2 de abril de 2015

Roland de Vaux - A Guerra

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1. PEQUENA HISTÓRIA MILITAR DE ISRAEL 

As primeiras guerras de Israel foram guerras de conquista: a tradição representa o povo tomando posse, pelas armas e com a ajuda de Deus, da Terra que lhe foi prometida. A derrota de Seom, rei de Hesbom e de Ogue, rei de Basã Nm 21.21-35, a campanha contra Midiam, Nm 31.1-12, asseguram um território a Rúben, a Gade e à meia tribo de Manassés. O livro de Josué descreve a ocupação da Cisjordânia como uma operação militar em três ações de grande envergadura; o povo, tendo passado o Jordão, abre caminho até o centro do país, Js 1-9; uma coalizão de cinco reis cananeus do sul é derrotada e toda a parte meridional do país é conquistada, Js 10; os reis do norte são combatidos em Merom e suas cidades caem nas mãos dos israelitas, Js 11. É claro que essa apresentação simplifica muito a realidade e que a ação das tribos foi mais dispersa, mais lenta e coroada de sucesso desigual, cf. Js 15.13-17; Jz 1. É também verdade que os israelitas se infiltraram pacificamente em todo lugar onde puderam, mas também encontraram resistência e tiveram que superá- la de arma em punho. 

As guerras do período dos juizes e do reinado de Saul foram defensivas, primeiro contra reações dos cananeus e de povos vizinhos em detrimento dos quais Israel tinha tomado para si um lugar, depois, contra as invasões dos filisteus, que extrapolavam seu território costeiro. O reinado de Davi, pelo contrário, foi um período de conquista e depois de expansão. Os motivos das guerras externas de Davi em parte nos escapam. A guerra contra os amonitas deslancha após o ultraje feito aos embaixadores de Davi, II Sm 10.1-5; os arameus são atacados porque foram em socorro dos amonitas, II Sm 10.6-19; cf. 8.3-6. Não se conhece o motivo da guerra contra Moabe, II Sm 8.2, nem daquela contra Edom, II Sm 8.13. Da bravata dos amonitas e da prontidão dos urumeus em socorrê-los resulta que os estados vizinhos estavam inquietos com o poder crescente de Israel, mas também que tinham subestimado o valor de leu novo chefe; é possível que Davi tenha sido levado, pelas provocações deles e por seus sucessos a uma política de conquista com a qual não tinhu sonhado. 

Essas conquistas foram muito mau defendidas por seus sucessores. Não houve nenhuma guerra sob Salomão, que não reage quando Edom e Aram lhe escapam em parte, I Rs 11.14-25; os amonitas tinham se declarado indepen­dentes desde a morte de Davi. O rei de Moabe se revoltou quando da morte de Acabe e uma expedição punitiva do rei de Israel, apoiada pelo rei de Judá e seu vassalo edomita, não conseguiu reconduzi-lo à obediência, II Rs 3.4-27. Pouco depois, Edom livra-se do domínio de Judá, após uma campanha infeliz de Jeorão, II Rs 8.20-22. 

Após o cisma, a fronteira artificial que separava Israel e Judá foi causa de conflito entre os reinos irmãos sob Baasa e Asa, I Rs 15.16-22, depois sob Joás e Amazias, II Rs 14.8-14, enfim sob Acaz e Peca (guerra siro-efraimita) II Rs 16.5; II Cr 28.5-8. Mas cada reino tinha muito que fazer para defender seu terri­tório contra os estrangeiros. Roboão evitou uma guerra contra o faraó Sheshonq entregando os tesouros do Templo e do palácio, I Rs 14.25-26, e na seqüência o Egito foi menos freqüentemente um inimigo que um aliado ineficaz, até o reina­do de Josias. Na fronteira filistéia, conflitos sobre os quais temos pouca infor­mação e onde Judá foi ora vencedor, ora derrotado estouraram sob Jeorão, IRs 8.22; II Cr 21.16, Uzias, II Cr 26.6, Acaz, II Cr 28.18, e Ezequias, II Rs 18.8. As guerras contra Edom pela posse de Elat, II Rs 14.7 e 22; 16.6, tinham por fim a manutenção da rota comercial para o Mar Vermelho e a Arábia. 

