2 de agosto de 2015

R. K. HARRISON - O reino unido e dividido

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O Reino Unido e Dividido 

CRONOLOGIA DESTE CAPITULO 

Davi.....................................1011/10-971/70 a.C.
Salomão.............................. 971/70-931/30 a.C.
Queda de Samaria ...............722 a.C. 

EMBORA A AMEAÇA IMEDIATA AO BEM-ESTAR DE DAVI TIVESSE SIDO removida pela morte de Saul, a vitória dos filisteus em Gilboa gerou um estado de crise na história política dos israelitas. Eles não só haviam perdido a liderança, mas também perderam o controle do fértil vale de Jezreel, que se estendia a sudeste do monte Carmelo até o rio Jordão. A estrada principal da Síria ao Egito, cruzava a parte norte deste vale, enquanto que no sul, se localizava a principal rota comer­cial entre Damasco e Jerusalém. O vale tinha, por muito tempo, sido cobiçado pelos invasores da Palestina por causa de sua importância estratégica, e com os fi­listeus no controle, o declínio da sociedade hebréia foi virtualmente assegurado. 

A Unção de Davi 

Ainda mais séria foi a rivalidade interna que se levantou sobre a questão de um sucessor para Saul. As tribos do norte permaneceram leais à casa do rei morto, e aceitaram o governo de Isbosete, o quarto filho de Saul. Com a ajuda de seu gene­ral, Abner, ele estabeleceu a sua capital em Maanaim na Transjordânia, enquanto Davi voltou para a tribo de Judá e se estabeleceu na antiga cidade de Hebrom. Aqui Davi foi ungido governante sobre a casa de Judá, e governou por sete anos. Sob tais circunstâncias, a guerra entre ele e os sucessores de Saul foi quase inevitável, e uma batalha entre os grupos opositores de guerreiros (2 Sm 2.15) iniciou o pro­cesso de deterioração que culminou na extinção da casa de Saul. Abner discutiu com Isbosete a respeito de uma das concubinas reais, e imediatamente transferiu a sua lealdade a Davi na esperança de que este gesto permitisse que Davi se tomasse governante das tribos israelitas do norte, bem como de Judá. Mas Abner descobriu que como um pré-requisito à aceitação de sua lealdade, Davi exigiu o retorno de sua ex-esposa Micai, casada naquela época com Paltiel (Palti). 

Se a idéia do matriarcado estivesse em vigor em qualquer grau, este passo constituiria uma preliminar necessária ao reconhecimento de Davi como rei so­bre Israel, além de ser governante de Judá. Quando, para a satisfação de Davi, este assunto foi resolvido, Abner trabalhou para influenciar as tribos do norte em fa­vor da aceitação de Davi como rei, e ele também poderia se tornar comandante das forças de Judá, se não fosse pelo ciúme de Joabe, cujo irmão ele havia matado anteriormente. Joabe havia aliado as suas forças com as de Davi, e havia assumi­do o comando em Hebrom, de forma que o aparecimento de Abner representava uma ameaça à sua posição como general. Em consequência disso, Joabe o matou a sangue frio, um ato que gerou uma furiosa repreensão por parte de seu senhor. Apesar da delicadeza da situação, Davi a usou como vantagem política dando a Abner um enterro honroso, impressionando assim as tribos do norte com a sua própria magnanimidade e sinceridade. 

A turbulenta carreira de Isbosete terminou em seu assassinato, cometido por dois de seus seguidores, que levaram a sua cabeça a Davi em Hebrom. Longe de serem recompensados, eles foram mortos como assassinos comuns, um ato que aumentou ainda mais o prestígio de Davi no norte. O tempo foi então tido como que chegado para que os povos do norte transferissem a sua lealdade ao novo rei, e assim, entraram em um relacionamento de aliança com Davi através do qual ele se tornaria o seu governante. Tendo aceitado esta responsabilidade, a sua tarefa imediata foi implantar a unidade política das tribos por meio de um reino esta­belecido. 

O Estabelecimento de uma Capital 

A questão de estabelecer uma cidade como capital do reino era de alguma im­portância, e Davi demonstrou uma considerável perspicácia política escolhendo uma localidade que ficava fora do alcance territorial estrito das tribos israelitas, e que, ao mesmo tempo, ficava perto do centro de seu país recentemente unido. A capital proposta era Jerusalém, que na época era uma fortaleza dos jebuseus, fir­memente estabelecida sobre um platô rochoso há mais de novecentos metros aci­ma do nível da planície do Jordão em Jericó. Os defensores nativos consideravam a cidade tão invencível que escarneciam de Davi e seus homens de uma maneira que logo se arrependeriam. O modo preciso como a “Fortaleza de Sião” foi tomada é incerto, e até recentemente, a passagem que diz respeito à sua conquista (2 Sm 5.8) parecia indicar acesso por meio de um “canal” (versão ARC) ou “túnel da água” (versão NTLH). Quando Sir Charles Warren estava conduzindo as primeiras escavações em Jerusalém, esta teoria pareceu estar fundamentada na descoberta de um sistema de água subterrâneo instituído pelos habitantes cananeus do local por volta de 2000 a.C, 

Por causa de sua localização, Jerusalém era deficiente no suprimento de água e dependia grandemente de cisternas e reservatórios subterrâneos. A fonte mais próxima ficava no vale de Cedrom, a sudeste do monte conhecido como Ofel, e era chamada de Fonte de Giom, Ainda mais ao sul, abaixo da junção dos vales de Ce­drom e Hinom, ficava uma outra fonte de água, chamada fonte de Rogel. Warren descobriu que os jebuseus haviam cavado um túnel através da rocha, conforme o padrão dos túneis em Gezer e Megido, que retiravam água da caverna na qual a Fonte de Giom desaguava, levando-a por baixo do monte Ofel, a uma profunda cavidade há cerca de doze metros abaixo da superfície. Este reservatório era acessa­do por meio de um duto vertical, e era comparativamente fácil para os habitantes descerem vasos para dentro da cavidade e obter a quantidade necessária de água. 

Embora não fosse impossível obter acesso à fortaleza por esta rota, isto apre­sentaria imensos obstáculos a um grupo de ataque. No entanto, não é necessário argumentar a favor deste procedimento, porque estudos ugaríticos têm mostrado que a palavra traduzida como “canal” ou “tunel de água" é uma palavra cananéia que significa “gancho”. Desse modo o acesso para a cidade foi obtido por meio de arpéis, escadas com ganchos, e outros mecanismos de natureza semelhante. Esca­vações feitas em Sião, o monte oriental mais baixo de Jerusalém, desenterraram um muro de pedra sólida no qual uma grande abertura havia sido feita, provavel­mente datando da época de Davi. 

Jerusalém foi formalmente estabelecida como a capital da nação dos hebreus, e se tornou conhecida como a “Cidade de Davi”. Ficando fora da jurisdição tribal, ela devia lealdade somente ao rei, e em seus primeiros estágios era uma cidade compa­rativamente pequena com cerca de oito acres, povoada pelos seguidores pessoais de Davi. O novo governante aplicava a sua perspicácia às considerações religiosas, bem como a assuntos nacionais e sociais, dando um passo importante em direção à centralização da religião dos hebreus em ferusalém, transferindo os sobreviven­tes do massacre de Nobe para a sua fortaleza, e levantando um tabernáculo para abrigar a Arca. Este objeto de culto sagrado foi conduzido para o seu novo lugar de repouso em procissão, e Davi, extasiado pelas maravilhas do Senhor, dançou diante do grupo, o que desgostou a sua refinada esposa Mical. 

O Declínio do Poder Filisteu 

O crescimento do jovem reino era observado com alguma apreensão pelos filisteus, que invadiram o território em duas ocasiões com a intenção de subjugar a fortaleza de Jerusalém. Mas Davi os superava em estratégia, e prosseguiu em suas vitórias invadindo a Filístia, ocasião em que Gate caiu em seu poder (1 Cr 18.1). Tendo anulado a ameaça militar do poder filisteu, Davi voltou a sua atenção para os outros inimigos inveterados de Israel, as nações da Transjordânia, Combinando conquista militar com habilidade diplomática, Davi foi capaz de estender as fron­teiras do seu reino ao norte até a Síria central e a nordeste até o vale do Eufrates (2 Sm 8). Os filisteus foram reduzidos à condição de tributários, e o acúmulo de despojos de suas conquistas fez de Davi um governante rico e poderoso. Em se­guida aplicou as suas energias à organização do seu reino e, seguindo os padrões egípcios, até certo ponto, como um meio de centralizar a autoridade, desenvolveu um sistema de oficiais administrativos que respondia somente a ele, além de res­tringir a autonomia das tribos. O seu exército aumentou em tamanho e eficiência, e foi acrescido de tropas mercenárias de Caftor e de outros lugares, que lhe eram completamente leais. 

Davi combinou os dons de sua personalidade à perspicácia de tratamento, tornando-se assim o governante mais popular da história da monarquia hebraica. De certo modo, resumiu as aspirações de cada pessoa humilde através de sua ascensão ao poder. Assim que assumiu o controle, suas habilidades eram tais que conseguiu aplacar a maioria dos seus adversários e estabelecer alianças políticas de extrema importância. Sua bondade de coração foi ilustrada pela maneira como tratou Mefibosete, o filho aleijado de Jônatas, restaurando-lhe os bens de Saul e fornecendo-lhe o sustento à custa do governo. Tal líder inspirou lealdade e generosidade em seus seguidores, e isto resultou em gestos como o de Joabe em Rabá-Amom, que deu a Davi a honra de conquistar a cidade (2 Sm 12.27,28). 

A Perturbação na Casa de Davi 

Contraditoriamente, enquanto Davi mostrava grande habilidade no estabe­lecimento do crescimento do reino hebreu, revelava ser menos bem sucedido no comando de sua própria casa. Embora os seus filhos seguissem o padrão corrente de organização fraternal onde o mais velho era o chefe dos irmãos e o segundo filho era o seu inferior imediato, havia grande rivalidade e perturbação na família como um todo. Os problemas se revelaram quando Amnom, o primeiro filho, se entregou a uma ligação amorosa com sua meia irmã Tamar, e a violentou ao invés de pedir permissão para se casar com ela. Por causa disso, subsequentemente, ele foi morto por Absalão, o irmão legítimo de Tamar, que foi então forçado a fugir para o reino de Gesur, de onde a sua mãe tinha vindo. 

