22 de agosto de 2015

Geografia Bíblica - Império Romano

antigo-testamento-danilo-moraesO Império Romano

INTRODUÇÃO

Simbolizado pelo ferro, o Império Romano conquistou e subjugou muitos povos. Do Ocidente ao Oriente, o peso de seus punhos era conhecido e proverbial. Jamais houvera reino tão poderoso! A simples menção de seu nome era mais do que suficiente para amedrontar povos, derrubar reis e dilatar fronteiras.

Eis como Daniel viu esse férreo império: "Depois dis­to, eu continuava olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível,, espantoso e sobremodo forte, o qual tinha grandes dentes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres" (Dn 7.7).

As histórias de Roma e Israel estreitam-se em Jerusa­lém e na Eternidade. Em Jerusalém, porque foram os ro­manos que destruíram a amada e idolatrada capital do ju­daísmo. Na eternidade, porque foram os romanos, também, quem assinaram a sentença de morte de Cristo, o Fi­lho do Deus Vivo!

O Império Romano, portanto, será tratado com severi­dade no Dia do Senhor!


I - HISTÓRIA DO IMPÉRIO ROMANO

Enquanto Alexandre Magno conquistava o Oriente e esmagava o até então invencível poderio persa, um outro império começava a despertar e a incomodar o mundo. Fundada por Rômulo e Remo, provavelmente, e de início humilde e até desprezível, Roma vai ampliando com vagar seus raios de influência. No Século III a.C, já é senhora de toda a península itálica.

Roma, habitada por indo-europeus, que, em levas su­cessivas, fixaram-se em seu território miscigenando-se aos etruscos, gregos e gauleses, ela não pára de expandir-se. Durante a Primeira Guerra Púnica (264-241 a.C.), os ro­manos venceram os cartagineses e apossaram-se das ilhas sicilianas. Sentindo-se fortalecidos, eles anexam a Córsega e a Sardenha e derrotam os gauleses no Vale do Pó.

Nas duas últimas guerras púnicas, Roma derrota o brilhante general cartaginês, Aníbal, e põe término a gran­deza incômoda de Cartago. Netta Kemp de Money explica as conseqüências desses primeiros sucessos romanos: "Es­tas guerras lançaram as sementes da conquista da bacia oriental, posto que Filipe V da Macedônia havia ajudado a Aníbal; e Antíoco, o Grande, da Síria, lhe havia concedido asilo depois de sua derrota. Filipe foi vencido e os esforços de seu filho Perseu, para vingar a derrota, fracassaram. Diante desta demonstração de poder de Roma, quase todos os príncipes do Oriente optaram por reconhecer sua supre­macia e aliar-se com a potência superior. Antíoco, o Gran­de, havia sonhado com a conquista da Grécia, porém, foi vencido pelos romanos na batalha de Magnésia, e a seu neto, Antíoco Epífanes, que se havia proposto agregar o Egito e seus domínios, bastou uma repressão de Roma para que desistisse. Houve uma ou outra escaramuça depois dos meados do século segundo antes de Cristo, porém, desde aquela época, todo o mundo teve de reconhecer a suprema­cia da república romana."


II - GEOGRAFIA DO IMPÉRIO ROMANO

É difícil traçar os limites do Império Romano. Dilatadíssimo, mantinha incontáveis províncias na Europa, Ásia e África. Foi o mais poderoso reino da Terra. Sua pre­sença era sentida em todas as partes do Globo.

Nos tempos de sua maior extensão, informa John Davis, o Império Romano media 3.000 milhas de este a oeste, e 2.000 de norte a sul, com uma população de 120.000.000.



III - O LEGADO DO IMPÉRIO ROMANO

Os gregos legaram-nos a base da sociedade ocidental. Os romanos, sua estrutura. Pragmáticos e administradores por excelência, deixaram-nos colossal monumento jurídico esculpido em sua experiência privada e pública.

Souto Maior, em sua História Universal, diz-nos como os romanos fizeram suas leis: "O direito romano foi um dos legados mais importantes deixados por Roma às civiliza­ções que lhe sucederam. O antigo direito consuetudinário, isto é, baseado no uso e nos costumes, passou a ser direito escrito com a Lei das 12 Tábuas, que é considerada a mais antiga lei romana.

