8 de abril de 2015

Roland de Vaux - Instituições Religiosas: Preâmbulo

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PREÂMBULO

Instituições religiosas... O título dessa seção foi escolhido por distinção às instituições familiares, civis e militares estudadas até agora. Mas o título é imperfeito, pois a distinção não é clara: toda a vida social de Israel era permeada pela religião. A circuncisão tinha um sentido religioso; a realeza era, no senti­do que nós definimos, uma instituição religiosa, como era também a guerra, pelo menos no princípio da história de Israel; a lei, mesmo profana, sempre foi uma lei religiosa e o processo podia recorrer ao julgamento de Deus. Mas temos de tratar ainda das instituições cultuais, e aí a distinção é mais clara.

O culto é o conjunto dos atos sensíveis que a comunidade ou o indivíduo realizam para exteriorizar sua vida religiosa e entrarem relação com Deus, e o culto sem dúvida estabelece essa relação. Mas, Deus sendo necessariamente primeiro, a ação do homem é segunda, o culto é a resposta da criatura a seu Criador. O culto é essencialmente um fenômeno social: mesmo praticado pelo indivíduo, ele se realiza segundo regras determinadas, o mais possível em lugares determinados e geralmente em tempos determinados. Assim entendi­do, e este é seu sentido próprio, o culto não existe sem um ritual.

Em hebraico, o culto é chamado usualmente ‘ohodcih, é um “serviço”, como o serviço do rei, 1 Cr 26.30. “Servir" a Deus, é sobretudo lhe render um culto, Ex 3.12; 9.1,13, etc. Fala-se do “serviço” de Iahvé, Js 22.27, do “servi­ço da Tenda, Êx 30.16, etc., da Habitação, Êx 27.19, etc., do Templo, Ez 44.14, etc. Emprega-se a mesma palavra designar um ato particular do culto, Ex 12.25-26; 13.5.

As lormas exteriores desse serviço, os ritos, podem ser semelhantes aos de outras religiões, podem até serem emprestados delas, mas o que é importante é o sentido que receberam, e este é comandado pelas idéias religiosas da fé de Israel. Sem entrar no domínio da teologia bíblica, deve-se destacar o que caracteriza o culto israelita e o opõe aos cultos orientais, mesmo quando os ritos são os mesmos.

1) Este é o culto de um Deus único. Isto não exclui, do princípio da instalação em Canaã até o fim da monarquia, a multiplicidade de santuários, mas impõe uma unidade de intenção e a condenação de todo culto oferecido a outros deuses que não Iahvé, cf. o primeiro preceito do Decálogo, Êx 20.3; Dt 6.13: “É a Iahvé teu Deus que tu temerás e a ele somente servirás”. Especi­almente, isso exclui a existência de uma divindade feminina cônjuge de Iahvé e todos os ritos sensuais derivados da crença em casais divinos. Este Deus único é um Deus santo, em face do qual o homem toma consciência de sua impureza e de suas faltas; o culto israelita terá, em graus diversos segundo seus atos particulares e as etapas de sua evolução, um objetivo de purificação e de expiação.

2) Este é o culto de um Deus pessoal que age na história: Iahvé é o Deus da Aliança. O culto israelita não é a atualização de mitos das origens, como na Mesopotâmia, ou de mitos da natureza, como em Canaã. Ele comemora, reforça ou restabelece a Aliança que Iahvé concluiu com seu povo em um momento da história. Essa substituição de mitos extratemporais por uma história da salvação é uma originalidade de Israel, que não pode ser diminuída por ecos de antigos mitos que se percebem em algumas passagens do Antigo Testa­mento. Essas ligações históricas e não míticas do culto israelita devem ser afirmadas contra uma corrente recente de opinião que considera que, mesmo em Israel, o ritual é a expressão do mito.

3) Este é um culto sem imagem. A proibição das imagens está contida nas duas versões do Decálogo, Êx 20.4 e Dt 5.8, e ela remonta certamente à época de Moisés. Ela é um traço primitivo e característico do javismo. O motivo dela é que Iahvé é um Deus que não se vê e que, por conseqüência, não pode ser representado: Iahvé falou do alto do céu, Êx 20.22-23, no Sinai, os israelitas não viram nenhuma forma quando Iahvé falou do meio do fogo, Dt 4.15-18, e esses dois textos têm a mesma conclusão: não se deve fazer imagens cultuais. Isto não significa que Iahvé tenha sido concebido desde o princípio como um ser puramente espiritual, o que não evoca nada para o pensamento hebraico, mas isso significa que toda imagem dele seria inadequada: a transcendência de Deus é reconhecida, esperando-se que ele venha a ser definido como Espí­rito. E, desde a origem, esta proibição era uma salvaguarda contra a imitação dos cultos estrangeiros destinados a deuses que não eram representados à maneira humana e dos quais era preciso satisfazer as necessidades sensíveis e sensuais. As conseqüências para o culto israelita são importantes: nunca hou­ve - não importa o que se tenha dito - imagem de Iahvé na arca, nem em Siló, nem no Templo de Salomão, e os “bezerros de ouro” de Jeroboão não eram originalmente senão suportes da divindade invisível; o Santos dos Santos onde Iahvé se faz presente é inacessível ao fiel; o altar de Iahvé não está, como outros, em relação com uma estátua ou um símbolo divino e os sacrifícios iiraelitas sobem em fumaça para o céu onde Iahvé reside.

Da mesma forma que o estudo das instituições cultuais está assim ligado à teologia bíblica, ele tem relações com a história das religiões, onde procura analogias, a explicação de ritos e talvez sua origem. Mas não se trata aqui de fazer uma história da religião tal como ela tem sido de fato praticada pelos israelitas que, especialmente em certas épocas, têm sido levados a um culto sincretista ou simplesmente pagão. Esses são desvios que só serão tratados indiretamente nos capítulos seguintes. Seu objeto próprio é a exposição das instituições cultuais que o Antigo Testamento apresenta como sendo as do javismo legítimo. Serão estudados sucessivamente o lugar do culto, o pessoal do culto, os atos do culto e especialmente o sacrifício que é nele o ato princi­pal, e, por fim, o calendário religioso e as festas.


VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.