Estes eventos assumiram um significado ainda maior do que poderia ser apa­rente ou, de forma superficial, se o matriarcado exercesse qualquer grau de influ­ência na Palestina durante a antiga monarquia, Se esse fosse o caso, a ação de Am­nom ao desonrar Tamar, não deve ser interpretada, unicamente, como o resultado de abuso ou lascívia, mas antes como uma tentativa cuidadosamente planejada de assumir o trono. Além disso, o fato de Tamar ter suplicado como fez (2 Sm 13.13) poderia indicar que o casamento de Amnom e Tamar teria sido permitido pelo rei Davi, segundo o costume antigo que permitia uma grande liberdade quando o casamento com parentes paternos estivesse sendo empreendido. Embora Davi te­nha tido êxito em estabelecer e organizar o reino, falhou em estabilizar a posição da família real em Israel, negligenciando a garantia de um futuro adequado para a sucessão hereditária. 

Joabe, o astuto comandante das forças reais, percebeu os perigos inerentes da situação que surgiram a partir da morte de Amnom pelas mãos de Absalão, e ar­regimentou uma mulher de Tecoa para ajudar a efetuar uma reconciliação entre Davi e o fugitivo Absalão. Com uma característica habilidade oriental, a mulher utilízou-se de uma situação familiar fictícia, semelhante à crise que Davi enfren­tava, e por este meio persuadiu o rei a perdoar Absalão. 

Intrigas no Reino 

A decisão deveria ter consequências infelizes, porque Absalão era tão bonito e popular quanto seu pai tinha sido no passado, e estava capitalizando sobre isto para desenvolver uma comitiva entre o povo. Algum tempo depois de seu retorno, Absalão reuniu os descontentes de Judá e então marchou para Hebrom, forçando Davi e sua casa a fugirem pelo Jordão. Algumas das tropas mercenárias estrangei­ras que Davi havia empregado demonstraram, nesse momenco crítico, a lealdade que tinham a ele. Sob as ordens de seu comandante Itai, o geteu, por mais precária que a situação pudesse ser, eles deveriam perseverar em servir os seus interesses naquela emergência e, apesar dos apelos de Davi, não iriam tolerar nenhuma dis­cussão em contrário (2 Sm 15.19 e versículos seguintes). 

Durante a sua fuga, o rei exilado foi encontrado por Ziba, servo de Mefibosete, que lhe disse que seu senhor era agora desleal à casa de Davi, e estava se preparan­do para assumir o trono de Judá. Por esta história astuciosa Ziba foi recompensado por Davi com a propriedade de terra de seu senhor, que foi em seguida novamente repartida quando a verdade foi descoberta (2 Sm 19.24 e versículos seguintes), Uma situação ainda mais séria para a unidade da nação surgiu da repreensão que Simei, o benjamita, proferiu com veemência ao rei fugitivo. Simei era da mesma tribo que o falecido Saul, e sentiu que Davi havia usurpado as prerrogativas reais ao assumir o reino. O fato de Davi ter sido posteriormente capaz de perdoar Simei quando o encontrou em seu retorno a jerusalém é um tributo excepcional á sua magnanimidade (2 Sm 19.16 e versículos seguintes). 

Aitofel, o conselheiro de Davi que tinha abraçado a causa de Absalão na revol­ta, aconselhou este segundo a possuir o harém que seu pai tinha abandonado em sua fuga, para demonstrar a sua supremacia. Depois, pediu permissão para reunir uma grande força de ataque e perseguir Davi antes que ele pudesse reunir apoio e esmagar a revolta. Porém outro conselho prevaleceu, e em desespero Aitofel co­meteu suicídio (2 Sm 17.23). Durante este tempo, Davi estava recebendo relató­rios regulares da inteligência, vindos dos sacerdotes do santuário de Jerusalém, e quando sentiu que tinha apoio militar suficiente, organizou as suas forças contra um ataque iminente de Absalão. A força armada de Judá foi disposta por Joabe perto do Monte de Efraim, enquanto o envelhecido Davi esperava por notícias da batalha em Maanaim, Na Luta que se seguiu, os israelitas sofreram pesadas perdas e Absalão foi forçado a fugir. Seu longo cabelo se enroscou em uma árvore baixa, e, ao chegar ao loca], Joabe matou Absalão, contrariando as ordens de Davi. 

As narrativas que contam sobre o modo como a triste notícia foi levada a Davi, e a profunda reação emocional que se apoderou do idoso governante, estão entre as mais dramáticas e expressivas da Bíblia hebraica. Quando Joabe percebeu que os sentimentos de Davi por seu filho morto ameaçavam transformar o triunfo em derrota, e abaixar o moral das tropas, censurou Davi vigorosamente, e o persua­diu a pensar em termos de vitória. Davi então voltou para Jerusalém, e absolveu Mefibosete (que rejeitou o menor pensamento de deslealdade), e Simei, que havia anteriormente apedrejado Davi e seus homens quando estavam em fuga. 

A Perturbação entre as Tribos 

Logo se tornou aparente que as tribos de Israel e o povo de Judá não estavam em paz uns com os outros. A rivalidade explodiu, e Seba, um benjamita, revoltou- se, apoiado pelo sentimento popular entre as tribos do norte. Davi havia nomeado Amasa, primo de Joabe, como comandante de suas forças em sucessão a Joabe, ape­sar do fato dele ter apoiado Absalão na revolta anterior. Porém falhou em tomar ações punitivas imediatas contra Seba, e Joabe o matou por vingança (2 Sm 20) e dispersou suas forças. Uma fome seguiu esta revolta abortiva, que recebeu a culpa pela carnificina dos gibeonitas executada por Saul em um período anterior. Para efetuar uma satisfação adequada, Davi entregou sete descendentes da casa de Saul e os gibeonitas os mataram; depois disto, a fome cessou. Davi recuperou os corpos para sepultá-los, e também conseguiu os restos mortais de Saul e de Jônatas, que foram depositados no túmulo da família. Quando ocorreu um renascimento das agressões por parte dos filisteus, Davi atribuiu a condução dos assuntos a alguns de seus mais valentes guerreiros, obtendo um sucesso gratificante. 

Talvez com o pensamento de recrutamento, taxação, ou uma corvéia de alta es­cala, o envelhecido Davi ordenou que se fizesse um censo da nação, em boa parte contra o conselho de Joabe, a quem a execução da tarefa foi entregue. Aparente­mente o motivo não foi de ordem elevada, como Davi descobriu em seguida (2 Sm 24.10), e Deus lhe ofereceu a oportunidade de escolher dentre algumas punições. Davi sabiamente escolheu uma que o colocava unicamente dentro da misericórdia divina. 

Os Últimos Dias de Davi 

Os dias finais daquele que já fora um governante corajoso, tornou-se um qua­dro patético de senilidade. Uma jovem chamada Abisague foi escolhida para cuidar do fragilizado rei, que era naquele momento um inválido e incapaz de governar. Adonias, o quarto filho de Davi, planejava assumir o trono e suplantar o favore­cido Salomão, filho de Bate-Seba, Joabe foi persuadido a unir-se a Adonias, que também recebeu o apoio de Abiatar, o sacerdote. Mas uma coalizão mais poderosa que apoiava Salomão foi dirigida por Zadoque, o sacerdote, e Natã, o profeta, que persuadiu Bate-Seba a ir a Davi e contar-lhe sobre o modo como Adonias estava usurpando o reino. Isto foi feito, e o testemunho de Bate-Seba foi confirmado in­dependentemente por Natã, para espanto de Davi, que ordenou que Salomão fosse coroado rei em Giom. Quando a notícia deste acontecimento chegou a Adonias, ele fugiu para o santuário por estar se sentindo aterrorizado, mas foi permitido que fosse ileso para casa. 

Finalmente, a vida do envelhecido governante chegou ao fim, e após dar uma solene recomendação a Salomão, morreu e foi sepultado em sua capital, A per­sonalidade de Davi havia exercido uma profunda influência sobre a jovem nação hebréia, e ele permaneceu como um homem que tinha as qualidades para ser o rei ideal para a nação. Durante toda a sua vida, Davi havia colocado o alicerce de um reino que havia de se tornar crescentemente próspero sob o comando de seu filho Salomão, e apesar de ocasionais falhas de caráter como no incidente de Bate-Seba, os seus ideais para o desenvolvimento do reino eram aqueles da antiga aliança de Moisés. O que lhe faltava em consistência foi remediado por sua simplicidade e sinceridade de caráter que imediatamente o tornou generoso na vitória e resolu­to na derrota. As suas composições poéticas, que estabeleceram um padrão para os salmistas subsequentes, permanecem como um monumento à espiritualidade desta elevada personalidade que guiou a recém-nascida nação através dos primei­ros estágios de seu crescimento. 

O Reinado de Salomão 

Depois da morte de Davi, Salomão consolidou imediatamente a sua posição no trono, e outra vez há algumas evidências de que a influência do matriarcado ainda estava sendo sentida, Com relação a isso, a posição de Abisague é de algum interesse porque, embora o seu relacionamento com Davi fosse mais de uma en­fermeira do que de uma parceira matrimonial, após; a morte de Davi, ela parece ter sido reconhecida como tendo, pelo menos até certo ponto, uma reivindicação ao trono. Isto fica evidente a partir da resposta indignada de Salomão ao pedido de Adonias, apresentado por Bate-Seba, que consistia em que ele recebesse Abisague como sua esposa (1 Rs 2,17), o que implicaria no direito de sucessão ao trono. Para Salomão, esta ameaça à sua posição de rei só poderia ser removida à custa da viola­ção de um antigo juramento para poupar a vida de Adonias; ele deveria ser morto por sua indiscrição, Joabe, o fiel servo de Davi, também foi morto por oferecer a sua lealdade a Adonias em sua tentativa de assumir o poder, enquanto o sacerdote Abiatar foi banido para Anatote por sua participação na intriga. Simei, que havia recebido ordens de viver em Jerusalém sob a vigilância das autoridades, violou a sua palavra de honra depois de três anos, e, quando retornou à cidade, também foi morto. 

Como um jovem, Salomão tinha uma disposição profundamente religiosa, e como o ensi sumeriano Gudéia de Lagash, ele recebeu oráculos de Deus na forma de sonhos. Era uma pessoa de grande habilidade intelectual, e se tornou um ho­mem legendário, embora sendo muito jovem, quando comparado a outros. Ele recebeu o mérito de muitas composições poéticas, e era particularmente versado em cristalizar os múltiplos aspectos da vida na forma de provérbios literários, uma prática que também era popular nos círculos da corte egípcia daquela épo­ca. Em um período histórico em que os governantes contemporâneos quase não eram reconhecidos por suas habilidades intelectuais, a sua perícia estimulava a curiosidade das pessoas de longe e de perto, e a visita da rainha de Sabá compro­vava este fato. 