O reino de Israel também era limítrofe dos filisteus a sudoeste. Gibetom, uma fortificação filistéia que ameaçava Gezer, foi sitiada por Nadabe e por Onri, IRs 15.27; 16.15. Mais tarde ainda, Isaías mostra Israel entre os filisteus e os arameus que o devoram, Is 9.11. Esses arameus de Damasco foram duran­te muito tempo adversários ameaçadores. As guerras, que duraram quase todo o século IX a.C. alternando sucessos com, mais freqüentemente, reveses para os israelitas, tinham em jogo principalmente as possessões araméias de Davi na Transjordânia (os combates foram diante de Ramote de Gileade, I Rs 22.3, 29; II Rs 8.28; 9.1 s) e os distritos da Galiléia do norte, I Rs 15.20; cf. 20.34. Duas vezes os arameus puseram cerco a Samaria, I Rs 20.Is; II Rs 6.24s. Hazael de Damasco tentou até dominar inteiramente Israel e quase conseguiu, IIRs 10.32-33; 12.18; 13.3,7. A situação foi restabelecida sob Joás, II Rs 13.25, e sob Jeroboão II, II Rs 14.25, quando o poder de Damasco foi quebrado pelos assírios. 

Mas os assírios foram inimigos mais perigosos ainda. Quando Salmanasar II apareceu na Síria central, uma coalizão tentou pará-lo e, em 853 a.C., Acabe participou com 2000 carros e 18 mil soldados de infantaria da batalha de Qarqar, no vale do Orontes. Coisa curiosa, essa única expedição longínqua de um exército israelita não é mencionada na Bíblia e só a conhecemos por documentos cuneiformes. Somente uns dez anos mais tarde, em 841, Jeú aceitou sem resistên­cia pagar tributo. No século seguinte, quando do segundo grande avanço assírio sob Teglat-Falazar III, Menaém se declarou vassalo em 738, II Rs 15.19-20, mas em 734-732 o rei da Assíria ocupou a maior parte do território de Israel sem encontrar oposição séria, II Rs 15.29. 

Por fim, em 724, Salmanasar V sitiou a cidade de Samaria que, mesmo tendo seu rei sido feito prisioneiro, resistiu até o começo de 721. 

No momento do ataque de Teglat-Falasar, os reis de Aram e de Israel tentaram engajar Acaz de Judá em sua luta contra a Assíria e, por sua recusa tinham sitiado Jerusalém; é a guerra “siro-efraimita”. Acaz tinha então cha­mado a Assíria em seu socorro e Judá, sem combate, se tomou um Estado vassalo, II Rs 16.5-9; Is 7-8. Ezequias tentou sacudir o jugo, aproveitando-se de um movimento geral de revolta contra a Assíria e se aliando a Estados da costa e, mais longe, com o Egito e Babilônia, mas a resposta de Senaqueribe foi terrível: em 701, todas as cidades de Judá foram tomadas, apesar da resistên­cia testemunhada por documentos assírios, e foram dadas aos reis da Filistéia, que tinham permanecido fiéis; só Jerusalém foi salva, II Rs 18.13-19.37; Is 36-37. Não se sabe como Ezequias ou seu filho Manassés repararam essas perdas; em todo caso, Judá permaneceu vassalo da Assíria. Quando a força desta declinou, Josias rejeitou o jugo e liberou não só o território de Judá mas uma parte do antigo território de Israel, cf. II Rs 23.15-20. Nesse momento em que a dominação assíria se desmanchava por todo lado, é possível que ele não tenha precisado recorrer às armas para essa reconquista. Em todo caso, a Bíblia, só preocupada com a política religiosa do rei, não fala de nenhuma ação militar do rei. Em compensação, quando o faraó Neco subiu para socor­rer o último rei da Assíria cercado pelos babilônios e pelos medas, Josias tentou pará-lo no estreito de Megido, em 609: ele não queria nem uma sobrevida da Assíria nem um embargo do Egito sobre a Palestina. Houve uma breve batalha na qual Josias foi ferido mortalmente, II Cr 35.20-25, mais detalhado que II Rs 23.29-30. Neco anexou Judá e instalou aí um rei vassalo, Joiaquim. A dominação egípcia foi de curta duração. A derrota dos egípcios em Carkemish em 605 entregou toda a Síria-Palestina aos babilônios e Judá passou à sua suserania. Por querer se libertar, Joiaquim atraiu represálias de Nabucodonosor e os eventos se precipitaram: primeiro cerco de Jerusalém em 597, instalação de Zedequias, revolta deste, segundo cerco interrompido em um momento por uma intervenção egípcia, por fim a queda de Jerusalém em 587, II Rs 24.1 -25.21 e Informações esparsas em Jr. Os relatos bíblicos só se interessam pela sorte de Jerusalém, contudo é bem certo que as operações se estenderam para outros lugares. Segundo Jr 34.1 e 7, Láquis e Azeca ainda resistiam durante o cerco de Jerusalém. As escavações de Tell ed-Duweir (Lakish) testemunham destruições que a cidade sofreu durante as duas invasões caldéias e obras de defesa que foram feitas nesse meio tempo. Os óstracos que aí foram achados dão uma idéia da atividade que se desenvolveu imediatamente antes do segun­do cerco: ligações com Jerusalém, troca de sinais entre as cidades, envio de uma missão ao Egito. 