"O sistema jurídico dos romanos resultou não somen­te da necessidade de governar os diferentes povos dos paí­ses conquistados mas, também, da natural substituição de antigos costumes por certos princípios gerais que se foram condensando através dos editos dos pretores.

"Os pretores eram magistrados encarregados da ad­ministração da justiça. No começo de sua gestão, o pretor comumente promulgava um edito, estabelecendo os princípios que iriam orientar os seus julgamentos: embora geralmente os pretores apenas repetissem o que já estava estabelecido por seus predecessores, de vez em quando surgiam novas regras, modificando a estrutura jurídica prece­dente.

"Antes do III século a.C. existia apenas o 'praetor urbanus', isto é, o juiz da cidade. Depois, estabeleceu-se o cargo de 'praetor peregrinus' que deveria julgar os casos entre cidadãos romanos e estrangeiros.

"Aplicando e interpretando a lei, os pretores criaram duas espécies de direito: o que se aplicava aos cidadãos ro­manos, chamado 'jus civile', e o que dizia respeito a todos os povos de maneira geral, denominado 'jus gentium'. Era o 'jus gentium' que autorizava a existência da escravidão e da propriedade privada, sendo, portanto, um complemen­to do 'jus civile.'

"No século II a.C, foi elaborado, por Sálvio Juliano, sob o governo de Adriano, o Edito Perpétuo, que codificava os editos dos pretores e também os dos imperadores.

"Admitiram também os romanos a existência de um 'jus naturale', que não era propriamente um conjunto de leis e sim a idéia de que, acima do Estado e das institui­ções, existe um princípio de justiça válido universalmente, ou, como afirmou Cícero, 'uma razão justa, consoante à natureza, comum a todos os homens, constante, eterna'.

"O 'jus civile' romano estabeleceu uma perfeita dis­tinção entre pessoa e pessoas ao mesmo tempo. Os escra­vos não eram considerados pessoas e, assim, destituídos de quaisquer direitos."

Eis mais alguns importantes legados romanos: tirocí-nio administrativo; engenharia diversificada e prática; política exterior fundada no pragmatismo; disciplina e agi­lidade nas forças armadas, e, urbanização eficaz.


IV - O IMPÉRIO ROMANO E OS JUDEUS

Ao tomar Jerusalém, em 63 a.C, o general romano Pompeu depara-se com a nação judaica bastante enfra­quecida, em conseqüência de renhidas disputas internas. Depois de um começo brilhante e glorioso, a família macabéia passa a fazer escusas manobras para manter-se no po­der. Conhecida, também, como dinastia hasmoneana, aca­bou por cair nas garras de uma ambiciosa e pertinaz família iduméia, de onde viria um monstro voraz e impiedoso -Herodes, o Grande.

Pompeu estava no Oriente Médio para conter o ex-pancionismo de Mitrídates, rei do Ponto. Sonhando cons­truir ura grande império, esse monarca intentava conquis­tar a Ásia Menor e a Palestina e, assim, minar a posição romana nessa tão estratégica área. Preocupada, Roma en­via à região um bravo e nobre general.

Grande estrategista, Pompeu vence o rei Mitrídates, que se refugia na Armênia. Mesmo vencido, o ambicioso soberano reorganiza-se e tenta tomar a Síria. O general ro­mano, entretanto, intervém uma vez mais e o derrota defi­nitivamente.

O governo de Roma, satisfeito com o desempenho de seu brilhante militar, designa-o governador das províncias da Ásia. Foi nessa qualidade, que Pompeu recebeu Aristó-bulo e Alexandre. Disputando ferrenhamente o trono da Judéia, ambos submetem-se à sua arbitragem. O povo, contudo, não deseja ser governado por nenhum dos dois.

Que decisão tomar?

Prático, o general romano desejava colocar sobre os ju­deus um rei títere. Entre os contendores, opta pelo mais manobrável e influenciável. A escolha recai sobre Hircano, cujo caráter era débil. A decisão de Pompeu desagrada, profundamente, a Aristóbulo, que começa a arquitetar planos de vingança e revolta.

Hircano, respaldado por Roma, assume o poder e in­troduz, em Jerusalém, o exército romano. Revoltado, Aris­tóbulo encerra-se no Santo Templo com 12 mil partidários. Pompeu, ao examinar detidamente a questão, decide to­mar o santuário.

