7 de abril de 2015

ROBERT B. CHISHOLM, JR. - Uma teologia dos Profetas Menores: Os Profetas do Século VI e V a.C. (Joel, Obadias, Ageu, Zacarias e Malaquias)

Os Profetas do Século VI e V a.C.

(Joel, Obadias, Ageu, Zacarias e Malaquias)


INTRODUÇÃO

Como previsto pelos antigos profetas, os babilônios destruíram Jerusalém
em 586 a.C. e levaram muitos em cativeiro. Mas Deus não abandonou o seu
povo. Em 538 a.C., Ele moveu o persa Ciro, conquistador da Babilônia, para
permitir que um grupo de exilados voltasse a Judá e reconstruísse o templo de
Jerusalém, um projeto concluído em 516 a.C.

Os profetas menores dos séculos VI e V trataram de interesses e assuntos
que surgem das experiências do exílio e volta à pátria. Deus era realmente soberano sobre os assuntos dos homens e das nações? As nações pagariam pelos
maus-tratos feitos ao povo de Deus? Deus cortara a relação de concerto com
Israel? As promessas aos pais, que formavam a base das visões dos antigos profetas, realmente se cumpririam?

Algum dia depois da queda de Jerusalém, Obadias advertiu que Deus pagaria os opressores de Judá, em particular Edom, pela crueldade e maus-tratos
dados ao povo de Deus. Obadias também esperava a restauração dos exilados à
Terra Prometida.


Joel, Ageu, Zacarias e Malaquias falaram profeticamente à comunidade
pós-exílica. Cada um deixou claro que esta comunidade era a sucessora da nação pré-exílica. Como os pais, a comunidade pós-exílica era responsável por
obedecer às exigências do concerto de Deus. Segundo ensinado por Moisés e
ilustrado ao longo da história de Israel, a obediência traria bênçãos, ao passo
que a desobediência resultaria em disciplina.

Em vez de enfatizar os erros do passado, estes profetas enfatizaram as responsabilidades do presente, como também o futuro glorioso que Deus planejara para o povo. O retorno dos exilados à Terra Prometida marcou o início de uma nova era na história de Israel. Deus cumpriria as antigas promessas e realizaria o seu propósito original para a naçáo. Restabeleceria Jerusalém, restauraria o trono davídico, purificaria o sacerdócio e reinstituiria a adoração no templo. No fim das contas, todas as nações reconheceriam a soberania universal de Deus.

O cumprimento deste ideal não seria automático. Somente os seguidores
leais e fiéis do Senhor veriam o seu cumprimento. Zacarias e Malaquias anteciparam um julgamento futuro da comunidade pós-exílica que a purificará de malfeitores. O remanescente que houver, composto dos verdadeiros devotos ao
Senhor, povoariam a terra e gozariam das mais ricas bênçãos de Deus.



DEUS E O SEU POVO

Os antigos procedimentos de Deus para com o povo. Os profetas menores
dos séculos VI e V disseram relativamente pouco sobre a razão para o exílio.
Malaquias, que nunca mencionou especificamente o exílio referiu-se em geral à
história pecadora de Israel (Ml 3.7). Zacarias recordou como a recusa da nação
em atender aos profetas levou ao julgamento (Zc 1.4,5; 8.13,14). Mais especifi-
camente, quando o povo rejeitou obstinadamente as exigências relacionadas ao
concerto de Deus no que tange à justiça social fez com que fossem espalhados
entre as nações (Zc 7.9-14).

Por meio de um jogo de palavras, Zacarias indicou que o pecado de Israel
fora autodestrutivo e o seu castigo apropriado. Fazendo “o seu coração duro
como diamante” (Zc 7.12), o povo fez “da terra desejada uma desolação” (v. 14).
A repetição do verbo “fazer” chama a atenção para a natureza autodestrutiva das
ações pecadoras do povo. Porque o povo foi “rebelde” (v. 11), o Senhor diz: “Es-
palharei” (v. 14). A palavra hebraica traduzida por “rebelde” (sorarei) tem o som
parecido com o verbo hebraico traduzido por “espalharei” (sa’ar), sugerindo que
a ação punitiva de Deus era uma resposta apropriada à atitude rebelde de Israel.
Sob este aspecto, é também significativo que as palavras hebraicas traduzidas
por “não quiseram escutar” (v. 11), “para que não ouvissem” (v. 12; ambas são
tradução da palavra misímoa) e “diamante” (v. 12; samir), que descrevem o
pecado do povo, tenham o som semelhante à palavra hebraica traduzida por
“desolada” (v. 14; samam), que descreve o castigo do povo.

A relação de Deus com o seu povo. Através dos profetas dos séculos VI e
V, Deus esclareceu a sua relação com o povo. Como seus antepassados, o povo
tinha de obedecer à lei de Deus. Em troca, Deus se comprometia com eles da
mesma maneira que se comprometera com a nação pré-exílica.

Malaquias deixou isto especialmente claro. O livro começa com uma afir-
mação do amor eletivo de Deus por Jacó (Ml 1.2) e termina com uma exorta-
ção para obedecer à antiga lei dada por Moisés (Ml 4.4). Nesse entretempo,
o Senhor denunciara a comunidade pós-exílica pelas violações específicas das
leis e princípios do concerto. Os sacerdotes tinham oferecido a Deus sacrifícios
contaminados (Ml 1.6-14; cf. Lv 22.17-25; Dt 15.21), enquanto que o povo descuidava em levar os dízimos e ofertas necessárias para o sustento dos levitas
(MI 3.7-10; cf. Nm 18.8,11,19,21-24). Para piorar as coisas, muitos tinham
se divorciado da esposa ou se casado com mulher estrangeira, desconsiderando
completamente o principio básico relacionado ao concerto de fidelidade a Deus
e aos israelitas (MI 2.10-16). O Senhor explicou que foi só sua dedicação reso-
luta à relação do concerto que preservara a comunidade (Ml 3.6).

Ageu e Zacarias também já tinham chamado a atenção ao amor perma-
nente de Deus pelo povo e às responsabilidades do povo. Ageu criticou a comu-
nidade por negligenciar a reconstrução do templo que era símbolo da presença
de Deus entre o povo (Ag 1.2-11). O Senhor encorajou o povo a concluir o projeto, prometendo-lhe a sua presença capacitadora (v. 13). Assim que o projeto
fosse retomado, ele reafirmou a sua presença, associando especificamente a co-
munidade pós-exílica com a primeiríssima geração de israelitas (Ag 2.4,5). Em
Zacarias 2.7-11, o Senhor exortou os exilados que ainda estivavam na Babilônia
a voltarem para casa para Jerusalém, onde Ele habitaria entre eles. O Senhor
considerava o povo como a “menina do seu olho”, uma possessão caríssima e
insubstituível a ser guardada a todo custo (Zc 2.8). Em contraste com os seus
antepassados (cf. Zc 7.9-14), este povo tinha de promover a justiça social e o
comportamento ético na comunidade do concerto (Zc 8.16,17).

