocultado. 

As duas últimas frases no verso 3 são paralelas, ambas começando com môsel (o particípio ativo do verbo "governar", e, portanto, aquele que governa). A primeira frase fala de alguém que governa sobre o povo com justiça, retidão e eqüidade. Saddiq, como adjetivo, descreve o governo de alguém que tem com Yahwéh uma relação de servo, que ama a sua lei, e cumpre seus deveres correlatamente. A segunda frase fala diretamente da relação entre Yahwéh e o governante; este é descrito como alguém que yir’at (governa no temor de Deus), isto é, tem humilde reverência, presta obediência em amor e rende pronto serviço. Como não há nenhum verbo ativo nessas duas frases e nenhu­ma referência direta à relação delas com o que se segue, ocorre uma variedade de traduções possíveis.[64], [65] A frase definidamente fala de uma pessoa que governa sobre o povo (não no meio dele). Refere-se Davi a si próprio? Diz ele que é, com efeito, o cumprimento da bênção de Jacó sobre Judá (Gn 49.10-12)? Ou refere-se ao governante prometido que virá de sua própria casa e, com efeito, diz que o pacto de Deus com ele (2 Sm 7.1-17) será cumprido? Ou será que Davi, com base em revelações e promessas messiânicas passadas feitas a ele pessoalmente, fala idealmente? Antes de tirar quaisquer conclusões, é preciso determinar a relação entre os versos 4 e 5 e essas duas frases. 

O verso 4, introduzido pela conjunção we e pelo advérbio kî, evidencia que Davi está fazendo uma comparação, ou, melhor ainda, uma descrição compa­rativa. Em vez de usar o pronome ele para referir-se (atrás) ao governante como sujeito, este deve ser encontrado nas próprias frases, isto é, a luz da manhã, o brilho do sol de uma formosa manhã sem nuvens, o brilho e a frescura da vegetação causados pela chuva. Esses fenômenos naturais são um meio bendi­to de bem-estar, prosperidade e benefícios gerais. Tendo expressado os efeitos maravilhosos da influência de um governante justo e temente a Deus, Davi pergunta (v.5): Não é, na verdade, a minha casa assim com Deus? Davi vê o efeito de uma dinastia divinamente outorgada e mantida. E desde que esse verso descreve a influência do governante justo e temente a Deus, deve ser vista uma conexão direta entre o governante e o rei da casa de Davi, ou seja, o próprio Davi, seus filhos que lhe sucederão e, finalmente, o Governante que mostrará o resultado final desse governo, isto é, o Filho da casa de Davi. No verso 3, portanto, as duas últimas frases proclamam o ideal que cada governante deve esforçar-se por alcançar, o qual, porém, será alcançado somente pelo Gover­nante real eterno prometido.[66]

A certeza de Davi de que sua casa tem e terá a aprovação de Deus e que proverá o governo justo, beneficente, temente a Deus, por meio de sucessivos governantes, não estava baseada no caráter dos homens ou no seu tipo de reinado. Sua certeza estava, isto sim, no pacto que Yahwéh fizera com ele e com sua família, a dinastia davídica. Davi refere-se a esse pacto como revelado por Yahwéh a Natã, que, por sua vez, informou a Davi (2 Sm 7.1-17). Esse pacto que tudo abarcava assegurava a Davi a continuidade de sua dinastia. ‘Arûkâ bakol usmurâ: "foi plenamente estabelecida e assegurada";[67] Yahwéh não tinha omitido qualquer aspecto. O pacto estava completo; ele era inviolável. 

Davi expressa seu pleno acordo a tudo o que Yahwéh fizera; ele quer que sua dinastia proceda de acordo com as instruções de Yahwéh. Foi-lhe garantido que ele próprio tinha recebido a assistência de Yahwéh e que seu desejo sincero para o futuro poderia ser cumprido, e o seria, graças à completa fidelidade de Yahwéh a seu pacto.[68]

Versos 6,7. O real conteúdo desses dois versos continua a expressar a certeza que Davi tem de que o pacto permanecerá, que sua casa perdurará, que ele tem declarado e mostrado sua resposta positiva à vontade de Yahwéh. Davi fala de beliya'al (a indignidade, a impiedade, ou homens caracterizados assim), que são como espinhos: causam dor e produzem uma reação defensiva, mas são lançados fora e queimados num fogo prolongado (v. 7). Davi expressa a maldição do pacto que sobrevirá para aqueles que, ao contrário dele, se opõem à vontade e aos esforços divinos de estabelecer uma dinastia permanente, cujos governantes serão justos, tementes a Deus, beneficentes e fiéis. 

Em conclusão: Davi podia cantar, falar e profetizar como fez na passagem porque, inspirado por Yahwéh, podia responder, e respondeu, afirmativamen­te às promessas, instruções, provisões e garantias que Yahwéh lhe dera no pacto concernente à sua dinastia, trono, reino, e sua própria presença (cf. 2 Sm 7.1-17). 

Alguns Salmos Selecionados. O Salmo 18.1-50 e 2 Sm 22.2-51 são versões quase idênticas do cântico que Davi dibber (falou, cantou) a Yahwéh quando agradecia e louvava a Ele por hassîl (hiphil de nasal, libertar), a libertação que ele experimentou em suas batalhas e vitórias sobre todos os seus inimigos. 

É difícil determinar quando foi composto esse cântico. A vitória de Davi sobre Saul e sua casa veio cedo na vida de Davi, mas ele não experimentou vitória sobre todos os seus inimigos ainda por muito tempo. Daí, parece correto concluir que Davi compôs o cântico cedo em sua carreira e repetiu-o diversas vezes, à medida que Yahwéh lhe dava livramento.[69]

Davi usa muitos termos para dirigir-se a Yahwéh. Como usou Moisés a palavra "rocha" (hebraico sûr, Dt 32.4), Davi dirige-se a Yahwéh como sal'i (minha rocha, v. 2 [TM 3]). Ambos encontraram refúgio e segurança em Yahwéh. Seu Senhor os livrará e guardará de acordo com sua justiça e fideli­dade. Moisés falou dessas virtudes na primeira parte de seu cântico; Davi refere-se a elas nas últimas três linhas de seu cântico. Tomando alguns concei­tos de 2 Sm 7.1-17 ele recorda a hesed (graça, misericórdia) de Yahwéh, sua fidelidade ao pacto limsihô (com seu ungido). Essa atitude favorável não é apenas para com Davi, mas também lezar'ô (a sua semente, descendentes). Assim assegurada, a bênção será 'ad-ôlam (para perpetuidade, para sempre, v. 50 [MT 51]). 

Davi, portanto, neste seu cântico de ação de graças responde à revelação de Yahwéh a ele. Ao fazê-lo, reconhece Yahwéh como o Deus do êxodo que chamou, manteve e protegeu Moisés em todas as suas experiências no Egito, no deserto e na Transjordânia. Esse mesmo Yahwéh é o guardião de Davi; ainda mais, é aquele que fez um pacto com ele e sua semente, que assegurou que o rei da casa de Davi triunfaria (v. 50 [TM 51]) e receberia os benefícios do amor e misericórdia infalíveis do pacto de Yahwéh. 

O problema da relação entre o próximo salmo selecionado (89) e o pacto de Deus com Davi (2 Sm 7, par. 1 Cr 17) tem recebido muita atenção. Ishida, tendo pesado os argumentos, concluiu que "parece difícil resistir à prioridade do texto de 2 Sm 7".[70] É definitivamente certo considerar a passagem como o texto original; é o primeiro relato da revelação de Yahwéh a Davi. O Salmo 89 é atribuído a Etã, o ezraíta. Um homem com esse nome era um dos levitas cantores (1 Cr 15.17,19) ou um sábio da corte de Salomão (1 Rs 4.31). É possível que o compositor do salmo fosse um cantor e um sábio. Parece melhor concluir que Etã, o levita cantor, é o compositor do salmo na retração de uma das primeiras derrotas sofridas por um rei davídico depois que o pacto com Davi foi estabelecido. 

O salmo tem cinco partes distintas: (1) a introdução (w. 1-4) [TM 1-5]); (2) o hino de louvor (5-18 [TM 6-19]); (3) as promessas de Yahwéh a Davi (19-37 [TM 20-38]); (4) o lamento sobre a derrota (38-45 [TM 39-46]); e (5) uma súplica (46-52 [TM 47-52]). 

Etã começa cantando a hasdê yhwh (o amor e as misericórdias pactuais de Yahwéh (v. 1). Numa afirmação paralela fala da ’emunâ (fidelidade, confiabi­lidade) de Yahwéh, ambas virtudes firmemente estabelecidas assim na terra como no céu que Yahwéh criou (v. 2). Tão firme e duradouro quanto a criação, assim é o pacto que Deus fez com seu eleito, Davi seu servo. Por juramento, Yahwéh afirmou que a dinastia de Davi e seu trono durariam para sempre, através de gerações sucessivas (w. 3,4). Não há refutação possível: o tema do Salmo 89 é o pacto que Yahwéh fez com Davi em relação a seus descendentes e ao trono. 