Vendo essa história militar de Israel sob a monarquia como um todo, constata-se que a era das guerras de conquista se abre e se fecha com Davi e que só houve depois guerras de defesa, excepcionalmente para reconduzir à obediência um vassalo rebelado ou para manter aberta uma via de comércio, muitas vezes para proteger ou restabelecer uma fronteira, finalmente, para tentar resistir aos grandes conquistadores. Mesmo Acabe em Qarqar e Josias em Megido não queriam senão salvaguardar a integridade de seu país. 

Após terem se sujeitado por muitos séculos a mestres estrangeiros, os judeus se revoltaram. A sublevação explodiu contra Etíoco Epífano que, que­rendo unificar seu império helenizando-o, recusou aos judeus o direito que lhes tinha sido reconhecido de viver segundo sua própria lei. A guerra de indepen­dência dos Macabeus foi pois uma guerra religiosa e voltaremos a tratar disso. Apenas notaremos aqui suas características militares particulares. Essa foi pri­meiro uma guerra de guerrilheiros que atormentava as guarnições selêucidas e as tropas enviadas em seu socorro, mas logo, Judas Macabeu, apelando a todo o povo, organizou seu exército segundo as antigas tradições de Israel, IMb 3.55-56. Ela foi sobretudo uma guerra de movimento; as operações, às vezes simultâneas, se estendiam do sul de Hebrom até a Galiléia e da costa mediterrânea até a Transjordânia; as cidades que resistiam eram rapidamente conquistadas graças aos novos recursos da poliorcética, que os judeus aprende­ram de seus inimigos. A liberdade religiosa foi reconquistada, 1 Mb 6.57-60, mas Judas entendeu que ela só seria garantida pela independência nacional e continuou a luta. Sob seu irmão Simão, os judeus reencontraram enfim a sua autonomia e “o jugo das nações foi tirado de Israel”, I Mb 13.41. 



2. A CONDUÇÃO DA GUERRA 

Dissemos acima como a guerra era conduzida no tempo do povo em armas, antes de Davi. Devemos agora ver, tanto quanto os documentos permi­tem, quais foram a estratégia e a tática seguidas pelo exército organizado da monarquia. 

Não havia declaração de guerra. O que mais se parece com um é o desafio lançado por Amazias de Judá a Joás de Israel: “Vamos nos medir!”, II Rs 14.8. Isto foi excepcional. Segundo os costumes da época, só depois de se acampar em solo inimigo e fazer exposição de suas forças é que são postas as condi­ções cuja não observância dará início às hostilidades, I Sm 11.1 s; I Rs 20.1 s; cf. Dt 20.10-12,1,9 mas a guerra já tinha começado. 

