7 de maio de 2015

R. K. HARRISON - Do Egito Antigo ao Período de Amarma

SHEMA-ISRAEL-DANILO-MORAES
Do Egito Antigo ao Período de Amarma 

CRONOLOGIA DESTE CAPITULO 

Nova Idade da Pedra (Neolítico) ...  6000-4500 a.C.

Era Calcolítica .............................   4500-3000 a.C.

Antiga Idade do Bronze...............  3000-1950 a.C.

Média Idade do Bronze...............   1950-1550 a.C.

Idade Recente do Bronze.............. 1500-1200 a.C.


O Período Neolítico 

NA FRONTEIRA SUDOESTE DO DESERTO DA ARÁBIA ESTÁ A PONTA da península do Sinai, que ligava o Oriente Médio com a histórica terra do Egito. A idade das terras que estão de cada lado do Rio Nilo pode ser avaliada pelo fato de que a vida comunitária teve seu início ali na época em que os colonizadores do período neolítico estavam desbravando as planícies pantanosas da Suméria, As riquezas do solo aluvial tornaram possível que existissem estas comunidades primitivas ao longo de toda a extensão do Nilo, enquanto as condições climáticas favoráveis encorajaram seu crescimento e desenvolvimento. Infelizmente, pesados depósitos de lama nas terras baixas do vale do Nilo impediram que os arqueólogos encontrassem mais do que as mais simples pistas destes tempos pré-dinásticos. Mas, no Alto Egito, três locais, identi­ficados com as cidades modernas de Badari, Deir Tasa e Nagada preservaram artefatos neolíticos que datam de uma época tão longínqua quanto 5000 a.C. 

A cerâmica escavada e recuperada de Deir Tasa era muito grosseira, mostrando pa­drões irregulares de coloração no lado externo que aparentemente eram o resultado de um mau controle da temperatura quando a cerâmica era queimada. A forma dos artigos variava de recipientes retangulares e rasos a taças ou canecas com base arredondada e uma borda saliente no topo, Muitos dos objetos de cerâmica eram distinguidos por pa­drões de vários tipos, mas em geral os criadores da cerâmica limitavam seus esforços ar­tísticos a modificações de padrões geométricos simples. Grãos de cevada e espelta toramrecuperados de assentamentos tasianos, juntamente com os moedores que eram usados para reduzir os cereais à farinha. Apesar destas comprovações de uma aproximação a uma economia sedentária, uma quantidade de pontas de flechas de pedra e anzóis feitos de conchas ou chifres indica que o alimento principal era obtido da caça ou da pesca.[1] Escavações no local de seis acres[2] em Merimdeh, poucos quilômetros ao norte do Cairo, revelaram artefatos do mesmo período que os de Deir Tasa, e além disso, forneceram comprovação da criação doméstica de porcos, gados, ovelhas e cabras. 

Por volta de 4000 a.C., a cultura tasiana assumiu uma forma mais elaborada, que apareceu, pela primeira vez, próxima de Badari, no Médio Egito, durante os tempos calcolíticos. Embora semi-nômades, os badarianos fizeram sérios esforços para cultivar grãos e desenvolver a criação doméstica de animais. Há algumas evidências de que a sua eco­nomia fosse influenciada pelo comércio, pois usavam uma tintura para olhos feita de pó de malaquita verde que provavelmente era importada da península do Sinai. A cerâmica badariana tinha textura e desenho excelentes; as tigelas e canecas foram os principais tipos de recipientes encontrados. Alguns vasos eram feitos de basalto, ao passo que o mar­fim era usado para pequenas tigelas, conchas e estatuetas femininas. Acredita-se que os badarianos possuíssem um grau de familiaridade com a maleabilidade do cobre, embora aparentemente não compreendessem a fusão de metais. 

Na metade do quinto milênio a.C, os badarianos foram sucedidos no Alto Egito (isto é, a parte sul) pelos amrateanos, fato que assinala o início verdadeiro do período pré-dinástico (aprox. 4500-2900 a.C.). Eles tinham natureza mais sedentária que seus antecessores, e julgase que tinham sido os primeiros a tentar realizar o cultivo siste­mático do vale do rio Nilo. No estágio de Nagada I da cultura do Alto Egito, eles se tor­naram bastante notáveis e se expandiram por toda a extensão do Nilo. A escavação de lugares amrateanos mostrou que cultivavam e teciam linho além de fabricarem uma ampla variedade de pequenos objetos e utensílios de cobre. No entanto, seus vasos de basalto e alabastro eram, em geral, inferiores aos dos badarianos, e na metalurgia eles não deram nenhuma indicação de avanços técnicos além dos seus predecessores.[3]

Na fase de Nagada II, a influência gerzeana espalhou-se, vinda do Baixo Egito (isto é, a região norte), e abriu caminho para uma revolução urbana e econômica nas terras altas do Nilo. Provavelmente eles foram os primeiros dos povos pré-dinásticos a instituir comércio com a Mesopotâmia e a Índia, e foram responsáveis por uma vasta expansão na agricultura. Enquanto a cultura amrateana tinha dependido da caça para complementar os alimentos derivados do cultivo, a economia gerzeana era baseada exclusivamente na agricultura, na qual a irrigação artificial provavelmente teve uma participação importan­te. Utensílios e armas de metal fundido desenterrados em locais gerzeanos mostram que este povo dominava a arte de fundir metais, e o uso do cobre neste período indica um co­mércio que alcançava localidades fora do próprio vale do Nilo. De fontes na Ásia vinham a prata, o lápis-lazúli, o chumbo e outras mercadorias, enquanto que selos cilíndricos que foram recuperados de sepulcros gerzeanos são provavelmente contemporâneos de produtos da Mesopotamia. Técnicas cosméticas, como as praticadas pelos badarianos e amrateanos, foram desenvolvidas na cultura gerzeana; também utilizavam, com propósitos de maquiagem, as palhetas feitas na forma de animais variados que serviam vasta­mente para a pulverização de material verde ou malaquita. 

Percebe-se o advento de influências estrangeiras na presença de inovações das vestes, ornamentos e implementos. Facas e adagas feitas de rocha tinham seu for­mato alterado, enquanto mudanças radicais ocorriam na manufatura da cerâmica. Vasos decorados de argila de cores suaves, em que se faziam pinturas com variados padrões, em tonalidades vermelhas e marrons, substituíram a cerâmica vermelha ornamentada com tinta branca que era típica do período amrateano. Também hou­ve mudanças significativas nos funerais. Enquanto os cemitérios que datavam de um período anterior mostravam que o cadáver, em geral, era envolto em algum tipo de tecido e enterrado em uma posição contraída, voltado para o oeste. Aqueles que se localizavam em áreas gerzeanas indicavam a falta de uma orientação regular, uma forma de sepulcro mais elaborado, e indícios de procedimentos rituais na ocasião do sepultamento, na forma de cerâmica deliberadamente quebrada. 


O Egito Pré-dinástico 

Uma das mais importantes contribuições ao desenvolvimento do Egito pré-dinástico foi a expansão da vida comunitária que ocorreu no período gerzeano. Essa organização foi a base das divisões territoriais ou “nomos", como os chamavam os autores clássicos, que frequentemente eram equivalentes a pequenos reinos. Cada nomo ou distrito tinha um objeto especial de adoração, que consistia em um animal sagrado, ou planta, que se tornava o emblema ou fetiche do território. A pintura destes emblemas dos nomos na cerâmica e a inclusão de figuras de animais na desig­nação hieróglifa do nomo de vários deuses levaram os estudiosos à conclusão de que existia uma forma totêmica durante o período pré-dinástico da história do Egito. Certamente os habitantes pré-dinásticos do Alto Egito adoravam um conjunto de animais como objeto do culto ao deus Set, e a reverência ao carneiro ou ao bode, que foi comum em todos os períodos da religião egípcia, teve sua origem nesta época.[4] Mas o máximo que se pode dizer, com certeza, é que uma forma modificada de fetichismo e totemismo caracterizou a religião egípcia pré-dinástica. 

As divisões regionais acabaram chegando ao ponto em que havia vinte nomos no Baixo Egito (isto é, a região do Delta) e vinte e dois no Alto Egito. A descoberta de um sepulcro aprimorado em Hierakonpolis, sede do culto a Horus no Alto Egito, deu origem à especulação de que o reinado tenha surgido neste período. Descobriu-se que palhetas decoradas, que haviam sido recuperadas do mesmo local, retratam um personagem da realeza em associação com totens do clã, dando maior sustentação a esta conclusão. Du­rante o período gerzeano, os nomos do Egito se uniram, com o resultado de que passa­ram a existir dois estados poderosos, o Baixo e o Alto Egito. A cultura gerzeana dominou o Alto Egito durante algum tempo, e pode inclusive ter efetivado uma união temporária das Duas Terras, Mas o primeiro governo único sobre um reino unificado foi o de Menés de Tinis, que marcou o início do período proto-dinástico (2900-2700 a.C.). 

Por Tinis estar muito ao sul, Menés construiu a cidade fortificada de Menté, ou Mênfis, como a chamaram os gregos, próximo ao vértice do delta do Nilo. O cemité­rio dos faraós tinitas estava localizado no deserto próximo a Abidos, e a escavação das tumbas revelou que, juntamente com as múmias, havia sido enterrada uma grande riqueza em vasos, jóias e outros artigos de pedra e cobre. O lugar também forneceu alguns nomes da realeza, incluindo Aha, Zer e Narmer, embora possam ser denomi­nações sectárias, e não designações pessoais. Sir Flinders Petrie conseguiu identificar “Horus Narmes" com Menés, o fundador da Primeira Dinastia. Um lado de uma gran­de palheta comemorativa recuperada de Híerakonpolis[5] retratava uma cena na qual Narmer, usando a coroa do Alto Egito, estava espancando um capitão inimigo, procu­rando a sua submissão. Do outro lado da palheta ele era mostrado andando em pro­cissão, usando a coroa do Baixo Egito. A união das Duas Terras era o tema subjacente do registro hieróglifo, conhecido como a Pedra de Palermo, que registrou a sucessão de faraós, desde a época da Primeira Dinastia. 

