5 de abril de 2015

Roland de Vaux - A Guerra Santa

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A GUERRA SANTA

Entre todos os povos antigos, a guerra tinha ligação com a religião: ela era travada por ordem dos deuses, pelo menos com sua aprovação demonstra­da por presságios; ela era acompanhada de sacrifícios, era conduzida com a ajuda dos deuses, que asseguravam a vitória e a quem se agradecia com a oferenda de uma parte do despojo. Toda guerra antiga é, pois, santa, no senti­do amplo. Mais propriamente, os gregos chamaram “guerras santas”, àquelas que a anfictionia de Delfos travou contra aqueles de seus membros que tinham violado os direitos sagrados de Apolo. Mais estritamen­te ainda, a guerra santa do Islã, a jihad, é o dever que incumbe a todo muçul­mano de difundir sua fé pelas armas.

Esta última concepção da guerra santa é absolutamente estranha a Israel: ela é incompatível com a idéia do javismo como a religião particular e o bem próprio do povo eleito. Mas, precisamente por causa dessa relação essencial entre o povo e seu Deus, todas as instituições de Israel foram revestidas de um caráter sagrado, tanto a guerra como a realeza e a legislação. Isto não significa que a guerra seja uma guerra de religião, esse aspecto só aparece muito mais tarde, sob os macabeus; Israel não combate por sua fé, ele combate por sua existência. Isto significa que a guerra é uma ação sagrada, com uma ideologia e ritos próprios, que a especificam, diferentemente das outras guerras antigas onde o aspecto religioso não era senão acessório. Tal foi a concepção primiti­va em Israel, mas, como para a realeza, esse caráter sagrado desapareceu e a guerra foi “profanada”. Porém, ela manteve por muito tempo uma marca reli­giosa e o ideal antigo sobreviveu, modificando-se, ou foi renovado em certos meios em certas épocas. E essa evolução que vamos tentar traçar.

1. A NOÇÃO E OS RITOS DA GUERRA SANTA

O povo em armas é chamado o povo de Iahvé ou o povo de Deus, Jz 5.13; 20.2 as tropas de Deus, I Sm 17.26, os exércitos de Iahvé, Êx 12.41; cf. 7.4. Os combatentes devem estar em estado de pureza ritual, “santificados”, Js 3.5; cf. Jr 6.4; 22.7; Jl 4.9. Eles são submetidos à continência, I Sm 21.6; II Sm 11.11, e essa obrigação de pureza se estende ao acampamento, que deve ser “santo” para que Iahvé acampe com suas tropas, Dt 23.10-15.

Pois as guerras de Israel são as guerras de Iahvé, I Sm 18.17; 25.28, e a epopéia nacional era cantada no “Livro das Guerras de Iahvé”, Nm 21.14, que se perdeu. Os inimigos são os inimigos de Iahvé, Jz 5.31; I Sm 30.26; cf. Êx 17.16. Antes de partir se lhe oferece um sacrifício, I Sm 7.9; 13.9,12, e, sobretudo, ele é consultado, Jz 20.23,28; I Sm 14.37; 23.2,4, por meio do éfode e das sortes sagradas, I Sm 23.9s; 30.7s, e é Ele quem decide a guerra. Ele mesmo marcha à frente do exército, Jz 4.14; II Sm 5.24; cf. Dt 20.4.

O sinal visível dessa presença de Iahvé é a arca. Ela, se diz, acompanhou no deserto os deslocamentos do povo, representado como um exército em marcha, e Nm 10.35-36 conservou velhos gritos de guerra: quando a arca par­tia, se dizia: “Levanta-te Iahvé, que teus inimigos sejam dispersos...”, e quan­do ela parava: “Volta, Iahvé, às multidões dos milhares de Israel.” Ela passou o Jordão à frente dos israelitas “santificados” para a guerra de conquista, Js 3.6, e foi levada em procissão ao redor dos muros de Jerico, Js 6.6s. Ainda sob Davi, a arca acampa com todo o Israel diante de Rabat Amom, II Sm 11.11. A história da batalha de Afeque é bastante instrutiva, I Sm 4. O sucesso dos filisteus é atribuído à ausência da arca. Então, esta é trazida de Siló e os filisteus compreendem que “Deus veio ao acampamento”. Porém, desta vez, a arca não assegura a vitória, ela própria cai nas mãos do inimigo e esta captura é sentida como um desastre inexplicável, mais doloroso que o massacre do exército.