Joel, usando uma antiga fórmula de concerto, exortou os contemporâneos:
“Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassi-
vo, e tardio em irar-se, e grande em beneficência e se arrepende do mal” (J12.13;
cf. Ex 34.6; Nm 14.18). A mesma misericórdia experimentada pela geração
rebelde de Moisés também estava disponível à geração de Joel.

Os princípios de recompensa e castigo referentes ao concerto, por meio
dos quais a obediência traria bênção divina e a desobediência traria julgamento,
ainda estavam em vigor na comunidade pós-exílica. Ageu e Zacarias mostraram
que o descaso do povo ocasionara seca, pragas, colheitas ruins e desassossego
civil (Ag 1.5,9-11; 2.15-19; Zc 8.9,10). Mas o reinicio do projeto construtivo
do templo resultaria em prosperidade agrícola (Ag 2.19; Zc 8.11,12). Até os es-
trangeiros reconheceriam as bênçãos da nação (Zc 8.13). No passado, eles viam
o povo de Deus como exemplo perfeito de nação amaldiçoada e empregavam os
nomes “Judá” e “Israel” nas fórmulas de maldição (para inteirar-se de um exem-
plo de fórmula de maldição, ver Jr 29.22). Agora, eles usariam os nomes nas
orações de bênçãos, porque o povo de Deus seria um paradigma de bênçãos en-
tre as nações (para inteirar-se de exemplos de orações de bênçãos usando nomes
pessoais, ver Gn 48.20 e Rt 4.11). A frase “sereis uma bênção” alude à promessa
de Deus que Abraão e os seus descendentes se tornariam exemplo primoroso (e
no final das contas canal) de bênçãos divinas para as nações (cf. Gn 12.2).

Por causa da desobediência, a geração de Malaquias já estava sob “maldi-
ção” disciplinar de Deus (Ml 2.2; 3.9), que acabaria culminando em julgamento
severo (Ml 2.3; 4.6). Entretanto, se o povo se arrependesse (Ml 3.7), ele experimentaria bênçãos agrícolas (Ml 3.10,12).

Por causa dos seus pecados, a geração de Joel sofreu os horrores de uma
invasão de gafanhotos, cuja magnitude era sem precedentes (J1 1.2-20). Este era
um mero precursor do dia do Senhor que viria sobre a comunidade em plena
força caso não se arrependessem (Jl 1.15; 2.1-17). Quando o povo respondesse
positivamente, Deus se compadeceria deles e prometeria restabelecer a pros-
peridade agrícola (Jl 2.18-27; os verbos hebraicos traduzidos por “terá zelo” e
“responderá” em Jl 2.18,19a são mais bem traduzidos no tempo passado; cf.
NTLH; NVI; RA).

O futuro programa de Deus para o povo. Mesmo durante a conseqüência
da derrota de Jerusalém e do exílio da nação, os profetas de Deus olhavam à
frente. Obadias concluiu a sua breve mensagem de julgamento contra as nações
com uma palavra de esperança aos exilados (Ob 17-21). Os exilados voltariam a ocupar a terra e emergiriam supremos sobre os inimigos. Jerusalém seria puri-
ficada e chegaria a ser o centro do governo de Deus na terra.

Os profetas pós-exílicos asseguraram aos que voltaram do exílio que Deus
tinha grandes planos para a nação. Ageu focalizou a atenção do povo no templo.
O trabalho no templo fora suspenso devido à apatia e oposição. Mesmo depois
quando o projeto foi retomado muitos consideraram que a estrutura constru-
tiva não era nada em comparação ao glorioso templo salomónico dos tempos
pré-exílicos (cf. Ag 2.3; Zc 4.10). Não obstante, Ageu predisse ousadamente
que as riquezas das nações acabariam fluindo para o templo e que a sua glória
ultrapassaria a do templo de Salomão (Ag 2.7-9).

Dois importantes problemas interpretativos surgem em relação a Ageu
2.7-9. O primeiro problema diz respeito ao referente de “o Desejado de todas
as nações” (Ag 2.7). Certos estudiosos o interpretam como título messiânico,
embora o contexto imediato (v. 8), como também textos paralelos (cf. Is 60.5-9;
Zc 14.14), indiquem fortemente que a referência seja a homenagem das nações.
Em hebraico, o verbo “virá” está no plural, dando a entender que o “Desejado”
(,hemdat [singular]) seja reindicado como plural (hamudot), “coisas desejáveis”.

O segundo problema é pertinente ao cumprimento de Ageu 2.9. Há in-
térpretes que entendem que esta profecia se cumpriu quando Herodes ampliou
o templo ou com a presença física de Jesus no templo, enquanto esteve na terra
durante o primeiro advento. O contexto, porém, une a glorificação do templo
com a subjugação dos gentios, ocorrência que nunca aconteceu antes da des-
truição do segundo templo em 70 d. C. Ao que parece, esta profecia se cumprirá
junto com um templo futuro. Como explicar então a declaração de Ageu: “A
glória desta última casa será maior do que a da primeira”? (Grifo do autor) A
chave para responder a pergunta pode estar em Ageu 2.3, onde o segundo tem-
plo é identificado com o templo de Salomão (cf. “esta casa na sua primeira gló-
ria”). Da mesma maneira, o versículo 9 pode associar o futuro templo milenar
com o segundo templo. Da perspectiva divina não há senão um templo, apesar
das muitas formas históricas que teve. Ao associar a glória futura do templo com a construção feita nos dias de Ageu, Deus assegurou ao povo que os esforços,
ainda que talvez insignificantes aos olhos deles, seriam eventualmente recom-
pensados. Deus habitaria novamente entre o povo e o esplendor do lugar da sua
habitação excederia qualquer coisa que Israel já tinha experimentado. Uma era
ainda muito mais grandiosa que a de Salomão estava por vir.

