17 de julho de 2015

Gerard Van Groningen: As Profecias de Balaão

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As Profecias de Balaão

O caráter profético de Balaão tem sido extensamente discutido. Walther Eichrodt encontrou uma demonstração palpável de clarividência no adivinho e sugere que ele seja considerado um representante da atividade profética primitiva que, com o tempo, se desenvolveu no movimento profético clássico.[1] Os textos bíblicos apresentam Balaão como um homem que recebeu uma visão de Yahwéh e falou a mensagem dessa visão,[2] todavia, que foi também envol­vido numa intriga diplomática. Balaão é um caso claro de duplicidade: falou a palavra de Yahwéh, entretanto, também colocou-se ao serviço do inimigo do povo de Yahwéh.

Dificuldades Textuais

O texto bíblico apresenta um relato histórico incluindo conversações entre Balaão e os emissários de Balaque (Nm 22.7-20), Balaão e o anjo do Senhor (22.31-35), Balaão e sua jumenta (22.28-30), Balaão e Balaque, e as profecias que Balaão pronunciou em relação a Israel. Porque o texto contém esses diversos elementos muitos críticos têm tentado descobrir várias fontes originais e vários modos pelos quais editores supostamente tentaram fazer uma história integra­da, consistente, desses componentes diversos.[3] O texto contém algumas pala­vras e expressões difíceis, a maioria das quais aparece no último oráculo, que será discutido a seguir.[4]

O presente texto apresenta um relato do que aconteceu sem o conhecimento dos israelitas. Serve como fundo para explicar por que as filhas de Moabe foram tão "amistosas" para com os filhos de Israel (cf. Nm 25.1,2), e as tristes conseqüências dessa "amizade" (cf. Nm 25.3-9). A Escritura, nas referências a Balaão, suas profecias e seu conselho aos moabitas, não deixa nenhum lugar para incerteza em relação a sua veracidade.[5] A referida passagem é uma parte integral do relato dos estágios finais da marcha de Israel para sua herança. A passagem em si mesma é um relato de movimento rápido, em que cada parte leva, de modo vital, ao episódio seguinte. Está escrito com tal finura que já se sugeriu que poderia ser desenvolvida como um drama de diversos atos.[6]

Considerações Contextuais

O capítulo precedente, Nm 21, apresenta um relato vívido sobre por que Balaque e seu povo estavam com medo. O exército do rei de Arade (a oeste da parte sul do Mar Salgado) fora derrotado e destruído (21.1-3). Os israelitas, ao invés de avançar para o norte, para dentro da Canaã ocidental, viajaram para leste, seguindo as fronteiras de Edom e Moabe, e depois voltaram-se para o norte, ao longo da fronteira oriental de Moabe (21.10-20). Vindo para o centro- sul da Canaã oriental, Moisés guiou os israelitas à vitória sobre Sion, rei dos amorreus, em Hesbon (21.23-32). Eles foram vitoriosos também sobre Basã, ao norte de Hesbon (21.33-35). Em seu cântico de vitória Israel exclamou: "Ai de ti, Moabe!" (21.29). E Israel, depois dessas vitórias, tomou posse das terras conquistadas e acampou junto às planícies ao norte de Moabe!

Balaque tinha toda razão de estar ansioso por causa de seu reino. Nenhuma nação tinha detido Israel em sua marcha para a frente. A espada de Balaque também não o poderia fazer, como ele muito bem sabia (Nm 22.4). O rei cometeu, então, um erro muito sério: voltou-se para a adivinhação e a maldição (22.6-7). Assim fazendo, chamou maldição sobre si mesmo e sobre os moabitas, pois o Senhor tinha prometido a Abraão que ele "amaldiçoaria os que o amaldiçoassem" (Gn 12.3).

Balaque chamou Balaão para amaldiçoar Israel, mas o habitante de Petor, perto do rio Eufrates, foi instruído pelo Senhor a não ir e não amaldiçoar um povo abençoado (Nm 22.12). Balaão, depois de um segundo convite, foi, mas para falar exclusivamente a palavra que Yahwéh lhe transmitira (22.20). Yahwéh, como o anjo do Senhor, entretanto, confrontou Balaão três vezes, e em cada vez sua besta de carga "viu" o anjo: primeiro, quando bloqueou o caminho e fez que o animal saísse da estrada (v. 23); segundo, quando se colocou numa estreita vereda entre dois campos (v. 24); e terceiro, ao cercar o animal e seu cavaleiro, sem deixar nenhum espaço para que escapassem (v. 26).[7] O anjo do Senhor agia como antes, protegendo o povo de Israel e tornando-se um adversário de Balaque e Balaão. (22.32).