Tendo provavelmente a política bem como outras considerações em vista, Sa­lomão se casou com uma princesa egípcia, que passou a viver em sua corte. Isto é, em si, uma indicação de que o Egito estava em uma condição comparativamente fraca, visto que vários séculos antes as mulheres do Egito eram terminantemente proibidas de deixarem a sua terra natal a fim de se casarem com estrangeiros. Sob o governo de Davi, Israel tinha crescido em influência, enquanto o Egito estava em declínio, e Salomão estava começando a colher os benefícios da política que seu pai havia se esforçado para implementar. Ele deu continuidade ao processo de redução da autoridade tribal estabelecendo doze distritos administrativos. Cada um destes distritos deveria ser responsável por sustentar a casa real durante um mês de cada ano. Estes distritos substituíram o padrão tribal que, tradicionalmente e, em grande extensão, eram controlados pelos governadores que desfrutavam do favor real. 

Campanhas na Síria 

A fim de assegurar as fronteiras de seu reino, Salomão empreendeu uma série de campanhas militares. Uma destas expedições foi lançada contra Hamate no rio Orontes, na Síria, há cerca de cento e noventa quilômetros ao norte de Damasco, Hamate havia sido uma cidade próspera sob o governo dos hititas, e recentes es­cavações realizadas nesse local descobriram muitas inscrições hititas. A região era bem irrigada, e como tal, adequada para as “cidades das munições” de Salomão (2 Cr 8.4). A dinastia aramaica de Hadade, o edomita, que estava tentando libertar o povo edomita do controle de Israel, era uma crescente fonte de turbulência. 

Desse modo Rezom, o general de Hadade, assumiu o controle de Damasco, e numa tentativa de reprimir a ameaça provocada por esta atitude, Salomão fortificou a antiga cidade de Hazor, da Idade do Bronze, Escavações ali realizadas mostraram que no reinado de Salomão ela foi um centro para o ajuntamento de carruagens, e alguns dos postes onde se amarravam os animais, que remontam aquele perío­do, foram descobertos, A região libanesa foi semelhantemente fortificada, e para se guardar contra os grupos de ataque edomitas, Salomão protegeu o fluxo de cobre e outros produtos do porto de Eziom-Geber ao norte, cruzando Arabã, Enquanto Davi tinha se recusado a empregar carruagens, Salomão viu o seu valor como uma arma militar, e construiu algumas divisões que ficavam esta­cionadas em posições estratégicas por todo o seu reino, Estas cidades fortificadas incluíam Jerusalém, Gezer, Hazor, e Megido (1 Rs 9.15 e versículos seguintes), e escavações arqueológicas nesses locais revelaram as ruínas de cercados de carru­agens e estábulos. Em Megido, o nível IV B continha um grupo de estábulos que poderia ter acomodado cerca de quinhentos cavalos. No entanto, há alguma dú­vida quanto a se este nível pertence à época de Salomão ou à de Acabe de Israel. A estrutura de alvenaria em Megido corresponde à descrição encontrada em 1 Reis 7.12, e pode ter sido o resultado da influência da arquitetura síria. 

Salomão e os Fenícios 

Salomão tirou proveito do declínio dos poderes egípcio e assírio para expandir os interesses econômicos de seu vasto reino. Um de seus primeiros atos políticos foi confirmar a aliança que tinha existido entre Davi e Hirão, rei de Tiro. Os israeli­tas jamais haviam mostrado qualquer desejo de atacar a poderosa fortaleza da cos­ta fenícia, e a ratificação do tratado de amizade com Hirão teve o efeito de colocar a riqueza econômica do reino marítimo à disposição de Salomão, sem o esforço e risco de uma campanha militar. A domesticação do camelo como um animal de carga havia revolucionado o comércio de caravanas por todo o Oriente Próximo, tornando possível transportar cargas muito mais pesadas por longas distâncias. Uma vez que Salomão controlava os distritos fronteiriços da Transjordânia, ele possuía um verdadeiro monopólio de todo o comércio de caravanas entre a Arábia e aSíria. 

Desta atividade comercial Salomão obtinha uma grande receita, em parte exi­gindo tarifas e em parte fazendo comércio com outras nações. O rei construiu uma grande marinha, que era baseada em Eziom-Geber, e era tripulada por mari­nheiros fenícios. Ela transportava os produtos da Palestina até os portos do oriente e na volta traziam ouro negro, prata, e outros artigos de luxo (1 Rs 10.22). O con­trole que Salomão tinha das rotas marítimas, permitia que importasse cavalos da Asia Menor e carruagens do Egito, vendendo-os então por um preço fixo. Ele também explorava os ricos recursos minerais de Arabá, e obtinha trabalhadores fenícios para supervisionar a mineração e o derretimento de cobre nas cercanias de Eziom-Geber, e em partes do vale do Jordão. 

As fornalhas que estes técnicos e artesãos construíram, foram descobertas por Glueck em 1938 em Eziom-Geber, e provaram ser excelentes modelos de refinarias de cobre do século Xa.C. ’ Os fenícios haviam adquirido uma considerável experi­ência na construção de fornalhas, e localizaram as refinarias de minério de Salo­mão na melhor posição possível quando as estabeleceram em Eziom-Geber (Tell el-Kheleifeh), de forma a tirar o máximo proveito do contorno natural. O lugar estava situado entre a região montanhosa do Sinai e o platô rochoso de Edom, e, como resultado, recebia a força total dos imensos vendavais que varriam o Uádi Arabá, desde o norte. 

Quando o local foi escavado, um edifício incomum foi descoberto na extremidade noroeste do monte, e ao ser completamente exposto, o seu muro norte foi encontrado inteiramente sem aberturas, exceto por duas fileiras horizontais de furos, Estes eram ligados a uma série de dutos de ar que percorriam o centro dos muros principais e estavam ligados à fileira superior de furos para tormar dutos de captação. Para derreter o minério, os trabalhadores o colocavam em cadinhos dentro do íundidor, e então acendiam um fogo, de galhada cortada ou madeira, debaixo do Container de minério. O vento soprando pelo vale através das brechas era apanhado na parte superior dos dutos e direcionado para o fogo. que se tornava intensamente quente, mesmo quando se usavam pequenas quantidades de combustível, e derretia o minério em lingotes que eram transportados para outro lugar, para a fabricação de vários tipos de produtos. 

Embora seja provável que o minério de cobre para a fundição tenha sido tra­zido da Sardenha ou da Espanha para Eziom-Geber, certamente havia depósitos suficientes de cobre e ferro nos afloramentos de arenito moles que permitiam que a mineração fosse empreendida ali nos dias de Salomão. Em Tell el-Kheleifeh, perto dos lugares de onde o minério foi extraído, os escavadores encontraram as ruínas de várias pequenas fornalhas, e a partir da presença de grande quantida­de de escória, parece que ocorreu um considerável processamento de minério na época em que as refinarias foram construídas. Perto das pilhas de escória estavam as ruínas das salas de fundição e a habitação dos próprios mineiros. Pela nature­za austera que demonstravam, parece que muitos daqueles que trabalhavam em Eziom-Geber eram escravos. 

A ênfase que Salomão colocou sobre a indústria da mineração de Arabá re­sultou na transformação do cobre em seu principal produto de exportação, e o monopólio que exercia lhe garantiu lucros substanciais. Foi provavelmente a séria natureza da competição pelo comércio do Oriente Próximo que fez com que a rai­nha de Sabá empreendesse uma viagem de cerca de mil e novecentos quilômetros, percorrida no lombo de camelo. Cânones orientais de educação atribuíram razões culturais e intelectuais para a visita, mas o sucesso da empreitada (l Rs 10.1,2,10), dá motivos para que se suponha que questões práticas envolvendo tratados mer­cantis e a demarcação de zonas comerciais também estavam em primeiro plano. Há toda razão para se dar crédito à historicidade da narrativa bíblica a respeito da rainha de Sabá, porque embora as rainhas não tenham sido proeminentes na história do sul da Arábia depois do século VI a,C., foram encontradas inscrições cuneiformes que indicam que do século nove até o século sete a.C., especialmente no norte da Arábia, as confederações tribais eram frequentemente governadas por rainhas. 

A expansão da vida econômica em Israel e o crescente fardo da administração do governo central fizeram da imposição da taxação direta uma necessidade para a vida da nação. Isto assumiu a forma de corneia ou trabalho forçado, impostos es­peciais, tributos em medida de prata, o meio corrente de troca, ou presentes dos principais produtos da terra. Originalmente a corvéia tinha sido destinada aos ha­bitantes não-israelitas da terra, mas a natureza ambiciosa dos projetos comerciais e de construção que Salomão estava promovendo, exigiu as energias dos israelitas também na corveia. O trabalho forçado era disposto de forma que dez mil homens estivessem trabalhando todos os meses nas minas, florestas, ou cidades, sob con­dições que se aproximavam muito da escravidão. O descontentamento que isto produziu entre aqueles que estimavam a liberdade da vida nômade foi aumentado pelo crescente controle que era exercido sobre todos os níveis da sociedade pelos oficiais do governo central. O exército permanente, equipado de maneira profusa com caros cavalos e carruagens montadas em ferro, demonstraram ser um dreno substancial e contínuo do dinheiro público, ao mesmo tempo em que a expansão da casa real era feita por crescentes cargas de taxação sobre a nação como um todo, e particularmente sobre os lavradores. 

Uma importante evidência escrita deste período foi desenterrada nos níveis do século X a.C., em Gezer. Conhecido como o Calendário Gezer, é constituído de uma pequena tábua de calcário com inscrições da antiga escrita fenícia. Tem sido sugerido que um estudante a tenha redigido como parte de seus exercícios de escrita. Mas seja assim ou não, a tábua fornece valiosas informações sobre as atividades de agricultura que eram empreendidas nos meses apropriados do ano. De acordo com uma tradução feita por W. F. Albright, o texto diz o seguinte: 

Dois meses são para a colheita (de azeitonas); dois meses para a plantação de grãos; dois meses para o plantio final; um mês para preparar a plan­tação do linho; um mês para colher a cevada; um mês para a colheita e as festividades; dois meses para cuidar da vinha; e um mês para os frutos de verão. 

A parte da maneira como as práticas agrícolas israelitas do século 10 a.C. são ilustradas, a tábua também é importante pelo fato de que certas afinidades lin­guísticas que ela possui com o segundo livro de Samuel, permitem que esta com­posição seja datada com confiança no século X a.C. 

Devido ao fato de Salomão ter falhado no aumento da produtividade agrícola do país, a balança comercial foi fortemente impactadapor seus edifícios ambicio­sos e projetos econômicos. Todo excedente disponível de grãos e azeite israelita era transportado para a Fenícia em troca de mão de obra e materiais fenícios. Visto que a produtividade agrícola em Israel mal era suficiente para atender as necessidades domésticas, devido à sua política, Salomão rapidamente contraiu uma balança comercial negativa com Tiro e gerou o crescimento inflacionário em seu reino. Alguma tentativa de remediar a situação foi feita quando Salomão concordou em ceder a Hirâo vinte cidades na Galiléia como parte de pagamento por produtos e serviços recebidos (1 Rs 9.11). 