O Egito Proto-dinástico 

O início do período proto-dinástico foi marcado pelo crescimento no comér­cio com os povos do Oriente Médio e um significante desenvolvimento das artes civilizadas. A antiga cultura da Mesopotâmia, mais estável, era representada no Egito de várias maneiras. A decoração mural de uma tumba pintada em Hierakon­polis retratou um modelo de barco mesopotâmico em lugar do tipo comumente encontrado no Egito. Selos cilíndricos recuperados dos primeiros locais proto-dinásticos foram julgados como pertencendo ao período Jemdet Nasr, enquanto técnicas de construção que começaram a ser empregadas nesta época refletiam claramente os costumes arquitetônicos da Mesopotâmia.[6]

No período pré-dinástico, apareceram dois cultos que eram mais distintivos e menos localizados do que os dos contemporâneos. Um deles, que foi popular no Baixo Egito anteriormente à Primeira Dinastia, era o culto a Rá, em Heliópolis, uma cidade não distante de Mênfis. Rá era o deus do Sol, considerado como originário das águas do mundo inferior, produto de geração espontânea. Dele, surgiram outras divindades cósmicas, que, por sua vez, deram à luz a deuses notáveis do panteão egípcio, como Ísis, Set, Osíris e Neftis. No final do período proto-dinástico, o culto a Rá tinha crescido consideravelmente em influência, e dentro de pouco tempo as suas doutrinas proclamavam que o faraó era filho desse deus, ou até mesmo a própria divindade do Sol. Liturgias complicadas foram idealizadas gradualmente, liturgias que envolviam o faraó em uma representação diária dos ritos de purificação aos quais se acreditava que o Sol se submetesse. Este procedimento provou ser uma considerável carga ritual nos dias futuros, como se pode imaginar. 

O outro culto antigo era um ritual ao deus Thot, filho da divindade Hórus, o falcão, que estava associado com Hermópolis no delta do Nilo. O emblema de Thot era uma íbis em um estandarte levantado, e a esta divindade se atribuía mitologicamente, a criação do mundo, o controle da natureza e a concessão de cultura à humanidade. Sendo o deus da sabedoria, Thot era honrado com grande quantidade de epítetos que refletiam a sua genialidade primordial. Também se acreditava que ele acompanhasse Rá, o deus do Sol, ao mundo inferior, onde agia como o escriba que registrava os julgamentos divinos “pesando os corações”. 

No período tinita, surgiu um terceiro culto religioso em Mênfis, e adotou Ptah como seu deus supremo. Ele era associado com antigos fetiches, mas era sempre retratado sob a forma de estátua humana. De acordo com o seu culto, ele reivindicava prioridade acima de todas as outras divindades e era considerado contemporâneo às águas do inundo in­ferior. Os dogmas das doutrinas da teologia de Mênfis eram de natureza intelectual, que contrastava admiravelmente com a crueza de outros cultos. Ptah era a grande “mente cósmica”, a “primeira causa", aquele que, pela projeção do seu pensamento, tinha criado o mundo e tudo o que nele havia. Mesmo as divindades eram apenas manifestações do seu pensamento criativo, e nas suas palavras estava o grande poder.[7]

O Período do Reino Antigo 

Provavelmente, o mais majestoso de todos os períodos na história do Egito antigo tenha se iniciado com Zoser, primeiro rei da Terceira Dinastia. Este foi o Período do Reino Antigo (2700-2200 a.C.), que durou até a Sexta Dinastia. O reinado de Zoser foi reconhe­cido pela obra de Imhotep, um indivíduo talentoso que era, ao mesmo tempo, mági­co, sacerdote, arquiteto, médico e sábio. Para o seu senhor real, projetou um mausoléu avarandado de proporções sem precedentes, e o erigiu em uma mstaba, ou plataforma, a uma altura de aproximadamente sessenta metros. Esta foi a famosa “Pirâmide Escalonada” de Saqqara, que foi o protótipo das grandes pirâmides erigidas durante o período do Reino Antigo. A maior destas construções foi edificada na Quarta Dinastia, por Khufu (Quéops), seu fundador, em Gizé. Cobrindo treze acres de terra, a sua construção demo­rou trinta anos, e o custo, em termos de homens e material, foi proibitivo. 

A leste de Gizé, do outro lado do Nilo, operários trabalhavam o ano inteiro, nas grandes pedreiras de pedra calcária, para escavar os imensos blocos de pedra neces­sários para a construção da pirâmide. Subindo o Nilo por oitocentos quilômetros, perto de Assuã, outros operários se ocupavam, obtendo granito vermelho e cinza, enquanto de outros lugares da península vieram diorito negro e verde, e alabastro branco, cor de pêssego e róseo. Todos os verões, estes imensos blocos de construção cruzavam, flutuando, o Nilo, até o cais especialmente construído, próximo ao local da pirâmide. Os blocos, então, eram colocados sobre espécies de carros e puxados, por mais operários, muitos dos quais eram escravos, pela grande rampa que levava A pirâmide. No local, os blocos recebiam o acabamento final de superfície e então eram colocados no seu lugar por meio de vigas e alavancas com fina precisão. 

Depois de concluída (2680 a.C.), a pirâmide tinha uma altura superior ao dobro da estrutura de Imhotep, e foi coberta com um magnífico revestimento de calcário branco, que lhe deu uma aparência muito impressionante. Prodigiosas façanhas de habilidade e engenharia estiveram envolvidas em sua construção,[8] e ela é um monumento, tanto ao talento e habilidade dos seus projetistas quanto à memória de Khufu. No total, fo­ram necessários cem mil homens durante vinte anos somente para edificar a estrutura propriamente dita, da qual cada lado está voltado para um dos pontos cardeais da bús­sola, medindo, todos eles, cerca de 230 metros na base. A pirâmide, quando concluída, continha aproximadamente dois milhões e trezentos mil blocos de pedra, com um peso médio de duas toneladas e meia cada um, resultando em um peso total de cinco milhões e setecentas e cinquenta mil toneladas. Alguns dos sólidos blocos de pedra chegaram a pesar, na realidade, sessenta toneladas, e foram colocados com grande precisão sobre uma camada de cimento não mais espessa do que uma folha de papel. 

Embora a Grande pirâmide dê a impressão de estar intacta quando vista à distân­cia, na realidade, sua superfície externa foi danificada por saqueadores que removeram diversas camadas de blocos para a construção de outros edifícios. A camada de granito, altamente polida, do topo da pirâmide, foi removida junto com, praticamente, toda a suave cobertura de pedra calcária de Tura e, desta maneira, o resultado foi que a altura da pirâmide diminuiu de 144 metros para aproximadamente 135 metros. 

Sucessivos faraós continuaram com a construção de pirâmides, mas Khahe, que sucedeu a Khufu, afastou-se um pouco da tradição ao ter seus traços incorporados na Esfinge, construída por ele, e que está a leste da Segunda Pirâmide de Gizé. Este edifí­cio era, em alguns aspectos, uma realização ainda mais espetacular do que a Grande Pirâmide de Khufu, tendo lados ligeiramente mais íngremes, cobertos com placas de granito e pedra calcária. Ela se estendia por uma área de mais de onze acres, medindo 211 metros de cada lado na base, e tinha 137 metros de altura. O volume da segunda maior pirâmide foi estimado em 60 milhões de pés cúbicos de rocha. Estima-se que o peso total esteja próximo a 5.309.000 toneladas, isto é, aproximadamente meio milhão de toneladas a menos do que a Grande Pirâmide. Assim como no caso daquela, construtores inescrupulosos removeram uma grande quantidade da pedra de calcário do revestimento pata usá-lo em outros tipos de construção, e estes saques resultaram em uma redução de três metros em sua altura original, A habilidade que foi empregada na pirâmide de Khafre era inferior à empregada na Grande Pirâmide, e como consequên­cia há quase o dobro de erros em medidas lineares, e quase quatro vezes mais erros em ângulos, em comparação com aquela. 

Na Quinta Dinastia, tornou-se costumeiro esculpir inscrições nas paredes in­ternas das pirâmides. Esses textos tratavam dos temas de julgamentos e felicidade eterna, e são conhecidos como “Textos das Pirâmides”. Um grupo especial de cinco pirâmides que contêm textos foi encontrado nas proximidades da Pirâmide Esca­lonada de Zoser, e as estruturas foram datadas, individualmente, entre 2450 e 2250 a.C. Embora sejam inferiores, em construção, à Pirâmide Escalonada, são extrema­mente importantes por causa dos textos que contêm nas paredes dos vestíbulos e das câmaras internas. Em algumas das mais recentes, até mesmo os tetos tiveram a sua superfície cuidadosamente coberta com textos esculpidos, ou então pintados em colunas verticais de hieróglifos. A maior parte destas inscrições continha uma variedade de encantamentos mágicos, hinos e orações, sendo todos incluídos para o uso do rei morto, quando estivesse diante do trono de julgamento de Osíris. Alguns dos Textos das Pirâmides são tão arcaicos em seu estilo literário que egiptólogos são de opinião de que podem ter sido escritos no início do período do Reino Antigo, e outros até mesmo no período proto-dinástico. 

O Primeiro Período Intermediário 

Com o fim da Sexta Dinastia, o esplendor do Reino Antigo diminuiu, e a di­nastia seguinte introduziu o período de tumulto social que foi denominado Pri­meiro Período Intermediário (em aprox. 2250-2000 a.C.). Provavelmente a causa que mais contribuiu para a instabilidade que marcou esta fase da história do Egito foi a falta de um governo centralizado e forte. 

