31 de julho de 2015

John Bright - Primeiros Passos para a monarquia: Saul

shema-israel-danilo-moraes
O início e o desenvolvimento da monarquia

A crise que levou a Liga Tribal de Israel ao fim ocorreu
na última parte do século onze. Ela desencadeou uma série de
acontecimentos, que, em menos de um século, transformaram
totalmente Israel e fizeram dele uma das primeiras potências de
sua época.

Este período, relativamente breve, deve ocupar um pouco
mais detidamente nossa atenção, porque é um dos períodos
mais significativos de toda a história de Israel[1].

Felizmente, temos à nossa disposição fontes que não só
são extremamente ricas (todo o livro primeiro e todo o livro
segundo de Samuel, mais os capítulos primeiro a onze do
Primeiro Livro dos Reis) mas também do maior valor histórico, pois muito deste material é contemporâneo ou quase contemporâneo aos acontecimentos descritos. Para os últimos anos
de Davi, temos na incomparável “História da Sucessão do
Trono” (2Sm 9-20; lRs 1-2) um documento com sabor de
testemunha ocular, que dificilmente foi escrito muitos anos
depois que Salomão sucedeu ao trono.

Como o autor desta obra soube fazer uso das histórias
da Arca (lSm 4,lb-7,2; 2Sm 6 [7]), pelo menos do maior
corpo das narrativas de Saul e Davi que compreendem todo o Primeiro Livro de Samuel (e o Segundo de Samuel, cc. 1 a 4), podemos presumir que estas narrativas, embora não
sejam históricas em sentido estrito, eram de origem antiga,
situando-se por volta da metade do século décimo.

Mais informações a respeito de Davi e todas as informações referentes a Salomão chegam até nós em forma de excertos dos anais oficiais, ou de resumo deles, sendo excepcionalmente valiosas [2].

Numa palavra, temos melhores informações sobre este
período do que sobre qualquer outro período da história de
Israel.


A. PRIMEIROS PASSOS PARA A MONARQUIA: SAUL

1. A crise dos filisteus e o fracasso da organização tribal

Depois de uns duzentos anos de existência, a confederação
israelita foi derrubada pela agressão dos filisteus. Como indicamos no capítulo precedente, os filisteus chegaram à Palestina
não muito depois de Israel, e viveram lado a lado com Israel,
em conflito intermitente mas cada vez mais intenso, durante
quase todo o período dos juizes.

Finalmente, eles lançaram-se à conquista que levou Israel
à ruína total.

a. A natureza da ameaça dos filisteus. — Os filisteus eram
um tipo de inimigos com os quais a débil organização de
Israel não podia competir. Eles não eram um povo muito
numeroso. Formavam antes uma aristocracia militar, que governava uma população predominantemente canaanita, com a
qual — como o indicam os nomes dos deuses e a maior parte
dos seus nomes personativos — eles progressivamente se misturaram.

Entretanto, parece que eles eram guerreiros formidáveis,
possuidores de longa tradição militar. Talvez porque vissem
em Israel uma ameaça à sua segurança ou à segurança das
rotas de comércio que iam da costa para o interior foi que
eles resolveram ganhar o controle de todo o oeste da Palestina.

Assim, eles representaram para Israel uma ameaça como
ele nunca havia enfrentado em sua existência passada. Diferentemente dos inimigos anteriores, os filisteus não constituíam
uma ameaça limitada somente às tribos adjacentes, nem uma
ameaça que a defesa tribal pudesse vencer com facilidade. Visando :a conquista, eles ameaçaram Israel em sua totalidade,
fazendo sua sobrevivência periclitar. Além disso, tratava-se de
soldados disciplinados, cujas armas, em virtude sobretudo do
seu monopólio do ferro, eram superiores [3]. Quando o terreno
permitia, eles também faziam uso de carros de combate [4].
E, o que é mais importante, embora sem um governo central, os
tiranos de suas cidades tinham a habilidade de agir conjuntamente 
-— coisa que os reis canaanitas dificilmente faziam e, quando o
faziam, nunca por muito tempo.

As tropas tribais israelitas, mesmo bem treinadas e equipadas, não poderiam ter muita chance contra tais inimigos no
campo de batalha.

O início da agressão dos filisteus é obscuro. Presumivelmente, eles começaram cedo a dominar as cidades-estados canaanitas que ainda restavam na planície costeira e em Esdrelon, assim como os outros Povos do Mar da região. As tribos israelitas vizinhas de Judá e Dan sentiram igualmente a sua
pressão. Esta última, como vimos, foi desapropriada da maior parte das suas possessões. Ocorreram sem dúvida intermináveis incidentes de fronteira, como se vê claramente nas histórias de Sansão, e tais acontecimentos podem ter ajudado a provocar os filisteus, incitando-os a novas agressões.


b. Israel sob o jugo dos filisteus. — O golpe decisivo
foi desferido algum tempo depois de 1050 a.C., perto de Afec,
na extremidade da planície costeira (lSm 4). Procurando deter
o avanço dos filisteus e mal sucedidos numa campanha preliminar, os israelitas trouxeram a Arca de Silo, na esperança de que
a presença de Iahweh lhes trouxesse a vitória. Mas o resultado
foi a derrota total. O exército de Israel foi reduzido a pedaços.
Ofini e Finéias, os sacerdotes que transportaram a Arca, foram
mortos, enquanto a própria Arca era capturada pelos filisteus.