Ageu também previu uma restauração futura da dinastia davídica. Embora
o povo de Deus estivesse sob o domínio de um poder estrangeiro e Zorobabel,
descendente da linhagem real de Davi, fosse mero governador, as estruturas
políticas poderiam mudar e mudariam. Deus derrotaria os reis da terra (Ag 2.21,22) e elevaria o trono davídico à notabilidade (v. 23). Chamando Zoroba-
bel de “servo” e dizendo que ele era escolhido, Deus lhe deu o mesmo status que
Davi desfrutava (cf. 2 Sm 3.18; 6.21; 7.5,8,26; 1 Rs 8.16). A comparação com
um “anel de selar” indica posição de autoridade e reverte o julgamento pronun-
ciado a Joaquim, avô de Zorobabel (cf. Jr 22.24-30).

As palavras de Ageu 2.21-23, embora faladas diretamente a Zorobabel, não se cumpriram nos dias do profeta. Como explicar este aparente fracasso da profecia de Ageu? Zorobabel, descendente de Davi e governador de Judá, era o re presentante oficial da dinastia davídica na comunidade pós-exílica daquela época. Nesse caso, a profecia da exaltação futura do trono davídico estava ligada à sua pessoa. Quanto ao templo (cf. Ag 2.6-9), Ageu relacionou uma realidade escatológica com uma entidade histórica tangível para assegurar aos seus contemporâneos que Deus tinha grandes planos para o povo. Zorobabel era, por assim dizer, a garantia visível de um futuro glorioso para a casa de Davi. Nos dias de Ageu, alguns israelitas até poderiam ter cogitado esperanças messiânicas para Zorobabel. No progresso da revelação e da história, Jesus Cristo cumpre a profecia de Ageu.

O livro de Joel também prevê grandes coisas para o povo de Deus. A vi-
são de Joel diz respeito aos imediatos acontecimentos subseqüentes e futuros
associados ao dia do Senhor. Depois de assegurar à geração de Joel que o jul-
gamento fora evitado (J1 2.20), o Senhor prometeu que Ele restabeleceria as
colheitas destruídas pelos gafanhotos (J1 2.19,21-26). Estes atos de intervenção
divina são classificados como procedimentos feitos “maravilhosamente” (v. 26),
colocando-os no mesmo nível que as ações poderosas de Deus na história de
salvação de Israel (cf. Êx 3.20; 15.11; 34.10; Js 3.5; Jz 6.13; SI 77.14). Como
esses grandiosos atos, esta nova exibição de poder divino revelaria a presença
de Deus entre o povo e demonstraria a superioridade a todas as outras supostas
deidades (J1 2.27).

O dia do Senhor é um tema proeminente no livro de Joel. Na primeira
metade do livro, este dia é estritamente de julgamento contra o povo de Deus
(J1 1.15; 2.1-11). Entretanto, após o arrependimento do povo (implícito em J1
2.18), este dia foi transformado em defesa e bênçãos para o povo de Deus quan-
do as nações se tornam objeto do seu julgamento.

No dia do Senhor, Israel experimentará um derramamento sem preceden-
tes do Espírito de Deus (Jl 2.28,29). Embora, a frase “toda a carne” (J1 2.28a) tenha uma conotação universal, os versículos 28b e 29 limitam o referente a
todas as classes de pessoas em Judá, a despeito de gênero, idade ou nível social
(note a repetição tripla de “seu”, apontando aos versículos 18 a 27, que falam
sobre o povo de Deus). Os recebedores do Espírito exibirão dons proféticos,
cumprindo o desejo de Moisés que “todo o povo” profetizasse pelo Espírito
divino (cf. Nm 11.29).

O Senhor também interferirá sobrenaturalmente para proteger o povo das
nações hostis (Jl 2.32; 3.16). Nessa época, o ideal de Sião, expresso tão cla-
ramente nos Salmos (esp. os de 46 e 48) e em Isaías, será realizado quando o
Senhor aparecer em esplendor teofânico para proteger o seu lugar de habitação
em Jerusalém daqueles que procuram profaná-lo (Jl 3.15-17).

A presença do Senhor em Jerusalém assegurará a prosperidade agrícola
da nação (v. 18). Vinhas e rebanhos serão tão abundantes e frutíferos que os
montes aparentemente fluirão de vinho e leite. Até mesmo os córregos sazonais
serão transformados em rios perenes. Como símbolo de fertilidade e lembrança
da presença frutífera do Senhor, Joel previu uma fonte fluindo do templo e espalhando-se pela terra (cf. Ez 47.1-12; Zc 14.8).

Zacarias teve uma visão escatológica muito mais detalhada e completa que os outros profetas menores dos séculos VI e V. O livro está dividido em duas
seções: os capítulos 1 a 8, que contêm mensagens datadas; e os capítulos 9 a 14,
que incluem dois “pesos” sem data (cf. Zc 9.1; 12.1). Os capítulos 1 a 8 apresen-
tam uma visão geralmente positiva do futuro da nação, focando a restauração de
Jerusalém e o restabelecimento do trono davídico e do sacerdócio. Esta seção só
brevemente indica que a terra requereria purificação adicional (Zc 3.9; 5.1-4).
Os capítulos 9 a 14 desenvolvem muitos temas dos capítulos 1 a 8. Embora o
tom global permaneça otimista, o profeta previu que a liderança do Senhor seria
rejeitada, o que necessitaria julgamento purificador. O Senhor, porém, intervirá
a favor do povo em uma batalha culminante. Isto levará ao arrependimento o
povo e à concessão das bênçãos divinas.

A restauração de Jerusalém é central aos capítulos 1 a 8. Ao declarar a
profunda ligação emocional com a cidade, o Senhor promete restaurar-lhe a
prosperidade (Zc 1.14-17; 8.1-5). Tomará residência uma vez mais em Sião
(Zc 2.10,11; 8.3) e sobrenaturalmente a protegerá (Zc 2.5). O foco da cidade
restaurada será a habitação de Deus, o templo reconstruído (Zc 1.17). Esses
residentes da cidade que ainda estão no exílio voltarão em grandes levas (Zc
2.4,6,7; 8.7,8). Sinais das bênçãos divinas serão visíveis nas ruas da cidade, onde
os que chegarem a uma idade madura verão crianças brincando contentemente
(Zc 8.4,5). Embora muitos se maravilharem com esta reversão na situação de
Sião, o Senhor Todo-poderoso não compartilhará desse assombro, pois nada
está acima do seu poder (v. 6).

