4 de abril de 2015

ROBERT B. CHISHOLM, JR. - Uma teologia dos Profetas Menores: Os Profetas do Século VII a.C. (Naum, Habacuque, Sofonias)

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Os Profetas do Século VII a.C.

(Naum, Habacuque, Sofonias)

INTRODUÇÃO

Os profetas menores do século VII focalizaram a justiça de Deus conforme
se mostrou no julgamento poderoso em escala internacional. Naum anunciou
o julgamento bem merecido da Assíria, que por sua vez daria alívio ao povo de
Deus e a todos que sofreram sob o domínio deste opressor cruel. O diálogo entre Habacuque e o Senhor focou a questão da justiça. Para o extremo desapontamento do profeta, a solução de Deus para o problema da injustiça na sociedade de Judá era chamar os babilônios como instrumento divino de castigo. Não obstante, garantiu a Habacuque que ele também julgaria Babilônia pelos crimes cometidos e protegeria e, no final das contas, defenderia os seus seguidores fiéis. Sofonias previu que o julgamento de Judá e das nações circunvizinhas era parte de um cataclismo mundial parecido com o dilúvio de Noé. Mas por este julgamento purificador, Deus restabeleceria a justiça em Jerusalém e faria dos povos seus servos prontos a obedecer.

DEUS E O SEU POVO

Julgamento. Naum pouco disse sobre Deus julgar Israel. Falou do tema
como algo que já tinha acontecido (Na 1.12). Em contrapartida, Habacuque e
Sofonias profetizaram o julgamento do desobediente povo de Deus. Em ambos
os livros, a injustiça na sociedade de Judá é a razão primária para o julgamento
(Hb 1.2,3; Sf 1.9; 3.1-7). Sofonias também denunciou as práticas pagãs (Sf 1.3-6), as riquezas (Sf 1.11,13) e a atitude enfatuada e arrogante de Judá (Sf
1.12; 3.11).

O julgamento de Deus seria severo e violento (cf. Sf 1.2-18), mas apro-
priado (Hb 1.5-11; Sf 1.13). Usando os babilônios cruéis como instrumento
(Hb 1.6), o Senhor viria sobre Judá como guerreiro (Sf 1.14-16). Sofonias com-
parou a carnificina a um sacrifício de animais (Sf 1.7,17). Os que ignoraram a
lei de Deus e trataram seus compatriotas com injustiça e violência (Hb 1.2,3),
sofreriam conseqüentemente a violência dos babilônios que não respeitam leis
(Hb 1.7,9).

Proteção e salvação. Enquanto se preparava para lançar o seu julgamento irado, Deus teve em consideração os poucos crentes dentre o povo. Falou a um
Habacuque ansioso que “o justo, pela sua fé, viverá” (Hb 2.4). Neste contexto,
o “justo” são os que sofrem opressão por serem devotados ao Senhor (cf. Hb 1.4). O verbo “viverá” se refere à preservação física durante a iminente invasão (cf. Hb 1.12; 3.17-19). De acordo com o uso do Antigo Testamento, “fidelidade” (NVI) é tradução melhor que “fé”. Em outros textos bíblicos, a palavra diz respeito à conduta honesta e digna de confiança que se conforma com a moral
e padrões éticos do Senhor. Na conclusão do livro, Habacuque aceita a garantia
do Senhor, afirmando confiar que o Senhor o sustentaria durante a esperada
crise (Hb 3.16-19).

Sofonias também encorajou os servos obedientes do Senhor, exortando-os
a continuar em justiça e fé (Sofonias 2.3; 3.8). Falou de um remanescente que
formaria a base de uma comunidade do concerto restaurada. Este remanescente justo escaparia do exílio (Sf 3.19,20) e povoaria a Jerusalém purificada (Sf
3.12,13).

O tema da relação de Deus com Sião é proeminente em Sofonias. Por
causa de práticas e liderança corruptas a cidade seria o foco do julgamento de
Deus (Sf 1.4-13; 3.1-7). Este julgamento eliminaria os malfeitores da cidade (Sf 3.11). No seu lugar, o Senhor povoaria a cidade com o remanescente supramencionado (Sf 3.12,13). O Senhor restauraria a sua proteção para a cidade e nunca mais permitiria que os inimigos entrassem pelos portões (Sf 3.13b-17).

