9 de julho de 2015

R. K. HARRISON - Canaã e o Deserto

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Canaã e o Deserto

CRONOLOGIA DESTE CAPITULO 

Final da Idade do Bronze.................. 1550-1200 a.C.

Início da Idade do Ferro.................... 1200-970 A.c.

DEBAIXO DA DIREÇÃO DIVINA, MOISÉS FOI CAPAZ DE LIBERTAR OS descendentes dos Patriarcas da humilhação dos trabalhos forçados no Egito. Para seus antigos senhores que, desde Amenhotep II haviam empregado uma grande proporção de escravos nos projetos de construção, este foi um desastre de conside­rável magnitude. As conquistas deste guerreiro empreendedor, desenvolvidas na Síria e em Canaã, resultaram na prisão de um grande número de povos semitas e não-semitas. Entre eles havia 3.600 aperu que, julgando-se a partir de recentes inscrições, eram particularmente valiosos na execução das tarefas mais trabalho­sas. Os ambiciosos esquemas de construção de Ramsés II também haviam sido implementados através do trabalho escravo e a brutalidade dos senhores egípcios serviu para despertar um profundo ódio nesses povos, além de um ardente desejo de fugir à escravidão assim que surgisse a melhor oportunidade. 

Mas no antigo Oriente Próximo era não só impossível, como totalmente desco­nhecido, o fato de um grupo tão grande de pessoas cativas ser capaz de se libertar de uma nação tão poderosa. Um documento hitita (ou heteu) descreve um fato se­melhante que ocorreu no final do século XV a.C. Os habitantes de um povoado nas montanhas, e de alguns municípios do reino hitita, resolveram repentinamente que não desejam mais viver sob o domínio desse reino. Portanto, reuniram todos os seus bens e, em grupo, foram viver na terra de Isuwa. Embora os hititas tivessem ficado compreensivelmente perturbados com esse inesperado golpe desferido contra o seu orgulho nacional, foram incapazes de trazer essa população de volta, à força, até a época do poderoso monarca hitita Suppiluliuma. 

Os egípcios, entretanto, foram pouco afortunados em suas tentativas de reter, e depois perseguir e recapturar, os fugitivos hebreus, pois Deus havia disposto contra eles as forças da natureza sob a forma de nove pragas poderosas, além de uma calamidade sobrenatural no caso da décima praga, e de uma catástrofe que surpreendeu seus carros de batalha em Yam Suph. O que havia de espe­cial no caso dos hebreus era o fato de terem sido convocados da sua situação de escravos para prestar serviços a uma Divindade espe­cífica e em conformidade com o que estava determinado nas obrigações de um pacto. Embora os habitantes da antiga Anatólia, que fugiram para a terra de huwo, também possam ser considerados como econômica e politica­mente oprimidos, eles não tinham nenhum compromisso definido, nem haviam sido convocados para algum destino espiritual nobre. Parece que estavam apenas tentando melhorar suas condições sociais e políticas. 

As narrativas de Êxodo 12.38 e Nú­meros 11.4 deixam bem claro que muitos desses escravos se aproveitaram da partida dos israelitas do Egito para também levar a cabo a sua própria fuga. Esses elementos não israelitas formavam uma considerável proporção de escravos libertados e de ser­vos levados por Moisés às regiões desérticas situadas além das fronteiras do Egito. Esse movimento deu início a uma jornada que se estendeu por uma geração inteira duran­te a qual uma multidão indisciplinada foi transformada numa comunidade religiosa que se preparava para ocupar a Terra Pro­metida de Canaa. 

A ROTO DO ÊXODO 

A rota exata que os israelitas seguiram, depois de cruzar o Yam Sttph tem sido objeto de algumas discussões. A península do Sinai, que se limitava a sudoeste com o Golfo de Suez e a sudeste com o Golfo de Acaba, era formada por várias, e distintas, áreas desérticas separadas por montanhas e pelo rio do Egito, o moderno Wadi el-Arish, que drenava para o mar Mediterrâneo a águ excedente das chuvas que caíam sobre o deserto de Parã. Na antiguidade, ele representava a fronteira entre o Sinai e a Palestina (Nm 34.5). A primeira parte da jornada levou os israelitas em direção ao sul, ao longo do Golfo de Suez e até o deserto de Sim, uma área situada aos pés do planalto do Sinai, bem afastada do mar Vermelho. Esse local é geralmente identificado como Debbet er-Ramleh, uma região arenosa que se estende abaixo de Jebel et-Tih na região sudoeste da Península do Sinai, embora tenha sido sugerida uma outra localização situada na planície costeira de el-Markhah. Et-Tih fa2 parte de uma grande formação calcária que, projetando-se para o interior da península do Sinai, se apresenta guarnecida por afloramentos de arenito. Ao sul do planalto de et-Tih a Península apresenta uma área triangular de granito e de outras sólidas rochas cristalinas que formam várias cadeias de monta­nhas, inclusive o tradicional Monte Sinai. Em seus limites, à noroeste e nordeste, esta área se separa do planalto calcário por afloramentos de arenito que continham, na antiguidade, substanciais depósitos de minério de cobre e turquesa. 

Apesar da típica grandeza do cenário do Sinai ser acidentada e estéril, não se deve imaginar que a península representasse um deserto intransponível, ou mesmo um trecho de terra arenosa, inteiramente despido de vegetação. Nascentes e poços podiam ser encontrados à distância de um dia de viagem desde a costa ocidental da área do Suez até el-Markhah e, em geral, o lençol de água se encontrava bem próximo à superfície do solo pedregoso. Algum tipo de vegetação pode ser encon­trado nos wadis, e onde existe uma presença permanente de água, como nos oásis, ela floresce naturalmente. Algumas montanhas da cadeia calcária têm pequenos planaltos em suas bases que se apresentam como modestas áreas pastoris para os re­banhos e manadas. Foi desbastada uma grande quantidade de árvores de tamarindo e de acácia que, na antiguidade, cresciam na península do Sinai. Embora isso possa ter afetado ligeiramente o volume das precipitações, parece não ter havido uma mu­dança significativa na natureza da estação chuvosa ao longo dos séculos. 

Muitos dos lugares onde os hebreus acamparam recebiam nomes de acordo com os eventos que ocorreram durante a peregrinação (por exemplo, Nm 11.34) e, pelo fato de não ter restado nenhuma população sedentária que continuasse a tradição, esses nomes não receberam nenhuma fixação topográfica em particular. O deserto de Sur pode ser identificado como um trecho arenoso de terra localizado na parte noroeste do istmo do Sinai, entre o atual limite do canal de Suez no lado ocidental e o Wadi el- Arish no lado oriental. A partir dessa área, os hebreus se dirigiram para o sul, através do deserto de Sim, ao longo da faixa ocidental da costa da península do Sinai, e foi du­rante este período que demonstraram a sua primeira manifestação de murmuração. 