A luta é grande. O espetáculo, dantesco. Aristóbulo consegue fugir. Seus homens, contudo, são aniquilados. Sentindo-se senhor da situação, Pompeu penetra no lugar mais sagrado do Templo - o santíssimo. Esperava, quem sabe, deparar-se com segredos etéreos e mistérios celes­tiais. Contempla, no entanto, um singelo altar, cuja glória residia no nome do Santo de Israel. Dessa maneira, deixa a Casa do Senhor.

Depois dessa intervenção, a Judéia torna-se província romana.-Nessa qualidade, fica sujeita aos mais absurdos caprichos dos poderosos senhores de Roma. Durante o pri­meiro triunvirato, Crasso, para mostrar seus méritos mili­tares, declara guerra aos partos. Mas, como financiar tão arrojada campanha? Lembra-se dos lendários tesouros do Templo e o saqueia. Com dez mil talentos de ouro, tenta conseguir seu intento. Embora impetuoso e feroz, não é bem sucedido: perde a guerra, o dinheiro e a vida.

De manobra em manobra, Herodes, o Grande, conse­gue dos romanos o governo e o trono da Judéia. Sua carrei­ra política teve início, quando ele tinha 15 anos. Desde cedo mostrou-se cruel e sanguinário. Não tolerava quais­quer arranhões em sua autoridade. Sedento de poder, prendia, desterrava e matava.

Tão maquiavélico era Herodes que, fácil e rapidamen­te, ganhou a confiança dos mandatários romanos. Nas si­tuações mais adversas, mostrava quão habilidoso político era. Ele não suportava a menor ameaça ao seu trono. Não hesitou, por exemplo, em assassinar seus filhos Aristóbulo e Alexandre. Carcomido de ciúmes, executou também sua belíssima esposa Mariana, descendente dos macabeus.

Em 37 a.C, finalmente, o monstruoso Herodes liqui­dou a brava e heróica dinastia hasmoneana. Enfim, o tro­no da Judéia era todo seu! Um de seus últimos desatinos foi a matança dos inocentes de Belém. Sua real intenção era destruir a vida do infante Jesus. Depois de todas essas sandices, o perverso idumeu desapareceu entre atrozes do­res e com suas entranhas consumidas por vermes. Uma de suas grandes obras foi a ampliação e embelezamento do Templo. Mesmo assim, os judeus não se esqueceram de seus bárbaros e selvagens crimes.

Das personalidades romanas enviadas à Judéia, des­tacaremos, a seguir, apenas duas. Uma, responsável pela morte de Jesus, e a outra, pela destruição de Jerusalém. Referimo-nos a Pôncio Pilatos e ao general Tito.


1 - Pilatos

Pôncio Pilatos assumiu o governo da Judéia no ano 26 d.C. Nomeado por Tibério, sua administração foi tumul­tuada e cheia de agitações. O historiador e filósofo hebreu, Filo, escreve sobre o quinto governador romano da terra de Judá, taxando-o de rígido, teimosamente severo, de dispo­sição pronta a despeitar os outros; era excessivamente iracundo. O mesmo cronista fala, ainda, dos subornos, atos de orguho e violência, ultrajes, brutalidades e assassinatos cometidos por essa autoridade romana.

Pertencente à ordem eqüestre ou à classe média supe­rior romana, Pilatos dispunha de amplos poderes na Judéia. Tendo à sua disposição formidável aparato militar, tinha autoridade para prender, executar e suspender qual­quer pena capital. Sob a sua custódia, ficavam as vestes sacerdotais. Ele só as entregava ao sumo sacerdote, por ocasião dos festivais judaicos.

Inescrupuloso, provocou a ira dos judeus, certa oca­sião, ao trazer a Jerusalém, pendões com a figura do impe­rador romano. Os israelitas, não suportando tamanha ido­latria, começaram a gritar e a protestar, até que as ima­gens foram retiradas. Mostrando-se lerdo para aprender os costumes judaicos, de outra feita, confiscou dinheiro do templo para construir um aqueduto em Jerusalém. Os pro­testos gerados por esse arbítrio foram também violentos, contribuindo para desequilibrar sua administração.