Para todos os três profetas, a libertação e restauração de Israel acontece
riam juntos com o julgamento de Deus sobre as nações gentias. De acordo com
Naum, cuja visão escatológica é a de menor alcance, a destruição da Assíria
libertaria o povo de Deus da escravidão (Na 1.13) e resultaria em comemora-
ção, paz e prosperidade renovada (Na 1.15; 2.2). Para Sofonias, o ato de Deus
julgar as nações libertaria do exílio o remanescente do povo e o faria elevar-se a
uma posição de destaque mundial (Sf 3.20), do qual exerceria soberania sobre
os seus inimigos tradicionais (Sf 2.6,7,9). De acordo com Habacuque, o ato de
Deus exterminar os opressores do povo seria nada menos que a repetição da
história de salvação. Vários elementos no retrato teofânico que Habacuque faz
do futuro julgamento do Senhor (Hb 3.2-15) lembram ocorrências históricas
da antiga experiência de Israel, inclusive a ação de Deus derrotar os egípcios no
mar Vermelho, a sua auto-revelação no monte Sinai e as vitórias conquistadas
por Josué, Débora e Davi (cf. Hb 3.3-15 com Êx 15.1-18; 19.16-19; Dt 33.2;
Js 10.12-14; Jz 5.4,5; SI 18.7-15; 77.16-19). Ao descrever o futuro na lingua-
gem do passado, Habacuque estava afirmando que o Deus de Israel é um Deus
eterno (cf. Hb 1.12), que sempre está ativo na história (Hb 3.6) e sempre pode
intervir a favor do seu povo.

Refletindo sobre a intervenção futura de Deus a favor de Israel, os profe-
tas menores do século VII o caracterizaram como protetor ou salvador. Naum
afirmou: “O Senhor é bom, uma fortaleza no dia da angústia, e conhece os que
confiam nele” (Na 1.7). Habacuque tratou Deus como o seu “Salvador” (Hb
3.18, NTLH). Sofonias, endereçando um oráculo de salvação a Sião personificada, declarou: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para te salvar” (Sf3.17).



DEUS E AS NAÇÕES

Os profetas do século VII disseram que o Senhor é o rei soberano sobre as
nações. Deus levanta nações como instrumentos de julgamento (Hb 1.6), suprime os ataques que fazem contra o seu reino (Na 1.9-12) e destrói até a mais
poderosa nação entre elas. Ninguém pode escapar da sua ira (Sf 3.8).

A base primária para as nações serem julgadas foi a arrogância. A assíria se orgulhava da riqueza nacional e força militar (Na 2.9; 3.8-13) e, de modo auto-confiante, declarou: “Eu sou, e não há outra além de mim” (Sf 2.15). Semelhantemente, a Babilônia adorava o seu poderio militar e considerava-se invencível (Hb 1.6-11,16; 2.4,5). Até nações de menor importância como Moabe e Amom exibiram atitude arrogante (Sf 2.10).

As nações expressaram este orgulho de diversos modos. A Assíria e a
Babilônia exploravam outras nações economicamente, pois a ganância por
riqueza material as levava a implementar políticas imperialistas violentas (Na 2.11-13; 3.1,4; Hb 1.13-17; 2.5-17). Sob este aspecto, Naum comparou a
Assíria a um leão destruidor (Na 2.11-13) e a uma prostituta sedutora (Na 3.4). Habacuque comparou a Babilônia gananciosa a um pescador próspero
(Hb 1.15,16), a um bêbedo (Hb 2.5), à morte (Hb 2.5) e a um agiota inescrupuloso (Hb 2.6).

As nações orgulhosas tiveram até a audácia de oprimir o povo de Deus.
Embora as usasse como instrumentos para castigar o povo teimoso, o Senhor
não aprovou a atitude que as nações exibiram. Naum considerou o tratamento
que a Assíria deu a Israel como trama maldosa contra o Senhor (Na 1.9-11).
Habacuque falou que os babilônios estavam desejando de maneira gananciosa
devorar o povo de Deus (Hb 3.14). Sofonias distinguiu Moabe e Amom pelos
escárnios e insultos dados contra Judá (Sf 2.8,10).

Todos os três profetas disseram que o Senhor era como um guerreiro irado
e vingativo que violentamente pune as nações por serem arrogantes. Cada um
aplicou a ele o título “Senhor dos exércitos” (Na 2.13; 3.5; Hb 2.13; Sf 2.9)
e mencionou especificamente a sua ira ou vingança (Na 1.2,6; Hb 3.8,12; Sf
1.15,18; 3.8).

