25 de julho de 2015

Geografia antiga da terra santa

Ao norte, as montanhas invernosas cobertas de neve do Líbano; ao sul o semi-árido Neguebe; a leste o extenso deserto; a oeste o Grande Mar — estas são as fronteiras naturais da Palestina. Em seus limites foi encenada a história de Israel a partir dos dias dos patriarcas.

Um exame da paisagem, estradas, antigas povoações e países que a rodeiam é o pré-requisito para a compreensão adequada desta história. Não possuímos qualquer mapa antigo que represente a Terra Santa no período bíblico. Se existisse, poderíamos supor que iria apontar para o leste, pois no hebreu antigo a palavra "avançar" também indica o leste, "atrás" e "na direção do mar" significam oeste, "direita" significa sul e "esquerda" significa norte. Benjamim ("o filho da mão direita") é a tribo dos raquelitas posicionada mais ao sul; o mar Morto é também chamado em hebraico de "mar avançado" (oriental); o Grande Mar, o Mediterrâneo de hoje, é também chamado de "último mar" (ocidental).

Um dos mapas mais antigos existentes é o de Medeba. li um piso de mosaico datado do século VI d.C. numa igreja em Medeba, a leste do mar Morto. Esse mapa tinha o propósito de mostrar a terra Santa da Bíblia e indica o leste. No centro aparece o mar Morto, no qual navegam dois barcos. Ele foi preparado mais de mil anos depois da destruição do Primeiro Templo, sendo portanto de valor limitado para a identificação de sítios antigos.





A Bíblia, como regra geral, não dá muitas descrições dos povoados, sua localização e caráter — estas coisas eram lidas como certas na época. Só alguns versículos divergem desta regra, sendo o caso mais notável a descrição de Siló na história do rapto das mulheres para os benjamitas: "Eis que de ano em ano há solenidade do Senhor em Siló, que se celebra para o norte de Betel, da banda do nascente do sol, pelo caminho alto que sobe de Betel a Siquém, e para o sul de Lebona" (Jz 21.19). Nada poderia ser mais exato. Por que o escritor bíblico deu tantos detalhes sobre a localização de um sítio tão famoso na Antigüidade quanto Siló? Provavelmente porque Siló havia sido destruída pelos filisteus e, no princípio do período monárquico, quando a história foi escrita, ela se achava em ruínas.



Ao contrário de Siló, a maioria dos locais são descritos em termos vagos na Bíblia. Deste modo, ao reconstruir o mapa antigo da Terra Santa, nos vários períodos, devemos apoiar-nos firmemente em quatro fatores:

1. análise da história, caráter e topografia geral do sítio individual, de acordo com as fontes disponíveis;

2. identificações em fontes posteriores;

3. preservação do nome antigo, com possíveis modificações durante a transferência do hebraico para o aramaico e árabe;

4. exame arqueológico do sítio em consideração, de acordo com os dados acima.

A pesquisa arqueológica avançou muitíssimo em nossos dias, e inúmeros detalhes do mapa da antiga Terra Santa são agora aceitos. O fator geográfico decisivo na história da Palestina é a sua posição mais afastada, na extremidade sudoeste das terras povoadas e férteis do Oriente Próximo. Essas terras se estendem em forma de um crescente desde o Golfo Pérsico até a Península do Sinai: o chamado Crescente Fértil. Em direção ao ocidente, este crescente toca o mar Mediterrâneo.

Ao norte e leste ele é cercado por montanhas elevadas, quase intransponíveis, as cordilheiras Amanos, Tauros, Ararate e Zagros. No vazio do Crescente Fértil fica o extenso deserto sírio-árabe, que se estende desde o oeste para o deserto de Pará (Península do Sinai). Esta última separa a Terra Santa do Egito.

O Crescente Fértil está hoje dividido entre o Iraque, Síria, Líbano, Jordão e Israel. A sua fertilidade provém de dois fatores: terras baixas e abundância de água. Isto é especialmente verdadeiro em relação à região conhecida pelo nome grego de Mesopotâmia — "entre dois rios". E a parte mais rica do Crescente Fértil, cujas largas planícies são irrigadas e fertilizadas pelo fluxo de dois grandes rios, o Tigre e o Eufrates. "O rio" da Bíblia é o Eufrates. A Síria e a Palestina foram menos afortunadas, pois representam as partes estreitas e improdutivas do Crescente Fértil e, das duas, a Palestina é a menor e a mais pobre. Os rios são estreitos e não permitem a passagem de barcos; os leitos dos rios são profundos e na Antiguidade havia pouca possibilidade de utilizar suas águas para irrigação. A terra é acidentada e as serranias deixam apenas planícies estreitas. As chuvas, em sua maior parte, caem em uma única estação, e sua quantidade diminui progressivamente à medida que se segue rumo ao sul.

Apesar de ser a menor região e a mais pobre, na extremidade do Crescente Fértil, a Palestina ocupava uma importante posição geopolítica como uma ponte entre as terras do Crescente Fértil e o Egito, a terra do Nilo. A Mesopotâmia de um lado e o Egito do outro eram terras de grandes rios, e em ambas os fundamentos da civilização foram estabelecidos em fins do quarto milênio. Características geográficas e econômicas similares colaboraram para o desenvolvimento dessas duas terras. Elas contêm extensas planícies aluviais, cuja fertilidade depende de grandes rios que as atravessam. O rio é o fator integrante e primordial em cada um dos dois países. Ele fornece artérias convenientes de comunicação, capazes de proporcionar ordem, paz e segurança, mobilizando também mão-de-obra para a construção de diques e canais em larga escala. Os primeiros reinos poderosos surgiram sob tais condições, com poder para impor a organização e a unidade em seus povoados individuais e até governar áreas além de suas fronteiras. 

No Crescente Fértil, esse foi o estágio histórico em que aparecerem em sucessão os sumérios e acadianos, os mitanis, os hititas e. mais tarde, os arameus, estes últimos tendo dado o seu nome ao norte da Mesopotâmia — Arã Naaraim. Em contraste, o Egito manteve-se confinado e homogêneo em seu desenvolvimento. Apenas as várias dinastias se sucederam umas às outras no decorrer dos anos, desde o Primeiro Império até o Médio Império e reinados posteriores. Os comunicados entre o Egito e os reinos do Crescente Fértil passavam necessariamente pela Palestina, estabelecendo assim o seu destino como uma ponte de terra. As campanhas militares varreram sucessivamente a Palestina, a qual foi em muitos períodos governada por um ou outro dos grandes poderes. Todavia, nenhum avanço cultural importante teve lugar em qualquer dessas civilizações sem que a Palestina participasse dele de alguma forma.

AHARONI, Yohanan et al. Atlas Bíblico. Rio de Janeiro : CPAD, 1999.