Sua perversidade, contudo, escondia um caráter fraco e uma vontade débil. Ele estava mais interessado em agra­dar ao imperador, do que a lutar por princípios justos e ideais verdadeiros. Haja vista, por exemplo, quão ambíguo foi seu comportamento quando do julgamento de Jesus Cristo. Procurando adular seu soberano e os líderes judai­cos, consentiu, judicialmente, a morte do Salvador da hu­manidade.

Depois de muitas desventuras, Pilatos foi forçado a suicidar-se pelo imperador Gaio. No inferno, segundo uma lenda, está a lavar suas mãos continuamente, mas, não consegue livrar-se das manchas carmesins do sangue do Cordeiro de Deus.


2 - Tito

Ao rejeitar o seu Cristo, os judeus disseram: "Caia sobre nós o seu sangue, e sobre nossos filhos!" (Mt 27.25.) Essas duras e irresponsáveis palavras foram pronunciadas ante Pôncio Pilatos que pretendia indultar alguém por ocasião da Páscoa. Ao pedir que escolhessem entre Jesus e

Barrabás. eles não titubearam. Com os seus corações cheios de ódio, optaram por um salteador e entregaram o bondoso -Jesus à morte.

Com essa insana escolha, os filhos de Abraão começa­vam a escrever um dos mais tristes e funestos capítulos de sua atribulada história. O sangue do Nazareno começaria a cair-lhes sobre a cabeça a partir do ano 70 d.C, com a destruição de Jerusalém e do Templo pelos romanos.

Nessa época, o Cristianismo já havia alcançado os mais longínquos rincões do Império Romano. A religião do Nazareno, inclusive, já havia conquistado considerável terreno na luxuriante e orgulhosa Roma.

Na Judéia, enquanto isso, os israelitas foram obriga­dos a suportar toda a sorte de arbitrariedade das autorida­des romanas. O governador Gesius Florus, por exemplo, assumiu o poder com o espírito eivado de preconceitos con­tra os judeus. O carrasco, como era conhecido, quebrantou as leis mosaicas e desrespeitou, acintosa e publicamente, as mais caras tradições do povo de Israel. Para esse procu­rador, os hebreus não passavam de um bando de fanáticos e desequilibrados.

Em Cesaréia, os gregos, vendo a forma como Florus tratava os judeus, começou a persegui-los com redobrado fervor. A vida da comunidade judaica, nessa cidade, trans­formou-se num inferno. Os israelitas nem mesmo podiam adorar a Deus. Em frente às sinagogas, os helenos promo­viam grandes tumultos, impedindo a realização dos ofícios religiosos.

Uma delegação judaica foi enviada a Gesius Florus para pedir-lhe proteção. O governador romano, no entan­to, ordenou a matança dos representantes judeus.

A notícia da aflição dos israelitas de Cesaréia chegou a Jerusalém e causou profunda comoção. Os zelotes entra­ram em ação e iniciaram uma guerra de guerrilhas contra as forças romanas. Deteriorou-se a situação quando Florus exigiu 17 talentos de ouro que se encontravam no Templo.

A partir daí, alastrou-se o conflito romano-judaico.

O governador da Síria, Céstius Gallus, viajou a Jeru­salém para investigar as causas do levante. Sua presença, no entanto, provocou profundo mal-estar, por incorporar a 80 imagem da opressora Roma. Embora estivesse acolitado por poderoso exército, foi ele obrigado a deixar a cidade. Após sofrer vergonhosa e fragorosa derrota, refugiou-se no território sírio.

Os nacionalistas judeus, entusiasmados com essa vi­tória, preparam-se para novos combates. Inicialmente, apenas os pobres compunham os quadros da resistência. Com os primeiros sucessos, porém, os ricos e nobres passa­ram, com o mesmo ímpeto, a atacar os exércitos romanos. O historiador Flávio Josefo, de origem aristocrática, en­contrava-se entre os combatentes judeus.

Nero foi notificado do levante na Judéia, quando se encontrava na Grécia assistindo aos jogos olímpicos e par­ticipando de alegres festas. Para sufocar a rebelião, enviou à Palestina um de seus mais competentes militares. Estra­tegista de primeira grandeza, o general Vespasiano começa a tomar cidade após cidade dos revoltosos. Quando prepa­rava-se para sitiar Jerusalém, foi chamado às pressas à ca­pital do império. Com a morte do desvairado Nero, foi ele aclamado imperador.