Balaão, tendo sido trazido aos "lugares altos de Baal" (Nm 22.41), pediu sete altares e o sacrifício de sete novilhos e sete carneiros (23.1). Balaão compreen­deu que, se fosse receber instruções do Senhor, recebê-las-ia no contexto do sacrifício (23.3). Por uma terceira vez Yahwéh instruiu Balaão para só falar aquelas palavras que Ele lhe diria (23.5).

Quatro vezes Balaão tomou a palavra.[8] Na primeira vez ele disse que o pedido de Balaque para amaldiçoar e denunciar era contrário às bênçãos de Deus. Israel está seguro como colinas ou montanhas, separado, numeroso como o pó da terra, e íntegro (23.7-10).[9] Balaão então falou no monte Pisga: Deus é fiel e verdadeiro em sua palavra; o povo que Ele trouxe do Egito será como um leão na terra (23.18-24).[10] No monte Peor Balaão disse que "aquele que ouve...Deus, que vê a visão do Todo-poderoso", sabe que Ele fez Israel próspero, vitorioso e uma força na terra (24.4-9).[11] A ira crescente de Balaque não impediu Balaão de falar uma vez mais. Balaão insistiu que ele conhecia a palavra de Deus como uma palavra de preeminência real e de vitória para Israel e isso por meio de um que viria de Israel (24.15-19).[12] Antes de partir, Balaão pronunciou profecias de julgamento contra os povos circunvizinhos, principalmente contra os amalequitas (w. 20,24) e queneus (v. 21), e aconse­lhou Balaque sobre um meio efetivo de destruir Israel: por meio da prostituição física e espiritual (cf. 31.16).

A Mensagem Proclamada

A mensagem das profecias de Balaão é que o reino de Yahwéh está presente, é efetivo e permeia tudo. Isso quer dizer que seu reino teocrático está totalmen­te sob sua autoridade, poder, direção e proteção. Seu reino inclui o governo completo sobre as diversas nações do mundo: Moabe (24.17), Edom (v. 18), Egito (v. 8), Amaleque (w. 20,24), os queneus (v. 22) e Chipre ou Quitim (v. 24), bem como todas as dimensões do cosmos criado (p. ex., 24.6,7). Mágica, adivinhação e todos os outros meios de falsa profecia podem facilmente ser desfeitos pelo soberano Senhor. De fato, Ele faz que as vultosas potencialidades humanas sirvam à causa da verdadeira profecia, a despeito da pressão da recompensa monetária, das preferências de Balaão e das promessas de Bala­que. Yahwéh reina soberanamente sobre reis e profetas e obriga-os a se colocarem a seu serviço e a serviço de Israel.

A mensagem desta passagem inclui a bendita verdade de que os planos e propósitos de Yahwéh não serão frustrados ou tomados inefectivos. Pelo contrário, seu plano, conforme afirmado nas promessas pactuais feitas aos patriarcas, será levado adiante. A semente de Abraão será abençoada, numerosa, herdará a terra, prosperará e será um meio de bênçãos ou maldições pactuais entre as diversas nações. Israel, como um reino de sacerdotes, conti­nuará a existir e a servir como nação sacerdotal entre todos os povos da terra. Israel, como uma nação santa, proclamará e demonstrará a vontade do Sobe­rano do céu e da terra a todos os povos, línguas e nações. A maldição que Balaque de Moabe desejou lançar sobre Israel provar-se-á, no final, ser maldi­ção sobre ele próprio e sobre o povo que ele governa.

O clímax da passagem bíblica é atingido quando Balaão fala daquele que há de vir (Nm 24.15-19). Essa importante passagem requer análise cuidadosa, não só por causa dos críticos que levantaram questões a respeito do texto,[13] mas também por causa das várias interpretações de seu conteúdo. No centro das dificuldades textuais estão as seguintes quatro questões: Há referência aqui somente a Israel? a um rei ideal? a uma pessoa régia emergindo de Israel? a uma pessoa distintamente messiânica? Estas questões foram e ainda são levantadas por causa da pergunta básica: Trata-se aqui de uma profecia messiânica?[14]

A parábola que Balaão proferiu é referida como um "oráculo" ou "profecia" que ele recebeu com "olhos abertos", ouvindo as próprias palavras de Deus e recebendo o conhecimento do "Altíssimo" ('elyôn) (24.15,16). Ele recebeu-a através de uma visão do Todo-Poderoso (Sadday). Balaão insiste em que o que vai falar não são seus próprios pensamentos; ele vai proferir apenas o que lhe foi dado em visão.[15] Isso deve ser mantido em mente quando se consideram as referências temporais e espaciais no oráculo, porque uma visão não limita seu foco a uma seqüência normal de tempo e a limitações de espaço.