À chegada da arca em Afeque, os israelitas tinham dado o grito de guer­ra, a teru'ah, I Sm 4.5s, que é o sinal do combate mas que também faz parte do ritual da arca, II Sm 6.15, e que é um grito religioso. É mais duvidoso que, como se tem feito muitas vezes, se deva colocar em relação com a arca e sua função de palladium nas guerras de Israel o título de Iahvé Sabaot. De fato, este título parece se ligar originariamente ao santuário de Siló, mas não propriamente à arca que ali era depositada; por outro lado, não é certo que Ihwh Tsebaot signifique “Iahvé dos Exércitos” (de Israel) e que este título tenha qualquer relação com as instituições militares e seu aspecto religioso.

Os combatentes da guerra santa partem com a certeza da vitória, porque já “Iahvé entregou o inimigo em suas mãos”, Js 6.2; 8.1,18; Jz 3.28; 4.7; 7,9,15; 1 Sm 23.4; 24.5, etc. A fé é uma condição essencial: eles devem crer e não temer, Js 8.1; 10.8,25. Aqueles que têm medo não têm disposições religiosas necessárias e devem ser descartados, Jz 7.3; cf. Dt 20.8, onde essa dispensa é explicada com base em um motivo psicológico, que não é o motivo original.

Na batalha, é Iahvé que combate por Israel, Js 10.14,42; Jz 20.35. Ele mobiliza os elementos da natureza, Js 10.11; 24.7; Jz 5.20; I Sm 7.10, e semeia a confusão entre os inimigos, Jz 4.15; 7.22; I Sm 7.10; 14.20, ele os atinge com um “terror divino”, I Sm 14.15.

Mas a vitória não é o último ato da guerra santa, nem seu ponto culmi­nante. Este é o herem, o anátema executado sobre o inimigo vencido e seus bens. Conforme o sentido da raiz e o uso do verbo correspondente, a palavra herem significa o fato de “separar”, de subtrair ao uso profano e reservar para um uso sagrado ou, antes, designa o que é assim “separado”, interdito ao homem e consagrado para Deus. O termo entrou no vocabulário geral do cul­to, Nm 18.14; Lv 27.21,28; Ez 44.29, mas ele pertenceu primeiro ao ritual da guerra santa: é a entrega a Deus dos frutos da vitória. As modalidades variam com os textos. O herem resulta geralmente de uma ordem de Iahvé, Dt 7.2; 20.17; Js 8.2; I Sm 15.3, excepcionalmente de um voto feito pelo povo, Nm 21.2. Teoricamente, ele é total: em Jerico, todos os seres vivos, homens e animais, devem ser massacrados, a cidade e os bens mobiliários são queimados, os objetos de metal são consagrados a Iahvé, Js 6.18-24; Acã, que transgrediu o herem, atrai a maldição sobre o povo; ele é castigado e o que ele tinha roubado é destruído, Js 7. Na guerra de Saul contra os amalequitas, I Sm 15, o anátema devia igualmente ser total e Saul é condenado por não tê-lo executado estrita­mente. A destruição dos objetos cultuais nas cidades cananéias é especial­mente prescrito por Dt 7.5,25, O herem devia ser executado com o maior rigor contra qualquer cidade israelita que tivesse renegado a Iahvé, Dt 13.13-18. Por outro lado, a extensão é mais ou menos restrita: ele atinge todos os seres humanos mas os animais e os bens mobiliários são mantidos como despojo, Dt 2.34-35; 3.6-7 e provavelmente 20.16; Js 8.2,27; 11.14 e provavelmente 10.28s, ou, algumas vezes, ele poupa as mulheres virgens, Nm 31.14-18; Jz 21.11 (nos dois casos, uma razão especial é dada). Na tomada de uma cida­de estrangeira, só a população masculina é massacrada, Dt 20.14, mas a pala­vra herem não aparece e não se trata de uma guerra santa, como no caso de uma cidade da Terra Santa, Dt 20.16-17.