As teofanias realçam as descrições que Naum e Habacuque fizeram do
guerreiro divino. Em Naum 1.2-8, o Senhor vem em uma ventania muito forte,
o seu poderoso grito de guerra fazendo a natureza toda tremer de medo. Per-
segue os inimigos com “trevas”, símbolo de morte e destruição. Na teofania de
Habacuque, o Senhor vem marchando do sul em esplendor radiante (Hb 3.3).
Conforme vem se aproximando na tormenta (w. 4,5), o cosmo treme de medo
(w. 6,7).[1] Liderando os carros na batalha, ele dispara as armas contra os inimigos do povo causando efeitos devastadores (w. 8- 15).

O tema do dia do Senhor apresentado por Sofonias chama a atenção ao
papel de Deus como guerreiro. Como já comentado, este tema corresponde ao
dia de conquista do soberano, uma noção encontrada na literatura do antigo
Oriente Próximo (ver capítulo 8: Uma Teologia de Isaías, seção Uma Teologia
de Isaías 1 a 39, subseção “Julgamento”). A caracterização que Sofonias faz do
dia é consistente com isto: “O grande dia do Senhor está perto, está perto, e
se apressa muito a voz do dia do Senhor; amargamente clamará ali o homem poderoso. Aquele dia é um dia de indignação, dia de angústia e de ânsia, dia de
alvoroço e de desolação, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e de densas
trevas, dia de trombeta e de alarido contra as cidades fortes e contra as torres
altas” (Sf 1.14-16).

Sofonias também enfatizou a natureza completa do julgamento de Deus
sobre as nações. Em Sofonias 1.2,3, o Senhor compara o vindouro julgamento
universal com o dilúvio noético pelo qual ele eliminou todas as criaturas (cf.
Gn 6.7; 7.4,23). Os oráculos de Sofonias contra nações específicas focam a totalidade da destruição prestes a ocorrer nos inimigos de Deus (Sf 2.5,9,13-15).
Aludindo mais uma vez a Gênesis, o Senhor anunciou que Moabe e Amom se
tornariam como Sodoma e Gomorra (Sf 2.9).

O julgamento que o Senhor faria das nações também seria apropriado. De
acordo com Naum, o Senhor trataria Assíria como ela tratara as outras nações.
As descrições de Naum acerca da ruína da Assíria contêm diversos paralelos com
as narrativas de guerra nos anais assírios. Da mesma maneira que os exércitos
assírios sitiaram, saquearam e destruíram cidades, assim Nínive seria cercada e
invadida (Na 2.3-10). Os reis da Assíria, comparando-se a inundações destrutivas, descreviam em detalhes vívidos o medo, a derrota sangrenta e a humilhação dos inimigos. Da mesma maneira, o Senhor, usando uma inundação (Na 1.8; 2.6), aterrorizaria, mataria e humilharia os assírios (Na 2.10; 3.3,5,6,11,18,19).
A Assíria experimentaria muitas das maldições de tratado com as quais ameaça-
ra os seus súditos, inclusive a destruição de descendentes (Na 1.14), o amonto-
amento de cadáveres de soldados de exército (Na 3.3), a perda de coragem entre
os seus soldados (v. 13) e uma “ferida” incurável (v. 19; provavelmente símbolo
para a ruína final do império).

As profecias de “ais” entregues por Habacuque contra a Babilônia também enfatizam a natureza adequada do julgamento de Deus. A Babilônia seria saqueada, da mesma maneira que saqueara outras nações (Hb 2.6-8). O esplendor físico da Babilônia, possibilitado por explorar os outros, comprovava os seus crimes (w. 9-11). Este império glorioso cairia, sofrendo a mesma humilhação para a qual sujeitara as nações circunvizinhas (w. 15-17).

O julgamento do Senhor sobre as nações teria efeitos universais importan-
tes. A superioridade do Senhor aos deuses-ídolos das nações ficaria evidente a
todos (Na 1.14; Hb 2.18-20; Sf2.11). Ao adorarem estas supostas deidades, as
nações tinham rejeitado a soberania do Senhor. O julgamento divino sobre as
nações demonstraria como essa adoração é ridícula. Os deuses-ídolos são nada mais que produtos da habilidade do homem. Nâo têm vida e são incapazes de
dar orientação (Hb 2.18,19). Em contrapartida, o Senhor é distinto de tudo
que é humano e domina sobre a terra inteira (v. 20).