A Sétima e a Oitava dinastias exerceram um governo enfraquecido de Mênfis, ao passo que as duas dinastias posteriores surgiram no local onde atualmente fica a cidade do Cairo. Por isso, não é de surpreender que o Primeiro Período Interme­diário tenha sido uma época na qual a cultura desapareceu e a intriga social servia às ambições dos homens cujo objetivo era a satisfação de seus desejos materiais. Podem ter sido as necessidades daquele momento histórico que despertaram um interesse do culto ao deus Amon-Rá, de Tebas, a única outra divindade nacional que apresentava um sério desafio às reivindicações do poderoso Ptah. Amon-Rá era adorado em Tebas, e nos séculos posteriores tornou-se objeto de veneração popular. Era considerado como possuindo uma unidade de espírito e matéria. E como alguns de seus correspondentes da adoração egípcia, tinha tido, suposta­mente, uma geração espontânea. A sua aparência não era tão religiosa como a de alguns dos outros membros do panteão, e posteriormente foi honrado como uma divindade política, particularmente em Tebas. 

A revolução social e a infiltração asiática foram características da vida na re­gião do Delta durante o Primeiro Período Intermediário. Durante algum tempo, os faraós da Oitava Dinastia, em Mênfis, tentaram exercer algum tipo de autoridade sobre os príncipes locais do Alto Egito, mas seus esforços encontravam uma resis­tência crescente. Na Nona e Décima Dinastias, alguns reis no Médio Egito tentaram restaurar a ordem na região do Delta, mas neste processo se desentenderam com os príncipes de Tebas ao sul do Alto Egito. Estes últimos saíram vencedores da diver­gência, e finalmente conquistaram os governantes do Médio Egito, possibilitando que o Egito fos.se unificado outra vez, sob um governo central forte, Com a Décima Primeira Dinastia, chegou ao fim o Primeiro Período Intermediário. 



Período do Reino Médio 

A Décima Segunda Dinastia, que foi fundada por Amenemés I, iniciou a segunda grande era da história do Egito, conhecida como o Período do Reino Médio (2000- 1780 a.C.). Essa dinastia presenciou, segundo linhas feudais, um renascimento da sociedade, assim como o início de um programa de expansão territorial adentran­do a Núbia. A riqueza mineral da Península do Sinai tinha se desenvolvido tanto, que o resultado foi uma próspera indústria de mineração, e os seus produtos ti­veram uma participação importante na vida social no Período do Reino Médio. Indícios de incidentes da grande comunicação que o Egito tinha com o Oriente Médio durante esta época são fornecidos pela Epopéia de Sinuhe, ao qual já foi fei­ta referência, e pelo quadro de Beni-Hasan, que tratava, basicamente, das relações comerciais entre o Egito e os nômades semitas de Canaã e da Arábia. 

Embora Amenemés I tivesse vindo de Tebas, no Alto Egito, ele viu que o contro­le mais eficaz sobre toda a terra somente seria obtido quando a sua capital fosse loca­lizada de maneira mais centralizada. Consequentemente, estabeleceu a sede do seu reino perto de Mênfis, no Médio Egito, onde organizou um tesouro central ao qual contribuíam todos os nomos no Alto e no Baixo Egito. Este artifício serviu ao duplo propósito de financiar o reino e de manter o faraó em contato com todas as partes de seu reino, de modo a minimizar bastante a possibilidade de um golpe militar. Além da campanha na Núbia, a influência da Décima Segunda Dinastia foi sentida em Canaã, com a invasão de Sesóstris III, que chegou até a Palestina central. A extensão da influência egípcia em Canaã e na Fenícia, de modo geral, na Décima Segunda Di­nastia, é indicada pelos Textos de Execração, do século XIX a.C, que registravam os nomes dos inimigos do Egito em tigelas e estatuetas que eram, então, amaldiçoadas por encantamentos e, Logo depois, despedaçadas. Os nomes que foram recuperados dos fragmentos incluem determinados núbios e egípcios, assim como alguns prínci­pes semitas potencialmente hostis e os distritos de onde se originavam. 

A Décima Segunda Dinastia parece ter realizado um programa consistente de desenvolvimento agrícola, primeiramente iniciado por Amenemés I, e uma vez que o conceito de realeza tinha conquistado a confiança daqueles nobres que eram ze­losos da sua autonomia local, algumas mudanças foram feitas na administração do país, como um todo. Sob o governo de Sesóstris III, que subjugou a Núbia, e estendeu a influência do Egito na Palestina até Siquém (chamada “Sekmem” nos textos egíp­cios), a restauração do poder e do prestígio real resultou no desaparecimento dos poderosos príncipes da terra. Em seu lugar, foram estabelecidos funcionários civis, da autoridade administrativa central, cuja única lealdade era para com o faraó, e isso trouxe um grau de estabilidade política ao país como um todo. 


O Período do Reino Médio provou ser a era dourada da literatura clássica no Egito, da qual os contos e trabalhos de propaganda eram os mais notáveis. Entre os primeiros, o melhor e mais familiar exemplo é o da Epopéia de Sinuhe, uma narra­tiva que descrevia um distinto oficial egípcio que foi forçado a procurar asilo político na Palestina e ali passou muitos anos, como um chefe tribal, antes de ser chamado de volta, honrosamente, à sua terra de origem A profecia de Nefertiti pode ser consi­derada uma representante dos textos de propaganda, por ser uma obra que assumiu o estilo de uma expressão profética para proclamar Amenemés I como o salvador do Egito, e delinear o seu programa de reforma administrativa e social, O Reino do Médio Egito, bem organizado e conhecedor da vulnerabilidade da sua fronteira asiática, era, com todas as probabilidades, o Egito que conheceu Abraão. Isto é exem­plificado pelo fato de que as instruções que Faraó deu a seus seguidores, a respeito de Abraão (Gn 12.20), quando deixou o Egito para ir a Canaã, são um paralelo exato com as mesmas (porém em uma situação inversa) que foram dadas a Sinuhe quando voltava do exílio. De forma pictórica, o quadro de Beni-Hasan, que retrata um grupo de trinta e sete asiáticos visitando o Egito, mostra a facilidade com que os semitas podiam cruzar a fronteira nordeste, fortemente protegida, entrando no Egito. 

O Período do Reino Médio foi também de consolidação religiosa e de subordi­nação das divindades locais ao todo-poderoso Rá, Os mitos a respeito de sofrimen­to, morte e ressurreição de Osíris foram desenvolvidos sob a forma de um ritual, que se tornou cada vez mais popular à medida que o tempo passava. A Décima Segunda Dinastia assistiu o princípio da aplicação dos Textos das Pirâmides à so­ciedade como um todo, e a partir de então, os textos religiosos, para orientação e proteção dos mortos, no mundo inferior, passaram a ser escritos dentro do ataúde. Combinados com os rituais de Osíris, os Textos Funerários garantiam aos homens mortais que a virtude era a sua própria recompensa, e que a felicidade final depen­dia da moralidade da vida que fora vivida na terra. 


O Segundo Período Intermediário 

Mas o período do Reino Médio sofreu por causa de tumultos políticos, e foi isto que, finalmente, trouxe o seu fim em 1780 a.C, As duas dinastias sucessivas tinham sido incapazes de reconquistar o controle da situação, porque foram confrontadas pela ameaça de invasão estrangeira. Finalmente, por volta de 1720 a.C., a iniciativa foi arrancada dos egípcios, pelas invasões dos hicsos, que entraram nas suas Terras em carros puxados a cavalos. Para controlar o seu território na Ásia ocidental, estabele­ceram sua capital em Avaris (Tânis), na região do Delta. Este foi uni movimento es­tratégico, destinado a permitir que eles supervisionassem todas as regiões, exceto as localidades mais distantes do Alto Egito, e cumpriu admiravelmente o seu propósito por um século e meio. Os hicsos eram um povo mesclado, descendente de semitas e asiáticos, e provavelmente incluindo uma proporção de Habiru. Mâneton resumiu os eventos que fizeram de cada pastor asiático “uma abominação para os egípcios”, quando descreveu a situação que levou à submissão do Egito: 

Inesperadamente, vieram homens de origem humilde das regiões orientais, e in­vadiram o nosso país, confiantes na vitória sobre nós. Puramente pela vantagem numérica, eles o subjugaram, sem desferir um único golpe. Tendo subjugado nossos governantes, queimaram com selvageria nossas cidades, demoliram os templos dos deuses, e trataram os habitantes com hostilidade. Mataram alguns deles, enquanto as mulheres e os filhos de outros eram escravizados..."[9]

Os hicsos, cujo nome em egípcio significa “comandantes de terras estrangeiras” parecem ter se aproveitado do fato de que na época da sua invasão era possível encon­trar escravos semitas em todo o Egito até Tebas, ao sul. Além de estabelecer a sua capi­tal em Avaris, usurparam o reino do Egito em Ithet-Tawy, perto de Mênfis, um centro que Amenemés I tinha construído especialmente com o propósito de administrar seu regime. Os hicsos, a princípio, fizeram poucas modificações no padrão geral do serviço civil egípcio regular, preterindo, em nome da estabilidade e continuidade, empregar os oficiais do regime anterior. A medida que o tempo passava, no entanto, indicaram oficiais semitas naturalizados para os altos cargos administrativos do país, sendo um dos mais conhecidos deste período o chanceler Hur. 

Pontos importantes de contato entre os hicsos e os habiru foram sugeridos pelos indícios arqueológicos. Durante este período obscuro da história do Egito, as fortu­nas de Canaã prosperaram e houve um considerável desenvolvimento nas artes e no artesanato. Os hicsos organizaram um sistema de cidades-estado feudais em Canaã, e construíram edificações nas quais foram erigidas gigantescas fortificações fechadas para proteger seus carros. Os cemitérios de hicsos eram invariavelmente situados fora dos limites da cidade, e a sua escavação possibilitou a obtenção de informação conside­rável quanto à sua percepção social e religiosa. A descoberta de sepulturas de bebês de­baixo de pedras de fundação ou pisos pode ser uma indicação de que sacrificassem seus primogênitos. A sua adoração parece ter seguido os padrões dos cultos de fertilidade de Baal, e artefatos recuperados de estratos hicsos na Palestina incluíam objetos de culto em uma forma humana grosseira, com características sexuais exageradas. 

