25 de julho de 2015

R. K. HARRISON - A Terra Prometida e a Nação

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A Terra Prometida e a Nação 


CRONOLOGIA DESTE CAPÍTULO 

Início da Idade do Ferro  ...... 1200 - 970 a.C. 
Davi .......................................1011/10 - 971/70 a.C. 


O TERRITÓRIO QUE OS VITORIOSOS ISRAELITAS IRIAM OCUPAR JÁ 

havia sido habitado há muitos séculos, como resultado das incursões periódicas feitas pe­los povos semíticos do norte da Mesopotamia. Mesmo antes do início do terceiro milênio a.C., a localização de Jebus (mais tarde Jerusalém), Gebal, Gezer e Bete-Seã jã havia sido estabelecida e, no segundo milênio, o país havia sido ocupado pelos amorreus, heteus (ou hititas), horeus e por alguns grupos semíticos menores. Os habitantes se referiam ao seu país como Canaã, ou Kinakhna, como era chamada nas tábuas de Amarna, e esta era a designação mais antiga da Palestina, um nome pelo qual a terra se tornou conhe­cida depois da ocupação dos filisteus no século XII a.C. O nome Canaã, que aparece nos textos bíblicos e egípcios era, provavelmente, de origem hurriana, e pode ter significado “terra da púrpura”, uma alusão ao uso dos moluscos “murex” na indústria de corantes da Fenícia. As fronteiras da Canaã, sugeridas em Gênesis 10.19, incluíam todo o território que se encontra a oeste do Jordão, entre Gaza e Sidom, embora as cartas de Amarna se referissem a Canaã primeiramente em termos da costa Fenícia. 

Características Geográficas 

As características geográficas da terra estavam de acordo com um padrão irregu­lar de quatro faixas paralelas, limitadas pelo mar Mediterrâneo e o Deserto da Arábia. Essa divisão foi causada pela presença de duas cadeias de montanhas, uma das quais se estendia desde as Montanhas do Líbano, ao longo da margem ocidental do vale do Jor­dão, até o lado oriental do mar Morto, e continuava até o monte Hor, em Edom. Dessa forma, essas seções paralelas formavam a faixa costeira chamada Planície Marítima. A cadeia central de montanhas se estendia em direção ao sul, desde as Montanhas do Lí­bano, o vale do Jordão e o Planalto da Palestina oriental, e continuava até o lado ociden­tal desde o Monte Hermom até o Monte Hor. Ao norte do Monte Carmelo, a planície costeira se estreitava consideravelmente, mas ao sul ela se alargava gradualmente até Gaza e se estendia até cerca de vinte e cinco quilômetros em direção ao interior. Mais ao sul, encontra-se o árido distrito do Neguebe, uma área de cerca de 920 quilômetros quadrados de extensão. Antes da conquista israelita havia várias cidades importantes localizadas ao longo da rota comercial costeira, mas a maioria das cidades habitadas se encontrava no montanhoso distrito central. 

Essa era uma área irregular, cortada por vales ou wadis. Estava coberta por florestas, por­tanto seu valor para a finalidade agrícola era limitado, e só servia como pastagem para as ma­nadas e os rebanhos. Por volta do século XIII a.C, as terras altas a leste do Jordão eram aparen­temente bem populosas e era nessa região que podiam ser encontrados os poderosos reinos de Basã, Amom, Moabe e Edom. Nessa época, as terras a oeste do Jordão foram colonizadas desde Berseba até Laís (Dã), numa distância de duzentos e quarenta quilômetros. Os cananeus mostravam uma acentuada preferência pelas terras baixas e evitavam sempre que possível os distritos montanhosos que nessa época já eram esparsamente habitados. 

As Cidades-Estado de Canaã 

Como, na antiguidade, a posição ocupada pela Palestina fazia uma ponte terrestre entre a Asia, África e Europa, estava, por isso, sujeita a um contínuo movimento de po­vos. Seus parcos recursos naturais contrastavam desfavoravelmente com a fertilidade do vale do Nilo, ou da planície da Babilônia, no entanto, gozava de uma importância tática que nenhuma outra terra do Oriente Próximo possuía. Durante muitos séculos, os grandes impérios usaram a terra de Canaã como se fosse um estado tampão para se protegerem contra as ambições militares dos seus agressores, ou como uma cobiçada base avançada a partir da qual poderiam iniciar um programa de expansão imperial. 

Dessa forma, a Palestina desempenhava um importante papel ao preservar o equilí­brio de poder no Oriente Próximo, e é difícil superestimar o valor estratégico que cabia àquela acidentada terra e àquele território muitas vezes inóspito. 

Parece que a mistura de amorreus, heteus, jebuseus e de outros povos, que haviam entrado na terra de Canaã durante a primeira parte do segundo milênio, tornou-se mais pronunciada por volta de 1600 a.C. Nesta época a maioria dos imi­grantes havia consolidado suas colônias no país e estava começando a tirar vanta­gem da maneira como o reino Mitani controlava o equilíbrio do poder no Oriente Próximo, por volta de 1550 a.C., a fim de se assegurar como povo independente. Até certo ponto, isto era encorajado pela administração egípcia da Palestina, depois da expulsão dos hicsos, pois administradores nativos receberam permissão de organi­zar a economia das suas cidades-estado segundo uma orientação feudal. As inces­santes disputas, que tiveram lugar entre esses insignificantes reinos, eram toleradas pelos egípcios desde que impedissem o surgimento de poderosas coalizões cananitas e permitissem um contínuo fluxo de impostos ao tesouro Egípcio. 

A cultura das cidades-estado pode ser traçada até o terceiro milênio e, por causa da estratégica posição da Palestina, foi capaz de exercer considerável influ­ência sobre as demais nações do Oriente Próximo durante sucessivos séculos. A partir do quarto século a.C., uma crescente influência semítica passou a se refletir na vida religiosa do Egito, e, como resultado, a adoração aos deuses cananeus Baal, Anate e Astarote tornou-se muito popular. Esses deuses se identificavam com as divindades egípcias Set, Neftis e Isis e eram adorados na capital Avaris-Tânis du­rante a Décima Nona Dinastia. Muitas vezes funcionários egípcios ostentavam nomes com distinta característica semita e um dos comissários egípcios na Pales­tina, durante o período Amaina, era um homem chamado Yanhamu, cujo nome pode ter lecebido uma herança semítica. 

Podemos reconhecer a natureza cosmopolita de Canaã pelo fato de terem sido empregadas, durante o período Amarna, quatro escritas distintas nas anotações dos cananeus, além do estilo acádio e egípcio, conforme já observado. Neste pe­ríodo a influência da terminologia semítica foi considerável, e documentos egíp­cios do décimo terceiro século a.C. continham um grande número de palavras semitas. Embora seja verdade que as tábuas de Amarna forneceram importantes informações sobre a língua de Canaã, que variava apenas ligeiramente em relação ao dialeto semítico dos hebreus, a descoberta de tábuas de argila e de outros ar­tefatos em Ras Shamra, colocou a idade Amarna de Canaã sob uma perspectiva inteiramente nova. 

Ras Shamra (Ugarite) 

No segundo milênio a.C., a cidade de Ras Shamra era conhecida como Uga­rite e, pelo fato de estar localizada na costa norte da Síria, havia se tornado um florescente centro comercial e cultural. Depois de sua destruição pelos filisteus, por volta de 1200 a.C., ela desapareceu das páginas da história até a descoberta das cartas de Amarna em 1887. Mas foi somente quando Schaeflfer desenterrou algumas tábuas em Ras Sbamra, em 1929, que a importância deste lugar se tornou aparente. As tábuas encontradas tinham inscrições cuneiformes de vários tipos e, de acordo com o costume acádio da Mesopotâmia, os escritos eram feitos da esquerda para a direita. Centenas dessas tábuas foram escavadas depois de 1929 e aquelas que continham a então desconhecida língua ugarítica foram trabalho­samente decifradas. Acredita-se que o dialeto ugarítico, assim como o hebraico, aramaico e outros dialetos cananeus pertenciam ao ramo noroeste do grupo de linguagem semítica. As tábuas tinham a data da primeira terça parte do décimo quarto século a.C., embora tenha sido reconhecido que a escrita empregada exibia uma data um pouco anterior àquele período. 