No entanto, essa murmuração desapareceu quando surgiram as codornizes (um pequeno pássaro parecido com o faisão), que o Senhor trouxe provavelmente usando os ventos marítimos (cf, Nm 11.31). Esse incidente também confirma, indiretamente, a tradição de que os hebreus preferiram seguir uma rota de fuga do Egito situada ao sul (Sinaítica) e não ao norte (Mediterrânea), sendo que essa última lhes havia sido termi­nantemente proibida (Ex 13.17ss.). Vindas da Europa, as codornizes somente pousam na costa mediterrânea da península do Sinai no outono e ao amanhecer. No entanto, elas foram encontradas pelos famintos israelitas durante o mês de março, isto é na primavera, e a tarde (por um milagre do bondoso Senhor). Alguns entendem que estas considera­ções servem para excluir a costa mediterrânea como sendo a rota de fuga seguida pelos israelitas, e falam a favor de uma rota mais ao sul através dos Golfos de Suez e Acaba. 

Foi no deserto de Sim que os israelitas também entraram em contato com uma misteriosa substância a que deram o nome de maná, e que passaria a desempenhar um papel proeminente na sua dieta durante a peregrinação pelo deserto (Ex 16.35). Ele aparecia todas as manhãs cobrindo o solo depois da queda do orvalho. O maná era pequeno, branco e de paladar adocicado. Não durava mais que uma noite e, para estar disponível no sábado, precisava ser cozido ou assado com antecedência. Algumas possíveis semelhanças foram estudadas através de comparações com algumas subs­tâncias segregadas sobre os galhos do tamarindo, produzidas por certos insetos no mês de junho. As gotas caem ao solo durante a noite e são comidas pelas formigas na ma­nhã seguinte. Supõe-se que esta substância seja muito rica em carboidratos contendo, também, uma considerável quantidade de açúcar e de pectina.[1] A interpretação do maná, em termos de excreção de insetos, não pôde ser aceita por estes estudiosos que consideram o maná humano como uma espécie de fungo. Desta forma, a natureza e a provisão desse alimento devem ser atribuídos ao reino dos milagres. 

O próximo estágio da jornada levou os israelitas a Refidim, um local que talvez possa ser identificado com o Wadi Refayid, onde foi sanada uma aguda ausência de água. Nessa época Josué, filho de Num, ascendeu como líder proeminente escolhido por Moisés a fim de repelir um ataque desferido pela tribo dos amalequitas, tarefa que executou com grande sucesso. Aqui também Jetro (Reuel), o sacerdote-pastor da tribo midiã dos queneus, e sogro de Moisés, visitou o líder israelita e o ajudou a organizar os tribunais destinados a ouvir as controvérsias que, continuamente, estavam surgindo nesta comunidade. Existem boas razões para considerarmos como verdadeira a tradi­ção que localiza os queneus numa área ao sul e à leste do Golfo de Acaba, oposto à pe­nínsula do Sinai. O nome “'queneus” significa “pertencente aos ferreiros” e é provável que tivessem sido atraídos à península do Sinai por causa das suas famosas minas de cobre em Serabit el-Khadem, um sítio arqueológico localizado há aproximadamente cinquenta milhas da localização tradicional do Monte Sinai. 

Desde os períodos anteriores, o cobre e o ferro já eram extraídos do vale do Jordão e do Wadi Arabá mais ao sul, e não resta dúvida de que os queneus se utilizaram também dos depósitos de cobre e de turquesa localizados próximos ao Wadi Serabit. A presença de ferreiros nômades, como os queneus, indica que houve pelo menos uma forma de ocupação semi-sedentária nas regiões de Midiã e do Sinai que teria sido, certamente, in­fluenciada pela presença das antigas rotas comerciais entre o Egito e o Oriente Próximo. Os queneus pertenciam aos povos midianitas que faziam parte dos primeiros beduínos nômades a domesticar os camelos. Este período, portanto, determina a transição entre o uso do jumento para o uso do camelo para as viagens nômades. Como os israelitas esta­vam restritos ao uso do jumento para suas movimentações nômades, a rota tradicional para a peregrinação no deserto (Nm 33) os mantinha convenientemente próximos aos oásis do deserto e às áreas pastoris localizadas a sudoeste do mar Morto.[2]

A Revelação no Sinai 

Depois da partida de Jetro, os israelitas montaram um novo acampamento no deserto do Sinai onde permaneceram por quase um ano. Esse período foi de grande importância para a unificação dessa multidão errante, pois foi n0 deserto do Sinai que Moisés se encontrou com Deus para receber o Decálogo e outras leis que seriam básicas para a fé e a vida da posterior nação israelita. O monte, de onde Deus revelou a Lei, no livro de Deuteronômio recebeu o nome de Horebe, muito embora outros livros do Pentateuco se referissem a ele como Monte Sinai. A iden­tificação desse local não é suficientemente certa, mas o grande peso da tradição indica Jebel Musa, o “monte de Moisés”, um proeminente pico existente numa acidentada cadeia de montanhas de granito, como sendo o monte Sinai original.1 Também é duvidosa a distinção precisa entre o monte Horebe e o Sinai. Alguns estudiosos identificaram Horebe com uma montanha separada, Jebel Serbal, que fazia parte da cadeia do Sinai e que tinha, ao norte, um oásis bem servido de água, mas a conclusão exata também deixa dúvidas. Provavelmente, o nome Horebe correspondia a uma descrição local de todo o distrito, enquanto o nome Sinai era a designação de um monte em particular, dentro da cadeia de montanhas de onde a Lei foi recebida. 

A revelação recebida por Moisés atingiu o seu ponto culminante em um evento que foi de supremo significado e importância para os israelitas. Foi feito um pacto, ou um acordo, entre Deus e Moisés que, efetivamente, constituía os nômades israelitas como sendo o Povo Escolhido de Deus. Daí em diante eles deveriam se comportar como um grupo unido, possuidor do conceito de uma nação, implementada através da proteção Divina. Através desse contrato, Deus prometia levar o seu povo até a Terra Prometida de Canaã com a condição de reconhecerem a Ele como seu único e verda­deiro Deus e de oferecer exclusivamente a Ele a sua adoração e submissão. 

Como observamos anteriormente, esses pactos eram amplamente usados no Orien­te Próximo durante o segundo milênio a.C., tanto no nível internacional como no nível pessoal. Mendenhall relacionou impressionantes semelhanças entre o pacto registrado em Êxodo 20 e os tratados internacionais de suserania dos séculos treze e quatorze a.C., recuperados principalmente de fontes hititas em Boghazkoy.[3] Essas promessas legais, es­tabelecidas entre um grande rei e um vassalo, começavam com um título, ou preâmbulo, no qual era identificado o seu instigador (cf. Ex 20.1). Isso era acompanhado, somente nos pactos do segundo milênio a.C., por um prólogo histórico no qual eram mencionadas as relações anteriores que existiam entre as duas partes contratantes (cf. Ex 20.2), juntamen­te com a promessa de que a generosidade anterior do suserano servia como base para a gratidão e tutura obediência por parte do vassalo. 