Escavações arqueológicas em Tânis (Avaris) revelaram a presença de imensas fortificações defensivas que se pode associar imediatamente ao padrão de conhe­cidas obras defensivas de hicsos na Palestina. Desta mesma época, foi recuperada uma stela, datada de aproximadamente 1320 a.C. Aparentemente, havia sido erigi­da por ordem de Ramsés II (1290-1224 a.C.) para comemorar os quatrocentos anos da fundação de Avaris, e como tal forneceu uma data de aproximadamente 1720 a.C. para o início do governo hicso no delta do Nilo. 

Na descrição de Moisés, em Números 13.22, para fins de entendimento, ele comparou Hebrom (conhecida dos patriarcas como Manre) com Zoã (Avaris), e isso implica o fato de que alguns hebreus estavam envolvidos, tanto nas empreita­das dos hicsos como no Egito quando Avaris foi fundada. Uma conexão adicional entre os hebreus e o Egito pode ser vista na predição de Gênesis 15.13, que dizia que a semente de Abraão seria afligida durante quatrocentos anos (Um período de tempo que foi aumentado em trinta anos em Êxodo 12.40). Estando a referência do livro de Gênesis conectada à de Números, este é um argumento convincente para associar os movimentos patriarcais com a era de Avaris. 

Um contato mais direto com povos semitas contemporâneos pode ser visto no fato de que dois líderes hicsos tinham os nomes “Jacob-el” (Que El proteja) e “Jacob-hall” (Que Baal proteja), e ambos têm elementos em comum com o nome do terceiro grande patriarca hebreu. O estilo local das narrativas sobre a carreira de José parece adequar-se bem a este período de dominação asiática, pois os egípcios, que nunca tinham sido parti­cularmente tolerantes com estrangeiro; ambiciosos politicamente falando, estariam im­potentes para evitar a ascensão de um semita talentoso como José, especialmente se ele tivesse o apoio dos conquistadores hicsos.[10] Além disso, dificilmente pode-se considerar uma coincidência o fato de que os hebreus estivessem tão firmemente estabelecidos em Gósen, na parte oriental do delta do Nilo, onde os hicsos tinham a sua capital. Finalmen­te, o historiador egípcio do século III a.C., Mâneton, a cujo trabalho já se fez referência, preservou a tradição de que uma grande quantidade de hicsos mudou-se de Avaris para a Palestina, onde construíram a cidade de Jerusalém. 

A narrativa que trata da vida de José indica que a terra de Gósen era próxima à capital do Egito e que os hebreus tinham acesso fácil à corte real. Uma vez que Tebas, no Alto Egito, era a capital das Duas Terras, tanto antes como depois do período hicso, a localização de Avaris como sede de governo estaria em completo acordo com as condições descritas no Êxodo. A posição que José tinha no Egito era similar àquela de outros notáveis não egípcios, sendo um notável exemplo o chan­celer Hur. Assim, como muitos outros, José era um servo semita na casa de um importante oficial egípcio. Embora a corte real fosse caracteristicamente egípcia, o semita José foi prontamente nomeado para um alto cargo, evidentemente o de vizir, que o deixava, em importância, abaixo somente de Faraó. 

Uma evidência adicional de uma conexão entre a era de Avaris e a migração patriarcal para o Egito, pode ser vista na declaração de que José comprou toda a terra para Faraó durante os anos de fome (Gn 47.20). Este procedimento resul­tou no deslocamento da antiga nobreza, e a criação de uma nova classe de servos, uma situação que reflete intimamente as condições do tumulto social na Palestina quando os hicsos tinham o poder. A luz destas e outras evidências, parece haver base suficiente para supor que Jacó e sua família entraram no Egito por volta de 1700 a.C., quando o país estava sob o controle de estrangeiros asiáticos. 

Exceto por essas deduções, o período do governo hicso no Egito é de considerável obscuridade, devido, principalmente, à falta de inscrições históricas egípcias durante este embaraçoso período de conquista por invasores estrangeiros. Parece razoavelmente cer­to, no entanto, que os israelitas estivessem no Egito quando os hicsos estavam no poder nas Duas Terras, e que ficaram para trás, na região do Delta, depois que o período do Rei­no Médio tinha chegado ao fim, por volta de 1780 a.C, É possível que alguns aspectos da obra de José tenham sobrevivido desde o final do Segundo Período Intermediário (1780- 1570 a.C.), que incluiu a dominação dos hicsos no Egito. Quando os invasores finalmen­te foram expulsos, a terra, com exceção das propriedades do templo, pertencia a Faraó, como antes, quando José tinha organizado o país para enfrentar a ameaça da fome. 

Provavelmente durante a primeira parte do regime dos hicsos, o idoso Jacó adoeceu e à maneira tradicional, convocou seus filhos para a sua bênção final. O filho mais jovem de José teve preferência acima do mais velho, e os doze filhos de Jacó, de quem as tribos de Israel subsequentemente tiveram sua descendência, foram abençoados por seu pai, em uma visão penetrante das suas diversas personalidades e habilidades. Jacó expressou um desejo final de ser sepultado no solo ancestral em Hebrom, e isto foi fielmente cumprido. Depois da morte de Jacó, José e seus irmãos continuaram vivendo no Egito, e os hebreus se tornaram cada vez mais prósperos. O próprio José morreu muito idoso, e no seu leito de morte profetizou que Deus levaria os israelitas de volta à terra de seus ancestrais. Seu último desejo foi que seus ossos pudessem acompanhar os israelitas na sua migração; e, quando morreu, José toi embalsamado conforme a maneira usual egípcia e, quando do êxodo, seus restos mortais foram levados (Ex 13.19). 

O Período do Novo Reino 

Enquanto isso, o rancor nacional ardia contra os odiados asiáticos, e pouco tempo depois de 1600 a,C, os governantes nativos de Tebas se rebelaram contra a dominação dos hicsos. Sekenenre, um governante da Décima Oitava Dinastia, aparentemente foi morto em uma batalha preliminar pela libertação, e a luta pela liberdade teve continuidade com seus filhos, Khamósis e Amhósís I. Os egípcios se uniram à causa, e Amhósis lançou uma campanha contra Avaris, que logo caiu sob as suas forças, Este foi o sinal para um esforço conjunto de expulsão dos hicsos, e por volta de 1570 a,C. os odiados invasores foram finalmente expulsos do delta do Nilo. Eles se retiraram para as suas fortalezas em Canaã, e resistiram determinada­mente em Sharuhen, no sul de Canaã, mas depois de um cerco de três anos foram forçados a render-se. Forças egípcias então ocuparam o antigo império hicso na Síria e na Palestina e, libertados da ameaça de dominação estrangeira, Amhósis I de Tebas, fundador da Décima Oitava Dinastia, estabeleceu o Novo Reino (1570- 1150 a.C.). 

Este período tem sido descrito como provavelmente o mais brilhante de toda a história do Egito. Praticamente desde o início da libertação egípcia, houve um renas­cimento dramático das atividades nos campos da arquitetura, literatura e esforços artísticos. Aproveitando as suas desagradáveis e humilhantes experiências quando estavam sujeitos aos hicsos, os egípcios reorganizaram os seus exércitos, e alcança­ram um elevado grau de proficiência no uso militar conjunto do arco asiático e do carro puxado por cavalos. Esta nova arma se tornou a fonte mais importante do po­der egípcio no período do Novo Reino, e foi o monopólio das classes militares mais elevadas. O antigo feudalismo da Décima Segunda Dinastia foi substituído por uma ditadura, com o resultado de que o início do Período do Novo Reino encontrou as pessoas comuns na posição de servos, que cultivavam a terra para o seu proprietário real em condições similares às que José tinha instituído no tempo da fome, e que pode perfeitamente ser um resíduo da administração dos hicsos. 

Quando Amhósis I morreu, em aproximadamente 1546 a.C., foi sucedido por seu filho Amenhotep I, que reinou durante vime anos. Aproximadamente em 1525 a.C., Tutmés I, genro de Amhósis I, ascendeu ao trono e estabeleceu firme controle sobre as províncias egípcias da Síria e Canaã, A sua filha era a notável rai­nha Hatshepsut, e por meio dela o reinado foi transmitido em conformidade com o antigo sistema social egípcio, conhecido como matriarcado, pelo qual a herança passava pela mulher, e não pelo varão, da família. 

Em conformidade com o matriarcado, o filho e sucessor de Tutmés I, que era meio- irmão de Hatshepsut, casou-se com a rainha, desta forma tornando-se o faraó Tutmés. Ele morreu poucos anos depois que uma de suas concubinas lhe tinha dado um filho, Tutmés III, e embora este rapaz compartilhasse do governo nominal com Hatshepsut, era claro que era ela quem exercia o domínio régio sobre o Egito. Ela adotou o título de “rei”, para surpresa de seus súditos, e usou a dupla coroa do Baixo e do Alto Egito. 

Ela foi uma mulher de personalidade persuasiva, que expandiu a influência do Egito no exterior e erigiu inúmeros edifícios imponentes no seu país, sendo o mais ambicioso deles a sua câmara mortuária, nas proximidades de Tebas. A sua morte permitiu que Tutmés III expressasse seu longo ressentimento pela influência dela, desfigurando e mutilando seus monumentos e suas inscrições. No entanto, ele foi um governante muito hábil, e liderou com sucesso campanhas na Síria e na Pales­tina, uma das quais derrotou uma coalizão de cananeus e hicsos em Megido,[11] por volta de 1480 a.C, Durante os dezoito anos seguintes, Tutmés III construiu um vasto império no Oriente Médio, que se estendia até o Eufrates. Além disso, deu especial atenção a problemas domésticos; como resultado, o Egito alcançou uma elevada es­tatura imperial. De acordo com a convenção da realeza, Tutmés III erigiu muitos obeliscos para comemorar suas façanhas. Um desses monumentos, de Heliópolis, é a assim chamada Agulha de Cleópatra, que está à margem do Tâmisa, em Londres, enquanto um obelisco similar está na cidade de Nova York. 