Em seguida, os filisteus ocuparam a terra. Silo foi tomada
e o Santuário da Liga Tribal destruído[5]. Guarnições dos filisteus foram instaladas nos pontos estratégicos (ÍSm 10,5;13,
3ss,23). Além disso, para impedir a fabricação de armas e proteger seu próprio monopólio do ferro, os filisteus privaram Israel de toda a indústria do metal que ele possuía, fazendo com que Israel dependesse totalmente dos ferreiros filisteus para qualquer serviço (lSm 13,19-22). E, com efeito, o ferro não foi abundante em Israel até o reinado de Davi [6]. A ocupação da terra israelita pelos filisteus não foi completa. Embora eles ocupassem o Negeb, a maior parte da cadeia montanhosa central e, naturalmente, a planície de Esdrelon, não é provável que seu controle se estendesse sobre toda a Galiléia — e certamente a leste do Jordão. Mesmo nas montanhas centrais, este controle não era total, como se pode ver pelo fato de que, apesar dos esforços em contrário, os israelitas puderam depois se armar e organizar uma resistência na região.

No momento, porém, não era possível qualquer resistência.
Com suas forças dispersas e desarmadas, o seu Santuário Central destruído, os seus sacerdotes mortos ou dispersos, a Confederação Tribal estava indefesa.

Embcra logo tenham devolvido a Arca ao territorio israelita, devido ao terror inspirado pela praga (lSm 5-7), provavelmente os filisteus ainda tenham mantido sua supervisão.

Ela ficou jogada em Cariat-jearim durante uma geração[7]. A
antiga ordem havia ruído e nunca mais voltaria ao que fora.

c. O último da antiga ordem: Samuel. — O espírito que
guiou Israel naqueles dias sombrios foi Samuel. Consagrado
a Iahweh antes do nascimento com um voto dos nazireus 
(lSm 1,11), Samuel passou sua juventude no Santuário Central, como pupilo do velho sacerdote Eli. Quando Silo caiu,
ele evidentemente voltou para sua terra natal em Rama, onde
adquiriu fama de homem santo e oráculo (c. 9). Samuel não
foi simplesmente um mero vidente da região, como parece
indicar sua função posterior. Parece, de fato, que ele sucedeu aos juizes, especificamente aos “juizes menores” (Jz 10,1-5; 12,7-15), cuja função provavelmente se referia de certo modo
à administração da lei da aliança entre os clãs. É neste posto
que o vemos quando não há mais nenhum centro tribal em
atividade nos santuários importantes (lSm 7,15-17). Podemos
estar certos de que Samuel, mais do que qualquer outro, se
esforçou por manter a tradição anfictiônica viva.

Não sabemos quase nada do que ocorreu durante os anos
da ocupação dos filisteus. Sabemos que, antes do término desta
ocupação, Samuel já era considerado velho. Manteve-se viva a
vontade de resistir e de perpetuar a tradição carismática, graças
sobretudo aos profetas que surgiram nesse tempo. Mais adiante,
falaremos ainda destes profetas. Vemo-los peregrinar em bandos, ardentes de zelo, “profetizando” ao som de música (lSm
10,5-13;19,18-24). Eles representavam um fenômeno muito
comum no mundo antigo, com paralelos entre os canaanitas e
até mesmo na Anatólia e na Mescpctâmia [8].

Podemos apenas conjeturar sobre o que teria ocasionado
o despertar da profecia extática em Israel nessa época. Não resta a menor dúvida de que o desaparecimento do templo
central e de seu culto deixaram um vácuo espiritual, que
favoreceu o surgimento de livres movimentos carismáticos entre
o povo. Mas ·a presença dos filisteus também teve sua parte,
pois tais profetas, certamente, por meio de sua fúria extática,
procuraram incitar todos a um zelo santo para combater a
Guerra Santa de Iahweh contra o odioso invasor.

Samuel, desejando indubitavelmente a expulsão dos filisteus
e um substituto para o desacreditado sacerdócio de Silo que
pudesse continuar a tradição de Iahweh, parece que encabeçou
este movimento [9]. Não podemos dizer quantas vezes o ardor
patriótico se transformou em resistência armada, durante esses
anos. É provável que tenha havido choques e que os contingentes dos filisteus tenham sido atacados e destruídos algumas
vezes. Talvez a relação idealizada do c. 7, vv. 3 a 14 contenha a lembrança de um tal encontro. Mas os clãs não
estavam mais à altura de desferir um golpe decisivo, indispensável para expulsar o invasor da terra. Muitos israelitas devem
ter pensado que seu problema seria insolúvel se não encontrassem uma liderança mais forte.


2. O primeiro rei: Saul


Foi nesta situação que Israel escolheu Saul, da tribo de
Benjamim, da cidade de Gábaa, para seu rei. Em virtude de sua
situação, não é surpresa que Israel tenha tomado esta decisão
e feito esta escolha. Entretanto, também não surpreende que
Israel tenha tomado esta medida meio vacilante e quase com
alguma relutância, já que a monarquia era uma instituição inteiramente estranha à tradição de Israel.


a. Eleição de Saul. — O relato da eleição de Saul chegou
até nós em duas (talvez três originalmente) narrativas paralelas: uma tacitamente favorável à monarquia, a outra profundamente hostil. A primeira nos conta (lSm 9,1 a 10,16) como
Saul foi ungido privadamente por Samuel em Rama (continua
no capítulo 13,3b.4b-15. No bojo desta narração, encontra-se o relato originalmente separado (c. 11) da vitória de Saul contra
os amonitas e a subseqüente aclamação que o povo lhe fez em
Gálgal. O outro relato (cc. 8;10,17-27; 12) mostra-nos Samuel
atendendo contrariado ao pedido do povo e presidindo a eleição
de Saul em Masfa.