Os relatos de guerra não dão detalhes sobre a mobilização. Eles dizem somente que o rei “reúne” o exército ou o povo, I Rs 20.1; II Rs 6.24, que ele os “recenseia” ou os “passa em revista”, I Rs 20.27; II Rs 3.6. A coisa era fácil para o exército profissional, era menos fácil para o exército de recrutamento. No tempo do povo em armas, enviavam-se mensageiros ou tocava-se a trom­beta. Na época seguinte alguns textos supõem que se tocava a trombeta e que se levantava um sinal, o nes. Em Jr 51.27, a mobilização dos povos contra Babilônia é descrita assim: 

Ergam um estandarte na terra! 

Toquem a trombeta entre as nações! 

Preparem as nações para o combate contra ela; 

Convoquem contra ela estes reinos... 

Nomeiem um sargento recrutador contra ela! 

Mas, quando se trata de Israel, que mais freqüentemente sofria guerras que ele não tinha começado, o som da trombeta e o estandarte levantado são, nos profetas, o anúncio de uma invasão e de um perigo iminente, um sinal de alarme no sentido próprio, um chamado às armas... ou à fuga, Jr 4.5-6; 6.1; Os 5.8; Am 3.6; cf. J12.1. Na citação de Jr 51.27, “sargento recrutador” traduz a palavra tipsar, que é um simples decalque do acádico tupsharru, “escriba”, aqui o funcionário encarregado do recrutamento, que em hebraico é o sofer, “o secretário que alistava o povo do país”, II Rs 25.19, ou o shoter, “o comis­sário” que, segundo Dt 20.5-8, proclamava os casos de isenção de serviço. 

Conforme II Sm 11.1 e seu paralelo, I Cr 20.1, “o tempo em que os reis saem para a guerra” é a “virada do ano”, a primavera. De fato, quase todas as campanhas assírias datadas precisamente foram começadas entre abril e junho; na época neobabilônica, as datas se estendem até o outono, e às vezes até o inverno, conforme as necessidades militares. É natural que, quando era possível, fosse escolhido o princípio do verão, quando os caminhos estavam desimpedidos, os transportes e os bivaques mais simples; o abastecimento também era fácil, pois chegava-se ao país inimigo no momento ou logo depois da colheita do cereal. Isto vale para um exército profissional mas, para um exército de recrutamento, devia ser mais difícil mobilizar camponeses durante o período de muito trabalho agrícola, da ceifa à sementeira. 

Temos poucas informações sobre a estratégia. Em caso de invasão, os hititas e os cananeus parecem ter tido por regra atrair o inimigo para longe de suas bases e esperar junto a uma fortificação onde o exército de carros o ataca­va de surpresa, enquanto o grosso do exército ficava reservado para explorar o sucesso ou bater em retirada ordenadamente. Assim se desenrolaram as bata­lhas de Megido contra Tutmés III e de Qadesh contra Ransés II. Foi talvez por causa da aplicação dessa velha doutrina que Josias deixou Neco avançar até Megido; após o fracasso do primeiro ataque conduzido pelo rei em pessoa, o exército israelita bateu em retirada, II Rs 23.29-30; II Cr 35.20-24. 

Conforme II Sm 11.11, na guerra de Davi contra Amom, o exército nacio­nal está bassukkot com a arca, enquanto que o exército profissional acampa diante de Rabá. Segundo I Rs 20.12,16, Ben-Hadade e os reis aliados se embebedam bassukkot enquanto os embaixadores negociam com Acabe em Samaria e os cadetes fazem seu ataque vitorioso. A tradução usual é “nas tendas”, no acampamento levantado diante de Rabá ou diante de Samaria. Recentemente se propôs traduzir “em Sukkot” e entender que Ben-Hadade ou Davi tinham estabelecido no vale do Jordão uma “base estratégica avançada” onde o grosso do exército ficaria em prontidão. A hipótese é interessante mas não parece que esses velhos relatos reflitam uma estratégia tão moderna. O texto de I Rs 20.1,12-13,20 supõe que Ben-Hadad e seu exército estão acam­pados muito perto de Samaria. Quanto a II Sm 11.11, o contexto imedia­to favorece a tradução usual: Urías recusa-se a ir para sua casa enquanto a arca e o povo estão sob tendas e seus companheiros da guarda acampam ao ar livre. 