Pelo dispositivo literário de alusão, este retrato escatológico da Jerusalém
densamente povoado está ligado ao relato do nascimento de Isaque, registrado
em Gênesis 18.1-15 e 21.1-7. De acordo com Gênesis 18.12, a Sara estéril riu ceticamente quando o Senhor anunciou que ela daria à luz um filho. O Senhor a
repreendeu, enfatizando que nada é difícil demais para Ele realizar (Gn 18.14).
Quando o filho prometido nasceu (Gn 21.2), Abraáo o chamou Isaque [yishaq,
derivado do verbo sahaq, “rir”), que significa “ele ri”. Sara, cuja risada de in-
credulidade fora virada em risada de alegria, explicou a significação do nome:
“Deus me tem feito riso; e todo aquele que o ouvir se rirá comigo” (Gn 21.6).

Como a narrativa em Gênesis, Zacarias 8.5,6 chama a atençáo para a ha-
bilidade sobrenatural de Deus produzir descendência contra probabilidades
aparentemente insuperáveis (cf. Zc 7.14). O versículo 5 usa a palavra-chave da
narrativa de Isaque para descrever que os meninos e meninas “brincarão” (lit.,
“rirão”, derivado de ’sahaq, forma alternativa de sahaq) nas ruas, e o versículo 6,
como Gênesis 18.14, indica que o Senhor pode realizar qualquer coisa (“mara-
vilhoso” em Zc 8.6 é tradução da mesma palavra hebraica traduzida por “difícil”
em Gn 18.14). por meio destas alusões, a fertilidade futura da população de
Jerusalém é relacionada com a promessa de semente de Deus para Abraão (cf.
Gn 15), que foi posta em movimento pelo nascimento de Isaque. Da mesma
maneira que a risada alegre de Sara autenticou a habilidade de Deus superar até
mesmo a esterilidade para cumprir a sua promessa de dar a Abraão um filho, assim as crianças risonhas da Jerusalém reavivada demonstrariam o poder de Deus para superar todos os obstáculos (até mesmo o exílio) para tornar realidade aantiga promessa abraâmica de descendência numerosa.

Os capítulos de 1 a 8 de Zacarias também foca a liderança da Jerusalém
restaurada. Sacerdotes e rei desempenham papéis proeminentes nestes capítu-
los. Na quarta visão noturna do profeta (Zc 3.1-10), ele testemunhou a purifi-
cação de Josué, o sumo sacerdote na comunidade pós-exílica daquela época. As
“vestes sujas” de Josué, símbolo do pecado, foram trocadas por “vestes novas”
e uma mitra limpa lhe foi colocada na cabeça (Zc 3.3-5). O Senhor encarregou
Josué de obedecer aos mandamentos e prometeu recompensar-lhe a obediência,
dando-lhe autoridade sobre o serviço do templo e acesso ao conselho de Deus
(w. 6,7). Claro que a mensagem se aplica à nação inteira, porque Josué, como
sumo sacerdote, representava o povo. O fato de ter sido limpo simbolizava o res-
tabelecimento da nação como um todo e, mais particularmente, dos sacerdotes
que faziam a mediação entre Deus e o povo.

A purificação de Josué foi contraditada por Satanás (w. 1,2). A palavra he-
braica traduzida por “Satanás”, que quer dizer “adversário”, se refere em outros
textos bíblicos a inimigos humanos. Porém, quando usado com o artigo defini-
do (como aqui e em Jó 1—2), diz respeito a um ser angelical particularmente
hostil aos servos de Deus. O seu caráter, que não é completamente desenvolvido
no Antigo Testamento, entra em foco mais nítido no Novo Testamento. O títu-
lo usado no Antigo Testamento se torna nome próprio no Novo.

O Senhor também prometeu restabelecer o trono davídico. Em Zacarias
3.8, Deus falou a Josué e seus companheiros que Ele levantaria um “Renovo”
para a comunidade. Este título já foi empregado por Jeremias (cf. Jr 23.5; 33.15) em alusão ao rei davídico ideal dos fins dos tempos. Este “Renovo” reconstruiria
o templo e reinaria sobre a nação (Zc 6.12,13). Considerando que Zacarias 4.9
atribui a reconstrução do templo ao governador de Judá, Zorobabel (contempo-
râneo de Josué), é provável que esperanças messiânicas estivessem ligadas à sua
pessoa. Porém, como em Ageu 2.23, Zorobabel tem um papel representativo
aqui. Embora parcialmente cumprido em Zorobabel, o ideal expresso em Zacarias 6.12,13 será realizado completa e finalmente em Jesus Cristo.

A relação entre rei e sacerdote é tema importante na escatologia de Zaca-
rias. Na quinta visão noturna do profeta (Zc 4.1-14), ele viu um castiçal todo
de ouro (simbolizando o templo)[1] com um vaso e sete lâmpadas (representando
a presença protetora de Deus, cf. Zc 4.10). Em cada um dos lados do castiçal
havia uma oliveira (v. 3). A realidade por trás das árvores nunca é identificada
especificamente (cf. v. 11). Porém, no versículo 12, o quadro é ampliado e inclui
dois raminhos de oliveira que abastecem de azeite o vaso. O versículo 14 diz que
estes dois raminhos são “os dois ungidos, que estão diante do Senhor de toda a
terra”. Neste contexto, estes dois indivíduos devem ser Josué, o sumo sacerdote
(cf. Zc 3), e Zorobabel, o governador (w. 6-10). A ilustração mostra que estes dois estão sustentando o templo. Da mesma maneira que o azeite era neces-
sário para a lâmpada estar acesa, assim Josué e Zorobabel seriam vitais para o
funcionamento do templo. Zorobabel construiria o templo (w. 7-10), e Josué
supervisionaria a sua operação (Zc 3.7).

Certos estudiosos contestam esta interpretação, porque dá a entender que
o próprio Deus (simbolizado pelas lâmpadas) seria dependente dos líderes da
comunidade. Em resposta, temos de observar que Zacarias 4.6 deixa claro que
o poder capacitador de Deus é fundamental para a restauração do templo. Os
versículos 12 a 14 enfatizam o papel importante que os líderes designados de
Deus teriam para manter a adoração apropriada e garantir a presença contínua
de Deus entre o povo.