A escrita cuneiforme, encontrada nas tábuas ugaríticas, tem a sua importância pelo fato de exibir uma natureza alfabética e não silábica. Aos antigos egípcios tem sido geralmente atribuída a introdução da escrita alfabética, mas na prática eles a combi­navam com um sistema silábico de escrita (onde cada sinal representava uma sílaba) e logográfico (onde cada sinal representava uma palavra), para produzir a complicada escrita dos hieróglifos, que se tornou muito conhecida desde a antiguidade. Parece que os cananeus foram os primeiros a empregar o princípio de um alfabeto sob a forma cuneiforme. Através dos hebreus e dos fenícios, ele foi transmitido aos gregos que o modificaram e lhe deram as características da forma clássica. Talvez a necessidade de responder às demandas do comércio internacional tenha levado à adoção de uma nova variedade de escrita cuneifcrme em Ugarite, pois certamente ela era mais conveniente ao uso do comércio que a incômoda escrita da Mesopotâmia. 

Quando o sítio arqueológico de Ugarite estava sendo escavado, veio à luz parte dos escritos da livraria real, contendo várias centenas de tábuas de argila, algumas das quais estavam escritas no antigo dialeto cananeu que antecedeu a era de Moi­sés. Não seria exagero afirmar que essas tábuas, escritas numa linguagem semítica desconhecida na antiguidade, e transcrita numa estranha forma cuneiforme, re­presentaram a descoberta mais importante no campo da antiga literatura duran­te o presente século. Seus textos incluíam poesia e prosa, sendo que o primeiro grupo era formado por ciclos mitológicos e lendas que tratavam de deuses e de homens, enquanto as composições em forma de prosa tratavam de tópicos tão amplamente divergentes como a propriedade da terra, os impostos, o serviço mi­litar obrigatório e a prática veterinária. 

As Poesias Ugarítica e Hebraica 

A maior parte das composições literárias exibia uma característica forma po­ética de particular importância por conter um grande número de semelhanças com a gramática, o estilo e o uso verbal da poesia hebraica. Esse seria, em especial, o caso dos primeiros poemas do Antigo Testamento cuja semelhança de estilo e de vocabulário, entre o formato dos seus versos e os da literatura ugarítica, é mais surpreendente. Como resultado, tornou-se evidente agora que as aparentes anomalias textuais, consideradas pela crítica dos estudiosos como presentes nos Salmos e outras composições poéticas hebraicas, não correspondem a uma verda­deira corrupção do texto hebraico. Ao contrário, em sua grande maioria, eles são interpretados como precisas reflexões das peculiaridades da gramática e da forma de talar dos cananeus, cujo significado havia sido perdido no decorrer do tempo. Assim sendo, as retificações textuais feitas por Kittel e outros estão exigindo uma drástica revisão à luz das evidências apresentadas pelos textos de Ras Shamra. 

Uma característica familiar da poesia hebraica consiste no paralelismo de um padrão repetitivo, como está mostrado no Salmo 92.9: 

Pois eis que os teus inimigos, Senhor, 

Eis que os teus inimigos perecerão; 

Serão dispersos todos os que praticam a iniquidade. 

Cuja semelhança com um verso do Épico de Baal e Anat (68.5 e seguintes) pode ser observada: 

Eis que os teus inimigos, ó Baal, 

Eis que os teus inimigos irás derrotar. 

Eis que irás conquistar os teus adversários. 

Esse é um padrão característico, repetido frequentemente e com algumas va­riações, nas poesias hebraica e ugarítica. 

Uma comparação feita entre as duas tradições literárias indica que, do ponto de vista linguístico, gramatical e sintático, o dialeto cananeu de Ugarite está inti­mamente relacionado com o hebraico do Livro dos Salmos, do qual Davi é o autor da maioria deles. Formas arcaicas dos Salmos têm sua contrapartida nos mitos pagãos de Ras Shamra, enquanto semelhantes combinações de palavras, organi­zadas em termos das mesmas forças poéticas, também podem ser encontradas tanto nas composições hebraicas como nas ugaríticas. Em seu todo, entretanto, existe uma espontaneidade mais evidente ligada à poesia hebraica, e uma ênfase menor nas considerações puramente estilísticas que podem ser encontradas nos mitos de Ugarite. 

Em vista da abundância de semelhanças existentes entre a poesia ugarítica e a poesia hebraica, e também da notável semelhança na linguagem e nas for­mas de pensamento, torna-se evidente que os cananeus e os hebreus tiraram sua inspiração, cada um de uma forma um pouco diferente, da mesma variedade de expressão linguística e idiomática. Embora a teologia dos escritos hebraicos seja totalmente diferente, no sentido de ser declaradamente monoteísta, existe muitas vezes um notável grau de semelhança entre as descrições de Jeová e aquelas dos deuses ugaríticos. Da forma que o Senhor é mencionado em textos dos Salmos, como estando ‘‘cavalgando sobre as nuvens'’ (cf. Salmos 68,4; 104,3, versão ARA), assentado num trono no céu (cf. Salmos 2.4; 103.19), e enviando raios e trovões (cf. Salmos 18.13; 77,18; 144.6), Baal é também assim comparado em textos pagãos. 

Essa comunhão de interesses literários deu origem a um critério novo e inde­pendente para classificar a data do primeiro material poético da Bíblia hebraica. Um exemplo disso pode ser encontrado no cântico de Moisés e Miríã (Exodo 15) o qual, até recentemente, havia sido datado pela crítica dos estudiosos como pertencente ao período subsequente à construção do primeiro Templo por causa da referência feita ao “monte da tua herança' (v. 17) que foi interpretado como sendo o Monte Sião. Mas a descoberta da frase “o monte da minha herança” (‘nt III.25 e seguintes), feita no Épico de Baal cananeu, usada como referência ao remoto lar de Baal ao norte, mostra que essa descrição era mais poética que topográfica, eliminando assim o obstáculo a uma data dentro do período de Moisés, ao qual ela apropriadamente pertence. Uma data anterior também deve ser atribuída a outras manifestações poéticas como os oráculos de Balaão (Nm 22—24), a bênção de Jacó (Gn 49), e a oração final de Moisés (Dt 33). 

Entretanto, é significativa a divergência que existe entre o texto hebraico e o mito pagão, pois o salmista afirma fluentemente a superioridade do Deus de Israel, e se alegra com a destruição dos monstros e dos seus supostos poderes mágicos. 

Entretanto, são poucas as tais alusões às lendas pagãs e elas nada representam além de um exercício do imaginário com o fim de intensificar o efeito poético ge­ral. Esse artifício tem um óbvio valor estilístico e foi apreciado, entre outros, por Milton que incorporou muitas alusões feitas à mitologia pagã às suas composições literárias. Deve-se notar, entretanto, que as referências feitas aos mitos pagãos e aos objetos de culto na literatura poética hebraica são, de forma geral, de tipo in­jurioso, em consonância com o monoteísmo ético dos escritores. 

A Religião dos Cananeus 

Como mostram os mitos de Ugarite, a religião dos povos cananeus adotava uma forma grosseira e aviltante de ritual politeísta. Estava associada a uma sen­sual adoração da fertilidade, além de uma particular espécie de orgia e lascívia, tendo se mostrado mais influente que qualquer outra religião natural do Oriente Próximo. A principal divindade reconhecida pelos cananeus tinha o nome de El, a quem creditavam a liderança do panteão. Era uma figura um pouco obscura, adorada como “pai do homem" e “pai dos anos’. Uma estela desenterrada em Ras Shamra mostra-o sentado num trono, com uma mão levantada em sinal de bên­ção, enquanto o governante de Ugarite lhe oferecia um presente. Sua consorte era Aserate, conselheira dos deuses e conhecida pelos israelitas como Aserá. 