A guerra contra Moabe, II Rs 3.4-27, oferece o exemplo de um ataque indireto: o rei de Israel, ao invés de atacar Mesa na fronteira comum ao norte do Amom, toma o rei de Judá por aliado e, desviando-se através de Judá e Edom, invade o território moabita pelo sul e marcha sobre a capital devastan­do metodicamente tudo em seu caminho. De menor envergadura é o movi­mento estratégico de Davi contra os filisteus, II Sm 5.23. 




Estamos igualmente mau informados sobre a tática de combate. Ela, evidentemente, variou conforme se empregasse ou não o exército de carros, se as tropas profissionais lutavam sozinhas, o exército de recrutamento, ou os dois ao mesmo tempo. Neste último caso, os profissionais ficavam na linha de frente e lideravam o ataque, o povo servia de massa de manobra, como na guerra amonita sob Davi e nas guerras araméias sob Acabe. Na guerra de movimento, ou para surpreender um acampamento, o comandante dividia suas tropas em três grupos de assalto, Jz 7.16; 9.43; I Sm 11.11; II Sm 18.2; cf. os filisteus, I Sm 13.17. Em lugar desta manobra de cerco, podia-se enviar um destacamento sobre a retaguarda do inimigo, II Cr 13.13-15. Um bom general atacado assim pela retaguarda combatia em duas frentes, cujos combatentes ficavam unidos para prestar socorro mútuo, II Sm 10.8-11.

As bagagens eram deixadas com guardas e os homens da reserva, por trás da linha de combate ou no ponto de partida, I Sm 17.22; 25.13; 30.24, cf. v. 9-10. Segundo o texto hebraico de I Rs 20.27 (a informação não está no grego e muitas vezes é eliminada pelos críticos), o exército era abastecido antes de sua partida; os suprimentos vinham dos entrepostos, dos miskenot, que são mencionados ao lado das guarnições de carros sob Salomão, I Rs 9.19, ao mesmo tempo que as cidadelas sob Josafá, II Cr 17.12. Não se sabe como era assegurado o abastecimento do exército em campanha. O jovem Davi leva grãos tostados e pães a seus irmãos que estão na guerra, I Sm 17.17, mas geralmente a tropa devia achar suas provisões no país que ela atravessava, graças às contribuições feitas pelos habitantes, II Sm 16.1 s; 17.27-29; 19.33, ou exigidas deles, Jz 8.4s; I Sm 25.7-18. Um papiro egípcio descreve de manei­ra vívida esses mesmos métodos empregados pelo exército egípcio em Canaã; mas é temeroso utilizar esse texto comparado a I Sm 25.18 para avaliar a ração diária de um soldado israelita.

As ligações eram garantidas pelos estafetas a pé, Jz 9.31; II Sm 11.19; ISm 18.19, ou montados, II Rs 9.17s. Mas eram usados também sinais visuais:

o mas’et é um fogo aceso sobre uma colina cuja fumaça ou o clarão eram vistos de longe e que davam um sinal combinado de antemão, Jz 20.38, ou só um alarme, Jr 6.1. Um óstraco achado em Láquis é bastante explícito: “Nós observamos os sinais (ms 7) de Láquis conforme todas as indicações que meu senhor deu, pois não podemos ver Azeka”; Havia, pois, um “código” para interpretar os sinais transmitidos. Na tradição sobre o Êxodo e a estada no deserto, a nuvem luminosa que manifesta a presença de Iahvé dá os sinais para as marchas e os acampamentos do povo, que é representado como um exército em campanha, Êx 13.21-22; Nm 9.15-23; “Eles acampam sob a ordem de lahvé e levantam acampamento sob a ordem de Iahvé”, Nm 9.20,23,