Em Zacarias 6.9-15 também relaciona estreitamente Josué e Zorobabel.
Aqui Josué é coroado (Zc 6.9-11), uma profecia é entregue (w. 12,13) e instru-
ções são dadas para que a coroa simbólica seja depositada no templo reconstruí-
do (v. 14). A relação da profecia com a ação simbólica é de difícil interpretação.
De acordo com certos estudiosos, Josué é identificado aqui com o “Renovo”
messiânico, que reconstruirá o templo e reinará como rei-sacerdote. Esta inter-
pretação assume que a declaração: “E conselho de paz haverá entre ambos” (v.
13), indica a fusão dos ofícios sacerdotais e reais na pessoa do Messias. Outros
preferem ver dois indivíduos distintos aqui. A coroação de Josué (w. 6.9-11, 14)
enfatiza o papel importante do sacerdote no futuro da comunidade (cf. Zc 3.7; 4.11-14). A profecia se refere a uma personagem da realeza, que não Josué cuja
tarefa é reconstruir o templo. Em Zacarias 4.9 favorece esta interpretação, pois a associa a reconstrução do templo com Zorobabel e não com Josué. De acordo
com esta interpretação, o versículo 13 prevê a harmonia entre rei e sacerdote.
Nesta visão, o rei davídico, ainda que não sacerdote como tal, desfrutará do
apoio completo do sacerdócio.

O contexto que constantemente distingue entre a realeza (representada
por Zorobabel) e o sacerdócio (representado por Josué), sugere fortemente
que os contemporâneos de Zacarias teriam interpretado a ação simbólica e a
profecia ao longo das linhas desta visão posterior. Grandes esperanças estavam
ligadas às pessoas de Zorobabel e Josué. Não obstante, no progresso da reve-
lação, Jesus cumprirá os ideais simbolizados por estes personagens históricos.
Em Jesus ocorre uma fusão dos ofícios reais e sacerdotais. Jesus, o “Renovo”,
que Zorobabel meramente previu, reinará sobre Israel. Ao mesmo tempo, Jesus
assume uma função sacerdotal, porque se tornou o verdadeiro Mediador entre
Deus e o seu povo.

Como já observado, Zacarias 9 a 14 amplia a visão escatológica dos capí-
tulos 1 a 8 em muitas formas. Em particular, a visão geralmente otimista dos
primeiros capítulos, suavizada até certo ponto como o tema da purificação —
cuja apresentação breve consta em Zacarias 3.9 e 5.1-4 —, é desenvolvida mais
completamente nos últimos capítulos.

O profeta previu uma crise na comunidade pós-exílica precipitada quando
o povo rejeitou a liderança de Deus. Por meio de uma alegoria longa, Zacarias
descreveu esta rejeição e suas conseqüências negativas (Zc 11.4-17). Primeiro, o Senhor comissionou o profeta para ser pastor sobre o rebanho de Israel. O
profeta apanhou duas varas, simbolizando o favor de Deus para com a nação
(na forma de relações pacíficas com os povos circunvizinhos; cf. Zc 11.10) e a
reunião dos Reinos do Norte e do Sul (Zc 11.14). Apesar dos seus melhores es-
forços (w. 7,8a), o mal orientado o povo (cf. Zc 10.2,3a) o rejeitou (Zc 11.8b).
O pastor-profeta renunciou a comissão e quebrou as duas varas, indicando que
a nação não desfrutaria de paz e unidade que Deus lhe ofereceu (Zc 11.9-14). O
Senhor disse então para Zacarias que desempenhasse o papel de pastor louco, só
interessado em explorar o rebanho por ganho pessoal (w. 15-17).

Esta alegoria levanta várias questões, a principal das quais diz respeito à
identidade do bom pastor. Considerando que o texto precedente mostra Deus
como o pastor da nação (Zc 9.16; 10.3), é muito natural vê-lo na figura do pas-
tor aqui. Porém, em Zacarias 9.9,10, o reinado de Deus é realizado através de
um instrumento humano. Em Zacarias 13.7,8 fala que este vice-rei é o “Pastor”
de Deus e narra a sua rejeição. Assim, podemos interpretar o bom “Pastor”
como figura da autoridade de Deus conforme está encarnado em um rei huma-
no. Em sentido indireto, o bom “pastor” é uma figura messiânica. Levando em
isso conta, não é surpreendente que Jesus aplicasse a si a imagem do pastor feita
por Zc (cf. Mt 26.31 com Zc 13.7).

Por ter rejeitado a autoridade de Deus, a nação sofrerá opressão e intenso
sofrimento (Zc 11.6,9). Dois terços da população da nação perecerão (v. 8) quando os estrangeiros Invadirem a. terra.. Estes exércitos hostís invadirão e humilharão Jerusalém (Zc 12.2b,3a; 14.2). No último minuto, o Senhor intervirá a favor do seu povo. Dará poder aos exércitos de Judá, capacitando-os a derrotar os inimigos (Zc 9.13,15; 10.3-5,7; 12.6). O próprio Senhor surgirá impetuosamente em esplendor teofânico (Zc 9.14; 14.3), acompanhado por raios, sons de trombetas e ventanias do sul (lit., Temá), símbolos do seu poder militar. A cena relembra a auto-revelação de Deus no monte Sinai (cf. Ex 19.16,19), como também o retrato teofânico descrito por Habacuque (Hb 3.3,11). O Senhor descerá no monte das Oliveiras, fazendo com que o monte se divida em dois e permitindo que o populaçao sitiada de Jerusalém fuja da cidade cercada por tropas (Zc 14.4,5). Em típico estilo apocalíptico, este dia de intervenção divina é caracterizado por perturbações cósmicas inigualáveis (w. 6,7), quando o Senhor sobrenaturalmente aniquilará os inimigos com terror e pestes (Zc 12.4; 14.12,13,15).

Este ato poderoso de libertação levará a nação inteira a arrepender-se (Zc
12.10-14). Conduzido pelas famílias reais e sacerdotais, o povo chorará amar-
gamente por aquele “a quem traspassaram” (v. 10). A frase “para mim, a quem
traspassaram” identifica mais especificamente o orador das palavras preceden-
tes. Porque Deus está falando ao longo deste capítulo (Zc 12.2-4,6,9,10), a
frase “a quem traspassaram” e o pronome precedente “mim” se referem mais
naturalmente a Deus como o objeto da rejeição passada do povo. (O pronome
seguinte [na frase: “o prantearão”] também se refere a Deus, sendo o antece-
dente o pronome relativo precedente [traduzido por “quem”]). “Traspassaram”
compara antropomorfamente esta rejeição a uma ferida física grave. Porque esta rejeição se expressa em parte pela oposição ao “Pastor” de Deus (Zc 11.8; 13.7),
também podemos considerar este texto como indiretamente messiânico. Isto
por sua vez explica como pode ser aplicado a Jesus o fato de ser Ele traspassado
literalmente por uma lança quando estava na cruz (Jo 19.37). Rejeitando Jesus,
o “Pastor” escolhido de Deus, e permitindo que Ele fosse traspassado, a nação
estava “traspassando” (ou seja, rejeitando a autoridade) o próprio Deus.