Movendo-nos para o v. 17, os dois verbos rã’â (ver) e Sûr (olhar ou contemplar), enquanto sinônimos, dão uma ênfase específica: ver pertence à atividade geral, normal, praticada pelos olhos, e contemplar acrescenta a idéia de considerar o que se vê. Balaão, assim, não tem um olhar superficial ou uma impressão fugaz. Sua mensagem, incluindo personalidades, eventos e referên­cias de espaço e tempo, é claramente apreendida. Balaão teve a responsabili­dade e privilégio de articular a verdade como Deus lhe deu nessa forma visionária.

Uma questão muito debatida é: A quem Balaão se refere por "ele"? Quem ele vê claramente, mas "não agora" ('attâ)? Para quem ele olha com cuidado e que não está perto (qãrôb)? O seu contexto é definido: Balaque levou Balaão a pontos dos quais ele poderia ver pelo menos uma parte do povo de Israel ("a parte mais próxima", em 22.41; 23.13) e todo Israel acampado, tribo por tribo (24.2). Assim, a cena do acampamento hebreu estava dentro da visão que Balaão teve e por meio da qual Deus lhe transmitiu a mensagem que ele proferiu. Mas havia dimensões acrescentadas—o "não agora" (tempo) e o "não de perto" (espaço). A possibilidade de o "ele" ter mais de uma referência está claramente incluída no texto.

As duas frases que se seguem têm os substantivos estrela e cetro e os verbos proceder (sair) e subir.[16] O futuro, o além do tempo e do lugar presentes, é referido por Balaão. Mantendo o povo acampado em seu olhar, ele viu-o também além daquele tempo, daquele lugar, e no cenário da visão aparecem a estrela e o cetro. Ambos aparecem, procedem e sobem com o povo presentemen­te acampado. A estrela é, sem dúvida, um símbolo da realeza,[17] assim como o é o cetro.[18] Assim, o pronome pessoal da cláusula precedente[19] refere-se a uma figura real que é parte do povo, mas distinto do povo inteiro. Yahwéh prome­tera a Abraão que isso aconteceria no futuro (Gn 17.6,7); na visão que Deus lhe deu Balaão viu isto acontecer. Sem dúvida, a referência é à casa real de Davi.[20]

O povo de Israel e seu futuro rei não serão destruídos ou mesmo prejudi­cados por essa e qualquer maldição ou por qualquer forma de magia ou adivinhação. Eles, que têm a promessa de bênçãos e que provaram muitas delas, especialmente em sua recente libertação do Egito e no cuidado pastoral de Yahwéh no deserto, serão um povo vitorioso. Eles são invencíveis. O primeiro povo a experimentar isso no oráculo final de Balaão é Moabe; o amaldiçoador será amaldiçoado (cf. Gn 12.3). As têmporas e a testa de Moabe serão esmagadas (mahàs). Os termos se referem simbolicamente às fronteiras e/ou às linhas de defesa de um país. A mensagem é clara: Moabe será amaldiçoado, seu país será esmagado e Israel será vitorioso.

A invencibilidade de Israel e de seu futuro rei estender-se-á além de Moabe: Os filhos de "Sete",[21]"confusão", "tumulto", isto é, todos aqueles que causam perturbação e confusão ficarão também debaixo da maldição do pacto abraâmico. Balaão prossegue indicando a identidade dos filhos da confusão: Edom (v. 18), Amaleque (v. 20), os queneus (v. 21) e Quitim (v. 24).

A mensagem que Balaão proclamou é clara e definida. O reino de Yahwéh, o plano do pacto e as promessas não serão confundidos nem frustrados. Suas promessas estão de pé; sua palavra será executada; suas metas serão atingidas. Israel herdará a Terra Prometida; nações cairão diante de seus guerreiros. E Yahwéh dará liderança e vitória por meio de uma pessoa real por Ele nomeada.