Havia também uma sinalização acústica. Imediatamente após a passagem acerca da nuvem luminosa, Nm 10.1-10 fala de duas trombetas de prata, hatsotserah, que serviam para convocar a assembléia e para acompunhar o culto, mas também para dar a ordem de levantar acampamento, e seu uso é previsto para a saída para a guerra. De fato, elas são levadas pelo sacerdole Finéias quando da campanha contra Midiam, Nm 31.6. Da mesma forma, con­forme II Cr 13.12-15, os sacerdotes tocam a trombeta na guerra entre Aias e Jeroboão. Em Os 5.8, a trombeta está em paralelo com a trompa, shofar, pro­priamente o chifre de carneiro, e, em outros textos antigos, o shofar aparece sozinho nas função que as passagens tardias citadas reservam para a trombeta. A trompa é um sinal de mobilização ou de reunião, Jz 3.27; 6.34; I Sm 13.3; II Sm 20.1. Não ouvir o chamado da trompa é sinônimo de não estar mais ameaçado pela guerra, Jr 42.14. Mas a trompa também serve para sinalizar uma interrupção do combate, II Sm 18.16; 20.22.

Quando a batalha vai começar, o shofar dá o sinal para o grito de guerra, Js 6.5s; Jz 7.16s, o que é também a função atribuída à hatsotserah por Nm 10.9; II Cr 13.12-15. O grito de guerra, a teru*ah, cf. também o nome ou o verbo corres-pondente em I Sm 17.20,52; Jr 4.19; 20.16; 49.2; Ez 21.27; Os 5.8; Am 1.14; 2.2, era primitivamente uma aclamação selvagem que tinha por fim en­tusiasmar os combatentes e sobretudo desencorajar os inimigos. Mas ele é também um grito religioso, ligado à função da arca nos combates, cf. I Sm 4.5s, que ocorreu, assim, no ritual da arca, II Sm 6.15, e finalmente na liturgia do Templo, Lv 23.24; Nm 29.1, e em alguns Salmos.

3. OS RESULTADOS DA GUERRA

Há “um tempo para a guerra e um tempo para a paz“, Ec 3.8. A palavra shalom, paz, usada em sentido político, não tem só conteúdo negativo, ausên­cia de guerra, ele significa que boas relações existem entre dois povos, como ele exprime em outros lugares a amizade entre dois indivíduos, Jz 4.17; I Sm 7.14; IRs 5.4,26; 22.45; cf. Gn 34.21; I Cr 12.18. essas relações são garantidas por um pacto ou um tratado, berit, I Rs 5.26, e a ruptura do tratado equivale a entrar em guerra, I Rs 15.19-20; cf. Is 33.7-8.

Inversamente, a guerra acaba pelo restabelecimento da paz, e essa paz é o fruto da vitória: voltar “em paz” de uma campanha é voltar vitorioso, Jz 8.9; ISm 19.25,31; I Rs 22.27-28; Jr 43.12. A paz é sancionada pela conclusão ou renovação de um tratado. Após ter sido vencido em Afec, Ben-Hadade pede a paz a Acabe; ele entregará as cidades israelitas que ele ocupava e estes pode­rão abrir bazares em Damasco como os arameus tinham em Samaria, e Acabe conclui com ele um tratado, IR 20.34. Ben-Hadade tinha primeiramente envia­do mensageiros, I Rs 20.32; esses são os “mensageiros de paz”, Is 33.7. A paz pode também ser proposta pelo vencedor, Jz 21.13. Essas ofertas ou pedidos de paz podem ser feitos antes mesmo que comece o combate, quando a superioridade de um dos adversários deixa pouca chance para o oponente: os gibeonitas buscam um tratado com Josué e este lhes concede a paz e um tratado, Js 9.6,15. Os habitantes de Jabes pedem um tratado a Nahash que levantou seu acampamento diante da cidade deles, I Sm 11.1.0 Deuteronômio prescreve que se ofereça a paz a uma cidade estrangeira antes de atacá-la, Dt 20.10.