Seu filho era Baal, o deus da fertilidade, conhecido às vezes como Haddu(Hada- de), deus da chuva e da tempestade. Ele sucedeu a El como rei do panteão cananeu e, segundo a mitologia, viveu nas elevadas regiões montanhosas nos céus remotos situados ao norte. Foi retratado numa estela da antiga Ugarite desempenhando seu papel de rei da tempestade. Nela ele aparece de pé, segurando um cetro na mão direita erguida, com o desenho de um raio no seu lado esquerdo. Seus títulos in­cluíam o epíteto de Zabul (Senhor da terra) e Alyin (Aquele que prevalece), sendo que esse último é proeminente na literatura poética ugarítica. O tema do ciclo de Baal e Anat é sua luta contra Mot, a divindade do infortúnio que havia desafiado o reino de Baal (Texto 51:VII). Baal era descendente do reino do inferno de Mot e ali foi assassinado. Sua morte foi seguida por um ciclo de sete anos de absoluta escassez de alimentos, Anat, consorte de Baal, vingou-se matando Mot e sepultando o seu cor­po na terra. Então, Alyin Baal se recuperou e seguiu-se um período de sete anos de prosperidade, que depois foi novamente seguido pelo ressurgimento de Mot. Esse ritual lembra muito o misterioso culto egípcio a Isis e Osíris, embora a natureza de Baal fosse interpretada de uma forma um pouco diferente pelos cananeus. Para eles, Baal era essencialmente um deus da fertilidade, embora não fosse indispensável nos rituais da fertilidade, e não parece ter sido uma divindade sazonal, como se pensou a princípio. 

É importante entender que as opiniões críticas da escola de Wellhausen, relacionadas com a natureza evolucionista da religião dos cananeus, sofreram uma drástica modifica­ção resultante de um cuidadoso estudo do épico de Baal e de outras literaturas ugaríticas. Não se deve mais acreditar que Baal fosse um espírito associado a qualquer localidade em particular e que desenvolvia as funções de uma divindade da vida vegetal. Nem deve o tí­tulo de Baal ser entendido como um nome genérico cobrindo um exército de divindades locais, cada uma delas exercendo jurisdição sobre uma limitada extensão de território. Ao contrário, Baal deve receber agora o “status” de um “deus elevado”, uma divindade cósmica, reconhecida como chefe de um panteão, e adorado em várias comunidades sob seu próprio nome ou como Hadade, o rei da tempestade. 

A depravada natureza da religião dos cananeus pode ser entendida através do cará­ter de Anat, a irmã-esposa de Baal, identificada por vários nomes nos rituais religiosos como Astarte, Aserá e Astarote. Um texto egípcio do período do Novo Reino descreveu Anat e Astarte como “as grandes deusas que concebem, mas não procriam”. Os cana­neus, evidentemente, consideravam suas deusas da fertilidade como uma combinação de virgens com procriadoras da vida e mencionavam Anat, no seu papel de prostituta sagrada, como “qudshu”, ou “a santa”. De certa forma, este termo está relacionado com o termo bíblico para “santo”, mas é importante entender que, entre os povos semíticos, o conceito de “santidade” era aplicado a qualquer coisa que tivesse sido dedicada ao ser­viço de uma divindade. Como havia uma total ausência da conotação moral hebraica no uso contemporâneo dos semitas, não se pode falar que o termo “qudshu tenha sido aplicado com um “sentido moral pervertido”, como diz Unger. 

Objetos religiosos, como os lírios (representando a atração sexual) e as ser­pentes (simbolizando a fertilidade) estavam associados à sensual religião de Anat e ornamentos recuperados em Ras Shamra retratam sua nudez e fecundidade. 

Foi escavado em Gebal (Bíblos) um centro dedicado ao culto de Anat, um sítio muito importante da antiga Fenícia, que era notório pelos seus ritos da fertilidade e pela cerimônia da prostituição. Imagens de Astarte, feitas em terracota, foram recuperadas num grande número de lugares através da Palestina e representam, invariavelmente, uma mulher nua com características sexuais exageradas. Isso contrasta grandemente com a aparência das deusas egípcias do período do Novo Reino que estavam sempre decentemente vestidas. 

Uma outra característica igualmente depravada do culto a Anat era a diabóli­ca selvageria dessa complexa deusa. Um fragmento do Épico de Baal (11:7 e textos seguintes) mostra sua tolerância a um massacre tanto de jovens como de velhos: 

Ela mata as pessoas do litoral 

Destrói a humanidade ao nascer do sol... 

Eia empilha as cabeças nas suas costas 

marra mãos na sua trouxa... 

Anati sacia seu fígado com gargalhadas 

E seu coração está cheio de alegria. 


Os textos egípcios representavam Astarte e Anat como deusas da violência e da guerra, elas eram representadas nuas, montadas num cavalo galopando, e brandindo armas de batalha 

Estavam associados ao culto de Aserá um grande número de objetos religio­sos, ou símbolos onde, segundo criam, ela morava. Parece que os mais importan­tes deles eram os objetos de madeira, com a imagem da própria deusa, erguidos ao lado dos altares de incenso e dos pilares em forma de cone dos santuários cananeus. Qualquer que fosse a natureza do símbolo, era considerado com repug­nância pelos fiéis israelitas e estava sujeito a ser derrubado e queimado. O nome hebraico Aserá’' é geralmente traduzido como "bosque” na versão Kmg James em inglês, seguindo a tradição das versões grega e latina que relacionavam o objeto religioso ao lugar onde era cultuado. 

Fica evidente, através dessa breve pesquisa da religião dos cananeus, que a sua natureza sórdida e degradante se colocava em marcante contraste com os eleva­dos conceitos éticos de Israel. A absoluta falta de caráter moral dessas divindades transformava tais práticas corruptas - como o ritual da prostituição, o sacrifício de crianças e seu culto licencioso — numa expressão normal de devoção religiosa. Por conseguinte, não pode haver nenhuma acomodação entre a moralidade do Deus de Israel e a sensualidade depravada da religião dos cananeus. 

Os documentos em prosa, recuperados da antiga Ugarite, deram aos estudio­sos, condição de construírem um quadro muito claro da vida social na Fenícia e em Canaã, em geral, durante o décimo quarto século a.C. O rei era o chefe da comunidade, organizada de acordo com aspectos teocráticos. Os sacerdotes de­sempenhavam um papel importante no controle da vida social e, acompanhando o costume da Mesopotâmia, também estendiam sua influência à esfera militar. Os comandantes dos exércitos eram convocados nas classes superiores de Ugarite e, como na aristocracia egípcia do período do Novo Reino, eles colocavam grande ênfase nas bigas como arma de guerra. 

Embora a organização tribal ainda pudesse ser encontrada com bastante fre­quência em Ugarite, ela estava sendo gradualmente substituída pelo conceito de uma comunidade urbana e provincial. As pessoas não eram mais consideradas como membros de tribos, mas reconhecidas como cidadãos de uma cidade ou província em particular. Surgiram corporações de artesãos que trabalhavam com várias artes e ofícios, demonstrando um avançado estágio de organização social. 

A vida das antigas famílias cananitas era caracterizada pelos conceitos patriar­cais de Mari e Nuzu. Um homem podia possuir uma ou mais esposas e os filhos recebiam seus direitos de herança em troca de uma satisfatória performance nos deveres domésticos. Assim como em toda parte, a escravidão era comum em Uga­rite e os lares abastados empregavam grande número de servos e de servas que, segundo parece, gozavam de uma Liberdade mais restrita que seus companheiros da Mesopotâmia. Num país onde era habitual o emprego de diferentes línguas, a educação estava limitada às classes superiores e as complexidades da leitura e da escrita eram geralmente deixadas por conta dos escribas especialmente treinados para essas tarefas. 

Por ser uma cidade portuária, Ugarite praticava um florescente comércio de cobre com Chipre, enquanto a descoberta de um machado de ferro, datado de aproximadamente 1400 a.C., mostrou que as relações comerciais com o império hitita, que na época monopolizava a manufatura e a exportação de ferro, estavam bem estabilizadas. Os comerciantes fenícios também eram muito conhecidos pe­los faraós do vale do Nilo e desempenharam um importante papel na propagação da cultura minoana nas terras banhadas pelo mar Mediterrâneo. 

Ugarite e o Egeu 

Deixando de lado quaisquer outras considerações, as descobertas de Ras Shamra são de grande importância por terem acrescentado uma nova dimensão ao co­nhecimento das origens da cultura do Oriente Próximo e a sua propagação durante o segundo milênio a.C. Uma grande quantidade de evidências arqueológicas, colhi­das na região minoana indica que, até algum tempo depois de 1500 a,C„ a Grécia, Ugarite e Israel pertenciam todas à mesma esfera cultural, entre as quais o elemen­to mais significativo, no complexo conjunto de todos esses povos, era a Fenícia. Os textos de Ras Shamra deixaram claro que a antiga nação de Ugarite havia sido a herdeira de todas as grandes culturas que a precederam, desde a Suméria até o Egito, tendo mantido estreitas relações com outros povos como os hititas (ou heteus) e os hurrianos. Esses povos tinham uma grande importância no período micênico, mas desapareceram da história no caos de alguma sublevação internacional. 