Declarado o tema, Etã passa a louvar a Yahwéh e convida os céus (v. 5) e os anjos a juntar-se em adoração aos fiéis. O soberano poder de Yahwéh sobre a criação e nações é exaltado (w. 9-13); suas virtudes mostradas em seu reino, onde Ele se assenta entronizado, são enumeradas (w. 14,15).[71] Os fiéis em Israel são encorajados a reconhecer as bênçãos de ter Yahwéh como seu justo Protetor e glorioso Defensor (w. 16-19). O tributo de louvor e o chamado à adoração são seguidos por uma extensa reflexão sobre as sagradas palavras que Natã, como porta-voz de Yahwéh, declarou a Davi. Todos os aspectos incluídos na passagem do pacto (2 Sm 7.1-17) são elaborados, exceto a constru­ção do templo: (1) a visão (v. 19); (2) Davi, servo de Yahwéh, escolhido, fiel, poderoso e vitorioso (w. 20-24); (3) a unção de Davi (w. 20,21); (4) o amor, a misericórdia e a fidelidade permanentes de Yahwéh (w. 25,28,34,38); (5) a recepção por Davi da coroa e do trono (w. 20,30,37); (6) Davi como rei e sua relação, como filho, com Yahwéh (w. 26,27);[72] (7) a posteridade de Davi a suceder o monarca como filho primogênito e rei sobre o trono firmemente estabelecido (w. 36,37); (8) o pacto, firme e inviolado (w. 29,35); (9) as instru­ções que exigem fidelidade e serviço obediente ao pacto de Deus, e as punições por quebrá-la (w. 31-33); e (10) o juramento pelo qual as promessas do pacto foram seladas (w. 35,36). 

Pela leitura do Salmo 89 temos a certeza de que não foram somente Davi e sua posteridade que responderam à revelação de Yahwéh relativa ao trono, à semente e ao pacto e a reconheceram. Israel, também, cantou esse cântico de afirmação e confiança. Quando a casa real de Davi e Israel foram derrotados e a ira de Yahwéh contra ambos foi manifesta, surgiu um grito de desespero pela rejeição por Yahwéh do cetro, da coroa, do trono e da cidade (w. 39-46). Contudo, a confiança em Yahwéh e em suas promessas pactuais não se evapo­rou. O salmo conclui com súplicas para que Yahwéh se lembre, restaure e remova as dolorosas causas do escárnio dos inimigos de Israel. 

O Salmo 132 reflete uma situação histórica centralizada no templo. O pensamento principal dos versos 8-10 encontra-se nas palavras finais da oração de Salomão na dedicação do templo (2 Cr 6.41-42). Esse salmo foi evidentemen­te composto para comemorar aquela dedicação.[73] Um exame da estrutura do salmo evidencia que as inconfundíveis palavras de Salomão representam o tema do salmo. 

Versos 1-5 refletem a intenção de Davi de construir uma casa para Yahwéh. De fato, é dito que ele fez um voto de assim proceder (v. 2). É uma referência a um evento histórico (2 Sm 7.1,2,18-29). 

Versos 6,7 são a resposta da comunidade que adora o templo (KJV, taber­náculo) que foi construído como lugar de culto. 

Versos 8-10 são uma repetição da oração dedicatória de Salomão, em que ele menciona Davi, o desejo do ungido de Deus. 

Versos 11,12 refletem o pacto que Yahwéh fez com Davi com vistas a seus filhos e sua permanência no trono. 

Versos 13-18 falam da escolha que Yahwéh fez de Sião como a cidade para sua habitação e a centralidade do templo com suas atividades de culto, alegre­mente aclamadas; o futuro da semente e da coroa de Davi é afirmado, e declara-se a queda de seus inimigos. 

O preciso conteúdo do pacto de Deus com Davi (2 Sm 7.1-17) serve como introdução e conclusão do cântico que realça o epílogo da oração dedicatória de Salomão na consagração do templo. 

É de interesse específico notar que vários elementos de três eventos importantes estão entremesclados nesse salmo: (1) o voto de Davi de construir uma casa permanente para Yahwéh em Jerusalém, onde sua casa real estava localizada e onde sua família real vivia; (2) o estabelecimento do pacto de Yahwéh com Davi, selado por juramento divino, que os descendentes de Davi ocupariam o trono em Jerusalém; (3) a construção do templo por Salomão, a colocação da arca no Santo dos Santos (2 Cr 5.7) e a oração dedicatória de Salomão. A combinação desses elementos nesse salmo certamente evidencia que, ao contrário da opinião dos críticos, a totalidade do relato do pacto ds Deus com Davi (2 Sm 7.1-17) é uma unidade literária que registra uma série de ações estreitamente inter-relacionadas, que constituem um fenômeno his­tórico único. Essa marcante combinação também revela quão intimamente relacionadas eram a presença constante de Yahwéh (o princípio de Imanuel) e a entronização permanente dos descendentes de Davi no reino estabelecido em Israel por Yahwéh. Foi dada a Yahwéh uma habitação permanente quando a dinastia, isto é, a semente de Davi, foi estabelecida no trono. Assim, o Salmo 132 esclarece por que Davi não pôde construir o templo e seu filho pôde, e o fez. 

Alguns outros salmos podem conter referências à revelação do pacto de Yahwéh com Davi. Davi suplica a Yahwéh que se lembre de seu raham (amor profundo)[74] e sua hesed (amor constante) (SI 25.6), não os pecados de sua juventude (v. 7) (cf. 2 Sm 7.14,15). Os filhos de Coré cantam, como o fez Etã no Salmo 89, a respeito de uma esmagadora derrota sofrida pelo povo de Yahwéh. Contudo, cantam os filhos, não "nos esquecemos de ti" nem quebramos "o teu pacto" (SI 44.17; cf. 2 Sm7.14,15). Davi orou, quando cantava, que a vida do rei pudesse ser prolongada e seus anos continuassem dor wador, "geração a geração" (KJV, mg.), e suplicou pelo amor constante e pela fidelidade de Deus para guardar o rei (SI 61.6,7) (cf. 2 Sm 7.12-13,15). Asafe cantou a respeito da escolha que Yahwéh fez da tribo de Judá, do Monte Sião ’aser ’ahêb (que ele amou), do lugar santo que foi construído e da sua escolha de Davi para ser o pastor de seu povo (SI 78.68-72) (cf. 2 Sm 7.8).[75] Davi cantou, provavelmente no fim de sua vida, pedindo a Yahwéh que não desamparasse a obra de suas mãos, pelo contrário, cumprisse seus propósitos para Davi. Davi tinha certeza de que Ele o faria, porque conhecia a hesed de Yahwéh, que dura le'ôlam (para a perpetuidade, para sempre, SI 138.8b; cf. 2 Sm 7.11-16). Davi meditava sobre os dias há muito passados, quando ele testemunhava perturbações ao seu redor, levantava a voz em súplicas e pedia a Yahwéh que o ouvisse pelo seu amor constante, e quando Yahwéh, pelo seu amor constante, o livrava de seus inimigos (SI 143.5,8,9,12; cf. 2 Sm7.15,16). 

Um estudo desses salmos dá um foco definido à questão quanto a se eles precedem as afirmações de Yahwéh sobre o governante real ou se a revelação de Yahwéh é a sua fonte e os salmos são repetições, reflexões, louvores e súplicas baseados nessa revelação divina. As referências repetidas ao trono, à dinastia de Davi, ao pacto e ao amor permanente de Yahwéh, todas apontam para uma fonte revelatória. Não há nenhuma indicação de que esses salmos foram reunidos e selecionados por um teólogo, historiador ou editor literário para formular um suposto evento histórico.[76]

Referências Históricas. Além da oração de Davi (2 Sm 7.18-29), suas últimas palavras (23.1-7) e alguns salmos selecionados, há referências históricas à revelação de Yahwéh a Davi e a seu pacto com ele. Elas dizem respeito a um dos aspectos, a algumas partes ou à totalidade do discurso entre Yahwéh, Natã e Davi. 

Há muitas referências ao trono de Davi, no qual seus descendentes também deveriam sentar-se — referências freqüentemente feitas a Salomão (p. ex., 1 Rs 1.46-48; 2.24; 3.6,7; 5.5; 8.20,25; 9.5). 

Há um grande número de referências às instruções que Yahwéh formulou aos ocupantes do trono davídico (2 Sm 7.14), ou em forma de injunção (p. ex., Rs 23,4; 8.25) ou de afirmação do motivo pelo qual o trono não era seguro para determinada pessoa (1 li 9.6; 11.11-13; cf. 14.7-9). 

O conceito de hesed (a misericórdia duradoura prometida e o amor pactual) é repetido numerosas vezes (1 Rs 3.6,7; 2 Cr 1.8; 6.41,42). 

A revelação sobre a semente de Davi — um filho que ocuparia o trono — aflora direta e indiretamente (1 Rs 13.2; 15.4; 2 Rs 8.19; 2 Cr 13.5; 21.7). 

A construção da casa de Yahwéh, e a construção da dinastia de Davi por Yahwéh, são lembradas (lRs 5.5; 8.16,17). 

O princípio de Imanuel —Deus com os homens — é usado algumas vezes referindo-se a Davi (2 Sm 7.9) e Salomão (v. 14; cf. "meu nome", em 2 Rs 21.7; 1 Cr 33.7). 

A petição de Davi, em sua oração de confiança e louvor, é repetida na dedicação do templo (1 Rs 8.26). 

A eleição de Davi, citada e repetida na mensagem de Natã a Davi, vem à superfície durante o reinado de Jeroboão (1 Rs 11.34), Salomão (2 Cr 7.18) e de Jeorão (21.7). 

Ao escolher Davi, Yahwéh escolheu também Jerusalém como sua cidade (cf.l Rs 11.13,36; 2 Cr 33.7). 

