10 de abril de 2015

ROBERT B. CHISHOLM, JR. - Uma teologia dos Profetas Menores: Jonas

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JONAS

INTRODUÇÃO

O livro de Jonas é diferente dos outros livros dos Profetas Menores. Trata-se de uma narrativa bibliográfica das experiências do profeta, e não de uma coletânea de mensagens proféticas. O tema prioritário do livro é a graça soberana de Deus pelos pecadores, ilustrada na sua decisão de reter o julgamento sobre os culpados, mas arrependidos ninivitas. Há também uma lição teológica importante a ser aprendida observando as respostas de Jonas a Deus. O retrato do autor de Jonas é altamente depreciativo. Os padrões duplos de Jonas fizeram com que as suas ações lhe contradissessem os credos de tom espiritual. Pelo exemplo negativo de Jonas, o leitor aprende a não resistir à vontade e decisões soberanas de Deus.

A GRAÇA SOBERANA DE DEUS

Ao longo do livro de Jonas Deus aparece como o Rei soberano e onipotente do universo. Provocou uma tempestade violenta (Jn 1.4) e depois fez com que parasse (v. 15). Determinou o resultado da sorte que os marinheiros lançaram (v. 7), mandou que uma grande criatura marinha lhe fizesse a vontade (Jn 1.17; 2.10), induziu uma planta a crescer (Jn 4.6), fez uma lagarta matar a planta (Jn 4.6) e chamou o vento quente do deserto (Jn 4.8). Até a maior cidade da terra estava sujeita ao seu decreto soberano (Jn 1.2; 3.1-10; 4.11).

Deus mostrou poder soberano visando uma meta em particular — a re-
cuperação de homens pecadores. Embora os ninivitas merecessem ser castiga-
dos por atos pecaminosos, Deus na sua graça decidiu dar-lhes a oportunidade
de arrepender-se. Com isso, Ele demonstrou a verdade da confissão de Jonas,
registrada em Jonas 4.2: “[Tu] és Deus piedoso e misericordioso, longânimo e
grande em benignidade e que te arrependes do mal”.

A RESPOSTA DE JONAS A DEUS

A confissão registrada em Jonas 4.2 não se originou com a profeta. Palavras quase idênticas constam em Êxodo 34.6,7, onde a referência é à misericórdia de Deus por Israel imediatamente após a queda vergonhosa do bezerro de ouro.Uma forma abreviada do credo ocorre em Números 14.18, onde Moisés pediu que o Senhor perdoasse o povo depois de terem recusado confiar no Senhor para vencer os cananeus. O uso de Jonas desta confissão tradicional deve tê-lo lembrado que Deus desde o começo da história demonstrara misericórdia a Israel.

Apesar da desobediência e presunção, o próprio Jonas experimentara a
libertação misericordiosa de Deus e recebera uma segunda chance. Quando co-
missionado por Deus para ir a Nínive, Jonas fugiu na direção oposta. Quando
lançado ao mar furioso e engolido por um peixe, Ele teve a audácia de presumir que estava livre. Em lugar de oferecer um clamor penitencial e humilde por
libertação, ele agradeceu ao Senhor por tê-lo libertado (Jn 2.1-9). Mas Deus
preservou e comissionou novamente o profeta (Jn 2.10—3.2). O livro termina
com um Deus gracioso ainda tentando persuadir Jonas a pensar corretamente
na sua misericórdia (Jn 4.9-11).

Embora Jonas, como Israel, fosse recebedor da misericórdia de Deus, o
profeta negou a mesma misericórdia para o mundo gentio. Ironicamente, estes
pagãos a quem Jonas detestava por serem idolatras (Jn 2.8), mostraram mais
sensibilidade espiritual do que o profeta. Jonas reivindicou temer “ao Senhor,
o Deus do céu, que fez o mar e a terra seca” (Jn 1.9). Mas suas açóes contradis-
seram o seu credo. Enquanto Jonas tentou fugir do Criador do mar através do
mar, os pagãos expressaram que temiam genuinamente ao Senhor por meio de
sacrifícios e orações (Jn 1.16). Em contraste com Jonas que desobedeceu à pala-
vra revelada de Deus e prevaleceu-se da misericórdia divina, os ninivitas responderam imediata e positivamente à palavra de Deus e humildemente se lançaram aos pés do Deus soberano (Jn 3.4-9). Embora Deus enviasse Jonas para denunciar a “malícia” (raah) de Nínive (Jn 1.2), o profeta desobediente trouxe “mal” (:raah novamente) aos marinheiros (Jn 1.7) e acabou ficando “todo ressentido” (raah de novo) pelo tratamento misericordioso dado por Deus aos ninivitas (Jn 4.1). Esta repetição da palavra hebraica (ainda que em sentidos semânticos diferentes) indica que Jonas, de certo modo, se tornara mais semelhante os pagãos do que ele percebera. Por meio de contraste, os ninivitas tinham se afastado “do seu mal [ra’ah\ caminho” (Jn 3.10).

O livro de Jonas é uma lembrança vívida para que o povo de Deus não
resista ou questione as decisões soberanas de Deus dar a sua graça a quem Ele
quer. Quando Deus chama os seus servos para lhe cumprir as determinações e
ser instrumentos da graça aos pecadores, eles têm de obedecer, cientes de que
eles também têm experimentado a misericórdia divina de forma conjunta e individual.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.