De acordo com Sofonias, todas as nações acabariam adorando ao Se-
nhor (Sf 2.11). Esta restauração das nações reverteria o julgamento em Ba-
bel, registrado em Gênesis 11. Por causa da tentativa arrogante da huma-
nidade em unificar-se e auto-exaltar (cf. Gn 11.4), Deus lhes confundiu
a língua e os espalhou por todo o mundo (Gn 11.5-9). Porém, de acordo com Sofonias 3.9, o Senhor purificará os “lábios [barar]” dos “povos”
(“língua” em Gn 11.6-9 e “lábios” em Sf 3.9 são tradução da mesma pa-
lavra hebraica) que ele confundiu (balai [“confundir”] soa ironicamente
como barar, “purificar”) em Babel. Em contraste com Babel, onde os ho-
mens orgulhosos se uniram no esforço de invadir a habitação de Deus, um
dia as nações se uniriam em serviço genuíno a Deus. Esses espalhados ao
longo da terra (Sf 3.10; a palavra hebraica traduzida por “dispersão” neste
versículo também é empregada em Gn 11.4,8,9) viriam adorar a Deus e
lhe prestar tributo.[2]

Digressão ao dia do Senhor em Sofonias. O tema do dia do Senhor,
apresentado pelo profeta Amós do século VIII, é tema central na mensa-
gem de Sofonias. Em Amós, o conceito era de extensão bastante limitada,
referindo-se ao julgamento iminente de Israel às mãos da Assíria (cf. Am
5.18-20). Em Sofonias, o dia do Senhor é mais universal e de longo alcance.

Sofonias falou da proximidade e rápida aproximação deste dia de julga-
mento (Sf 1.7,14). Várias nações dos seus dias participariam desse dia, incluin-
do Judá, Filístia, Moabe, Amom, Etiópia e Assíria. Temos de concluir que este
dia do Senhor foi inicialmente realizado junto com a conquista babilónica do
Oriente Próximo logo após a profecia de Sofonias.

Este dia também tem uma dimensão cósmica e universal que transcen-
de qualquer coisa que aconteceu nos dias de Sofonias. O dia do Senhor tra-
ria um julgamento cataclísmico que concorreria com o dilúvio noético em
magnitude (Sf 1.2,3,18; 3.8). Em conseqüência deste dia, Deus restauraria
o povo do concerto a uma Sião purificada e estabeleceria o reino universal
sobre as nações anteriormente rebeldes. Estes desenvolvimentos ainda permanecem sem terem sido realizados, esperando o cumprimento nos fins dos
tempos.

A apresentação que Sofonias faz do dia do Senhor ilustra o princípio do
telescópio, tão comum na literatura profética.[3] Os profetas freqüentemente
fundiam acontecimentos próximos e distantes, apresentando um quadro unifi-
cado do futuro no qual os intervalos cronológicos ficavam visíveis por revelação
posterior e desenvolvimentos históricos que ainda não estavam visíveis. No caso
de Sofonias, diríamos que a conquista babilónica, que foi quase universal dadas
as proporções geográficas limitadas da cosmovisão do profeta, pressagiava um
julgamento escatológico por vir. A visão de Sofonias da restauração universal será cumprida depois desta fase final de julgamento.



[1] Tradução melhor de Habacuque 3.4,5 é: “O seu resplendor era como a luz, raios brilhantes
saíam da sua mão, onde se esconde o seu poder. Adiante dele ia a peste, e raios de fogo seguem
os seus passos”. 


[2] Certos estudiosos entendem que Sofonias 3.10 se refere à volta de Israel do exílio, mas no con-
texto do versículo 9 o referente náo deve ser limitado assim. O grupo em vista pode incluir os
exilados israelitas (Sf 3.19,20), mas os paralelos literários entre o capítulo 11 de Gênesis e este
texto indicam que os gentios também estão inclusos. A noção de os etíopes, que são objetos do
julgamento de Deus em Sofonias 2.12, estarem voltando a Deus é consistente com o padrão
de reversão visto em outros textos no livro (cf. Sf 2.11; 3.8,9). 


[3] Ver Gordon D. Fee and Douglas Stuart, How to Read the Biblefor Ali Its Worth (Grand Rapids:
Zondervan, 1982), pp. 163,164. [Edição brasileira: Entendes o que lês?: Um Guia para Entender
a Bíblia com o auxilio da Exegese e da Hermenêutica (São Paulo: Vida Nova, 1984).]

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.