Em vista destas narrativas com tantas variantes, não nos
podemos aventurar a reconstruir a seqüência dos acontecimentos. Mas não é justo que rejeitemos a última destas narrativas como reflexo de uma experiência subseqüente amarga com a monarquia, como o fizeram muitos [10]. Qualquer que tenha sido a data da passagem, não se pode duvidar que um passo tão drástico como este, implicando num rompimento tão
violento com a tradição, indique uma oposição desde o começo.

Os próprios sentimentos pessoais de Samuel permanecem
ambíguos. Mas podemos estar certos de que, qualquer que
tenha sido a decisão que tomou, voluntariamente ou com relutância, ele a tomou diante do pedido expresso do povo, representado pelos anciãos das tribos (ISm 8,4ss). O teor das
duas narrativas mostra-nos que ele teve um papel preponderante no desenrolar dos acontecimentos — e, em virtude de
sua posição, era isso mesmo o que se devia esperar. Contudo, 
é totalmente certo que Samuel, quaisquer que tenham sido seus
sentimentos iniciais, logo rompeu com Saul, tornando-se seu
cruel inimigo. É muito provável que ele tenha encarado a
medida com apreensão durante todo o tempo, como na realidade insiste a segunda das narrativas acima, temendo aonde
ela podia chegar, embora agisse sob pressão, porque não via
outra alternativa.

A escolha de Saul realizou-se por designação profética e
por aclamação popular (ISm 10,lss;ll,14ss). Õ fato dele ser
da tribo de Benjamim — tribo localizada no centro, diretamente
ameaçada e tão pequena que as rivalidades se reduziriam ao
mínimo — pode ter influenciado a escolha. Mas Saul foi aceito
logo de início, pois, com sua vitória contra os amonitas (capítulo 11), ele dera mostras de dons carismáticos, como os juizes que o precederam. Esta foi provavelmente a primeira batalha que ele teve de enfrentar.[11]

Aproveitando-se da situação de Israel, os amonitas invadiram as terras da Transjordânia, como o haviam feito antes,
no tempo de Jefté; e, sitiando Jabes-Galaad, apresentaram-Ihe termos vergonhosos e inumanos de capitulação. Quando
Saul teve conhecimento do que sucedera, portou-se como um
típico carismático. “Ao ouvir tais palavras, o espírito do Senhor investiu Saul, e acendeu-se-lhe grandemente o rosto. Pegou dois bois, dividiu-os em pedaços e mandou-os, por mãos
de mensageiros, a todo Israel, com esta advertência: ‘Assim serão tratados todos os animais de todos aqueles que não se
puserem em marcha atrás de Saul’ ” (lSm 11,6-7). As tribos
atenderam ao seu pedido, e obtiveram uma grande vitória.
Sabemos que o povo, convencido, pelo comportamento de Saul,
de que ele era o escolhido de Iahweh, levaram-no a um antigo
templo de Gálgal e lá, solenemente, o aclamaram rei.


b. Outras vitórias de Saul. — O começo de Saul foi tal
que justificou a confiança que o povo nele depositara, sobretudo desde que ele se mostrou capaz de desferir nos filisteus
o golpe que deu a Israel a oportunidade de uma trégua, infundindo-lhe novas esperanças. Devido à confusão dos textos,
os detalhes desta ação (lSm 13.14) não se apresentam muito
claros. Entretanto, parece que, depois de um encontro preliminar, em que uma guarnição dos filisteus foi batida (13,3) [12],
e depois das represálias dos filisteus (13,17ss), feriu-se um
combate em Macmas, o qual, devido sobretudo à valentia de
Jônatas, seu filho, culminou numa esmagadora vitória de Israel.
Os filisteus puseram-se em fuga precipitada (14,23.31); os
hebreus que haviam passado para o seu lado desertaram (14, 21) e puseram-se ao lado dos israelitas; e os israelitas que se
tinham escondido nos montes de Efraim também juntaram-se
a Saul. Foi uma grande vitória. Embora as forças dos filisteus não tenham sido destruídas e a ameaça por eles representada
não tenha acabado (é provável, apesar do que se lê em 13,5,
que a força empenhada no ataque não tenha sido grande), as
tropas de ocupação foram expulsas das montanhas. Desde então,
Saul adquiriu completa liberdade de movimento dentro da térra,
e novas batalhas foram travadas nas fronteiras da planície.
Israel havia reconquistado a sua esperança.

Todo o reinado de Saul transcorreu em guerra (lSm
14,47ss.52) [13]. Além de suas batalhas com os filisteus, uma
vitória sobre Amalec é descrita numa narrativa isolada (c. 15),
que também inclui o rompimento de Saul com Samuel. Provavelmente, tais povos, cujo lugar de origem era o deserto de
Cades, tinham, como Amon, se aproveitado da situação de
Israel para fazer incursões no Negeb. O fato de Saul ter podido
rechaçá-los até o sul mostra a sua liberdade de movimento;
e também indica que sua autoridade e responsabilidade eram de
âmbito nacional. Uma vez, durante o seu reinado, Saul tomou
severas medidas contra os remanescentes da “Confederação dos
Gabaonitas” (2Sm 21,lss;4,2ss), apesar do tratado que os
prendia a Israel desde a conquista (Js 9). Sabe-se que muitos
deles foram mortos, e outros forçados a fugir. As razões de
Saul para tal ato são desconhecidas — possivelmente porque
os gabaonitas colaboraram ou eram suspeitos de terem colaborado ccm os filisteus [14]. O feito nunca foi esquecido, como
veremos.

c. A natureza do reinado de Saul. — Uma fonte (lSm
8,5.20) denuncia a monarquia como uma imitação das nações
pagãs. E assim foi: uma instituição de certo modo estranha
a Israel, apesar de comum em outros lugares, e portanto sugerida a Israel pelos seus vizinhos. Mas a Monarquia de Israel
era única. Certamente, não era moldada no sistema de cidade- 
-estado feudal, como em Canaã e na Filistéia. Apesar de ter
assimilado características de Edom, Moab e Amon [15], ela per maneceu um fenômeno caracteristicamente israelita, no começo
mudando o menos possível a antiga ordem.