A tarefa de sitiar e tomar a Cidade Santa é entregue, então, ao filho de Vespasiano. Com a mesma determinação do pai, o general Tito lança-se sobre Jerusalém, no ano 70 d.C.

O historiador israelita, Simon Dubnow, narra-nos, com vivas cores, como a mais amada das cidades judaicas foi destruída:

"...a fome se alastrava cada vez mais por Jerusalém; os cereais armazenados já se haviam esgotado há muito tempo; os ricos entregavam suas propriedades e os pobres seus últimos pertences em troca de um pedaço de pão. His­tórias terríveis se gravaram na memória do povo a respeito dos acontecimentos daqueles dias. Martha, a abastada viúva do sumo sacerdote Jesus Ben Gamaliel, em cuja pas­sagem, quando se dirigia ao Templo, se estendiam, outrora, preciosos tapetes, se via agora na contingência de ali­viar sua fome com restos recolhidos nas ruas; outra mulher rica, levada pela fome, degolou o próprio filhinho para co­mê-lo. As ruas estavam repletas de cadáveres e de gente desfalecida, e não havia tempo para enterrar os mortos. Os cadáveres espalhados por toda a parte empestavam o ar. A fome, a epidemia e as setas do inimigo provocaram a ruína nas fileiras dos defensores; mas os que ainda resistiam não perdiam as esperanças. Este heroísmo e pertinácia do povo assombrou até os heróicos romanos. Finalmente, eles diri­giram suas máquinas de assédio contra as fortificações do Templo. Quando os romanos tomaram a Torre Antônia, descobriram repentinamente espessas muralhas que cir­cundavam o Templo, e, como fosse impossível derrubá-las, Tito ordenou que se incendiassem os portões exteriores, dos quais partia uma série de colunas que chegavam até o próprio Templo; os guerreiros judeus lutaram como leões, e cada passo para o Templo custava ao inimigo rios de san­gue.

"De repente, um soldado romano agarrou um lenho ar­dente e lançou-o ao interior do Templo, através de uma ja­nela. As portas de madeira das salas do Templo se infla­maram e logo todo o Templo se achava envolto em cha­mas. Tito, que se dirigiu imediatamente para o lugar atin­gido, proferiu aos soldados, em altas vozes, a ordem de su­focar o incêndio e salvar o esplêndido edifício. Mas devido ao estrépido ensurdecedor das construções que caíam, aos gritos desesperados dos sitiados e ao ruído das armas, tor­nou-se impossível perceber a voz do chefe. Os enfurecidos romanos lançaram-se sobre as câmaras não afetadas ainda pelo fogo, com o fim de roubar os tesouros ali acumulados, mas somente puderam penetrar pisando os cadáveres dos guerreiros judeus, que lhes opunham uma grande resistên­cia no meio das labaredas. Então, os vencedores deram li­vre expansão à sua cólera. Velhos, mulheres e crianças fo­ram assassinados sem compaixão; muitos hebreus encon­traram a morte nas chamas, às quais se precipitaram va­lentemente. O Templo, orgulho da Judéia, transformou-se em um monte de escombros, sendo destruído na mesma data (nove e dez de Aw) em que fora destroçado antiga­mente o primeiro templo por Nabucodonosor. Dos objetos contidos no Templo, só permaneceram intatos o cande­labro, a mesa sagrada e um rolo da Tora. Tito ordenou le­vá-los e conservá-los como lembrança de seu triunfo. "Com a ruína de Jerusalém, desmembrou-se por completo o Estado Judeu. Esta luta tão singular na história, luta entre um Estado minúsculo e o Império mais poderoso do mundo, absorveu uma infinidade de vítimas e cerca de um milhão de judeus pereceu na guerra com os romanos (66-70) e uns cem mil foram feitos prisioneiros. Desses ca­tivos, alguns foram mortos, outros enviados a trabalhos forçados ou vendidos como escravos nos mercados da Ásia e África; mas os mais fortes e belos ficaram para lutar com feras nos circos romanos e acompanhar Tito em sua solene entrada em Roma. Sempre que Tito celebrava o aniversá­rio de seu pai e de seu irmão, organizava jogos militares e lutas de gladiadores, nos quais se arrojavam muitos judeus às feras do circo, para que os destroçassem, divertindo o público."