Depois vinham as obrigações que o suserano desejava impor ao vassalo consis­tindo de estipulações gerais (cf. Êx 20,3-17, 22-26) e detalhadas (cf. Êx 21-23; 25-31), acompanhadas da proibição do vassalo se comprometer com alianças estranhas (cf. Ex 34.14). Uma outra cláusula do tratado estabelecia que o documento deveria ser cuidadosamente guardado pelo vassalo (cf. Ex 25.16; 34.1, 28,29), e lido em público de acordo com determinados intervalos, geralmente uma vez em cada geração (cí, Dt 31.10-13). Uma seção final relacionava os deuses que haviam testemunhado os tratados pagãos desses séculos (substituídos no Antigo Testamento pelos memoriais feitos com monumentos de pedras [Ex 24.4], pelo próprio livro das leis [Dt 31.26], ou pelas pessoas que participavam [Js 24.22J) e enumerava as bênçãos ou as maldições que iriam ocorrer caso esse pacto fosse honrado ou não (cf. Lv 26.14-33; Dt 28.1-14). 

Como, na sua forma, o pacto do Sinai corresponde tão fielmente aos tratados inter­nacionais do segundo milênio a.C., parece que, na verdade, ele se originou no máximo no décimo terceiro século a.C., isto é, durante o período de vida de Moisés segundo a tradição bíblica. Esse pacto foi renovado pouco antes da entrada em Canaã, como está preservado no livro do Deuteronômio que é em si mesmo, um documento de renovação desse contrato e, novamente, na época de Josué em Siquém. Embora o uso desse formato contratual pelos hebreus envolvesse uma estrutura que era conhecida através do antigo Oriente Próximo, ele recebeu um caráter único por se tratar da expressão do relacionamento espiritual entre um povo e o seu soberano Deus. Assim que esse pacto foi ratificado de uma ma­neira formal pela aspersão de sangue (Ex 24.3 e versículos seguintes) ele estabeleceu um vínculo entre o Grande Rei e os vassalos israelitas, 

O Tabernáculo 

Em seguida a esse evento significativo, Moisés se comunicou novamente com Deus e, no decorrer dessa ocasião, recebeu diretrizes para a construção de um local de adora­ção que fosse portátil, e que recebeu o nome de Tabernáculo. As especificações feitas para a construção desse santuário, contidas em Êxodo 26—27,35—33, indicam que se tratava de uma estrutura elaborada e colorida. Tratava-se de um recinto retangular que cobria uma área de cerca de mil e duzentas jardas[4] quadradas. Esse pátio era circundado por uma série de cortinas de linho, suspensas por ganchos pendurados em varões de prata que ficavam presos a colunas de madeira de acácia. A entrada no pátio era feita através de tapeçarias estendidas sobre uma abertura feita na parede oriental, além da qual estava o altar do holocausto e a pia. Na extremidade do pátio estava localizado o Tabernáculo pro­priamente dito, uma estrutura retangular com cerca de cinquenta e cinco pés de com­primento e quinze de largura, feita de madeira de acácia e ricamente ornamentada com prata. A extremidade oriental do Tabernáculo era fechada por uma cortina suspensa em varões de prata presos a cinco pilares revestidos com ouro. 

O Tabernáculo era constituído por dois compartimentos, dos quais o anterior conhecido como Lugar Santo ou Santuário, media trinta por quinze pés. Nessa antecâmara estavam colocados: um candelabro com sete braços, a mesa dos pães da proposição e o incensário de ouro. A câmara interior, de tamanho menor, era chamada de Lugar Santíssimo, ou Santo dos Santos, no qual estava a Arca da Aliança, uma caixa feita de madeira de acácia revestida de ouro. A tampa da Arca suportava dois querubins de ouro com asas estendidas e quando a presença Divina descansava sobre a Arca, sob a forma de uma nu­vem luminosa conhecida como Shechinah[5], ela recebia o nome de propiciatório. 

A Arca ocupava o lugar mais sagrado do santuário e era vista somente pelo sumo sacerdote em ocasiões muito especiais. Sempre que os israelitas mudavam de acampamento e viajavam através do deserto, os levitas da casa de Coate tinham a incumbência de carregar a Arca e também os vasos sagrados do Tabernáculo. Todos os serviços religiosos públicos tinham lugar no pátio do Tabernáculo, que era descoberto, e o santuário se tornava tanto o ponto principal da adoração co­munitária como um símbolo de unidade religiosa. 

Esse tipo de tenda-santuário não era desconhecido no mundo da antiguidade. Um antigo escritor cananeu (cerca de 700 a.C.) descreveu uma primitiva estrutura fenícia que era, aparentemente, colocada sobre uma carroça puxada por bois. Nas épocas pré-islâmicas, o qubbah, uma tenda em miniatura feita de couro vermelho era usada para carregar os ídolos e os objetos de culto reverenciados por alguma tribo árabe em particular. Essas tendas eram importantes pela orientação que se cria serem capazes de transmitir à tribo em suas peregrinações, e nas ocasiões de guerra eram veneradas em vista da proteção que supostamente conferiam. O qubbah era usado como ponto de reunião e também como um local para receber os oráculos da divindade, assim como um lugar de adoração. Um altar portátil semelhante foi retratado em um baixo-relevo de um período muito ante­rior, o de Ramsés II (cerca de 1290 a 1224 a.C) e mostrava a tenda de um rei divino, coloca­da no centro de um acampamento militar egípcio. 

Do milênio anterior, chegou até nós, vindo do Egito, o dossel de uma esplên­dida tenda, portátil da rainha Hetepheres I, mãe de Quéops, o faraó que construiu a Grande Pirâmide, por volta do ano 2700 a.C. Esse dossel compreendia uma estru­tura feita de longas vigas colocadas na parte superior e inferior, separadas por va­rões verticais e postes laterais encaixados em vigas horizontais na parte superior. A estrutura era feita de madeira revestida de folhas de ouro, provida de ganchos em todos os lados, aos quais se prendiam as cortinas. As vigas e as travessas tinham soquetes colocados de tal maneira que a estrutura podia ser totalmente desmon­tada e montada rapidamente, semelhante à maneira com que tinha sido feito o Tabernáculo hebreu quatorze séculos mais tarde, 

O significado do relacionamento do pacto que existia entre Deus e os israe­litas não foi imediatamente compreendido por estes, e a prolongada ausência de Moisés no Monte Sinai deu margem à eclosão de uma manifestação de idolatria. Arão, irmão mais velho de Moisés, foi persuadido a construir um bezerro de ouro utilizando as jóias e os ornamentos das mulheres israelitas. Em seguida, toda uma multidão se dedicou a uma orgia de veneração idólatra remanescente dos ritos religiosos encontrados na adoração do touro Apis em Mênfis, durante o período do Novo Reino. Essa apostasia foi severamente censurada por Moisés que reduziu o bezerro a pó, e obrigou os israelitas a beberem a água de um regato do deserto à qual ele havia lançado os restos da imagem. 

