29 de agosto de 2015

R. K. HARRISON - A Queda de Judá

harrison-antigo-testamento
A Queda de Judá 

CRONOLOGIA DESTE CAPITULO 

Ezequias .................................................. 716/15-687/86 a.C.

Terceiro Cativeiro de Judá................ ....................... 581 a.C. 



O COLAPSO DO REINO DO NORTE, ANTES DA VIOLENTA INVESTIDA DA Assíria, apresentou sérios problemas para Judá. Joacaz ainda estava pagando tributos substanciais para o império assírio, e embora a economia de Judá estivesse relativamente estável, a posição da nação em outros aspectos era extremamente vulnerável. Os assírios pareciam decididos a conquistar o Egito, ou no mínimo em reduzir o seu poder, e o reino do sul formou uma base avançada importante para esse objetivo. O fato de Judá se revol­tar contra os seus senhores assírios e buscar a proteção do Egito, serviria meramente para executar prontamente os planos assírios para a extensão dos interesses imperiais no oes­te. Visto que os recursos militares de Judá eram totalmente inadequados para enfrentar a ameaça de invasão, a maior segurança para o reino do sul pareceu estar na preocupação com assuntos domésticos e na desistência das alianças com os poderes estrangeiros. 

Estas eram as dificuldades com que Ezequias (716/15-687/86 a.C.), filho e sucessor de Joacaz I, se confrontou, quando ascendeu ao trono. Era um homem profundamente religioso que, no início de seu reinado, foi guiado pelo profeta Miquéias para empre­ender um programa de reforma religiosa destinado a reverter as políticas religiosas de seu pai e a erradicar a influência nociva do culto a Baal no reino do sul. Assim, destruiu todos os altos onde as cerimônias religiosas pagãs tinham ocorrido, e fez desaparecer todos os objetos de culto que poderiam ter qualquer significado pagão, incluindo a serpente de metal que Moisés tinha feito e que havia sido preservada no Templo (2 Rs 18.4). A queda recente de Israel acrescentou sanção às reformas, e a consequente puri­ficação da vida religiosa bem como o resgate da adoração a Jeová. 

O reinado de Ezequias foi de considerável prosperidade econômica, resultante da cuidadosa organização e desenvolvimento dos recursos naturais. Entre outras coisas, re­cuperou o controle das cidades na planície da Filístia, e edificou as defesas do reino como um todo. Tirando proveito da luta de poder entre o Egito e a Assíria, ele expandiu a ativi­dade comercial de Judá e trouxe a economia a um nível avançado (2 Cr 32.27 e versículos seguintes). Seus êxitos militares contra os filisteus o encorajaram a pensar em se revoltar contra a Assíria e se aliar ao Egito, mas Ezequias não foi apoiado nesta política pelo profeta Isaías, que previu as suas consequências com muita clareza (Is 18.1-7; 30.1-7). 

Como seu contemporâneo Miquéias, Isaías dedicou a sua atenção principal­mente a Judá e Jerusalém (Is 1.1), enquanto Amós e Oséias tinham se concentrado no pecado do reino do norte. Isaías parece ter tido um nascimento nobre, e assim teve pronto acesso à corte real, onde o seu conselho era geralmente ouvido com res­peito mesmo que, no final, fosse desconsiderado. Já durante os reinados prósperos de Uzias (767—740/39 a.C.) e Jotão (740/39-732/31 a.C.) o profeta Isaías estava proclamando os últimos dias do reino do sul, sem dúvida para uma audiência incrédula. 

Quando Acaz de Judá (732/31—716/15 a.C.) recusou o convite extensivo feito por Damasco para se juntar a uma coalizão anti-Assíria, sofreu a ameaça de ser subju­gado por parte de Peca de Israel e Rezim da Síria. Nessa ocasião, Isaías confortou Acaz com a certeza de que o plano contra ele não teria sucesso, e que os reis que pareciam ser tão perigosos em breve seriam liquidados (Is 7,3-9). Porém, aparente­mente, Acaz não estava convencido desta certeza nem da promessa do Emanuel, o filho de uma virgem, que nasceria à casa de Davi (Is 7.10-15), e como resultado cometeu o tolo ato de pedir ajuda a Tiglate-Pileser III da Assíria. 

Parece que Isaías se retirou da vida política por algum tempo depois que os as­sírios tornaram Judá tributária em 734 a.C. (cf. Is 8.11-22), mas quando viu que ha­via uma possibilidade da nação participar de alianças estrangeiras, proferiu uma advertência contra tais procedimentos. Isaías insistiu particularmente que judá não deveria confiar na ajuda do Egito (Is 19.1-22), e aconselhou consistentemente contra as alianças com aquele país (Is 30.1-7; 31.1-3). 