Essas numerosas referências históricas à revelação de Yahwéh a Davi e ao pacto que Ele celebrou, o qual incluía especialmente as promessas relativas à semente e ao trono, dão forte apoio à veracidade do relato do pacto de Deus (2 Sm 7.1-17; 1 Cr 17.1-15). Os profetas, que profetizaram no contexto histórico descrito nos livros de Reis e Crônicas, repetidas vezes também lembraram, explicaram, e expressaram louvor a Yahwéh por suas promessas a Davi e sua semente.[77]

A Mensagem Messiânica 

O termo hebraico masîah (Messias) não aparece em 2 Sm 7 ou em sua passagem paralela (1 Cr 17.1-15). Como observamos, o termo hebraico bèrit (pacto) também não é citado. Ambos os termos, não obstante, expressam os, sem dúvida, conceitos fundamentais deste capítulo. Eles aparecem em 2 Sm 23.1 7 e nos Salmos 18, 89 e 132, referindo-se à revelação de Yahwéh a Davi. Acrescente-se ainda que, quando a palavra é dirigida a Davi, ou quando ele ora, está consciente de ser o ungido de Yahwéh, pelos vários termos que emprega e que vêm do contexto de sua unção, por exemplo: tomado das pastagens, escolhido de Yahwéh, tomado um nagid (regente, príncipe). 

Estudando esta importante passagem, fica-se impressionado com a predo­minância do ponto de vista mais estrito do conceito messiânico. A ênfase recai sobre pessoas — Davi, seu filho, seus futuros descendentes. Mais ainda, o caráter real dessas pessoas é repetidamente mencionado: ele-eles sentar-se-ão no trono; ele-eles governarão. Ocupar o trono significa exercer um reinado ativo sobre o povo escolhido, considerado também como um povo real, pois é referido como o reino de Davi. Davi compreende que seu reino é o povo redimido de Yahwéh, que, no Sinai, foi declarado "sacerdócio real" e "nação santa" (Êx 19.6). Assim, o conceito de realeza presente desde Adão, através de Noé, Moisés, Josué e Samuel veio à plena realização na revelação de Yahwéh a Davi. Davi e sua dinastia eram reis, filhos e servos do Soberano de toda criação, das nações e particularmente de Israel. Davi era rei sobre o Israel régio e Israel era a nação real por excelência entre todas as demais nações e povos, todos os quais por virtude de sua criação têm uma dimensão régia. Então, considerando que todos os povos são régios, num sentido muito geral, e Israel, por virtude da palavra e obra de Yahwéh, é especificamente real, Davi e sua dinastia constituem o pináculo da realeza. Se isto é plenamente aceito, então as muitas referências a Davi e à sua dinastia tomam-se compreensíveis. Davi (e seu filho Salomão) tornaram-se a mais plena representação da realeza sob a direção de Deus. Como tal, Davi era o ancestral e tipo daquele que manifes­taria plenamente a realeza no meio de seu povo, sobre todas as demais nações e sobre toda a criação. 

O ponto de vista mais amplo do conceito messiânico está também presente. Ele está implícito no ponto de vista mais estrito—o reinado do Rei. Há algumas indicações para descobrirmos a profundidade e o escopo de tal reinado. A referência a feitos passados sugere o prosseguimento de uma obra já começada. O rei seria o pastor de seu povo, haveria de amá-lo, protegê-lo, prover para ele e dirigi-lo. Além disso, haveria de fazê-lo seguro e dar-lhe repouso na Terra Prometida. Haveria de guiá-lo também nos caminhos da fiel obediência a Yahwéh. Haveria também de manter a paz e a prosperidade na vida quotidia­na, nas relações sociais e no culto. Haveria, finalmente, de demonstrar o que significava a idéia pactual de hesed (amor, fidelidade, misericórdia) que Yah­wéh revelou e demonstrou. 

Falta responder uma pergunta específica: a profecia revelada a Davi refere-se diretamente a Jesus Cristo? Houve no passado estudiosos que disseram que a promessa se refere somente a Jesus Cristo.[78] Alguns, como Agostinho, dizem que havia uma referência dupla direta.[79] Outros pretendem que, embora Salomão não esteja totalmente excluído, a profecia refere-se principalmente a Cristo. O ponto de vista de Hengstenberg é que os que vêem Salomão e Cristo estão certos, mas formulam sua justificação incorretamente. Ele considera ser o ponto de vista correto que a referência é à casa de Davi considerada como uma "unidade ideal". 

O texto hebraico faz uma referência direta à posteridade que viria mimme'êka (de tuas entranhas). Um descendente físico direto é distintamente assinalado como aquele para quem Yahwéh estabelecerá o reino (2 Sm 7.12). A referência não pode ser a nenhum outro senão ao próprio filho de Davi, Salomão. A profecia, portanto, assegura a Davi que seu filho receberia o reino sobre o qual ele havia reinado. 

O próprio Yahwéh garantiu que esse filho estaria firmemente estabelecido como rei, reinando sobre todo Israel (2 Sm 7.13), o reino que Yahwéh tinha estabelecido. Muitos israelitas, através de sua história e depois do exílio, continuaram a manter esse estreito enfoque. Becker, considerando as crenças dos profetas (não a revelação de Yahwéh) podia, portanto, dizer que todas as afirmações do Velho Testamento relativas ao messias eram basicamente aspi­rações monárquicas.[80] Se aceitarmos sua posição a príorí de que o Velho Testamento é apenas um registro das crenças israelitas, pode-se compreender esse ponto de vista. Há, entretanto, uma ampla divergência entre o que Yahwéh revelou e o que o povo de Deus cria. O próprio Davi mostrou que compreen­dera a revelação de Yahwéh. Em suas respostas falou não somente de seu filho imediato, mas também da dinastia que devia continuar 'ad-ôlam (para perpe­tuidade, 2 Sm 7.13,16). Em alguns dos salmos (a serem estudados nos caps. 11 e 12) apresentaremos outras evidências da compreensão de Davi quanto ao eterno filho-rei. 

Devemos concluir que a referência messiânica nessa passagem é primeira­mente a Salomão e aos futuros descendentes de Davi e Salomão. A família, a casa e a dinastia seriam estabelecidas firmemente e para a perpetuidade. E nessa dinastia, e através dela, Yahwéh cumpriria seus propósitos em favor de seu povo. Ele faria isso por meio do Messias, Cristo, o Senhor que viria da dinastia que Yahwéh estabeleceu com Davi e sua semente. 

Perspecti vas Escatológicas 

Na passagem sobre o pacto de Deus com Davi (2 Sm 7.1-17 e textos relacionados), são apresentadas quatro perspectivas em relação ao tempo. Primeiro, Yahwéh, Davi, e outros, que refletem sobre a revelação de Yahwéh a Davi, mantêm em sua visão a obra de Yahwéh com os patriarcas, com Moisés e com o povo de Israel. O que se disse e se fez são parte, continuação, desenvolvimento e explicação do passado. 

Há, em segundo lugar, uma concentração no presente. Davi estava num ponto crucial no curso de sua soberania sobre Israel, de suas relações com Yahwéh e de sua consolidação de Jerusalém como centro cúltico e administra­tivo para Israel. Enquanto ele considerava sua situação presente e começava a traçar planos para o futuro, Yahwéh falou-lhe pela boca do profeta Natã para levá-lo a ver-se a si mesmo como o ungido sobre Israel no cenário e no tempo em que estava vivendo, trabalhando e planejando. Davi projetava-se no futuro sem ater-se ao fato de que nem todas as providências e atividades necessárias tinham ocorrido até então sob seu reinado. Ele e sua dinastia ainda teriam de ser estabelecidos. 

Terceiro, com o passado e o presente na perspectiva adequada, o futuro imediato é posto em foco: a dinastia de Davi começaria com um filho que sairia de seu próprio corpo, a ser ungido e entronizado, e continuaria enquanto reinassem os descendentes desse filho. 

A quarta perspectiva foi posta diante de Davi e de seus filhos pela repetição da frase 'ad-ôlam (para a perpetuidade). Como já explicamos, esta frase pode referir-se ao futuro distante, mas também ao tempo infinitamente distante, o tempo além da compreensão normal, ou seja, a eternidade. 

Concluindo devemos afirmar que, sob um enfoque escatológico, a revelação de Yahwéh a Davi e o seu pacto com ele foram um estágio muito importante no plano total de Yahwéh para seu povo em todos os tempos e lugares. A vida, obra e posição de Davi eram um cumprimento escatológico de profecias e acontecimentos passados; como evento escatológico, ele prepara o palco para novas realizações escatológicas no futuro. Os salmos e os profetas lançam mais luz sobre o que se deveria esperar escatologicamente como desenvolvimento do que Yahwéh tinha dito e feito no tempo de Davi. 