E difícil dizer em que medida essas prescrições foram realmente aplica­das. É notável que elas sejam formuladas no Deuteronômio, editado em uma época em que a guerra santa não era mais que uma lembrança, e que os exem­plos concretos se achem sobretudo no livro de Josué, cuja redação final é igualmente tardia; em compensação, nem a palavra nem o costume aparecem nas histórias dos juizes, que travaram verdadeiras guerras santas, contudo, a noção e prática do herem são certamente antigas. Elas se acham no velho relato da guerra das tribos contra Benjamim, Jz 21.11, na tradição profética sobre a guerra de Saul contra os amalequitas, I Sm 15. Há, além disso, um paralelo extrabíblico: Mesa, rei de Moabe no século IX a.C., se gloria em sua inscrição de ter massacrado toda a população israelita de Nebo, que ele tinha consagrado como anátema (verbo hrm) ao seu deus Ashtar-Kemosh.



2. AS GUERRAS SANTAS NO PRINCÍPIO DA HISTÓRIA DE ISRAEL

O que acaba de ser dito sobre o herem vale mais geralmente para o qua­dro da guerra santa esquematizado no parágrafo anterior. Os traços que o com­põem são emprestados de diversos livros e não estão todos reunidos em nenhum relato das primeiras guerras de Israel. Mas o agrupamento de alguns dentre eles, a recorrência das mesmas fórmulas e o espírito comum que anima esses textos caracterizam as guerras como verdadeiras guerras santas. Vamos ver alguns exemplos.

Esse caráter aparece claramente na guerra de Débora e Baraque contra Sísera, ao mesmo tempo no relato em prosa, Jz 4,e no cântico de Débora, Jz 5. Iahvé dá a Baraque a ordem de marchar e promete entregar Sísera em suas mãos, 4.6-7; antes de começar o combate, Iahvé já entregou Sísera, ele mar­cha à frente de Baraque, ele põe o inimigo em pânico, nenhum homem escapa, 4.14-16. O poema celebra aqueles que responderam livremente ao chamado, que, pois, tiveram fé na vitória, 5.2,9, os combatentes são campeões de Deus, 5.8, o povo de Iahvé, 5.13, vindos em auxílio de Iahvé, 5.23. E o próprio Iahvé que avançou no tremor da terra e no estremecimento dos céus, 5.4, as estrelas combateram por ele, 5.20, os inimigos de Iahvé pereceram, 5.31. O relato em prosa e principalmente o cântico são bastante próximos dos eventos para poderem nos transmitir fielmente o sentido que os participantes deram a essa guerra: ela era para eles um ato sagrado.

Estudamos acima a estratégia de Gideão contra os midianitas, mas esse exame não levou em conta o elemento religioso, que é essencial no relato de Jz 6-8. Gideão recebeu o espírito de Iahvé, 6.34, que, em duas intervenções, lhe promete sucesso, 6.36-40; 7.9s. Foi Iahvé que entregou Midiam nas mãos de Israel, 7.2,7,14-15; 8.3,7. Foi Iahvé e não Israel quem conseguiu a vitória, 7.2 os medrosos, aqueles que não eram sustentados pela fé, foram mandados de volta para casa, 7.3, o exército foi ainda reduzido a um grupo muito peque­no para que a intervenção divina fosse mais evidente, 7.7. O grito de guerra, a tem'ah, era: “A espada por Iahvé e por Gideão!” 7.20. Iahvé semeia a confu­são no acampamento inimigo, 7.21. Esta é também uma guerra de Iahvé.

As guerras contra os filisteus fornecerão um último exemplo. Jônatas e seu escudeiro atacam sozinhos o posto filisteu de Mikmás, pois é Iahvé que dá a vitória, quer sejam numerosos quer não, I Sm 14.6s; um sinal assegura a Jônatas que Iahvé entregou os inimigos em suas mãos, 14.10,12, a terra treme, um pâni­co de Deus cai sobre o acampamento, 14.15. Saul consulta o oráculo, 14.18, o pânico aumenta entre os filisteus, que fogem: “naquele dia, Iahvé deu a vitória a Israel”, 14.18-23. Um jejum tinha sido imposto aos combatentes, 14.24.