Os Edifícios de Salomão em Jerusalém 

As obras públicas mais espetaculares que Salomão empreendeu poderiam ser encontradas em Jerusalém, Ele consertou o estrago feito aos muros da cidade por ocasião da tomada da fortaleza dos jebuseus por Davi, e levantou uma estação de­fensiva, conhecida como Milo, na extremidade norte da cidade antiga. Salomão se utilizou muito da habilidade fenícia no planejamento e construção de uma série de edifícios, dos quais o Templo era um. O projeto deste edifício foi caracteristi­camente fenício, e santuários similares construídos entre 1200 e 900 a.C. foram desenterrados no norte da Síria, particularmente em Tell Tainat (Hattina), 

Dentro de pouco tempo, o Santuário ofuscou todos os outros templos reli­giosos entre o povo hebreu. Ele fazia parte de um grupo de edifícios, e levou sete anos para ser erguido, contra os treze anos empregados para a construção do palá­cio real. Esta discrepância sugeriria que o Tempo pode ter servido originalmente como uma capela real. O edifício em si era uma estrutura retangular estreita de calcário, com cerca de 32 metros de comprimento por 9 metros de largura. Ficava sobre uma plataforma maior de um modo que fazia lembrar um pouco os san­tuários babilônios. Havia dois patamares nos lances dos degraus que conduziam à entrada do Templo, enquanto que no pórtico para a direita e para a esquerda, havia duas colunas livres de cobre polido conhecidas como Jaquim e Boaz. Colu­nas deste tipo eram uma característica arquitetônica comum de templos na Síria durante o primeiro milênio a.C., e nos séculos posteriores seriam vistas também em santuários assírios e mediterrâneos ocidentais. O propósito das colunas no Templo de Salomão não está claro de forma alguma, mas provavelmente serviam como imensos recipientes para o fogo, ou até mesmo altares para o fogo. 

Além do pórtico ficava a câmara principal ou Lugar Santo, estendendo-se para dentro do Templo por uma distância de cerca de dezoito metros. O piso era feito de pedra, sobre o qual era colocado um revestimento de madeira de cipreste, e a câmara em si era revestida de cedro, decorada com folhas de ouro incrustadas. Além do Lugar Santo ficava o Santo dos Santos, no qual se encontrava a Arca, e sobre a qual repousava dois querubins, feitos de madeira de oliveira e revestidos com ouro. O mais importante dessa peça circunscrita ao Santo dos Santos, era a manifestação da presença do Senhor. Os móveis do Templo excediam muito as peças módicas do Tabernáculo do deserto. 

Quando finalmente acabou a construção do Templo, foi ele então dedicado com uma cerimônia apropriada. Os sacerdotes, levitas, e cantores que tinham ministrado diante da Arca na época de Davi, viram a concretização de uma pro­messa que não foi cumprida nos dias do famoso pai de Salomão. Nenhum gasto de tempo, dinheiro, ou habilidade na construção do magnífico santuário central da nação israelita foi poupado, e o pronunciamento que Salomão fez na festa da dedicação foi — em todos os sentidos — digno desta esplêndida ocasião. 

Os Últimos Dias de Salomão 

O final da vida de Salomão foi marcado pela apostasia religiosa e pela indul­gência para com a poligamia. As esposas e concubinas que foram trazidas para a casa real continuaram com a adoração às suas divindades nativas, cujos santuá­rios e sacerdotes estavam frequentemente disponíveis em Jerusalém (1 Rs 11.7). Os prolongados abusos nos gastos haviam plantado sementes de dissensão entre a população por muitos anos, enquanto, fora do reino, Rezom, o vigoroso fundador da dinastia de Damasco, demonstrou ser uma crescente fonte de problemas nos úlrimos dias de Salomão. 

A morte de Salomão removeu de cena uma personalidade vívida que, ao lon­go de toda a sua vida, transformou o conceito do reinado, da idéia de liderança carismática ou divinamente inspirada corrente nos dias da antiga monarquia, em uma liderança típica do despotismo oriental. A pressão que este processo exerceu sobre a economia interna da nação, não foi minorada pelo fato das fontes de renda nacional terem diminuído por algum tempo antes da morte de Salomão, uma vez que os gastos do governo continuaram em um nível muito elevado. 

A Divisão do Reino 

Quando Roboão, filho de Salomão ascendeu ao trono, deparou-se com uma crise econômica de natureza particularmente grave. Ele se apresentou em Siquém para aceitação das dez tribos do norte, que estavam fortemente interessadas em qualquer proposta que o novo rei tivesse a tazer para a futura condução da vida na­cional. Eles tinham como seu porta-voz o ex-chefe da corvéia no norte, um homem chamado Jeroboão que, quando Salomão suspeitou que talvez estivesse incitando uma revolta entre os israelitas escravizados, fugiu para junto de Sisaque, rei do Egito. Quando Salomão morreu, os líderes das dez tribos convocaram Jeroboão, e por ter Roboão assumido o trono, foi decidido que o ex-chefe da corvéia no norte deveria apresentar, em nome das tribos do norte, o caso para uma redução na ta­xação e alívio da detestável corvéia. 

Mas em vez de seguir uma política voltada a mitigar a dificuldade econômi­ca e a reduzir o risco de inflação, Roboão aceitou o parecer dos conselheiros que desejavam ver medidas de despotismo ainda mais duras aplicadas à nação já pesa­damente sobrecarregada, Como resultado, as tribos do norte renunciaram a sua lealdade para com a casa de Davi e formaram um reino do norte separado, conhe­cido como Israel. A resistência destas tribos ao regime de Roboão foi tal que ele fugiu para Jerusalém em busca de refúgio. Assim, as tribos do norte entraram em aliança com Jeroboão, a quem apontaram como seu governante. 

Jeroboão era um homem astuto, que estava determinado a manter o seu reino independentemente da tribo do sul, a tribo de Judá, e para este fim estabeleceu a sua capital em Siquém, e em seguida em Tirza. Por razões políticas, fortaleceu a influência religiosa dos santuários em Dã e Betel, onde introduziu bezerros de ouro na adoração. Albright e outros defenderam que eles tinham o objetivo de retratar a divindade invisível montada sobre um jovem touro de ouro, mas este ponto de vista não leva suficientemente em consideração os motivos que levaram à adoração do touro, Jeroboão estava ansioso para oferecer uma atração oposta à adoração do santuário central no reino de Judá, e sentiu que seus interesses se­riam atendidos de maneira mais eficaz pela introdução desta forma de expressão religiosa em Israel. Ele foi essencialmente um apóstata que estabeleceu um novo sacerdócio, não-levítico, em seu reino, e promoveu uma série de festas religiosas que eram de caráter totalmente pagão. A instituição do culto ao bezerro foi um evidente abandono do ideal de Moisés, e tinha como objetivo apelar para as pes­soas que já estavam familiarizadas com a adoração dos cananeus ao touro, como símbolo de reprodução. O antigo culto ao touro de Mênfis, que teve as suas raízes no período do Antigo Reino do Egito, exerceu igualmente uma poderosa influên­cia sobre o pensamento egípcio e hebreu, e há toda probabilidade de que Jeroboão tenha tido alguma experiência pessoal deste tipo durante a sua estada no Egito. 

Além disso, Jeroboão também mantinha bosques para o culto da fertilidade em Samaria, santuários onde eram observados rituais licenciosos das divindades agrícolas cananéias, e templos para a adoração dos deuses cananeus tais como o Quemos moabita, Milcom e Astorete. Embora tenha governado o povo de Israel por cerca de apenas 22 anos (931/30-910/09 a.C), Jeroboão estabeleceu uma tradição de apostasia religiosa que se tornou a maior marca do reino do norte, e que no iní­cio enfrentou uma severa denúncia e condenação profética (1 Rs 14.7 e versículos seguintes). 


Sisaque em Judá 

Apesar do fato de a tribo de Judá e do remanescente da tribo de Benjamim permanecer fiéis a Roboão, ele estava em sérias dificuldades pela falta de recursos econômicos e militares. Em consequência disso, foi incapaz de resistir à invasão que veio do sul no quinto ano de seu reinado. Tirando vantagem da crise política na Palestina, Sesonque I do Egito (945-924 a.C.), o poderoso fundador da Vigési­ma Segunda Dinastia, invadiu o reino do sul, destruiu diversas fortalezas, e Levou consigo muitos dos tesouros de ouro do Templo. Um relato desta campanha está contido em um baixo-relevo encontrado em Karnak (Tebas), onde se alega que não menos que cento e cinquenta e seis cidades palestinas foram conquistadas, in­cluindo Bete-Horom, Gibeão, Megido e Aijalom.111 Escavações em Megido mostra­ram evidências de saques e incêndios em um nível aproximadamente contemporâneo com a campanha de Sesonque, e sua estela inscrita e mutilada, que também foi recuperada ali, provou que ele havia ocupado o local. 

Métodos de Cálculo dos Copistas 

O modo pelo qual foram compiladas as cronologias dos reis de Israel e Judá nos vários livros do Antigo Testamento provocou muita discussão acadêmica no pas­sado. Com base em aparentes contradições internas, muitos escritores sentiram que várias listas eram quase inúteis como fontes históricas, e foram apenas como resultado da obra de E. R. Thiele que estas cronologias se mostraram totalmente confiáveis em caráter. Como era frequentemente o caso nos estudos do Antigo Testamento, os estudiosos olharam para os escritos dos povos orientais a partir de um ponto de vista estritamente ocidental, e ficaram perplexos ao observar que seus cálculos falharam em concordar com o dos escribas hebreus. 

Thiele mostrou que os dados cronológicos em questão tinham que ser exa­minados consistentemente em termos dos antigos métodos de cálculo dos copis­tas. Eles envolviam expedientes como anos de ascensão, anos de não-ascensão, co-regências, e sincronismos, que embora comparativamente estranhos à mente ocidental, faziam parte regular do cenário do Oriente Próximo, e foram usados com consistência e precisão pelos escribas antigos. 

No que diz respeito às cronologias reais no Antigo Testamento, parece, a par­tir das pesquisas de Thiele, que os princípios normais de cálculo foram emprega­dos de maneiras diferentes em vários períodos, para produzir uma consistência interna que se harmonizasse com os padrões cronológicos de estados vizinhos Desse modo, na época da divisão do reino, Israel seguiu o sistema de anos de não-ascensão correntes no Egito, e continuou deste modo até o final do século IX a.C., quando, sob o governo de Jeoás, foi feita uma mudança ao sistema de anos de as­censão em uso na Babilônia, e isto toi empregado até que o reino do norte foi levado em cativeiro. 

No tempo de Roboão, Judá usava o método de anos de ascensão para calcular a duração dos reinados, e continuou desta maneira até a metade do século IX a,C. Mas de Jeorão a Joás, os reinados foram contados de acordo com o método de anos de não-ascensão, enquanto que de Amazias até o final da história de Judá o méto­do de anos de ascensão foi empregado mais uma vez. 