Salomão, um Governante Real (1 Rs 1-11, par. 2 Cr 1-9) 

Salomão teve um papel importante na consolidação da dinastia davídica, na história do desenvolvimento nacional de Israel e na continuidade da reve­lação do conceito messiânico. O relato da vida, unção e reinado de Salomão encontram-se em 1 Rs l-ll[81] e na passagem paralela em 2 Cr 1-9.[82]

Salomão, o Filho Designado 

Yahwéh revelara a Davi que sua descendência haveria de sentar-se no trono e que Yahwéh seria "seu pai, e ele será meu filho" (2 Sm 7.14 KJV).[83] O nome desse descendente não é mencionado. Quando Davi estava próximo da morte, o mais velho de seus filhos sobreviventes, Adonias, solicitou apoio para sua coroação (1 Rs 15-9), de acordo com a lei da primogenitura.[84] Natã, o profeta, e Bate-Seba, a mãe de Salomão, rapidamente fizeram os arranjos para que Davi declarasse que Salomão, que era provavelmente seu décimo filho (2 Sm 5.14), fosse ungido e posto no trono. Bate-Seba apelou para uma promessa que Davi tinha feito a respeito de sua sucessão (embora não haja registro do tempo dessa promessa). Quando Salomão nasceu, entretanto, Natã informara Davi e Bate- Seba de que Yahwéh amava Salomão e, de acordo com isso, deu à criança um segundo nome, Jedidias, que significa "amado do Senhor" (2 Sm 12.24,25). A estratégia de Bate-Seba e Natã foi bem sucedida;[85] Davi proclamou que Salo­mão devia ser ungido como seu sucessor (1 Rs 1.28-35). E Salomão foi ungido imediatamente — e tornou-se co-regente com Davi por um breve tempo (1 Rs 2.1, par. 1 Cr 23.1).[86]

Salomão foi ungido por Zadoque,[87] o sacerdote que tinha acesso ao óleo da unção no tabernáculo (1 Rs 1.34). Um dos heróis militares de Davi expressou sua aprovação, dizendo: "Como o Senhor foi com o rei meu senhor, assim seja com Salomão, e faça que o trono deste seja maior do que o trono do rei Davi, meu senhor" (1.36,37). 

Adonias não renunciou a suas pretensões ao trono, embora Salomão tenha poupado sua vida. Sua tentativa de ter Abisague, a jovem donzela de Davi (1 Rs 1.2-4) foi, com efeito, um movimento inicial para tomar o trono de Salomão, pois, tendo a mulher de Davi, ele podia pretender ficar na linha de sucessão de seu pai.[88] A proclamação de Salomão como seu sucessor foi seguida por uma instrução de Davi a seu filho co-regente. Salomão foi admoestado a ser forte (2.2), a guardar os mandamentos de Yahwéh como foram escritos na lei de Moisés[89] e a lembrar-se das palavras que Yahwéh tinha falado a Davi sobre a fidelidade de seus filhos a Yahwéh. Davi lembrou a Salomão que esse era o método prescrito para assegurar que os filhos dos filhos ocupassem o trono nos tempos vindouros (2.3,4). Assim, Davi levou adiante a revelação do pacto de Yahwéh com ele e sua posteridade. E Salomão, provavelmente mais do que Davi, recebeu a plena lealdade de todo Israel (1 Cr 29.24)[90] O cronista relata uma "segunda" unção de Salomão, após a morte de Davi (1 Cr 29.22). Ambos os relatos estão de acordo em que: depois que Davi morreu e que Salomão realizou algumas das medidas que seu pai sugerira (1 Rs 2.5,8),[91] o reino nakônâ bêyad-Selomoh (tomou-se consolidado nas mãos de Salomão). 

Salomão, o Filho Sábio 

Quando Salomão estava adorando em Gibeom,[92] foi-lhe permitido escolher o que mais desejasse (1 Rs 35). A resposta de Salomão revela que ele já possuía uma boa medida de sabedoria. Mas mostrou também que estava cônscio da promessa de Yahwéh a Davi, seu pai, e do pacto que incluía um filho para sentar-se no trono. Assim, o pedido de Salomão por sabedoria para capacitá-lo a ser como Davi tinha sido — fiel, justo, íntegro de coração para com Yahwéh e capaz de lispot (julgar, governar, guiar) o povo — foi cumprido (3.10-14). Além da sabedoria, foram-lhe prometidas riquezas e honra (3.12). E com esses dons veio uma clara recomendação: telek (andar) nos caminhos de Yahwéh e lismor (guardar, obedecer) os estatutos e mandamentos de Yahwéh, como Davi tinha feito (3.14). Assim fazendo, a promessa sobre a continuação do reino de Davi seria realizada. 

Fora de quaíquer dúvida, Salomão recebeu sabedoria/na verdade, tomou- se tão famoso por causa desse dom que a rainha de Sabá veio de longe para convencer-se desse fato extraordinário. Essa sabedoria pertencia a todas as facetas da vida — espiritual, natural, social e econômica (cf. 1 Rs 4.29-34). O amor de Yahwéh por Salomão (2 Sm 12.24) e o amor recíproco de Salomão por Yahwéh (1 Rs 3.3), os dons de sabedoria, riqueza e fama deram-lhe esplêndidas oportunidades de executar os propósitos de Yahwéh e suas promessas para a casa real, para a dinastia de Davi e para Israel, o "reino de sacerdotes" e "nação santa".[93]

Salomão, o Filho Real 

Salomão, ao organizar e estender seu reino, demonstrou que era sábio, contudo, que também tinha "pés de barro".[94]

Salomão demonstrou sabedoria na nomeação de oficiais (1 Rs 4.1-19). Altos oficiais serviam em Jerusalém e doze oficiais serviam nos doze distritos de Israel. Esses distritos proviam as necessidades do dia-a-dia da corte. Mas o crescente absolutismo de Salomão e suas pesadas exigências de monarca eram sinais de seus "pés de barro".[95] Salomão estendeu seu reino para além das fronteiras de Canaã; reinos do Eufrates até à fronteira do Egito eram parte do império sobre o qual reinava; seu reino, na verdade, ia do rio ao mar (SI 72.8). Mas para estabelecer sólidas relações políticas com o Egito, seus "pés de barro" levaram-no loucamente a desposar uma princesa egípcia (1 Rs 3.1). Dessa maneira, influências egípcias foram trazidas para a "cidade de paz" de Salo­mão, Jerusalém.[96]

A construção do templo por Salomão fez dele um homem reverenciado entre os judeus por séculos. Ele sabiamente levou adiante as intenções, os planos e os preparativos de Davi. Estabeleceu úteis relações econômicas com os países dos quais recebia suprimentos. Sua oração de dedicação (1 Rs 8.23-53, par. 2 Cr 6.14-42) provou seu conhecimento da revelação que Yahwéh fizera de si mesmo, de sua relação com seu povo e do significado do princípio de "Imanuel" (1 Rs 8.12-21).[97] Salomão provou ser um rei de paz (Salôm)—como, aliás, ele próprio fora chamado, Selomoh (paz).[98]

A tragédia dos "pés de barro" de Salomão tornou-se mais patente à medida que ele envelhecia. Ele introduziu em Israel sincretismo religioso (1 Rs 11.1-8)[99] Ele ignorou as determinações de Yahwéh, dadas por meio de Moisés para o rei de Israel (Dt 17.16,17); ele juntou muitos cavalos para a guerra (1 Rs 10.26-29); interagiu com o Egito para vários propósitos, inclusive para arranjar uma esposa (3.1; cf. 9.16); desenvolveu um imenso harém (11.1-4) e reuniu muita riqueza (10.23). Por isso,Yahwéh tomou-se irado com Salomão, que não guardou o pacto do Senhor com Davi (11.9-13). Mas, por causa do mesmo pacto e da escolha de Jerusalém por Yahwéh, este não anulou o pacto. A dinastia de Davi deveria continuar; o reino, entretanto, seria reduzido a uma simples tribo Judá (11.13). O reino, que anteriormente incluía toda a Canaã de Israel e muitas das nações vizinhas, cobrindo uma grande área geográfica, tomou-se um pequeno domínio que foi várias vezes atacado, humilhado e finalmente conquistado pelas nações pagãs dos arredores.[100]

E importante enfatizar que a continuidade do reino davídico dependia somente das promessas de Yahwéh. O glorioso reino de Salomão, no auge de seu poder e fausto, não foi a causa real ou a fonte do pensamento messiânico, de suas esperanças e metas entre os judeus. Na verdade, muitos olhavam para trás, para aquele reino ideal a ser atingido novamente.[101] Mas a razão e a fonte dos pensamentos e esperanças messiânicas era o pacto feito com Davi e realizado em certa extensão na última parte do reinado de Davi e no reinado de Salomão (exceto seus últimos anos).[102]

Aspectos Messiânicos 

O real conceito messiânico inclui quatro aspectos distintos. Primeiro, Salo­mão foi um ancestral e predecessor do Messias prometido. Fora assegurado a Davi que sua dinastia seria estabelecida e que sua descendência ocuparia o trono. Salomão foi o sucessor designado, um elo definido entre Davi e o Cristo que estava por vir (Mt 1.6,7,16). 

Segundo, Salomão era um tipo. Seu nome, seus dons e seu reinado foram significativos no tempo histórico em que viveu. Ele, entretanto, prefigurava o Messias prometido, que seria o príncipe da paz, que teria todas as virtudes da divindade e que reinaria soberanamente sobre todas as demais nações e seus misteres. Em Salomão pode-se encontrar, pelo menos nos primeiros anos de seu reinado, impressões e sombras dos contornos e da infra-estrutura do reino messiânico que havia de vir. O reino de Salomão foi típico, assim como o foi Salomão, o rei. 

Terceiro, o ponto de vista mais estrito do conceito messiânico domina nessa importante passagem. Salomão era uma pessoa régia: era um rei com extenso domínio e um famoso reinado. Com todos os seus dons e sua capacidade, tomou-se amplamente conhecido. Sua fama espalhou-se por muitos países. Ninguém, de fato, antes ou depois de Salomão, preencheu tão plenamente as qualificações do ponto de vista mais estrito do conceito messiânico. Ele era a pessoa real por excelência. 

Quarto, o ponto de vista mais amplo do conceito messiânico foi expresso de vários modos. A construção do templo por Salomão trouxe o conceito da "habitação de Deus com os homens" a uma realização mais plena na história. Sua capacidade de colocar nações sob seu domínio e governá-las com paz e eqüidade também tinha significação messiânica. 