Quanto Tutmés III morreu, em aproximadamente 1436 a.C., foi sucedido por seu filho, Amenhotep II, um guerreiro poderoso e valente que era conhecido pela sua habilidade como arqueiro. O sucessor de Amenhotep II foi Tutmés IV (1422- 1413 a.C.), que renovou os contatos diplomáticos com a Ásia, ao casar-se com uma princesa Mitani. Um mural deste período, encontrado em uma tumba em Tebas, retrata a chegada de um grupo de sírios trazendo tributos à corte real. Seus rostos barbados e suas roupas os identificam claramente como semitas. 

Amenhotep III ascendeu ao trono em 1413 a.C., aproximadamente, e reinou até 1377 a.C. Sob seu governo, a magnífica Décima Oitava Dinastia alcançou seu auge em uma explosão de esplendor cultural, Amenhotep deu continuidade à tradição de rela­ções amigáveis com as forças asiáticas, casando-se com algumas princesas nativas. Isto foi, essencialmente, um artificio político, pois já se fazia sentir o princípio de inquietu­de e revolta nas regiões do norte do império egípcio. Na realidade, embora o reinado de Amenhotep III coincidisse com um dos mais fascinantes e interessantes períodos da história egípcia, também marcou o declínio político do Novo Reino. 

Amenhotep IV tornou-se faraó por volta de 1377 a.C., depois de ser co-regente com seu pai por alguns anos. Tinha um temperamento sensível e intelectual, e era, em grande parte, influenciado pela sua mãe. Estabeleceu a sua capital, Aklietaton, no local de Tell al-Amarna, a trezentos e vinte quilômetros ao sul do Cairo. O local deu seu nome à era A mama, uma designação conveniente para os séculos XV e XIV a.C., quando AmenhotepIII e IV governaram o Egito. Aquilo que é, provavelmente, a mais antiga correspondência diplomática internacional, foi desenterrada dos arquivos reais em Tell al-Amarna. Entre outros textos, estavam aproximadamente quatrocentas tá­buas de argila, escritas em acadiano cuneiforme, pelos governantes de países estrangei­ros e províncias egípcias. A escrita cuneiforme da Babilônia era a língua oficial para a correspondência internacional de todos os tipos, e em Akhetaton havia estabelecimen­tos para o aprendizado da língua. Esses documentos esclarecem consideravelmente a maneira como os egípcios administravam suas possessões em Canaã. 

No início do período de Amarna, o reino mitani ainda mantinha o equilíbrio do poder entre os heteus e os egípcios. A Síria abrigava guarnições militares dos mi­tani, mas Canaã reivindicava as esferas de influência dos egípcios e dos heteus, ao passo que os reinos pequenos da Palestina simulavam alianças com uma ou outra destas duas grandes forças. Para assegurar a lealdade de seus capitães de províncias, os egípcios estabeleceram centros administrativos em Gaza e Jope, de onde os re­presentantes exerciam o governo. A autonomia local era respeitada, desde que não interferisse com o fluxo dos tributos e trabalho forçado para o Egito, mas se os pe­quenos reis se aliassem contra o seu suserano, força reservas de escravos e merce­nários seria empregada para suprimir qualquer revolta que surgisse. Quando ficou evidente, no início da era de Amarna, que o poder egípcio estava em declínio, foram erigidas fortalezas em Canaã, de modo que os exércitos pudessem estar de prontidão para sufocar qualquer rebelião nos seus estágios iniciais. 

Este sistema de governo provincial parece ter funcionado razoavelmente bem quando faraós poderosos estavam a cargo das questões estatais. Quando não era este o caso, no entanto, a corrupção era abundante, e a deterioração periódica da disciplina entre os soldados egípcios, combinada com a rivalidade que sempre sur­gia entre os estados vassalos, representava sérios problemas administrativos aos oficiais de governo. Tal situação de caos e desordem dominava no período de Amenhotep IV, e algumas das tábuas de Amarna consistiam de cartas escritas ao Egito por líderes cananeus, reclamando do ambiente de guerra mutuamente destruti­vo, e de agressão. Uma carta do vice-governador de Jerusalém fala sobre os habiru predatórios que estavam invadindo várias cidades em Canaã com considerável su­cesso, ao passo que outras tábuas fornecem indícios de intrigas políticas e mano­bras militares. Estes textos fornecem informações valiosas sobre as condições que existiam na Palestina algum tempo antes da ocupação pelos hebreus, e mostram que a era de Amarna foi de deterioração política no império egípcio. 

Amenhotep IV, marido da bela Nefertiti, abandonou os interesses políticos e administrativos, substituindo-os por interesses religiosos, e no sexto ano de seu reinado, introduziu uma completa reforma no politeísmo egípcio. Ele aboliu o complexo sistema de divindades e fez reviver o conceito do Antigo Reino do mo­noteísmo solar, fazendo do deus sol Rá, a divindade suprema, Isso estava de acordo com os ensinamentos dos sacerdotes em Heliópolis, a sede da adoração ao sol, Amon, a divindade de Tebas, com cabeça de carneiro, por algum tempo tinha sido associado com Rá em ritos, de modo que o deus sol passou a ser conhecido como Amon-Rá, “o pai dos deuses, o criador dos homens, o senhor de tudo o que existe”. Como um passo final para a liberação da adoração ao sol das suas origens mitológicas, Amenhotep reviveu o antigo título solar de Aton, suprimiu o culto a Amon, e fundou a sua nova cidade, Akhetaton (“Horizonte de Aton”) em um lugar isen­to de quaisquer associações com cultos anteriores a divindades. Para completar a transformação, ele mudou seu nome de Amenhotep (ou Amenófis) para Akhenaton, porque o nome anterior era parcialmente composto pelo nome divino Amen (Amon). Inscrições e monumentos que contivessem os nomes de divindades eli­minadas foram mutilados, de modo a remover todos os vestígios do politeísmo anterior, e a nova religião foi rigidamente posta em vigor nas Duas Terras. 

Em um dos sepulcros em TelI al-Amarna, foi encontrado o magnífico Hino ao Sol, que preservou os conceitos espirituais da nova fé em palavras de beleza singu­lar, que até lembram o Salmo 104: 

Quando te levantares, no horizonte do leste, 

Encherás todas as terras com tua beleza... 

Embora estejas distante, os teus raios estão sobre a terra; 

Embora estejas diante dos homens, os teus passos são invisíveis... 

Quando brilhas como Aton, durante o dia. 

Tu afastas a escuridão... 

Quão diversas são as tuas obras! 

Elas estão ocultas diante dos homens. 

Oh, único deus, além do qual não existe outro... 

Tu colocas cada homem no seu lugar. 

Tu supres as suas necessidades... 

Quão benevolentes são os teus desígnios, Oh, senhor da eternidade! 

Tu fazes as estações... 

Inverno, para trazer-lhes o frio, 

E o calor para que possam sentir-te.[12]

Com esta reforma religiosa, veio uma mudança nas formas tradicionais das ar­tes egípcias, e novos conceitos estéticos foram introduzidos. Isso resultou em um retrato da figura humana, de modo menos formal do que tinha sido anteriormente, e as estátuas de Akhenaton geralmente retratavam uma serenidade de caráter que não poderia ter sido alcançada sob os cânones anteriores de representação artística. E provável que o melhor objcct d\art que emergiu do antigo Egito tenha sido o maravi­lhoso busto da bela Nelertiti, que não apenas retratou, simplesmente, a semelhança de uma bela rainha de uma maneira impressionante, mas expressou, de modo eloquente, o refinamento cultural e artístico deste período. 

A revolução instituída por Akhenaton causou intensos ressentimentos, es­pecialmente entre os sacerdócios suprimidos, a cujo prestígio a reforma tinha desferido um sério golpe. Quando Akhenaton morreu, muito jovem, as forças re­primidas do culto suprimido a Amon irromperam em uma tentativa fanática de restaurar a antiga situação religiosa. As reformas de Akhenaton foram deixadas de lado, a capital de Akhenaton foi abandonada, e o culto a Amon foi restaurado à sua posição anterior de autoridade. 

O período que se seguiu à morte de Akhenaton foi marcado por mais deterio­ração no poder egípcio e a ascensão da influência dos heteus na Palestina e na Síria. Motivos políticos provavelmente inspiraram à bela Nefertiti a casar-se com um filho de Suppiluliuma, o poderoso monarca heteu. Esta foi uma separação bastante incomum, pois até então os egípcios não tinham permitido que suas mulheres se casas­sem com estrangeiros, nem que os príncipes de outros países ascendessem ao trono egípcio. Embora os arranjos fossem confirmados por Nefertiti, o tradicionalismo egípcio acabou vencendo e uma séria crise internacional foi causada pelo assassinato do filho de Suppiluliuma, quando viajava ao Egito para o casamento, 

A esta altura Tutancaton, marido da terceira filha de Akhenaton, ascendeu ao trono e reconquistou um pouco do controle sobre a situação. Obedecendo ao que ditavam os sentimentos populares, ele mudou a capital para Tebas, e mudou seu nome para Tutan- câmon (“Belo na vida é Amon") de modo a erradicar dela todos os resíduos da odiosa religião a Aton. No entanto, ele não reinou por muito tempo, e quando morreu, aos dezoito anos, teve um suntuoso enterro no Vale dos Reis, como gratidão pela restauração do sacerdócio de Amon. A opulência e o esplendor da ocasião ficaram escondidos dos olhos humanos até que a tumba de Tutancâmon foi descoberta por Howard Carter em 1922, e o mundo conheceu, mais uma vez, a grandeza do período de Amarna. 