Assim fica evidente que na divisão do reino, Israel e Judá estavam usando sis­temas de cálculo cronológico diferentes, mas que da metade do século nove até o encerramento de suas respectivas histórias, ambos os reinos utilizaram o mesmo sistema de cálculo, ou seja, o método de anos de não-ascensão até o início do sé­culo VIII a.C., e o sistema de anos de ascensão a partir desta época. Neste livro a maior parte das datas para os reis hebreus receberá uma forma dupla, porque o ano hebraico não coincide com o padrão normal do nosso ano civil. 

O Crescimento do Poder Sírio 

Enquanto Sesonque estava subjugando Judá, a dinastia aramaica de Damasco estava crescendo em força e se tornando o poder dominante na Síria. A descoberta em 1940 da estela inscrita de Ben-Hadade em um local no norte da Síria, fez uma con­firmação geral à lista dos primeiros governantes sírios mencionados em 1 Reis 15.18, embora a posição de Rezom, o fundador do estado damaseeno, ainda seja incerta. O crescimento do poder sírio nos estágios iniciais foi estimulado pela hostilidade que existia entre Israel e Judá, e pela perturbação que caracterizava a própria dinastia israelita. Quando Jeroboâo I morreu (910/09 a.C.), seu filho Nadabe o sucedeu por dois anos, mas foi assassinado por Baasade Issacar na cidade filisteia de Gibetom. Isto ocorreu no terceiro ano do reinado de Asa, rei de Judá (911/10-870/69 a.C.), que se tor­nou rei depois da morte de Abias (913-911/10 a.C.), o filho e sucessor de Roboão, Baasa fortificou a cidade de Rama, há oito quilômetros de Jerusalém, tornando-a um posto avançado militar, ameaçando a fronteira de Judá (1 Rs 15,17), e em desespero Asa apelou pelo auxílio de Ben-Hadade da Síria, enviando como suborno parte dos tesouros que restaram do Templo, Ben-Hadade respondeu a este pedido enviando Baasa de volta à sua capital, Tirza, enquanto Asa marchou para Ramá e a demoliu. Ele resgatou o material das ruínas de Ramá e com ele construiu duas outras fortale­zas no reino de Judá. Este gesto de amizade de Ben-Hadade lhe trouxe um benefício político, porque por sua intervenção ele ganhou o controle das prósperas rotas de caravanas para os portos da Fenícia, o que permitiu que aumentasse a sua riqueza e a prosperidade de sua cidade capital, Damasco, exatamente como Salomão havia feito por Judá em uma geração anterior. 


A Ascensão de Onri 

Quando Baasa morreu (886/85 a.C.), seu filho Elá reinou por dois anos, e então foi assassinado em Tirza por Zinri (1 Rs 16.9 e versículos seguintes,), um ambicioso comandante das carruagens, que então assumiu o governo. Onri, o general do exército subordinado a Elá, travava uma campanha contra os filisteus quando Elá foi morto, e ao ouvir a notícia voltou imediatamente a Tirza. Depois de um gover­no de apenas sete dias, Zinri cometeu suicídio, e a crise que foi precipitada levou a um período de guerra civil. Quatro anos depois (880 a.C.), Onri ganhou o controle da situação e estabeleceu uma nova dinastia (1 Rs 16.23), a Bit-Hitmn (Casa de Onri) dos registros cuneiformes assírios. 

Ele mudou a capital de Israel para o monte de Samaria, que havia ficado deso­cupada até este momento, e construiu grandes fortificações à sua volta. Tentou compensar o controle sírio do comércio estabelecendo alianças comerciais com a Fenícia, e arranjou um casamento entre Acabe, seu filho e sucessor, e Jezabel, filha do rei de Tiro. Para proteger as suas fronteiras, Onri atacou Moabe e ganhou o controle da parte norte do reino. A famosa Pedra Moabita, que foi descoberta em 1868, fala do papel que Onri desempenhou na campanha contra Moabe: 

Onri, rei de Israel... oprimiu Moabe muitos dias porque Quemos estava descontente com a sua terra. E seu filho o sucedeu, e também disse, ‘'Eu oprimirei Moabe”. 

Embora Onri tenha desenvolvido Samaria como um centro comercial, a eco­nomia da nação prosperou à custa dos pequenos proprietários de lotes e dos la­vradores, que foram forçados a abrir mão da posse de suas terras e propriedades em benefício da riqueza das classes superiores. Enquanto os empreendimentos comerciais estavam prosperando, os artesãos estavam se tornando crescentemen­te pobres, e vivendo sob condições muito próximas da servidão. As políticas do­mésticas e estrangeiras de Onri tiveram continuidade através de seu filho Acabe (874/73-853 a.C,), que tentou fortalecer o seu reino contra a invasão definitiva da Síria. As fortificações e o esplêndido palácio real de Samaria foram terminados em seu reinado, e várias fortalezas, incluindo Jerico, também foram reforçadas nesta época. Ele entrou em aliança com Judá a fim de proteger a sua fronteira sul, e o tratado resultou no casamento de sua filha Atalía com Jeorão, o príncipe da coroa de Judá (2 Rs 8.18). Suas relações diplomáticas com Tiro trouxeram a adoração a Melcarte, o Baal de Tiro, em voga em Israel, e por esta apostasia foi duramente repreendido pelo profeta Elias, que predisse um castigo de seca e fome. 

Depois de aproximadamente quatro anos desta privação, Elias demonstrou em um encontro dramático com os sacerdotes deste culto a Baal (uma prática marcada por orgias) a superioridade moral e espiritual do Deus de Israel (1 Rs 18), e como resultado da carnificina dos sacerdotes de Baal, trouxe sobre si mesmo a fúria de Jezabel. O estado de degradação nacional foi refletido na corrupção que permitiu a Acabe obter a vinha de Nabote (1 Rs 21), uma injustiça que selou o destino de Acabe e Jezabel. O profeta Elias seguiu o exemplo de Samuel na tentativa de relacionar a vontade de Deus com a situação política e social contemporânea. Estes dois homens de Deus foram os primeiros representantes de uma tradição profética que foi única nas crônicas históricas da vida do antigo Oriente Próximo. Já foram feitas referências a astrólogos da Babilônia e Ugarit, que fingiam ter a capacidade de prever a tendência dos acontecimentos sob circunstâncias específicas, e que tipificavam a profecia fora da nação israelita. Os profetas hebreus divergiam destes adivinhos e vaticinadores, uma vez que desprezavam a mágica, negavam a autoridade e existência das divin­dades pagãs, e buscavam conscienciosamente mediar a vontade Divina a uma nação que deveria ser governada em termos teocráticos. 

A Profecia entre os Hebreus 

Dos nomes hebreus aplicados aos profetas como representantes de um movi­mento espiritual em Israel, o termo nabhi' foi, sem dúvida alguma, o mais larga­mente usado. Originalmente pensava-se que era derivado de uma raiz indicando um “orador”, mas agora é sabido que seu significado básico é “chamar”. 0 nabhi' era, portanto, um indivíduo que tinha sido chamado por Deus para algum propósi­to específico, e que assim mantinha um relacionamento espiritual em particular com Ele. O profeta era essencialmente uma figura carismática, autorizado a falar aos israelitas em nome do seu Deus. Antes da época de Samuel, tais indivíduos eram geralmente designados como um “homem de Deus”, e na mesma época de Saul e Davi essa expressão era aparentemente sinônimo de nabhi’. As declarações dos profetas hebreus eram consequência direta de seu relacionamento espiritual com Deus, e, em essência, abrangiam variações sobre temas teológicos e da aliança cultuados na Lei. De fato, não há uma única doutrina profética que jã não tenha sido apresentada, ao menos na forma embrionária, na Torá; deste modo, os profe­tas podem ser considerados comentadores além de pioneiros doutrinários. 

Os profetas hebreus comissionados por Deus vinham das várias classes sociais do povo, como com Eliseu e Amós. Eles tinham a tarefa de advertir a nação a res­peito dos castigos que sobreviriam àqueles que persistissem em permanecer na prática da iniquidade. Eram resolutos em enfatizar a santidade de Deus, e suas crí­ticas à moralidade contemporânea eram feitas numa tentativa de apontar o cami­nho para uma vida religiosa perfeita, para toda a nação. Em algumas ocasiões cou­be a eles revelar os conselhos Divinos ligados a alguma situação específica, como pode ser ilustrado pela referência a Elias (1 Rs 18.17 e versículos seguintes), Amós (4.4 e versículos seguintes.), Jeremias (26.12 e versículos seguintes.) e Ezequiel (27,2 e versículos seguinres). Em todas as ocasiões, os profetas falavam com aquele senso de autoridade que era inseparável de sua convicção da inspiração Divina. Embora frequentemente lidassem com questões políticas, sociais e religiosas contempo­râneas em suas declarações, eles também eram completamente conscientes do fato de que o futuro sempre depende daquilo que fazemos no presente. Como consequência disso, experimentavam pouca dificuldade em examinar o cenário histórico mais distante, e predizer com extraordinária exatidão o resultado dos padrões políticos e sociais correntes. A antítese moderna entre pós-dizer e predi­zer teria sido, portanto, sem sentido para os profetas hebreus. 

Os primeiros profetas, Samuel, Elias e Eliseu, transmitiam as suas mensagens por meio de declarações orais, que eram provavelmente registradas logo depois dos eventos terem ocorrido. Mas no século que se seguiu após a morte de Eliseu, ocorreu um desenvolvimento importante na profecia dos hebreus, com o surgi­mento dos profetas literários, representados por Amos, Oséias, Miquéias, Isaías e seus sucessores. Embora estes homens exercessem as funções características de profetas orais, também reduziram as suas mensagens inspiradas para a forma es­crita, na qual a poesia geralmente ocorria tão frequentemente quanto a prosa. Es­tas produções literárias estão entre os legados mais preciosos dos antigos hebreus, e constituem um pré-requisito indispensável para qualquer estudo da história e da religião israelita. 

Os grandes profetas escritores preservaram a tradicional fé monoteísta dos antigos hebreus, em tempos quando as obrigações da aliança ou eram ignoradas ou completamente esquecidas. Eles enfatizavam novamente os grandes temas da lei mosaica e os relacionavam com o cenário contemporâneo. Seu patriotismo in­tenso e profundo nunca obscureceu a visão que tinham do propósito Divino para o Povo Escolhido, e embora pudessem se entristecer pela destruição que inevita­velmente iria alcançar a sua terra e nação, nunca duvidaram do triunfo final do bem sobre o mal. 