Com base nessas afirmações, será claramente um erro presumir que Israel e Grécia representassem duas entidades culturais inteiramente distintas, levando em conta que os épicos de Ras Shamra fornecem indiscutíveis paralelos estruturais re­lacionando os hebreus do período anterior às profecias, aos gregos do período pré-fi­losófico. A tendência do desenvolvimento cultural da antiguidade deixa agora bem evidente que no segundo milênio a.C. gregos e hebreus haviam produzido, cada um desses povos, distintas contribuições clássicas as quais, com as conquistas de Alexan­dre, foram novamente inseridas à variedade helênica da cultura. 

Recentes escavações feitas em Creta lançaram uma interessante luz às raízes da cultura minoana, e revelam uma crescente tendência de associar suas origens à região do delta do Nilo. Parece provável, agora, que os antigos habitantes de Creta (os pré-minoanos) tivessem vindo do interior do continente e da Anatólia, e os próprios minoanos fossem originários de um clima mais ao sul porque fizeram poucas tentativas de introduzir o aquecimento central em suas casas e palácios. E muito provável que eles tenham vindo da região do delta do Nilo, levando-se em conta que a arqueologia de Creta produziu um grande número de artefatos importados do Egito, ou que a manufatura egípcia tenha sido imitada. Além disso, podemos identificar que se originaram do Baixo Egito pelo fato de a cronologia cretense estar ligada à história do Oriente Próximo através, principalmente, dos artesanatos egípcios encontrados nas escavações cretenses. Isso está, certamente, em harmonia com as tradições de Gênesis 10.13,14 que corretamente determina­ram a origem dos cretenses (chamados de “filisteus” e “caftorins”) como sendo proveniente do Egito, C. H. Gordon assinalou que ainda subsistem diferenças sig­nificativas entre a cultura do Egito e a cultura minoana cretense pelo fato de a clássica cultura egípcia ter sido produzida principalmente no Alto Egito, enquan­to o Baixo Egito era mais uma parte do mundo Mediterrâneo, onde muitos dos seus habitantes eram semitas, cujo caráter não era egípcio. Se essa análise da ori­gem da cultura minoana estiver correta, ela mostra que a área do Delta foi, num sentido verdadeiro, o berço da civilização ocidental. Dela vieram os minoanos que fundaram a primeira cultura avançada da Europa tendo, mais tarde, dado origem aos hebreus do período de Êxodo, que emigraram para a sua Terra Prometida. Des­sa forma, os precursores da cultura clássica grega e hebraica eram consanguíneos aos povos do Delta. 

Embora a antiga nação de Ugarite fosse próspera no campo econômico e, avançada em sua organização social, sua estrutura estava seriamente enfraquecida pela sexualidade desmoralízadora que fazia parte da adoração cananita a Baal. Foi essa mesma influência degenerada que conferiu aos israelitas invasores inúmeros problemas de uma natureza mais séria do que a conquista de cidades solidamente fortificadas, ou a ocupação de acidentados terrenos montanhosos. No final, o su­cesso da conquista israelita seria determinado pela forma como os invasores iriam lidar com a ameaça à moralidade, imposta pelas insidiosas crueldades da adoração religiosa do povo cananeu. 

Nem todos os perigos que espreitavam os israelitas na Terra Prometida, eram tão aparentes quando acamparam além do Jordão, Para eles, a principal dificulda­de estava em estabelecer uma base imediata em Canaã e, para alcançar esse obje­tivo, o primeiro passo foi dado quando o Jordão foi milagrosamente aberto para permitir a passagem dos israelitas. Tendo construído um marco de pedras para celebrar essa providência, os israelitas se dedicaram à tarefa de renovar o man­damento da circuncisão, depois da qual deram início a uma guerra psicológica contra os já apreensivos habitantes de Jericó. 

A Cidade de Jerico 

A Idade Média do Bronze havia testemunhado o desenvolvimento introdu­zido pelos hicsos nesse local extremamente antigo, fortificando-o através de um imenso dique defensivo. Quando se retiraram para Canaã, depois da sua expulsão do Egito, os hicsos ofereceram alguma resistência a partir de Jericó, mas logo fo­ram derrotados e sofreram a perda da sua fortaleza que foi incendiada. Garstang desenterrou partes dos salões do palácio, e também inúmeras casas datadas do fim do período Médio do Bronze, sendo que todos mostravam evidências indiscutíveis de terem sido destruídos pelo fogo. 

A cidade de Jericó foi reconstruída ao término da Idade do Bronze (em aproximadamente 1550 a,C.), embora numa escala consideravelmente menor que em uma época anterior. A cidade foi fortificada por meio de um muro duplo de tijolos de barro, sendo que a parede interior seguia a direção geral das fundações sobre as quais havia sido erguido o muro do início da Idade do Bronze. Nessa obra foram empregados ti­jolos de barro, secados ao sol que, ao lado do curso desigual dos muros, resultou na natureza irregular das fundações, e em um padrão inferior de construção. 

Essa era a “cidade D” que Garstand acreditava ser aquela conquistada por Jo­sué e seus seguidores. O muro exterior, originalmente com cerca de trinta pés de altura e seis pés de largura, havia sido quase que totalmente destruído e o muro interior, com aproximadamente a mesma altura, mas com doze a quinze pés de largura, havia sofrido um destino semelhante, que Garstand atribuiu a distúrbios sísmicos. A casa onde vivia Raabe estava, provavelmente, situada próxima à por­ta principal da cidade e pode ter sido construída sobre os dois muros defensivos. O entulho examinado por Garstand continha fragmentos de tijolo enegrecido, cinzas, cerâmica esfumaçada, madeira chamuscada e outras provas de destruição pelo fogo, um evento que segundo ele datava do século XIV a.C. 

Escavações iniciadas em 1951, sob a liderança da senhora Kathleen Kenyon, mos­traram a necessidade de se fazer alguma revisão no quadro apresentado por Garstand. Pouquíssimos indícios do período de Josué foram encontrados nessa área, e não foi encontrado, nas escavações, nenhum sinal dos muros do final da idade do Bronze, uma situação que está curiosamente em desacordo com a cuidadosa descri­ção daquilo que Garstand entendeu que seriam as fortificações feitas no final da Ida­de do Bronze. Embora recentes investigações tenham, sem sombra de dúvida, estabe­lecido a antiguidade desse sítio arqueológico, nesse momento será quase impossível lazer qualquer afirmação sobre a natureza dessa cidade fortificada conquistada por Josué, ou mesmo quanto à data em que o fato ocorreu. A partir daquilo que já co­nhecemos, entretanto, parece bastante possível que as forças israelitas marcharam sete vezes ao redor da cidade em um único dia (Js 6.4). 

A conquista de Jericó foi seguida pelo assassinato dos seus habitantes e a des­truição das suas propriedades, Embora isso tenha sido o resultado de uma ordem direta de Jeová, esse fato não é, de forma alguma, inconsistente com a moralidade Divina como alguns estudiosos já sugeriram,. Em primeiro lugar, a preservação de Raabe e da sua família foi caracteristicamente humanitária e constituiu uma apropriada recompensa aos espias que Josué tinha enviado para investigar as de­fesas da cidade. Em segundo lugar, a verdadeira questão era aquela da moralidade de Jeová contra os depravados rituais da religião cananita. Não havia nenhuma forma de acomodação entre as duas e se o rígido código ético de Israel precisava ser estabelecido permanentemente, seria inevitável a eliminação da orgíaca religião cananita. Nem poderia haver qualquer diminuição de esforços na resoluta posição contra a natureza dos rituais e os aviltantes cultos da fertilidade de Canaã sem que a integridade da religião hebraica fosse imediatamente afetada. Do ponto de vista cultural, a sociedade do Oriente Próximo sofreu poucas perdas quando a decadente civilização de Canaã caiu sob os golpes poderosos dos israelitas invaso­res. Se tivessem sido completamente exterminados, todo o sentido da sua história posterior poderia ter sido completamente distinto. 