Depois desse episódio, quando se celebrou a reconciliação, o pacto foi reno­vado e a construção do Tabernáculo prosseguiu de acordo com as instruções que Moisés havia recebido de Deus. Arão, descendente de Levi, o terceiro filho de Jacó, foi consagrado como primeiro sacerdote de Israel, com o privilégio de manter esse cargo na família com base na hereditariedade. As vestes sacerdotais, usadas por Arão ao executar os seus deveres, combinavam em cores e esplendor com as guar­nições do Tabernáculo e, assim como o próprio santuário, eram feitas com mate­riais facilmente acessíveis. Até as pedras semipreciosas que decoravam o éfode do sacerdote podiam ser encontradas no local. 

A segunda Páscoa foi celebrada dois anos depois da partida do Egito, quando os israelitas ainda estavam em peregrinação pelo deserto do Sinai. Foi por volta dessa época que a solene responsabilidade do ofício de sacerdote foi dramaticamente enfatizada quando Nadabe e Abiú, filhos de Arão, que haviam sido consagrados sacerdotes, foram mortos por Deus depois de terem oferecido incenso de uma ma­neira considerada imprópria (Lv 10.1 e versículos seguintes). Pela solene proibição imposta a Arão logo depois (v. 9), parece que Nadabe e Abiú foram embriagados enquanto exerciam as suas funções sacerdotais. 

A Partida do Sinai 

A curta permanência no Sinai chegou finalmente ao término, e os israelitas continuaram à frente sob a orientação da nuvem durante o dia e da coluna de fogo à noite. Vários pontos pelos quais passaram ainda precisam ser identificados, mas é provável que tenham viajado em direção ao nordeste, ligeiramente em paralelo com o Golfo de Acaba. Nessa época, os suprimentos de alimento estavam total­mente deficientes (Nm 11.1 e versículos seguintes), e qualquer demonstração de grave descontentamento só era evitada pela chegada de um bando de codornizes. Parece que os israelitas contraíram alguma forma de envenenamento alimentar que resultou num elevado número de mortes, interpretado como indicação de uma punição Divina. Esse incidente foi registrado, e aquele local foi chamado de Quibrote-Hataavá, o local de ‘‘túmulos de cobiça”. 

A partir de Quibrote, o grupo se dirigiu a um oásis chamado Hazerote que, provavelmente, pode ser identificado com ‘Aín Khadra. Arão e Miriã foram dominados por um ataque de ressentimento contra Moisés, e Miriã foi castigada com uma séria enfermidade, a lepra (Nm 12). Os próximos estágios da peregrinação em direção ao norte aconteceram no deserto de Parã, a noroeste do Golfo de Acaba. Depois de vários e breves acampa­mentos, os israelitas chegaram a Eziom-Geber, um lugar próximo à atual Acaba, a Elate do Antigo Testamento que, naquela época, era pouco mais que um pequeno grupo de poços e bosques de palmeiras. Esse local representava uma das estações mais importantes ao longo da rota das caravanas que partiam do Egito em direção ao leste que, em tempos posteriores, se tornou uma florescente cidade portuária. 

Depois de uma breve estada em Eziom-Geber, os israelitas se dirigiram a Cades-Barnéia, no deserto de Sim. A localização exata de Cades ainda está indeterminada e Woolley, que explorou o deserto de Sim, acredita que a identificação feita geralmente com Ain Qudeis seria improvável. Woolley é mais a favor da planície de Kossaima a noroeste de Ain Qudeis que, segundo ele, seria suficientemente fértil para suportar os nômades durante al­gum tempo. Esse local Ain Qudeirate, tem na verdade mais vegetação e água do que Ain Qudeis e, portanto, seria uma localização melhor para Cades-Barnéia. E muito provável que todas as nascentes dessa área tenham sido utilizadas pelos israelitas num momento ou outro durante sua prolongada estada no local, sendo que sem dúvida Ain Qudeirate seria a principal delas. E certo que a localização geral de Ain Qudeirate de Ain Qudeis se identifica muito bem com as exigências topográficas das narrativas do Êxodo. 

Cades-Barnéia era também um ponto de junção de certo número de rotas comer­ciais, e foi provavelmente ao longo dessas rotas que os espias foram enviados a Hebrom afim de examinar as fronteiras de Canaã, tendo em vista uma invasão feita a partir do sul. Embora as deliciosas uvas do vale de Escol fossem prova da abundância que essa terra oferecia, a formidável aparência dos seus habitantes desanimava quaisquer tenta­tivas de invasão. A derrota dos israelitas em Horma, aliada a uma sentença de quarenta anos no deserto, reduziam consideravelmente a moral desse povo. 

Contatos com a Transjordânia 

Depois de deixar Cades, os israelitas tomaram a direção norte para o monte Hor, nas fronteiras do Edom, onde Arão morreu. Passando pelo Wadi Arabá, retornaram para Eziom-Geber e pediram permissão aos edomitas para viajar ao longo da “estra­da real” (Nm 20.17). A estrada em questão era muito conhecida no início da Idade do Bronze (em aproximadamente 3000-2000 a.C.), pois seguia na direção norte-sul atra­vés da Transjordânia, ligando territórios que desde o século XIII a.C, eram conhecidos como reinos de Edom, Moabe e Amom. Entre os séculos XXIII e XX a.C. uma série de colônias se estabeleceram ao longo dessa rota, particularmente nas férteis terras altas da Transjordânia central, dando suporte a uma crescente atividade agrícola. Foram feitas referências ao fato de que, provavelmente, esta era a rota percorrida pelos reis da Mesopotâmia cujas atividades estão registradas em Gênesis. M. Se Glueck esteve cor­reto em sua suposição de que a ocupação sedentária da Transjordânia decaiu entre os séculos XIX e XIII a.C. parece que a resistência oferecida ao avanço israelita pelo povo de Edom (Nm 20.14 e versículos seguintes) será mais bem entendida à luz de uma data estabelecida durante o século XIII a.C. para o Êxodo. 