[1] Muitos eruditos têm apontado esse fato, por exemplo: Charles A. Briggs, A Criticai and Exegetical Commen- tary cm the Book of Psalms, em ICC (Edimburgo: T. &T, Clark, 1907/1908), pp. 128-132; Emst Hengstenberg, The Christology of the Old Testament, trad. de Theodore Meyer, 2 vols. (Edimburgo: T. & T. Clark, 1868), 1.131-152; Tomoo Ishida, The Royal Dynasties in Ancient Israel (New York: Walter de Gruyter, 1977), pp. 110,111; John L. McKenzie, "Royal Messianism", CBQ (1957), 19.44; P. Kyle McCarter, II Samuel, em AB (1984), 9.219; Sigmund Mowinckel, He That Cometh, trad. de G. W. Anderson (Oxford; Blackwell, 1959), p. 166. 


[2] Por exemplo, A. G. Hebert, The Throne ofDavid (Londres: Faber and Faber, 1941), pp, 4245,65, afirmou que as profecias de Isaías e Ezequiel sobre o Messias são baseadas em 2 Samuel 7.1-17. 


[3] Ver Paton J. Gloag, que mostra que 2 Sm 7 provê o "background" para muitos salmos (The Messianic Prophedes [Edimburgo: T. & T. Clark, 1879], p. 169). 


[4] P. ex., Mowinckel omite a passagem de 2 Sm 7.1-17 e passagens semelhantes das épocas históricas do Velho Testamento (mas ver He That Cometh, pp. 97,100,101,117,166). Joachim Becker, Messianic Expectations in the Old Testament, trad. D. E. Green (Filadélfia: Fortress, 1977) é muito específico. Ele busca as diretas convicções históricas (pp. 18,25) e conclui que não havia pensamento messiânico presente até o primeiro século a.C. (p. 38,50); pelo contrário, tais convicções eram relativas à monarquia (p. 55). Becker faz uma distinção desnecessária entre a realeza de Yahwéh na monarquia e a realeza messiânica ulterior no limiar do Novo Testamento (pp. 79,87-92). 


[5] Cf. P. Kyle McCarter, que dá extensa bibliografia sobre 2 Samuel, inclusive sobre a passagem do pacto de Deus com Davi (IISamuel, em AB [1984], 9.20-52), incluindo a passagem sobre o pacto de Deus com Davi, São incluídas muito poucas obras escritas de um ponto de vista conservador. 


[6] Algumas dessas variantes serão discutidas mais adiante, neste mesmo capítulo. 


[7] K. Budde (Die Bucher ... Samuel erklaert [1902]), C. H. Cornill (Einleitung in die Kanonische Buecher des Alten Testament [Friburgo, 1891]), e A. R. S, Kermedy (Samuel, em The New Century Bible [New York; Oxford University Press, 1905], p. 223 n.) optam por uma data pré-exílica; Henry P. Smith (A Criticai and Exegetical Commentary on the Book of II Samuel, em ICC [1904], p. 297), pelos tempos exílicos; e Robert P. Pfeiffer (Introduction to the Old Testament [Ntw York: Harper, 1948]) considera-a um "midrash" tardio (p. 368). 

George B. Caird, aceitando os argumentos de Pfeiffer contra uma data antiga, apresenta o ponto de vista de que o texto contém três estágios de composição: (1) havia a eterna semente de Davi; (2) um escritor de "prosa chã" incluiu uma polêmica adversa ao santuário; e (3) uma "hábil" réplica a essa polêmica foi feita por um terceiro editor (I e II Samuel em /£, 2.864-885; cf.p. 1084). P. Kyle McCarter aponta um vigoroso editor deuteronomista para o material que ele crê ter sido desenvolvido em três estágios, mas a origem do material incluído não é o deuteronomista sempre, especialmente o estágio 3, que não fala da construção do templo (IISamuel, em AB [1984], 9.223-231). 


[8] Os eruditos escandinavos trabalharam duramente para descobrir uma variedade de fontes fora de Israel para o conteúdo de 2 Sm 7.1-17. Ivan Engnell crê que a passagem é similar à do Rei Keret do texto ugarítico (Studies in DivineKingship [Oxford: Blackwell, 1943], p. 149); Mowinckel (He That Cometh, pp. 97,98) vai buscar suas origens nos festivais de entronização; Aage Bentzen (King andMessiah [Oxford: Blackwell, 1970], p. 33) pensa que Davi iniciou um novo festival de entronização com um novo mito, moldado no de outras nações. Helmer Ringgren crê que 2 Sm 7.1-17 é semelhante a atos cúlticos pagãos no Festival de Ano Novo, no qual os reis terrenos se tornam filhos de Deus por adoção (TheMessiah in the Old Testament [Chicago: Allenson, 1956], p. 12). A. R. Johnson, aceitando alguns desses motivos, escreve a respeito da passagem como apoiando o conceito da realeza sacra (Sacred Kingship in Andent Israel, p. 110). 

John L. McKenzie fala a respeito do hipotético festival anual do pacto ("Royal Messianism", CBQ[1957], 19:44). Como mencionamos em capítulos precedentes, não há nenhuma evidência bíblica de que Israel tenha adotado festivais de entronização para a celebração do Ano Novo ou que os israelitas vissem seus reis como divinos. Ishida concorda que não há evidência de realeza sacra (Royal Dynasties in Andent Israel, p. 108). Entretanto, tenta indicar uma relação com os padrões egípcios e assírios de realeza, mas emprega frases como "lembra" ou "há uma similaridade provável" (p. 97). Há uma inconsistência na interpretação de Ishida: por um lado, sugere origens pagãs; por outro, tenta localizar as origens dos conceitos de 2 Sm 7.1-17 dentro da corte de Davi. 


[9] Nem todos os eruditos concordam sobre a causa e a fonte da passagem obviamente unificada que estamos considerando (cf. Ishida, Royal Dynasties in Andent Israel, p. 82; McCarter, II Samuel, em AB [1984], 9219). 


[10] Roland K. Harrison concluiu, acertadamente, que os dois livros com seu presente conteúdo foram escritos não mais tarde do que 920-900 a.C. por um autor que teve acesso aos escritos de Natã e de Gade (cf. 1 Cr 29.29; 2 Cr 29.25) (cf. sua Introduction to the Old Testament [Grand Rapids: Eerdmans, 1969], p. 709). 


[11] Cf., p. ex., KD, Second Book of Samuel, p. 341. Discutiremos esse problema na seção de exegese abaixo. 


[12] Niák’ tem a forma do masculino; uma vez que mamlèkô (reino) é um substantivo feminino, deveríamos ter a forma feminina do verbo, mas aqui nenhuma variante textual permite alterar a forma do masculino no texto. A forma verbal está no hiphil e tem significados literais e figurados (cf. TWOT, 2,600-601): aqui pretende-se o sentido figurado — o reino é exaltado. 1 Cr 17.2 acrescenta o termo l&nafèlã (às alturas, ou altamente exaltado). 


[13] Pelo fato de que a frase hebraica não está incluída no texto de 1 Cr 17.1, alguns críticos sugerem que a presente passagem reflete o texto original (p. ex,,McCarter, IISamuel, em /15[1984], 9.191), Outros têm sugerido que o cronista a omitiu, porque o descanso de Davi foi de curta duração, fato do qual o cronista, por causa da sua perspectiva histórica, estava cônsdo, 


[14] Emst Hengstenberg, The Christology oíthe Old Testament, trad, Theodore Meyer, 2 vols. (Edimburgo: T. &T. Clark, 1868), 1.131,132. 


[15] KD, Second Book of Samuel, pp. 340,341. George Caird, sem qualquer discussão, descarta a frase como sendo tipicamente deuteronomista (Iand IISamuel, em IB, 2.1082), C. J. Goslinga levanta a questão sobre se o reinado de Hirão coincidiu em parte com os anos iniciais do reinado de Davi (Het tweede BoekSamuel [Kampen, Kok, 1962], mas não foi dada nenhuma resposta definida (cf. C.J. Goslinga, Samuel [Kampen: Kok, 1956], p. 72). 


[16] Yerî â, no singular em 2 Sm 7, no plural em 1 Cr 17, refere-se primariamente à cobertura interna da arca, mas também é usada como sinônimo de ôhel, "tenda" (p. ex,, Is 54,2). 


[17] Parece totalmente desnecessário deduzir desses versos que o pensamento de Davi conduziria à institucionalização da religião e que Natã, ao concordar inicialmente com Davi, não estava consciente desse perigo e, portanto, fez um julgamento errado (cf. G. Little, Iand IISamuel, em AB, 2.1082,1083). 

18. Sugerir que um editor deuteronômico se evidencia aí pelo "sim" seguido de "não", de Natã, revela um preconceito contra a possibilidade de revelação sobrenatural (cf. McCarter, IISamuel, em AB, 9.196,197; cf. 224,225). A opinião de Ishida de que Natã voltou atrás quando descobriu que seu consentimento o colocava em choque com dois dos principais sacerdotes que eram antagonistas entre si, e quando refletiu sobre a situação instável do reino, não tem qualquer base no texto. Sua aceitação do ponto de vista de L. Rost em Die Ueberlieferung von der Thronnachfolge Davids (1926), isto é, que essa profecia consiste de três, possivelmente quatro, fontes originais, e também de mudanças e inserções editoriais por editores posteriores, tornou impossível para Ishida interpretar a presente passagem corretamente. Ishida difere de Rost em vários pormenores, mas não no assunto básico (cf. Ishida, Royal Dynasties in AndentIsrael, pp. 82,83). 