A Conquista de Canaã 

Os relatos das campanhas militares em Canaã, registrados no livro de Josué, são evidentemente de uma natureza seletiva. Parece que as sequências foram de alguma forma, condensadas de modo a parecer: que a conquista tivesse sido com­pletada num espaço de tempo comparativamente curto. E bem possível que algu­mas campanhas realmente acontecidas não fossem incluídas no livro de Josué, já que o propósito do autor era mostrar que os israelitas tinham finalmente ocupado a terra prometida aos seus antepassados. 

A conquista se desenvolveu em tvês etapas distintas, a primeira delas envolveu a ocupação da Palestina oriental antes da queda de Jericó. A segunda fase consistiu na captura de Jericó e de Ai, na aliança com a cidade real de Gibeão, na derrota dos cinco reis que tinham se aliado para lutar contra Gibeão, e na conquista de um grupo de cidades cjue incluía Laquis e Hebrom. 

A fase final da ocupação levou as forças israelenses ao interior da Galiléia e ao norte da Palestina, onde Josué lutou contra uma coalizão de cananeus chefiada por Jabim, rei de Hazor. Embora os israelitas fossem vitoriosos, nenhuma das ci­dades fortificadas foi destruída, com exceção de Hazor, o que parece indicar que estivessem ansiosos para manter intactas algumas cidades e assegurar, ao mesmo tempo, que seu poderio militar tivesse sido anulado. Na época em que a campa­nha foi concluída, pelo menos trinta e um reis insignificantes haviam sido domi­nados. No entanto, ainda existiam algumas cidades formidáveis que precisavam ser subjugadas, como Jerusalém e Megido. Apesar da conclusão aparentemente rápida da campanha militar, e da ocupação do território dos cananeus, o livro de Josué deixa bem claro (13.1 e versículos seguintes) que os ganhos obtidos estavam longe de serem consolidados, mesmo durante a vida de Josué. 

Escavações arqueológicas, feitas ao longo da rota da ocupação, resultaram em claras indicações da violência e da destruição que aconteceram durante a segunda metade do décimo terceiro século a.C. e que vieram a afetar a estabilidade da vida em Canaã nos dois séculos seguintes. O local onde fica Ai, situado há aproximada­mente dois quilômetros e meio a oeste de Betel, foi escavado em 1933 por Madame Marquet-Krause, quando foram descobertas as ruínas de uma cidade da época do início da Idade do Bronze. As ruínas dos templos, palácios e dos muros da cidade indicavam que a cidade havia sido completamente destruída por volta de 2200 a.C. e que não havia sido ocupada novamente por mais mil e cem anos, quando uma cidade muito menor se estabeleceu ali. Dessa forma, a descrição do ataque e da conquista de uma cidade cuja população chegava a doze mil pessoas (Js 8.25) se refere, provavelmente, à destruição da cidade de Ai (Js 8.19,20). 

Essa narrativa nâo faz uma distinção muito clara entre os guerreiros das duas cidades (Js 8.17) e, como Vincent sugeriu, é possível que a cidade de Ai fosse um fortificado posto avançado nas cercanias de Betel. De qualquer maneira, Ai era uma cidade muito menor comparada às outras (Js 7.3) e se sua destruição envol­vesse a semelhante conquista de um lugar vizinho, não havia razão para que esse relato não fosse agrupado sob a narrativa da vitória sobre Ai. A antiga Betel foi escavada em 1934, sob a direção do professor Albright e descobriu-se que ela havia sido estabelecida no vigésimo primeiro século a.C., pouco depois da destruição da comunidade de Ai, no início da Idade do Bronze. No décimo terceiro século a.C. essa cidade bem construída da Idade Média do Bronze foi saqueada e incendiada, tal como foi revelado pelas grandes quantidades de escombros carbonizados, tijo­los queimados e cinzas escavados nos níveis do final da Idade do Bronze. Essa des­truição resultou, provavelmente, na conquista israelita de Canaã, embora alguns estudiosos, que atribuem uma data anterior ao Êxodo, a tenham associado com a conquista de Betel pela tribo de José (Jz 1,22 e versículos seguintes) o que aconte­ceu depois da morte de Josué. 

As escavações feitas em Laquis, a moderna Tell ed-Duweir, iniciadas em 1933 sob a direção de J. L. Starkey, mostraram que esse local havia sido bem estabelecido pelos moradores de cavernas do início da Idade do Bronze. Comunidades subse­quentes fizeram desse lugar uma importante fortaleza, de modo que na época de Josué ela havia sido uma antiga cidade real dos cananeus, controlada por um governador amorreu. O período dos hicsos estava representado por um grande fosso de detesa, do tipo que permitia um recinto para as bigas de guerra. Entre os séculos décimo quinto e décimo terceiro foram construídos três santuários nesse recinto e artefatos dessa região sugeriam a existência de uma forma de religião que tinha muito em comum com o ritual de sacrifícios dos hebreus. Nos níveis do final da Idade do Bronze, foi recuperado em meio às ruínas um fragmento de cerâmica contendo uma inscrição egípcia que registrava uma transação comercial e falava da violenta destruição da cidade. Esse fragmento tinha uma data aproximada de 1230 a.C,, sugerindo que a cidade foi conquistada no décimo terceiro século, pro­vavelmente como consequência da invasão dos israelitas. 

As características dos níveis ocupacionais dos cananeus, egípcios, hicsos e he­breus ficaram evidentes quando o sítio de Debir foi escavado a partir de 1926. O an­tigo nome desse local era Quiriace-Sefer, atualmente identificado como Tell Beit Mirsim, vinte quilômetros a sudoeste de Hebrom. Aqui, também, uma camada de ruínas carbonizadas separava depósitos hebreus subsequentes dos resíduos do Início da Idade do Bronze. Estes posicionaram a data da destruição da cidade como tendo ocorrido por volta de 1200 a.C. Os estudiosos que afirmam que o Êxodo ocorreu em alguma data no século XV a.C., consideram o ataque de Josué sobre Debir (cf. Js 10.38 e versículos seguintes) apenas em termos da destruição dos seus habitantes, sendo que a conquista da cidade, propriamente dita, seria resultado da destruição feita pelos israelitas sob Otniel, sobrinho de Calebe (Jz 1.11 e versículos seguintes). 

Além de algumas poucas sondagens feitas em 1926 por Garstang em Hazor, a moderna Tell el-Qedah, nada mais ficou conhecido sobre a campanha de Josué pela Galiléia. Em 1954, uma expedição da Universidade Hebraica de Jerusalém, dirigida pelo Doutor Yadin, começou a fazer escavações nesse local. Indo na dire­ção noroeste, eles descobriram um grande recinto cercado por um aterro de terra batida. A antiga Hazor, a mais poderosa das cidades-reino anterior aos israelitas, também era uma das cidades mais populosas de Canaã e esse recinto servia não só para acomodar as famosas bigas de Hazor, como também um grande número de moradias. 

Dos dezessete níveis de ocupação de Hazor, acredita-se que o mais antigo possa ser datado de aproximadamente 4000 a.C., um eloquente testemunho da antiguidade desse local. Foi descoberto que as defesas ao redor desse recinto data­vam do período da Idade Média do Bronze II, sendo contemporâneas dos depósitos hicsos. Nas redondezas foram encontrados fragmentos de cerâmica, um dos quais com uma escrita proto-sinaítica. No centro desse recinto, foi escavado um cemi­tério da metade e do final da Idade do Bronze, indicando que o último período de colonização havia aparentemente terminado com as conquistas israelitas sob Josué. Em relação a tudo que se conhece atualmente, essa destruição pode ser atri­buída ao décimo terceiro século a.C. e também pode muito bem estar associada à campanha galiléia (Js 10.36 e versículos seguintes). Mas, em relação a Debir, se for atribuída uma data anterior ao Exodo, a destruição final da civilização dos cananeus em Hebrom pode ter acontecido no período dos Juizes (cf, Jz 1.10). 