Como não foi possível aos israelitas viajar através do território edomita, ao longo da “estrada real”, foram então obrigados a dar uma volta trabalhosa e muito cansati­va em torno do reino de Edom, e a percorrer um trecho muito difícil. Isso provocou uma considerável soma de ressentimentos contra Moisés e o povo israelita foi casti­gado através das serpentes venenosas (Nm 21.5 e versículos seguintes). Ao recomeçar a jornada, eles se mantiveram a uma curta distância das fronteiras de Edom e parece que conseguiram algumas provisões dos seus habitantes (Dt 2.3 e versículos seguin­tes) sem serem molestados. Atravessaram a região mineradora de Punom, localizada no centro e norte de Arabá, descansaram por algum tempo no oásis de Obote e depois cruzaram a fronteira norte de Edom, junto ao ribeiro de Zerede, o atual Wadi el-Hesa, que determinava os limites entre Edom e Moabe. 

Conquistas na Transjordânia 

Parece que as fronteiras haviam sido solidamente fortificadas desde o lado moabita até o norte, e os israelitas preferiram evitar o perigo de um ataque fazendo um circuito em direção ao leste. Atravessaram o rio Arnom, o atual Wadi Mojib, que for­mava o limite norte de Moabe, e chegaram à terra de Gileade, que pertencia ao ter­ritório amorreu, Quando Moisés solicitou permissão a Seom, rei dos amorreus, para passar através do seu país, ela lhe foi negada e essa recusa resultou numa batalha em que Seom foi decisivamente derrotado. Um destino semelhante coube a Ogue, rei de Basã, e seu povo, os poderosos e agressivos refains que haviam aterrorizado os israelitas no período patriarcal. Balaque, o rei moabita, não desejava entrar em conflito com os vitoriosos e nômades hebreus e, para esse fim, contratou Balaão, um adivinho pagão, que vivia em Petor no norte da Mesopotâmia, a fim de lançar uma maldição sobre eles (Nm 22—24) à medida que avançavam para o interior do vale do Jordão. Isto estava totalmente de acordo com a prática babilônia de empregar adivinhadores e astrólogos como conselheiros das forças militares e, como consequência, os adivinhos mesopotâmios eram constantemente requisitados para esse propósito. 

Balaão era um adivinho extremamente eficiente que havia sido treinado para ser um barti, ou mestre adivinhador, e suas atividades foram amplamente ilustradas nos textos cuneiformes de várias partes da Mesopotâmia. No terceiro milênio a.C. os adivinhos haviam se tornado tão eficientes em seus métodos que a fama deles se espalhou por todas as partes do Oriente Próximo; por esta razão, eram muito pro­curados. Era muito comum visitarem a Síria, a Palestina e até o Egito e é interessante notar, neste contexto, que quando o sítio de Bete-Seã estava sendo explorado, foi encontrado entre as suas ruínas o selo pessoal de um dos adivinhos da Babilônia. 

Quando a história das atividades de Balaão é lida à luz das técnicas empregadas pelo baru da Babilônia, se torna bastante inteligível. De acordo com as regras da profis­são, a adivinhação precisava ser realizada de manhã bem cedo, pois acreditavam que os melhores resultados eram alcançados antes do sol nascer. Faziam três tentativas, o que está novamente em conformidade com os princípios gerais da adivinhação pro­fissional, tendo em vista que o número três exercia um papel importante na mágica da Babilônia. A tentativa de privar os israelitas da sua força, lançando maldições sohre eles, explora os mesmos princípios de mágica compassiva encontrados nos Textos de Execração do século XIX a.C. no Egito. E muito provável que o motivo que levou Balaão a abandonar repentinamente seus esforços de adivinhação (Nm 24.1) tenha sido o entendimento de estar sendo coibido por um poder superior e, como resultado, ele poderia muito bem perder sua reputação profissional de adivinho. 

O território conquistado era adequado para a criação de animais e foi distribuí­do às tribos de Rúben, Gade e à meia a tribo de Manasses, que já possuía um número considerável de rebanhos e manadas. A partir dessa região, os israelitas dirigiram-se para o norte do rio Arnom e cruzaram a cadeia de montanhas que se estendia desde o norte até o leste das praias do mar Morto. Eles acamparam na terra de Moabe, à curta distância da antiga fortaleza dos hicsos em Jericó. Logo depois, ocorreu a mor­te do idoso líder hebreu, Moisés, 

A Obra de Moisés 

A figura de Moisés se projeta sobre as personalidades israelitas do segundo milênio a.C. Embora possa ter lhe faltado a retórica persuasiva dos demagogos, possuía uma visão espiritual singular e profunda e, como que por discernimento espiritual, tinha a virtu­de de comunicar a revelação da vontade Divina aos seus companheiros. O âmbito dessa visão era raramente obscurecido pelas exigências do momento, e ele possuía a rara fa­culdade de ser capaz de relacionar a sua espiritualidade às considerações práticas, sem diminuir a vitalidade de sua comunhão com Deus. Embora fosse um homem de notável fortaleza e desembaraço, é possível que muitas vezes se sentisse desanimado perante o insucesso de fazer a rebelde multidão de escravos libertados alcançarem a visão da sua glória futura por ser o povo escolhido para participar de um pacto com o Deus do céu e da terra. Na verdade, sua capacidade de orientar suas próprias reservas espirituais, duran­te as frequentes crises e emergências que tomavam conta dos nômades israelitas, é uma das qualidades que o faz sobressair como o maior líder da história do povo hebreu. 

Moisés recebeu a designação de empreender a custosa tareta de impor uma severa disciplina religiosa sobre uma indócil e descontente assembléia que, muito frequen­temente, repudiava sua recém conquistada liberdade ao se oferecer para renovar suas antigas associações idólatras. Os rigores da longa jornada, que se interpunham entre o Êxodo e a vitoriosa entrada em Canaã, teriam derrotado as mais elevadas aspirações de qualquer homem menos aquinhoado. Embora os seus padrões morais não tivessem diminuído sequer por um momento, o efeito cumulativo das dissensões e da apostasia durante esse período de tempo era de tal ordem que deixou a sua marca no caráter desse líder formidável. Sem a genialidade de Moisés, restaria uma dúvida: será que as tribos israelitas teriam alcançado a consciência de uma unidade nacional e religiosa como aquela que resultou da experiência da sua peregrinação pelo deserto. Embora pudessem levar a efeito o intento de sua fuga do Egito sob uma liderança diferente, eles seriam virtualmente obrigados a adotar uma existência seminômade na inóspita península do Sinai, ou nas extensões ao sul da Transjordánia, e teriam permanecido fracos e desunidos, uma excelente presa para os saqueadores beduínos dos poderosos reinos do século XIII a.C, situados a leste e ao sul do mar Morto. 

Em vez disso, emergiram dos sofrimentos da permanência no deserto como um povo unido em sua lealdade a Deus, e convencido de que iriam exercer um importante papel na revelação da vontade Divina à humanidade, sua moral era elevada porque cria que a vitória seria sua companheira na entrada da Terra Pro­metida, uma conclusão amplamente justificada pela derrota imposta a adversá­rios tão formidáveis como Seom e Ogue. 