Ameaças Assírias a Jerusalém 

Em 705 a.C. Sargão da Assíria morreu e foi sucedido por seu filho Senaqueribe. Embora não fosse um líder tão poderoso quanto seu pai havia sido, ele continuou a expansão do império assírio para o oeste. Senaqueribe fortificou Nínive, a sua cida­de capital, erigiu uma série de edifícios magníficos, e restaurou alguns dos santuá­rios religiosos mais antigos; fazendo então da cidade uma das mais esplêndidas no Oriente Próximo. No início de seu reinado, Senaqueribe enfrentou a tentativa de Merodaque-Badalã, rei da Babilônia, de resistir ao poder crescente da Assíria. Este homem havia enviado embaixadores a Ezequias, pouco depois de este ter caído víti­ma de uma doença grave (2 Rs 20), com o objetivo de atrair Judá para a confederação dos poderes do Oriente Próximo formada para resistir a agressão assíria. 

Embora Isaias tivesse predito que a participação na coalizão projetada resultaria na destruição do reino e no exílio do povo na Babilônia, Ezequias decidiu apoiar o plano que Merodaque-Baladã tinha desenvolvido. Ao mesmo tempo, ele entrou em uma aliança com o Egito, crendo que esse movimento impediria o aumento do poder assírio. Mas como medida de precaução, fortaleceu as defesas de Jerusalém, e mesmo enquanto este trabalho estava sendo executado, as forças assírias assolaram a costa mediterrânea em 701 a.C., isolaram a cidade de Tiro, e conquistaram Asquelom, Jope, Timnate e Ecrom. 

Uma força expedicionária egípcia que havia sido enviada para ajudar as cidades sitiadas sofreu derrota e foi forçada a se retirar. 

Ezequias tomou providências imediatas para proteger Jerusalém de um ataque, e ordenou aos seus enge­nheiros que construíssem um túnel que traria água da Fonte de Giom para dentro da cidade. Este túnel foi escavado através de rocha sólida por uma distância de aproximadamente 550 metros, e quando foi terminado, saiu exatamente dentro da extremidade sudeste da cidade antiga, onde posteriormente esteve localizado o tanque que foi conhecido como o Tanque de Siloé. O aqueduto citado em 2 Reis 20.20 e 2 Crônicas 32.30, foi uma obra memorável de engenharia, pois os escavadores trabalharam com as mãos, começando pelas extremidades opostas e se encontraram no centro. O tunel se estreitava um pouco a partir da extremidade do Tanque de Siloé; no entanto, se mantinha em uma altura média de 1.80 m. 

A presença de uma inscrição na parede do lado direito, a cerca de seis metros a partir da entrada de Siloé, foi revelada em 1880. Em um exame subsequente, foi descoberto que esta inscrição foi feita no século VIII a.C. (em aproximadamente 701 a.C.). Ela consistia de seis linhas inscritas em hebraico clássico,“ e dava o seguin­te relato do término das escavações: 

A perfuração está terminada. E esta é a história da perfuração: enquanto eles manejavam a broca, cada um na direção de seu companheiro, e enquanto ain­da havia très côvados para serem perfurados, ali foi ouvida a voz de alguém chamando um outro, porque havia uma fenda na rocha do lado direito. E no dia da perfuração, aqueles que talhavam a rocha batiam em lados opostos para encontrar os seus companheiros, broca após broca; e a água fluiu da fonte para o tanque por quinhentos e quarenta metros, e a altura da rocha acimada cabe­ça dos que a talhavam era de aproximadamente quarenta e cinco metros. 

 fim de obter mais respeito, Ezequias tentou aplacar Senaquenbe oferecendo-lhe tributos. As crônicas históricas assírias interpretaram a situação da seguinte forma: 

No que diz respeito à Ezequias, o judeu, que não se sujeitou ao meu jugo, 46 de suas cidades muradas, bem como as cidades menores em sua vizinhança... eu si­tiei e tomei... Ele mesmo, como um pássaro engaiolado, prendi em Jerusalém, sua cidade real... No que diz respeito a Ezequias, o terrível esplendor da minha majestade o sobrepujou... e as suas tropas mercenárias... o desertaram. 

A Retirada Assíria 

Com um exagero característico, as crônicas históricas de Senaqueribe descre­veram o tributo exigido de Ezequias, que consistia de trinta talentos de ouro, oito­centos talentos de prata, e uma ampla variedade de produtos valiosos. O relato em 2 Reis 18.14, no entanto, indica que Ezequias pagou somente trezentos talentos de prata e trinta talentos de ouro. 

Enquanto Senaqueribe estava sitiando Laquis, ele enviou um de seus oficiais (cujo título, Rabsaque, foi o único a sobreviver), a Jerusalém a fim de persuadir os cidadãos a se renderem. Falando em hebraico, ele se dirigiu a todos os que pudes­sem ouvi-lo, e declarou que a campanha que estava sendo travada por Senaqueribe tinha a aprovarão de Jeová, e que Ezequias, portanto, não poderia salvar o seu povo do desastre, Mas embora ele tenha prometido um bom tratamento para to­dos aqueles que se rendessem, o moral dos judeus permaneceu inabalado por esta tentativa de batalha psicológica. Ezequias foi assegurado independentemente por Isaías de que Deus livraria Jerusalém miraculosamente das forças assírias. Como resultado, ele ignorou as ameaças assírias (ls 36.1 — 37.38). 