Saul, como os juizes antes dele, elevou-se como um herói
carismático, à maneira antiga. Na verdade, é improvável que
o tivessem seguido se ele não se mostrasse como tal [16], Nesse
caso, entretanto, recebeu uma nova característica, quando Samuel ungiu Saul, e o povo o proclamou seu rei. Assim, Saul
passou a ocupar uma posição semelhante à que, em outras
circunstâncias, foi oferecida a Gedeão e por ele recusada (Jz
8,22ss).

Mas é interessante que a fonte que fala da unção de Saul
(lSm 9,ls até 10,16;13,4b-15) não faça referência a ele como
rei melek), e sim como “líder” ou “comandante” (nãgid)[17].
Isso pode significar que Samuel e os anciãos da tribo nunca
pretenderam elevar Saul à dignidade de rei no sentido convencional, desejando simplesmente que ele servisse como líder militar. Porém, quaisquer que tivessem sido suas intenções, podemos
estar certos de que, no começo, o povo pensava em Saul
como rei, e logo começou a dirigir-se a ele como tal (o
título era comum entre os vizinhos de Israel, e é regularmente
aplicado a Saul em qualquer outra parte das fontes).

De qualquer maneira, a autoridade de Saul foi reconhecida
como permanente ou pelo menos “enquanto durasse” — o
que significa a mesma coisa. Embora isso representasse uma
inovação, não significava um brusco rompimento com as velhas tradições. Saul foi aclamado por Israel no antigo centro
tribal, em Gálgal (lSm ll,14ss), e, como nãgid ou melek,
seria seu dever levar avante o cargo de juiz, reunindo seu
povo contra os inimigos de Iahweh. O que quer que Samuel pensasse de Saul, os demais sacerdotes anfictiônicos reuniram-se
em torno dele e o acompanharam no campo de batalha (c. 14,
3.18).

Ao que sabemos, Saul não fez qualquer mudança na estrutura interna de Israel. Provavelmente, embora tivesse talvez um pequeno desejo nesse sentido, não tenha tido oportunidade. A organização tribal foi deixada como era, não se desenvolvendo nenhuma máquina administrativa ou burocrática [18]. Saul não tinha um grande harém, nem oficiais — a não ser
seu parente Abner, que comandava as tropas tribais (lSm
14,50ss) [19] — e nem corte suntuosa (cf. cc. 20,25;22,6); sua 
residência em Gábaa era uma fortaleza, em vez de um palácio [20].
No costume de Saul de cercar-se de soldados jovens e de sua
presença para serviços permanentes, (c. 14,52) pode-se ver o
início de um exército permanente e também de uma aristocracia
militar. Mas, para Saul, isso era muito mais que uma simples
necessidade militar: ele não podia apenas contar com o recrutamento das tribos para sobreviver. E, embora outorgasse
favores aos que o seguiam, muitos deles seus companheiros de
tribo (lSm 22,7), ele não era um rei tribal.

b. Como os juizes antes dele, Saul tinha direitos sobre todas
as tribos. E, apesar de provavelmente nunca ter levado todo
Israel ao campo de batalha (tampouco os juizes o fizeram!),
ele provavelmente chegou mais perto disso do que qualquer
um de seus predecessores, fosse-o embora em virtude de uma
emergência nacional. Além disso, Saul gozava de uma considerável popularidade em toda a terra. E, por ter conseguido a
libertação de Jabes-Galaad, ganhou a gratidão imorredoura
daquela cidade (c. 31,11-13). Talvez devido à sua ação contra
Amalec, talvez porque a ameaça dos filisteus fosse mais intensa
ali, Saul também era considerado em Judá. Os jovens daquela tribo estavam a seu serviço, e lá ele podia contar com muitos
amigos (c. 23,19ss; 26,lss).

Em resumo, o reinado de Saul começou favoravelmente,
trazendo a Israel um descanso vivificante e uma nova injeção
de coragem.

3. A ruína de Saul e a ascensão de Davi


A pausa foi, todavia, temporária. A duração do reinado de
Saul é desconhecida, e marcar-lhe datas seria mera suposição
(provavelmente uma década ou mais antes de 1000 a.C.). Mas 
o certo é que ele terminou em triste ruína, deixando Israel,
se isto fosse possível, em pior situação que antes. As razões
para tal certamente são complexas. Porém, a não menos importante de todas elas está no próprio infeliz Saul.

a. O rompimento de Saul com Samuel. Sua decadência. —
Saul era uma trágica figura. De ótima aparência (ISm 9,2;
10,23,), modesto (9,21), muito magnânimo, pronto a confessar suas faltas (ll,12ss; 24,16-18), sempre terrivelmente corajoso; havia, contudo, dentro dele uma instabilidade emocional
que foi a causa de sua própria ruína. Sempre de temperamento
volúvel, capaz de excitações arrebatadoras (cc. 10,9-13;ll,6s),
Parece que, em virtude das pressões que lhe faziam, ficou
com a mente cada vez mais perturbada, oscilando como um
pêndulo entre momentos de lucidez e estados de trevas mentais, durante as quais, incapaz de uma ação inteligente, comportava-se de modo a afastar até mesmo os que lhe eram mais
chegados. Antes de seu fim, provavelmente Saul não gozava
plenamente do uso de suas faculdades mentais.