Comunidades religiosas tais como os “filhos dos profetas” estavam em exis­tência durante os dias dos profetas orais, e podem ter consistido de escolas ou as­sociações proféticas. Tais grupos parecem ter se estabelecido em diferentes regiões da Palestina, e eram geralmente encontrados em áreas remotas. Samuel mantinha uma dessas escolas em Ramá (1 Sm 19.20 e versículos seguintes), enquanto outras estavam localizadas em Betel, Gibeá e Gilgal. Seus membros realizavam cultos em santuários locais (1 Sm 10.5), e aceitavam pagamentos pelos seus serviços pro­fissionais (1 Sm 9.7 e versículos seguintes). Mas a profecia na qual se ocupavam era do tipo extático, e, como tal, era notadamente distintas das declarações racionais e controladas dos profetas orais e literários. Nenhum destes últimos era produto de associações proféticas, e após a morte de Eliseu os “filhos dos profetas" gradual­mente desapareceram do cenário histórico registrado. 

A Assíria na Palestina 

Por volta de 855 a.C., Ben-Hadade e seus aliados finalmente atacaram Samaria (1 Rs 20), mas foram repelidos com grandes perdas. No ano seguinte, um outro ataque sírio em Afeca, ao leste do mar da Galiléia, resultou em uma custosa derrota para Ben-Hadade, e o poder da Síria poderia ter sido completamente destruído, não fosse o aparecimento de uma poderosa expedição assíria contra a Palestina (em aproximadamente 853 a.C.). Sob o comando de Assurnasirpal II (883-859 a.C.) o poder militar da Assíria atingiu novas alturas. A brutalidade com que as campanhas assírias foram conduzidas está indicada em uma inscrição contemporânea: 

Eu edifiquei uma coluna contra a porta da cidade, e esfolei todos os principais homens que haviam se revoltado, e cobri a coluna com suas peles; alguns eu emparedei dentro da coluna, alguns empalei sobre a coluna com estacas, e outros amarrei às estacas em torno da coluna. 

Salmaneser III (859-824 a.C.), o filho e sucessor de Assurnasirpal, trouxe o poder da Assíria para forçar a Síria e a Palestina, e na crise que surgiu, Acabe e Ben-Hadade se aliaram contra o inimigo comum. Uma grande batalha foi travada em Kharkar, no rio Orontes, na Síria em 853 a.C,, na qual um vasto número de infantaria e carros israelitas e sírios infligiu uma derrota decisiva sobre os assírios. Em conformidade com o procedimento normal nesses casos, Salmaneser III reivindicou uma grande vitória, e em sua Inscrição Monolítica está registrada, em uma linguagem hiperbólica, a descrição desta batalha, juntamente com outros eventos significativos de seu reinado. As crônicas históricas declararam que Hada- dezer (Ben-Hadade) e Acabe, o israelita, lideraram as forças opostas, e este fato fornece uma confirmação independente da data da vida de Acabe no século IX a.C. 

A derrota assíria foi suficiente para impedir outras iniciativas militares por sua parte durante vários anos, e logo a antiga hostilidade entre a Síria e Israel foi reacesa. Um resultado importante deste ressurgimento da animosidade foi que Acabe acabou sendo morto enquanto tentava recuperar Ramote-Gileade do con­trole sírio. Josafá, pai de Jeorão e rei de Judá, marido de Atalia, ajudou Acabe nesta campanha, mas não houve nenhum proveito (I Rs 22). Acabe foi sucedido por Acazias (853-852 a.C.), que foi, quase que imediatamente, forçado a enviar uma expedição contra Mesa, o rebelde rei vassalo de Moabe, que não vinha pagando os tributos que haviam sido impostos nos dias de Davi. Acazias foi ferido em um acidente que aconteceu pouco antes de sair contra Mesa, e Elias havia predito a sua morte (2 Rs 1.2 e versículos seguintes), que ocorreu cerca de um ano depois. Devido ao fato dele não ter deixado nenhum sucessor homem, seu irmão Jorão tornou-se governante de Israel por volta do ano 852 a.C., e reinou por um período de onze anos (852-841 a.C,). 

Eventos em Judá 

Jorão prosseguiu com a aliança que seu pai Acabe tinha estabelecido com Judá, e solicitou a ajuda de seu governante, Josafã, para sufocar a revolta dos moabitas. Eliseu profetizou uma extraordinária vitória para Israel e Judá, e na batalha que se seguiu os moabitas foram dizimados e sofreram pesadas baixas (2 Rs 3). Durante o reinado de Jorão, o profeta Eliseu participou ativamente dos assuntos políticos, e suas advertências permitiram que Jorão escapasse do alcance dos saqueadores sírios. Mas quando o rei caiu na idolatria, foi avisado por Eliseu que o Senhor lhe castigaria pelas mãos dos sírios. Pouco depois disso, Samaria foi fortemente cercada, e os habitantes foram compelidos ao canibalismo (2 Rs 6.28 e versículos seguintes), mas a cidade foi salva quando os sírios misteriosamente se retiraram em grande desordem. 

Josafá, rei da pequena Judá, morreu em 848 a.C., depois de um próspero rei­nado no qual deu continuidade às reformas de seu pai Asa. Ele foi sucedido pelo seu filho mais velho, Jeorão, marido de Aíalia, filha de Acabe, sob cuja influência o culto a Baal foi novamente estabelecido em Judá (2 Rs 8.18). Durante o seu reinado, Jeorão foi confrontado por uma revolta edomita, e isto estimulou uma invasão conjunta de Judá por forças árabes e filistéias (2 Cr 21.16 e versículos seguintes), que saquearam o palácio e capturaram suas mulheres e filhos, com exceção de Acazias, que o sucedeu (853 a.C.). 

Por volta do ano 843 a,C. Ben-Hadade adoeceu e foi assassinado por Hazael, um oficial da corte que foi informado por Eliseu que se tornaria governante da Síria (2 Rs 8.7 e versículos seguintes). A ascensão deste usurpador foi mencionada em uma inscri­ção de Salmaneser III de Assur, “Hazael, filho de um ninguém, assumiu o trono”. Ele havia reinado apenas alguns meses quando o trono de Israel também foi assumido por um usurpador, na pessoa de Jeú. Este homem tinha sido ungido por Eliseu (2 Rs 9.6) e comissionado para derrubar a dinastia de Acabe, tornando-se um sucessor ao trono. A sua ascensão ao poder foi acelerada quando Acazias de Judá, neto de Acabe e sobrinho de Acazias, o oitavo rei de Israel, juntou-se a Jeorão de Israel para atacar Hazael da Síria. Jeorão foi ferido em Ramote-Gileade, e retirou-se para Jezreel a fim de se recuperar. Jeú o seguiu até lá e o matou no mesmo pedaço de terra que Acabe tinha tomado de Nabote por meio de traição, Esta ação marcou o início de uma drástica purga em Israel, que continuou com a morte de Acazias de Judá, da impiedosa rainha Jezabel, e do resto da casa de Acabe. Os santuários pagãos que haviam sido construídos por Acabe também foram demolidos, e os sacerdotes de Baal, que tinham sido responsáveis pela condução dos rituais marcados pela sensualidade, foram mortos. 

Quando seu filho Acazias morreu, Atalia assumiu o controle do governo e matou todos os membros da casa real de Judá, exceto o jovem príncipe Joás. Ele foi resgatado por sua tia e escondido no Templo pelo período de seis anos, no qual Atalia reinou (841-835 a.C). No final deste período, Joiada, o sumo sacerdote, criou Joás no Templo como um rei legítimo; e quando uma aliança formal foi ratificada, Joás foi ungido rei. Atalia, que era uma inveterada adoradora de Baal, chegou ao Templo tarde demais para impedir a unção, e foi morta por ordem de Joiada. O reinado de Joás trouxe prosperidade material a Judá e, felizmente, a influência do culto a Baal diminuiu. Mas quando Joiada morreu, Joás caiu na idolatria, estimu­lou a revitalização do culto cananeu e erigiu muitos santuários religiosos pagãos. Zacarias, o filho de Joiada, protestou contra este retorno à idolatria, e foi morto no pátio do Templo (2 Cr 24.20 e versículos seguintes). 

Outros Ataques Assírios: Hazael 

No décimo oitavo ano de seu reinado (841 a.C.), Salmaneser III atacou a coa­lizão Síria, que consistia principalmente de Israel, Damasco, e as cidades-estado costeiras. Jeú escolheu pagar tributos a Salmaneser em vez de juntar-se à luta con­tra a Assíria, e esta fraqueza interna da coalizão deixou Hazael para enfrentar todo o peso do ataque assírio. O famoso Obelisco Negro de Salmaneser, encontrado no palácio de Nínive em 1846, retrata um cativo ajoelhado humildemente diante de seu suserano e de suas ofertas: 

Tributo de Jeú, filho de Onri. Prata, ouro, uma tigela de ouro, um copo de ouro, taças de ouro, jarros de ouro, chumbo, cajados para a mão do rei, lanças. Recebi isto dele. 

Hazael fez oposição ao ataque de 841 a.C., e por quatro anos resistiu à ameaça de invasão, após a qual os assírios foram obrigados a retirarem-se da Síria para defenderem as suas fronteiras ao norte. Hazael aproveitou a oportunidade para expandir o seu território em Israel, o qual ele atacou implacavelmente em retri­buição por seu fracasso em apoiá-lo em naquele ano. 

Quando Jeú morreu em 814/13 a.C., foi sucedido por seu filho Joacaz, que rei­nou por cerca de quinze anos (814/13—798 a.C.). Durante todo este período ele foi mantido em sujeição por Hazael, que o obrigou a reduzir suas forças armadas e pagar tributo. O território israelita agora abrangia pouco mais que a região mon­tanhosa de Efraim, e Hazael, empenhado na expansão de seu reino, marchou para o sul e ocupou a planície dos filisteus. Ele destruiu Gate e ameaçou invadir Jeru­salém, mas Joás, rei de Judá, o aplacou dando-lhe tesouros do Templo (2 Rs 12.17 e versículos seguintes), e permaneceu seu vassalo até ser morto por seus servos no Milo, o palácio-fortaleza erigido por Davi em Jerusalém. 

Com a morte de Joás em 796 a.C., Amazias seu filho ascendeu ao trono de Judá. Ele liquidou os assassinos de seu pai, e a fim de fortalecer seu reino, contra­tou uma grande força de tropas mercenárias israelitas e marchou contra os edomitas. Conquistou uma vitória decisiva ao sul do mar Morto, e ocupou Sela, a capital edomita. Suas desgraças tiveram início quando honrou os deuses pagãos de Edom ao invés do Deus de Israel, e continuaram quando, como resultado de um desafio militar precipitado a Joás, rei de Israel, ele foi derrotado na batalha de Bete-Semes. Jerusalém foi saqueada e Judá se tornou virtualmente sujeita a Israel, roubando assim de Amazias boa parte de sua desejada segurança. Como resultado de uma intriga, ele foi morto em Laquis, e foi sucedido por seu jovem filho Azarias (Uzias), por volta de 767 a.C., que tinha sido co-regente desde 791/90 a.C. 