E significativo que Senaqueribe não tenha reivindicado a conquista de Jerusalém em vista da praga devastadora, provavelmente bubônica em natureza, que matou os assírios (2 Rs 19.35). Além disso, o fato de não ocorrer nenhuma menção desta revira­volta nas crônicas históricas de Senaqueribe é uma característica daquela época, pois quando as crônicas estavam sendo compiladas pelas nações do Oriente Próximo, as derrotas e os fracassos eram invariavelmente ignorados. Após este episódio, Senaque­ribe retornou a Nínive deixando a Judéia, e em 681 a,C. foi assassinado por seus filhos (2 Rs 19.37), sendo sucedido por Esar-Hadom (681-669 a.C). 

A retirada do exército assírio de Jerusalém foi saudada como um livramento nacional, e isso encorajou Ezequias a iniciar a restauração da prosperidade mate­rial de seu reino, O resto de seu reinado passou de forma rotineira, e por volta de 686 a.C. foi sucedido por seu filho Manasses. 


O Reinado de Manassés 

Manasses reagiu violentamente contra a política religiosa de seu pai, e reedi­ficou os santuários cananeus que haviam sido destruídos anteriormente. Os es­critores bíblicos unanimemente o condenaram pela sua reintrodução das formas pagãs de culto, que incluíam a veneração dos corpos astrais, a adoração de Astarte, e o encorajamento de ritos imorais a Baal por todo o reino. Uma de suas violações mais flagrantes da moralidade foi estabelecer o culto a Moloque, uma divindade amonita, a quem os pais sacrificavam seus filhos fazendo-os passar pelo fogo, uma prática estritamente proibida na lei de Moisés (Lv 20,2 e versículos seguintes). Du­rante o longo reinado de Manassés (687/86—642/41 a.C.), o povo de Judá naufragou ainda mais em uma nova profundidade de depravação e degradação moral. 

O escritor de 2 Crônicas 33.11 (e versículos seguintes) preservou uma tradição que declarava que Deus castigou Manassés por sua impiedade, através da depor­tação para a Babilônia, onde, após um período de prisão, ele aparentemente se ar­rependeu de seu antigo modo de vida. Até o presente não há nenhuma evidência arqueológica que comprove esta tradição, embora um texto cuneiforme da época de Esar-Hadom contenha uma referência a uma visita feita por Manassés a Nínive, por ordem do governante assírio: 

Eu convoquei os reis da Síria e aqueles do outro lado do mar: Baalu, rei de Tiro, Manassés, rei de Judá... Musurri, rei de Moabe... vinte reis ao todo. Eu lhes dei as suas ordens. 

Uma vez que a Babilônia era vassala da Assíria, e Esar-Hadom estava em pro­cesso de reconstrução da Babilônia, que seu pai havia destruído, é provável que os governantes visitantes tenham visto a magnificência da cidade restaurada antes de terem a permissão de voltar para casa. Alguns estudiosos vêem o cativeiro de Manassés como um castigo por ter feito parte da coalizão da Fenícia, Edorn, e Egi­to que se revoltou contra a Assíria por volta de 650 a.C. Mas Judá não participou desta revolta, nem foi vítima da retaliação assíria quando a revolta foi finalmente esmagada. Um paralelo a esta tradição é proporcionado pela captura e subsequen­te libertação do Faraó-Neco I por Assurbanipal, como narrado no Cilindro Ras- sam. 

Em seu retorno a Jerusalém, Manassés instituiu uma reforma religiosa em Judá, e restaurou a adoração a Jeová nos santuários. Seu reinado foi comparativa­mente tranquilo de um ponto de vista político, embora ele tenha tomado a pre­caução de instalar guarnições em todas as cidades fortificadas de Judá, além de fortalecer ainda mais as defesas de Jerusalém contra um possível ataque da Assíria. Seu longo governo terminou em 642/41 a.C., quando foi sucedido por seu filho Amom. Como seu pai, Amom adorou deuses pagãos no início de seu reinado, e depois de um período de dois anos no trono, foi assassinado em uma conspiração do palácio em 640/39 a.C. 

O Reinado de Josias 

Josias, filho de Amom, com apenas oito anos o sucedeu, e reinou até o ano 609 a.C. A sua piedade era evidente desde tenra idade, e no décimo segundo ano de seu reinado começou um programa de reforma religiosa no qual os santuários cananeus pagãos foram destruídos e a adoração a Jeová foi restaurada. Ele dedicou a esse assunto a sua supervisão pessoal, e para a sua satisfação, quando esta reforma estava concluída, voltou a sua atenção para os reparos que precisavam ser feitos na estrutura do Templo (2 Rs 22.3 e versículos seguintes). 

Durante o curso das renovações, uma cópia da antiga lei foi descoberta por Hilquias, o sumo sacerdote, e foi levada ao rei. Ao ouvir o seu conteúdo lido em voz alta, Josias foi tomado de remorso por causa do modo pelo qual os preceitos di­vinos haviam sido ignorados nos dias passados. Após receber um oráculo favorável de Deus, ele instituiu uma outra reforma religiosa, esta de caráter extenso, apoia­do pelos sacerdotes, profetas e oficiais do governo, baseada no recém-descoberto Livro da Lei. 