O Monólito Meneptá 

Através de uma fonte egípcia, foram obtidas evidências independentes do fato de os israelitas já estarem bem estabelecidos no oeste da Palestina por ocasião da conquis­ta de Laquis e Debir. Esse fato foi celebrado no Monólito de Meneptá, que registrou o sucesso dessas primeiras campanhas na Palestina. Um grande monumento de granito negro, erguido por Amenhotep III, recebeu uma inscrição que Meneptá mandou fazer no quinto ano do seu reinado (em aproximadamente 1220 a.C.) numa linguagem exa­gerada e que celebrava as ações militares, com qualquer grau de sucesso, que tinham ocorrido na vida do antigo Oriente Próximo. A relação de povos estrangeiros derrota­dos incluía os habitantes da Líbia (Tehennu), e os israelitas: 

Devastada está Tehennu; 

A Terra Hitita está apaziguada; 

Saqueada foi Canaã com toda maldade; 

Escravizada foi Ascalom, 

Conquistada foi Gezer; 

Yenoam foi reduzida a nada; 

Israel está desolado, mas a sua semente não. 

A Palestina se tornou uma indefesa viúva para o Egito; 

Tudo que é turbulento foi conquistado pelo rei Meneptá...1" 

Nessa relação de nomes, Israel foi a única nação a receber o símbolo que deter­minava "povos” ao invés de “terra”. Isso pode sugerir que os israelitas estivessem ocupando o oeste da Palestina com alguma força militar, mas que ainda não eram totalmente sedentários. Por outro lado, quanto a isso, a inscrição podia conter algum erro, resultado de um descuido, pois o monólito também continha outros erros inscritos. 

Sob a liderança de Josué, os israelitas ocuparam grande parte de Canaãe der­rotaram as resistências militares a ponto das tribos poderem começar uma vida sedentária gozando de relativa paz. Entretanto, não se deve imaginar que a conquista da terra tivesse sido completada na época de Josué, pois embora os israelitas continuassem a absorver os habitantes de Canaã dentro dos seus próprios padrões culturais, havia notáveis centros de resistência ao seu poder militar, inclusive as fortalezas de Megido, Bete-Semes, Gezer e Jerusalém. 

A Ascensão dos Juizes 

A morte de Josué deixou os hebreus órfãos da sua liderança decidida, e então se seguiu um período que testemunhou a degeneração da unidade nacional e a ascensão de uma atividade tribal mais individualista. A resistência aos invasores israelitas foi a característica desse período, tornando-se necessário reconquistar e consolidar alguns dos territórios que tinham sido conquistados sob Josué. Uma das razões para o sucesso da oposição dos cananeus era a condição inferior da tec­nologia dos hebreus, especialmente no assunto das bigas puxadas a cavalo e outras armas de guerra, tais como o forte arco asiático composto. Quando surgia uma situação de emergência, um juiz era escolhido por Deus para levar o povo à vitó­ria e, como consequência, essa fase da história dos hebreus ficou conhecida como período dos juizes. 

Esse período foi marcado pela crescente idolatria dos israelitas e pela ascensão de uma poderosa resistência dos cananeus em muitas partes da Palestina, Eglom, rei de Moabe, escravizou alguns dos israelitas por dezoito anos, mas, finalmente, foram libertados por Eúde. Jabim, rei de Hazor, representava uma formidável ame­aça à segurança dos israelitas por causa do poderio e da mobilidade das suas forças armadas. Seu general, Sísera, que comandava um grupo de novecentas bigas reves­tidas de ferro, movimentava-se à vontade entre as tribos do norte. Débora, a juíza e profetisa, nomeou Baraque como comandante das forças hebraicas mobilizadas para derrotar os homens de Hazor e na batalha que se seguiu Sísera foi derrotado. Ele fugiu e procurou um aliado, Héber, o queneu, cuja esposa Jael lhe deu abrigo e depois o matou quando adormeceu devido ao cansaço. O magnífico cântico de Débo­ra (Juizes 5) celebra a derradeira derrota de Jabim e suas forças numa linguagem raras vezes sobrepujada pela beleza e vigor da sua expressão. 


Midianitas e Amonitas 

A economia das tribos dos hebreus so­fria um sério golpe com as incursões dos midianitas. Eles formavam um povo nô­made que cavalgava camelos e obedecia ao costume de atacar as plantações israelitas na época da colheita e aterrorizar a popu­lação em geral. Aliaram-se aos amalequitas e instalaram tal opressão sobre os hebreus que estes foram obrigados a fugir para lugares seguros nas mon­tanhas. Essa situação foi final­mente corrigida por Gideâo, que deu início à sua campanha contra os midianitas com um dramático ataque sobre as prá­ticas idólatras de Israel (Jz 6.25 e versículos seguintes). Em se­guida, uniu as tribos do norte (Zebulom, Aser e Naftali) à sua própria tribo (Manasses), e com um selecionado exér­cito de homens armados com tochas, trombetas e cântaros, causou uma total confusão entre os midianitas e amale­quitas num ataque surpresa realizado durante a noite. A vitória enfureceu os efraimitas que se sentiram menospreza­dos por não terem sido con­vidados a lutar junto com as forças de Gideâo. Mas somente quando foram cumprimenta­dos pela captura dos príncipes midianitas, Orebe e Zeebe, essa lacuna foi sanada. Gideâo conseguiu restabelecer a adoração a Jeová, embora evidentemente a idolatria nunca estivesse muito longe do pensamento dos israelitas (Jz 8,27), Devido ao seu desejo de manter os conceitos teocráticos da lei, se recusava a aceitar a idéia do preceito da hereditariedade no governo, e essa foi uma das causas da dissensão que ocorreu entre os seus filhos depois da sua morte. 

Um lapso subsequente de idolatria levou uma outra calamidade aos israelitas, manifestada sob a forma da opressão amonita, Um campeão da causa de Deus apareceu na pessoa de Jefté, o gileadita, um homem que possuía iniciativa e consi­deráveis habilidades (Jz 11.17 e versículos seguintes), e que finalmente conquistou uma decisiva vitória sobre os amonitas. Novamente foi despertado o ciúme dos efraimitas, e seguiu-se um triste espetáculo de guerra entre as tribos, cujo resul­tado foi a derrota dos últimos. 

Os Filisteus 

Após a morte de Jefté, a nação de Israel foi governada por uma série de juizes e, durante esse período, a opressão exercida pelos filisteus tornou-se ainda mais aguda. Os filisteus eram um povo marítimo, de origem não semita, que havia imi­grado do Egeu, particularmente da antiga Caftor (Creta) para Canaã por volta de 1175 a.C., e que se estabeleceu na planície costeira. Pequenos grupos de filisteus já havia se concentrado na fronteira ao sul da Palestina na época dos Patriarcas (Gn 26.1,14), mas a imigração do décimo segundo século tinha um aspecto diferente. 

Eles haviam sido expulsos de Creta e da Ásia Menor por invasores vindos do norte e, antes de se estabelecerem em Canaã, haviam atacado o Egito. Foram repelidos por Ramsés II e sofreram grandes perdas numa batalha naval que os forçou a mu­dar sua atenção para as áreas costeiras localizadas no sudoeste da Palestina.22 Lá, estabeleceram uma confederação de cinco cidades, Gaza, Gate, Asquelom, Asdode e Ecrom das quais dependia grandemente o seu poderio militar. 

Além de manter uma rígida organização política, seu poder também se es­tendia à área econômica da vida israelita. Os filisteus haviam aprendido o uso do ferro com os hititas, que controlavam a manufatura e a exportação desse metal. Com o declínio do poder dos hititas, por volta de 1200 a.C., os filisteus passaram a adquirir o monopólio do fornecimento de ferro, usado para modelar implementos agrícolas de vários tipos, inclusive foices, martelos e arados. Afim de assegurar a estabilidade e a permanência do seu poderio militar, equiparam seus exércitos com armas manufaturadas a partir do ferro. Além disso, suas forças gozavam da mobilidade fornecida por bigas revestidas de ferro com as quais atacavam os inimigos. Esse avanço tecnológico, combinado com o espírito con­servador israelita, deu aos filisteus uma distinta vantagem nas esferas militares e econômicas de Canaã, proporcionando-lhes uma situação que não tardaram a explorar. 