Em sã consciência, deve-se dizer que Saul enfrentou problemas que desafiavam a capacidade das mentes mais equilibradas. Sua própria posição colocava-o sob a situação constrangedora de ter que manifestar qualidades carismáticas, não
uma vez ou outra, num esforço dramático, mas continuamente.
A ameaça dos filisteus continuava; apesar de algumas vitórias
ocasionais, Saul não podia desferir o golpe decisivo, necessário
para pôr fim a tal situação. A impetuosa independência das
tribos, ademais, impedia o exercício de qualquer autoridade
real; se não fossem seus próprios vassalos, Saul nunca poderia
organizar uma força de combate digna de confiança e mantê-la
a postos. O pior de tudo era o seu desentendimento com Samuel. Os dois relatos que temos desta situação autorizam-nos
a pensar em algo de misterioso. Possivelmente, Samuel não
estava acima de ciúmes pessoais; possivelmente, já desconfiando
da nova ordem, precisava da mais simples desculpa para
rejeitá-la. Mas razões mais profundas estavam envolvidas, como
ambos os relatos confirmam. Em ISm 13,4b-15, Saul é acusado
de usurpar a função do sacerdócio anfictiônico, enquanto que,
no c. 15, está escrito que ele violou o herem — uma característica da lei sagrada, relativa à Guerra Santa. A probabilidade
é que Samuel, tendo esperado manter a nova ordem subserviente à antiga, temia que Saul não merecesse confiança para continuar nos velhos moldes de liderança, mas estivesse usurpando
uma autoridade mais ampla. Em virtude disto, aboliu publicamente a nomeação de Saul!

Isto, indubitavelmente, acelerou a desintegração de Saul.
Sua própria posição foi colocada em dúvida diante de todo
Israel. Ele começou a suspeitar que o carisma, sobre o qual
se fundamentava sua designação, havia desaparecido. No lugar do
furor carismático, acometiam-no acessos de depressão (“um espírito maligno enviado por Deus” — ISm 16,14-23), dos quais
somente as melodias da música pediam tirá-lo e durante os quais
ele invectivava cegamente contra todos os que estavam ao seu
redor.


A aparição de Davi: o ciúme de Saul. — Contudo,
foi a popularidade do jovem herói Davi que finalmente levou
Saul além dos limites do comportamento racional. Nossas fontes
não nos permitem dizer como foi que Davi, pela primeira vez,
despertou a atenção de Saul[21]. Ele era um jovem de Belém,
que se dizia ser um hábil músico (ISm 16,14-23) e que provavelmente era semelhante aos jovens que Saul costumava
manter a seu lado (c. 14,52). Logo ficou famoso por suas
proezas, em particular pela morte do gigante Golias (c. 17,1
a 18,5). É verdade que a passagem de 2Sm 21,19 credita esta façanha a Elcanan (lCr 20,5 — é urna tentativa de harmonização), o que tem levado muitos a supor que o feito de um
guerreiro secundário tenha sido transferido para Davi. Mas
não é somente a tradição que credita o feito ao velho Davi 
(cf. ISm 21,9); a fama de Davi certamente baseia-se em algum
feito espetacular, ou feitos desta espécie. Na verdade, não é
impossível que Elcanan (provavelmente Baalanan [?]: cf. Gn
36,38; lCr 1,49) e Davi fossem a mesma pessoa, sendo este
último, talvez, uma designação ou um nome que lhe fosse dado
na qualidade de rei[22]. De qualquer forma, Davi ganhou fama
e posição (lSm 18,13), a imortal amizade do filho de Saul,
Jônatas, e a mão da filha de Saul, Mical, em casamento (lSm
18,20.27) [23].

Mas, quando novos feitos aumentaram de tal modo a
popularidade de Davi, de modo a eclipsar sua própria popularidade, Saul não pôde suportar por muito tempo. Sentindo que
o povo considerava Davi como seu herói carismático, ele passou
a temer que também pudesse torná-lo rei (c. 18,7s), Levado
por insano ciúme, virou-se inteiramente contra Davi e tentou
matá-lo repetidas vezes (c. 19,9-17). Finalmente, Davi não
teve outra alternativa senão fugir. Mesmo então, as suspeitas
do rei não se desvaneceram. Parecia-lhe que todos estavam
conspirando contra ele — mesmo seu próprio filho Jônatas
e seus vassalos mais chegados (cc. 20,30-34;22,7f). Quando
ouviu que a família sacerdotal de Silo — agora estabelecida em
Nobe (próxima a Jerusalém) — tinha inadvertidamente dado
ajuda a Davi em sua fuga, assassinou a todos e demoliu seu
santuário (cc. 21,l-9;22,9-19). Quanto à Mical, tomou-a de
Davi e deu-a a outro (lSm 25,44).