O fato de o livro ter sido descoberto na época em que a estrutura do Templo estava sendo restaurada sugere que pode ter sido depositado nos alicerces durante o período em que o edifício estava sendo erguido. Ocasionalmente, tais documentos eram recuperados pelos governantes do Oriente Próximo que possuíam interesses em antiguidades, como no caso de Nabonido da Babilônia (556-539 a.C.), que era um notável antiquário e arqueólogo religioso. Durante o seu reinado, escavou o templo de Sbamash (ou Samas) em Sippar, na baixa Mesopotâmia, e recuperou os regis­tros dos alicerces de Narã-Sin, filho de Sargão. O costume de incorporar registros e outros materiais aos alicerces dos edifícios é muito antigo, e originalmente tinha conotações mágicas, este, com certeza, não era o caso de Israel. 

E difícil determinar a natureza exata do livro, em si. Tradicionalmente com­preendia todo o Pentateuco, mas o fato de ser citado como o “livro do Concerto” (2 Cr 34.30), e que poderia ser lido dentro de um tempo razoavelmente curto, pode indicar que consistia apenas de uma parte do Pentateuco. Estudiosos têm afirmado que o livro continha o (ou talvez consistisse do) livro de Deuteronômio, mas esta é uma questão que na natureza do caso não pode ser comprovada. Muito provavelmente o livro da Lei consistia do Decálogo, o código do concerto, os regulamentos a respeito do Tabernáculo, e algumas porções das antigas leis de santidade contidas nos sete primeiros capítulos de Levítico. 

Uma teoria que exige considerações mais sérias, porém, é a que afirma que o livro foi elaborado pouco antes de sua descoberta por volta de 621 a.C. Este ponto de vista, como Gordon indica, é baseado em um entendimento incorreto da natureza e da função de códigos legais no antigo Oriente Próximo. Embora tais códigos fossem baseados em parte na opinião pública, tradição e decisões legais anteriores, quer es­critos ou orais, eles não exerciam nenhuma influência significativa sobre os assuntos da vida cotidiana. Uma vez escritos, eram colocados em arquivos para salvaguarda, entretanto, jamais usados como obras de referência, exceto em raras ocasiões pelos estudiosos. O público em geral não tinha acesso a esses materiais, e os documentos constituíam, em efeito, pouco mais que fontes originais para propósitos de pesqui­as. As decisões tomadas nos tribunais da Mesopotâmia raramente, se alguma vez, recorriam a constituições escritas, e embora existissem leis codificadas tais como as de Hamurabi, elas virtualmente não tinham qualquer influência sobre a prática legal ou o comportamento social. Desse modo, não haveria nenhuma necessidade de Josias possuir um código da lei escrita como um pré-requisito oficial para uma reforma religiosa. Também não teria necessidade de recorrer a esse código, visto que já havia iniciado tal reforma em um período anterior de seu reinado, sem o suposto fundamento ou benefício da referência a documentos sagrados ou legais. 

Longe de uma falsificação sendo circulada, como alguns estudiosos pensaram, a importância da descoberta ocorrida no Templo é que um livro sagrado, perdido e esquecido, havia sido recuperado. Seu conteúdo, devido à sua natureza intrinse­camente santa, era tão penetrante e embaraçoso que foi adotado como a legislação religiosa permanente para a nação. 

Josias destruiu os lugares altos da religião cananéia, e centralizou a adoração em Jerusalém. O culto astral instituído por Manasses e Amom foi proibido, e os rituais de fogo de Moloque, no vale de Hinom, foram extintos. A Páscoa havia caído em desuso há muito tempo, e nas instruções de Josias ela foi reintroduzida com toda a cerimônia tradicional. Embora Josias te­nha dado um exemplo de piedade para a nação de Judá, houve muitos que não se­guiram o seu cornando; e, como conse­quência, as calamidades que haviam sido preditas para a nação (2 Rs 22.20) apare­ceram no horizonte. As predições profé­ticas de Sofonias — que era contemporâ­neo do rei - continham uma denúncia geral de idolatria em Judá e a ameaça da retribuição Divina, enquanto, ao mesmo tempo, afirmavam a superioridade de Jeová sobre todas as outras supostas di­vindades e nações. 

O Auge do Poder Assírio 

Sob o reinado de Esar-Hadom, o poder da Assíria atingiu o seu ápice com a derrota de Taharka (ou Taarca), rei do Egito (em aproximadamente 671 a.C), que sofreu terríveis perdas. As crónicas históricas de Esar-Hadom rei­vindicaram uma grande vitória: 

... diariamente, sem parar, eu ma­tei multidões de seus homens, e a ele [Taharka] golpeei cinco vezes com a ponta da minha lança... Mênfis, a sua cidade real, com minas, túneis e ataques, eu sitiei e, em meio dia, capturei... quei­mei com fogo...“ 

Entretanto, Taharka aparente­mente sobreviveu tanto aos seus feri­mentos quanto ã sua derrota, ao passo que Esar-Hadom morreu (669 a.C.) em sua campanha seguinte contra o Egito, e foi sucedido por seu filho Assurbanipal (669-627 a.C.). Ele levou o prestígio da Assíria ao seu ponto mais elevado, e embora tenha travado guerras com vigor, também ficou famoso por seus interesses culturais. Um exemplo foi o fato de es­tabelecer uma imensa biblioteca real na qual eram guardados tantos volumes da literatura histórica, científica, legal e religiosa da Babilônia e da Assíria, quanto seus escribas podiam recolher. Este material foi desenterrado em 1853, e entre as tábuas estavam cópias assírias das narrativas da Criação e Inundação da Babilônia, subsequentemente decifradas, em 1872, por George Smith, estudioso do Museu Britânico. Magníficos baixos relevos retratando a caça e outras cenas na vida real também foram recuperados do palácio de Nínive, que em estilo representam o clímax da arte na Assíria. 