O Século VIII a.C. 

O reinado de Uzias foi um exemplo da grande prosperidade econômica de Judá, e a religião de Jeová ganhou a ascendência sobre o culto a Baal. Uzias de­senvolveu a sustentação agrícola de Judá, e garantiu a segurança militar da nação levantando um grande exército. Novas obras de defesa foram construídas em Je­rusalém, e postos militares avançados em Judá foram fortalecidos. Uzias então travou guerra com os filisteus no oeste, e recuperou Elate, o importante porto do Golfo de Acaba, do controle edomita. Este porto, cerca de oitenta anos antes, tinha sido perdido para Edom por Jeorão, e na sua reconquista Uzias o fortificou outra vez e fez dele o quartel general de seu comércio estrangeiro. A prosperidade mate­rial de seu reinado deu a Uzias um senso de orgulho, e isto culminou em uma ten­tativa de usurpar as funções do sumo sacerdote (2 Rs 15.5). Por isto ele foi punido com lepra, e em sua morte (740/39 a.C.) foi sepultado em uma tumba especial. As cerimônias religiosas associadas com a ocasião provavelmente contribuíram para o chamado de Isaías (Is 6,1 e versículos seguintes). 

As ambições políticas de Hazael da Síria foram tolhidas pelo surgimento do poder assírio na pessoa do temível Adade-Nirari 111 (805-782 a.C.), e ele foi incapaz de deter a invasão do leste. Israel e a Filístia se revoltaram contra Hazael e pagaram tributo à Assíria, enquanto Hazael sofreu terríveis perdas, e segundo as crônicas históricas assírias contemporâneas, ele também pagou grandes somas em forma de tributos. Os assírios não tomaram providências imediatas para consolidar as suas conquistas territoriais, e isto permitiu que Israel, sob o governo de Jeoás, su­cessor de Jeoacaz e o terceiro rei da dinastia de Jeú, recuperasse algumas das cida­des conquistadas anteriormente por Hazael. Hazael morreu na época em que Jeo­ás ascendeu ao trono (798 a.C.), e foi sucedido pelo seu filho Ben-Hadade II. Ele não foi páreo para a liderança vigorosa que Jeoás demonstrou, e o prestígio aramaico no sul da Síria sofreu da mesma forma (2 Rs 13.25). Na época em que Jeoás morreu (782/81 a.C.), havia recuperado boa parre do território previamente perdido para o regime aramaico, e havia reduzido Judá à posição de um estado vassalo. 

Jeroboão II sucedeu Jeoás como rei de Israel, e com a ascensão de um período de esplendor e prosperidade, que faz lembrar os dias de Davi, iniciou seu governo no reino do norte. Ben-Hadade III foi obrigado a se defender contra um ataque de Zaquir, rei de Hamate, que estava fazendo uma séria ofensiva pelo poder na Síria, e este fato, combinado com a fraqueza da Assíria nesta época, removeu a ameaça de guerra contra Israel. Jeroboão seguiu os sírios em sua saída e ocupou sua cida­de capital. Damasco, e então as conquistas territoriais subsequentes restauraram o reino do norte até as fronteiras do reino de Davi (2 Rs 14.25). A crença de que a era dourada da antiga monarquia havia retornado foi ainda mais favorecida pela prosperidade econômica de Judá sob o governo de Uzias, um contemporâneo de Jeroboão II. 

A Corrupção da Sociedade 

Apesar do aumento da concorrência da Grécia, a Fenícia ainda era o poder co­mercial dominante no Oriente Próximo. Com as tarifas que eram arrecadadas para a travessia do comércio em caravanas pela região, Israel tirou proveito das relações comerciais com a Fenícia. O aumento das propriedades territoriais derramou rique­za nos cotres de Samaria, e os males econômicos que tinham estado presentes na época de Salomão reapareceram. As ricas classes superiores não tinham escrúpulos acerca da maneira como adquiriam terras e bens, de forma que os lavradores se tor­naram crescentemente pobres e eram frequentemente subtraídos de suas pequenas propriedades de uma forma ilegal. Um desejo de luxo fez com que as habitações de tijolos fossem substituídas por edifícios de pedras lavradas, e as decorações de mar­fim, pelas quais o palácio de Acabe tinha sido famoso (1 Rs 22.39), foram largamente copiadas nas mansões dos ricos proprietários de terras. 

Um considerável número dessas elaboradas peças de marfim foi desenterrado durante as escavações em Samaria, e embora os artefatos não fossem particular­mente grandes em tamanho, demonstravam um alto padrão de proficiência téc­nica em sua fabricação. A influência do Egito é refletida no estilo e no tema das gravações, que retratavam plantas e animais familiares do Egito tais como lírios, lótus, juncos de papiro, touros, leões e cervos. Um medalhão de beleza e delica­deza singulares mostra o menino Horus sentado sobre uma planta de lótus. A sua mão esquerda está levantada até os seus lábios, e em sua mão direita ele segura um pequeno mangual. Acima de sua cabeça estão três figuras simbólicas, e toda a cena é gravada em relevo. Em geral os marfins assumiam a forma de pequenos painéis separados, os quais, por causa de seu tamanho, podiam ser incrustados na mobília ou usados para decorar paredes. 

Outras descobertas arqueológicas nos níveis do século VIII em Samaria con­firmaram o esplendor das narrativas bíblicas atribuídas àquele período. As gran­des fortificações que haviam resistido ao cerco sírio (2 Rs 6.24 e versículos seguin­tes) foram reforçadas por ordens de Jeroboão, e outros edifícios toram erigidos na capital, incluindo um magnífico palácio de calcário, flanqueado por uma forte torre retangular. Escavações na extremidade norte do pátio do palácio revelaram a existência de um tanque cimentado, e acredita-se que este possa ter sido o famoso “Tanque de Samaria” no qual a armadura e a carruagem de Acabe manchadas de sangue foram lavadas depois do sepultamento do falecido monarca em Samaria (1 Rs 22.38). 

Geralmente a famosa ostraca de Samaria é datada do início do século VIII a.C, (de aproximadamente 778-770 a,C.), pois os objetos exibem o mesmo tipo de escrita hebraica antiga como a que ocorria nos dias do profeta Oséias, A ostraca, recuperada de um dos depósitos do palácio, consiste de documentos administra­tivos que listam importâncias reais de vinho e azeite. Um fragmento contém o nome do oficial do tesouro para quem o vinho era despachado, o distrito de onde tinha vindo, e os nomes dos lavradores cujos impostos haviam sido pagos desta forma. Porém ainda mais significativa é a luz que as peças lançam sobre a socieda­de contemporânea em Israel. O grande aumento em riqueza e prosperidade ma­terial do reino do norte se deveu principalmente ao final das hostilidades com a Síria. Estas lutas haviam colocado certos limites sobre o desenvolvimento normal da agricultura, e haviam forçado os povos do norte das aldeias pobremente defen­didas para dentro da comparativa segurança das cidades muradas. Isto provocou a urbanização do que havia sido uma comunidade predominantemente pastoril, e, neste processo, os israelitas foram introduzidos nos aspectos mais desagradáveis da vida das cidades, 

A natureza da vida nas cidades da Palestina durante o período pré-exílico lan­ça alguma luz sobre esta situação. Na época da conquista dos hebreus, os israelitas invasores ficaram extremamente admirados pela grandeza das cidades cananéias (cf. Dt 1.28), com a qual estavam desacostumados por causa do período de vida sedentária que tinham vivido no deserto. Escavações em locais cananeus mostra­ram que, por causa de sua comparativa inexperiência nas técnicas de construção, os israelitas adotaram os estilos arquitetônicos gerais das estruturas que havia nas cidades conquistadas. 

Nesta época, as grandes residências de ricas famílias cananéias eram divididas em apartamentos, nos quais várias famílias israelitas viviam juntamente com al­guns animais domésticos. Quando pequenas casas começavam a ser construídas nas cidades, eram geralmente levantadas perto das casas maiores sem qualquer indicação de um planejamento metropolitano. Por esta razão, as ruas raramente eram planejadas nas cidades israelitas, que eram constituídas por ruelas estreitas com cerca de dois metros de largura, que separavam as diversas casas e que apre­sentavam uma sinuosidade para cima e para baixo sem qualquer direção específica em vista. 

Os pedestres escolhiam cuidadosamente o seu caminho ao longo destas pas­sagens em uma fila única, evitando a sujeira debaixo dos pés e mantendo uma distância respeitável dos animais que eram levados de uma parte para a outra da cidade. Embora as cidades maiores frequentemente tivessem espaços reservados para as barracas de comerciantes, o efeito era o de uma feira oriental barulhen­ta e desordenada. Uma vez que poucas cidades israelitas tinham espaços abertos dentro de seus muros, os negociantes geralmente se juntavam dentro das portas da mesma a fim de vender suas mercadorias, e isto piorava ainda mais o congestionamento geral. 

Os escritores do Antigo Testamento parecem ter tido como certa a lama e a sujeira sempre presentes nas ruas das cidades (cf. Is 5.25; 10.6), que era aumentada por peças de barro quebradas, fragmentos de tijolos, lixo doméstico e cinzas. No calor do verão o mau cheiro se tornava quase insuportável, e as condições sani­tárias, precariamente projetadas, da vida da cidade, faziam da doença epidêmica uma ameaça constante. 

Em tempo de paz a população da cidade geralmente ultrapassava a acomo­dação disponível, e durante o verão aqueles que podiam se mudavam para fora, a fim de se juntarem aos poucos aldeões permanentes que viviam nas proximidades em pequenas cabanas nos campos. Eles permaneciam ali para plantar sementes e apascentar o seu rebanho, e só voltavam para a cidade quando o início do in­verno os obrigava a isso. Esta prática se tornou particularmente popular a partir do século IX a.C., quando pela primeira vez em sua história as cidades israelitas experimentaram uma superpopulação, o que fatalmente representou uma situ­ação crítica. Em tempos de dificuldade financeira, quando lavradores de regiões agrícolas próximas afluíam para a cidade para obter algum tipo de subsistência, os problemas físicos, sociais e morais da vida citadina tornavam-se, particularmente, ainda mais severos. 

A Crise Econômica e Moral 

O aumento dramático do comércio estimulou o surgimento de uma classe mercantil, cujo principal objetivo parecia ser conseguir dinheiro com rapidez. A ganância e a desonestidade nos negócios lançaram a sua sombra sobre o próspero reino do norte, estimulando a ampliação da distância entre os ricos e os pobres. As classes superiores viviam em um luxo egoísta. Elas só eram satisfeitas pelo melhor dos produtos comerciais e agrícolas, Esta atitude trazia pesadas exigências sobre os lavradores e fazendeiros já empobrecidos, e a completa indiferença que os ricos negociantes e proprietários de terras adotavam em relação a eles era um sinistro eco de uma era anterior de grande prosperidade material. 