Durante o período dos juizes e no reinado de Saul, os israelitas só trava­ram guerras defensivas e tem sido afirmado recentemente que as guerras san­tas de Israel sempre tiveram esse caráter. Contudo, a conquista da Terra Pro­metida é apresentada também, e por excelência, como uma guerra santa no Livro de Josué e, qualquer que seja a data de sua redação e a parte atribuível aos redatores, estes não inventaram essa tradição. Ela é representada também pelo relato independente de Jz 1: a conquista de seu território por Judá e Simeão é empreendida após consulta a Iahvé que entrega o país em suas mãos, Jz 1.1 -2,4. Além disso, é preciso admitir que a instalação em Canaã é feita, ao menos parcialmente, pelas armas e esta conquista cria um clima especialmente favo­rável à idéia de guerra santa: é sobretudo nessa ocasião que Iahvé, o Guerrei­ro, Êx 15.3, o Senhor da Guerra, I Sm 17.47, precisou combater por seu povo.

Pois é Iahvé que combate por seu povo e não Israel que combate por seu Deus. A guerra santa não é, em Israel, uma guerra de religião. Segundo os textos antigos, as guerras do tempo de Josué e dos juizes não são travadas nem para difundir a fé em Iahvé, como a jihad tem por fim impor a fé muçulmana, nem para defender uma fé contra uma religião estrangeira. É notável que, no livro de Josué, os relatos da conquista não façam nenhuma alusão aos deuses e ao culto dos cananeus. E o mesmo para o livro de Juizes: Israel luta por sua existência como povo, nunca diretamente por sua liberdade religiosa. O cântico de Débora opõe Iahvé e seus heróis aos carros de Sísera e não a seus deuses. Sem dúvida Gideão destrói um altar de Baal mas esse episódio não se rela­ciona com a guerra santa contra os midianitas. As preocupações religiosas só aparecem nos textos de redação mais tardia, nas prescrições do Deuteronômio sobre o herem, Dt 7,2-5,25; 20.17-18, no quadro deuteronomista do livro de Juizes, Jz 2.2-3, na redação mais tardia ainda da guerra de Moisés contra Midiam, Nm 25.17-18; 31.15-16. Mas tudo o que foi dito precedentemente mostra bem que, se as guerras santas não são guerras de religião, elas são essencialmente religiosas: elas são uma ação de Iahvé pela vida de seu povo, à qual o povo se associa por um ato de fé e se conformando a um ritual.



3. A RELIGIÃO E AS GUERRAS DA MONARQUIA

Pode-se dizer que esse caráter propriamente sagrado desapareceu com o estabelecimento da monarquia e a constituição de um exército profissional. Não é mais Iahvé que marcha adiante de Israel para travar as guerras de Iahvé, é o rei que sai à frente do povo e combate suas batalhas, I Sm 8.20. Os comba­tentes não são mais guerreiros que se oferecem livremente, são profissionais a soldo do rei ou conscritos recrutados por seus funcionários. Essa transforma­ção devia levar a uma crise, que se prepara já sob Saul que transgride os rituais da guerra santa, I Sm 15, e é definitiva sob Davi, que recruta um grande núme­ro de mercenários estrangeiros e que ordena, com fins militares, o recenseamento do povo, II Sm 24.1-9. A guerra tomou-se, por necessidade, assunto de Estado, ela foi profanada.

Porém, ela manteve, pelo menos no princípio, alguns ritos da guerra san­ta. Na guerra amonita, a arca acompanha as tropas e Urias (um mercenário hitita!) observa a continência, II Sm 11.11. Davi “consagra” a Iahvé a prata e o ouro de suas conquistas, II Sm 8.11. Mas esses ritos se tornaram acessórios e, se ainda se diz que “Iahvé dá a vitória”, II Sm 8.6,14, é o próprio Davi que a realiza com seus recursos humanos e é quem recebe a glória, II Sm 12.28.