Esta não era, naturalmente, a maneira de agir de uma
mente equilibrada. Embora Davi fosse, sem dúvida, ambicioso, não havia nenhuma evidência de que ele estivesse realmente
conspirando contra Saul. Saul estava demasiadamente perturbado para pensar com clareza. Seu comportamento deve tê-lo
prejudicado irreparavelmente, levando muitos a duvidar de sua
capacidade. O massacre dos sacerdotes foi particularmente chocante (note-se que os próprios cursores de Saul recusaram-se a
usar a espada contra eles: lSm 22,17s). Por este ato, Saul
cortou todos os laços com a ordem anfictiônica e, uma vez que
o unico sobrevivente passou para o lado de Davi (c. 22,20-23),
entregou seu sacerdócio nas mãos do rival. E, o que foi pior,
Saul não mais se sentiu na obrigação de dar batalha aos filisteus, concentrando suas energias na perseguição a Davi. Precipitco-se um cisma em Israel, para o qual ele não estava, em
absoluto, preparado.


c, Davi, o proscrito. — Davi fugiu para o deserto de sua
terra natal, Judá (lSm 22,ls), onde seus parentes se reuniram
em torno dele, juntamente com rebeldes, fugitivos e pessoas
oprimidas de toda a espécie. Formou-se logo uma violenta
força de combate de quatrocentos homens, constituída de desocupados, desordeiros e malfeitores. Por algum tempo, Davi
levou uma existência precária, como chefe de bandidos (um ,Apiru), jogando os fins contra os meios, atacando os filisteus
sempre que se oferecia uma oportunidade (c. 23,1-5), esquivando-se continuamente para escapar às garras de Saul (cc.
23,19 a 24,22; e c. 26) e, nesse ínterim, mantendo-se com a
“proteção” de cidadãos ricos que podiam mantê-lo (c. 25,7s; 
15s). Nesse intervalo, Davi casou-se duas vezes (c. 25,42s);
presumivelmente, em ambos os casos na esperança de fortalecer
sua posição pela aliança com famílias influentes. Mas sua
posição era, de fato, insustentável. Encurralado entre os filisteus
e Saul, junto a uma população cuja maioria — ou porque “sen-
tisse” as imposições de Saul, ou porque fosse leal a ele, ou
porque temesse represálias — o considerava um incômodo ou
coisa pior (cc. 23,12;25,10;26,1), Davi viu-se logo numa situação desesperadora. Assim, pegou seus homens, agora seiscentos,
e passou para o lado de Aquis, rei de Gat, oferecendo-lhe seus
serviços (c. 27,1-4) [24].

O rei filisteu, encantado com esta reviravolta, recebeu-o
cordialmente, aceitou-o como vassalo e deu-lhe a cidade de
Siclag (de localização incerta, mas no Negeb de Judá) como
propriedade feudal. Daí, Aquis naturalmente esperava que Davi
causasse o maior problema possível a Israel. Mas Davi, intimamente, não era traidor. E, não desejando que seus compatriotas pensassem isso dele, continuou a fazer um jogo duplo.
Enquanto convencia Aquis, com falsas notícias, de que estava
fazendo incursões contra Judá, na realidade, ele dedicava-se
a saquear os amalecitas e outras tribos ao sul do deserto, cujas
incursões sempre assolavam os clãs israelitas das vizinhanças 
(ISm 27,8-12). Deste modo, e por uma criteriosa distribuição
de despojos entre os clãs estratégicos e cidades no Negeb de
Judá (c. 30,26-31), ele foi capaz de convencer seu povo de
que ainda era seu leal protetor e amigo. Entrementes, sem
dúvida, a força militar de Davi continuava a crescer.[25]

d. A morte de Saul. — O fim de Saul chegou poucos anos
depois dele ter afastado Davi[26]. A guerra com os filisteus,
entretanto, tinha ficado para trás. Saul, obcecado com a idéia
de capturar Davi, não estava em condições de tomar uma iniciativa, enquanto que os filisteus, relutantes em arriscar suas
forças numa nova invasão das montanhas, esperavam uma
chance para o golpe decisivo. Esta chance chegou logo. Não
muito depois da deserção de Davi, e talvez encorajados por ela,
os filisteus reuniram suas tropas em Afec, numa reprodução
de sua vitória sobre Israel uma geração antes. Mas, ao invés
de estenderem-se para as colinas ou esperar o ataque onde
estavam, marcharam para o norte, ao longo da costa, em
direção à planície de Esdrelon. Saul rumou para o norte a fim
de encontrá-los, e acampou ao pé do monte Gelboé (ISm
28,4;29,1).


A tática dos filisteus era compreensível. O caminho para
Esdrelon estava sob seu controle e, ao longo dele, eles podiam
contar com o apoio dos Povos do Mar e cidades-estados canaanitas a eles aliadas. Ademais, oferecia terreno sobre o qual
seus carros de combate podiam manobrar (2Sm 1,6), juntamente com a possibilidade de interceptar Saul, que vinha das
tribos Galiléias para o norte. Não se sabe ao certo porque
Saul se deixou levar para combater em tal lugar. Possivelmente ele tivesse simplesmente chegado ao ponto do desespero,
e já estivesse disposto a jogar a última cartada[27].


A batalha estava perdida antes mesmo do encontro. Certamente, o trágico Saul sabia disso; conforme a tradição (lSm 
28), o espírito de Samuel, que tinha morrido há muito tempo,
invocado para ele por uma nigromante de Endor, lho havia
dito. Mas Saul não podia voltar atrás, mesmo porque nunca
fora uma pessoa a quem faltasse coragem. O resultado foi
desastroso (c. 31): as forças israelitas foram totalmente arra-
sadas, os três filhos de Saul foram mortos e Saul, gravemente
ferido, tirou sua própria vida. Quando os filisteus encontraram
o corpo de Saul, cortaram-lhe a cabeça e penduraram-na, juntamente ccm os corpos dos seus filhos, nos muros de Beth-shan.
Mais tarde, os habitantes de Jabes-Galaad, movidos por imortal gratidão para com Saul, roubaram os corpos, saíram às
escondidas, colocando em risco suas próprias vidas, e deram-lhes uma sepultura decente. Quanto a Davi, não tomou parte
nisto, porque os senhores filisteus não acreditavam nele e
mandaram-no para sua terra (c. 29). Foi uma bênção para
Davi. O que ele teria feito, lutando contra seu próprio povo,
nós nunca saberemos.


Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.

[1] Sobre todo este capítulo, cf. especialmente A. Alt, The formation of the Israelite State in Palestine, 930), in Essays on Old Testament History and Religion, Trad. ingl.: Basil Blackwell & Mott, Ltd., Oxford, 1966, pp. 171-237. Outros estudos recentes incluem: O. Eissfeldt, The Hebrew Kingdom, in CAH, II: 34 (1965); J. A. Soggin, Das Königtum in Israel, in BZAW, 104 (1967; G. Buccellati, Cities and Nations of Ancient Syria, Instituto di Studi dei Vicino Oriente, Roma, 1967. 


[2] Para análise das fontes, veja os comentários; v. também L.
Rost, Die Ueberlieferung von der Tkronnachfolge Davids (1926) —
reedição, in Das Kleine Credo and andere Studien zum Alten Testa-
ment, Quelle & Meyer, Heildeberg, 1965, pp. 119-253; M. Noth,
Ueberlieferungsgeschichtliche Studien 1, M. Niemeyer, Halle, 1943, pp.
61-72; e também R. N. Whybray, The Succession Narrative, SCM Press,
Ltd., Londres, 1968. 

[3] A armadura de Golias (lSm 17,5-7) era, provavelmente, incomum
apenas no seu tamanho. A arma ofensiva descrita (a lança) era revestida
com ferro. Quanto à sua espada, não havia “nenhuma igual” (lSm
21,9). Sobre as armas dos filisteus, cf. Y. Yadin, The Art of Warfare
in Biblical Lands, McGraw-Hill Book Company, Inc., 1963, Vol. II.
pp. 248-253, 336-345, 354ss.

4. Os filisteus devem ter adotado a biga dos canaanitas por ocasião de seu aparecimento. Mas, uma vez que, de acordo com Y. Yadin
{ibid., p. 250), eles a usavam como arma, seguindo o costume dos
hititas (três homens para cada biga, ao invés de dois; grupos armados
de lança, mas não de arco), é provável que eles já a conhecessem anteriormente.

[5] Parece não haver nenhuma evidência arqueológica desta destruição, como se pensava antigamente; cf. a obra de Marie-Louise Buhl e S. Holm-Nielsen citada no c. 4, nota 57. Mas, em vista de Jr 7,12ss (cf. 26,6) e SI 78,60ss, que parecem se referir claramente a este acontecimento, pode haver pouca dúvida de que o centro tribal foi destruído. Embora Silo existisse nos dias da monarquia dividida, não desempenhou nenhum papel posterior na história de Israel. 

[6] O instrumento de ferro de data mais antiga é a ponta de um arado de Gábaa, dos tempos de Saul; cf. G. E. Wright, in JBL, LX (1941), pp. 36ss; v. também L. A. Sinclair, in BA, XXVII (1964), pp. 55-57. 

[7] Cf. lSm 7,lss; 2Sm c. 6. Saul não tinha a Arca; leia "éfod”
em lugar de “arca” em lSm 14,18, com LXX, como concordam os
comentadores.

3 Ao êxtase não deve ser atribuída uma origem canaanita, como
muitas vezes se supôs. Pessoas arrebatadas em êxtase aparecem nos
textos de Mari, onde se pode encontrar os paralelos conhecidos, mais
próximos da profecia, em Israel: cf. acima, p. 114, nota 39, e as
obras lá relacionadas.

[9] Samuel deve com justiça ser considerado o fundador do movimento profético em Israel; cf. W. F. Albright, Samuel and the Beginnings of the Prophetic Movement in Israel (The Goldenson Lecture for 1961; Hebrew Union College Press); idem, in YGC, pp. 181-189. A missão profética era uma continuidade da missão dos juizes carismáticos. 


[10] ISm 8, fornece um quadro autêntico da realeza feudal canaanita,
certamente de uma época que não deve ser considerada tardia; cf. I.
Mendelsonn, in BASOR, 143 (1956), pp. 17-22. Para uma avaliação
ponderada das tradições, cf. A. Weisser, Samuel: seine geschichtliche
Aufgabe und religiöse Bedeutung, in FRLANT, 81 (1962).

[11] Não é necessário colocar este incidente depois da vitória de Saul sobre os filisteus (por exemplo, A. Lods, Israel, Alfred A. Knopf, Inc., 1932, p. 354). O controle filisteu não era rígido; Bezek (Khirbet Ibzíq, entre Siquém e Betsan), onde teve lugar o reagrupamento (v. 8), situava-se provavelmente fora de zona efetiva de ocupação. 

[12] Mt coloca este encontro em Gega (Jeba‘), a nordeste de Gábaa e ao sul do passo de Macmas. LXX, entretanto, coloca-o na própria Gábaa. Os nomes são tão semelhantes e tão freqüentemente confusos que é impossível dizer qual está correto. 

[13] Não sabemos nada das guerras com Edom, Moab e Sobac mencionadas em lSm 14,47. Mas não há nada improvável na afirmação;
cf. M. F. Unger, Israel and the Arameans of Damascus, James Clarke &
Company, Ltd., Londres, 1957, pp. 43ss.

[14] Cf. K. D. Schunck, Benjamín, in BZAW, 86 (1963), pp. 131-138, que acredita que Saul desejava fazer de Gabaon sua capital. 