Durante o período dos Juizes os israelitas travaram esporádicos conflitos com os filisteus e, durante esse período de ascendência dos filisteus, um dos heróis de ísrael foi Sansâo, um homem que tinha uma força física superior, mas cujo caráter moral era indiferente. E provável que a moderna Wadi el-Seirar tenha sido o lugar de algumas das suas façanhas que, embora dramáticas na sua natureza, não foram suficientes para libertar Israel da opressão dos filisteus. 


A Ascensão de um Governo Centralizado 

Podemos deduzir o estado de agitação generalizada reinante entre as tribos nessa época a partir das narrativas que tratam de Mica, das montanhas de Efraim (Juízes 17). Era um homem rico que, instigado pela mãe, construiu imagens reli­giosas e estabeleceu seu próprio santuário no qual o filho exercia a função de sa­cerdote. Um levita itinerante juntou-se aos seus empregados, mas quando os danitas estavam imigrando para o norte, eles o capturaram e seus pertences religiosos foram confiscados apesar das objeções feitas pelo seu verdadeiro dono. Os danítas invadiram a pacífica cidade de Laís, no norte da Palestina, e ali estabeleceram o centro da sua tribo. Essa cidade (Dã) marcava os limites setentrionais derradeiros do reino de Israel. 

Os capítulos finais do livro dos fuízes revelam o caos social que prevalecia en­tre as tribos, e indicam que havia uma urgente necessidade de se instalar alguma autoridade temporal centralizada sob a forma de um rei. Nessa época, o centro religioso mais importante era Siló, um lugar para o qual Josué havia conduzido as tribos depois de terminada a principal fase de ocupação. Era nesse lugar que a Arca da Aliança havia sido depositada e a adoração do santuário era conduzida pelo sacerdote Eli, junto com seus filhos corruptos, Hofni e Finéias. A desordem, a fraqueza e a imoralidade que haviam feito da nação a sua vítima, eram resumidas pela maneira como os diversos assuntos eram conduzidos em Siló (1 Sm 22.22 e versículos seguintes). Assim, coube a Samuel, o último dos juizes e o primeiro dos profetas, a tarefa de instituir reformas sociais e religiosas numa tentativa de sanar o caos da vida tribal daquela época. 

As narrativas sobre esse período inicial da vida de Samuel, como também de sua chamada, se desenvolveram em meio a esse cenário de depravação religiosa e desor­dem social. A fraqueza da moral israelita foi claramente demonstrada pela perda da Arca Sagrada para os filisteus, e pelo desastre que aconteceu em seguida. E prová­vel que a destruição do santuário de Siló tenha ocorrido nessa ocasião (cf. Jr 7.12,14) e, caso isso tenha realmente acontecido, as tribos israelitas ficaram privadas do seu santuário central, o que contribuiu para enfraquecer ainda mais a nação. 

De certa forma, a situação dos israelitas foi salva por uma inesperada calami­dade que atingiu Dagom, a grande divindade de Asdode, e que assumiu propor­ções mais sérias com a propagação de uma virulenta epidemia entre a população. O sintoma de bolhas inguinais (1 Sm 5.9), a presença de roedores (1 Sm 6.5) e o fato de a doença se propagar rapidamente ao longo das linhas de comunicação, indicam que era uma epidemia de peste bubônica. Os filisteus rapidamente se li­vraram da Sagrada Arca de Israel que, com muita propriedade, haviam ligado à erupção da praga e, assim, a devolveram como uma olerta pela expiação do peca­do. Uma subsequente incursão dos filisteus foi enfrentada por uma nação de Israel castigada, penitente e renovada e as perdas que os filisteus sofreram na batalha desencorajaram quaisquer ataques futuros. 

Entretanto, era tão grande a desunião que existia dentro da sociedade dos he­breus que seria inevitável fazer alguma modificação no ideal teocrático tão acalen­tado por Samuel caso a nação quisesse sobreviver ao peso crescente da economia e da pressão militar dos filisteus. O povo precisava de um administrador tangí­vel e unificador sob a forma de um líder, e estava exigindo os serviços de um rei. Embora Samuel se apressasse em descrever as desvantagens implícitas ao sistema monárquico, a vontade do povo prevaleceu. Dessa forma, Deus deixou de ser o único soberano da nação, como havia sido durante a teocracia, e as modificações introduzidas nesse conceito pela monarquia iriam exercer um peso importante sobre as relações subsequentes entre o profeta e o rei. 

O Reinado de Saul 

Obedecendo a uma ordem Divina, Samuel nomeou Saul, um homem da in­significante tribo de Benjamim, como soberano das tribos. Ele exibia uma impo­nente aparência física e os israelitas lhe conferiram irrestrito apoio em sua tarefa de unificar a nação. A primeira capital de Saul estava localizada em Gibeá, cerca de seis quilômetros e meio ao norte de Jerusalém, junto à estrada principal para Samaria. A cidade gozava de considerável importância por ser um posto militar avançado para as forças israelitas, pois no décimo primeiro século a.C, Jerusalém ainda estava nas mãos dos jebuseus. Escavações arqueológicas realizadas nesse local, identificado com a moderna Tell el-Ful, mostraram que ali havia se desen­volvido um total de doze níveis de ocupação. Parece que das quatro fortalezas erguidas nesse local, a segunda foi estabelecida por Saul (1 Sm 14.2)."’ Essa estru­tura de dois andares tinha uma forma ligeiramente quadrada, cobria uma área de cinquenta e cinco por cinquenta e um pés, e suas paredes variavam entre oito a dez pés de largura. Nos porões foram encontrados jarros que ainda continham azeite e grãos, e havia também uma profusão de objetos domésticos de cerâmica e outros equipamentos. Embora a localidade original tivesse apenas dois acres de extensão, foi o primeiro centro político de Israel e continuou a ser um posto mili­tar avançado muito depois da conquista de Jerusalém, 

Pouco depois de Saul ter assumido as funções de rei, os amonitas fizeram uma tentativa de conquistar Jabes-Gileade na Transjordânia e mensageiros foram en­viados a Saul para informá-lo sobre essa situação de emergência. Sua comovente demonstração de liderança com a vitória israelita sobre os amonitas, assim como a libertação de Jabes-Gileade, serviram para que seu prestígio fosse muito engrande­cido, Embora Saul fosse pouco mais que um rústico comandante, era um homem possuidor de muito orgulho e força de vontade e, à medida que o tempo passava, essas características se afirmavam cada vez mais na mente do povo. Parecia ser inevitável algum conflito de autoridade entre o profeta e o rei, e a repetida desobe­diência à vontade de Deus por parte de Saul, resultou na deterioração das relações entre ele e Samuel. O ideal teocrático estava ainda mais forte do que quando a recente monarquia havia sido instituída e, numa tentativa de preservar a unidade da nação, Samuel recebeu ordens de Deus para nomear Davi, filho de Jessé, como sucessor de Saul. Estava evidente, nessa ocasião, que Saul havia sido vítima de um distúrbio espiritual (1 Sm 16.14), e Davi havia sido nomeado para tocar harpa para ele quando se sentisse oprimido. 


A Ascensão de Davi 

O poder militar dos filisteus tinha agora atingido tais proporções que ameaça­va destruir a vida econômica dos israelitas e Israel tinha a urgente necessidade de vencer uma decisiva batalha contra eles se desejasse sobreviver como uma entida­de nacional, foi nesse momento crítico que Davi surgiu como herói do seu povo, matou um formidável guerreiro filisteu em condições extremamente desfavorá­veis e, de certa forma, mudou a situação, tornando-a tavorável a Israel. A adulação que se acumulou sobre Davi, despertou tal avalanche de ciúmes na mente do rei Saul, que até mesmo a devoção dos seus filhos Jonatas e Mical não foi capaz de aplacar. Embora suspeitasse que Davi fosse um traidor, ele prometeu que podia se casar com Merabe, sua filha mais velha. Entretanto, quando chegou o dia de for­malizar o casamento, e ao contrário do que prometera, Saul entregou-a a Adriel, o meolatita e Davi foi convencido a se casar com Mical, a irmã mais nova de Merabe. 

Embora essa mudança ainda servisse admiravelmente aos planos do desconfiado rei, é provável que outras considerações também estivessem em sua mente e cujo significado será brevemente examinado. 