A Resposta

Os israelitas, que não ouviram nenhum dos quatro oráculos de Balaão, não deram uma resposta direta. Mas eles conheciam a mensagem que Balaão proclamou em relação a eles, porque ela lhes havia sido revelada em outros contextos (possivelmente Nm 31.8 e Js 13.22 mostrem a razão de sua ira contra suas palavras). Se estavam conscientes de suas palavras e obedientes a elas é outra história. Se o fossem, não teriam desposado mulheres moabitas, que os levaram aos sacrifícios pagãos (Nm 25.1-3).

A Bíblia registra a resposta de Balaão a suas próprias bênçãos acerca de Israel. Em seu primeiro encontro com Balaque, Balaão retrucou: "Porventura não terei cuidado de falar o que o Senhor pôs na minha boca?" (Nm 23.12). No segundo encontro ele quase se repetiu: "Não te disse eu: tudo o que o Senhor falar, isso farei?" (v. 26). No terceiro e último encontro Balaão explicou a Balaque: não podia fazer coisa alguma de si próprio, exceto dar voz à mensa­gem do Senhor (24.13). Como profeta trazido ao serviço de Deus, ele tinha de aquiescer à sua vontade e poder. Como conselheiro diplomático, não estava convencido de que as próprias palavras de Yahwéh sobre Israel tivessem de ser levadas adiante. Justamente antes de retomar a sua casa, Balaão indicou a Balaque: se os homens israelitas desposassem mulheres moabitas, poderiam ser persuadidos a participar dos sacrifícios pagãos. Sua observação provou-se verdadeira (Nm 25.1-3).

Além disso, a Bíblia registra a resposta de Balaque aos oráculos de Balaão. Depois do primeiro oráculo, ele sente-se frustrado porque Balaão, a quem ele prometera uma considerável recompensa, não cumpriu o prometido (Nm 23.11). Depois do segundo oráculo, ele observou que as difusas palavras de Balaão não continham nem bênção nem maldição (23.25). Depois de ouvir o terceiro oráculo de Balaão, Balaque ficou enfurecido e acusou Deus de privar o adivinho de receber a recompensa, ordenando que ele se fosse imediatamente (24.10,11). Depois do oráculo final de Balaão, os dois homens separaram-se (24.25). O rei moabita compreendeu a mensagem de Balaão: Israel, o inimigo de seu povo, seria abençoado; Israel seria vitorioso; e uma pessoa real de Israel, não de Moabe, teria o domínio.

Pode-se somente concluir dessa discutida passagem que a real palavra de Yahwéh proclamada, mesmo por uma boca de má vontade a um coração rebelde, resultou em aceitação às ordens de Yahwéh. Essa aceitação, entretanto, não produziu obediência, submissão e aquiescência voluntária.

Há certos aspectos do conceito messiânico incluídos nesta mesma passagem.

O anjo do Senhor tem um papel dominante no relato (Nm 22.22-40). Suas funções, advertir e instruir Balaão, e através disso proteger Israel como um pastor protege seu rebanho, são consistentes com a personalidade, presença e função do anjo do Senhor, conforme registros em passagens anteriores.[22]

Israel, o "reino de sacerdotes" e a "nação santa" (Êx 19.6), existindo, funcio­nando e adorando como uma teocracia, é apresentado num papel messiânico, isto é, messiânico em sua dimensão mais ampla, como um agente de julgamen­to sobre aquelas nações circunvizinhas que procuraram amaldiçoar ou mesmo destruir Israel. A semente de Abraão tinha a tarefa messiânica de ser uma bênção para todas essas nações (cf. Gn 123) e um instrumento de julgamento sobre os oponentes de Yahwéh e de Israel.

O ser real que deve surgir como estrela-guia, portador de luz, precursor do novo dia e o governante com autoridade, enviado por Yahwéh, e a Ele sujeito, tem características messiânicas definidas tanto no aspecto estrito quanto no amplo do conceito messiânico. Ele é uma pessoa real, que exerce domínio, traz paz e segurança para o povo de Yahwéh e julgamento sobre aqueles que se opõem aos propósitos de Yahwéh. Sua tarefa, a dimensão ampla, inclui tudo o que está envolvido na obra do futuro Messias como uma pessoa régia.