[18] Cf. McCarter, IlSamuel, em ,45(1984), 9.199. 


[19] Não há certamente nenhuma necessidade de pensar-se em termos de três ou quatro editores distintos quando esses passos são considerados na seqüência em que aparecem no texto (George Caird, Iand IlSamuel, em IB, 2.864,865; McCarter, IlSamuel, em AB [1984], 9.211,212). 


[20] Tem sido sugerido que Yahwéh apreciava a liberdade e não queria perdê-la por uma habitação permanente (McCarter, IISamuel em AB [1984], 9.200. Que essa sugestão não tem méritos conclui-se pelo fato de Yahwéh não ter dito que não queria uma casa permanente; de fato, era sua vontade ter uma, quando o tempo e as circunstâncias fossem apropriadas. 


[21] Hengstenberg sugere que o termo juizes em 1 Cr 17.6 explica "muito bem" o termo tribos em 2 Sm 7.7, o que faz sentido (Christology ofthe Old Testament, 1.136). 


[22] Críticos que falam de um segundo editor com uma perspectiva anti templo e um estilo censurável de escrever revelam seu preconceito contra a revelação e mostram uma exegese bem pobre (p. ex., McCarter, IISamuel, em AB [1984], 9.209-231). 


[23] KD, Second Book of Samuel, p. 344. 


[24] Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, 1.137,138. 


[25] O problema gramatical dos tempos dos verbos hebraicos, grandemente ignorado pelos comentadores, exige algum comentário, Em tempos passados, Yahwéh "tomou" (leqahti, passado) Davi (v. 8). Isso é seguido por wa ehyeh (futuro imperfeito com vav consecutivo), significando "eu fui com" (cf. KJV) e não "eu serei" ou "estarei" (v. 9). Similarmente, wa akttà (imperfeito com vav consecutivo) refere-se a ação passada: Yahwéh "eliminou" ("cortou") os inimigos. 

Há uma nítida mudança no v. 10, Os verbos seguintes estão no perfeito com vav consecutivo, de modo que a ação é dirigida para o futuro. Wesamti (eu apontarei, ou prepararei), uneta-’ttyw (plantarei ou plantei), wesàkan (habitarei ou habitei) e wahãnihõti (darei repouso ou dei repouso) (v. 11). 

Uma primeira leitura sugere que os feitos de Yahwéh referidos pelos verbos no perfeito com vav consecutivo ocorreram no passado; mas a forma do verbo exige um tempo futuro. Como mencionamos acima, a maioria dos comentários não discute o problema (cf. Caird, Iand IISamuel, em Iff). McCarter (IISamuel, em AB [1984], 9.202,203), por outro lado assinala que há outros exemplos no Velho Testamento em que a forma do perfeito com o vav consecutivo é traduzida como um pretérito. Ele não aceita isso como resposta, mas segue vários críticos tentando encontrar referências futuras, por exemplo, "fazer um lugar" provavelmente refere-se ao templo. Essa solução é ainda mais inaceitável. Hengstenberg refere-se brevemente ao problema pelo termo "constantemente" (Christology ofthe Old Testament, 1.138). A possibilidade de que verbos no perfeito com vav consecutivo ou na forma simples do imperfeito se refiram não somente ao futuro, mas ao processo começado no passado que prossegue no presente e continuará no futuro, deve ser seriamente considerada. Assim, os verbos poderiam ser lidos como: Eu continuo a considerar o lugar como teu, tu continuarás a ser plantado e enraizado, tu continuarás a habitar e a ter repouso. 




[26] Cf. TWOT, 1.105,106. 


[27] Kl, usualmente traduzido "que", ou "pois /porque", é também usado com o sentido de "quando" (cf. BDB, p. 473). 


[28] Caird, (IandUSamuelem IB, 2:1085) está certo em afirmar que o termo é "semente", não "filho". A promessa de Yahwéh refere-se a descendentes, e não apenas a um filho. No verso seguinte, Yahwéh fala da relação que estabelecerá com cada um dessa semente, e então o termo "filho" é usado. 


[29] Ishida, Royal Dynasties in Andent Israel, pp. 99-117. A esta altura, é bom lembrar que Leopold Sabourin apoiou firme e corretamente o ponto de vista de John L. McKenzie: a soberania em Israel era de caráter único; era um dom de Yahwéh a Israel (The J^alms [New York: Alba, 1974], p. 336). 

Em sua obra "Royal Messianism", J. L. McKenzie partiu da profecia de Natã para Davi e então demonstrou quantas outras profecias referem-se às palavras de Davi a Natã (CBQ [1957], 19:25-52, esp. p. 26). 


[30] McCarter, USamuel, em AB (1984), 9.207, 


[31] Cf. H. Ringgren, "por adoção", em TheMessiah in the Old Testament(Chicago: Allenson, 1956), p. 12. 


[32] É difícil saber por que a forma da terceira pessoa do singular yõsur aparece no texto. Muitos manuscritos têm a forma da primeira pessoa (‘asûr; cf. LXX, Siríaca e Vulgata; cf. 1 Cr 17.13), O texto de 2 Sm 7.14 pode ter sido alterado no processo de transmissão. 


[33] A terceira pessoa do singular de 'ãman, em geral, é indicada como ne’eman no niphal; não há razão convincente para a mudança aqui. (Nossa palavra "amém", [assim é, e será] é derivada desse verbo hebraico). 


[34] A raiz de ‘ôlãm não é conhecida. O uso do termo quase sempre indica tempo ilimitado, no passado ou no futuro. Há contextos em que o termo ocorre, parecendo referir-se a um tempo longo, porém não ilimitado. Cf. TWOT, 2.672,673. 


[35] O verbo kun é quase um sinônimo perfeito de ’aken. Kûn acentua a fixidez e segurança do trono. 


[36] O. P. Robertson, The Chríst ofthe Covemnts (Nutley, NJ: Presbyterian and Reformed, 1980), pp. 231,232. 


[37] Verlshida, que relaciona, por exemplo, 1 Rs2:4,24;3.6;5.19;2 Rs8.19;Is37.35;Jr33.17,20-26 (Royal Dynastíes in AndentIsrael, p, 81, n. 1; ver também George A. F. Knight, Psahns, 2 vols. [Filadélfia: Westminster, 1982], 2297,304). 


[38] Comentadores têm discutido a postura de Davi em oração. Alguns tentaram, sem sucesso, transformar "sentar-se" em "ajoelhar-se" (cf. Caird, I and II Samuel, em IB, 2.1086). A idéia de McCarter, de que Davi permaneceu depois que a cerimônia da arca havia terminado (U Samuel, em AB [1984], 9:236) carece de base escriturai. (Mas ver KD, Second Book of Samuel, p. 350, sobre a noção de "sentar-se"). Hengstenberg refere-se à postura sentada de Moisés em oração (Christology ofthe Old Testament, 1,143). O apelo à situação peculiar de Moisés não é de grande ajuda. 


[39] Cf, Hengstenberg, Christology of the Old Testament, 1.143. 


[40] Cf. TWOT, 1.12,13. 


[41] Notar a forma do hiphil do verbo 66*. 


[42] O uso que Davi faz de rahôq (ser ou tomar-se muito distante) deixa claro que ele entendeu que as promessas de Yahwéh se estenderiam no tempo até um futuro distante. 


[43] A última frase do v. 19, zo’t tôrat ha’adam (esta é a lei do homem) desafia uma interpretação conclusiva. O texto não é claro. 1 Cr 17,17 não ajuda. Os esforços críticos para emendar o texto não são satisfatórios. Várias interpretações de eruditos conservadores não têm encontrado aceitação (cf., p. ex., Keil, Delitzsch e Hengsten- berg). A interpretação dada neste livro está de acordo com o que foi dito no contexto, isto é. Yahwéh trata Davi como um companheiro. 


[44] Algumas variantes textuais não incluem uma referência explícita à redenção de Israel do Egito, mas o texto de certo modo o afirma. 


[45] O autor traduziu a expressão hebraica "para um povo", mas a presença do sufixo pronominal exige a tradução definida, O sufixo usado é da segunda pessoa do singular, de modo que a tradução literal seria "para teu povo; entretanto, nos parênteses anteriores ele já mudara a segunda pela terceira pessoa, fazendo assim uma espécie de discurso indireto, e eu o segui nisso. A tradução da expressão hebraica tekônen leka seria "estabele­ceste para ti mesmo” (n.t.). 


[46] A raiz do termo galâ significa "descobrir" (cf. KoB, p. 182). Em outras línguas semíticas significa "tornar claro", "expor". 


[47] É perturbadora a insistência dos críticos em afirmar que Davi não podia ter feito essa oração como a temos diante de nós. Alguns concordam que parte é de Davi, todavia, colocam-na no tempo em que a arca foi instalada em Jerusalém. Como Davi mostrou seu conhecimento da palavra de Yahwéh a Israel em tempos passados e relacionou a promessa que recebeu a essas antigas revelações, utilizando delas algumas frases, os críticos tentam usar tais citações como provas de que um editor teológico seja o responsável por sua inserção (Caird, I and II Samuel,\ em /S2,1086-1088; McCarter, IISamuel, em AB [1984], 9.239-241; Ishida [Royal Dynasties in Andent Israel, pp. 112,113] tentaram localizar similaridades extrabíblicas para alguns conceitos). Todos esses esforços indicam uma recusa em reconhecer o que fez Davi: ele esteve atento às promessas de Yahwéh. 