Sobre a ocasião de uma guerra e sobre a maneira de conduzi-la, Iahvé não é mais consultado por sortes sagradas, mas profetas intervêm junto ao rei, 1 Rs 20.13-14, 22,28, ou o próprio rei lhes pede um oráculo, I Rs 22.5-12. Elizeu acampanha os reis de Israel e de Judá em sua expedição contra Moabe e lhes transmite a palavra de Iahvé, II Rs 3.11 -19; cf. também II Rs 13.15 s. Esses profetas empregam o antigo vocabulário da guerra santa: Iahvé entrega o inimigo nas mãos de Israel, I Rs 20.13,28; 22.6,12; II Rs 3.18, mas enquan­to que na antigüidade o chefe da guerra era o inspirado por Deus, os profetas não são mais que os auxiliares religiosos do rei. E nos primeiros ambientes proféticos que sobrevive a idéia da guerra santa, mas justamente porque as guerras não eram mais santas, os profetas se opunham a ela frequentemente diante do rei: contra os profetas da mentira que predizem que Iahvé entregará Ramot Gilead nas mãos de Acabe, um verdadeiro profeta anuncia a desgraça, 1 Rs 22.19-28. Eliseu recusa consultar Iahvé para o rei de Israel, que é no entanto o chefe da expedição contra Moabe, II Rs 3.13-14.

No século seguinte, Isaías é o defensor da antiga concepção da guerra santa em face da motivação política. No momento do ataque de Aram e de Efraim, ele anuncia a ruína dos adversários com a condição de que se tenha fé em Iahvé, I 7.4-9, quando Senaqueribe ameaça Jerusalém, ele assegura que Deus salvará a cidade, 37.33-35. Ele condena os preparativos militares, 22.9-11, e os apelos ao estrangeiro, 31.1-3, pois “Iahvé Sebaot descerá para guerrear sobre o monte Sião e sobre sua colina”, 31.4. Contra Assur, Iahvé chega de longe “no ardor de sua cólera, no seio de um fogo devorador, em um furacão de chuva e granizo”, 30.27-30. Contra o Egito, ele vem montado em uma nuvem, os egípcios desmaiam, eles combatem entre si, 19.1-2. Acham-se nes­sas passagens traços da guerra santa: a certeza da vitória, a fé em Iahvé, a atividade guerreira de Deus, que desencadeia os elementos e fere os inimigos com o terror; percebe-se neles o eco do cântico de Débora e dos relatos da conquista ou do período dos juizes. Foi, provavelmente, desta antiga ideolo­gia que Isaías e outros profetas emprestaram a noção de “Dia de Iahvé”, a vinda de Iahvé para uma batalha vitoriosa. Mas essas novas “guerras de Iahvé” se desenrolam em visão profética e não são mais as guerras de Israel, que se tornaram guerras profanas. Isaías diz a seus contemporâneos: vocês contaram com meios humanos “mas não reconheceram o Autor, nem viram aquele que molda tudo há muito”, 22.11, ou antes: “Na conversão e na calma estava a salvação, em uma perfeita confiança estava vossa força, a qual vocês não qui­seram”, 30.15.

É tanto mais notável que as regras da guerra santa tenham recebido sua expressão mais clara e mais completa no fim da monarquia, na redação do Deuteronômio. Este recolheu muitos elementos antigos e esse arcaísmo justi­fica que se o tenha utilizado mais acima para descrever as práticas da guerra santa. Mas o que nos interessa mais aqui é o novo espírito que anima essas prescrições e que domina os discursos do começo e do fim do livro. Toda a história de Israel é apresentada como uma guerra santa. E o passado é uma garantia para o futuro: “Iahvé, vosso Deus, que marcha à vossa frente, comba­terá por vós, assim como o vistes fazer no Egito”, Dt 1.30, “Lembre-se pois do que Iahvé teu Deus fez a faraó e a todo o Egito...assim fará Iahvé teu Deus a todos os povos que tu temes enfrentar”, 7.18-19, “Não é a retidão de tua con­duta e a correção de teu coração que te fazem tomar posse da terra deles, mas é por causa da perversidade deles que Iahvé teu Deus desapossou essas nações em teu favor”, 9.5, “Ninguém ficará diante de vós, Iahvé, vosso Deus, vos fará o temor e o medo sobre toda a extensão do país que vós pisardes”, 11.25, “Sejam fortes e tenham bom ânimo, não temam, pois é Iahvé seu Deus que marcha com vocês”, 31.6. E o livro se fecha com as bênçãos de Moisés, um antigo canto atravessado por um sopro guerreiro que termina assim, Dt 33.29:

Feliz és tu, ó Israel, quem é como tu?

Povo vencedor por Iahvé,

Cujo escudo é teu socorro,

Cuja espada é teu triunfo.

Teus inimigos praticam indignidades contra ti,

Mas tu lhes pisas as costas.