Esse nível de aspiração religiosa não era, de forma alguma, um produto incidental da liderança e da disciplina de Moisés. Na verdade, ela representava um dos objetivos pelos quais Moisés trabalhava com a maior diligência, e nos mostra o renomado líder israelita nas funções de profeta e de sacerdote. Seria impossível entender a história posterior do povo hebreu sem uma apreciação do fato de que a nova revelação da natureza e do pro­pósito Divinos, revelados a Moisés, formava a base das doutrinas monoteísticas do subse­quente pensamento religioso israelita. Com sua verdadeira visão profética, Moisés revelou ao Povo Escolhido o caráter de Deus e as implicações da moralidade Divina. Os eventos do Êxodo mostram-se divorciados de qualquer conexão com o âmbito dos acidentes ou das coincidências e estavam investidos de um significado espiritual que demonstrava, além de qualquer dúvida, a dominante providência de uma compassiva Divindade que havia resolvido se associar ao destino de um povo rebelde e imprevisível. 

Para Moisés, o tema central presente nas relações do pacto era uma inquestio­nável lealdade e devoção ao Deus que havia manifestado sua superioridade sobre as divindades pagãs, e havia libertado o seu povo de um cruel cativeiro para com ele estabelecer um relacionamento de adoção no qual havia respeito e confiança mútuos. Esse Deus era soberano sobre toda a terra, ao contrário da maioria das divindades egípcias que afirmavam ter uma jurisdição apenas territorial e, ao seu lado os outros deuses significavam o mesmo que nada. Sua natureza era compassi­va e clemente e se manifestava através de atos de bondade e de permanente amor. Mas Moisés também mostrava a sua revolta e um ódio inflexível quando fatos de injustiça, imoralidade e opressão eram evidentes. O Decálogo estabelecia um conceito de lei moral para todas as gerações subsequentes e, fazendo a ligação entre Deus e os homens, demonstrava que a religião e a moralidade estavam insepara­velmente unidas. O monoteísmo ético proclamado por Moisés seria fundamental para os ideais religiosos do povo hebreu, fornecendo temas importantes que se­riam desenvolvidos através das futuras profecias. 

Em suas funções como sacerdote, Moisés marcou um ponto de transição en­tre o costume patriarcal de sacerdócio familiar para a tradição israelita de uma tri­bo de sacerdotes descendentes de Arão, o levita. Embora recebesse assistência no desempenho dos seus deveres sacerdotais, o legislador permanecia também como principal intercessor do povo e agia como mediador entre o povo e o Senhor Deus.


Moisés era responsável pela implementação das leis relacionadas com a devoção e o ritual dos sacrifícios do Tabernáculo, embora a sua fidelidade ao conceito da ética monoteística subordinasse consistentemente o desempenho dos rituais às considerações da moralidade. 

Mas o gênio tolerante de Moisés deve ser entendido através do seu tradicional papel de legislador. Ele foi o agente divinamente nomeado para a revelação de um sistema legislativo que deveria formar a base da vida e da política israelita nos séculos posteriores. Encabeçando esse corpo de leis estava o Decálogo, assim como os ter­mos do relacionamento do pacto, acompanhado por uma variedade de outras leis, algumas das quais apropriadas à vida de um povo nômade, enquanto outras anteci­pavam uma sedentária ocupação de Canaã. Algumas gerações passadas chegaram a afirmar que Moisés não poderia, de forma alguma, ter colocado suas leis por escrito, mas descobertas arqueológicas feitas napenínsula do Sinai e naTransjordânia deram motivos para a necessidade de haver uma modificação nessa extremada opinião. 

Inscrições encontradas nas minas de turquesa de Serabit el-Khadem, na pe­nínsula do Sinai, que na antiguidade eram controladas pelos egípcios, mostraram que durante uma época anterior ao período de Moisés existia um alfabeto escrito segundo uma variedade a que os estudiosos deram o nome de ‘‘proto-sinaítica’’. Essas inscrições, que em conjunto chegavam a cerca de vinte e cinco, foram des­cobertas por Sir Flinders Petrie em 1904 e, segundo ele, datavam de 1500 a.C.[6] Albright decifrou essas inscrições em 1947 e identificou sua origem com o alfabeto escrito pelos escravos semitas de Canaã, os quais eram obrigados a trabaJliar nas minas de turquesa na época de Tutmés III. Outros estudiosos, entretanto, consi­deram uma data anterior, atribuindo essas inscrições ao período do Reino Médio, da história do Egito. 

De qualquer forma, várias formas de expressão linguística estavam disponí­veis no período de Moisés com a finalidade de transmitir comunicações escritas. As tábuas de Tell el-Amarna mostram que os caracteres cuneiformes da Babilônia eram a língua franca daquela época, enquanto os hieróglifos egípcios já existiam há muitos séculos. Os habitantes de Canaã, do Final da Idade do Bronze (de aproxi­madamente 1550 a 1200 a.C.), empregavam uma variedade de alfabeto linear, isto é, uma linguagem cuneiforme nativa (ugarítica) e existia uma escrita sob a forma de sílabas em uso em Biblos na Fenícia, assim como os cuneiformes acadianos e os hieróglifos egípcios para a comunicação. A natureza das atividades comerciais entre o Egito e o Oriente Próximo, no segundo milênio a.C.. era de tal ordem que seria virtualmente impossível que os principais centros de comércio no Egito desconhecessem outras línguas que não fossem a sua. Uma das primeiras referên­cias bíblicas à escrita está relacionada com a derrota de uma incursão amalequita ao acampamento israelita na península do Sinai (Ex 17.14), na vizinhança de Se­rabit el-Khadem. A luz das descobertas arqueológicas feitas nessa região parece não existirem razões válidas para duvidar da antiguidade da tradição hebraica que atribuía uma atividade literária a Moisés. 





Códigos e Leis no Antigo Oriente Próximo 

Até a descoberta de outras antigas coleções legais no Oriente Próximo, acreditava- se que o código de Moisés seria o único representante dessa natureza. A descoberta do Código de Hamurabi em Susa, 1901, deixou bem claro que as ordenações legais israe­litas haviam sido precedidas por um grande número de códigos legais na antiga Babi­lônia. Ao mesmo tempo, ela serviu para demonstrar o espírito singular da legislação mosaica e desferiu um golpe mortal em outras opiniões que haviam afirmado que matérias legais, como as que existiam no Pentateuco, eram anacronismos. 