Embora Tutancâmon tosse um faraó comparativamente menor, os artefatos que foram recuperados de sua tumba estão entre os mais esplêndidos do seu tipo no mundo. Os arqueólogos que descobriram a localização da tumba ficaram en­cantados em ver que ela não tinha sofrido com atividades de ladrões, como tinha acontecido com tumbas maiores no Vale dos Reis. Já em 1910 a localização da últi­ma morada de Tutancaton foi definida de uma maneira geral, mas não foi antes de 1920 que a escadaria que levava à tumba selada foi descoberta por Lord Carnarvon e Howard Carter. Em 1922, os escavadores abriram diversas ante-salas que continham uma impressionante coleção de mobília, ornamentos, roupas, armas e comida para o rei morto, e no ano seguinte, diante de um distinto público, a porta que levava à câmara funerária foi derrubada e o túmulo propriamente dito foi revelado, 

Além desta câmara, há um segundo túmulo, cujas portas estavam pregadas e seladas, e perto havia uma câmara de tesouro, em que um grande baú, guardado por estátuas magnificamente executadas de quatro divindades egípcias, continha os órgãos internos mumificados do rei, Quando a câmara funerária propriamente dita foi finalmente explorada, naquele mesmo ano, descobriu-se que continha um enorme sarcófago de quartzito amarelo coberto com inscrições religiosas e coroa­do com uma magnífica tampa de granito rosado, Quando esta tampa foi removida, uma etígie dourada magnificamente executada do jovem rei toi descoberta, e além de símbolos religiosos trabalhados na testa, havia uma pequena coroa de flores, o último presente carinhoso de uma rainha entristecida a seu marido falecido. Este magnífico ataúde externo abrigava um segundo, de igual esplendor, e dentro deste estava o terceiro e último, feito de ouro sólido e adornado com joias. Quando a mú­mia finalmente foi exposta, viu-se que tinha sido decorada com uma grande quan­tidade de objetos de ouro e pedras preciosas, cujo valor não pode ser determinado com exatidão. A fantástica profusão de artigos valiosos de todos os tipos é um teste­munho eloquente da estima de que o jovem rei era alvo pelo sacerdócio de Amon, pela maneira como tinha reabilitado o seu culto, e ao mesmo tempo dá alguma indicação da enorme riqueza que as famílias reais do Egito antigo possuíam. 

A Décima Nona Dinastia 

Um general egípcio, Haremhab (de aprox, 1345-1318 a.C,), o fundador da Décima Nona Dinastia, restaurou a glória imperial até certo ponto afastando o desastre pelas mãos dos heteus, e instituindo um programa de reorganização doméstica que incluiu certas medidas de reforma social Sob o comando de Seti I (de aprox. 1317-1290 a.C.), foram realizadas campanhas militares na Palestina contra os cananeus e os heteus, enquanto Ramsés II (de aprox. 1290-1224 a.C.) dava continuidade a uma agressiva política contra os últimos. Houve uma série de batalhas, e as hostilidades chegaram ao fim com um trata­do de não agressão no qual o norte da Síria foi cedido aos heteus, enquanto o sul da Síria e a Palestina permaneciam sob controle egípcio. Pela primeira vez na história egípcia, uma princesa hetéia exercia as funções de rainha do Egito, ao casar-se com Ramsés II, filho de Seti I, por volta de 1267 a.C. Nos casamentos egiptólogos anteriores entre faraós e a nobreza asiática, as mulheres tinham sido recebidas na casa real egípcia, mas não tinham recebido reconhecimento público como rainhas. Desta maneira, os heteus obtiveram um triunfo diplomático retumbante à custa de um Egito debilitado. 

No início da Décima Nona Dinastia, Ramsés II transferiu a sua capital de Tebas para a antiga cidade dos hicsos, Avaris (Tânis), que tinha sido reconstruída por Seti I e que foi posteriormente ampliada consideravelmente por Ramsés II. Escavações em Tell el-Ratabah revelaram aquilo que se acredita ser a antiga cidade de Pítom, que foi construída, ou talvez reconstruída, por trabalhos escravos de hebreus para um faraó egípcio. Parte do sólido trabalho de tijolos ainda está em evidência, e mostra que os muros de Pitom eram feitos de “'tijolos sem palha”, tal como foram empregados no corvee israelita (Êx 1.14; 5,7ss.). A cidade-celeiro egípcia, conhecida pelos hebreus como Ramessés (Êx 1.11, versão ARA) era, na verdade, Tânis[13] a capital da Décima Nona Dinastia, que Ramsés II ampliou. Uma vez que o relato bíblico usou o nome pelo qual a cidade foi conhecida somente por um período de dois séculos (de aprox. 1300-1100 a.C.), é provável que a tradição dos hebreus date desta época. 

Israel no Egito 

Apesar do fato de que muitos estudiosos tentaram refutar a historicidade de uma permanência prolongada de Israel no Egito, as condições históricas que exis­tiam do século XIX a.C. no Oriente Médio e no Egito estão de pleno acordo com a tradição bíblica a este respeito. A ascensão da influência semita no Baixo Egito tinha culminado antes do final do século XVIII a.C. na dominação dos hicsos so­bre as Duas Terras. E provável que a migração de Jacó para o Egito estivesse relacio­nada com o crescimento do poder dos hicsos, e se fosse este o caso, a ascensão de José à proeminência política teria sido uma questão, comparativamente, de pouca dificuldade. Mas a sorte semita no Egito foi revertida com a expulsão dos hicsos por Ahmósis I, e conforme fontes contemporâneas, os semitas que permaneceram na região do Delta eram escravizados, ou obrigados a trabalhar como camponeses na região da antiga capital dos hicsos. 

Essa circunstância parece corresponder àquela descrita no primeiro capítulo do livro de Êxodo, embora a identidade do faraó “que não conhecera a José” não esteja clara, de maneira nenhuma. Certamente a escravidão dos hebreus teria começado com Amósis, mas a sua aflição atual, por supervisores egípcios, é mais provavelmen­te associada com a obra de construção em Pitom e Ramessés, sob o governo de Seti I e Ramsés II. Os espancamentos que os hebreus suportavam acrescentam um toque desafortunadamente autêntico à situação, pois este era o procedimento padrão na vida egípcia antiga para o encorajamento do progresso em qualquer tipo de traba­lho.[14] Apesar das condições sob as quais viviam, o número de hebreus crescia, e para interromper esta tendência, os egípcios promulgaram uma lei, visando a destruição de todos os filhos do sexo masculino, nascidos de mães semitas. 

Desta situação emergiu o bebê Moisés, que pouco tempo depois de seu nascimento foi escondido, por sua mãe, e colocado em um cesto feito de juncos em um ponto do rio que era usado pela filha de Faraó, que ali se banhava. Quando encontrou o bebê, ela o levou à sua casa, e o adotou, dando-lhe um nome egípcio, e o criou como tal. Este evento aconteceu diversos séculos antes da lenda cuneiforme (800 a.C.) de Sargão I, de Acade: 

Minha mãe simplória me concebeu; em segredo, me deu à luz. 

Ela me colocou em uma arca de juncos, com betume selou a tampa. 

Ela me lançou no rio, que não veio sobre mim. 

O rio me sustentou e me levou a Akki, que tirava água... 

Akki, que tirava água, (me levou) como seu filho (e) me criou.[15]

As narrativas que tratam da primeira parte da vida de Moisés são bastante co­nhecidas. Sua educação provavelmente se deu no círculo sacerdotal de Heliópolis, onde complexos temas do culto a Rá formariam os antecedentes de sua instrução. Há pouca dúvida de que ele tivesse se familiarizado com as crenças e práticas re­ligiosas da Canaã antiga, que já exerciam considerável influência sobre a adora­ção no Oriente Médio. Ele também estaria em contato com os dialetos de Canaã, assim como a escrita cuneiforme da Babilônia, que era o veículo normal para a comunicação diplomática. Provavelmente Moisés estava familiarizado com as máximas de renomados sábios egípcios como Ptah Hotep,[16] a instituição do mono­teísmo solar por Akhenaton e a sua queda sob Tutancâmon, e a ampla variedade de obras sacerdotais que estariam incluídas na educação de alguém pertencente à casa real. 

Não há nada particularmente incomum na ideia de um semita ocidental sendo criado nos círculos da corte no Egito antigo. Durante o período do Novo Reino, os faraós tinham diversas residências na região do Delta, e os filhos das concubinas eram educados nos harims reais para liderança no estado. Existem claras evidências de que, pelo menos a partir da época de Ramsés II, os asiáticos eram criados nos harims do faraó, almejando assumir vários cargos. Na realidade, a influência semita oriental tinha penetrado tão profundamente na corte de Ramsés II, que a sua filha mais ve­lha era chamada pelo nome puramente semita de Bint-Anath. 

Esses contatos que Moisés tinha com os semitas que viviam a leste do que na atualidade é o Canal de Suez, levaram ao seu casamento com a filha de um sacer­dote midianita, e enquanto ele vivia nesta região, ao sul do mar Morto, recebeu uma manifestação Divina, na qual Deus lhe apareceu usando o nome de Jeová. Moisés recebeu a ordem de retornar ao Egito com seu irmão Arão, e foi encarrega­do de liderar os israelitas na saída para um destino definitivo na Palestina. 

A chegada de Moisés ao Egito como líder dos israelitas cativos, coincidiu com o período da maior opressão deste povo, Moisés estava um pouco relutante em assumir as responsabilidades do seu chamado, mas depois de encontrar-se com seu irmão Arão e os anciãos de Israel (Ex 4.27-31), foi ter com Faraó para pedir permissão para que os israelitas saíssem ao deserto para celebrar uma festa para o seu Deus. Este pedido foi negado por Faraó, porque iria incentivar a ociosidade entre os hebreus, não porque houvesse alguma coisa incomum em tal proposta. Ostracos egípcios que registravam as atividades diárias dos operários frequentemente incluíam anotações sobre as suas ausências, e um destes textos fala sobre os operários fazendo “ofertas ao seu deus”. 