Toda esta seqüência de julgamento e arrependimento purificará a família
real e todos os cidadãos de Jerusalém (Zc 13.1). Os ídolos e falsos profetas
desaparecerão (w. 2-5). Tendo purificado a terra, o Senhor renovará a rela-
ção do concerto com o povo (v. 9), que se tornará tão precioso para Ele como
as jóias em uma coroa (Zc 9.16b). Como seu pastor, o Senhor restabelecerá a
sua proteção sobre Judá e Jerusalém (Zc 9.8,15,16; 14.11). A presença do Se-
nhor tornará santo até as campainhas dos cavalos e os utensílios de cozinha (Zc 14.20,21). Em tais artigos comuns se inscreverão as palavras “SANTIDADE
AO SENHOR”, uma designação outrora reservada exclusivamente aos objetos
mais sagrados (cf. Ex 28.36; 39.30). O antigo ideal de nação santa se cumprirá
finalmente (Ex 19.6).

Este dia de libertação também será acompanhado por um retorno em mas-
sa do povo exilado de Deus. Embora muitos fossem e são espalhados entre as
nações (Zc 10.9) e “presos” em cativeiro (Zc 9.11,12), o Senhor os libertará (Zc 10.8) e os restabelecerá à Terra Prometida (v.10). Como os antigos profetas,
Zacarias comparou esta libertação ao êxodo. Como fez no mar Vermelho, o Se-
nhor removerá todos os obstáculos para a fuga do povo. Mais especificamente,
destruirá essas nações, representadas pelo Egito e pela Assíria e simbolizadas
pelo mar revoltoso que tenciona opor-se a Deus (w. 10,11).

De acordo com Zacarias 9.11, cujas palavras se dirigem à Jerusalém personificada, a base para esta redenção dos exilados será o “sangue” do seu “concerto” com a cidade. O concerto citado aqui não está especificado. Em Exodo 24.8 usa a frase “o sangue do concerto” para referir-se ao concerto mosaico que foi ratificado por meio de sacrifício (cf. Ex 24.5,6). Mas como este concerto forma a base da promessa de restauração de Jerusalém?

Neste contexto (Zc 9.9,10) e em outros textos do Antigo Testamento, o bem-estar e a glória futura de
Jerusalém estão ligados à dinastia davídica que era o alvo das promessas divi-
nas incondicionais. Porque estas promessas estavam relacionadas às promessas
feitas a Abraão, podemos ver o concerto davídico como extensão ou veículo do
cumprimento do antigo concerto abraâmico. Por meio de um rei davídico ideal,
Deus estabelecerá os descendentes de Abraão na Terra Prometida ao antepas-
sado deles. Com esta conexão entre os dois concertos, podemos entender que
a promessa abraâmica de terra é diretamente aplicável a Jerusalém, o último e
final centro político e referente ao culto da Terra Prometida sob o reinado dos
reis davídicos. Em Zacarias 9.11 talvez esteja fazendo referência ao sacrifício por meio do qual o concerto de Deus com Abraão foi ratificado (cf. Gn 15.9-11).

A visão escatológica de Zacarias culmina com o estabelecimento do go-
verno de Deus (Zc 14.9) desde a capital Jerusalém (v. 16). Esse reinado trará bênçãos agrícolas para a Terra Prometida. Usando imagem também encontrada
em Ezequiel (Ez 47.1-12) e Joel (J1 3.18), o profeta previu correntes perenes de
água (“águas vivas”) fluindo de Jerusalém como símbolo da fertilidade renova-
da da terra (Zc 14.8). A abundância de grãos e vinho novo, como também a
presença de jovens robustos e moças esbeltas, serão sinais claros das bênçãos de
Deus (Zc 9.17).

A realeza do Senhor será mediada por um regente humano cujo reinado
está descrito em Zacarias 9.9,10. Embora não esteja especificamente identifi-
cado como descendente de Davi, indícios textuais apontam nessa direção. Este
regente é chamado o rei de Jerusalém (“o teu rei [ou seja, o rei de Jerusalém/
Sião]”, Zc 9.9), indicando que ele é da linhagem davídica. A descrição do rei-
nado universal do rei (Zc 9.10) corresponde ao ideal do concerto davídico (cf.
SI 72.8; 89.25-27).

Entre as características deste rei messiânico, Ele é “justo” e “Salvador” (ou melhor, “vitorioso” [cf. NTLH; NVI] ou “libertador”, Zc 9.9). O rei adminis-
trará justiça e desde o início o seu reinado será estabelecido pela intervenção de
Deus. É também “pobre” (ou melhor, “humilde” [cf. NTLH; RA]). Esta palavra
consta em outros textos bíblicos para referir-se aos servos leais do Senhor que
promovem a causa divina mesmo em face de oposição.

Outra característica é que o rei vem “montado sobre um jumento, sobre
um asninho, filho de jumenta” (Zc 9.9). Isto aponta ao status da realeza, visto
que em outros textos bíblicos e na antiga literatura do Oriente Próximo constam
que os reis montam um jumento (Jz 5.10; 10.4; 12.14; 2 Sm 16.2 são exemplos
bíblicos). Montar sobre um jumento, e não sobre um cavalo de guerra, também
simboliza o caráter pacífico do reinado (Zc 9.10). Os instrumentos de guerra
serão desnecessários quando o rei estabelecer o seu reinado de paz sobre a terra
inteira. De acordo com Mateus (Mt 21.1-7) e João (Jo 12.14,15), a primeira
parte desta profecia se cumpriu, pelo menos em parte, com a “entrada triunfal”
de Jesus em Jerusalém antes da crucificação. Contudo, visto que a nação como
um todo o rejeitou naquela época, o cumprimento completo e final da profecia
aguarda a Segunda Vinda de Cristo.

Como Zacarias, a visão escatológica de Malaquias tinha o prospecto de
julgamento purificador para o povo de Deus. No tempo de Malaquias, sérios
problemas sociais e relacionados ao culto tinham surgido na comunidade pós-
exílica (Ml 1.6-14; 2.8-17; 3.6-15; 4.6). O não arrependimento exigia julga-
mento. O Senhor Todo-poderoso viria como Senhor soberano da nação para
obrigar o concerto (Ml 3.1b).