Uma das fontes legais mais antigas, sobre as quais se baseou o Código de Hamurabi, foi o grupo de ordenações promulgado por Urukagina, rei de Lagash, por volta de 2380 a.C. Esse ensi sumeriano prometeu a Ningirsu, divindade padroeira de Lagash, que não iria permitir que os órfãos e as viúvas de sua cidade fossem explorados por indivíduos desumanos. Em uma tentativa de modificar o poder do ensi, e restaurar o domínio teocrático na Suméria, Urukagina deu início a uma legislação que removeu, em grande parte, os privilégios adquiridos pelos dignitários do palácio, pelos funcionários civis e outros funcionários administrativos, enviando-os de volta ao templo que era o cen­tro vital e administrativo da comunidade. Urukagina também pôs fim a certos abusos que haviam surgido com os seus predecessores; pode se citar como exemplo, o fato de ter abaixado os impostos dos enterros e dos serviços religiosos e defender o direito do homem comum à sua propriedade. Essas leis, assim como a maioria dos outros “códi­gos” da Mesopotâmia, se originaram da promulgação de decisões legais como meio de orientar os juizes nos tribunais, e não devem ser entendidas como representantes de determinações precisas para a regulamentação de todos os assuntos legais. As leis representavam, essencialmente, coleções de precedentes cuja intenção era estabelecer um padrão geral de justiça para orientação das autoridades legais e, sem dúvida, eram sensíveis a certa liberdade de interpretação. 

Outra antiga coleção de leis, emitidas na Babilônia, é antecedente ao Código de Hamurabi por quase dois séculos. Conhecido como Código de Eshnunna, foi recuperado das tábuas encontradas em Tell Abu Harmal, perto de Bagdá. “ Esse código foi escrito na língua semítica da Velha Babilônia e incorporado ao sistema legislativo do rei Eshnunna (em aproximadamente 1885 a.C.). Algumas das leis tratavam do estabelecimento de preços para os cereais e outros produ­tos, enquanto uma outra seção (53) do código era bastante significativa, pois constituía o paralelo mais antigo com a lei hebraica. Essa provisão estabelecia o procedimento a ser seguido na determinação do preço dos bois que tinham estado brigando e receberam ferimentos mortais, e é semelhante à legislação existente em Exodo 21.35. 

Cerca de uma década mais tarde, o Código de Eshnunna foi seguido pelos decre­tos de Lipit-Ishtar, rei de Isin (em aproximadamente 1875 a.C.), um distrito localiza­do no centro da Babilônia. Esse código empregava o que parece ter se tornado uma forma literária padrão, pois a legislação de Hamurabi acompanhou exatamente essemesmo estilo. Um prólogo que afirmava que Lipit-lshtar teria estabelecido a justiça sob a proteção de En-lil introduzia o principal corpo de leis e era concluído por meio de um epílogo. As tábuas, escritas em sumeriano, estão sob a forma de fragmentos e contêm trinta e cinco leis que governavam a vida da sociedade feudal. Elas tratavam de diversos assuntos como aluguel de barcos, o procedimento a ser observado por aqueles que estavam em débito com o pagamento de impostos e outras leis que re­gulamentavam a propriedade, a herança e o casamento." 

A riqueza do material relativo a legislação, escavado no sítio da antiga Nuzu, perto de Kirkuk na moderna nação do Iraque, aumentou em grande parte o co­nhecimento existente sobre a jurisprudência no antigo Oriente Próximo. Essas leis datavam do século XV a.C. e, como já foi observado, forneceram a base para uma nova apreciação dos costumes e das leis que formulavam o padrão da vida social no período Patriarcal. Porém o mais notável precursor da lei hebraica loi o renomado Código de Hamurabi. Por causa de um cenário semítico comum, e um grau de semelhança na herança cultural, em muitas áreas a legislação mosaica se assemelha, claramente, com a de Hammurabi e essa consonância superficial levou muitos estudiosos a acreditar que os códigos legais dos hebreus eram nada mais que modificações ou adaptações feitas no antigo material da Babilônia. 

Embora existam muitas semelhanças entre os ordenamentos de Hamurabi e de Moisés, também existem diferenças substanciais e suficientes que nos levam a desconsiderar qualquer teoria de dependência hebraica da jurisprudência babiló­nica. O Código de Hamurabi era formado por um corpo de leis civis adaptadas às necessidades da sociedade urbana da Mesopotâmia, enquanto a legislação mosaica era principalmente ritualística e religiosa em sua natureza, e adequada às necessi­dades de uma economia pastoril. Mesmo onde os tópicos de natureza semelhan­te receberam a mesma atenção nos dois códigos, existem diferenças notáveis em termos de detalhes como, por exemplo, nas leis relativas ao divórcio. Embora a legislação sacerdotal do código mosaico contenha muitos elementos em comum com outros rituais religiosos do Oriente Próximo, os pontos de divergência são mais significativos quando dissociam a lei hebraica dos seus precursores no campo da jurisprudência. 

Dois importantes tipos de lei são aparentes no Código de Hamurabi, e foram classificados como “incontestável” ou “categórico”, e “casuístíco" ou “lei especí­fica” A primeira dessas duas classes compreende urna lei breve e categórica que ocorre, normalmente, sob a forma de uma proibição. A segunda variedade, que é a forma dominante presente nas coleções de documentos legais até agora recu­perados do antigo Oriente Próximo, estabelece especificações precisas sobre como devem ser tratadas as questões legais em particular, junto com os seus procedi­mentos. Essas duas classes estão refletidas na legislação do Pentateuco e, ocasio­nalmente, elementos do tipo de lei “incontestável” ocorrem no meio dos procedi­mentos da lei específica. Dessa forma, em Êxodo 21,7-11, onde são discutidas certas situações legais especificas, oriundas de uma determinação generalizada sobre o tema cia escravidão feminina, a expressão “usando deslealmente com ela" (v. 8) introduz um aspecto categórico à questão dos direitos do escravo. 

Apesar do código de Moisés mostrar certo grau de afinidade com outros gran­des conjuntos de leis que surgiram a partir das cuíturas do Oriente Próximo e do Egito, ele apresenta um caráter distinto que atesta a sua superioridade sobre os códigos legais dos povos vizinhos. Seu monoteísmo determinado ordenava a de­voção a Deus e o respeito ao homem, de uma maneira que não ocorre em outras legislações contemporâneas. Os ordenamentos do código mosaico não eram me­ramente leis que exigiam obediência, mas a personificação de uma espiritualidade que enriquecia o caráter do indivíduo cuja vida era governada por elas. A legisla­ção hebraica atribuía um grande valor à vida humana, exigia um grande respeito para com a honra da mulher, e conferia mais dignidade à posição do escravo do que poderíamos encontrar em qualquer um dos códigos legais das outras nações do Oriente Próximo. 

Ao tentar avaliar o cenário histórico da primitiva legislação israelita nunca se deve esquecer que seus próprios precursores, que tinham vivido na região de Gosén, no delta do Nilo por mais de dois séculos, possuíam suas leis e costumes ba­seados numa estabelecida economia agrícola e que pressupunham justas relações com os povos estrangeiros. Pode até ser que algumas das tradições desses períodos, que precederam ao de Moisés, fossem adaptadas às necessidades de um modo de vida bastante diferente e que, em seguida, tivessem sido incorporadas ao crescente corpo de leis tradicionais no período da peregrinação pelo deserto. 