Assurbanipal consolidou as conquistas que Esar-Hadom havia feito na Síria e no Egito, e infligiu mais uma derrota sobre o sobrinho de Taharka, que o havia sucedido em 664 a.C. Mênfis e Tebas caíram em 662 a.C., e a enorme quantidade de despojos que foi adquirido destas cidades foi mencionada nas crônicas históricas de Esar-Hadom: 

Prata, ouro, pedras preciosas, os objetos do palácio... grandes cavalos, homens e mulheres... despojos, pesados e incontáveis, eu levei de Tebas... cora as mãos cheias e retornei em segurança para Nínive, a cidade do meu senhorio. 

De um modo geral, no entanto, Assurbanipal seguiu uma política de pacificação com relação ao Egito, e estabeleceu Neco, um príncipe egípcio, como faraó vassalo. 

Em 652 a.C., o poder da Assíria foi abalado por uma violenta rivalidade inter­na. O rei da Babilônia, que era irmão e vassalo de Assurbanipal, se revoltou, e só foi subjugado depois de quatro anos de amarga rivalidade. Tirando proveito da situação, os egípcios, os fenícios, e alguns povos da Transjordânia se levantaram em revolta contra a Assíria. Porém, Judá não se tornou um membro da coalizão que foi abatida quando a Babilônia foi subjugada em 648 a.C., e assim não sofreu nenhuma circunstância ou represália política pela insurreição. 

A Ascensão da Babilônia 

Assurbanipal morreu em 627 a.C., e imediatamente o império assírio desmo­ronou. A Babilônia assegurou a sua independência em 626 a.C., enquanto a Assíria era ameaçada do norte pelas invasões de um povo guerreiro, conhecido como “os citas”. Eles habitavam as regiões do norte e leste do mar Negro, e era um grupo bárbaro e nômade, que vagava sobre a vasta área entre os mares Cáspio e Negro. Por volta de 626 a.C. eles avançaram para o sul pela Palestina na direção do Egito, e, para Sofonias e Jeremias, a conquista das defesas ao norte de Judá foi o início da retribuição Divina. Os citas aparentemente seguiram a rota costeira até o Egito, mas voltaram a Asdode devido à resistência dos egípcios, Heródoto afirmou que Psamético I (em aproximadamente 633-609 a.C.), pai de Neco, subornou os citas para retornarem à sua terra natal, entretanto é difícil dizer até que ponto isto é verdadeiro. 

Em 616 a.C. os babilônios, sob o reinado de Nabopolassar, aliados com os medos, atacaram a Assíria, e começaram uma redução siste­mática dos pontos fortes por todo o império. Assur, a cidade capital, caiu em 614 a.C., e após mais dois anos de uma luta amarga, Nínive caiu em 612 a.C. Toda a resistência foi esmagada com a conquista de Harã, que havia sido ocupada por um remanescente do exército assí­rio em 610 a.C. O poder do império assírio estava no final, e a sua queda comprovou notavelmente as pre­dições de Sofonias (2.13 e versículos seguintes) e Naum (3.1 e versículos seguintes). O rio Tigre foi usado como uma fronteira para dividir o império, os babilônios ocuparam o território para o oeste e o sul, en­quanto os medos ocuparam a terra ao norte e a leste. O casamento da filha do rei medo com Nabucodonosor II, filho de Nabopolassar, completou os procedimentos, e assim surgiu o novo império babi­lónico (612-539 a.C.). 

Com a queda da Assíria, o Faraó-Neco se afirmou e marchou para a planície costeira da Palestina. A versão NTLH (Neva Tradução na Linguagem de Hoje) da Bíblia interpreta a sua motivação, conforme expressado em 2 Reis 23.29 de forma bastante correta, dizendo que ele foi “ajudar” o rei da Assíria em vez de ter subido “contra” ele, como lemos na edição Revista e Corrigida (ARC). A Crônica Babilónica, publicada por Gadd em 1923, deixa claro que Neco estava marchando para o auxílio das forças assírias, que estavam em posse temporária de Harã. Josias não queria que Neco ajudasse os inimigos hereditários de Judá, e tentou impedi-lo em Megido; mas foi assassinado ali em 609 a.C, Joacaz II, filho de Josias, foi elevado pelo povo à posição de rei, mas depois de três meses foi deposto por Neco em favor de seu irmão mais velho Jeoaquim, a quem Neco tornou seu tributário, requerendo que ele pagasse cem talentos de prata e um de ouro (2 Rs 23.33). 