Certos estudiosos comparam “o anjo do concerto”, mencionado em Mala-
quias 3.1b, com o anjo citado pouco antes no mesmo versículo (“o meu anjo”).
Neste caso, o anjo cumpre no versículo 1 a purificação descrita nos versículos 2 a 4 antes da Vinda do Senhor (Ml 3.5). Entretanto, visto que “o anjo do concerto” é identificado como “o Senhor” que vem “ao seu templo”, esta interpretação é duvidosa. E mais provável que o Senhor citado aqui se refira a Ele mesmo. Como “anjo do concerto”, Ele obriga o cumprimento do concerto recompensando a obediência e castigando a rebelião. Esta pode ser outra referência ao “anjo” (lit.,m“mensageiro”) do Senhor, com quem o Senhor se identifica praticamente no papel de Senhor do concerto com Israel (cf. Ex 3.2-6; 23.20-23; 32.34; Is 63.9).

O julgamento do Senhor purificará os sacerdotes (Ml 3.2,3), cuja relação
com o Senhor recebe atenção especial em Malaquias. Pelas impropriedades
ligadas ao culto, os sacerdotes tinham prejudicado a relação especial de con-
certo com Deus (Ml 2.1-9). A origem precisa deste “concerto [...] com Levi”
(Ml 2.4; cf. Ne 13.29 e Jr 33.21) é incerta. O “concerto [...] de sal” feito com
os levitas nos dias de Arão (Nm 18.19) e o “concerto de paz” feito com Finéias
(Nm 25.12,13) eram de extensão mais restrita que o concerto mencionado
por Malaquias. O concerto aludido por Malaquias era um acordo bilateral
por meio do qual Deus prometeu “vida” e “paz” em troca da fidelidade dos
sacerdotes (Ml 2.5). O julgamento vindouro retirará do ofício os sacerdotes
ofensores (Ml 2.3). No lugar deles, o Senhor colocará homens que conduzirão
o povo à pura adoração (Ml 3.3,4), como muitos sacerdotes tinham feito no
passado (Ml 2.6).

O julgamento de Deus também purificará a sociedade como um todo (Ml
3.16—4.3). Em conseqüência disso, a sua justiça ficará visível a todos. Embora houvesse quem o acusasse de fazer vistas grossas e até mesmo recompensar os
malfeitores (Ml 2.17; 3.14,15), o Senhor afirmou que ele fazia distinção cuida-
dosa entre justos e injustos (Ml 3.16). Só os justos serão guardados durante o
julgamento próximo (Ml 3.18—4.3).

Este grupo de servos leais será a base para a comunidade do novo concer-
to, chamado pelo Senhor como “particular tesouro” (Ml 3.17). Este título era
usado para referir-se à nação nos dias de Moisés (Ex 19.5; Dt 7.6; 14.2; 26.18).
Embora Israel nunca tivesse cumprido os padrões de Deus (Ml 3.7), o Senhor
tornará em realidade o concerto ideal, demonstrando o amor e dedicação que
Ele tem pelo povo (Ml 1.2; 3.6).

O julgamento ameaçado não era inevitável. As chamadas ao arrependi-
mento pontuadas ao longo do livro (Ml 2.1,2,15,16; 3.7; 4.4) dão a entender
que o castigo poderia ser evitado. O Senhor anunciou que Ele enviaria o men-
sageiro profético, Elias, antes de julgar o povo (Ml 3.1a; 4.5). A tarefa de Elias
será preparar o caminho para a Vinda do Senhor (Ml 3.1) e trazer restauração à
sociedade de forma que o julgamento fosse evitado (Ml 4.6). A natureza precisa
desta restauração é ponto de debate. A tradução habitual entende a cura de dis-
cussão familiar na comunidade. Outra possível tradução é: “Ele virará o coração
dos pais junto com os (o coração dos) filhos, e o coração dos filhos junto com os
(o coração dos) pais (para mim)”. De acordo com esta interpretação, a sociedade
como um todo (incluindo as gerações mais velhas e as mais novas) é reconciliada
com o Senhor. Sob este aspecto, é interessante observar que o verbo hebraico
traduzido por “venha” é a mesma palavra hebraica traduzida por “tornai” na
chamada geral ao arrependimento em Malaquias 3.7.

De acordo com o Novo Testamento, a profecia de Malaquias se cumpriu
com a vinda de Elias, pelo menos em parte, através de João Batista (Mt 11.10,14;
17.12,13; Mc 1.2,4; Lc 1.17,76; 7.27). Claro que o próprio João negou ser o Elias reencarnado (Jo 1.21), e Jesus indicou que a profecia de Malaquias não se
esgotou completamente em João (Mt 17.11). Contudo, Jesus também deixou
claro que João na prática cumpriu a profecia de Malaquias, porque João veio no
espírito e poder de Elias. A nação rejeitou João (Mt 17.12). Por isso, o julga-
mento ameaçado por Malaquias caiu sobre eles e a restauração prometida pelo
profeta foi adiada até um dia futuro.



DEUS E AS NAÇÕES

Os profetas menores dos séculos VI e V anunciaram que o julgamento de
Deus sobreviria às nações. Obadias profetizou a queda de Edom como parte de
um julgamento maior associado com o dia do Senhor. Mais tarde, Malaquias
aludiu ao cumprimento, pelo menos em parte, da profecia de Obadias. Joel e
Zacarias também mencionaram o julgamento sobre nações específicas como
parte do dia destrutivo do Senhor. Obadias, Joel e Zacarias consideraram que
os maus-tratos das nações dados ao povo de Deus foram a razão primária para a ira divina sobre eles. Cada profeta acentuou a natureza completa e apropriada
do julgamento vindouro. Entretanto, a mensagem destes profetas não é intei-
ramente negativa. De acordo com Ageu, Zacarias e Malaquias, as nações se
tornarão súditos no reino universal de Deus.

Como já comentado, nações específicas recebem a atenção dos profetas dos séculos VI e V. Obadias destacou Edom, o inimigo tradicional de Judá, como
objeto especial do julgamento irado de Deus. O Senhor denunciou Edom por
confiança auto-arrogante. Localizado em terreno rochoso e inacessível, Edom
pensava que era invencível (Ob 3,4). Para piorar as coisas, os edomitas partici-
param do saque de Jerusalém e trataram impiedosamente os refugiados de Judá
(Ob 10-14). Joel (Jl 3.2-6,19) e Zacarias (Zc 9.1-8) acusaram certas nações de
maltratar o povo de Deus. Entre os acusados estavam a Fenícia (ou seja, Tiro e
Sidom), Filístia, Síria, Egito e Edom. Os fenícios e filisteus que viviam na região
litorânea tinham vendido o povo de Deus como escravos (Jl 3.2-6). Os egípcios
e edomitas tinham derramado o sangue do povo inocente na terra de Judá (v.19).