O ciúme de Saul, em relação a Davi, chegou a tais proporções que Mical e Jônatas o preveniram sobre a conspiração armada contra sua vida, portanto ele fu­giu para Nobe onde foi ajudado pelo sacerdote Aimeleque. Mas sua presença nesse local foi traída por Doegue, o edomita, e ele foi forçado a se retirar para o sudoes­te de Jerusalém onde se escondeu na caverna de Adulão. Amigos e descontentes juntaram-se a Davi e ele tornou-se capitão de um grupo de guerreiros que, muito em breve, tiveram que se confrontar com a dupla tarefa de impedir os ataques de Saul e, ao mesmo tempo, libertar o sul de Canaã do domínio dos filisteus. 

Quando Saul ouviu a notícia de que o sacerdote de Nobe havia ajudado o fugi­tivo Davi, atacou o santuário e matou Aimeleque, juntamente com outros oitenta e cinco sacerdotes de Jeová (1 Sm 22). Abiatar, um dos filhos de Aimeleque, conse­guiu escapar e juntou-se às forças de Davi, levando consigo o éfode, ou manto sa­grado dos sacerdotes, um sagrado objeto religioso feito de linho (Ex 28). Saul per­seguiu Davi com frenético empenho e somente os ataques filisteus conseguiram dissuadi-lo do seu intento (1 Sm 23.27). Davi passou por enormes dificuldades para conseguir suprimentos, e recorreu a polidas formas de banditismo a fim de aten­der às necessidades das suas forças. Assim, Nabal (1 Sm 25.2 e versículos seguintes) foi solicitado a fornecer alimentos a Davi e seus homens em troca da “proteção” que ofereciam ao evitar que acontecesse qualquer dano aos seus interesses. 

Nabal, um alcoólatra, recusou-se a considerar essa negociação, e a retribui­ção que Davi e seus seguidores haviam planejado foi frustrada pela habilidade de Abigail, a formosa esposa de Nabal. Quando, em seguida, ela relatou ao marido o método pelo qual Davi havia sido satisfeito, ele sofreu um ataque apoplético vindo a morrer depois de poucos dias. Depois disso, Davi se casou com Abigail, quando Mical já havia sido afastada dele e entregue a Palti, filho de Laís. Nessa ocasião, Davi também tomou Ainoâ de Jezreel como esposa, e as duas mulheres lhe serviram como companhia em seu exílio. 

Em duas ocasiões Davi teve oportunidade de matar Saul, mas evitou causar algum mal ao ungido rei de Israel. A fim de escapar do insensato ciúme de Saul, Davi fugiu, juntamente com suas esposas e seus seguidores, e aliou-se a Aquis, rei de Gate, que lhe deu o controle da cidade de Ziclague (1 Sm 27). No ano seguinte ele realizou diversos ataques contra os amalequitas e outros inimigos dos israelitas sem, entretanto, empreender qualquer incursão guerreira contra seus compatrio­tas. Nesse ínterim, Aquis se preparou para uma batalha contra Saul que, quan­do viu a natureza das forças do inimigo dispostas contra si, recorreu ao último recurso em direção à sua própria ruína: o ocultismo. Em um período anterior, Saul havia proscrito a prática do ocultismo de acordo com as rígidas injunções da Lei Mosaica (Dt 18.10 e versículos seguintes), mas seu estado de demência havia atingido tais proporções que estava preparado para recorrer a qualquer forma de assistência, por mais inconsistente que fosse. A médium a quem Saul tez uma vi­sita o falecido Samuel, no qual foi profetizada a morte de Saul e a destruição das forças israelitas. 

Estando prontos para atacar Saul, os filisteus marcharam para Afeca, na com­panhia de Davi e seus guerreiros. Aquís desconfiou da lealdade de Davi nessas cir­cunstâncias e o desobrigou de tomar parte na batalha. Ao retornar para Ziclague, Davi verificou que esta tinha sido destruída pelos ataques dos amalequitas e que seus habitantes haviam sido capturados. Depois de consultar o éfode sagrado, Davi recebeu a garantia de que sairia vitorioso se perseguisse os inimigos, Ele nem havia partido quando teve a felicidade de encontrar um fugitivo do grupo dos amalequi­tas que o levou até o acampamento principal, Na batalha que se seguiu, Davi dizi­mou os nômades saqueadores e recuperou tudo que havia sido roubado. Aqueles que, de alguma forma, haviam participado da vitória receberam uma parte dos despojos, e suas esposas, filhos e propriedades lhes foram devolvidos, um procedi­mento que marcou um precedente para o futuro (1 Sm 30.25). 

A Batalha de Gilboa 

Entretanto, um golpe derradeiro foi desfechado contra o exército israelita pelo ata­que violento dos filisteus em Gilboa, no qual Saul e seus filhos foram mortos. O corpo de Saul foi mutilado e colocado no muro de Bete-Seâ, mas depois foi recuperado numa investida dos guerreiros vindos de Jabes-Gileade, num ato que reproduzia a bravura mostrada em relação a eles por Saul numa ocasião precedente. O lamento compos­to por Davi para essa ocasião, mostra um belo e pungente tributo àqueles por quem sentia uma sincera afeição apesar da mudança que havia ocorrido em suas relações. As trágicas circunstancias; de Gilboa adquiriram um espectro de valores pessoais que ele­varam os derrotados acima do nível dos seus oponentes nos atuais registros do Oriente Próximo, investindo-o de um verdadeiro caráter historiográfico. 

O Matriarcado 

Será, talvez, no reino dos valores pessoais, e da sua aplicação à luz dos cos­tumes sociais, que poderá ser encontrada a explicação da fúria que caracterizou a atitude de Saul em relação a Davi. O ponto particular em questão pode ser en­contrado na influência do matriarcado egípcio durante os primeiros estágios da monarquia hebraica. Esse sistema de herança, através apenas da linhagem femini­na, era muito antigo e exerceu uma profunda influência sobre todos os níveis da sociedade egípcia. Além disso, existe alguma razão para se acreditar que ela tenha afetado o curso da monarquia hebraica à medida que se desenvolvia em direção a um patriarcado hereditário. 

Maaca, a bisavó de Saul, era esposa de Jeiel, que em 1 Crônicas 8.29 é descrito como “pai” de Gibeão. Se ela recebeu o mesmo nome de uma pequena cidade- estado situada aos pés do Monte Hermom, isso pode ter estado em conformidade com um antigo costume de atribuir ao rei o mesmo nome do país que governava, e isso torna Maaca uma personagem real dentro do seu próprio direito. Se, de cer­ta forma, o sistema matriarcal era válido, a preocupação sentida por Davi quando Merabe foi dada em casamento a Adriel, ao invés de ser dada a ele mesmo, estaria justificada considerando que o esposo de Merabe estaria, então, em linha direta de sucessão ao trono. Novamente, quando Davi se casou com Maaca, filha de Talmai, rei de Gesur (2 Sm 3.3) ele também se tornaria o governante daquele pequeno rei­no e é interessante notar que foi para esse lugar que Absalâo fugiu depois de matar seu irmão Amom (2 Sm 13.37 e versículos seguintes). 

Se for possível identificar Ainoã, esposa de Davi (1 Sm 25.43) com Ainoã, filha de Aimaás e esposa de Saul, pode parecer que Davi tivesse conseguido estabelecer um contrato de casamento com a esposa do monarca reinante. Se o matriarcado estivesse totalmente válido na Palestina daquela época, Davi teria o acesso a uma indiscutível titularidade ao trono de Israel. Sob tais circunstâncias, Saul teria tido “razões’' urgentes para a destruição de Davi, pois desde que esse último possuísse a herdeira do reino, o trono seria seu por direito de casamento. Nesse sentido, a óbvia ligação entre Paltiel e Mical (2 Sm 3,16), antiga esposa de Davi, seria bastante compreensível se ela fosse uma herdeira do trono, pois, como seu marido, ele esta­ria em uma linha direta à sucessão. 

Devemos entender que esta teoria, envolvendo a influência do matriarcado egípcio, não deixa de estar isenta de dificuldades, uma das quais diz respeito à verdadeira identidade de Ainoã e Maaca. Entretanto, se levarmos em conta algum grau de credibilidade, ela pode nos ajudar a entender os motivos que provocaram as intrigas políticas do início da monarquia hebraica e os atos que, julgados pelos padrões da cultura ocidental, podem parecer desnecessariamente imorais, rudes e brutais.

Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.