A Obra de Jeremias 

Enquanto ocorriam esses eventos, a influência do profeta Jeremias estava sen­do crescentemente sentida nos círculos políticos de Judá. Ele havia nascido em uma antiga família sacerdotal em Anatote por volta de 640 a.C., logo após a morte de Manassés, e foi grandemente influenciado pela reforma religiosa de Josias, bem como pelos ensinos de Oséias. A sua missão profética começou com a morte de Assurbanipal, e, igualmente, desde o princípio, ele denunciou a adoração no Templo e a adoração ritualista, em favor do monoteísmo ético implícito na religião mosai­ca tradicional. Embora fosse um homem de disposição serena, atacou com grande vigor algumas das instituições e personagens respeitáveis de seus dias, incluindo os sacerdotes do Templo (Jr 26.8 e versículos seguintes), falsos profetas (Jr 23.9 e versículos seguintes), e oficiais do governo (Jr 36.12 e versículos seguintes). Por cau­sa disso, granjeou a inimizade de vastos segmentos da população, e seu ministério foi marcado por uma constante oposição, prisão, além de perseguições diretas. 

Jeremias viu os perigos da posição que Judá ocupava na luta internacional pelo poder. O império assírio havia se desintegrado, e o seu lugar tinha sido tomado por um poderoso regime babilónico. O Egito, depois de mais de um século de declínio, estava novamente afirmando a sua reivindicação de ser urna voz nos assuntos do Oriente Próximo, e pareceu que, mais cedo ou mais tarde, certamente desafiaria o poder militar babilónico. Se Judá se aliasse com o Egito, sofreria consequências se­veras caso uma derrota egípcia ocorresse, ou caso os babilônios ocupassem o país e o usassem como uma base avançada para atacar o Egito. Jeremias predisse que Judá seria esmagada pelo poder da Babilônia sob o reinado de Nabucodonosor (Jr 25.9 e versículos seguintes), e fez tentativas dramáticas para influenciar as políticas estrangeiras de seu país, de torma que Judá se tornaria uma terra vassala da Babi­lônia, e assim seria poupada da destruição (Jr 27.6 e versículos seguintes). 

O Avanço da Babilônia na Direção Oeste 

Em 605 a.C. Neco marchou até o Eufrates, e Nabopolassar enviou seu filho Nabucodonosor com um exército para lutar contra ele. Uma batalha decisiva foi travada em Carquemis naquele ano, na qual os egípcios foram perseguidos pe­las forças babilónicas até a fronteira de sua própria terra. Judá agora caiu dentro do território do novo império babilónico, e quando em 605 a.C., Nabucodonosor ascendeu ao trono por ocasião da morte de seu pai, acabou consolidando as suas conquistas e obrigando Judá a pagar tributos à Babilónia (2 Rs 24.1), 

O relato apresentado por Daniel (1.3) parece indicar que, como evidência de boa fé por parte de Jeoaquim, Nabucodonosor requereu a presença de reféns judeus na Babi­lônia em 605 a.C. O próprio Daniel estava entre aqueles que foram deportados para a Babilônia sob esta provisão, juntamente com membros da casa real e alguns da inteli­gência de Judá. A alegação de um anacronismo na narrativa (Dn 1.1), na qual o terceiro ano de Jeoaquim é comparado ao quarto daquele rei em Jeremias 25.1, é agora conside­rada como um erro de compreensão das sequências cronológicas na antiguidade. Na Babilônia, o ano de ascensão era contado separadamente, sendo seguido pelo primeiro ano do reinado. Na Palestina, o ano de ascensão era considerado o primeiro ano do rei­nado. Assim, Daniel calculou a sua cronologia segundo o sistema babilónico, enquanto Jeremias seguiu a cronologia corrente na Palestina. Isto mostra que não há erros nem contradições nas Escrituras Sagradas. 

O Primeiro Cativeiro de Judá 

Depois de ser tributário da Babilônia por três anos, Jeoaquim, que era um oportunista político, rebelou-se contra o seu suserano em uma tentativa deses­perada por independência, apesar das consequências que Jeremias havia predito como resultado desta política (Jr 22.18). A retribuição babilónica não demorou muito, pois em 597 a.C, os exércitos caldeus invadiram Judá e atacaram Jerusa­lém. Jeoaquim morreu naquele ano, talvez como resultado de uma insurreição da corte, e foi sucedido por seu filho Joaquim, também conhecido como Jeconias ou Conias. Ele se rendeu às forças invasoras depois de apenas três meses de governo, e foi levado como prisioneiro para a Babilônia juntamente com a família real, a corte, as classes superiores, e os artesãos. O Templo foi saqueado e os tesouros foram levados para a Babilônia como despojos. Tábuas escavadas de um edifício abobadado perto da Porta de Istar, da antiga Babilônia, fornecem uma confirma­ção independente deste “primeiro cativeiro” de Judá. Os textos, que são datados entre 595 e 570 a.C,, foram escritos em cuneiforme, e continham avisos de remessa de suprimento de cevada e óleo emitidos para os príncipes e artesãos cativos, in­cluindo “Yaukin, rei da terra de Yahud". Esta é uma referência direta a Joaquim, e algumas das tábuas também se referem aos seus cinco filhos que o acompanha­ram até a Babilónia. 