O julgamento vindouro destas e de outras nações seria completo. De acor-
do com Obadias, os invasores de Edom roubariam Judá de todos os seus tesou-
ros. Até mesmo arrombadores e colhedores de uva deixam algo para trás, mas
os conquistadores de Edom não deixariam nada (Ob 5,6). Por conseguinte, o
Senhor capacitaria o povo restabelecido a aniquilar Edom (Ob 18). Por meio
de Malaquias, que profetizou um século mais tarde, Deus anunciou: “Aborreci
a Esaú; e fiz dos seus montes uma assolação e dei a sua herança aos dragões do
deserto” (Ml 1.3). Ainda que Edom tentasse reconstruir suas ruínas, o Senhor
lhes destruiria os esforços, porque Edom é “Povo-Contra-Quem-O-Senhor-
Está-Irado-Para-Sempre” (Ml 1.4).

A referência ao ódio do Senhor por Edom (“aborreci”, Ml 1.3; cf. NTLH)
confunde os intérpretes. Alguns explicam que a linguagem amar/odiar cons-
tante nos versículos 1 e 2 indicam graus relativos de amor. Nesta interpretação,
“amar” significa “amar mais”, ao passo que “odiar” (aborrecer, RC) significa
“amar menos”. Ainda que este uso da linguagem amar/odiar apareça em outros textos do Antigo Testamento (em contextos de casamento; cf. Gn 29.31; Dt 21.15-17), esta interpretação não faz justiça ao contexto de Malaquias 1.2-5.
Não há evidência de que Deus amou tanto Jacó quanto Esaú. Mais exatamente,
os dois são colocados em nítido contraste; totalmente. Deus tratou os dois de
modos opostos. Ele escolheu (ou amou) Jacó; Ele ativamente se opôs e destruiu
(ou odiou) Esaú.

Joel e Zacarias também enfatizaram a natureza completa do julgamen-
to divino vindouro. Joel previu a destruição total dos exércitos das nações (Jl 3.1-16). A matança é comparada a colher cereais com um foicinha e a pisotear
uvas em um lagar (a insinuação à matança é inconfundível). Edom e Egito são
destacados por julgamento especial. Ambos, de acordo com Joel 3.19, se torna-
riam terra improdutiva e desolada. A descrição que Zacarias faz desta batalha culminante é particularmente vívida. O Senhor golpeará os inimigos de Jerusa-
lém com praga horrível, fazendo com que “os olhos” deles apodreçam “nas suas
órbitas” e “a língua na sua boca” (Zc 14.12-15; cf. Zc 12.1-9).

Como sempre o julgamento do Senhor também seria perfeitamente apro-
priado. Pagaria a Edom por ter cometido más ações (Ob 15). Os edomitas não
mostraram misericórdia aos que lhes restavam (Ob 14) de Israel; por isso, nin-
guém mais restaria (Ob 18) dos edomitas. Edom exterminou (karat) os que
escapavam de Israel (Ob 14); por isso, Ele será “exterminado” (lit., “cortado”,
karat) para sempre (Ob 10). O mesmo povo que Edom tentou eliminar tomaria
posse das montanhas de Esaú (Ob 18-21). Os fenícios e filisteus, que tinham
vendido o povo de Deus para terras distantes como escravos (Jl 3.6), também
seria devidamente pagos (Jl 3.5,7). No devido tempo, o povo de Deus que fora
exilado e escravizado voltará à Terra Prometida, conquistará os seus antigos
inimigos e os venderá em cativeiro a terras distantes (w. 7,8). A verdade é que
todas as nações que saquearam Jerusalém serão elas mesmas saqueadas (Zc 2.9).
Por terem participado no “dia do teu irmão”, o dia do “desterro”, da “ruína”, da
“angústia”, da “calamidade” (Ob 10-14) de Jerusalém, então o dia do Senhor
cairia sobre elas com força total (Ob 15,16).

Joel e Zacarias descreveram o dia do Senhor em termos altamente cósmi-
cos. O Senhor aparecerá como guerreiro poderoso (Jl 3.16; Zc 9.14), acompa-
nhado por escuridão (Jl 2.31; 3.15), terremoto (Zc 14.3-5) e outros fenômenos
físicos inigualáveis (Zc 14.6,7). Veloz e terminantemente aniquilará as nações
em uma batalha culminante fora dos muros de Jerusalém (Zc 12.1-5; 14.3-5).
Joel disse que o lugar da batalha era o vale de Josafá (Jl 3.2,12), cujo local exa-
to é desconhecido. O nome não precisa corresponder a um vale literalmente
conhecido por Joel, porque é óbvio que foi escolhido principalmente pelo seu
valor simbólico (o nome significa “o Senhor julga”).

Ao derrotar as nações, o Senhor destruirá a estrutura política do mundo.
Essas nações que há muito vinham se oposto ao povo de Deus (simbolizadas
pelas “ondas do mar” e representadas pela Assíria e Egito em Zc 10.11) serão
erradicadas. Através de um “terremoto” cósmico, o Senhor destruirá os reis e
eliminará os exércitos deles (Ag 2.6,21,22), preparando o caminho para o esta-
belecimento do seu reino universal. 

Como conseqüência da vitória do Senhor sobre os exércitos das nações, a
sua fama se espalhará pelo mundo inteiro (Ml 1.11). As nações o reconhecerão
como rei (Zc 2.11) e voluntariamente o adorarão (Ml 1.11). Os gentios virão a
Jerusalém, a cidade do grande Rei, para levar tributos (Ag 2.7,8) e buscar o fa-
vor do Senhor (Zc 8.20-23). Em particular, celebrarão a festa dos tabernáculos
(Zc 14.16). Esta festa comemorará a colheita de frutos, como constatação do
poder de Deus sobre a fertilidade da terra (cf. Dt 16.13-15). Por conseguinte,
toda nação que deste modo se recusar a reconhecer a soberania de Deus sofrerá
os prejuízos decorrentes da seca e pestes (Zc 14.17-19). 


[1] Com só uma exceção, a palavra hebraica traduzida por “castiçal” em Zacarias 4.2,11 é usada para
referir-se ao castiçal de ouro do tabernáculo ou ao castiçal de ouro do templo salomônico.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.