Quando o Deuteronômio foi editado sob Josias, o tempo de conquistas e de triunfos militares já tinha passado havia muito tempo, e não havia mais ocasião para aplicar as prescrições sobre o cerco das cidades estrangeiras, Dt 20.10-20, ou sobre a execução do anátema, Dt 2.34-35; 3.6-7; 7.2,5. Contu­do, essa renovação da idéia de guerra santa, transformada pela reflexão teoló­gica, se liga a uma situação concreta: sob o reinado de Josias, o renascimento do espírito nacional e a rejeição do jugo assírio põem uma grande esperança no coração do povo e se pode pensar que esses textos do Deuteronômio inspiraram o rei quando ele tentou se opor à marcha de Neco, II Rs 23.29; II Cr 35,20s. Isto foi só um fogo de palha, extinto pelo desastre de Megido. Jeremias, con­temporâneo desses eventos, não dá nenhum espaço para a guerra santa em sua pregação, e o contraste com Isaías é muito forte. As últimas guerras de Judá, a resistência desesperada contra os caldeus, relatadas no livro de Jeremias e nos de Reis, não têm mais nenhum caráter religioso. É que Iahvé abandonou o acampamento de Israel, sua cólera decidiu castigar seu povo, II Rs 23.27; 24.3,20, Ele combate contra ele, Jr 21.5, e ele dá suas ordens aos caldeus “para que ataquem, tomem e incendeiem Jerusalém”, Jr 34.22. Não se pode imaginar nada mais contrário à antiga ideologia da guerra santa.

4. AS GUERRAS RELIGIOSAS DOS MACABEUS

Na época judaica, encontram-se, nos livros dos Macabeus, alguns tra­ços da guerra santa. Judas e seus irmãos conduzem “o combate de Israel”, 1Mb 3.2. A convocação do exército da libertação evoca muito antigas lem­branças, I Mb 3.46-60: a assembléia é convocada em Mispá, como anterior­mente para a guerra santa contra Benjamim, Jz 20.1, jejua-se, consulta-se a Deus abrindo o livro da Lei, porque não havia mais nem éfode nem profetas, toca-se a trombeta e são feitas aclamações, cf. Nm 10.9 e a teru‘afi, a mobili­zação se faz segundo as regras apresentadas por Dt 20.5-8, Judas exorta o povo a ser bravo e a confiar em Deus. Antes da batalha de Emaús, Judas fala sobre não temer e sobre invocar a Deus: “Todas as nações reconhecerão que há alguém que salva Israel”, I Mb 4.8-11; cf. I Sm 17.46; após a vitória, se louva a Deus pela “grande salvação” operada em Israel, I Mb 4.24-25; cf. I Sm 14.45. No país filisteu, Judas derruba os altares, queima as imagens dos deuses, pilha as cidades, I Mb 5.68; cf. Dt 7.5,25. No segundo livro, o eco dos textos antigos é menos perceptível mas as mesmas idéias aparecem: prepara-se para a batalha com oração e jejum, II Mb 13.10-12, Judas exorta suas tropas: "Os inimi­gos se fiam nas armas e na audácia enquanto que nós, nós temos colocado nossa confiança em Deus, senhor de todas as coisas”, II Mb 8.18. As palavras de ordem são: “Socorro de Deus”, II Mb 8.23, ou “Vitória de Deus”, II Mb 13.15. Judas pede ao Senhor “para enviar um bom anjo adiante de nós para semear o temor e o terror”, II Mb 15.23.

Apesar desses contatos, o espírito não é o da guerra santa: os macabeus e seus homens não são inspirados por Deus, este não ordenou a guerra e ele não intervém diretamente. O máximo que se ousa pedir é que ele envie um anjo, II Mb 15.23, e Deus responde a um pedido desses com a aparição de um cava­leiro armado no caminho de Bethsour, II Mb 11.6-8, mas o enviado celeste só tem função simbólica: esse combate, como todos os outros, é travado e vencido com meios puramente humanos. E significativo que as alusões ao socorro antigamente dado por Deus a seu povo se referem à passagem do Mar Verme­lho, 1 Mb 4.9, e ao livramento de Jerusalém sob Senaqueribe, I Mb 7.40-42; II Mb 8.19; 15.22, mas nunca às guerras santas da conquista e da época dos juizes.