Em consequência desta recusa a Moisés, uma sequência de calamidades naturais, intimamente relacionadas, caiu sobre os egípcios, culminando com a morte de seus primogênitos. Neste ponto, os israelitas se prepararam para deixar a terra, e foi instituída a festa da Páscoa (Ex 13) para comemorar a Divina libertação do Egito. Os israelitas iniciaram seu Êxodo, dirigindo-se ao sudeste, de Ramesses a Sucote, mas foram impedidos de tomar a rota norte, ao longo do Mediterrâneo, por causa do perigo que os filisteus representavam. Era um povo marítimo que tinha migrado do Egeu para Canaã pouco antes do século XII a.C. Tendo se desviado, entrando no deserto de Etã, os israelitas receberam instruções de acampar perto de Pi-Hairote, entre Migdol e o mar (Êx 14.1), 

Foi neste acampamento que os carros egípcios alcançaram os israelitas em fuga, precipitando, desta maneira, os eventos que resultaram no Êxodo propriamente dito, e na destruição das forças egípcias. Antes da descoberta de Ramessés, o relato bíblico do Êxodo era visto com considerável ceticismo por muitos estudiosos, dos quais alguns declaravam que a verdadeira rota seguida era a estrada militar de Ramessés a Gaza, conhecida como o “Caminho da terra dos filisteus”. Outros argumentavam que era improvável que os isra­elitas tivessem realmente cruzado o corpo das águas do mar Vermelho, e sugeriam que, na verdade, eles teriam seguido a antiga rota comercial, que ligava Mênfis a Eziom-Geber, na nascente do Golfo de Ácaba. Alguns entendem que parte da interpretação equivocada se deva à tradução do nome hebreu Yãm Supit como sendo “mar Vermelho", e que a tradu­ção correta seria “mar de Pântano”, ou “mar de juncos". Assim, este grupo de estudiosos entende que os nomes “mar Vermelho’’ (Êx 13.18), e “o mar" (Êx 14) provavelmente pre­tendem indicar o Lago de juncos, situado nos pântanos entre os Lagos Salgados e a cidade de Zilu (Thiel). Eles entendem como pouco provável que a referência seja ao golfo oceâni­co, que se estende do Oceano Indico ao Golfo de Suez, pois ali não havia juncos. Embora o nome Yam Suph fosse usado, na antiguidade, livremente, para designar o mar Vermelho propriamente dito, e também os golfos de Suez e Acaba, este grupo pensa que parece improvável que qualquer um dos dois últimos fosse o Yam Suph da narrativa do Êxodo. A principal razão é que os israelitas são retratados como cruzando um volume de água que representava um obstáculo natural para a viagem no deserto do Sinai, e nem o Golfo de Suez nem o de Acaba satisfazem este requisito. O mar Vermelho está na extremidade sul de uma falha geológica, que se estende desde a Síria, seguindo o vale do Jordão e o Golfo de Acaba, até a África. Na antiguidade, a área norte do Golfo de Suez consistia de uma su­cessão de pequenos lagos e terreno pantanoso, onde os juncos para papiros cresciam em abundância. Documentos egípcios do século XIII a.C. falavam de um grande Pântano de Papiro, que existia na localidade de Tânis, no delta do Nilo.[17] Assim, alguns entendem que a travessia foi feita provavelmente na área do Lago Timsah, um corpo de água um pouco ao norte dos Lagos Salgados. Porém isto não é possível, pois ali há trechos rasos de água que seriam facilmente abertos por um vento, e que não afogariam o exército egípcio. A descrição de Êxodo 14.21 mostra um milagre e não um fenômeno natural que pode ocorrer periodicamente em diferentes partes do mundo. Assim podemos entender que a travessia realmente se deu no mar Vermelho. 

A Data do Êxodo 

A cronologia do Êxodo apresenta problemas que sem dúvida estão entre os mais complicados em toda a história hebraica. Ela foi assunto de acalorado de­bate por vários anos, e as dificuldades, de maneira nenhuma, estão solucionadas no presente. As duas principais interpretações conflitantes têm uma diferença de mais de um século e meio, e ambas encontram sustentação, até certo ponto, pelas narrativas bíblicas. A data mais antiga coloca o Êxodo no reinado de Amenhotep III da Décima Oitava Dinastia, ao passo que a data mais recente o considera como tendo ocorrido na Décima Nona Dinastia, quando Ramsés II governava o Egjto. 

A data do século XV se baseia, parcialmente, em uma observação cronológica de 1 Reis 6.1, que afirma que Salomão começou a construir o Templo quatrocentos e oitenta anos depois do Êxodo, e parcialmente na data da conquista de Canaã, in­cluindo a queda de Jerico, assim como em outras fontes arqueológicas. Supondo que a referência a Salomão considere uma data ao redor de 961 a.C., o Êxodo teria ocorrido em aproximadamente 1441 a.C. As escavações de Garstang em Jerico possibilitaram maior fundamento a esta data, quando se anunciou que Jerico tinha caído diante dos israelitas invasores antes de 1400 a.C.[18] Também se afirmou que o contato diplomático entre Jericó e o Egito foi interrompido sob o governo de Amenhotep III (1413-1377 a.C.), tornando Amenhotep II (1436-1422 a.C.) o faraó do Êxodo. A queda de Jericó tinha sido precedida pela ocupação israelita de Moabe, que, segundo Jefté em Juízes 11.26, se es­tendeu por um período de trezentos anos. Se a época de Jefté for entendida como 1100 a.C., a ocupação do território Moabita teria ocorrido em aproximadamente 1400 a.C., que, mais uma vez, atribuiu ao Êxodo uma data no século XV a.C. 

Circunstâncias da história egípcia também forneceram provas a favor de uma data nesta época, tornando, desta maneira, Tutmés III, o grande edificador do im­pério, o faraó da opressão israelita. Um mural na tumba de Rekhmire, o vizir de Tutmés III, retrata uma cena de fabricação de tijolos, em que escravos estão umedecendo montes de barro do Nilo, acrescentando areia e palha picada, e colocando a mistura em moldes para assar ao sol. O mural traz uma inscrição que lembra o conselho dado pelos capatazes aos hebreus escravizados: “A vara está na minha mão; não sejam ociosos". 

A menção aos habiru invasores nas tábuas de Tell al-A marna (de aprox. 1400- 1360 a.C.) foi interpretada como particularmente significativa na atribuição de uma data anterior para o Êxodo. Os habiru foram comparados aos hebreus con­quistadores, e as agitadas condições políticas refletidas nas tábuas foram conside­radas como sendo as que existiam em Canaâ antes da invasão dos israelitas. Des­ta maneira, o pedido de Abdi-Hiba, governador de Jerusalém, em carta ao faraó Akhenaton, na qual solicitava ajuda contra os saqueadores habiru: 

Que o rei... envie arqueiros contra os homens que transgridem contra o rei, meu senhor. Se houver arqueiros (aqui) neste ano, então as terras... (ainda) pertencerão ao rei, meu senhor. Se não houver arqueiros, as terras... (não mais) pertencerão ao rei..." 

foi considerada como uma versão cananéia nativa das conquistas de Josué. 

Os argumentos para a atribuição da data do Êxodo no século XIII a.C. se ba­seavam, em parte, na referência encontrada em Êxodo 1.11, que implica que os israelitas estavam em escravidão quando as cidades de Ramessés e Pitom estavam sendo edificadas ou ampliadas, fazendo de Seti I ou Ramsés II o faraó da opressão israelita. Inscrições contemporâneas mencionam que o povo que trabalhava para Ramsés era conhecido como Apiru, que é identificado, por muitos estudiosos, com os Habiru. Uma stela encontrada em Ramessés registrava que a cidade foi fundada quatrocentos anos antes que o monumento fosse erigido, e uma vez que a data do monumento era aproximadamente 1320 a.C., a capital dos hicsos teria sido fundada em 1720 a.C. Como observamos anteriormente, a conexão entre a invasão do Egito pelos hicsos e a ocupação dos hebreus da terra de Gósen, foi considerada como implícita pela tradição em Êxodo 12.40, que apresenta uma permanência de quatrocentos e trinta anos de Israel no Egito, e que provavelmente se baseia na era de Avaris. Esta interpretação é defendida pela referência em Números 13.22, que afirma que Hebrom foi construída sete anos antes que Zoã (Avaris), usando o período de Avaris como um meio para a datação. Com base nessa informação, o Êxodo teria ocorrido cerca de quatrocentos e trinta anos depois que Avaris-Tânis foi fundada, fornecendo a data aproximada de 1300 a.C. 

Novas evidências a favor de uma data no século XIII para o Êxodo emergiram do trabalho de Glueck na Transjordânia. Ele descobriu que depois da época de Abraão, os territórios de Edom e Moabe ficaram privados de população até a meta­de do século XIII a,C.[19] Fundamentado nesse dado, ficou evidente que as condições da população que precisava do circuito de Edom, e as difíceis campanhas contra os amonitas em Hesbom (Nm 20-21) dificilmente teriam existido até o século XIII, e depois disto Edom esteve densamente povoada. 

Uma data ainda mais posterior para a queda de Jericó (1250 a.C.), foi sugerida por Vincent, um eminente arqueólogo palestino, que baseou suas conclusões, até certo ponto, na descoberta de imitações de vasos micenos em Jericó. Provavel­mente teriam sido importados de origens gregas quando a civilização minoana de Creta (de aprox. 2000-1000 a.C.) exercia uma importante influência cultural sobre as terras do Mediterrâneo, e pertenciam propriamente ao período Final Bronze II (de aprox. 1375-1200 a.C.), com o término dessa influência não mais foram impor­tados. No entanto, outras considerações arqueológicas têm um peso muito forte contra uma data tão tardia para o Êxodo, incluindo o fato de que toda uma série de cidades cananéias, tais como Laquis e Betel caíram no século XIII a.C. 

Fica evidente, com base nesta breve exposição da situação, que nenhuma se­quência de datação deixa de apresentar suas dificuldades. A data do século XV apresenta problemas também para a cronologia do período patriarcal, pois inter­pretando as narrativas do livro de Gênesis tal como estão escritas, pareceria que houve um período de duzentos e cinquenta anos entre a chegada de Abraão a Canaã e a migração de Jacó para o Egito. Se a afirmação de que Israel esteve no Egito por quatrocentos e trinta anos (Ex 12.40) for considerada independentemente do movimento dos hicsos, supostamente significaria que Abraão entrou em Canaã por volta de seiscentos e quarenta e cinco anos antes do Êxodo, aproximadamente em 2086 a.C. Uma vez que ele tinha setenta e cinco anos de idade nesta época (Gn 12.4), seu nascimento teria ocorrido por volta de 2161 a,C., algum tempo antes da Terceira Dinastia de Ur (de aprox. 2070-1960 a.C.). Esta data parece um pouco precoce, a julgar pela tendência das migrações na Mesopotâmia depois do século XII a.C. Se, no entanto, Abraão entrou em Canaã em torno de 1900 a.C, como os indícios arqueológicos relativos à destruição de Sodoma e Gomorra parecem indicar, uma permanência prolongada dos israelitas no Egito indicaria uma data no século XIII para o Êxodo. 