Apesar do fato de os recursos minerais do Wadi el-Arabah terem sido de­senvolvidos por Salomão, de forma que Eziom-Geber tornou-se um importante centro industrial, a característica mais significativa de toda a vida palestina era a sua agricultura. A silenciosa existência pastoril refletida no Calendário Gezer (em aproximadamente 925 a.C.), que sublinhava o trabalho agrícola normalmente empreendido nos diferentes meses de cada ano, era típica da nação, e fornecia a segurança de uma economia israelita estável. Mas quando os ricos proprietários de terra começaram a oprimir os lavradores e a privá-los de seus bens, eles abala­ram as fundações de sua sociedade como um todo. A ostraca samaritana retrata as excessivas exigências dos ricos, que usavam “vinho puro” e óleo da unção refi­nado, conferindo assim uma comprovação independente das circunstancias que provocaram a advertência sinistra dada por Amós (6.6) para alguns em Samaria: [vós] “que bebeis vinho em taças e vos ungis com o mais excelente óleo, mas não vos afligis pela quebra de José. 

Pelo fato de a sorte dos pequenos fazendeiros estar se tornando crescentemen­te intolerável, houve uma mudança inevitável do campo para as cidades, provo­cando assim um enfraquecimento a mais na economia geral. Como consequência disso, o surgimento de um proletariado urbano durante a primeira metade do século VIII a.C. provou ser um importante fenômeno social que teria consequ­ências quase imediatas sobre o bem-estar da nação. Porque para homens como os profetas Amós e Oséias, que estavam profundamente cientes dos fortes problemas sociais em Israel, a deterioração da vida nacional era um problema que gerava, além de denúncias proféticas, uma profunda preocupação. A sobrevivência do rei­no do norte só poderia ser assegurada se “o juízo” corresse “como as águas, e a justiça, como o ribeiro impetuoso” (Am 5.24). 

Amós ensinou que Deus era supremamente justo, por isso qualquer violação da justiça e da moralidade só poderia resultar em um duro castigo, A ruína, não a prosperidade, era o destino certo se Israel, embora sendo o povo da aliança de Deus, continuasse apóstata (Am 3.2). Oséias concordava com esse ponto de vista do castigo pelo pecado nacional (Os 5.1-14; 6.4-11), mas em uma poderosa analogia de casamento, pleiteava ele ternamente com Israel para que a nação abandonasse os seus amores pagãos e se voltasse, com arrependimento e fé, ao Deus amoroso e misericordioso (Os 6.1-3; 14.1-3). 

O Declínio de Israel 

As injustiças econômicas e morais que integravam o padrão social durante o reinado de Jeroboão II, eram os resultados lógicos das atividades religiosas pa­gãs do povo de Israel. A justiça e a moralidade social eram consideradas produtos de pouco valor, e que foram varridas para longe em uma onda de corrupção que tragou a nação como um todo. Os profetas Amós e Oséias protestaram vigoro­samente contra as práticas degradantes do culto a Baal e suas implicações para a vida social da nação. Amós em particular expôs a extravagância que caracterizava o modo de vida em Samaria, e criticou severamente os falsos valores sobre os quais tal conduta era baseada. As suas denúncias irritaram Amazias, o sacerdote idólatra no santuário de Betel, a ponto deste acusar Amós de conspiração contra Jeroboão (Am 7.10 e versículos seguintes). Há pouca evidência de que o próprio rei tenha sido influenciado pelas declarações proféticas de Amós ou de Oséias, porque este último não foi mais bem-sucedido em persuadir Jeroboâo e os israelitas a abando­narem seus caminhos idólatras do que seu contemporâneo havia sido. 

As predições proféticas de que a casa de Jeroboâo cairia diante da espada e que os israelitas seriam levados cativos, começaram a ser cumpridas depois da morte de Jeroboâo em 753 a.C. Seu filho Zacarias, que o sucedeu, reinou durante seis confusos meses, após os quais foi assassinado por Salum, um pretendente ao trono. Com a morte de Zacarias, a dinastia de Jeú chegou ao fim, e introduziu um período de perturbação e luta civis, semelhante àquele que havia marcado o início da casa de Jeú. Salum reinou por um mès, e então foi morto por Menaém, go­vernador de Tirza, a mais antiga capital de Israel. Ele assumiu o trono e esmagou toda a oposição ao seu regime. Mas qualquer que fossem as ambições militares que pudesse ter nutrido foram frustradas por um ressurgimento do poder assírio. Após a morte de Adade-Nirari III (782 a.C.), a Assíria foi dominada por três reis fracos, Salmaneser IV (782-773 a.C.), Asurdã III (772-755 a.C.) e Assur-Nirari V (754- 745 a.C.), que não representaram nenhuma ameaça aos poderes ocidentais. Mas na época em que Jeroboão II morreu, um poderoso guerreiro, Tiglate-Pileser III (745-727 a.C.), ou Pul, como era conhecido na Babilônia, usurpou o trono assírio e trouxe uma nova vitalidade para o império. 

Ele apareceu com um exército na fronteira nordeste de Israel durante o rei­nado de Menaém (2 Rs 15.9), que, sob as circunstâncias, julgou sábio se tornar tri­butário. Nas crônicas históricas de Tiglate-Pileser o evento foi descrito da seguinte forma: 

Quanto a Manaém, o terror o esmagou... ele fugiu e se submeteu a mim... 

prata, vestes de lã coloridas, vestes de linho... recebi como seu tributo. 

Pecaias filho de Manaém ascendeu ao trono em 742/41 a.C., e foi incapaz de apaziguar os assírios como seu pai havia feito, e depois de dois anos acabou sendo assassinado por um grupo militar sob a liderança de Peca, que então o sucedeu. O novo rei procurou restaurar a prosperidade política de Israel, e se posicionou contra a Assíria aliando-se com Rezim, rei de Damasco, com os estados filisteus, e com alguns dos reinos da Transjordânia. 

Os Últimos Dias de Israel 

Em Judá, por volta de 740 a.C., após ter sido regente por vários anos, Jotão havia sucedido seu pai Uzias. Ele estava ansioso para manter a prosperidade material dos tempos anteriores, e, sem a obrigação do pagamento de tributos que Uzias havia ar­recadado dos amonitas, dedicou-se a manter uma política consistentemente pacífica. No final de seu reinado, a aliança entre Rezim e Peca ameaçou a segurança de Judá, e quando Acaz, filho e sucessor de Jotão ascendeu ao trono (732/31 a.C.), ele se deparou com o poder crescente da coalizão Síria. Apesar dos ataques atormentadores, resistiu a todos os convites para juntar-se à aliança, mesmo quando os confederados cer­caram Jerusalém. No fundo, porém, ele era um indivíduo irresponsável, e embora Isaias tenha profetizado uma libertação Divina (Is 7), Acaz, alarmado pela captura de Elate no golfo de Acaba e sua ocupação pelos povos sírios, rogou urgentemente a ajuda da Assíria, Tiglate-Pileser, cuja segurança estava ameaçada pela coalizão Síria, aceitou os tesouros do Templo e do palácio real que Acaz tinha enviado em forma de tributos (2 Rs 16.7 e versículos seguintes) e marchou contra a coalizão. 

Ele atacou a Síria, e quando, após um longo cerco. Damasco caiu em 732 a.C, matou Rezim e completou a destruição predita na profecia (Am 1.4; Is 8.4; 17.1). Ele então se virou contra Israel e levou cativas as tribos de Rúben, Gade, e metade da tribo de Manassés, que foram transportadas para a Mesopotâmia no primeiro cati­veiro de Israel (2 Rs 15.29). Com a morte de Rezim, a dinastia aramaica de Damasco terminou, deixando a Assíria como o poder dominante no Oriente Próximo. 

Peca foi morto em 732/31 a.C, por Oséias, a quem Tiglate-Pileser fez vassalo e de quem exigiu pesados tributos, como registrado nas crônicas históricas assírias; 

Paqaha (Peca) seu rei eles depuseram, e eu coloquei Auxi' (Oséias) sobre eles como rei... recebi deles talentos de prata como seu tributo... 

Quando Tiglate-Pileser morreu em 727 a.C., seu filho Salmaneser V (727-722 a.C.) o sucedeu, e Oséias, que era um indivíduo intensamente patriota, aproveitou essa oportunidade para descontinuar o pagamento do tributo à Assíria e formar afiliações secretas com o Egito. Em represália, Salmaneser prendeu Oséias e cercou Samaria por três anos (2 Rs 17.3 e versículos seguintes ). Antes de cair, Salmaneser foi sucedido por Sargão II (722-705), que derrubou a monarquia israelita e levou as tribos restantes do norte cativas para a Assíria. Nas crônicas históricas de Corsabade, declarou com exagero característico: 

Cerquei e capturei Samaria, transportando 27.290 das pessoas que mora­vam ali. Reuni 50 carruagens dentre eles... 

Sargão seguiu a prática corrente de substituir pessoas deportadas por outras que seriam leais ao regime. Desse modo, trouxe grupos de povos nâo-semitas da Babilônia, Elâ, e outros lugares, e os estabeleceu entre os artesãos e lavradores que haviam sido deixados para trás no reino do norte. Como resultado de casamentos entre pessoas de povos diferentes, surgiu uma população mista, que no final aca­bou assumindo o nome de samariranos, com referência à capital do reino caído. Eles gradualmente assumiram a natureza de uma seita religiosa em vez de uma nação, e mais tarde vieram a ocupar uma posição importante na história do de­senvolvimento religioso na Palestina. 

O Fim do Reino do Norte 

O segundo cativeiro, ocorrido em 722 a.C., marcou o fimm de Israel como um reino separado, terminando assim a sua longa história de revoltas e perturbações. A partir de um ponto de vista religioso, sua queda foi o resultado lógico das práti­cas idólatras que tinham existido por muito tempo, apesar das repetidas advertên­cias proféticas. O povo era moralmente depravado, e havia repudiado as obrigações da aliança a ponto de ter virtualmente se esquecido dela. A partir de um ponto de vista político, o poder da Síria tinha demonstrado não ser páreo para as inves­tidas repetidas e violentas da máquina militar assíria, e após um tempo tornou-se evidente que qualquer nação que se aliasse com a Síria só poderia esperar com­partilhar o mesmo destino final. Com o abandono do ideal teocrático, o reino do norte não teve escolha senão envolver-se em filiações políticas, que, se esperava, o ajudaria a se lornar próspero e poderoso. Mas longe dos dias de JeroboãoII, esta política produziu pouco benefício político imediato, e forçou os profetas do século III a.C. à conclusão de que Deus usaria os planos humanos para a vindicação de sua natureza justa, e empregaria nações estrangeiras como a vara de sua ira para punir o seu povo obstinado e idólatra.


Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.