[48] McCarter refere-se a algumas delas e sugere emendas e alternativas para sua interpretação (IISamuel em AB [1984], 9.476-483). Sua obra é digna de estudo, mas em vários pontos deve ser contestada. A observação de George Caird de que o texto é "espantosamente viciado" indica mais preconceito do que conhecimento; ele não dá nenhuma prova da veracidade de sua observação (cf. IandIISamuel, em IB, 2.1167). 


[49] McCarter apresenta um breve sumário do que os críticos têm tentado fazer buscando uma resposta (II Samuel, em AB [1984], 9.485). Os pontos de vista conflitantes demonstram a falta de base para suas opiniões. Walter Eichrodt oferece apoio substancial para o ambiente histórico desse cântico (cf. lheology of the Old Testament, trad. J. A. Baker, 2 vois. [Filadélfia: Westminster, 1967], 1324,454). Infelizmente ele usa repetidas vezes a frase "as assim chamadas últimas palavras de Davi". 


[50] Cf. Ishida, Royal Dynasties in Andent Israel, pp. 100,108. Ver também McCarter, H Samuel, em AB (1984), 9.484,485. A única referência de Mowinckel a 2 Sm 23.1-7 é no contexto da discussão de paralelos do Oriente Médio, ou seja, "o sol levantando-se sobre a humanidade, dando luz e calor e criando vida" (He That Cometh, p. 227). 


[51] McCarter vê quatro partes: (1) a introdução (v.l) identificando Davi; (2) um dito de sabedoria (vv.2-4), que ele considera de data mais recente do que as outras partes; (3) exaltação do cuidado de Deus com a casa de Davi; e (4) ameaças aos que forem desleais com Davi (IISamuel, em AB [1984], 9.483; cf. 480). Hengstenberg vê duas divisões: (1) bênçãos (vv. 1-5) e (2) destruição (vv. 6,7). Delitzsch apresenta a divisão mais aceitável: (1) vv. 1,2; (2) vv. 3^5; e (3) vv. 6,7 (Second Book of Samuel, pp. 485-490). 


[52] C. J. Goslinga, Het tweede Boek Samuel (Kampen: Kok, 1962), p. 413. Ver também H. M. Segai, The Pentateuch (Jerusalém: Magnes, 1967), pp. 173-220. 


[53] Balaão também usou nè’um (cf. Nm 243). Ver também KD, Second Book of Samuel p. 485. 


[54] As questões levantadas a respeito da atribuição de salmos a Davi, especificamente sobre se o lè prefixado a Davjid significará "por", "para" ou "em memória de"; sobre as origens públicas ou pessoais dos salmos; e quanto à ambiênda histórica de cada salmo, exigem muito tempo e energia para discussão. Vários livros, tais como Introduction to the Old Testament, de Roland K. Harrison (Grand Rapids: Eerdmans, 1969), pp. 976-1003, tratam adequadamente dessas questões. 


[55] Cf. a discussão seguinte. 


[56] Huqam é a forma abreviada do hophal (forma plena: húqam) que, seguida do advérbio ‘al, dá ênfase à posição levantada. 


[57] Mas ver o argumento de McCarter (IISamuel, em AB [1984], 9.476; cf. p. 480). Ver também sua referência a eruditos que tentam relacionar essa frase com outras nações. Não há razão para isso, exceto para tentar descobrir indícios da dependência de Israel de outras nações quanto aos seus conceitos políticos e religicece. 


[58] Na’im é um adjetivo derivado do verbo estativo ser agradável, deleitável (KoB, p. 621). 


[59] C J. Goslinga/ Het tweede BoekSamuel, p. 414. 


[60] Vários escritores referem-se à inaceitabilidade de considerar-se Davi o autor dessas frases. Henry P. Smith sugere que o autor apresenta-se ostensivamente [A Criticai and Exegetical Commentary on the BookofIISamuel em ICC[1904], p. 381). 


[61] P. Kyle McCarter, juntando-se a muitos eruditos em advogar uma data tardia para muitos salmos, também concorda que Davi não foi conhecido como profeta durante sua vida. O dom profético foi-lhe atribuído séculos mais tarde, quando os salmos foram incluídos como escritos inspirados. De acordo com isso, McCarter pretende que o v. 2 é uma inserção posterior (USamuel, em AB [1984], 9.480-481). Aqui, novamente, temos um exemplo do historicismo científico produzindo a alteração do texto — para a qual não há nenhuma base textual — e reescrevendo a mensagem teológica da Escritura. 


[62] Cf. C. J. Goslinga, Het tweede Boek Samuel, p. 413. 


[63] Uma vez que 3a serve de introdução para 3b-5, alguns críticos consideram isso como uma evidência de que esta passagem era um masal ao qual os vv. 1 e 2 foram acrescentados (cf. McCarter, IISamuel em AB [1984], 9.481). 


[64] KJV, "He thatruleth over men mustbe just, rulingin thefear of God" (o que governa sobre os homens deve ser justo, governando no temor de Deus); NIV, "When one rules over men in righteousness, when he rules in the fear of God" (quando alguém governa sobre os homens com retidão, quando governa no temor de Deus); RSV, "When one rules justly over men, ruling in the fear of God" (quando alguém governa justamente sobre os homens, governando no temor de Deus); Henry P. Smith: "One ruling over men, a righteous man,/ Ruling in the fear of God, ... shall he rise" (Alguém que governa sobre os homens, um homem justo,/ Governando no temor de Deus,... Ele o erguerá) (Criticai and Exegetical Commeniary on the Books of Samuel, em ICC, p. 381). 


[65] Almeida, Edição Revista e Atualizada: "Aquele que domina com justiça sobre os homens, que domina no temor de Deus" (n.t.). 


[66] Keil e Delitzsch (em Second BookofSamuel, pp. 487,489), tentando mostrar que Governante justo e temente a Deus refere-se única e diretamente a Cristo, sugerem que se acrescente "levantará" às frases no v. 3 e "que o governante justo brotará dela'1', no v. 5, seguíndo-se à pergunta. Como ficou demonstrado, essas inserções não são necessárias. 


[67] Cf. a bela tradução dessa frase por McCarter (IISamuel, em AB [1984], 9.476). 


[68] A tradução da última frase do v.5 tem variado. Alguns a consideram como a introdução da "maldição" dos vv. 6,7 (cf. McCarter, USamuel). A frase equilibra o texto: a primeira parte é uma pergunta relativa à casa de Davi; a segunda parte, o núcleo do versículo, refere-se ao pacto; a terceira parte é de novo uma pergunta, expressando a confiança de Davi em relação à sua obra e desejo para o futuro. 


[69] A solução crítica aventada para a questão da composição é drástica demais. O esforço de selecionar partes como velhos cânticos que foram reunidos pelos deuteronomistas não foi bem sucedido. (O deuteronomista dos críticos é projetado como um historiador, teólogo, especialista literário e poeta — na verdade, um homem de muitos talentos, muita energia, muita habilidade e muito tempo). Dizer que as últimas palavras foram acrescen­tadas mais tarde ainda dificulta a credibilidade (cf. McCarter, IISamuel, (9.455,463,464,473-475 para um breve sumário), 


[70] Ishida, Rcyal Dynasties in Andent Israel, p. 82. Dois pontos de vista sâo projetados aqui: (1) a existência de uma profecia original; (2) 2 Sm 7.1-17 e 1 Cr 17.1-15 são dependentes dela, enquanto o SI 89 é uma revisão. Todas as três passagens são uma revisão de uma fonte original: o SI 89 é uma interpretação dessa fonte original; 1 Cr 17 tema prioridade e os outros textos são dependentes dele. A. A. Anderson compilou uma lista de várias teorias a respeito da origem e composiçãodo SI 89 (TheBcckofPsalms, em NewGjjtury Bible,2 vols. [1983], 2.630,631,639). Leopold Sabourin inclui, em seu sumário das opiniões relativas ao contexto histórico e à composição do SI 89, os pontos de vista dos "extremistas da escola da realeza sacra“ (p. ex., Engnell) e a ambientação cúltica do salmo no ritual anual da morte-ressurreição do rei {PsalnoB, p. 355). Mitchell J. Dahood (Psalnv, 51-100, em AB [1968], 17311) freqüentemente contraria as definidas conclusões dos eruditos escandinavos (p.ex., Engnell, Bentzen). He adverte também que as tentativas de datação precisa são precárias, mas está certo de que o salmo em estudo foi escrito no período da monarquia, depois que o pacto de Deus com Davi foi feito. 

Alguns estudiosos bíblicos que escrevem sobre os salmos e que, sem hesitação, assumem que 2 Samuel é o texto original, são: F. W. Grosheide, DePsahnenj]. Ridderbos, DePsalmm (Kampen: Kok, 1958), 2373-378; Derek Kidner, Psalms 73-150 (Cambridge: Inter-Varsity, 1975), pp. 319,320; e S. R. Hirsch, The Psahis, (New York: Feldham, 1966), 2.121,122, que não menciona 2 Sm 7 (embora trate em seu conteúdo). 


[71] Essa seção do Salmo 89 repete vários temas do cântico de vitória de Moisés (Êx 15.6). 


[72] Suas palavras sobre Davi e sua semente aludem ao primogênito de Yahwéh. 


[73] Os críticos têm procurado introduzir uma festa anual na qual esse salmo seria cantado. A variedade de festas sugeridas deixa claro que não há prova consistente para nenhuma delas (cf. Arthur Weiser, The Psalms, trad. Herbert Hartwell, em OTL [Filadélfia: Westminster, 1962], p. 779, que escreveu sobre o festival do pacto de Yahwéh, que supostamente incluía o festival de entronização do rei e uma liturgia festal comemorativa da dedicação do templo). 