Tudo isso impede que se considere a guerra dos macabeus como uma guerra santa. Por outro lado ela tem o caráter de uma guerra de religião. Matatias apela que o siga “qualquer que tem o zelo da Lei e guarda a Aliança”, 1 Mb 2.27, Judas luta pelo povo e pelo santo lugar, I Mb 3.43,59, pela “cidade, a religião, o Templo”, II Mb 15.17. Os participantes combatem pela liberdade religiosa contra os senhores estrangeiros que proíbem a observância da Lei mas tam­bém contra seus irmãos renegados, “aqueles que tinham abandonado a Lei”, IMb 10.14; cf. 1.52. A rebelião começou quando Matatias degolou um judeu que tinha aceitado sacrificar sobre o altar de Modim, I Mb 2.24. Sempre e em todo lugar os macabeus combateram os “malfeitores”, os “ímpios”, os “peca­dores”, I Mb 2.44,48; 3.5-6; 6.21; 7.23-24, que se aliavam aos pagãos, IMb 3.15; 4.2; 7.5; 9.25; 11.21-25. Esta foi uma guerra de religião, que opunha os judeus fiéis aos judeus ligados ao helenismo e a seus protetores estrangeiros. Inevita­velmente se misturaram a isso, e bem cedo, e dos dois lados, interesses políti­cos, como nas guerras de religião na França no século XVI, na Holanda no século XVII.

5. A REGRA DA GUERRA DE QUMRAN

Possuímos desde pouco tempo um testemunho admirável da sobrevivên­cia de idéias de guerra santa em um grupo do judaísmo. É a Regra da Guerra, achada nas cavernas de Qumran. Esse escrito, que data provavelmente do pri­meiro século antes de nossa era, dá o regulamento do combate que deve, no fim dos tempos, opor os “Filhos da Luz” aos “Filhos das Trevas”, a saber, os judeus fiéis, os da comunidade de Qumran, a todas as nações pagãs. Podería­mos sem dúvida fazer comparações exteriores com os livros de Macabeus, mas a luta é evidentemente concebida aqui como uma guerra santa. É notável que, em cinco citações explícitas do Antigo Testamento, três se refiram a tex­tos que temos utilizado acima: Nm 10.9; Dt 7.21-22; 20.2-5, a que devemos acrescentar todas as expressões que lembram a antiga ideologia. Como a anti­ga guerra santa, esta tem seus ritos, ela torna-se até uma cerimônia onde os sacerdotes e os levitas têm um papel essencial. O exército é “o povo de Deus”, os soldados são voluntários convocados para a batalha por Deus. Na batalha, é escrito em seus estandartes: “Direita de Deus”, “momento de Deus”, “con­fusão de Deus”, “matança de Deus”. De fato Deus, que é chamado o “Valente do combate”, marcha com seus fiéis, acompanhado do exército de anjos. É a mão de Deus que se levantou contra Belial e seu império. A vitória é certa: pode haver momentos de angústia, mas os inimigos de Israel serão finalmente destruídos e então se inaugurará o reino eterno da luz.

Não se trata de uma conquista religiosa do mundo, de uma conversão imposta pelas armas, nada que se assemelhe à jihad muçulmana. O mundo é atualmente partilhado entre a Luz e as Trevas, entre o Bem e o Mal, e a ordem só será estabelecida pela destruição total das forças das Trevas e do Mal, pelo triunfo absoluto de Deus e dos Filhos da Luz. Desta concepção dualista, a antiga noção da guerra santa recebe uma violência particular, ela se alarga às dimensões do universo, mas é ao mesmo tempo reportada ao fim do tempo presente: é uma guerra apocalíptica.


Porém, aqueles que compuseram esses textos curiosos, onde os sonhos do visionário se misturam a disposições práticas que podem ser emprestadas de um manual militar romano, crêem aparentemente na realidade dessa guerra futura e eles a esperam. O texto foi copiado muitas vezes e os fragmentos de muitos exemplares foram achados. Aqueles que o liam nele alimentavam seu ódio pelos Filhos de Belial, que eles reconheciam nos pagãos que ocupavam a Terra Santa. É possível que ele tenha inspirado o fanatismo dos zelotes que tomaram parte nas revoltas contra os romanos e que pensaram que tinha chegado o tempo da luta suprema entre os Filhos da Luz e os Filhos das Trevas.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.