Nesses três casos, a conseqüência da aceitação da paz é a redução do mais fraco à servidão. O resultado de uma guerra vitoriosa era a conquista ou a vassalagem: Davi contra Aram, Edom, Moabe e Amom; os assírios contra Israel; Senaqueribe, Neco e Nabucodonosor contra Judá. Relatando esses fatos os livros históricos da Bíblia nunca falam de um tratado imposto pelo vencedor, mas Ez 17.13-21 o diz claramente a propósito de Zedequias: Nabucodonosor tinha feito com ele um tratado, berit, reforçado por um juramento imprecatório, mas Zedequias rompeu o tratado e cometeu perjúrio, cf. II Rs 24.17,20b. Da mesma forma Os 12.2: “Conclui-se uma berit com a Assíria mas se leva o óleo ao Egito” alude à política do último rei de Samaria que, vassalo de Salmanasar, se voltou para os egípcios, cf. II Rs 17.3-4. Por fim, Is 33.8: “foi rompido o berit” se reportaria, segundo alguns exegetas, ao pacto entre Senaqueribe e Ezequias. Quando não se tratava de uma conquista total, esses tratados certamente existiam, a exemplo daqueles que ligavam aos reis hititas ou assírios seus vassalos da Síria e que chegaram até nós. De fato, era necessá­rio fixar as obrigações do vencido tomado vassalo, e especialmente o tributo que ele devia pagar. Esse tributo é geralmente chamado minhah, um “presente”, mas o montante era determinado pelo suserano, II Rs 18.14; 23.33; II Cr 27.5, e a suspensão do pagamento equivalia a uma rebelião, II Rs 3.4-5; 17.4.

As leis da guerra eram duras. Os Anais dos reis da Assíria mencionam como em um refrão as cidades destruídas, demolidas e queimadas, niveladas como que pela passagem de um ciclone, reduzidas a um monte de entulho. Essa era também a regra das guerras bíblicas, desde a época dos juizes até a dos macabeus, quer se tratasse de cidades inimigas atacadas pelos israelitas quer de cidades israelitas tomadas pelos invasores, Jz 9.45; 20.48; II Sm 17.13; Rs 20.10; II Rs 3.25; 8.12; 25.9-10; I Mb 5.35; 11.48; 16.10. Elas eram pelo menos desmanteladas, II Rs 14.13.

Mas era preciso que a guerra desse lucro. Antes de serem entregues ao fogo, as cidades conquistadas eram saqueadas, II Sm 8.8; 12.30; II Rs 14.14; 25.13s; I Mb 5.28,35, etc.; o acampamento abandonado pelo inimigo era pilhado, II Rs 7.16; I Mb 4.23; os rebanhos eram levados, I Sm 14.32; 27.9; 30.20; até os mortos eram espoliados no campo de batalha, I Sm 31.8; pegava- se tudo que era possível carregar, II Cr 20.25; cf. Dt 20.14. A promessa do lucro e das alegrias que ele permitia, I Sm 30.16, animava os combatentes, IRs 3.23, mas havia o perigo de que a pilhagem retardasse a exploração da vitória, I Sm 14.24; I Mb 4.17-18. Participar na distribuição do saque era um prazer comparável a poucos, Is 9.2; SI 119.162. Este era o ganho dos comba­tentes, que não tinham outro soldo: Iahvé promete a Nabucodonosor as rique­zas do Egito como salário para seu exército, Ez 29.19.

A história de I Rs 20.39-40 poderia indicar que cada um tinha direito ao que tinha conseguido: um homem fez um prisioneiro que ele confia à guarda de um camarada; se este o deixa escapar, ele tomará seu lugar ou pagará uma pesada soma; cf. Js 7.21; II Rs 7.8, mas, nesses dois últimos casos e por razões aliás diferentes, esta maneira de agir é reprovada. Desde tempos antigos, o costume era que se reunissem e dividissem o despojo, Jz 5.30; cf. Is 9.2; Pv 16.19. Segundo uma lei atribuída a Moisés, o despojo devia ser repartido pela meta­de entre os combatentes e o conjunto da comunidade, os dois lotes eram subme­tidos a uma taxa em favor dos levitas, Nm 31.26-47. Davi introduziu a regra de que os homens deixados com as bagagens receberiam sua parte como os combatentes, I Sm 30.24-25. Nas primeiras guerras de Israel, o chefe recebia uma parte especial que seus homens lhe entregavam de bom grado, Jz 8.24-25; talvez I Sm 30.20. Mais tarde, o rei retém os objetos mais preciosos para si mesmo ou para o tesouro do santuário, II Sm 8.7-8,11; 12.30. Em um exército confederado, os aliados tinham direito a sua parte, cf. Gn 14.24, que provavel­mente era fixada por um acordo prévio, como entre outros povos antigos.