De acordo com Gênesis 15.13, os descendentes de Abraão iriam sofrer aflições em terra estrangeira por quatrocentos anos, ao passo que a tradição de Êxodo 12.40 estende a permanência a quatrocentos e trinta anos. A versão grega Septuaginta do último texto, no entanto, reduziu o período a duzentos e cinquenta anos. Pro­vavelmente há duas tradições envolvidas aqui: a primeira, indicando uma estada prolongada, parece ter computado a extensão da permanência a partir da época em que os hicsos entraram no Egito (1720 a.C.), ao passo que a septuaginta calculou a “servidão" real a partir da época em que os hicsos foram expulsos. Em qualquer caso, as duas tradições indicariam uma data mais próxima do início do século XIII a.C., se as migrações dos patriarcas estivessem conectadas com a era de Avaris. 

Parte da dificuldade na interpretação correta da referência de 1 Reis 6.1, está no fato de que os povos orientais frequentemente usavam números para indicar coisas além de considerações puramente matemáticas. Na realidade, a atitude dos primeiros autores bíblicos com relação aos cálculos gerais tem muito em comum com a do beduíno árabe moderno. Quando é necessária uma maior exatidão cro­nológica, as genealogias são muito mais importantes, para a mente oriental, do que o método ocidental de cálculo em termos de dias, meses e anos. Esta é uma das razões para a constante presença das genealogias nas narrativas bíblicas, de modo geral, e também explica, em parte, o uso de “números redondos” para ex­pressar duração de períodos aproximados de tempo. 

Assim sendo, a expressão “quarenta anos” era um sinônimo do conceito de uma “geração”. Quando parece haver um tema ou ciclo que envolve setes ou qua­rentas e números similares, é provável que algo além de considerações puramente literais esteja envolvido. Quando a referência em 1 Reis 6.1 é examinada deste pon­to de vista, descobre-se que abrange uma questão de doze gerações, de quarenta anos cada uma. Esse fato parece envolver um ciclo duplo, e pode se relacionar, de algum modo, à ideia de gerações sucessivas, como aplicada às doze tribos. Se o número for interpretado literalmente, no entanto, apontará fortemente para uma data no século XV a.C, para o Êxodo.[20]

A evidência que as escavações de Garstang em Jericó apresentaram a favor de uma data mais antiga, foi seriamente prejudicada devido a trabalhos posteriores no local, realizados sob a supervisão de Dame Kathleen Kenyon, a partir de 1951. Sellin, Watzinger e Garstang tinham demonstrado que Jericó estava habitada nos tempos neolíticos, e que diversas cidades foram erigidas no local durante a era calcolítica (4500-3000 a.C.), Cidades posteriores, que Garstang identificou alfabe­ticamente, datavam de 3000 a.C., e a quarta destas cidades, a Cidade D, construí­da aproximadamente em 1500 a.C. era considerada como sendo aquela destruída por Josué em 1400 a.C. Porém, escavações realizadas desde 1951 mostraram que praticamente nada é conhecido sobre o lugar, ao menos da maneira como exis­tia nos tempos de Josué, devido à erosão natural e à destruição humana. Uma vez que não foram descobertos indícios de muros do Final da Idade do Bronze, e não foram encontrados restos de cerâmicas contemporâneas, tornou-se pratica­mente impossível dizer quando ocorreu esta destruição pelas mãos dos israelitas. Recentes descobertas em Jericó demonstraram, de modo inquestionável, a imensa antiguidade do local, e esclareceram ainda mais a natureza das comunidades ne­olíticas daquele local, anteriores à cerâmica.[21]

Entretanto, não houve nenhuma informação nova sobre a cronologia do Êxodo, e podem passar alguns anos antes que uma nova avaliação do problema da data seja possível. 

Objeções à data no século XIII geralmente consideram as condições da Déci­ma Oitava Dinastia como ideais para a escravização dos hebreus. Alguns estudio­sos argumentaram que a referência à cidade do tesouro de Ramessés, em Êxodo 1.11, é uma referência ao edifício da capital original dos hicsos, Avans-Tânis, apro­ximadamente em 1720 a.C., por meio de trabalho israelita, e não à sua ampliação, sob Ramsés II (1290-1224 a.C.). Esta interpretação supõe que os israelitas entraram no Egito aproximadamente em 1870 a.C., durante o forte período do Reino Médio, e que foram escravizados quando os hicsos conquistaram o Egito, por volta de 1720 a.C. O nome “Casa de Ramsés” (Per-Re’emanese), pelo qual Tânis foi conhecida durante dois séculos (em aprox. 1300-1100 a.C.) é considerado como sendo uma forma modernizada da arcaica Zoâ-Avaris, da mesma maneira que Laís (Gn 14.14) foi posteriormente modificada para Dã, com a referência sendo, no que diz respei­to a Tânis, originalmente a capital dos hicsos. 

A possível relação entre os habiru das tábuas de Amarna, os hebreus e os Aperu (Apiru) também foi apresentada como um argumento contra a data do Êxodo no século XIII. Nesta interpretação, a conquista da Palestina pelos hebreus foi, na verdade, a invasão dos habiru, da qual os príncipes dos estados cananeus reclama­ram em correspondência enviada a Amenhotep III e Amenhotep IV. Infelizmente não está claro, de maneira alguma, que houvesse algum relacionamento entre os habiru, os hebreus e os aperu, e o problema é no mínimo muito complexo.[22] Al­guns estudiosos que identificam os habiru e os hebreus afirmaram haver alguma relação entre os habiru e os aperu, mas não houve, até hoje, nenhum indício claro sobre este tema. 

As primeiras referências à presença dos aperu no Egito datam do tempo de Amenhotep II, que é o faraó do Êxodo, segundo a sequência de datação do sé­culo XV. Os aperu podem ter sido empregados, parcialmente, como tropas mer­cenárias, e definitivamente são retratados em inscrições dos tempos de Ramsés II como trabalhadores realizando trabalhos manuais pesados em pedreiras e nos locais em construção. Mas mesmo que tivesse existido alguma relação entre os hebreus e os aperu, o fato de que estes últimos estiveram no Egito desde o século XV até a metade do século XX a.C. indicaria que, pelo menos, alguns deles não deixaram o país com os hebreus, qualquer que tenha sido a data real do Êxodo. 

Alguns estudiosos também questionaram a validade das explorações de superfície feitas por Glueck na Transjordânia; e até mesmo Albright, que apoiou suas conclusões genéricas, admitiu que algumas modificações podiam ser neces­sárias.” Consequentemente, têm-se observado que a falta de população sedentária nas regiões da Arábia e Transjordânia, entre 1900 e 1300 a.C, não foi tão pronun­ciada corno Glueck afirmou. Desta maneira, pode ter havido uma resistência sufi­cientemente organizada entre os edomitas e os amonitas para justificar a situação descrita em Números 20-21. Seja como for, as conquistas dos israelitas peregrinos podem ter sido igualadas pelos feitos militares de outras tribos nômades guerrei­ras, ou de tribos cuja economia fosse de uma única variedade agrícola, como pode ter sido o caso dos edomitas e amonitas no século XV a.C. 

Parece, com base nas considerações anteriores, que deve ser tomado um gran­de cuidado na interpretação de dados arqueológicos, e a sua correlação com as narrativas bíblicas. Embora as escavações arqueológicas frequentemente tenham um propósito útil, para esclarecer a história antiga e a vida social daquele tempo, também podem apresentar uma variedade de problemas especiais, e a natureza subjetiva de algumas das conclusões às quais podemos chegar, frequentemente provoca considerável diferença de opinião entre os especialistas. A data do Êxodo é uma das questões mais problemáticas com que o arqueólogo bíblico se depara, mas não é demais esperar que isto seja solucionado no futuro, por novas descober­tas no Egito ou em Canaã. 



[1] V. G. Childe, New Light From the Most Ancient East, pp. 33s. 

[2] N. do E.: Medida agrária de alguns países. [O acre inglês e americano equivale a 40,47 aresj. O are é uma unidade de medida agrária, equiva­lente a lOOm2. 

[3] Ibid., pp. 57s. 

[4] E. A. W. Budge, From Fetish to God in Ancient Egypt (1934), pp. 75ss. 

[5] J. Finegan, Light From the Ancient Past, p. 73 e pi. 28. 

[6] H, Frankfort, The Birtk of Civilization in the Near East, pp. 82s. 

[7] E. A. W, Budge, op. tit., p. 16. 

[8] I. E. S. Edwards, Hie Pyramids of Egppt( 1947),pp. 86ss; B, Mertz, Temples, Tombs and Hieroglyphs (1964), pp. 85ss. 

[9] Em Josefo, Contra Apion., I, 14. 

[10] H. M. Orlinsky, Ancient Israel, p. 33. 

[11] J. Finegan, op. cit., p. 40. 

[12] Ibid., p. 97 

[13] G. E. Wright e F. V. Filson (Eds.), The Westminster Historical Atlas to the Bible, p. 37. 

[14] C. H. Gordon, op. at, pp. 130s. 

[15] J. B. Pritchard (Ed.), op. cit., p. 119. 

[16] Ibid., pp. 412ss. 

[17] W. F. Albright in OU Testament Commentary (1948), p. 142. 

[18] J. Gaistang, Joshua Judges (1931), p. 146. 

[19] N. Glueck, The Other Side of the Jordan, pp. 125ss. 

[20] J. W.Jack, The Date of the Exodus (1925), pp. 200ss. 

[21] Kathleen M. Kenyon, Digging Up Jericho (1957), pp. 51ss.; Archaeologf in the Holy Land (I960), pp. 43ss. 

[22] H. H. Rowley, From Joseph to Joshua (1950), pp. 45ss. 



Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.