A descoberta (em 1956, por D. J. Wiseman) de quatro tábuas adicionais da fa­mosa Crônica Babilónica que está no Museu Britânico, forneceu o primeiro relato extra-bíblico da captura babilónica de Jerusalém em 597 a.C. Essas fontes também forneceram detalhes dos eventos que ocorreram entre 626 e 594 a.C., incluindo relatos de alguns combates militares até então desconhecidos. Agora é possível, a partir das novas informações fornecidas por estes textos, determinar a queda de Jerusalém com completa exatidão no segundo dia do mês de Adar (15/16 de mar­ço), em 597 a.C. 

Além disso, as tábuas tornam abundantemente clara a grande derrota que os ba­bilônios infligiram sobre os egípcios em Carquemis em 605 a.C. Um resultado disso foi que “os exércitos babilónicos foram capazes de ocupar toda a área de Hatti”, Urna batalha não registrada anteriormente entre as forças egípcias e babilónicas ocorreu em 601 a.C., na qual ambos os lados perderam um grande número de homens. Os babilónios, em particular, foram obrigados a se retirarem para a sua capital por um ano, a fim de renovarem suas provisões e equipamentos antes que novas conquistas fossem realizadas. Uma vez equipados novamente, antes de conquistar Jerusalém em 597 a.C., passaram o ano seguinte fazendo ataques exploratórios no território sírio. As evidên­cias fornecidas por estes textos cuneiformes confirmam, portanto, a tradição bíblica de que Jerusalém caiu diante das forças babilónicas em 597 a.C„ e em 587 a.C. 

O Segundo Cativeiro de Judá 

Depois do ataque de 597 a.C., Nabucodonosor estabeleceu Zedequias (Matanias), tio de Joaquim, como um governante “fantoche'’ em Judá, No entanto, a sua influên­cia era fraca, e ele foi incapaz de impedir o contato político com o Egito, apesar de um juramento de lealdade à Babilônia (2 Cr 36.13). A nova classe dominante forçou Zede­quias a se aliar com o Egito, e a ascensão do faraó Hofra (588 a.C.), que tinha ambições políticas na Palestina, acrescentou ímpeto a esse pedido, a despeito das advertências mais solenes de Jeremias (Jr 37.6 e versículos seguintes; 38.14 e versículos seguintes). Quando Zedequias decidiu depender do apoio egípcio e se revoltou contra Nabucodo­nosor, empenhados na destruição, os exércitos caldeus devastaram Judá em 587 a.C. Os pequenos estados sírios caíram diante dos exércitos babilónicos como Jeremias havia predito (Jr 25.9), e Nabucodonosor sitiou Laquis e Azeca. Quando essas cidades caíram, ele atacou Jerusalém, e seguiu-se um período de grande dificuldade (2 Rs 25,3). 

Jeremias predisse repetidas vezes que a cidade seria queimada pelos caldeus, e incentivou Zedequias a se submeter a Nabucodonosor visando o bem de todos os envol­vidos. Uma vez que este conselho foi rejeitado, Jeremias tentou deixar a cidade, mas foi acusado de desertar e se encaminhar para o inimigo, e foi lançado na prisão. Sua vida foi poupada por Zedequias, mas permaneceu preso durante todo o cerco de Jerusalém. Uma força egípcia marchou visando o alívio da cidade, e por algum tempo os defen­sores sitiados nutriram a esperança de resistir aos invasores babilônios. Mas a cidade se rendeu em 586 a.C., no décimo primeiro ano do reinado de Zedequias. E embora o rei tenha tentado escapar em meio à confusão geral que se seguiu, acabou sendo captura­do em Jericó, teve seus olhos cegados e foi levado para a Babilônia, onde permaneceu preso até a sua morte. Jeremias foi tirado da prisão, e por ordens de Nabucodonosor foi tratado com grande respeito. Mas os horrores do cativeiro alcançaram a terra de Judá mais uma vez. O templo foi saqueado e destruído, o país foi devastado, e os líderes po­tenciais dentre a população foram deportados para a Mesopotâmia. 

As Cartas de Laquis 

Descobertas arqueológicas em Laquis (Tell ed-Duweir), que está localizada cerca de trinta e dois quilômetros ao sul de Jerusalém, lançaram uma nova luz sobre os últimos dias do reino do sul. J. L. Starkey começou a escavar a colina em 1932. Três anos mais tarde, ao desobstruir as ruínas de uma pequena sala de guar­da fora da porta da cidade, ele descobriu dezoito cacos de barro, todos com cerca de dez centímetros de comprimento, e com inscrições em tinta, na escrita fenícia corrente na época de Jeremias. Em 1938 mais três ostracas foram encontradas em Laquis, perfazendo um total de vinte e um cacos de barro. Uma comparação dos níveis indicou que a sala da guarda havia sido reconstruída depois que Nabucodonosor tinha destruído Laquis parcialmente em 598 a.C., e as ostracas formavam parte do depósito resultante da destruição final da cidade em 587 a.C. 