O Líder Josué 

Quando as bases legais para a vida israelita posterior já haviam sido estabelecidas, e os peregrinos hebreus já tinham montado seu acampamento, estava terminada a ta­refa do grande legislador hebreu. Depois de ter admirado o panorama da Terra Prome­tida, no monte Nebo, identificado atualmente com o moderno Khirbet ei-Mekhaiyet, Moisés morreu e foi enterrado em Moabe. Pouco antes da sua morte, ele havia consa­grado Josué como seu sucessor, que assumiu uma completa liderança sobre os israe­litas. A conquista de Canaâ era o seu supremo objetivo, para tanto, elaborou planos imediatos para cruzar o Jordão e atacar Jericó. A captura dessa fortaleza representava um pré-requisito para o sucesso militar em Canal, pois estava situada entre os penhas­cos do deserto da Judéia, num local que dominava a entrada não só para o planalto de Jerusalém, como também para toda Canaã. 

O local da antiga Jericó (Tell es-Sultan) foi cenário de considerável atividade arqueológica durante o século 20 da nossa era. Em 1907, a German Oriental Soaety enviou Sellin e Watzinger para ali realizar algumas escavações que resultaram em um relatório bem documentado sobre a Idade Média do Bronze em Jericó. O trabalho ainda incluiu uma detalhada descrição dos objetos — já recuperados—de cerâmica. Essas escavações foram interrompidas depois de dois anos, e novamente recomeçadas em 1929 pelo Professor Garstang da Universidade de Liverpool. Nos sete anos seguintes vários níveis desse sítio foram pesquisados e foram dadas designações alfabéticas às diversas camadas que estavam sendo escavadas. Em 1952 esses trabalhos foram continuados por um grupo de arqueólogos americanos e ingleses sob a direção da senhora Kathleen Kenyon, diretora da British School of Archaeology em Jerusalém. 

Essas escavações atingiram os níveis de habitação de até, pelo menos, o quinto milê­nio a.C, indicando que esse local era o mais antigo de todo o Oriente Próximo. Enquanto outros povos estavam apenas no início de uma vida em comunidades localizadas em vilas desprotegidas, os habitantes da Era Neolítica de Jericó estavam vivendo numa cidade murada cuja área cobria cerca de oito acres. As evidências de uma atividade comunal Neolítica precedente à atividade cerâmica se avolumaram com a descoberta, em 1956, de urn grande fosso de defesa, com cerca de trinta pés de largura, escavado a uma profundidade de oito pés através do leito rochoso. Sobrepondo-se a esse fosso existia um muro com dezoito pés de altura, sobre o qual havia sido erguida uma fortaleza circular de pedra, A cultura desse período era do tipo de ‘‘irrigação’’, capaz de produzir grãos como painço, cevada, trigo e frutas subtropicais, inclusive figos, tâmaras e uvas. 

E provável que a localização da antiga Jericó tenha contribuído para sua prosperida­de, pois estava localizada na junção de várias rotas cruzadas pelas caravanas orientais que transportavam especiarias. Sua importância estratégica já havia sido estabelecida na antiguidade remota, pois montava senti nela sobre uma das mais importantes e permanentes passagens através do rio Jordão. Do lado oriental, Jericó estava protegida pelo planalto que tormava as terras altas de Moabe, enquanto no sul se estendiam as cadeias estéreis que estavam às margens do mar Morto. Esse mesmo sítio arqueológico estava localizado na fissura de um longo vale através do qual fluía o rio Jordão, Embora Jericó estivesse cerca de quinhentos pés acima do nível do mar Morto, ainda assim a sua localização cor­respondia a cerca de oitocentos pés abaixo do nível do Mediterrâneo. 

No verão, a temperatura no fundo do vale atingia proporções tropicais, en­quanto no inverno o calor do ar, enclausurado nessa garganta, contrastava agra­davelmente com o frio e a neve de Jerusalém, que estava situada vinte e sete quilômetros na direção sudoeste. Essas condições climáticas eram enriquecidas pela presença de uma nascente de água doce conhecida atualmente como ‘Ain es- Sultan, com sua perene fonte de água para aqueles que frequentavam esse local. Tradicionalmente, essa fonte foi purificada por Eliseu, e fornecia a única água da vizinhança que não tinha um paladar salobro. 

Enquanto os hicsos dominavam Canaã, Jericó foi solidamente fortalecida com grandes aclives diante das fortificações, os quais eram usados como bases para ata­car o império egípcio, Mas depois da expulsão dos hicsos do Egito (em aproxima­damente 1550 a.C.), Jericó se tornou uma das grandes cidades-estado de Canaã e era governada pelo seu próprio rei que, durante o período Amarna, estava sujeito ao controle administrativo do Egito. A natureza da organização feudal em Canaã não era saudável e, combinada com uma disputa mortal entre as várias cidades-estado, havia produzido um claro declínio no nível da civilização dos cananeus na época em que Josué e suas forças estavam se preparando para invadir essas terras, Embora as maciças fortificações erguidas pelos hicsos ainda estivessem evidentes em muitas partes do país, a fibra moral dos seus habitantes encontrava-se seriamente enfraquecida por séculos de guerras internas e pelos debilitantes efeitos do abandono a uma forma de atividade religiosa aviltante. Até certo ponto, o terreno já estava preparado para as vitoriosas campanhas de Josué e dos israelitas. Jericó foi o primeiro e, provavelmente, o mais formidável obstáculo à vitória, e seu destino era servir como indicação de que nada restava à essa terra, como um todo, se não esperar o momento em que o fervor israelita seria lançado contra a frágil resistên­cia dos desmoralizados habitantes de Canaã. 







[1] Cf. E S. Bodenheímer, The Biblical Archaeologist, X (1947), No. 1, pp. 2ss.; W. Keller, The Bible as History (1956), p. 112. 




[2] W. E Albright, From the Siam Age to Christianity, pp. 196s. 




[3] G. E, Mendenhall, Hie Biblical Archaeologist, XVII (1954), No. 3, pp. 26ss. 


[4] N. do E.: Unidade fundamental de comprimento, do sistema inglês, equi­valente a 3 pés ou 0,9144m (91,4cm). O "pé" é uma unidade de medida linear Anglo-Saxônica, de 12 polega­das, equivalente a cerca de 30,48cm do sistema métrico decimal. 




[5] N. do E.: "Termo hebraico que designa a manifestação da presença de Deus entre o seu povo" (Dicionário Teológico, CPAD, 1998, p. 264). 




[6] W. F. M. Petrie, Researches in Sinai (1906), pp. 129SS.; W. F. Albright, The Ardúeology ofPaksãne, pp. 188s.