[15] Cf. Alt, o.c. pp. 199-202; Noth, in Hl, p. 171. Mas sabemos muito pouco sobre esses Estados para termos certeza — embora pareça que Edom resistiu ao princípio dinástico por gerações (cf. Gn 36, 31-39). 
[16] A nossa visão do reinado de Saul segue geralmente a de Alt,
{o.e., pp. 183-205). Outros o vêem com caráter mais institucional; por
exemplo, W. Beyerlin, Das Königscharisma bei Saul, in ZAW, 73 (1961),
pp. 186-201. Mas embora não haja dúvida de que as tendências institucionais começam a se manifestar no reinado de Saul, o fato não representava no começo nenhum rompimento violento com o passado; cf. J. A.
Soggin, Charisma und Institution im Königtum Sauls, in ZAW, 75
(1963), pp. 54-65. 

[17] Qualquer que seja a etimologia da palavra, esta parece ter sido a sua significação no uso real, cf. ALBRIGHT, Samuel (na nota 9), pp. 15ss; BP, pp. 47ss. Ela aparece com esta força nos tratados de Sefire do século oitavo; cf. I. A. FITZMYER, 'The Aramaic Inscriptions of Sefire Pont. löst. Bíblico, Roma, 1967, pp. 112ss. 
[18] Aharoni, in LOB, pp. 255-257, vê nas áreas mencionadas em
2Sm 2,8ss cinco distritos administrativos estabelecidos por Saul, mas isto
parece um tanto incerto.

[19] Não está inteiramente claro se Abner era primo ou tio de Saul,
embora esta última suposição possa ser preferível, cf. A. Malamat, in
JAOS, 88 (1968), p. 171.
[20] Cf. Wright, in BAR, p. 122ss para uma breve descrição. Sobre
a história desta fortaleza, cf. L. A. Sinclair, in AASOR, XXXIV, XXXV
(1960), pp. 1-52; ident, in BA, XXVII (1964), pp. 52-64. E, com
algumas modificações à luz de explorações mais recentes P. W. Lapp,
in BA, XXVIII (1965), pp. 2-10.

[21] ISm 17,1 a 18,2 não se pode harmonizar com o que aparece no
c. 16,14-23 (no c. 17,55-58, Davi é um desconhecido para Saul e os
que o cercam, embora de acordo com o c. 16,14-23, ele tenha estado
na casa do rei). Mas o trecho mais curto de LXXB (somente o c. 17,
1-11,32-40,42-49,51-54) remove a maior parte das inconsistências (cf.
especialmente F. R. Driver, Notes on the Hebreu) Text of the Books of
Samuel, Clarendon Press, 2? ed., Oxford, 1913, pp. 137-151); c. 16,
14-23 e a forma original dos cc. 17,1 a 18,5 podem ter formado uma
narrativa contínua.

[22] Cf. A. M. Honeyman, in JBL, LXVII (1948), pp. 23ss L. M.
VON PÁKOZDY, in ZAW, 68 (1957), pp. 257-259. Em 2Sm 21,19, o pai
de Elcanan é Jair, o belemita; mas ’oregim é uma ditografia clara, enquanto
que ya’aré, que não deve estar correto, pode ser uma corruptela de
yisbai (Jesse). Para outras explicações do nome de Davi cf. J. J.
Stamm, in VT, Suppl., Vol. VII (1960), pp. 165-183; D. R. Ap-Thomas,
VT, XI (1961), pp. 241-245.

[23] LXXB novamente oferece um texto menor de lSm c. 18 (cf. Driver, o.c., pp. 151-155), omitindo a promessa que Saul fizera a Davi de lhe dar sua filha Merab (vv. 17-19.21b), mas incluindo o casamento de Davi com Mical. Não há razão para se duvidar do caráter histórico deste incidente, como o faz Noth, (in Hl, p. 184, nota 1). 

[24] A localização de Gat é incerta. Discussões recentes incluem
Aharoni, in LOB, pp. 250ss; Hanna E. Kassis, in JBL, LXXXIV (1965),
pp. 259-271; G. E. Wright, in BA, XXIX (1966), pp. 78-86. Questio-
nou-se (Kassis, Wright) que Aquis não era um dos cinco senhores filisteus, mas apenas um régulo. Esta suposição pode estar certa, embora
eu não esteja convencido de que a linguagem de ISm c. 29 exija esta
conclusão. 

[25] As listas de lCr 12,1-22, embora se apoiando em tradição antiga,
são difíceis de ser avaliadas; cf. W. Rudolph, Chronikbücher, in HAT (1955), pp. 103-107. Entretanto, não se pode duvidar que tenha havido
mais deserções de Saul, uma vez que suas irritações e suspeitas continuaram a afastar os seus seguidores. 

[26] Talvez três ou quatro anos fora; a permanência de Davi na Filistéia foi somente de pouco mais de um ano (ISm 27,7), e seus dias de exílio, talvez dois ou três anos (?). 

[27] C. E., Hauer, in CBQ, XXI (1969), pp. 153-167, acredita que
Saul foi o agressor; ele estava tentando, de acordo com sua estratégica
geral, consolidar as tribos da Galiléia dentro do seu reino e, ao agir
desta maneira, cortara ou ameaçara cortar as vias de acesso dos filisteus
às suas guarnições em Beth-shan e outras partes, provocando assim a
reação dos filisteus. Faltam-nos informações para decidir a questão. Mas
o fato de Saul ter-se deixado levar a combater em terreno desfavorável
e com todas as probabilidades de derrota sugere uma medida de
desespero.