A pergunta — Balaão profetizou em relação diretamente ao Messias por vir, o Cristo do Novo Testamento? — tem sido respondida de três modos. (1) Não, Balaão não o fez. Ele usou símbolos que foram, na era cristã, aplicados a Jesus de Nazaré.[23] (2) Balaão foi levado pelo Senhor a referir-se especificamente à casa real que havia de surgir em Israel, ou seja, a Davi. Davi derrotou essas nações referidas (2 Sm 8.1-10; 10.6-19) e cumpriu tudo o que é dito do Rei.[24] Ele, entretanto, representa apenas um estágio no cumprimento das promessas do redentor que virá. (3) Balaão, inconsciente do que estava dizendo, profeti­zou a respeito do futuro Messias. Ele não usou o termo Messias; porém os símbolos escolhidos, os próprios conceitos expressos e as funções atribuídas àquele que viria são todos evidências de uma profecia diretamente relacionada com Cristo.[25]

Deve-se notar que nenhuma dessas três respostas pode ser rejeitada de antemão. Os cristãos na era do Novo Testamento foram prontos em usar os símbolos de Balaão. O Novo Testamento mesmo levou-os a isso (Mt 2.2-10; Hb 1.8; 2 Pe 1.19; Ap 22.16). Visto que Balaão recebeu sua mensagem numa visão, não há qualquer dificuldade em ver as várias perspectivas que Yahwéh pôs diante do adivinho e diante do leitor do Velho Testamento. Embora os israelitas acampados estejam no primeiro plano, o rei que surgirá de Israel está em cena, porém distante — além, acima e, em certo sentido, penetrando toda a cena da visão e sua mensagem, está o invencível Redentor prometido, o Juiz e Pastor ou seja, o próprio Messias.



Perspectivas Escatológicas

Há várias perspectivas nos oráculos de Balaão: a imediata, a mediata e o futuro distante. Como se diz freqüentemente, a escatologia é inseparável da profecia messiânica. Por meio de uma pessoa messiânica e de obras messiânicas realizadas, o eschaton, como determinado por Yahwéh, será realizado. Essa realização virá passo a passo, à medida que o processo histórico continua, as promessas de Yahwéh vão sendo cumpridas e seu propósito desdobrado.






[1] Eichrodt, Theology of the Old Testament, 1.296-297,322-324. Butzer considera Balaão um dos "problemas mais estonteantes de toda a literatura" (Numbers, em IB, 2248), mas acaba concluindo que ele era um homem de "profunda sinceridade" e "da maior integridade", "totalmente comprometido" com ser o porta-voz de Deus (p. 250). Butzer inclina-se para o ponto de vista de James Black, expresso em Rogues in the Bible, de que havia dois homens chamados Balaão: um, o da história bíblica, e o outro, um embusteiro que pretendia destruir Israel. Ele é freqüentemente referido como um mágico pagão. Para uma revisão completa dos pontos de vista a respeito de Balaão ver Willem H. Gispen, Het Boek Numeri, em Commentaar op het oude Testament, 2 vols. (Kok: Kampen, 1964), 2.65-72. Embora haja somente uns poucos estudos especiais sobre Balaão e suas profecias, há duas obras representativas: J. Knap, Bilearm toepasselifke Verklaríng zijnerProfetieên (Kampen: Kok, 1929); e E. L. Langston, The Prophecies of Balaam, or the Pathway to the Fullness of Blessing for Israel and the Church (Londres: Marshall, 1937). 


[2] Vos, Biblical Theology, p. 239. 


[3] Assim, Marsh e Butzer (Numbers, em IB, 2.247-262). Calvin Seer veld resumiu as pressuposições, os métodos e conclusões dos críticos e mostrou que eles despojam o texto de seu conteúdo e mensagem (ver Balaam's Apocalyptic Prophecies (Toronto: Wedge, 1980), pp. 19-26,35-42). Gispen apresenta uma análise erudita e uma refutação crítica das abordagens, métodos e conclusões dos críticos. William F. Albright, dando pouca atenção a fontes, trabalhou com os materiais disponíveis sobre os estudos das línguas semíticas norte-ocidentais. Concluiu que Balaão era uma pessoa histórica e que os oráculos atribuídos a ele são autênticos (ver "The Oracles of Balaam", JBL 73 (1944);207-233). 


[4] Um exemplo de frase que levanta muita discussão é mttber lèyarcfèn ("de além do Jordão", em Nm 22.1; KJV tem "deste lado do Jordão", significando o lado leste do rio (cf. NIV). 


[5] Para Pedro, o caminho de Balaão era impiedade (2 Pe 2.15), uma interpretação que ele partilhava com Judas (Jd 11). Em Ap 2,14 a igreja de Pérgamo é censurada pela propagação da "doutrina de Balaão" que induziu os israelitas ao pecado pelo fato de comerem carne sacrificada aos ídolos e cometerem imoralidade sexual. 