Para comemorar a sua vitória, o imperador Vespasiano ordenou a cunhagem de moedas especiais que traziam uma mulher acorrentada e a seguinte expressão: "Judéia cativa, Judéia vencida."

Poucos anos após a queda de Jerusalém, judeus e ro­manos voltariam a enfrentar-se. O renhido combate foi travado em Massada. Mostrando mais uma vez sua audá­cia e coragem, a resistência judaica preferiu autodestruir-se, a entregar-se ao opressor romano. A partir de então, toda a Judéia passou a pertencer aos imperadores roma­nos, que passaram a doar seus lotes ou vendê-los.


V - O IMPÉRIO ROMANO E OS CRISTÃOS

O judaísmo era tolerado no Império Romano, por não possuir caráter proselitista. A religião judaica limitava-se aos judeus. Raros eram os prosélitos. Os rabinos não ti­nham espírito apostólico. Ás autoridades de Roma, por isso mesmo, permitiam o funcionamento de sinagogas e es­colas hebraicas. A situação, contudo, foi substancialmente alterada com a guerra na Judéia em 70 d.C.

Em conseqüência de seu espírito missionário, o Cris­tianismo, desde o seu nascedouro, foi duramente persegui­do. As autoridades romanas viam-no como uma perigosíssima ameaça. E, de fato, a religião do Nazareno visava e visa a conquista espiritual do mundo. Antes de sua ascen­são, ordenara Jesus aos seus apóstolos: "Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípu­los de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" (Mt 28.18-20).

E, nos momentos que antecederam sua subida aos céus, o Ressuscitado fez esta recomendação aos seus após­tolos: "Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da ter­ra" (At 1.8). A partir desse momento, desse glorioso e me­morável momento, tem início uma luta mortal entre o Rei­no de Deus (a Igreja) e o principado das trevas (o Império Romano).

Os imperadores movem cruentas e impiedosas perse­guições contra os cristãos. Nada, porém, consegue barrar o magistral progresso da Igreja. O número de servos de Deus aumenta dia após dia. Esse avanço, contudo, custa um alto preço: o sangue dos santos.

Hegesipo, escritor do Século II, narra-nos como o per­verso e anormal Nero tratou os cristãos, acusados, por ele, de terem incendiado Roma: "Alguns foram vestidos com peles de animais ferozes, e perseguidos pelos cães até se­rem mortos, outros foram crucificados; outros envolvidos em panos alcatroados, e depois incendiados ao pôr-do-sol, para que pudessem servir de luzes para iluminar a cidade durante a noite. Nero cedia os seus próprios jardins para essas execuções e apresentava, ao mesmo tempo, alguns jogos de circo, presenciando toda a cena vestido de carrei­ro, indo umas vezes a pé no meio da multidão, outras ven­do o espetáculo do seu carro".

Sob o governo de Nero, que mandou incendiar a capi­tal de seu império e, covardemente, culpou os cristãos, pe­receram, ainda, os apóstolos Pedro e Paulo. Os seguidores de Cristo foram perseguidos pelo Império Romano por qua­se 300 anos. A situação só se amainou com a ascensão de Constantino, o (Irande. Não falaremos mais detalhada­mente acerca dos sofrimentos desses heróicos homens, mu­lheres e crianças, por absoluta falta de espaço. O sangue desses santos, entretanto, continua a clamar no tempo e clamará na eternidade.


VI - O FIM DO IMPÉRIO ROMANO

Depois de séculos de sanguinolência e devassidão, permissividade e térrea tirania, chega ao fim o "inexpugná­vel" Império Romano. A imoralidade e a inebriante luxa­ria tiraram do povo romano sua fibra e coragem. Enquanto isso, os inimigos de Roma fortaleciam-se e preparavam-se para deitá-la por terra.

Em 476 d.C, os bárbaros invadiram Roma. Desapare­ceu, assim, o mais extenso e poderoso reino humano! No entanto, segundo profetizou Daniel, esse império ressurgi­rá com grande poder. Sua duração, porém, será curta. 0 Rei dos reis e Senhor dos senhores encarregar-se-á de des­truí-lo.

ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Geografia Bíblica, Rio de Janeiro : CPAD, 1987.