Sigmund Mowinckel, em The Psalms in Israel's Worship, trad. D. R. Thomas (New York: Abingdon, 1967), 1.175, acredita que o Salmo 132 foi escrito para o festival da instituição do "culto de Yahwéh" em Sião. Sabourin discorda do ponto de vista de Mowinckel de que esse festival corresponderia ao Ano Novo babilónico e ao drama da entronização (Psalms, p. 366). Dahood corretamente aponta o século X a.C. como tempo da composição, mas não encontra nenhum apoio bíblico para o ponto de vista de que foi escrito para a festa da transferência da arca para Jerusalém (Psalms, 101-150, em y4B[1968], 17a.241). F. W. Grosheide (DePsalmen, 2.153), em contraste, crê que o Salmo 132 foi composto durante um período de tristeza, quando o templo estava de pé mas a casa de Davi não mais existia. 


[74] Cf. TWCrr, 2.841. 


[75] Esse salmo refere-se a muitos eventos da história dos descendentes de Jacó; é muito improvável, portanto, que o pacto de Yahwéh com Davi não fosse incluído. A fraseologia sugere uma relação estreita com a passagem do pacto. 


[76] Lembremo-nos de que Otto Eissfeldt, em sua obra monumental The Old Testament: An Introduction, trad. Peter R. Ackroyd (republ. New York: Harper, 1965), esp. pp. 16*124, tentou colacionar os pontos de vista dos eruditos que trabalham com "tipos de prosa", "ditos" e "cânticos", como os materiais dos escritos originais do Velho Testamento. 


[77] Ver caps. 13-27 sobre a revelação messiânica nos Profetas Posteriores. 


[78] Hengstenberg refere-se a Calovius (Christology ofthe Old Testament, 1.148). 


[79] Por exemplo, Agostinho, De Civitate Dei, 17.9. 


[80] Ver os caps. 7-9, acima. 


[81] O Primeiro e o Segundo livro dos Reis, segundo Keil e Delitzsch, "trazem... a história do Reino de Deus no Velho Testamento, de acordo com o plano divino para o reino indicado em 2 Sm 7, do fim do reinado de Davi até o cativeiro" [KD, First Book of Kings, p. 9). 0 material, escrito durante o exflio (KD, p. 11, Harrison, Introduction to the Old Testament, p. 720), derivou de várias fontes indicadas no texto: (1) O Livro dos Atos de Salomão (1 Rs 11.41); (2) O Livro das Crônicas dos Reis de Israel (1 Rs 14.19); e (3) O Livro das Crônicas dos Reis de Judá (2 Cr 16.11). Pode ter havido uma ou duas outras fontes das quais derivaram os materiais referentes aos profetas Elias e Eliseu (cf. Harrison, Introduction to the Old Testament, pp. 726-728). Alguns críticos atribuem a composição final dos livros a dois editores deuteronômicos. Harrison, tendo examinado as discussões referentes à contribuição de cada editor, conclui que "a extensão da discordância entre os que aceitam a existência de dois editores deuteronômicos é uma indicação da fraqueza da teoria" (Introduction to the Old Testament, p. 731. Esses livros não são deuteronômicos, como os críticos alegam; novamente Harrison está certo em dizer que o termo deuteronômico só pode ser "não-excepcionalmente aplicado a Reis no sentido de que o autor, com Moisés (Dt 28.1ss.), reconhecia que a obediência a Deus trazia bênçãos, enquanto a desobediência resultava em calamidade"(ibid., p. 732). 


[82] Embora Salomão tenha tido um papel importante, é mencionado somente cerca de trinta e cinco vezes fora dos livros de Reis e Crônicas. 


[83] Mowinckel, Psalms in Israel's Worship, p. 67, interpreta isso como se Israel considerasse Salomão filho de uma deidade (cf. IvanEngnell, Studies of Divine Kingship in the Near East [Oxford: Blackwell, 1943] pp. 17,175, que recorre a supostas fontes assírias). 


[84] Adonias é relacionado como o quarto filho nascido a Davi (2 Sm 3.2-5). Amnon, o primogênito, foi morto por Absalão; de Quileabe, filho de Abigail, nada mais ouvimos; e Absalão foi morto por Joabe. Assim, Adonias seria o herdeiro legítimo (cf. Ishida, Royai Dynasties in Andent Israel, p. 152). 


[85] Ver Ishida sobre a importância do papel da mãe na decisão de quem seria o sucessor de um pai régio (Royal Dynasties in Andent Israel, pp. 155-158). 


[86] Sobre a co-regência ver Ishida (ibid., p. 170) e Harrison, Introduction to the Old Testament, pp. 735,736. 


[87] O texto, entretanto, toma claro que Natã estava envolvido na unção do sucessor designado por Davi (1 Rs 134,44; Ishida, Royal Dynasties in Andent Israel, p. 76, n. 87). 


[88] Matthew Poole, Commentary on the Holy Bible, 3 vols. (republ. Londres: Banner of Truth Trust, 1979), escreve: "seu desígnio não era Abisague, mas o reino" (1.651; cf. Ishida, Royal Dynasties in Andent Israel, p. 74). O esforço de Ishida de mostrar paralelos com alguns relatos egípcios não foi bem sucedido (ibid., pp. 103-108)'. 


[89] Estes deveriam ser lidos por Salomão (cf. Dt 17.18-20). 


[90] É inconcebível, à luz dos fatos registrados, que Joachim Becker pudesse escrever que, no período pré-exílico, a dinastia davídica não tinha nenhum lugar especial na religião, vida ou história de Israel (MessianicExpectation in the Old Testament, trad. D. E. Green [Filadélfia: Fortress, 1977], pp. 79-81). 


[91] Ishida, Royal Dynasties in AndentIsrael, p. 79; também KD, Boak ofSecond Samuel, pp, 28-30,33-37. 


[92] Estaria Salomão em ambiente pagão quando adorava em Gibeom? Era um "lugar alto", termo usado para designar um lugar elevado onde os cananeus celebravam seus rituais. O texto de 1 Rs 3 3 inclui o termo hebraico raq, "somente", que sugere que não era apropriado. Mas 1 Rs3.2 refere-se à falta de um lugar central de adoração como razão de os israelitas irem aos bãmôt (lugares altos). Charles G. Martin refere-se a Gibeom como o lugar onde o altar de bronze e a tenda ou tabernáculo eram guardados (1 Cr 1639; 21.29), implicando que Salomão não estava fora de ordem (cf. The International Bible Commentary, ed, F. F. Bruce [Grand Rapids: Zondervan, 1979], p. 399). O comentário de Aage Bentzen, de que Salomão estava em "incubação", é de mau gosto [King and Messiah [Oxford: Blackwell, 1970], p. 20. 


[93] O ponto de vista de Walter Eichrodt é que as expressões de sabedoria de Salomão, e outras, não dão a Yahwéh um lugar central como Deus de Israel, nem ao conceito messiânico (Theology ofthe Old Testament, 2.82). Pode-se entender que Eichrodt pretende dizer que a sabedoria, de um lado, e a lealdade a Yahwéh e o recebimento das promessas messiânicas, de outro lado, são incompatíveis. Esse não é o caso. Salomão, a despeito da sabedoria, falhou muitíssimo, ao passo que com sabedoria poderia ter sido o mais ilustre devoto de Yahwéh e do prometido Messias. 


[94] Cf. Knight, Psalms,2.297,298. 


[95] Cf. Becker, Messianic Expectation in the Old Testament, p. 21. 


[96] Alguns críticos têm dado muita ênfase às chamadas influências egípcias na corte de Salomão (Cf, Ishida, Royal Dynasties in Andent Israel, p, 84). Sigmund Mowinckel, sem qualquer base substancial, fala de grande influência cananéia. Ele vê especialmente sinais da realeza sagrada cananéia (He That Cometh, pp.57,88). 


[97] Mowinckel está formalmente correto quando escreve que Salomão ofereceu "tanto sacrifícios como orações" (He That Cometh, p. 72). Entretanto, ele não aceita, ou não compreende, o texto bíblico que fala do papel de Salomão. 


[98] Ishida, Royal Dynasties in Andent Israel, pp. 93-100,144. A discussão de Ishida contém alguns pontos valiosos, mas sua concepção das circunstâncias históricas foi influenciada demasiadamente por seu historicismo científico, suas pressuposições e metodologia. 


[99] Mowinckel fez uso do sincretismo nacional e religioso de Salomão num esforço para mostrar que a corte de Salomão foi inteiramente moldada por influências estrangeiras (He That Cometh, p. 60), 


[100] Walter Eichrodt comenta: "Salomão foi um desastre por não compreender a importância das fundações religiosas de Israel" (Theology of the Old Testament, 1,448). Mais importante ainda foi ele afastar-se das promessas e instruções de Yahwéh. 


[101] John Mauchline, 'Implicit Signs of a Persistent Belief in the Davidic Empire" VT20 (1970):287, pesquisa referências ao império de Davi e Salomão nos livros proféticos posteriores. Está especialmente interessado em mostrar que outras nações, além de Israel, eram consideradas parte desse vasto império na pregação profética. 


[102] Mowinckel percebeu corretamente o problema: a ruptura do reino depois da morte de Salomão "não é adequada à expectativa e fé messiânicas" (He That Cometh, p. 158). Ele erroneamente atribui o surgimento do messianismo entre os israelitas aos reis posteriores e não à revelação de Yahwéh através de Natã e dos profetas posteriores.

FONTE: GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento.Campinas : Luz para o Caminho, 1995.