[6] Butzer, Numbers, em IB, 2.247. 


[7] A fala da jumenta (v v. 28-30), um pormenor vital no relato, ressalta a urgência do conselho de Deus a Balaão para não prosseguir, mas não deve ser considerada parte integral do plano de Yahwéh para proteger seu povo. 


[8] MãSâl, traduzido como "parábola" (cf. KJV)/ "provérbio" ou "dito de sabedoria" (cf. KoB, p. 576), tem sido preferentemente traduzido como "oráculo" (NIV) ou "profecia", embora alguns insistam em falar de "poema". 


[9] A promessa de Yahwéh a Abraão (Gn 12.2-3; 155,13,14) é repetida (Cf. Charles Briggs, MessianicProphecy (New York: Scribner, 1886/1902), pp. 104,105). 


[10] Aa próprias palavras de Yahwéh por meio de Jacó, mencionadas na bênção de Jacó (Gn 49) são reiteradas. 


[11] São reafirmadas as exatas palavras de Yahwéh a Abraão e por meio de Jacó, bem como algumas das prctnessas a Israel por meio de Moisés. 


51. Antigas profecias messiânicas são lembradas. 


[13] Marsh, Numbers, em IB, 2 261, fala das dificuldades do poema e sugere uma 'ligeira" emenda textual; segue nisto a George B. Gray (Criticai and Exegetical Commentary on Numbers, ICC, [New York: Scribner, 1903], p. 371). 


[14] Para uma discussão dessas quatro perguntas e fontes adicionais ver Ernst Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, 1.98-103; KD, 3.271-274; Raphaël Patai ( TheMessiah Texts (New York: Avon, 1979), pp. 8,172,173/ que nota que ônkelos, escrito um século depois do erudito judeu Filo, colocou o termo "Messias" em lugar de '"cetro'''; e A. Noordzy, Numeri(Kampen: Kok, 1957), pp.271-274. 


[15] As próprias palavras de abertura de seu terceiro oráculo (Nm 24.4) asseguram que ele está falando palavras de Deus, por usar as mesmas frases. Moisés escreveu que Balaão falou essas palavras sob a influência do "Espírito de Deus" (24.2). 


[16] Ambos os verbos — dãrak (sair) e qâm (levantar, subir) — estão no tempo perfeito, mas seguindo o verbo precedente que está no imperfeito, IMrdk, entretanto, não tem o vav consecutivo (enquanto qúm tem). Nessa estrutura poética há algumas irregularidades gramaticais. Todas as traduções e a maioria dos comentadores traduzem como se ambos os verbos estejam controlados pelo va^consecutivo, 


[17] Há acordo universal sobre isto (cf. Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, 1.99; KD, Nm 22.17; e Marsh, Numbers, em IB, 2.261). 


[18] Cf. nossa discussão de Gn 49.10 no cap. 6, subtítulo; "A Bênção de Jacó". 


[19] “Vê-/o-ei...contemplá-A>ei'' (n.t). 


[20] Davi cumpriu esta profecia. 


[21] èet é difícil de definir-se precisamente; tem sido traduzido como "desafio" (KoB, p. 1014), "fanfarrões barulhentos" (NIV, mg.), "filhos da contenda" (Philip J. Budd, Numbers, em WBC(1984), p. 256, e também "Sete" (o filho de Adão) — uma tradução que não tem nenhuma base no texto. O termo hebreu quer dizer confusão ou desordem. 


[22] Cf. cap. 8, subtítulo “"Fatores Messiânicos". 


[23] Cf., p. ex., Butzer, Numbers, em IB, 2.261. 


[24] Cf. A. Noordzy (Numeri [Kampen: Kok, 1957], p. 272); Hengstenberg hesita em dizer que há mais do que uma referência indireta a Cristo (ver Christology ofthe Old Testament, 1.101,102). Sigmund Mowinckel é enfático ao afirmar que a referência é somente a Davi (He Ihat Cometh, trad. G. W. Anderson [Oxford: Blackwell, 1959}, p. 13). 


[25] Cf., p. ex., KD. Wilhelm Vischer fala de uma "linha reta coerente...à história evangélica de Cristo" (The Witness ofthe Old Testament to Chríst, trad. de A. B. Crabtree [Londres: Lutterworth, 1949], p. 236).

FONTE: GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento.Campinas : Luz para o Caminho, 1995.