As pessoas assim como as coisas caíam nas mãos do vencedor. Há, nos livros históricos da Bíblia, exemplos de um tratamento bárbaro infligido aos vencidos: sob Josué, os cinco reis cananeus são pisoteados e mortos, Js 10.24-26; cortam-se a Adoni-Zedek os polegares das mãos e dos pés, Jz 1.6; sob Gideão, os chefes dos midianitas são decapitados, Jz 7.25; em suas razias no Neguebe, Davi não deixa com vida nem homem nem mulher, I Sm 27.9,11; ele massa­crou todos os amalequitas que caíram em suas mãos, I Sm 30.17; ele mandou matar dois terços dos moabitas, II Sm 8.2; Amazias executou 10 000 cativos de Edom, II Cr 25.12; a lei de Dt 20.12-13 prescreve que sejam mortos todos os machos de uma cidade que se recusou a se render. Mas esses casos são excepcionais e essa lei é teórica. Fora o herem, que atingia todos os seres vivos na guerra santa, estudada no próximo capítulo, o massacre dos prisio­neiros nunca foi uma regra, assim como as torturas cujos textos e monumen­tos assírios nos oferecem muitos exemplos. Já Gideão teria poupado Zeba e Zalmuna se ele não tivesse que satisfazer a vingança de sangue, Jz 8.18-21; os reis de Israel tinham a fama de serem misericordiosos, I Rs 20.31, eles não matavam os prisioneiros de guerra, II Rs 6.22 (que não precisa ser corrigido). 

Fora considerações humanitárias, que esses dois últimos textos não exprimem claramente e que Dt 20.19 parece excluir (a árvore do campo deve ser poupada porque não é um homem), o interesse aconselhava essa modera­ção. A comunidade e os indivíduos ganhavam com os vencidos deixados vivos: estes pagavam o tributo, eram submetidos à corvéia, ou mesmo tornavam-se escravos do Estado, do Templo ou de particulares. Dissemos em outro lugar que a guerra em Israel foi, como entre outros povos antigos, uma das fontes da escravidão, e que provavelmente prisioneiros de guerra tornavam-se escra­vos públicos a serviço do rei ou do santuário.

Na pequena história de I Rs 20.39, o combatente está disposto a manter seu prisioneiro como escravo. Segundo J14.3, as nações sortearam o povo de Iahvé, venderam os rapazes e as moças. Nós temos mais informações sobre os cativos de guerra. Os soldados de Sísera, se tivessem vencido, teriam podido ter “uma jovem, duas jovens por guerreiro, Jz 5.30. Segundo Nm 31.18,27, após a campa­nha contra Midiam, as mulheres virgens são repartidas entre os combatentes e o resto do povo. A lei de Dt 21.10-14 autoriza um israelita a desposar uma cativa de guerra; ela escapa assim à condição servil, ela “deixa suas roupas de cativa”, ela pode ser repudiada mas não pode ser vendida. Isto supõe que, se uma mulher cativa não é desposada por seu dono, continua escrava.


Por último, em lugar da redução à escravidão, os assírios e depois os babilônios praticaram, por razões políticas, a transferência das populações vencidas. Os israelitas não tiveram a oportunidade de imitar esse procedimen­to mas eles o sofreram: os habitantes do reino do Norte foram deportados em massa após as conquistas de Teglat-Falasar, II Rs 15.29, e após a conquista de Samaria, II Rs 17.6; os habitantes de Judá foram deportados em parte após os dois cercos de Jerusalém por Nabucodonosor, II Rs 24.14s; Jr 52.27-30. Sua sorte no Exílio não era, no princípio, invejável, mas eles não eram escravos.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.