Alguns desses fragmentos continham listas de nomes originadas um pouco antes da queda de Jerusalém em 586 a.C. A maior parte das ostracas, porém, con­sistia de correspondências envolvendo um profeta, escrita por certo Hosaías para “Jaós", que talvez fosse um comandante militar em Laquis. A menção de relatórios de inteligência e comunicações por sinais, levou alguns estudiosos a pensarem nas cartas como correspondências militares, uma vez que a Carta IV confirma a declaração de Jeremias 34.7 a respeito das cidades fortificadas de Judá: 

... estamos procurando os sinais de Laquis, de acordo com todas as indica­ções que meu senhor nos deu, pois não conseguimos ver Azeca. 

O método de sinalizar com fogo é muito antigo e, quando as tábuas de Mari foram encontradas, descobriu-se que este foi um meio de comunicação aceito na Mesopotàmia pelo menos mil e duzentos anos antes de Jeremias nascer. 

A Carta III, também escrita por Hosaías, fez referência a um “profeta” da se­guinte forma: 

... E foi relatado ao teu servo, dizendo, “O comandante do exército, Conias filho de Elnatã, desceu a fim de ir ao Egito; e para Hodavias filho de Aias e seus homens ele enviou para obter... dele". E quanto à carta de Tobias, servo do rei, que veio a Salum, filho de Jadua através do profeta, dizendo, “Cuidado!", teu servo a enviou ao meu senhor. 

Os nomes próprios mencionados nesta passagem são caracteristicamente bí­blicos, e isto levou à especulação acerca da identidade do “profeta". Alguns estu­diosos presumem que a referência diga respeito ao próprio Jeremias, enquanto outros acreditam que um profeta contemporâneo desconhecido estivesse sendo citado quando as cartas foram escritas. Visto que oráculos proféticos eram busca­dos periodicamente na condução de assuntos militares, não seria incomum um profeta ser mencionado em uma correspondência militar, particularmente por seus seguidores entre os oficiais. 

O professor H. Torczyner finalmente aceitou o ponto de vista de que as os­tracas faziam parte de um grupo que tratava do destino de um profeta, a quem ele identificou com Lhias de Quiriate-Jearim. Ele havia profetizado a destruição de Jerusalém, e então fugiu para o Egito procurando refúgio, mas foi extraditado por ordem de Jeoaquim, e morto em Jerusalém (Jr 26,20 e versículos seguintes). Torczyner acredita que esta Carta IV, na verdade, tinha sido endereçada ao profeta, mas que a emergência de 598 a.C. tinha impedido que fosse entregue. E ditícil dizer se é possível fundamentar a sua alegação de que os ’‘sinais de fogo’' eram acompanhamentos de uma manifestação Divina, em vez de serem comunicações militares (cf Jz 20.,18 e versículos seguintes). E verdade, no entanto, que as cartas demonstram uma grande preocupação com o destino do profeta, sim, uma preo­cupação tão grande quanto pela crise que havia em Laquis; mas, em última análi­se, é muito duvidoso que a identidade do “profeta” possa ser determinada. 

A Carta VI continha passagens que fazem lembrar fortemente Jeremias 38.2 a seguir, onde o proteta foi acusado de desmoralizar o povo ao recomendar que se rendessem aos caldeus. Neste caso, os mesmos oficiais reais que não muito tempo antes haviam clamado por vingança, estão expressando o seu desencorajamento: 

... E eis que as palavras deles (dos príncipes) não são boas, (mas) enfraquecem as nossas mãos... meu senhor, por que não lhes escreves dizendo, “Por que o fazeis em (na própria) Jerusalém? Olhai pelo rei e (sua casa) e vede o que está sendo feito!"... como o Senhor teu Deus vive, verdadeiramente desde que teu servo leu as cartas não tem havido (paz) para teu servo... 

As ostracas de Laquis representam uma das descobertas arqueológicas mais significativas da Palestina, e fornecem uma admirável confirmação da situação política que estava em vigor durante os últimos dias do reino do sul, conforme retratado por Jeremias. 

Depois que os caldeus haviam devastado Judá, Gedalias, que tinha sido ami­go de Jeremias (Jr 39.14), foi apontado governador sohre os “pobres da terra” (2 Rs 24.14). No entanto, remanescentes da antiga casa real, que tinham conseguido fugir para o Egito, o consideravam como um colaborador. E Ismael, um descen­dente da linhagem hebraica real, matou Gedalias em Mispa enquanto este tentava restabelecer a população espalhada. Temendo a vingança babilónica, Ismael e seus seguidores fugiram para o Egito, levando consigo alguns dos que haviam sobre­vivido ao segundo cativeiro. Jeremias e Baruque, o seu escriba, também foram levados para o Egito nesta época, e a história subsequente os perdeu de vista. 

O regime babilónico foi determinado para impedir quaisquer insurreições fu­turas na Palestina, e em 581 a.C. as forças dos caldeus empreenderam a terceira e final etapa no despovoamento de Judá. Nenhuma outra resistência foi possível, e com este último e severo golpe o poder do reino do sul teve um fim. 


Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.